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Gayle Forman fala sobre os 3 próximos livros e vinda ao Brasil

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A autora já escreveu vários best-sellers (Gayle Forman/Divulgação)

A autora já escreveu vários best-sellers (Gayle Forman/Divulgação)

 

A autora vem ao país para a Bienal do Livro 2017.

Bruna Nobrega, na Capricho

Talvez você não conheça diretamente Gayle Forman pelo nome, mas, com certeza, já ouviu falar de um dos livros dela. Se Eu Ficar bombou tanto que virou um filme estrelado pela Chloe Grace Moretz e depois rendeu a sequência literária Para Onde Ela Foi.

Mas não são só esses dois livros que fazem parte do repertório da autora, não, viu? Ela também tem os sucessos Apenas Um Dia, Eu Estive Aqui, Quando Eu Parti, entre outros. E, para falar sobre eles em uma conversa com a brasileira Paula Pimenta (de Fazendo Meu Filme e Minha Vida Fora de Série), Gayle desembarca no Brasil em setembro na Bienal do Livro.

Gayle Forman na premiere de Se Eu Ficar, em Los Angeles. (Alberto E. Rodriguez//Getty Images)

Gayle Forman na premiere de Se Eu Ficar, em Los Angeles. (Alberto E. Rodriguez//Getty Images)

Para dar um gostinho do que vem aí, a autora conversou com a CAPRICHO e ainda contou uma novidade, ou melhor, 3. É que tem 3 livros já semi prontos para o lançamento. Quer ver?

CH: Você tem uma base de fãs muito grande no Brasil e agora você está vindo para o país! Está animada?

Gayle: Eu estou MUITO animada. Eu nunca estive no Brasil antes e está no topo da minha lista de desejo há anos, então poder ir como autora, ver (um pouquinho) do país e conhecer os leitores!? Eu não poderia amar mais.

CH: Como é ver o seu livro traduzido para tantas línguas diferentes e poder viajar pelo mundo por causa deles?

Gayle: Nós estamos vivendo no que parece um momento divisivo agora, então quando um livro atinge um nível universal é pessoalmente gratificante e reconfortante. Acaba me lembrando que o coração humano é constante. Amor, perda, desejo, são universais. Então é um remédio para tempos como esse. Por um lado mais leve, é emocionante ver seu trabalho alcançar uma audiência tão grande ao redor do mundo. Eu me lembro de quando Se Eu Ficar começou a fazer sucesso internacionalmente. Eu fiquei espantada que um livro que eu escrevi na mesa de canto da sala da casa minha família estava chegando tão longe.

CH: O último livro que você lançou foi Quando Eu Parti e é diferente dos outros livros porque é sobre uma mãe adulta. O que fez você mudar a perspectiva? É uma mudança definitiva?

Gayle: Eu sentei para escrever um novo romance adolescente, mas eu descobri que a história que eu realmente precisava contar era sobre casamento e maternidade. Como muitas outras mães que trabalham, eu me prendi em ser uma profissional e uma mãe, tentando redefinir os papeis, mas nem sempre tendo sucesso, e tentando pedir ajuda, definitivamente sem sucesso. Eu amei poder escrever uma personagem como a Maribeth, um pouco chata, mas muito parecida comigo, e eu particularmente amei escrever sobre as crianças. Apesar disso, eu não acho que a experiência de escrever um livro adulto foi diferente de um adolescente. Foi a mesma jornada emocional, descobrindo as camadas dos personagens.

CH: Falando sobre isso, você já está planejando seu próximo livro? Vai ser sobre o quê?

Gayle: Eu acabei de entregar o meu próximo livro, que vai ser um romance adolascente. Os personagens são mais velhos, 19 anos, o que tem sido recorrente nos meus livros. É sobre três estranhos totais, cada um em seu próprio caminho, mas perdidos, e o que acontece é que eles acabam se encontrando. Eu também tenho meu próximo romance escrito pela metade e eu escrevi um sobre jovens do Ensino Médio. Então muita coisa pela frente.

CH: Se Eu Ficar e Apenas Um Dia tiveram sequências. Você está planejando escrever mais livros da série Eu Estive Aqui e Quando Eu Parti?

Gayle: O único livro que eu planejei uma sequência foi Apenas Um Dia. Os dois livros foram concebidos como um dueto. Eu pensei que Se Eu Ficar fosse ficar sozinho, mas então os personagens ficavam me deixando acordada à noite, querendo saber por que eu os deixei naquele lugar. Eles não ficavam quietos então eu comecei a pensar no futuro deles e virou a história do Adam. Eu não acho que tem uma sequência para Eu Estive Aqui e Quando Eu Parti. Esses personagens estão quietos. A história deles está completa.

