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Uma Dobra do Tempo ganhará uma nova edição nacional

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Publicação chega ao país este mês

Fabio de Souza Gomes, no Omelete

A HarperCollins Brasil vai lançar uma nova edição do clássico da ficção científica Uma dobra no tempo. A obra da autora Madeleine L’Engle foi lançada em 1962 e é composta por cinco livros, que acompanham a família Murray e suas aventuras através do espaço e do tempo. O primeiro volume chega às livrarias em novembro. Confira:

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A publicação conta a história dos irmãos Meg e Charles Wallace, que fazem parte de uma família excêntrica. O pai vivia recluso em suas pesquisas e desapareceu misteriosamente depois de um de seus experimentos com a quinta dimensão. Ele disse que faria uma viagem a trabalho para o governo americano e nunca retornou.

Até que em uma noite chuvosa, os irmãos Murry recebem a visita de uma criatura estranha, que sabe dos segredos da pesquisa da família e diz conhecer uma maneira de resgatar seu pai. Ao lado do visitante e do amigo Calvin O’Keefe, eles decidem embarcar em uma viagem extraordinária através do tempo, entre criaturas fantásticas e novos mundos jamais imaginados.

Juntos, eles devem enfrentar suas inseguranças e descobrir como impedir a expansão da Escuridão, uma força maligna que irá tomar conta de todo o universo. Uma dobra no tempo é uma aventura clássica, que serviu de inspiração para grandes autores da ficção científica e da fantasia contemporânea.

O livro será adaptado para o cinema pela Disney. O longa estreia em março de 2018 e será estrelado por grandes nomes como Reese Witherspoon, Oprah Winfrey e Chris Pine.

Professora que ensinou índios na língua-mãe é a Educadora do Ano

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Os alunos da classe multisseriada de 1º a 5º ano de Elisângela falam paiter suruí (Felipe Antonio Fotografia/VEJA.com)

Os alunos da classe multisseriada de 1º a 5º ano de Elisângela falam paiter suruí (Felipe Antonio Fotografia/VEJA.com)

Elisângela Dell-Armelina Suruí criou material didático na língua paiter suruí para educar crianças indígenas e foi eleita a melhor professora do país

Marina Rappa, na Veja

A professora Elisângela Dell-Armelina Suruí subiu ao palco do Prêmio Educador Nota 10 na noite de segunda-feira, 30, para receber o título de Educador do Ano, em evento realizado pela Fundação Victor Civita. Emocionada, disse “muito obrigada” ao público em paiter suruí – a língua materna dos índios da tribo nabekodabadakiba, em Rondônia. O gesto faz clara referência ao trabalho feito pela educadora com os pequenos índios da região.

Nascida em Ji-Paraná, a aproximadamente 370 quilômetros de distância da capital de Rondônia, Elisângela foi trabalhar como voluntária na aldeia próxima a Cacoal, cidade do interior do estado. Isso foi suficiente para que, dezesseis anos depois, ela realizasse um importante projeto de alfabetização dos índios na língua-mãe das crianças da Escola Sertanista Francisco Meireles.

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Durante o trabalho de ensinar aos pequenos a escrever e ligar palavras a objetos, Elisângela sentiu falta de um material que ensinasse o paiter suruí, já que os livros dados pelo governo eram em português. Surgiu assim a ideia de confeccionar um caderno de escrita e atividades com textos simples na língua-mãe das crianças, com figuras que pudessem ser coloridas e nomeadas. Tudo feito pelos alunos – que vão do 1º ao 5º ano.

“Eles se viram naquele livro. Em um dia, eles se questionavam sobre quem fazia aqueles livros bonitos que chegavam de tão longe para a escola deles e, em outro, eram os produtores do próprio conhecimento. Isso não tem preço”, conta a professora.

