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Refugiado preso em campo de detenção ganha maior prêmio literário da Austrália

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O refugiado curdo-iraniano Behrouz Boochani Foto: ASHLEY GILBERTSON / NYT

Jornalista curdo-iraniano está detido há seis anos em Papua Nova Guiné

Publicado em O Globo

Um refugiado curdo-iraniano ganhou o maior prêmio literário da Austrália com seu livro de estreia, escrito em seu celular e entregue um capítulo de cada vez via WhatsApp. Atualmente mantido em um campo de detenção em Papua Nova Guiné, Behrouz Boochani não pôde comparecer à cerimônia de premiação. No Victorian Premier’s Literary Awards, ele foi o vencedor nas categorias Victorian Prize — o principal do país — e na de Não-Ficção, somando 125 mil dólares australianos (cerca de US$ 90 mil)

Boochani foi preso na ilha de Manus em 2013 por tentar entrar na Austrália sem um visto válido. Ele é um dos 600 refugiados mantidos em acampamentos na ilha. Segundo a CNN, ele usou seu celular para escrever o livro “No friend but the mountains: Writing from Manus prison” (“Nenhum amigo além da montanha: Escrevendo da prisão de Manus”, em tradução direta). O escritor espera que o prêmio chame a atenção para a situação de mais de mil refugiados detidos na Austrália.

“Eu não quero celebrar essa conquista enquanto ainda vejo muitas pessoas inocentes sofrendo ao meu redor”, disse Boochani à Reuters em uma troca de mensagens de texto.

Boochani tem sido um crítico proeminente da política de imigração da Austrália. Os requerentes de asilo interceptados no mar são enviados para “processamento” em três campos em Papua Nova Guiné e um na ilha de Nauru, no Pacífico Sul, onde muitos permanecem por anos.

Desde 2013, mais de 3 mil refugiados em busca de asilo na Austrália foram enviados a centros de detenção, o que já gerou diversos protestos de ativistas dos direitos humanos. O governo australiano defende a política e alega que ela é necessária para impedir que criminosos entrem no país. Em 2017, o governo fechou o centro da ilha de Manus e remanejou os refugiados. Alguns conseguiram se instalar nos Estados Unidos, mas muitos permanecem na mesma situação que Boochani.

Boochani disse que um dos seus maiores medos enquanto escrevia o livro era que seu telefone fosse confiscado pelos guardas do campo. Ele escreveu o livro em seu farsi nativo e o enviou por WhatsApp para um tradutor na Austrália.

“Ele utiliza formações narrativas distintas, da análise crítica à descrição, poesia e surrealismo distópico”, descreve o júri do prêmio em sua análise da obra. “A escrita é bela e precisa, misturando tradições literárias que emanam de todo o mundo, mas particularmente das práticas curdas. A clareza com que idéias e conhecimentos são expressos é também um triunfo da tradução literária, realizada pelo tradutor Omid Tofighian.

O escritor já colaborou com diversas publicações ao redor do mundo, inclusive o jornal britânico “The Guardian”, que publicou o discurso de aceitação do prêmio na íntegra. Nele, Boochani afirma que a conquista é a prova de “palavras ainda têm o poder de desafiar sistemas e estruturas desumanos”.

“Eu estive numa cela por anos mas por todo esse tempo minha mente sempre esteve produzindo palavras, e essas palavras me levaram para além das fronteiras, me leveram além-mar e a lugares desconhecidos. Eu realmente acredito que as palavras são mais poderosas do que os muros deste lugar, desta prisão”, escreveu Boochani.

Livros de Machado de Assis ajudaram autor da novela das sete a criar diálogos exóticos entre os personagens

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Machado de Assis | Reprodução

Publicado no TNH1

Os “congelados” da novela “O Tempo Não Para” (Globo), que acordaram mais de cem anos depois de “caírem no sono”, não tiveram que se adaptar só às roupas e aos costumes dos tempos modernos. A novela mostra com bom humor que a língua portuguesa falada hoje é totalmente diferente da usada durante o século 19. Um exemplo: no leilão de joias de Cesária (Olívia Araújo), Agustina (Rosi Campos), ao ver os lances dados pelas peças, solta a frase: “Vai encher a burra de cobres!”. Damásia (Aline Dias), agora escrava liberta, não percebe o quanto é explorada por Coronela (Solange Couto) e, quando Elmo (Felipe Simas) questiona o contrato das duas, a mocinha diz com firmeza: “Sinhá tem razão, estou apalavrada com ela”.

Diferentemente de se aproveitar de diálogos de outras novelas de época, o autor Mário Teixeira conta que se preocupou em usar palavras mais coloquiais, utilizadas no dia a dia daquele século. “Algo que me seduz muito é quando as palavras fogem do dicionário”, conta o autor, lembrando que algumas citadas pelos “congelados” nem no dicionário ele encontrou. “Só entendi o termo após me aprofundar no contexto”, completa. E revela suas fontes. “Usei basicamente os livros da época, o ‘Quincas Borba’ [1891], o ‘Memorial de Aires’ [1908], livros do Machado de Assis, que têm mais a temperatura das ruas, menos intimistas que os livros mais conhecidos dele.” Com o decorrer da trama, os personagens devem soar mais modernos, mas é difícil que percam sua essência. “É normal que incorporem termos, mas sem jamais perder a identidade léxica do seu tempo.” E vão continuar distribuindo amor, como disse Paulina (Carol Macedo) a Marocas, sua amiga do século 19. “Você diz muitas palavras difíceis, mas te entendo no olhar”.