Gayle Forman com Chloe Grace Moretz e Jamie Blackley na premiere de Se Eu Ficar, em Nova York. (Brad Barket//Getty Images)

Gayle Forman com Chloe Grace Moretz e Jamie Blackley na premiere de Se Eu Ficar, em Nova York. (Brad Barket//Getty Images)

CH: Se Eu Ficar ficou muito conhecido depois que foi adaptado para o cinema. Como é ver seus personagens ganharem vida? Você tem algum outro livro que vai ganhar adaptação?

Gayle: É muito gratificante ver os personagens passarem tão bem das páginas para as telas. Eu realmente senti como se tivesse capturado a essência deles. O filme foi incrível, uma experiência muito intensa. Se Eu Ficar é vagamente baseado em uma tragédia real, a morte dos meus amigos. Quando o diretor RJ Cutler estava trabalhando no roteiro, ele me perguntou como a casa da família da Mia deveria ser, e eu me lembro do primeiro dia que eu vi a casa pronta no set e chorei. Parecia muito com a casa antiga dos meus amigos. Foi uma forma estranha de imortalidade, como meus amigos, que haviam falecido há tanto tempo, ainda viviam ali.

Sobre os outros livros, é dois passos para frente, um para trás. Há algumas coisas no forno, mas nada em produção ainda.

O que faz da Noruega o melhor país para ser escritor

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 Antiga cabine telefônica Divulgação Jo Straube

Antiga cabine telefônica Divulgação Jo Straube

 

O rico país nórdico é exemplar na proteção ao escritor. Knausgård é um dos nomes mais conhecidos

Maribel Marín, no El País

Se a Noruega, com seus administráveis cinco milhões de habitantes, suas produtivas reservas de petróleo e sua devoção à cultura, não é o melhor país da Europa para ser escritor, pelo menos tem as condições para sê-lo:

Um autor emergente pode sonhar em viver apenas da literatura porque as bolsas-salário equivalentes a 25.000 euros (cerca de 92.700 reais) por ano são uma realidade que não é dada a conta-gotas.

Um escritor consagrado, digamos Karl Ove Knausgård, autor da saga Minha Luta, também pode ser contemplado, e o foi, com as ajudas – de até 50% – concedidas pelo Governo por meio da Norla (Norwegian Literature Abroad) para a tradução de livros escritos em norueguês: 499 títulos vertidos para 46 idiomas em 2016, entre elas o quarto volume do rei da autoficção traduzido ao espanhol e português.

Publicar é menos arriscado do que em outros países. O Estado tem um programa de aquisição de livros para bibliotecas, único no mundo por sua dimensão, pelo qual compra a cada ano 773 exemplares de 85% dos títulos de ficção e 1.550 exemplares dos títulos de literatura infantil e juvenil, quando a tiragem média ronda os 2.500 exemplares.

Os livros de papel são isentos de impostos – uma raridade que na Europa só é reproduzida no Reino Unido, Irlanda, Albânia, Ucrânia e Geórgia – e impera um sistema de preço fixo, semelhante ao de países como Espanha, França e Alemanha, graças ao qual não se pode reduzir o valor dos exemplares até maio do ano seguinte ao da publicação.

A escrupulosa gestão dos direitos autorais por empréstimos de bibliotecas e por cópias particulares, e a educação, que fez com que a pirataria não fosse um problema, garantem que cada um receba o que é seu.

A tributação da cultura é bonificada e, como na Alemanha, Áustria, Portugal e Itália, o escritor aposentado pode receber os royalties de suas obras sem ter de renunciar à pensão, ao contrário do que acontece em países como Espanha, Irlanda e Malta.

E o mais importante, que explica o que foi dito anteriormente: existe um respeito reverencial pela cultura e pelo criador. E essa veneração tem em uma das nações mais ricas do mundo uma tradução econômica (1,44 bilhão de euros para a cultura em 2017; 85,6 milhões para o setor do livro) que pouco sofreu durante a crise e um impacto no desenvolvimento do talento nativo e sua expansão pelo mundo.

O escritor Jostein Gaarder

O escritor Jostein Gaarder

“A Noruega está exportando literatura. A qualidade média das letras do país é muito alta e eu acredito que se deve em grande parte ao apoio dado pelo Estado durante muitos anos”, resume Jostein Gaarder.