Agora, a melhor educadora brasileira espera que seu projeto seja levado adiante – e auxilie não apenas as aldeias que falem o paiter suruí, mas as outras que também possuem dificuldade de encontrar material de alfabetização nas línguas indígenas. “O caderno pode ser usado não apenas na minha aldeia, mas servir como molde para que outros professores consigam ensinar a língua materna aos alunos. Espero que, com o prêmio, isso sirva como referência”, afirma Elisângela após receber o troféu de Educador do Ano de 2017.

Biografia recupera trajetória de Vadico, o maior parceiro de Noel Rosa

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Vadico queria provar que era mais do que só o parceiro de Noel Rosa. Foto: O Cruzeiro/Reprodução

Vadico queria provar que era mais do que só o parceiro de Noel Rosa. Foto: O Cruzeiro/Reprodução

Livro de Gonçalo Junior um dos grandes compositores do país, tentando mostrar que ele foi mais do que só parceiro do Poeta da Vila

Alexandre de Paula, no Diário de Pernambuco

O melhor parceiro de Noel Rosa. Foi assim que Vadico ficou marcado na história da música popular brasileira, que relegou a ele um lugar de pouco destaque. No entanto, mais do que isso, ele foi um dos grandes compositores brasileiros, reconhecido por nomes como Vinicius de Moraes e com carreira de 15 anos nos Estados Unidos.

É isso que defende, além de revelar diversos detalhes e novidades sobre Vadico, a biografia Pra que mentir?. Assinado pelo jornalista e escritor Gonçalo Junior, o livro é o mais completo documento sobre a história e a obra de Vadico, da parceria com Noel Rosa aos tempos nos EUA e aos problemas de saúde do compositor.

Antes de escrever o livro, Gonçalo havia biografado Assis Valente (compositor de Brasil pandeiro) e de Evaldo Braga (quem não se lembra de “Sorria, meu bem”?). Os dois tiveram histórias trágicas e impactantes. “E Vadico me pareceu um enigma, também um personagem a ser desvendado. Seria muito fácil pegar alguém como Lamartine Babo, Ary Barroso, Nelson Gonçalves, em que tudo está aí”, afirma.

Quando faz pesquisas para algum projeto, Gonçalo deixa catalogadas informações sobre outras pessoas que fazem parte da trajetória dos biografados. Parte do material sobre Vadico veio daí, mas não havia muito sobre ele. “A pesquisa foi insana, o problema maior é que havia pouca coisa em muitos lugares”, comenta.

Foram oito meses de escrita, mas o material que deu base para o livro veio do trabalho de duas décadas. “Todos os dias eu entro em sites caçando livros, discos, partituras, por exemplo. Você vai juntando as peças, fica bastante caro, porque material custa muito. No fim, é mais satisfação pessoal do que qualquer outra coisa”, conta.

O acesso a esse material e o contato com alguns familiares, no entanto, permitiram que Gonçalo escrevesse um livro com diversas informações novas sobre o compositor e que ajudasse a entender melhor quem era e qual foi a importância de Vadico: “As dívidas que a história da música popular brasileira tem com ele são imensas. Ele sempre foi chamado de o tal do parceiro de Noel Rosa, só isso.”

Direitos autorais

Vadico ficou marcado pela polêmica sobre direitos autorais. Quando voltou ao Brasil, ele percebeu que Noel (àquela altura já morto) havia vendido as parcerias (como Conversa de botequim, Feitiço da vila, Pra que mentir?) sem seu consentimento e foi atrás de entender o que havia acontecido.

O apresentador Flávio Cavalcanti soube da história nos bastidores de um programa de que Vadico participaria e levou a polêmica para a tevê, criticando duramente Noel. O fato gerou polêmica e o Poeta da Vila foi defendido pelo radialista Almirante. “Vadico foi muito criticado. Principalmente pela habilidade de Almirante com a palavra, ele botou Vadico no bolso. Vadico era tímido, todo formal, de conversar pouco. Ele não conseguiu se defender direito”, explica.

Gonçalo ressalta que, apesar de tudo, Vadico sempre tentou manter o respeito ao parceiro. “Ele sempre foi muito correto com Noel, ele sempre foi muito cuidadoso em apenas lamentar.” O título do livro, explica o autor, é uma espécie de provocação a Noel. “Veio da parceria deles e é como se ele perguntasse: ‘Por que você mentiu?’ O livro é uma tentativa de resgatar a verdade.”