Livros como “1984” e “Admirável Mundo Novo” estão censurados na China

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Publicado no Bem Paraná

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O governo chinês bloqueou a menção em redes sociais de palavras e termos críticos ao Partido Comunista e a Xi Jinping, que comanda o regime ditatorial no país. Entre outros, estão censurados os nomes dos livros “1984” (de 1949) e “Revolução dos Bichos” (1945), de George Orwell, e “Admirável Mundo Novo” (1932), de Aldous Huxley.

As três obras apresentam críticas a regimes autoritários. A lista de termos bloqueados foi divulgada pelo site americano China Digital Times, que monitora o bloqueio na internet chinesa. A maior parte dos termos foi censurado no Sina Weibo, espécie de Twitter local, mas outros sites, como o buscador Baidu, também foram afetados.

A decisão aconteceu após o Partido Comunista Chinês anunciar em 25 de fevereiro a decisão de mudar a Constituição do país para por fim ao limite de uma reeleição. A manobra foi interpretada como uma ação de Xi para se manter no poder indefinidamente e foi recebida com memes e reclamações nos principais sites do país. Imediatamente após o anúncio foram bloqueadas alguns termos ligados diretamente ao assunto, como “limite de mandato”.

Na sequência, porém, a censura foi ampliada para abarcar outras palavras que estavam sendo usadas nas críticas. Assim, os internautas chineses não conseguem, por exemplo, fazer menções ao Ursinho Puff, personagem da Disney (que também teve seu nome bloqueado) que costuma ser comparado a Xi na China. Também não podem escrever Xi Tsé-Tung, um trocadilho que une o nome do atual líder com o de Mao Tsé-tung, fundador da China comunista, que comandou o país entre 1949 e 1976. Foram censurados ainda uma série de referências ao Império Chinês, como “meu imperador” e “ascender ao trono” e nomes históricos ligados ao tema, como o de Yuan Shikai, primeiro presidente do país e que tentou restaurar a monarquia no início do século 20. Muitos internautas compararam Xi aos antigos imperadores após o anúncio do fim do limite de reeleição.

Termos que podem ser usadas em críticas ao atual líder, como “sem-vergonha”, “discordar”, “eu me oponho” e “líder incapaz” também entraram na lista de palavras proibidas. A censura incluiu ainda o uso da letra “N”, mas não está clara a razão ?alguns analistas acreditam que ela poderia ser usada para se referir ao número de mandatos que o atual presidente poderia exercer. O bloqueio feito na internet chinesa é intermitente, com algumas palavras sendo liberadas e depois proibidas novamente em poucos dias. Por isso, parte dos termos não está mais censurada.

Software que detecta plágio descobre uma nova fonte de inspiração de Shakespeare

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Publicado no Zero Hora [ via New York Times]

Por anos, estudiosos vêm debatendo o que teria inspirado os escritos de Shakespeare. Agora, com ajuda de um software usado normalmente por professores para descobrir se os alunos copiaram seus textos, dois escritores descobriram um manuscrito nunca publicado que acreditam ter sido consultado pelo bardo de Avon para escrever “Rei Lear”, “Macbeth”, “Ricardo III”, “Henrique V” e outras sete peças.

A notícia atraiu a atenção dos shakesperianos.

“Se ficar provado que é o que eles dizem, teremos uma descoberta única nesta geração – ou em várias gerações”, diz Michael Witmore, diretor da Biblioteca Folger Shakespeare, de Washington, D.C.

As descobertas foram feitas por Dennis McCarthy e June Schlueter, que as descrevem em um livro publicado em 16 de fevereiro pela editora acadêmica D.S. Brewer e pela Biblioteca Britânica. Os autores não estão sugerindo que Shakespeare plagiou, mas que ele leu e se inspirou em um manuscrito intitulado “A Brief Discourse of Rebellion and Rebels” (“Um Breve Discurso sobre Rebeliões e Rebeldes”, em tradução livre), escrito no final dos anos 1500 por George North, uma figura sem muita importância da corte da rainha Elizabeth, que foi embaixador na Suécia.

“É uma fonte que está sempre aparecendo. Afeta a linguagem, modela as cenas e, de certa forma, realmente influencia até mesmo a filosofia das peças”, explicou McCarthy, um estudioso autodidata de Shakespeare, durante uma entrevista em sua casa em North Hampton, em New Hampshire.

