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Estudantes de Caruaru-PE vão ao Chile desenvolver projeto de Robótica

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Equipe Protheus - Arquivo Pessoal Divulgação - Medalha OBR

Equipe Protheus – Arquivo Pessoal Divulgação – Medalha OBR

Eles lançaram campanha na internet para ajudar a bancar despesas naquele país

 

Três estudantes do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia de Pernambuco (IFPE) Campus Caruaru/PE – cidade que fica a 130km do Recife – foram aceitos para realizar um intercâmbio no Chile durante seis meses. A viagem para troca de conhecimentos ocorrerá do dia 31 de julho ao dia 18 de dezembro deste ano. Durante o período, os alunos Asafe dos Santos, Élton Franklin e Daniel Queiroz – do curso de Engenharia Mecânica – desenvolverão atividades na Universidad Tecnologica de Chile (Inacap). A proposta é que eles estudem matérias de Automação e Controle Industrial que não estão no cronograma do campus em Caruaru e ainda desenvolvam uma atividade prática: a criação de um drone quadricóptero para pulverização de plantações. O intercâmbio faz parte do Programa Internacional Despertando Vocações, cujo objetivo é auxiliar os estudantes sobre suas carreiras profissionais e incentivá-los ao empreendedorismo, e tem convênios com mais de 20 instituições de ensino superior, a maioria delas da América Latina.

unnamedO professor Alexander Sena, orientador do grupo no IFPE, destaca que, diferentemente de outros projetos intercambistas,  neste Programa o aluno tem de apresentar um resultado palpável dos conhecimentos adquiridos por intermédio da viagem. “Eles terão de desenvolver de fato um projeto e trazer algo, para que a gente possa validar a experiência que eles tiverem fora do país. O produto que eles vão trazer, na experiência, é um drone que seja capaz de pulverizar produtos químicos em plantações, ou seja, uma aplicação na área agropecuária para pequenas e médias propriedades. Esse tipo de equipamento já existe, mas foi desenvolvido para grandes plantações e é bastante caro, da ordem de 40 mil reais. O que eles deverão desenvolver é para plantações menores e deverá ser de baixo custo”, pontua.

Atualmente estudantes do curso superior de Engenharia Mecânica no IFPE, Asafe, Élton e Daniel já foram alunos do curso técnico de Mecatrônica na mesma instituição. Assim sendo, desde 2013 eles formam a equipe ‘Protheus’, que tem como objetivo desenvolver projetos e pesquisa na área de Robótica, além de ministrar oficinas e disseminar o conhecimento científico pela região. Entre os projetos já executados pelos estudantes, está a criação de protótipos como um robô-guia para deficientes visuais e um robô paralelo (com finalidade industrial). No ano passado, a equipe conquistou a medalha de bronze na etapa regional da Olimpíada Brasileira de Robótica (OBR).

Os integrantes deixam claro que a ideia do grupo, ao retornar do Chile, é de partilhar os conhecimentos adquiridos naquele país com os demais estudantes de Caruaru e região, por meio de palestras e oficinas. “Temos consciência de que nosso papel é contribuir para com o desenvolvimento de nossa cidade, por meio da educação e das experiências vivenciadas”, explana Daniel. “Com certeza, tanto a viagem quanto o retorno nos proporcionarão um grande crescimento, do ponto de vista intelectual, profissional e também pessoal”, pondera Élton. “Participar de um intercâmbio como este é uma oportunidade ímpar de ampliar os conhecimentos, indo além dos conteúdos ministrados em sala de aula”, observa Asafe.

 

RECURSOS

A bolsa de estudos conseguida pelos estudantes financia unicamente as mensalidades na instituição de ensino chilena. Por isso, eles precisam arrecadar fundos para as demais despesas. Para tanto, os alunos lançaram uma campanha na internet, através do endereço: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/intercambio-ao-chile .

dica:Jénerson Alves de Oliveira

Turmas com melhor desempenho têm professores mais experientes, aponta estudo

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Sala de aula (Foto: Reprodução/G1)

Sala de aula (Foto: Reprodução/G1)

 

Estudo relaciona perfil de professores com o desempenho de turmas na Prova Brasil. Dados abrangem escolas de todo o país.

Clara Campoli, no G1

As turmas de 5º ano do ensino fundamental com melhor desempenho na Prova Brasil contam com professores mais velhos, com mais de 10 anos de magistério e que acreditam no potencial de seus alunos: é o que mostra uma análise qualitativa realizada pela empresa de ciência de dados IDados. As informações, compiladas com dados de todo o país, mostram que as melhores notas saem de salas de aula com maioria de meninas e com 88% dos alunos na idade certa.