No exterior

Entre as histórias apresentadas por Gonçalo estão algumas da passagem do compositor pelos EUA. Lá ele trabalhou em filmes de Carmen Miranda e em animações da Disney. “Foi ele quem introduziu Aquarela do Brasil, entre outras músicas, nos filmes da Disney. Ary Barroso se tornou mundialmente conhecido, principalmente por causa de Vadico, mas ninguém fala disso”, assegura Gonçalo.

Em terras norte-americanas, ele teve contato profundo com o jazz. Passou anos tocando com grupos do estilo. Quando voltou ao Brasil, juntou tudo isso ao samba. “Ele traz e adiciona elementos do samba, ele chamava isso de samba ligeirinho, era um samba jazz que ele adorava. Sempre fazem questão de dizer que ele não teve nada com a bossa nova, mas ele teve, sim, ajudou. Ele só não foi um dos pais por causa de problemas de saúde”, acredita.

Outra história que Gonçalo faz questão de desmistificar é a recusa de Vadico ao convite de Vinicius de Moraes para musicar Orfeu da Conceição. “Se escreve que Vadico amarelou, que disse que não tinha competência e que não estava à altura, mas não é a verdade. Vadico poderia muito bem ter ocupado esse lugar. Ele tinha acabado de sofrer o terceiro infarto, não tinha condições físicas para isso.”

Vadico voltou ao Brasil porque teve dois infartos nos EUA. Os médicos lhe recomendaram uma dieta rigorosa e pediram que ele mudasse o estilo de vida. Os problemas com direitos autorais, no entanto, fizeram com que ele optasse pelo caminho contrário.

“Ele chuta o pau da barraca, afunda no alcoolismo e fuma demais. A questão com Noel estava em grandes jornais, ele se dizia boicotado e passou a viver assim.” Os hábitos custaram caro. Em 1962, ele se sentiu mal durante um jogo do Brasil na Copa do Mundo. Seis dias depois, morreu no estúdio nos braços do sambista Wilson das Neves.

Além da polêmica, Gonçalo mostra que Vadico se sentia profundamente incomodado com o rótulo de parceiro de Noel. “Ele era atormentado por isso e queria provar para todo mundo que era um grande compositor. E ele era. O problema é que ele não conseguiu encontrar outro Noel Rosa, um outro letrista tão bom, que estivesse à altura dele.”

Gayle Forman fala sobre os 3 próximos livros e vinda ao Brasil

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A autora já escreveu vários best-sellers (Gayle Forman/Divulgação)

A autora já escreveu vários best-sellers (Gayle Forman/Divulgação)

 

A autora vem ao país para a Bienal do Livro 2017.

Bruna Nobrega, na Capricho

Talvez você não conheça diretamente Gayle Forman pelo nome, mas, com certeza, já ouviu falar de um dos livros dela. Se Eu Ficar bombou tanto que virou um filme estrelado pela Chloe Grace Moretz e depois rendeu a sequência literária Para Onde Ela Foi.

Mas não são só esses dois livros que fazem parte do repertório da autora, não, viu? Ela também tem os sucessos Apenas Um Dia, Eu Estive Aqui, Quando Eu Parti, entre outros. E, para falar sobre eles em uma conversa com a brasileira Paula Pimenta (de Fazendo Meu Filme e Minha Vida Fora de Série), Gayle desembarca no Brasil em setembro na Bienal do Livro.

Gayle Forman na premiere de Se Eu Ficar, em Los Angeles. (Alberto E. Rodriguez//Getty Images)

Gayle Forman na premiere de Se Eu Ficar, em Los Angeles. (Alberto E. Rodriguez//Getty Images)

Para dar um gostinho do que vem aí, a autora conversou com a CAPRICHO e ainda contou uma novidade, ou melhor, 3. É que tem 3 livros já semi prontos para o lançamento. Quer ver?

