Contando e Cantando (Volume 2)

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A fantástica fábrica de bibliotecas

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O Instituto Ecofuturo já criou 107 bibliotecas comunitárias por todo o país e acaba de anunciar a construção de outras seis

Danilo Venticinque, no Estadão

Há alguns meses mencionei aqui no blog o Instituto Ecofuturo, vencedor do prêmio Pró-Livro em 2016. De lá para cá, o instituto anunciou a criação de mais seis bibliotecas comunitárias—duas no Rio Grande do Sul e quatro no Maranhão. É uma boa oportunidade para escrever um pouco mais sobre um dos mais bem-sucedidos projetos de incentivo à leitura no Brasil.

Criado há 18 anos pela Suzano Papel e Celulose, o instituto tem uma série de projetos relacionados a sustentabilidade e promoção da leitura. Entre eles está a criação de 107 bibliotecas comunitárias por todo o país.

“Qualquer investimento em incentivo à leitura é válido. Mas para evitar que os projetos apenas enxuguem o gelo e não resolvam o problema, deve-se ir além das ações óbvias como doar e distribuir livros e olhar para o cerne do problema”, afirma Marcela Porto, superintendente do instituto. “O problema da leitura no país não é a falta de livros”

O cerne do problema, segundo pesquisas encomendadas pelo instituto, é o acesso a espaços de leitura. “O governo federal tem um bom programa de distribuição de livros e esses livros chegam às escolas. São livros de qualidade, escolhidos por um colegiado competente. O problema é que esses livros não ficam acessíveis para a população em geral, e muitas vezes nem mesmo para a própria comunidade escolar”, diz Marcela.

A explicação está nos critérios usados para avaliar escolas. “Como esses livros são patrimônio público, e as escolas são avaliadas no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) pelo bom uso do patrimônio público, escolas que não têm bibliotecas ou espaços de leitura preferem deixar os livros guardados numa sala fechada para evitar que eles sejam roubados ou danificados”, afirma. “Muitas vezes chegamos a escolas e os livros estão lá, mas não estão acessíveis para o estudante”.

As bibliotecas comunitárias do Instituto Ecofuturo foram pensadas para suprir essa necessidade. Todas cumprem requisitos básicos como uma metragem mínima de 50 metros quadrados, acessibilidade, luz natural e um mobiliário adequado para crianças e adultos, já que as bibliotecas atendem tanto às escolas quanto às comunidades ao seu redor.

Cada uma das bibliotecas é abastecida por um acervo de livros selecionados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, além de títulos escolhidos pela própria comunidade. O instituto também oferece cursos de auxiliar de biblioteca, promoção da leitura e educação socioambiental para cerca de 40 pessoas em cada uma das comunidades. “Os cursos garantem que o investimento inicial vai se perpetuar por um bom tempo”, diz Marcela.

Para ampliar o impacto das ações, o instituto faz diversas parcerias com outras empresas, além da Suzano Papel e Celulose. As duas novas bibliotecas no Rio Grande do Sul, por exemplo, serão financiadas pela RGE, uma empresa do grupo CPFL Energia, com um investimento de R$ 700 mil. Projetos anteriores já foram financiados por empresas como a Avon, Fundação CSN, Philips e Telefônica. Também há parcerias com as prefeituras dos municípios em que são instaladas as bibliotecas para a contratação de pessoas responsáveis pela manutenção da biblioteca e a promoção da leitura.

O resultado de tudo isso são bibliotecas vivas, cada uma delas realizando em média cerca de 500 atendimentos por mês. Numa conta rápida, são mais de 50 mil atendimentos por mês em todo o país. Com a construção das novas bibliotecas, o número deve continuar aumentando.

Doar e distribuir livros é um belo gesto, mas ações pontuais não são suficientes para resolver o problema da falta de leitores no Brasil. O sucesso das bibliotecas comunitárias do Ecofuturo é um exemplo de como empresas comprometidas com o incentivo à leitura podem causar um grande impacto no longo prazo. Se mais empresas seguirem o exemplo, estaremos mais perto de construir um país de leitores.

Escola no Brasil reproduz loucamente a desigualdade, declara pesquisador

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O pesquisador Ricardo Paes de Barros

O pesquisador Ricardo Paes de Barros

Érica Fraga, na Folha de S.Paulo

As escolas no Brasil não oferecem aos alunos de baixa renda oportunidades de ascensão social. Ao contrário, elas reforçam as diferenças educacionais herdadas do ambiente familiar.