A análise, realizada pela economista Mariana Leite, baseou-se nos dados qualitativos do desempenho em matemática na Prova Brasil de 2015, além de se valer de respostas que os professores deram nos questionários relativos à avaliação. A Prova Brasil é aplicada pelo MEC e é um dos itens que integram o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

O estudo do IDados mostra que nas turmas de alto rendimento, 74,7% dos professores têm mais de uma década de experiência, contra 66,3% nas turmas que não se saíram tão bem no teste.

A idade do professor também parece influenciar: 61% têm mais de 40 anos nas boas turmas, enquanto as piores têm 45,5% de professores abaixo da faixa etária. Além disso, a presença de professores temporários é maior nas salas de baixo desempenho, com 25,8% se contrapondo aos 16,9% das melhores turmas.

“No geral, a maioria dos diretores de escola dizem que a seleção dos professores para as turmas depende do tempo de casa de cada um. Os mais experientes podem escolher turmas. Não é o caso do professor temporário, que acaba pegando turmas que dão mais trabalho e que têm mais repetentes”, comenta a economista.

Expectativas

Outro fator que chamou a atenção de Mariana Leite é a expectativa dos professores em relação aos alunos. Nas turmas de bom desempenho, 66,3% dos mestres acreditam que mais da metade dos alunos chegará ao ensino superior. O número é bem menor nas turmas de baixa performance: apenas 27% têm essa expectativa.

“A questão da expectativa do professor é um bom preditor para o sucesso escolar dos alunos, pelo menos a curto prazo”, comenta Leite.

“Não dá para saber o que vem primeiro, se é o docente que está na turma ruim e tem baixas expectativas, ou se são as atitudes dele que estimulam menos os alunos”

Formada em pedagogia, a professora Márcia Martins Barra poderia lecionar em turmas mais velhas, mas faz questão de concentrar suas energias nos estudantes na faixa etária de 10 a 12 anos. Ela se encaixa no perfil da pesquisa: tem 55 anos, leciona há 34 e é professora da Escola Municipal Cuba, no Rio de Janeiro, no bairro Zumbi.

“Toda sala tem inúmeros casos, turmas completamente heterogêneas. Em uma turma com 27 alunos, tenho 10 excelentes. A tentativa é fazer com que os outros atinjam aquele patamar. É um trabalho diário, e acho que falta experiência a muitos professores. É preciso levar o aluno mais difícil como um desafio, tentar resgatar essa criança. Não é para fazê-la se sentir menosprezada: se não sabe, vai aprender”, garante a professora.

Disciplina

Outro ponto levantado na pesquisa é a distribuição de tempo das aulas. Nas turmas que se saíram melhor na Prova Brasil, 51,2% dos professores relatam gastar mais de 10% do tempo mantendo a ordem e a disciplina. Os docentes responsáveis por turmas de baixo desempenho relatam o problema em proporção muito maior: 71,2%.

“Faz bem conseguir dar a aula da maneira que o professor gostaria, as crianças começam a ter um desempenho diferente. O trabalho não é de um dia para o outro. Se o docente não tiver o trabalho diário e desgastante, não vai ter resutado.” – Márcia Martins Barra, professora do 5º ano do ensino fundamental

“Os professores de turmas de mau desempenho falam de desinteresse, de baixa auto-estima, de indisciplina. O docente acaba gastando muito tempo tentando manter a ordem. Isso gera outro problema: só 33,1% acreditam que vão conseguir concluir 80% do conteúdo previsto até o fim do ano letivo”, analisa Leite.

Para a professora Márcia, os dados são preocupantes porque o 5º ano é a conclusão da etapa mais importante para a fundamentação escolar da criança. “Até essa etapa, somos a base. É como a construção de uma casa: se o alicerce não estiver bem feito, a estrutura não fica boa. É fundamental que o professor acredite em seu trabalho e não desista do aluno com dificuldades. Só assim é possível colher frutos da aprendizagem”, avisa a professora.