CH: Você tem uma base de fãs muito grande no Brasil e agora você está vindo para o país! Está animada?

Gayle: Eu estou MUITO animada. Eu nunca estive no Brasil antes e está no topo da minha lista de desejo há anos, então poder ir como autora, ver (um pouquinho) do país e conhecer os leitores!? Eu não poderia amar mais.

CH: Como é ver o seu livro traduzido para tantas línguas diferentes e poder viajar pelo mundo por causa deles?

Gayle: Nós estamos vivendo no que parece um momento divisivo agora, então quando um livro atinge um nível universal é pessoalmente gratificante e reconfortante. Acaba me lembrando que o coração humano é constante. Amor, perda, desejo, são universais. Então é um remédio para tempos como esse. Por um lado mais leve, é emocionante ver seu trabalho alcançar uma audiência tão grande ao redor do mundo. Eu me lembro de quando Se Eu Ficar começou a fazer sucesso internacionalmente. Eu fiquei espantada que um livro que eu escrevi na mesa de canto da sala da casa minha família estava chegando tão longe.

CH: O último livro que você lançou foi Quando Eu Parti e é diferente dos outros livros porque é sobre uma mãe adulta. O que fez você mudar a perspectiva? É uma mudança definitiva?

Gayle: Eu sentei para escrever um novo romance adolescente, mas eu descobri que a história que eu realmente precisava contar era sobre casamento e maternidade. Como muitas outras mães que trabalham, eu me prendi em ser uma profissional e uma mãe, tentando redefinir os papeis, mas nem sempre tendo sucesso, e tentando pedir ajuda, definitivamente sem sucesso. Eu amei poder escrever uma personagem como a Maribeth, um pouco chata, mas muito parecida comigo, e eu particularmente amei escrever sobre as crianças. Apesar disso, eu não acho que a experiência de escrever um livro adulto foi diferente de um adolescente. Foi a mesma jornada emocional, descobrindo as camadas dos personagens.

CH: Falando sobre isso, você já está planejando seu próximo livro? Vai ser sobre o quê?

Gayle: Eu acabei de entregar o meu próximo livro, que vai ser um romance adolascente. Os personagens são mais velhos, 19 anos, o que tem sido recorrente nos meus livros. É sobre três estranhos totais, cada um em seu próprio caminho, mas perdidos, e o que acontece é que eles acabam se encontrando. Eu também tenho meu próximo romance escrito pela metade e eu escrevi um sobre jovens do Ensino Médio. Então muita coisa pela frente.

CH: Se Eu Ficar e Apenas Um Dia tiveram sequências. Você está planejando escrever mais livros da série Eu Estive Aqui e Quando Eu Parti?

Gayle: O único livro que eu planejei uma sequência foi Apenas Um Dia. Os dois livros foram concebidos como um dueto. Eu pensei que Se Eu Ficar fosse ficar sozinho, mas então os personagens ficavam me deixando acordada à noite, querendo saber por que eu os deixei naquele lugar. Eles não ficavam quietos então eu comecei a pensar no futuro deles e virou a história do Adam. Eu não acho que tem uma sequência para Eu Estive Aqui e Quando Eu Parti. Esses personagens estão quietos. A história deles está completa.

Gayle Forman com Chloe Grace Moretz e Jamie Blackley na premiere de Se Eu Ficar, em Nova York. (Brad Barket//Getty Images)

Gayle Forman com Chloe Grace Moretz e Jamie Blackley na premiere de Se Eu Ficar, em Nova York. (Brad Barket//Getty Images)

CH: Se Eu Ficar ficou muito conhecido depois que foi adaptado para o cinema. Como é ver seus personagens ganharem vida? Você tem algum outro livro que vai ganhar adaptação?