Há não muito tempo, na década de noventa, quando o escritor causou sensação com O Mundo de Sofia – que já vendeu mais de 40 milhões de exemplares – e ampliou as fronteiras da literatura norueguesa, a presença dos autores do país nas livrarias estrangeiras era apenas uma exótica anomalia, como corresponde a uma nação com menos população do que a Comunidade de Madri. Eram internacionalmente conhecidos Henrik Ibsen, um dos pais da dramaturgia moderna, e, claro, o polêmico Nobel e colaborador dos nazistas Knut Hamsun, autor do aclamado romance Fome. E pouco mais.

Hoje, apenas três décadas depois, a Noruega não só vende para o exterior seus clássicos e seus autores de romances policiais e de aventura como exporta muita literatura, e muito variada. Knausgård é a grande estrela. Mas não está sozinho. Dag Solstad, que ganhou neste ano o prêmio da Academia Sueca, o pequeno Nobel, e Kjell Askildsen, mestre do relato breve, são mundialmente conhecidos e reconhecidos. Assim como Per Petterson, Linn Ullmann, Jo Nesbø; o dramaturgo Jon Fosse; Maja Lunde, que está na boca de todos por conta de Tudo que Deixamos para Trás, ou Maria Parr, a nova Astrid Lindgren, que acaba de publicar na Espanha Tania Val de Lumbre.

As letras dessa monarquia parlamentar parecem viver uma nova era de ouro, que tem sua grande manifestação na escolha como país convidado da Feira do Livro de Frankfurt 2019. E deve dar graças a isso pela profunda crise que viveu nos anos sessenta, às vésperas de descobrir que, além de peixe, era rica em petróleo (1969) e de rejeitar pela primeira vez em um referendo (1972) sua adesão à União Europeia (UE). Em uma nação leitora, muito leitora – 90% da população lê pelo menos um livro por ano, com uma média de 16 títulos, em comparação com 60,6% que o faz na Espanha –, em uma nação com uma longa tradição de narradores e um sólido sistema de bibliotecas, surgiam muito poucos gênios literários e os títulos interessantes foram se tornando um bem escasso. E o culto Reino da Noruega, um dos países mais felizes, seguros e desenvolvidos do mundo, não podia permitir isso.

“Era uma situação muito grave para um país tão pequeno como o nosso, com uma língua territorialmente tão limitada”, diz Oliver Møystad, responsável pela ficção da Norla, na sede do órgão em Oslo. “Temia-se que pudesse desaparecer se nada fosse feito para fortalecer a literatura, que sempre foi considerada uma fonte de renovação e transmissão do idioma”. Então, para revitalizar as letras em norueguês e evitar a pressão do imperialismo cultural anglófono, o Governo socialdemocrata da época estabeleceu um formidável programa de aquisição em massa de ficção contemporânea para as bibliotecas públicas que, com o tempo, foi sendo ampliado – hoje também é concedido a livros de não-ficção para adultos, ficção e não-ficção infantil e juvenil, ficção traduzida e graphic novels – e, a julgar pelas informações fornecidas por Ingeri Engelstad, diretora-geral da editora Oktober, o objetivo buscado foi atingido com folga: “Na década de 1960 surgiam apenas um ou dois escritores iniciantes por ano. Agora são mais de 60” diz. “Na Suécia e na Dinamarca há proporcionalmente menos porque eles não podem arriscar tanto”, acrescenta Møystad.

Sua repercussão também foi essencial para a indústria. “Economicamente, é de grande importância”, prossegue Engelstad. “Possibilita aos editores apostar em escritores desconhecidos e publicar um leque mais amplo de gêneros e vertentes literárias”. 35 títulos de seu selo, todos menos um de seu catálogo de ficção de 2016, passaram pelo filtro de qualidade do comitê que decide as aquisições a serem feitas. O Governo, recentemente questionado por vender a sua transição verde ao mesmo tempo em que autoriza sondagens de petróleo, comprou 24.605 exemplares impressos e 2.450 licenças de e-books, pelos quais a Oktober recebeu o equivalente a 3 milhões de reais (60% do total); os 40% restantes vão para o autor, que, além disso, só por ter sido selecionado já recebe mais em direitos autorais (20% se for autor de ficção) do que se o não tivesse sido (15%).