A fantástica fábrica de bibliotecas

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leitura

O Instituto Ecofuturo já criou 107 bibliotecas comunitárias por todo o país e acaba de anunciar a construção de outras seis

Danilo Venticinque, no Estadão

Há alguns meses mencionei aqui no blog o Instituto Ecofuturo, vencedor do prêmio Pró-Livro em 2016. De lá para cá, o instituto anunciou a criação de mais seis bibliotecas comunitárias—duas no Rio Grande do Sul e quatro no Maranhão. É uma boa oportunidade para escrever um pouco mais sobre um dos mais bem-sucedidos projetos de incentivo à leitura no Brasil.

Criado há 18 anos pela Suzano Papel e Celulose, o instituto tem uma série de projetos relacionados a sustentabilidade e promoção da leitura. Entre eles está a criação de 107 bibliotecas comunitárias por todo o país.

“Qualquer investimento em incentivo à leitura é válido. Mas para evitar que os projetos apenas enxuguem o gelo e não resolvam o problema, deve-se ir além das ações óbvias como doar e distribuir livros e olhar para o cerne do problema”, afirma Marcela Porto, superintendente do instituto. “O problema da leitura no país não é a falta de livros”

O cerne do problema, segundo pesquisas encomendadas pelo instituto, é o acesso a espaços de leitura. “O governo federal tem um bom programa de distribuição de livros e esses livros chegam às escolas. São livros de qualidade, escolhidos por um colegiado competente. O problema é que esses livros não ficam acessíveis para a população em geral, e muitas vezes nem mesmo para a própria comunidade escolar”, diz Marcela.

A explicação está nos critérios usados para avaliar escolas. “Como esses livros são patrimônio público, e as escolas são avaliadas no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) pelo bom uso do patrimônio público, escolas que não têm bibliotecas ou espaços de leitura preferem deixar os livros guardados numa sala fechada para evitar que eles sejam roubados ou danificados”, afirma. “Muitas vezes chegamos a escolas e os livros estão lá, mas não estão acessíveis para o estudante”.

As bibliotecas comunitárias do Instituto Ecofuturo foram pensadas para suprir essa necessidade. Todas cumprem requisitos básicos como uma metragem mínima de 50 metros quadrados, acessibilidade, luz natural e um mobiliário adequado para crianças e adultos, já que as bibliotecas atendem tanto às escolas quanto às comunidades ao seu redor.

Cada uma das bibliotecas é abastecida por um acervo de livros selecionados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, além de títulos escolhidos pela própria comunidade. O instituto também oferece cursos de auxiliar de biblioteca, promoção da leitura e educação socioambiental para cerca de 40 pessoas em cada uma das comunidades. “Os cursos garantem que o investimento inicial vai se perpetuar por um bom tempo”, diz Marcela.

Para ampliar o impacto das ações, o instituto faz diversas parcerias com outras empresas, além da Suzano Papel e Celulose. As duas novas bibliotecas no Rio Grande do Sul, por exemplo, serão financiadas pela RGE, uma empresa do grupo CPFL Energia, com um investimento de R$ 700 mil. Projetos anteriores já foram financiados por empresas como a Avon, Fundação CSN, Philips e Telefônica. Também há parcerias com as prefeituras dos municípios em que são instaladas as bibliotecas para a contratação de pessoas responsáveis pela manutenção da biblioteca e a promoção da leitura.

O resultado de tudo isso são bibliotecas vivas, cada uma delas realizando em média cerca de 500 atendimentos por mês. Numa conta rápida, são mais de 50 mil atendimentos por mês em todo o país. Com a construção das novas bibliotecas, o número deve continuar aumentando.

Doar e distribuir livros é um belo gesto, mas ações pontuais não são suficientes para resolver o problema da falta de leitores no Brasil. O sucesso das bibliotecas comunitárias do Ecofuturo é um exemplo de como empresas comprometidas com o incentivo à leitura podem causar um grande impacto no longo prazo. Se mais empresas seguirem o exemplo, estaremos mais perto de construir um país de leitores.

Escola no Brasil reproduz loucamente a desigualdade, declara pesquisador

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O pesquisador Ricardo Paes de Barros

O pesquisador Ricardo Paes de Barros

Érica Fraga, na Folha de S.Paulo

As escolas no Brasil não oferecem aos alunos de baixa renda oportunidades de ascensão social. Ao contrário, elas reforçam as diferenças educacionais herdadas do ambiente familiar.

“A escola brasileira é loucamente reprodutora de desigualdade”, diz o pesquisador Ricardo Paes de Barros.

PB, como é conhecido, se tornou referência no estudo de temas como pobreza, desigualdade de renda, mercado de trabalho e educação.