Gayle: É muito gratificante ver os personagens passarem tão bem das páginas para as telas. Eu realmente senti como se tivesse capturado a essência deles. O filme foi incrível, uma experiência muito intensa. Se Eu Ficar é vagamente baseado em uma tragédia real, a morte dos meus amigos. Quando o diretor RJ Cutler estava trabalhando no roteiro, ele me perguntou como a casa da família da Mia deveria ser, e eu me lembro do primeiro dia que eu vi a casa pronta no set e chorei. Parecia muito com a casa antiga dos meus amigos. Foi uma forma estranha de imortalidade, como meus amigos, que haviam falecido há tanto tempo, ainda viviam ali.

Sobre os outros livros, é dois passos para frente, um para trás. Há algumas coisas no forno, mas nada em produção ainda.

O que faz da Noruega o melhor país para ser escritor

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 Antiga cabine telefônica Divulgação Jo Straube

Antiga cabine telefônica Divulgação Jo Straube

 

O rico país nórdico é exemplar na proteção ao escritor. Knausgård é um dos nomes mais conhecidos

Maribel Marín, no El País

Se a Noruega, com seus administráveis cinco milhões de habitantes, suas produtivas reservas de petróleo e sua devoção à cultura, não é o melhor país da Europa para ser escritor, pelo menos tem as condições para sê-lo:

Um autor emergente pode sonhar em viver apenas da literatura porque as bolsas-salário equivalentes a 25.000 euros (cerca de 92.700 reais) por ano são uma realidade que não é dada a conta-gotas.

Um escritor consagrado, digamos Karl Ove Knausgård, autor da saga Minha Luta, também pode ser contemplado, e o foi, com as ajudas – de até 50% – concedidas pelo Governo por meio da Norla (Norwegian Literature Abroad) para a tradução de livros escritos em norueguês: 499 títulos vertidos para 46 idiomas em 2016, entre elas o quarto volume do rei da autoficção traduzido ao espanhol e português.

Publicar é menos arriscado do que em outros países. O Estado tem um programa de aquisição de livros para bibliotecas, único no mundo por sua dimensão, pelo qual compra a cada ano 773 exemplares de 85% dos títulos de ficção e 1.550 exemplares dos títulos de literatura infantil e juvenil, quando a tiragem média ronda os 2.500 exemplares.

Os livros de papel são isentos de impostos – uma raridade que na Europa só é reproduzida no Reino Unido, Irlanda, Albânia, Ucrânia e Geórgia – e impera um sistema de preço fixo, semelhante ao de países como Espanha, França e Alemanha, graças ao qual não se pode reduzir o valor dos exemplares até maio do ano seguinte ao da publicação.

A escrupulosa gestão dos direitos autorais por empréstimos de bibliotecas e por cópias particulares, e a educação, que fez com que a pirataria não fosse um problema, garantem que cada um receba o que é seu.

A tributação da cultura é bonificada e, como na Alemanha, Áustria, Portugal e Itália, o escritor aposentado pode receber os royalties de suas obras sem ter de renunciar à pensão, ao contrário do que acontece em países como Espanha, Irlanda e Malta.

E o mais importante, que explica o que foi dito anteriormente: existe um respeito reverencial pela cultura e pelo criador. E essa veneração tem em uma das nações mais ricas do mundo uma tradução econômica (1,44 bilhão de euros para a cultura em 2017; 85,6 milhões para o setor do livro) que pouco sofreu durante a crise e um impacto no desenvolvimento do talento nativo e sua expansão pelo mundo.

O escritor Jostein Gaarder

O escritor Jostein Gaarder

“A Noruega está exportando literatura. A qualidade média das letras do país é muito alta e eu acredito que se deve em grande parte ao apoio dado pelo Estado durante muitos anos”, resume Jostein Gaarder.

Há não muito tempo, na década de noventa, quando o escritor causou sensação com O Mundo de Sofia – que já vendeu mais de 40 milhões de exemplares – e ampliou as fronteiras da literatura norueguesa, a presença dos autores do país nas livrarias estrangeiras era apenas uma exótica anomalia, como corresponde a uma nação com menos população do que a Comunidade de Madri. Eram internacionalmente conhecidos Henrik Ibsen, um dos pais da dramaturgia moderna, e, claro, o polêmico Nobel e colaborador dos nazistas Knut Hamsun, autor do aclamado romance Fome. E pouco mais.