“A escola brasileira é loucamente reprodutora de desigualdade”, diz o pesquisador Ricardo Paes de Barros.

PB, como é conhecido, se tornou referência no estudo de temas como pobreza, desigualdade de renda, mercado de trabalho e educação.

Depois de quatro anos como subsecretário de Ações Estratégicas no governo de Dilma Rousseff, assumiu o posto de economista-chefe do Instituto Ayrton Senna (IAS) e passou a lecionar no Insper.

Desde então, tem se dedicado a buscar e testar evidências de que a introdução de habilidades socioemocionais nos currículos tem impacto educacional positivo.

Para ele, se a escola brasileira sair na frente com um ensino que estimule características como curiosidade, criatividade e persistência, talvez elimine uma década de atraso na educação:

“É importante que a escola estimule a curiosidade, a flexibilidade para buscar diferentes caminhos. Se a escola faz o contrário e destrói a autoconfiança do aluno, ela matou o aluno pobre.”

RAIO-X

RICARDO PAES DE BARROS, 62

Formação
Mestrado em estatística pelo Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) e doutorado em economia pela Universidade de Chicago

Cargo atual
Economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper

Carreira
Pesquisador do Ipea por mais de 30 anos e subsecretário de Ações Estratégicas da Presidência da República (2011-2015)

*

Folha – O que te atraiu na pesquisa sobre habilidades socioemocionais?
Ricardo Paes de Barros – Foi a Viviane [Senna, presidente do IAS] que mandou [risos]. Eu acredito nas preocupações dela.

O ensino dessas habilidades tem impacto positivo?
Cientificamente, a gente sabe que isso é a questão? Não. Mas tem um monte de evidência que aponta que talvez seja, sim. Os problemas humanos hoje são muito menos do tipo ter uma doença que não sabemos de onde vem, e muito mais o fato de que as pessoas não conseguem se entender.
Falta capacidade para resolver conflitos, ter compaixão e lidar com a diversidade. Numa economia que é mais globalizada, se você não tem essas características, vai gerar mais conflito e confusão do que não saber trigonometria ou geometria espacial.

Por que esse tema está em evidência? Há quem cite mudanças no mercado de trabalho.
Eu tenho dúvida. Acho que as pessoas estavam muito preocupadas com letramentos básicos, saber ler, escrever, fazer contas. Depois que você supera isso, o cara fala “bom, espera aí, será que educação é só isso?” É a mesma coisa que qualidade de vida. A gente começa perguntando se você passa fome, se sua casa tem luz, saneamento. Mas, quando você faz pesquisa sobre qualidade de vida na Suécia, tem que usar uma dimensão mais sofisticada.

Faz sentido focar nesse tipo de ensino Brasil, onde ainda não atingimos o domínio de letramentos básicos?
É uma boa questão. Não acho que você tenha uma demonstração definitiva disso. Mas o Brasil está tão atrasado que, se continuar andando na velocidade de todo mundo, nunca vai chegar lá.
Investir nisso pode te permitir andar mais rápido do que os outros. A noção de escola e o que a escola faz está mudando. A Coreia e a Finlândia estão desesperadas tentando descobrir para onde vão suas escolas. O Brasil tem que dar um salto para, em vez de seguir todo o caminho dos outros caras, dar um balão e encontrar o cara.

Nesses países, a preocupação é que, se você estimular a criatividade, o pensamento crítico, a curiosidade, pode dar um salto, porque o cara com essas características quase aprende sozinho.
Mas, para isso acontecer, ele tem que saber aprender, tem que ter meta, ser criativo, curioso. Se você criar uma geração de crianças que já tenham isso, pode ser então que você dê um salto.

Os estudos que vocês têm feito mostram que isso é possível?

A evidência não prova que isso é verdade, mas é consistente com que seja. Se você fala “deixa a Finlândia fazer isso” você pode estar naturalizando décadas de atraso.