Depois de quatro anos como subsecretário de Ações Estratégicas no governo de Dilma Rousseff, assumiu o posto de economista-chefe do Instituto Ayrton Senna (IAS) e passou a lecionar no Insper.

Desde então, tem se dedicado a buscar e testar evidências de que a introdução de habilidades socioemocionais nos currículos tem impacto educacional positivo.

Para ele, se a escola brasileira sair na frente com um ensino que estimule características como curiosidade, criatividade e persistência, talvez elimine uma década de atraso na educação:

“É importante que a escola estimule a curiosidade, a flexibilidade para buscar diferentes caminhos. Se a escola faz o contrário e destrói a autoconfiança do aluno, ela matou o aluno pobre.”

RAIO-X

RICARDO PAES DE BARROS, 62

Formação
Mestrado em estatística pelo Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) e doutorado em economia pela Universidade de Chicago

Cargo atual
Economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper

Carreira
Pesquisador do Ipea por mais de 30 anos e subsecretário de Ações Estratégicas da Presidência da República (2011-2015)

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Folha – O que te atraiu na pesquisa sobre habilidades socioemocionais?
Ricardo Paes de Barros – Foi a Viviane [Senna, presidente do IAS] que mandou [risos]. Eu acredito nas preocupações dela.

O ensino dessas habilidades tem impacto positivo?
Cientificamente, a gente sabe que isso é a questão? Não. Mas tem um monte de evidência que aponta que talvez seja, sim. Os problemas humanos hoje são muito menos do tipo ter uma doença que não sabemos de onde vem, e muito mais o fato de que as pessoas não conseguem se entender.
Falta capacidade para resolver conflitos, ter compaixão e lidar com a diversidade. Numa economia que é mais globalizada, se você não tem essas características, vai gerar mais conflito e confusão do que não saber trigonometria ou geometria espacial.

Por que esse tema está em evidência? Há quem cite mudanças no mercado de trabalho.
Eu tenho dúvida. Acho que as pessoas estavam muito preocupadas com letramentos básicos, saber ler, escrever, fazer contas. Depois que você supera isso, o cara fala “bom, espera aí, será que educação é só isso?” É a mesma coisa que qualidade de vida. A gente começa perguntando se você passa fome, se sua casa tem luz, saneamento. Mas, quando você faz pesquisa sobre qualidade de vida na Suécia, tem que usar uma dimensão mais sofisticada.

Faz sentido focar nesse tipo de ensino Brasil, onde ainda não atingimos o domínio de letramentos básicos?
É uma boa questão. Não acho que você tenha uma demonstração definitiva disso. Mas o Brasil está tão atrasado que, se continuar andando na velocidade de todo mundo, nunca vai chegar lá.
Investir nisso pode te permitir andar mais rápido do que os outros. A noção de escola e o que a escola faz está mudando. A Coreia e a Finlândia estão desesperadas tentando descobrir para onde vão suas escolas. O Brasil tem que dar um salto para, em vez de seguir todo o caminho dos outros caras, dar um balão e encontrar o cara.

Nesses países, a preocupação é que, se você estimular a criatividade, o pensamento crítico, a curiosidade, pode dar um salto, porque o cara com essas características quase aprende sozinho.
Mas, para isso acontecer, ele tem que saber aprender, tem que ter meta, ser criativo, curioso. Se você criar uma geração de crianças que já tenham isso, pode ser então que você dê um salto.

Os estudos que vocês têm feito mostram que isso é possível?

A evidência não prova que isso é verdade, mas é consistente com que seja. Se você fala “deixa a Finlândia fazer isso” você pode estar naturalizando décadas de atraso.

A escola no Brasil contribui para reduzir a desigualdade?
A escola brasileira é loucamente reprodutora de desigualdade. O Brasil é um dos países onde o ambiente familiar mais influencia o resultado educacional. Não só temos pouca escolaridade, mas a escolaridade que temos é completamente dependente do ambiente familiar, o que é um absurdo.
Por isso, é importante que a escola estimule a curiosidade, estimule a ter flexibilidade para buscar diferentes caminhos. Se a escola faz o contrário e destrói a autoconfiança do aluno, ela matou o aluno pobre. Porque se ela afeta a autoconfiança do aluno rico, a mãe e o pai chegam lá e a reconstroem, eles falam “esquece esse professor, ele é maluco”. Agora, se o professor destrói a autoconfiança do aluno pobre, a mãe vai e destrói junto. Ela acredita que, se a escola disse que o aluno é burro, é porque ele é burro mesmo. Se a escola ensina para o aluno que o mundo é diverso e flexível e que ele precisa ter autoconfiança e persistir, ela elimina o impacto do ambiente familiar.