Hoje, apenas três décadas depois, a Noruega não só vende para o exterior seus clássicos e seus autores de romances policiais e de aventura como exporta muita literatura, e muito variada. Knausgård é a grande estrela. Mas não está sozinho. Dag Solstad, que ganhou neste ano o prêmio da Academia Sueca, o pequeno Nobel, e Kjell Askildsen, mestre do relato breve, são mundialmente conhecidos e reconhecidos. Assim como Per Petterson, Linn Ullmann, Jo Nesbø; o dramaturgo Jon Fosse; Maja Lunde, que está na boca de todos por conta de Tudo que Deixamos para Trás, ou Maria Parr, a nova Astrid Lindgren, que acaba de publicar na Espanha Tania Val de Lumbre.

As letras dessa monarquia parlamentar parecem viver uma nova era de ouro, que tem sua grande manifestação na escolha como país convidado da Feira do Livro de Frankfurt 2019. E deve dar graças a isso pela profunda crise que viveu nos anos sessenta, às vésperas de descobrir que, além de peixe, era rica em petróleo (1969) e de rejeitar pela primeira vez em um referendo (1972) sua adesão à União Europeia (UE). Em uma nação leitora, muito leitora – 90% da população lê pelo menos um livro por ano, com uma média de 16 títulos, em comparação com 60,6% que o faz na Espanha –, em uma nação com uma longa tradição de narradores e um sólido sistema de bibliotecas, surgiam muito poucos gênios literários e os títulos interessantes foram se tornando um bem escasso. E o culto Reino da Noruega, um dos países mais felizes, seguros e desenvolvidos do mundo, não podia permitir isso.

“Era uma situação muito grave para um país tão pequeno como o nosso, com uma língua territorialmente tão limitada”, diz Oliver Møystad, responsável pela ficção da Norla, na sede do órgão em Oslo. “Temia-se que pudesse desaparecer se nada fosse feito para fortalecer a literatura, que sempre foi considerada uma fonte de renovação e transmissão do idioma”. Então, para revitalizar as letras em norueguês e evitar a pressão do imperialismo cultural anglófono, o Governo socialdemocrata da época estabeleceu um formidável programa de aquisição em massa de ficção contemporânea para as bibliotecas públicas que, com o tempo, foi sendo ampliado – hoje também é concedido a livros de não-ficção para adultos, ficção e não-ficção infantil e juvenil, ficção traduzida e graphic novels – e, a julgar pelas informações fornecidas por Ingeri Engelstad, diretora-geral da editora Oktober, o objetivo buscado foi atingido com folga: “Na década de 1960 surgiam apenas um ou dois escritores iniciantes por ano. Agora são mais de 60” diz. “Na Suécia e na Dinamarca há proporcionalmente menos porque eles não podem arriscar tanto”, acrescenta Møystad.

Sua repercussão também foi essencial para a indústria. “Economicamente, é de grande importância”, prossegue Engelstad. “Possibilita aos editores apostar em escritores desconhecidos e publicar um leque mais amplo de gêneros e vertentes literárias”. 35 títulos de seu selo, todos menos um de seu catálogo de ficção de 2016, passaram pelo filtro de qualidade do comitê que decide as aquisições a serem feitas. O Governo, recentemente questionado por vender a sua transição verde ao mesmo tempo em que autoriza sondagens de petróleo, comprou 24.605 exemplares impressos e 2.450 licenças de e-books, pelos quais a Oktober recebeu o equivalente a 3 milhões de reais (60% do total); os 40% restantes vão para o autor, que, além disso, só por ter sido selecionado já recebe mais em direitos autorais (20% se for autor de ficção) do que se o não tivesse sido (15%).