Este programa de compra por atacado, em que o Governo gastou 13,8 milhões de euros (51 milhões de reais) no ano passado, é a joia da coroa de um sistema patrocinado pelo Estado com a colaboração da indústria e que conta com o respaldo solidário dos best-sellers do país. O Executivo da Noruega, que registrou uma renda per capita anual de 59.000 euros (220.000 reais) em 2016 e uma taxa de desemprego de 1,9% em junho passado, subsidia os que se aventuram pelo caminho da escrita, mas também os autores consagrados – em 2017, ele concedeu somente para autores de ficção para adultos 125 subsídios, num total de mais de 2,5 milhões de euros, segundo dados de Richard Smith, responsável pelo departamento do programa de fomento a artistas. Mas isso é feito também pelas associações de escritores. E se elas conseguem distribuir bolsas de valor significativo para que o autor pesquise, viaje ou possa deixar o seu trabalho e se dedicar exclusivamente à escrita de um livro, é porque seus fundos coletivos se alimentam de direitos autorais pelo empréstimo de livros (em 2016, o Governo pagou aos autores 11,6 milhões de euros por essa via) ou cópias feitas nas universidades, nas empresas etc. (a Kopinor, instituição que gere os direitos e licenças, distribuiu mais de 21 milhões de euros para os autores). E os que mais contribuem são os que mais vendem.

Ida Hegazi Høyer, que já está em seu sexto livro, beneficiou-se duas vezes do sistema. Recebeu duas bolsas até hoje: uma de três e outra de dois anos. Só utilizou a primeira e já recebeu o Prêmio de Literatura da UE em 2015 por Perdón (Perdão). Recebe 25.000 euros (93.000 reais) por ano. “Alguns reclamam dizendo que as bolsas-salário são baixas demais, levando em conta o alto custo de vida daqui, mas viver da sua arte não é um direito humano. Somos os escritores mais sortudos do mundo”, afirma. Maria Parr toca na mesma questão: “Houve uma grande solidariedade da parte das gerações antecedentes, que conseguiram privilégios para todos a fim de que o capitalismo não governe tudo. Deveríamos ter cuidado para não perdê-los.”

No setor, que luta pela eliminação do imposto sobre valor agregado (IVA) para os e-books (atualmente, na faixa dos 25%), há certa preocupação de que os paradigmas do singular ecossistema literário possam desmoronar. A cultura sempre foi um assunto público, e o atual Governo, liberal, defendeu e defende um modelo misto público-privado. O programa de compra de livros para as bibliotecas não está em questão, mas há uma preocupação quanto a outros pilares do sistema que estão regulados por acordos entre os agentes do setor, como o preço fixo e os contratos padronizados pelos quais os autores inscritos nas associações de escritores (que são praticamente todos), sejam eles Nesbø ou estreantes, recebem a mesma porcentagem de direitos de autor.

“Esperamos que haja uma mudança de Governo com as eleições do outono [boreal]. Faremos lobby para aprovar uma lei do livro que garanta o preço fixo e os contratos padronizados”, diz Trond Andreassen, secretário de Assuntos Exteriores da Associação Norueguesa de Escritores de Não-Ficção e Tradutores. “É importante defender o sistema que temos, que, acredito, vai além do custo”, afirma Gaarder. “Ganhei fora muito dinheiro que logo reverti para a Noruega: mais de 10 milhões de euros (37 milhões de reais) em impostos. De certo modo, o sistema, que é generoso, paga a si mesmo.”

A globalização deixou pouco espaço para comparar as leis de propriedade intelectual e as políticas de proteção ao escritor e à literatura na Europa. Os modelos são semelhantes, embora cada país se destaque por algo e se diferencie por sua melhor ou pior aplicação. A França é considerada um modelo por seu respeito à entidade do escritor; a Irlanda, um paraíso em termos fiscais (nenhum criador, nem o U2, paga imposto por sua obra); os nórdicos são conhecidos pela promoção da cultura. E a Noruega, onde a ostentação é um pecado e a modéstia se exerce como grande virtude, pode se orgulhar de ter um sistema que permite que um autor, mesmo fora do grupo dos best-sellers, busque seu sonho. Não é uma quimera. No país dos fiordes, pode-se viver da literatura sem ser comercial.