A escola no Brasil contribui para reduzir a desigualdade?
A escola brasileira é loucamente reprodutora de desigualdade. O Brasil é um dos países onde o ambiente familiar mais influencia o resultado educacional. Não só temos pouca escolaridade, mas a escolaridade que temos é completamente dependente do ambiente familiar, o que é um absurdo.
Por isso, é importante que a escola estimule a curiosidade, estimule a ter flexibilidade para buscar diferentes caminhos. Se a escola faz o contrário e destrói a autoconfiança do aluno, ela matou o aluno pobre. Porque se ela afeta a autoconfiança do aluno rico, a mãe e o pai chegam lá e a reconstroem, eles falam “esquece esse professor, ele é maluco”. Agora, se o professor destrói a autoconfiança do aluno pobre, a mãe vai e destrói junto. Ela acredita que, se a escola disse que o aluno é burro, é porque ele é burro mesmo. Se a escola ensina para o aluno que o mundo é diverso e flexível e que ele precisa ter autoconfiança e persistir, ela elimina o impacto do ambiente familiar.

Colocar o ensino de habilidades socioemocionais na base [nacional comum curricular] é uma aposta de que isso poderá nos fazer ganhar uma década.

Como avançar da base para a prática em um país tão grande e diverso como o Brasil?
O fato de o país ser diverso não me assusta. Você precisa fazer com que o aluno seja curioso, criativo, tenha senso crítico. O básico é o mesmo para todo mundo. Mas estamos longe de especificar o básico. O que está escrito na base é muito amplo.

Como deveria ser?
A base australiana ou as bases das províncias do Canadá são muito mais específicas sobre o que significa cada coisa que você tem que ensinar e dão muito mais dicas ao professor sobre como ensinar. Os Estados e os professores em sala de aula vão ser obrigados a fazer isso aqui.

Qual é o impacto da crise atual para a educação?

Claro que é péssimo, tira um monte de dinheiro da educação porque a arrecadação cai, atrapalha a pobreza.
Mas mostra o quanto o socioemocional é importante, porque estamos falando de valores, ética. Você tem uma crise em que as pessoas perderam a noção do que é certo e errado, de ética, do que pode e não pode fazer. No Japão, metade das pessoas já teria se suicidado se tivesse se envolvido numa coisa dessa magnitude. Ou seja, a noção do certo ou errado é mais sólida.
O cara falsifica carne e perde mercado. Não tem nada de produtivo nisso, é um problema de um querendo levar vantagem no outro, escondendo, mentindo. Não estamos sabendo resolver certos conflitos, se fazer greve é bom ou ruim. Daqui a pouco, as pessoas vão começar a se questionar se pagam imposto ou não. Isso é um problema socioemocional, de valor, atitude, ética, de tomar decisões coletivas.

Jojo Moyes defende que suas histórias de amor são também políticas

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Escritora britânica Jojo Moyes vem ao Brasil pela primeira vez para encontro com fãs - Leo Martins Leia mais: https://oglobo.globo.com/cultura/livros/jojo-moyes-defende-que-suas-historias-de-amor-sao-tambem-politicas-21312296#ixzz4gaPvoIFp stest

Escritora britânica Jojo Moyes vem ao Brasil pela primeira vez para encontro com fãs – Leo Martins

Escritora que mais vendeu no Brasil no ano passado vem ao país pela primeira vez

Leonardo Cazes, em O Globo

RIO – “O que aconteceu com a minha vida?” Essa é a pergunta que a escritora britânica Jojo Moyes se faz todos os dias ao acordar, desde que seu romance “Como eu era antes de você” (Intrínseca), de 2012, se tornou um best-seller mundial e foi adaptado para o cinema. Apesar de ter sido lançado no Brasil em 2014, o livro virou uma febre no país apenas no ano passado, na esteira do filme protagonizado por Sam Claflin e Emilia Clarke. Foram 352.330 exemplares vendidos — mais que o dobro de “Harry Potter e a criança amaldiçoada” (Rocco) —, garantindo o posto de campeão de vendas em 2016. “Depois de você” (Intrínseca), a continuação de “Como eu era…”, ficou em terceiro lugar, e Jojo foi a autora mais vendida no ano. Seus 11 livros publicados no país somam mais de 2 milhões de exemplares vendidos.

A autora repetiu mentalmente a mesma pergunta ao acordar, ontem, na suíte de um hotel cinco estrelas na Zona Sul. A vista da Praia de Ipanema nas primeiras horas da manhã deixou Jojo embasbacada e ela não conseguiu dormir mais. Na sua primeira visita à América do Sul, para dois encontros com fãs promovidos por sua editora no Rio e em São Paulo, a escritora, de 47 anos e mãe de três filhos, ainda se surpreende com a vida de autora popstar.