Colocar o ensino de habilidades socioemocionais na base [nacional comum curricular] é uma aposta de que isso poderá nos fazer ganhar uma década.

Como avançar da base para a prática em um país tão grande e diverso como o Brasil?
O fato de o país ser diverso não me assusta. Você precisa fazer com que o aluno seja curioso, criativo, tenha senso crítico. O básico é o mesmo para todo mundo. Mas estamos longe de especificar o básico. O que está escrito na base é muito amplo.

Como deveria ser?
A base australiana ou as bases das províncias do Canadá são muito mais específicas sobre o que significa cada coisa que você tem que ensinar e dão muito mais dicas ao professor sobre como ensinar. Os Estados e os professores em sala de aula vão ser obrigados a fazer isso aqui.

Qual é o impacto da crise atual para a educação?

Claro que é péssimo, tira um monte de dinheiro da educação porque a arrecadação cai, atrapalha a pobreza.
Mas mostra o quanto o socioemocional é importante, porque estamos falando de valores, ética. Você tem uma crise em que as pessoas perderam a noção do que é certo e errado, de ética, do que pode e não pode fazer. No Japão, metade das pessoas já teria se suicidado se tivesse se envolvido numa coisa dessa magnitude. Ou seja, a noção do certo ou errado é mais sólida.
O cara falsifica carne e perde mercado. Não tem nada de produtivo nisso, é um problema de um querendo levar vantagem no outro, escondendo, mentindo. Não estamos sabendo resolver certos conflitos, se fazer greve é bom ou ruim. Daqui a pouco, as pessoas vão começar a se questionar se pagam imposto ou não. Isso é um problema socioemocional, de valor, atitude, ética, de tomar decisões coletivas.

Jojo Moyes defende que suas histórias de amor são também políticas

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Escritora britânica Jojo Moyes vem ao Brasil pela primeira vez para encontro com fãs - Leo Martins Leia mais: https://oglobo.globo.com/cultura/livros/jojo-moyes-defende-que-suas-historias-de-amor-sao-tambem-politicas-21312296#ixzz4gaPvoIFp stest

Escritora britânica Jojo Moyes vem ao Brasil pela primeira vez para encontro com fãs – Leo Martins

Escritora que mais vendeu no Brasil no ano passado vem ao país pela primeira vez

Leonardo Cazes, em O Globo

RIO – “O que aconteceu com a minha vida?” Essa é a pergunta que a escritora britânica Jojo Moyes se faz todos os dias ao acordar, desde que seu romance “Como eu era antes de você” (Intrínseca), de 2012, se tornou um best-seller mundial e foi adaptado para o cinema. Apesar de ter sido lançado no Brasil em 2014, o livro virou uma febre no país apenas no ano passado, na esteira do filme protagonizado por Sam Claflin e Emilia Clarke. Foram 352.330 exemplares vendidos — mais que o dobro de “Harry Potter e a criança amaldiçoada” (Rocco) —, garantindo o posto de campeão de vendas em 2016. “Depois de você” (Intrínseca), a continuação de “Como eu era…”, ficou em terceiro lugar, e Jojo foi a autora mais vendida no ano. Seus 11 livros publicados no país somam mais de 2 milhões de exemplares vendidos.

A autora repetiu mentalmente a mesma pergunta ao acordar, ontem, na suíte de um hotel cinco estrelas na Zona Sul. A vista da Praia de Ipanema nas primeiras horas da manhã deixou Jojo embasbacada e ela não conseguiu dormir mais. Na sua primeira visita à América do Sul, para dois encontros com fãs promovidos por sua editora no Rio e em São Paulo, a escritora, de 47 anos e mãe de três filhos, ainda se surpreende com a vida de autora popstar.

— Nas redações da imprensa inglesa, costuma-se dizer: seja legal com todo mundo quando você está subindo, porque você não sabe quem vai encontrar quando estiver descendo. É como eu me sinto em relação à vida — diz Jojo, que trabalhou durante dez anos como jornalista antes de se dedicar exclusivamente aos romances, em entrevista ao GLOBO, na tarde de ontem, na suíte onde está hospedada. — Esta é uma vida muito legal, as pessoas são muito legais com você. Mas, quando você é mais velho, sabe que teve muitas experiências antes de chegar ali e que isso pode acabar no dia seguinte.