Pais interferem em escolas que abordam questão de gênero nos livros e vetam conteúdo

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Educadores criticam interferência nas decisões dos colégios sobre os temas

Renata Mariz e Eduardo Baretto, em O Globo

BRASÍLIA- Tema de ações no Supremo Tribunal Federal (STF) e de projetos no Congresso Nacional, a chamada “ideologia de gênero” vem sendo apontada nas escolas por pais incomodados com o material didático trabalhado em sala de aula. As reclamações se multiplicam pelo país e resultam muitas vezes na substituição de livros, dividindo a comunidade escolar. No centro do debate, a linha tênue entre o direito da família de acompanhar de perto a educação dos filhos e a ingerência preconceituosa no processo coletivo de aprendizagem.

Um caso recente no Colégio Ipê, escola da rede privada que atende alunos da educação infantil até o 9º ano em Brasília, expõe a complexidade da situação. Após queixas em relação ao livro “Lá vem história: contos do folclore mundial”, uma turma do 2º ano do ensino fundamental ficou dividida. Pouco mais da metade dos pais (18 em relação às 32 crianças da classe) trocou a obra que havia sido indicada pela escola como material de apoio às aulas de literatura para o segundo semestre deste ano. Alguns contos do capítulo “Para sentir uma pontinha de medo” foram considerados pesados demais para os alunos, mas a história que de fato causou discórdia se chama “Maria Gomes e os cavalinhos mágicos”.

Gizeli Nicoski com os filhos Nicholas e Nicole: articulação com outras mães da escola para adequar os temas discutidos à faixa etária das crianças - Jorge William / Agência O Globo

Gizeli Nicoski com os filhos Nicholas e Nicole: articulação com outras mães da escola para adequar os temas discutidos à faixa etária das crianças – Jorge William / Agência O Globo

 

No conto, a protagonista é abandonada pelo pai viúvo sem condições financeiras de sustentar a filha. Disfarçada de homem por ordem de uma voz que passou a ajudá-la, Maria Gomes consegue emprego no jardim de um palácio. Até que “mesmo pensando que Maria fosse um jovem, o filho do rei se apaixonou por ela. Preocupado, o príncipe dizia à mãe: Minha mãe do coração, os olhos de Gomes matam. São de mulher, sim. Não são de homem, não”. Por fim, ele descobre que Maria é mulher, declara seu amor e vivem felizes para sempre.

Para Gizeli Nicoski, de 38 anos, que articulou com outras mães a reclamação formal à escola, o conteúdo é inadequado para crianças como sua filha Nicole, de 7 anos. Ela afirma que não se trata de intolerância ou censura a determinados conteúdos, mas de adequá-los à faixa etária dos alunos. E diz não se incomodar com a “imagem de chata” que acredita ter diante de funcionários e outros pais do Colégio Ipê:

—Não é que sejamos contrários a temas sobre sexualidade, mas tudo no seu tempo. Uma história que fala de criança abandonada, depois homem com homem, não pode ser algo adequado para alunos do 2º ano — defende Gizeli, que também é mãe de Natalie e Nicholas, de três e quatro anos, respectivamente.

Diante da resistência de pais que não quiseram abrir mão do livro, escrito por Heloisa Prieto e há 10 anos no mercado, restou à escola deixar a critério de cada um fazer a substituição, após negociar a troca de títulos com a editora. Gilberto Fernandes Costa, um dos diretores do Colégio Ipê, diz que a saída foi possível por se tratar de um material de suporte às aulas de literatura, o que permite que os professores trabalhem livros diferentes dentro de uma mesma classe. Sobre a ingerência dos pais, Costa prefere não polemizar:

— Se é possível trocar sem prejuízos pedagógicos, a gente troca. As famílias têm todo o direito de questionar e cabe à escola mostrar aos pais as razões da abordagem dos assuntos.

RETIRADA DE LIVRO DA GRADE ESCOLAR

Na rede privada a pressão dos pais conta muito e a escola acaba cedendo aos apelos, com medo também da repercussão negativa nas redes sociais. No Colégio Marista de Brasília, de ensino infantil e fundamental, vinculado à Igreja Católica, o livro “A família de Sara” foi vetado no segundo semestre de 2015, após críticas de um pai.

A história conta as agruras de Sara, filha adotiva de uma mãe que não era casada, por não ter quem levar às festividades da escola no Dia dos Pais. Em determinado trecho, a mãe tenta consolar a menina: “É possível ter duas mães ou dois pais, ou ter mãe e padrasto e pai e madrasta, e gostar igualmente de todos. O importante, Sara, não é como sua família é, mas como ela te trata”.