— Nas redações da imprensa inglesa, costuma-se dizer: seja legal com todo mundo quando você está subindo, porque você não sabe quem vai encontrar quando estiver descendo. É como eu me sinto em relação à vida — diz Jojo, que trabalhou durante dez anos como jornalista antes de se dedicar exclusivamente aos romances, em entrevista ao GLOBO, na tarde de ontem, na suíte onde está hospedada. — Esta é uma vida muito legal, as pessoas são muito legais com você. Mas, quando você é mais velho, sabe que teve muitas experiências antes de chegar ali e que isso pode acabar no dia seguinte.

SUCESSO TARDIO

A fala realista da autora não é à toa. O sucesso chegou na sua vida quando ela já não o esperava mais. Após oito livros lançados, seu editor não gostou da ideia para “Como eu era antes de você”: uma ex-garçonete consegue um emprego de cuidadora de um homem rico, inteligente e bonito que ficou tetraplégico após um acidente de moto, os dois se apaixonam, mas o mocinho não suporta a sua condição e decide pôr fim à própria vida por meio da eutanásia. A trama não tem um final feliz e aborda um assunto tabu em todo o Ocidente. Quem encorajou Jojo a seguir em frente foi seu marido, com uma frase exemplar do humor negro britânico: “Esse será o livro que finalmente vai acabar com a sua carreira”. Não só não acabou com a carreira dela como deu origem a duas continuações. Após “Depois de você”, Jojo está terminando de escrever o terceiro e último volume protagonizado pela ex-garçonete Louisa Clark.

— Eu não esperava ter nenhum leitor para “Como eu era antes de você”. Eu consigo entender por que meu editor não gostou muito da minha ideia. Eu não sabia se o livro seria publicado. Meu marido me encorajou a escrever o livro e depois pensar nisso. Eu falei que isso significava ficar um ano trabalhando sem ganhar nada. Ele respondeu que a decisão era minha. Eu escrevi “Como eu era antes de você” com a certeza de que, se ninguém quisesse publicar, eu ia colocá-lo na internet. Era uma história que eu precisava contar — diz Jojo.

A autora afirma ter ficado muito surpresa com a repercussão do livro no Brasil. Por ser um país bastante religioso, um romance que aborda a eutanásia poderia afugentar potenciais leitores. Mas não foi isso que aconteceu. Jojo afirma que foi muito cuidadosa ao escrever a história e arrisca uma explicação para tamanho sucesso:

— Eu nunca achei que o livro fosse se tornar popular num país como o Brasil. A primeira coisa que meu pai me disse quando escrevi o livro foi: “Você vai arrumar problemas”. Eu fui muito cuidadosa na escrita, busquei olhar a situação por todos os ângulos. Eu estava interessada em pensar sobre quem vive uma situação desse tipo, se você é alguém que decide colocar fim na própria vida pela eutanásia ou ama alguém que toma essa decisão. O que acontece com as pessoas que vivem uma situação dessas? Não se trata de certo ou errado.

HERANÇA JORNALÍSTICA

Jojo acredita que herdou do jornalismo esse interesse pelas experiências extraordinárias das pessoas comuns. A maioria de suas protagonistas são mulheres da classe trabalhadora. Cuidadoras, faxineiras, garçonetes, que, em geral, aparecem na literatura apenas como vítimas de assassinatos ou obcecadas por bolsas de marca, segundo ela. A autora conta que se identifica com as suas personagens.

— É muito importante para mim contar essas histórias porque eu fui essa mulher. Hoje não mais, mas eu já fui como elas — lembra Jojo. — Se você escreve ficção nos tempos atuais e ignora o fato de que, para muitas pessoas, ganhar dinheiro suficiente para viver é uma preocupação diária, então não acho que você esteja refletindo a vida. Eu tento narrar a vida comum, mas ao mesmo tempo introduzir alguns elementos dos contos de fada, da magia, do extraordinário. É nisso que eu estou interessada.

Bastante ativa nas redes sociais, não é difícil encontrar publicações da autora sobre temas quentes da política atual, como as eleições na França, anteontem, a disputa partidária inglesa e a saída do Reino Unido da União Europeia. Jojo recusa o rótulo de autora de “histórias de amor” e afirma que a política está sempre presente. A cada vez que começa a escrever um romance, ela pensa que tipo de mensagem aquela história vai passar:

— O pessoal é político. Se escrevo um livro de não ficção sobre como os ricos estão ficando mais ricos e os pobres, mais pobres, quem vai ler? E se eu escrevo um livro sobre uma mulher com um filho talentoso que merece uma chance melhor na vida, e um homem que teve todas as oportunidades, mas não conseguia ver isso? O que acontece quando essas duas visões de mundo se encontram? — questiona, referindo-se à trama de “Um mais um” (Intrínseca). — Na Europa, há uma enorme falta de empatia com a posição do outro. A ficção tem o papel de promover a empatia. Eu não consigo imaginar como ser um autor e não tocar na política.