SUCESSO TARDIO

A fala realista da autora não é à toa. O sucesso chegou na sua vida quando ela já não o esperava mais. Após oito livros lançados, seu editor não gostou da ideia para “Como eu era antes de você”: uma ex-garçonete consegue um emprego de cuidadora de um homem rico, inteligente e bonito que ficou tetraplégico após um acidente de moto, os dois se apaixonam, mas o mocinho não suporta a sua condição e decide pôr fim à própria vida por meio da eutanásia. A trama não tem um final feliz e aborda um assunto tabu em todo o Ocidente. Quem encorajou Jojo a seguir em frente foi seu marido, com uma frase exemplar do humor negro britânico: “Esse será o livro que finalmente vai acabar com a sua carreira”. Não só não acabou com a carreira dela como deu origem a duas continuações. Após “Depois de você”, Jojo está terminando de escrever o terceiro e último volume protagonizado pela ex-garçonete Louisa Clark.

— Eu não esperava ter nenhum leitor para “Como eu era antes de você”. Eu consigo entender por que meu editor não gostou muito da minha ideia. Eu não sabia se o livro seria publicado. Meu marido me encorajou a escrever o livro e depois pensar nisso. Eu falei que isso significava ficar um ano trabalhando sem ganhar nada. Ele respondeu que a decisão era minha. Eu escrevi “Como eu era antes de você” com a certeza de que, se ninguém quisesse publicar, eu ia colocá-lo na internet. Era uma história que eu precisava contar — diz Jojo.

A autora afirma ter ficado muito surpresa com a repercussão do livro no Brasil. Por ser um país bastante religioso, um romance que aborda a eutanásia poderia afugentar potenciais leitores. Mas não foi isso que aconteceu. Jojo afirma que foi muito cuidadosa ao escrever a história e arrisca uma explicação para tamanho sucesso:

— Eu nunca achei que o livro fosse se tornar popular num país como o Brasil. A primeira coisa que meu pai me disse quando escrevi o livro foi: “Você vai arrumar problemas”. Eu fui muito cuidadosa na escrita, busquei olhar a situação por todos os ângulos. Eu estava interessada em pensar sobre quem vive uma situação desse tipo, se você é alguém que decide colocar fim na própria vida pela eutanásia ou ama alguém que toma essa decisão. O que acontece com as pessoas que vivem uma situação dessas? Não se trata de certo ou errado.

HERANÇA JORNALÍSTICA

Jojo acredita que herdou do jornalismo esse interesse pelas experiências extraordinárias das pessoas comuns. A maioria de suas protagonistas são mulheres da classe trabalhadora. Cuidadoras, faxineiras, garçonetes, que, em geral, aparecem na literatura apenas como vítimas de assassinatos ou obcecadas por bolsas de marca, segundo ela. A autora conta que se identifica com as suas personagens.

— É muito importante para mim contar essas histórias porque eu fui essa mulher. Hoje não mais, mas eu já fui como elas — lembra Jojo. — Se você escreve ficção nos tempos atuais e ignora o fato de que, para muitas pessoas, ganhar dinheiro suficiente para viver é uma preocupação diária, então não acho que você esteja refletindo a vida. Eu tento narrar a vida comum, mas ao mesmo tempo introduzir alguns elementos dos contos de fada, da magia, do extraordinário. É nisso que eu estou interessada.

Bastante ativa nas redes sociais, não é difícil encontrar publicações da autora sobre temas quentes da política atual, como as eleições na França, anteontem, a disputa partidária inglesa e a saída do Reino Unido da União Europeia. Jojo recusa o rótulo de autora de “histórias de amor” e afirma que a política está sempre presente. A cada vez que começa a escrever um romance, ela pensa que tipo de mensagem aquela história vai passar:

— O pessoal é político. Se escrevo um livro de não ficção sobre como os ricos estão ficando mais ricos e os pobres, mais pobres, quem vai ler? E se eu escrevo um livro sobre uma mulher com um filho talentoso que merece uma chance melhor na vida, e um homem que teve todas as oportunidades, mas não conseguia ver isso? O que acontece quando essas duas visões de mundo se encontram? — questiona, referindo-se à trama de “Um mais um” (Intrínseca). — Na Europa, há uma enorme falta de empatia com a posição do outro. A ficção tem o papel de promover a empatia. Eu não consigo imaginar como ser um autor e não tocar na política.

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