Flaviane Leite, mãe de Rafael, aluno do Colégio Marista, critica a intervenção indevida dos pais - Arquivo Pessoal

Flaviane Leite, mãe de Rafael, aluno do Colégio Marista, critica a intervenção indevida dos pais – Arquivo Pessoal

 

Para Flaviane Leite, mãe de Rafael, à época aluno do terceiro ano do ensino fundamental do Marista, a retirada do livro foi uma interferência indevida dos pais na escola.

— Eu li o livro com meu filho. No fim, de maneira bem leve, ele citava que era possível ter outras formas de família. Nada demais. A própria autora do livro contou a história dela: a família era ela e a filha adotada, que era negra — afirma Flaviane.

Autora do livro, que escreveu 61 títulos para a coleção Sara e sua Turma, com adaptações em andamento para a TV Escola, Gisele Gama, de 50 anos, confirma que se inspirou nas dificuldades da própria filha. Ela acredita que a perseguição infundada por conta da obra, que já vendeu mais de um milhão de exemplares, vem do preconceito:

— Esse pai colocava na internet meu livro com um carimbo “ideologia de gênero”. É tremendamente lamentável, mas mostra o preconceito que existe. O pior é a escola retirar o livro. Nenhuma criança pode ser menos por causa da família que tem. E o livro só conta a história real da minha família.

Sem explicar os motivos de ter deixado de usar a obra, o Colégio Marista de Brasília afirmou, em nota, que o material de apoio é atualizado todos os anos. “Para 2016, essa obra não está na lista de livros paradidáticos, o que não significa que escola, família, educadores e estudantes não dialogarão sobre o tema”. E acrescentou que o Papa defendeu recentemente que a Igreja discuta abertamente “mudanças vividas pela família contemporânea, como é o caso dos novos arranjos familiares”.

Miguel Nagib, porta-voz do Escola sem Partido, movimento contrário à doutrinação política e ideológica na educação com forte cunho religioso, que pressiona pela aprovação de projetos de lei com regras e sanções a educadores, diz que a preocupação está nos conteúdos passados de forma dogmática.

— Não pode haver na sala de aula uma revelação divina, uma verdade dogmática. Se os pais dizem para o filho o que é o certo, a escola não pode dizer o contrário. Os pais são os responsáveis.

Professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), Fernando Penna afirma que esse fenômeno é influenciado por um contexto político, mas também pelo poder das redes sociais. Para explicar o movimento visto hoje nas escolas, o educador retorna a 2011, quando o governo Dilma Rousseff se preparava para distribuir um material de combate à homofobia que acabou vetado após a má repercussão.

Penna afirma que o material foi apelidado de “kit gay” por parlamentares ditos conservadores, que criaram essa bandeira para se promover. O episódio foi, segundo o especialista, um marco importante na origem do que hoje é chamado de combate à dita ideologia de gênero:

— A ideologia de gênero é um termo cunhado para desqualificar o debate sobre as desigualdades, sobre os papeis sociais, e pregar que o objetivo real é a erotização infantil, a transformação de jovens em gays e lésbicas ou o combate à família tradicional — explica. — Aliado a isso, há circulação de notícias falsas em redes sociais que causam um pânico moral muito grande. E as famílias, numa atitude compreensível, ficam apavoradas.

COLÉGIO CONTRARIA CRÍTICAS E MANTÉM TEMA

Ao contrário do que aconteceu nas escolas Ipê e Marista, o Colégio Positivo de Curitiba não sucumbiu ao protesto de alguns pais em relação ao conteúdo abordado nos livros de Sociologia do 2º ano do ensino médio. No material didático, os autores afirmam, por exemplo, que “não existe um modelo pré-definido de comportamento ideal de mulheres e homens” e destacam que esses valores foram socialmente construídos.

A divulgação do conteúdo do livro por um blog local e pela página “Escola Sem Partido PR” no Facebook também gerou críticas nas redes sociais. Mas, mesmo com a reação negativa de algumas pessoas, a editora Positivo manterá o tema no livros. Segundo Joseph Razouk Júnior, diretor editorial da empresa, a abordagem atende às diretrizes nacionais de educação e promove a cidadania. Atualmente, dois milhões de jovens em escolas públicas e particulares, no Brasil e no Japão, usam os livros da rede.

— A discussão sobre gênero, seja nas escolas, seja na sociedade como um todo, não pode ser lida como uma ideologia, e sim como um campo de pesquisa científico e acadêmico de reconhecimento internacional — afirma Júnior. — A cidadania é entendida como base do Estado de Direito e orientada pelos princípios jurídicos da liberdade, da igualdade e do respeito às diferenças.