5 livros para entender o Brasil de 2017

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Líderes do PCC que deram início a rebelião no Rio Grande do Norte (Josemar Goncalves/Reuters)

Líderes do PCC que deram início a rebelião no Rio Grande do Norte (Josemar Goncalves/Reuters)

 

Especialistas em direito, sociologia e ciência política indicaram obras para explicar as consequências do ano de 2016 para o país neste ano

Clara Cerioni, na Exame

São Paulo – Após um 2016 cheio de reviravoltas, o que esperar de 2017? No ano passado, vimos a conclusão do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e as novas propostas para educação e saúde do novo presidente Michel Temer. Além disso, o final do ano foi marcado pela explosão de rebeliões nos presídios.

Para que você não seja pego de surpresa em 2017, EXAME.com conversou com professores de ciência política, direito e sociologia para saber quais livros explicam o Brasil atual.

Veja abaixo a lista completa:
Junto e misturado: uma etnografia do PCC

 

Nesta obra, indicada por Paulo de Tarso, pesquisador sobre o sistema carcerário do país, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, o leitor é apresentado ao universo do Primeiro Comando da Capital, o PCC. A leitura é necessária para entender o que acontece dentro dos presídios brasileiros, que nas últimas semanas têm sido palco de diversas rebeliões e massacres.

De acordo com o pesquisador, o livro esclarece a incapacidade do Estado em controlar os presídios brasileiros e explica o desenvolvimento histórico da maior organização criminosa do Brasil.

“Essas organizações, ao perceberem o afastamento do Estado de suas responsabilidades, passaram a se organizar e se articular como substitutos. Em simples palavras, fenômenos como o PCC são consequências da falta do governo de suas funções básicas no sistema carcerário”, diz o pesquisador.

Autor: Karina Blondi / Editora: Terceiro Nome
A miséria governada através do sistema penal

 

Outra indicação do pesquisador Paulo de Tarso é o livro “A miséria governada através do sistema penal”. Nesta obra, o especialista destaca a produção teórica do Instituto Carioca de Criminologia, sobre questões básicas do sistema carcerário brasileiro. De acordo com Tarso, essa obra permite entender a evolução dos problemas causados pela ausência de uma política pública nas prisões. Além disso, o livro apresenta o quadro da criminalização da pobreza.

“O Estado idealizou que bastaria a população ter mais acesso econômico para resolver todas as questões sociais e criminais do país, mas não foi isso que aconteceu.”

Autor: Alessandro de Giorgi / Editora: Revan
Juventude e Ensino Médio

 

O governo Temer apresentou em setembro uma proposta para reformar o Ensino Médio no Brasil, que deve ser votada pelo Senado no começo de fevereiro. Para entender quais podem ser as consequências dessas mudanças na educação, o professor Marcos Villela Pereira, da Escola de Humanidades da PUCRS indicou o livro “Juventude e Ensino Médio”.

De acordo com o especialista, essa obra pode auxiliar a comunicação entre professores e estudantes por apresentar um panorama dos jovens do país e questionar por que se deve repensar o Ensino Médio nos dias de hoje.

Autores: Juarez Dayrell; Paulo Carrano; Carla Linhares Maia / Editora: UFMG
Impeachment: instrumento da democracia

 

Esta obra, indicada pelo professor de direito da PUCRS José Carlos M. da Silva Filho explica o processo do impeachment, pela visão de diversos advogados e juristas do Brasil. O livro esclarece os mecanismos e os conceitos judiciais usados para embasar o pedido e o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

Autor: Instituto dos Advogados de São Paulo / Editora: IASP
A difícil democracia – reinventar as esquerdas

 

O processo de impeachment que se arrastou pelo ano de 2016 foi decisivo para consolidar o enfraquecimento do Partido dos Trabalhadores (PT) e auxiliar a ascensão de figuras políticas alinhadas com a direita. Por isso, para este ano, de acordo com o professor de direito da PUCRS, o desafio de partidos de esquerda é “reinventar o conceito e os posicionamentos desta política”.