Este programa de compra por atacado, em que o Governo gastou 13,8 milhões de euros (51 milhões de reais) no ano passado, é a joia da coroa de um sistema patrocinado pelo Estado com a colaboração da indústria e que conta com o respaldo solidário dos best-sellers do país. O Executivo da Noruega, que registrou uma renda per capita anual de 59.000 euros (220.000 reais) em 2016 e uma taxa de desemprego de 1,9% em junho passado, subsidia os que se aventuram pelo caminho da escrita, mas também os autores consagrados – em 2017, ele concedeu somente para autores de ficção para adultos 125 subsídios, num total de mais de 2,5 milhões de euros, segundo dados de Richard Smith, responsável pelo departamento do programa de fomento a artistas. Mas isso é feito também pelas associações de escritores. E se elas conseguem distribuir bolsas de valor significativo para que o autor pesquise, viaje ou possa deixar o seu trabalho e se dedicar exclusivamente à escrita de um livro, é porque seus fundos coletivos se alimentam de direitos autorais pelo empréstimo de livros (em 2016, o Governo pagou aos autores 11,6 milhões de euros por essa via) ou cópias feitas nas universidades, nas empresas etc. (a Kopinor, instituição que gere os direitos e licenças, distribuiu mais de 21 milhões de euros para os autores). E os que mais contribuem são os que mais vendem.

Ida Hegazi Høyer, que já está em seu sexto livro, beneficiou-se duas vezes do sistema. Recebeu duas bolsas até hoje: uma de três e outra de dois anos. Só utilizou a primeira e já recebeu o Prêmio de Literatura da UE em 2015 por Perdón (Perdão). Recebe 25.000 euros (93.000 reais) por ano. “Alguns reclamam dizendo que as bolsas-salário são baixas demais, levando em conta o alto custo de vida daqui, mas viver da sua arte não é um direito humano. Somos os escritores mais sortudos do mundo”, afirma. Maria Parr toca na mesma questão: “Houve uma grande solidariedade da parte das gerações antecedentes, que conseguiram privilégios para todos a fim de que o capitalismo não governe tudo. Deveríamos ter cuidado para não perdê-los.”

No setor, que luta pela eliminação do imposto sobre valor agregado (IVA) para os e-books (atualmente, na faixa dos 25%), há certa preocupação de que os paradigmas do singular ecossistema literário possam desmoronar. A cultura sempre foi um assunto público, e o atual Governo, liberal, defendeu e defende um modelo misto público-privado. O programa de compra de livros para as bibliotecas não está em questão, mas há uma preocupação quanto a outros pilares do sistema que estão regulados por acordos entre os agentes do setor, como o preço fixo e os contratos padronizados pelos quais os autores inscritos nas associações de escritores (que são praticamente todos), sejam eles Nesbø ou estreantes, recebem a mesma porcentagem de direitos de autor.

“Esperamos que haja uma mudança de Governo com as eleições do outono [boreal]. Faremos lobby para aprovar uma lei do livro que garanta o preço fixo e os contratos padronizados”, diz Trond Andreassen, secretário de Assuntos Exteriores da Associação Norueguesa de Escritores de Não-Ficção e Tradutores. “É importante defender o sistema que temos, que, acredito, vai além do custo”, afirma Gaarder. “Ganhei fora muito dinheiro que logo reverti para a Noruega: mais de 10 milhões de euros (37 milhões de reais) em impostos. De certo modo, o sistema, que é generoso, paga a si mesmo.”

A globalização deixou pouco espaço para comparar as leis de propriedade intelectual e as políticas de proteção ao escritor e à literatura na Europa. Os modelos são semelhantes, embora cada país se destaque por algo e se diferencie por sua melhor ou pior aplicação. A França é considerada um modelo por seu respeito à entidade do escritor; a Irlanda, um paraíso em termos fiscais (nenhum criador, nem o U2, paga imposto por sua obra); os nórdicos são conhecidos pela promoção da cultura. E a Noruega, onde a ostentação é um pecado e a modéstia se exerce como grande virtude, pode se orgulhar de ter um sistema que permite que um autor, mesmo fora do grupo dos best-sellers, busque seu sonho. Não é uma quimera. No país dos fiordes, pode-se viver da literatura sem ser comercial.

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