Professor de História e Filosofia do Positivo de Curitiba, Daniel Medeiros, critica o conservadorismo:

— A visão de alguns pais conservadores é ditada pelo discurso da religião, que limita o diálogo. O que está acontecendo é uma falsa questão. Aparecem pessoas que não têm formação e querem intervir no trabalho de escolas sérias.

Estudantes de Caruaru-PE vão ao Chile desenvolver projeto de Robótica

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Equipe Protheus - Arquivo Pessoal Divulgação - Medalha OBR

Equipe Protheus – Arquivo Pessoal Divulgação – Medalha OBR

Eles lançaram campanha na internet para ajudar a bancar despesas naquele país

 

Três estudantes do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia de Pernambuco (IFPE) Campus Caruaru/PE – cidade que fica a 130km do Recife – foram aceitos para realizar um intercâmbio no Chile durante seis meses. A viagem para troca de conhecimentos ocorrerá do dia 31 de julho ao dia 18 de dezembro deste ano. Durante o período, os alunos Asafe dos Santos, Élton Franklin e Daniel Queiroz – do curso de Engenharia Mecânica – desenvolverão atividades na Universidad Tecnologica de Chile (Inacap). A proposta é que eles estudem matérias de Automação e Controle Industrial que não estão no cronograma do campus em Caruaru e ainda desenvolvam uma atividade prática: a criação de um drone quadricóptero para pulverização de plantações. O intercâmbio faz parte do Programa Internacional Despertando Vocações, cujo objetivo é auxiliar os estudantes sobre suas carreiras profissionais e incentivá-los ao empreendedorismo, e tem convênios com mais de 20 instituições de ensino superior, a maioria delas da América Latina.

unnamedO professor Alexander Sena, orientador do grupo no IFPE, destaca que, diferentemente de outros projetos intercambistas,  neste Programa o aluno tem de apresentar um resultado palpável dos conhecimentos adquiridos por intermédio da viagem. “Eles terão de desenvolver de fato um projeto e trazer algo, para que a gente possa validar a experiência que eles tiverem fora do país. O produto que eles vão trazer, na experiência, é um drone que seja capaz de pulverizar produtos químicos em plantações, ou seja, uma aplicação na área agropecuária para pequenas e médias propriedades. Esse tipo de equipamento já existe, mas foi desenvolvido para grandes plantações e é bastante caro, da ordem de 40 mil reais. O que eles deverão desenvolver é para plantações menores e deverá ser de baixo custo”, pontua.

Atualmente estudantes do curso superior de Engenharia Mecânica no IFPE, Asafe, Élton e Daniel já foram alunos do curso técnico de Mecatrônica na mesma instituição. Assim sendo, desde 2013 eles formam a equipe ‘Protheus’, que tem como objetivo desenvolver projetos e pesquisa na área de Robótica, além de ministrar oficinas e disseminar o conhecimento científico pela região. Entre os projetos já executados pelos estudantes, está a criação de protótipos como um robô-guia para deficientes visuais e um robô paralelo (com finalidade industrial). No ano passado, a equipe conquistou a medalha de bronze na etapa regional da Olimpíada Brasileira de Robótica (OBR).

Os integrantes deixam claro que a ideia do grupo, ao retornar do Chile, é de partilhar os conhecimentos adquiridos naquele país com os demais estudantes de Caruaru e região, por meio de palestras e oficinas. “Temos consciência de que nosso papel é contribuir para com o desenvolvimento de nossa cidade, por meio da educação e das experiências vivenciadas”, explana Daniel. “Com certeza, tanto a viagem quanto o retorno nos proporcionarão um grande crescimento, do ponto de vista intelectual, profissional e também pessoal”, pondera Élton. “Participar de um intercâmbio como este é uma oportunidade ímpar de ampliar os conhecimentos, indo além dos conteúdos ministrados em sala de aula”, observa Asafe.

 

RECURSOS

A bolsa de estudos conseguida pelos estudantes financia unicamente as mensalidades na instituição de ensino chilena. Por isso, eles precisam arrecadar fundos para as demais despesas. Para tanto, os alunos lançaram uma campanha na internet, através do endereço: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/intercambio-ao-chile .

dica:Jénerson Alves de Oliveira

Turmas com melhor desempenho têm professores mais experientes, aponta estudo

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Sala de aula (Foto: Reprodução/G1)

Sala de aula (Foto: Reprodução/G1)

 

Estudo relaciona perfil de professores com o desempenho de turmas na Prova Brasil. Dados abrangem escolas de todo o país.