A obra indicada pelo especialista aborda este tema pela visão de um cientista político, que propõe uma reflexão sobre experiências sociais e políticas atualmente.

Professores e currículo têm de estar alinhados, diz educador de Cingapura

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Lee Sing Kong, 65, liderou mudanças na formação de professores em Cingapura

Lee Sing Kong, 65, liderou mudanças na formação de professores em Cingapura

 

Renata Cafardo, na Folha de S.Paulo

O reconhecimento que já aparecia na economia chegou à educação para Cingapura, pobre ex-colônia inglesa que é hoje um dos países mais desenvolvidos do mundo.

Seus estudantes, pela primeira vez, apareceram no topo dos rankings do Pisa, a mais importante avaliação internacional de educação. A prova tem questões de ciência, leitura e matemática e é feita pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

A pequena nação asiática deixou para trás antigos campeões do Pisa, como China e Finlândia. Os resultados foram divulgados em dezembro.

“A chave do sucesso é que todos os componentes do sistema educacional precisam estar alinhados. Se muda o currículo, a formação de professores precisa mudar também”, contou à Folha, Lee Sing Kong, 65, um dos responsáveis pela transformação do ensino no país.

Em 2009, o Ministério da Educação de Cingapura determinou que as escolas precisavam formar estudantes “para serem relevantes no século 21” e remodelou todo o sistema com esse objetivo. Entre as habilidades que tinham que ser desenvolvidas estavam o forte pensamento crítico, a boa comunicação e o trabalho em grupo.

Lee liderou a mudança no instituto de formação de professores do país, ligado ao ministério. “Antes da aula, o aluno já procura no Google o tópico que será estudado. E faz perguntas muito difíceis. O professor precisa compreender esse cenário e entender como os estudantes aprendem.”

Mas a base para o êxito atual no Pisa começou a ser construída assim que o país se tornou uma República, em 1965. Até então, quase metade dos jovens abandonava a escola. Um sistema flexível passou a permitir que crianças com dificuldade tivessem mais tempo para terminar os ensinos fundamental e médio. Bons profissionais foram atraídos para a carreira de professor, que teve o salário equiparado ao de um engenheiro.

A educação hoje é a segunda área com mais investimentos do governo. Perde apenas para defesa.

Lee foi um dos palestrantes deste mês na Academia de Ciências de Nova York, uma das mais importantes organizações científicas do mundo. O educador hoje ocupa o cargo de vice-presidente da Nanyang Technological University, universidade pública que abriga o único instituto de formação de professores do país.

Ele diz não haver contradição entre o esforço para formar jovens com pensamento crítico e a situação política de Cingapura. O país é governado há décadas pelo mesmo partido, elogiado pela eficiência e incorruptibilidade, mas acusado de restringir liberdades.

Cingapura tem 5,5 milhões de habitantes. Suas 369 escolas atendem 450 mil estudantes, metade da rede municipal de ensino de São Paulo.

Folha – Como o resultado do Pisa foi recebido no país?
Lee Sing Kong – Ficamos felizes porque ele mostrou que estamos indo no caminho certo. Mas não faremos nenhum evento específico para festejar. O Pisa não é o objetivo da nossa educação, queremos educar nossos alunos para serem relevantes no século 21.

Que mudanças foram feitas para que eles passassem a ser formados dessa maneira?
Fizemos uma grande revisão em 2009 e desenvolvemos uma modelo de formação de professores para o século 21. O estudante agora é o centro da educação. O aprendizado no século 20 era passivo, hoje é ativo. Nós temos que permitir que os alunos sejam responsáveis pelo seu próprio aprendizado e os professores são os facilitadores, não o principal fornecedor de conteúdo.

Uma das competências que desenvolvemos foi ensinar com questionamentos corretos, com perguntas, ajudando a criança no processo do conhecimento. Isso faz com que desenvolvam um pensamento extremamente crítico.

Como é a formação na prática?
Criamos as chamadas salas de aula colaborativas em nosso instituto que forma professores. As ferramentas para o século 21 (colaboração, empreendedorismo, pensamento crítico, comunicação) não podem ser adquiridas em ambiente de conhecimento passivo. Então, nossos estudantes se sentam em grupos. Quando se tornam professores, levam essa experiência para a escola.

Formamos um thinking teacher (professor pensador), que sabe como se adaptar, inovar e reconfigurar a sala de aula. Ele precisa escolher o melhor jeito de ensinar cada assunto. Além disso, 35% do tempo do currículo é para prática nas escolas, com supervisão de professores seniores.

Vocês identificaram também um novo perfil de aluno.
Os alunos hoje gostam de aprender com experimentos, imagens interessantes, participando do processo e se conectando em grupo. Professores precisam criar atividades em que os jovens realmente façam parte. O conhecimento está em qualquer lugar. Antes da aula, o aluno já procura no Google o que será estudado e faz perguntas muito difíceis. O professor precisa compreender o cenário e entender como os estudantes aprendem.

O Pisa mostrou que os estudantes de Cingapura estão entre os mais motivados para estudar. Como conseguir isso?

Primeiro, é preciso mostrar a relevância do estudo. Depois, trazer para a sala de aula problemas do mundo real, para eles pensarem e aplicarem o conhecimento. Por exemplo, ao ensinar fotossíntese, dizemos por que ela é relevante, ou seja, porque muito da sua comida é produzida por meio dela.

Mas os professores também precisam estar motivados para fazer mudanças.

Desde os anos 90, passamos a mensagem de que o professor é crucial no desenvolvimento do país. O Ministério da Educação aumentou o salário de um professor inicial para se tornar igual ao de um engenheiro. Havia poucas oportunidades para ele ser promovido, apenas o caminho administrativo. Mas há ótimos professores que não querem ser diretores. Criamos a carreira de professor master e sênior, com salários equiparados aos do diretor. Aos poucos, a sociedade começou a reconhecer o valor deles.

No Brasil, o governo está criando uma Base Curricular Nacional. Como fizeram isso?
Se vamos viajar, precisamos saber bem o destino. Em Cingapura, ele é o que chamamos de Resultados Desejados da Educação (Desired Outcomes of Education).

Nós sabemos como queremos educar nossos alunos. Eles têm que ter habilidades para serem relevantes no tempo em que vivem (integridade, pensamento crítico, curiosidade, amor a Cingapura). Só quando estabelecemos isso, pudemos falar sobre qual currículo era necessário. Quais atividades e avaliações.

Nosso currículo é sempre revisado, quando se inclui tópicos, outros são tirados. Assim, os professores têm tempo suficiente para pensar em maneiras de aplicá-lo. E o mais importante é que os professores passaram a ser treinados assim também.
A chave do sucesso é: todos os componentes do sistema educacional precisam estar alinhados. Se o currículo vai para um lado, a formação dos professores vai para outro e avaliação para outro, como vai ter impacto? Se muda o currículo, a formação de professores precisa mudar também.

Isso é mais fácil de fazer em um país pequeno. Como ter essa integração em um país como o Brasil?
Não se pode teletransportar um modelo de um lugar para outro porque o contexto é diferente. Mas a lição que aprendemos aqui é: sim, somos um país pequeno e podemos trabalhar juntos, mas precisávamos planejar bem. No Brasil, você tem vários níveis de administração, estadual, municipal, você precisaria fazer isso talvez nesses níveis.

Outra discussão no Brasil é a flexibilização do currículo no ensino médio. Como é em Cingapura?
No ensino médio há vários caminhos vocacionais que os estudantes podem escolher. Alguns vão para o caminho mais acadêmico, outros para os práticos. Mas podem mudar se quiserem, o caminho não é um fim. O estudante pode fazer a formação prática e depois ir para os estudos acadêmicos.

O governo fala em pensamento crítico, mas Cingapura é visto como um país onde não há liberdade de expressão.
Essa é uma impressão errada. Somos um país multirracial, onde a harmonia e a paz são muito importantes. Um cidadão precisa respeitar o outro, respeitar a diversidade.

O que o governo desencoraja é falar coisas que podem afetar questões sensíveis na religião, por exemplo. Isso não é controlar sua liberdade de expressão, é uma maneira de manter harmonia e paz.

Então, os estudantes devem desenvolver pensamento crítico mesmo que seja para criticar o governo?
Claro, tem muita crítica ao governo no Facebook e o governo desliga o Facebook? Não. Os estudantes precisam saber como o mundo está se desenvolvendo e como eles vão se posicionar para se adaptar ao mundo.

RAIO X

Cargo atual Vice-presidente da Nanyang Technological University (EUA)

Cargo anterior Ex-diretor do Instituto Nacional de Educação (de 2006 a 2014)

Formação Biólogo e educador

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