Clara Campoli, no G1

As turmas de 5º ano do ensino fundamental com melhor desempenho na Prova Brasil contam com professores mais velhos, com mais de 10 anos de magistério e que acreditam no potencial de seus alunos: é o que mostra uma análise qualitativa realizada pela empresa de ciência de dados IDados. As informações, compiladas com dados de todo o país, mostram que as melhores notas saem de salas de aula com maioria de meninas e com 88% dos alunos na idade certa.

A análise, realizada pela economista Mariana Leite, baseou-se nos dados qualitativos do desempenho em matemática na Prova Brasil de 2015, além de se valer de respostas que os professores deram nos questionários relativos à avaliação. A Prova Brasil é aplicada pelo MEC e é um dos itens que integram o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

O estudo do IDados mostra que nas turmas de alto rendimento, 74,7% dos professores têm mais de uma década de experiência, contra 66,3% nas turmas que não se saíram tão bem no teste.

A idade do professor também parece influenciar: 61% têm mais de 40 anos nas boas turmas, enquanto as piores têm 45,5% de professores abaixo da faixa etária. Além disso, a presença de professores temporários é maior nas salas de baixo desempenho, com 25,8% se contrapondo aos 16,9% das melhores turmas.

“No geral, a maioria dos diretores de escola dizem que a seleção dos professores para as turmas depende do tempo de casa de cada um. Os mais experientes podem escolher turmas. Não é o caso do professor temporário, que acaba pegando turmas que dão mais trabalho e que têm mais repetentes”, comenta a economista.

Expectativas

Outro fator que chamou a atenção de Mariana Leite é a expectativa dos professores em relação aos alunos. Nas turmas de bom desempenho, 66,3% dos mestres acreditam que mais da metade dos alunos chegará ao ensino superior. O número é bem menor nas turmas de baixa performance: apenas 27% têm essa expectativa.

“A questão da expectativa do professor é um bom preditor para o sucesso escolar dos alunos, pelo menos a curto prazo”, comenta Leite.

“Não dá para saber o que vem primeiro, se é o docente que está na turma ruim e tem baixas expectativas, ou se são as atitudes dele que estimulam menos os alunos”

Formada em pedagogia, a professora Márcia Martins Barra poderia lecionar em turmas mais velhas, mas faz questão de concentrar suas energias nos estudantes na faixa etária de 10 a 12 anos. Ela se encaixa no perfil da pesquisa: tem 55 anos, leciona há 34 e é professora da Escola Municipal Cuba, no Rio de Janeiro, no bairro Zumbi.

“Toda sala tem inúmeros casos, turmas completamente heterogêneas. Em uma turma com 27 alunos, tenho 10 excelentes. A tentativa é fazer com que os outros atinjam aquele patamar. É um trabalho diário, e acho que falta experiência a muitos professores. É preciso levar o aluno mais difícil como um desafio, tentar resgatar essa criança. Não é para fazê-la se sentir menosprezada: se não sabe, vai aprender”, garante a professora.

Disciplina

Outro ponto levantado na pesquisa é a distribuição de tempo das aulas. Nas turmas que se saíram melhor na Prova Brasil, 51,2% dos professores relatam gastar mais de 10% do tempo mantendo a ordem e a disciplina. Os docentes responsáveis por turmas de baixo desempenho relatam o problema em proporção muito maior: 71,2%.

“Faz bem conseguir dar a aula da maneira que o professor gostaria, as crianças começam a ter um desempenho diferente. O trabalho não é de um dia para o outro. Se o docente não tiver o trabalho diário e desgastante, não vai ter resutado.” – Márcia Martins Barra, professora do 5º ano do ensino fundamental

“Os professores de turmas de mau desempenho falam de desinteresse, de baixa auto-estima, de indisciplina. O docente acaba gastando muito tempo tentando manter a ordem. Isso gera outro problema: só 33,1% acreditam que vão conseguir concluir 80% do conteúdo previsto até o fim do ano letivo”, analisa Leite.

Para a professora Márcia, os dados são preocupantes porque o 5º ano é a conclusão da etapa mais importante para a fundamentação escolar da criança. “Até essa etapa, somos a base. É como a construção de uma casa: se o alicerce não estiver bem feito, a estrutura não fica boa. É fundamental que o professor acredite em seu trabalho e não desista do aluno com dificuldades. Só assim é possível colher frutos da aprendizagem”, avisa a professora.

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