Ao rever o livro antes de sua publicação, David Bevington, professor emérito de Humanidades da Universidade de Chicago e editor de “The Complete Works of William Shakespeare (7th Edition)”, chamou a descoberta de “revelação” pelo grande número de correlações com as peças, eclipsada apenas pelas crônicas de Holinshed e Hall e pelo livro “Vidas Paralelas”, de Plutarco.

Martin Meisel, professor emérito de Literatura Dramática da Universidade Columbia, disse em outra avaliação que o livro tem “argumentos impressionantes”. Ele afirmou que não há dúvida de que o manuscrito “deve ter ocupado algum lugar na mistura da paisagem mental de Shakespeare” enquanto ele escrevia as peças.

McCarthy se apropriou de técnicas decididamente modernas para preparar sua evidência, utilizando o WCopyfind, um software de código aberto usado para descobrir plágios, que encontrou palavras e frases em comum no manuscrito e nas peças.

Na dedicatória de seu manuscrito, por exemplo, North exorta aqueles que se veem como feios a se esforçar para serem bonitos interiormente, para desafiar a natureza. Ele usa uma série de palavras para argumentar, incluindo “proporção”, “vidro”, “recurso”, “formoso”, “deformado”, “mundo”, “sombra” e “natureza”. No solilóquio de abertura de Ricardo III (“Este é o inverno do nosso descontentamento…”), o tirano corcunda usa as mesmas palavras quase na mesma ordem para chegar à conclusão oposta: de que como é exteriormente feio, vai agir como o vilão que parece ser.

“As pessoas não percebem como essas palavras são raras. E ele continua falando, palavra após palavra. É como um bilhete de loteria. É fácil conseguir um número em seis, mas não todos os números”, afirma McCarthy.

Os estudiosos já usam técnicas de computador na área de Humanidades há décadas. A maioria dos estudiosos, no entanto, escolhe palavras como artigos e preposições para criar a “assinatura digital” de um escritor, que pode ser usada para identificá-lo como autor ou coautor de outro trabalho, em vez de utilizar as comparativamente raras para localizar uma fonte.

Para usar o software que detecta plágio, McCarthy se inspirou no trabalho de sir Brian Vickers, que utilizou uma técnica parecida em 2009 para identificar Shakespeare como coautor da peça “Eduardo III”. Apesar de o livro ter sido recebido de maneira favorável, as técnicas estatísticas usadas ainda não foram submetidas a uma revisão rigorosa por outros estudiosos no campo das Humanidades digitais.

Essas técnicas podem apenas ser a “cobertura do bolo”, segundo Witmore, que examinou brevemente uma cópia do livro. “No geral, permanece sendo um argumento literário, não estatístico.” O livro afirma que Shakespeare não apenas emprega as mesmas palavras que North, mas em geral as usa em cenas sobre temas parecidos e utiliza até os mesmos personagens históricos. Em outra passagem, North usa seis termos para cachorros, do nobre mastiff ao humilde vira-lata e o “trundle-tail” (rabo encaracolado), para afirmar que entre os humanos, assim como entre os cachorros, existe em uma hierarquia natural. Shakespeare usa essencialmente a mesma lista de cachorros para argumentar de maneira parecida em “Rei Lear” e “Macbeth”.

Para garantir que North e Shakespeare não estavam usando fontes iguais, McCarthy colocou as frases na base de dados Early English Books Online, que contém 17 milhões de páginas de quase todos os livros publicados em inglês entre 1473 e 1700. Ele descobriu que quase nenhum outro trabalho contém as mesmas palavras em passagens do mesmo tamanho. Algumas delas são especialmente raras; “trundle-tail” aparece apenas em um único outro livro antes de 1623.

McCarthy descobriu a referência ao manuscrito de North on-line em um catálogo de um leilão de 1927, que notava que seria “extremamente interessante” comparar certas passagens com Shakespeare. Ele e Schlueter exploraram bibliotecas e arquivos por anos antes de conseguir a ajuda de um detetive de manuscritos, estudioso de documentos raros que o encontrou na Biblioteca Britânica, que havia comprado o original em 1933. (O manuscrito estava catalogado de maneira obscura, o que fez com que fosse difícil encontrá-lo.)

Em 1576, North morava em Kirtling Hall, perto de Cambridge, na Inglaterra, o estado do barão Roger North. Foi ali, segundo McCarthy, que ele escreveu esse manuscrito, ao mesmo tempo em que Thomas North, talvez um primo de George, estava ali, possivelmente trabalhando em sua tradução de Plutarco.

O manuscrito é uma crítica ácida aos rebeldes, argumentando que as rebeliões contra um monarca são injustas e condenadas ao fracasso. Apesar de Shakespeare ter uma posição mais ambígua sobre o assunto, McCarthy diz que ele claramente imitou o tratado de North no tema e nos personagens.

Um dos mais interessantes é Jack Cade, que liderou uma rebelião popular fracassada contra Henrique VI em 1450. Shakespeare descreve os dias finais de Cade em “Henrique VI, Parte 2”, no qual ele diz que estava faminto e comendo grama, antes de ser finalmente pego e arrastado pelas ruas pelos calcanhares, com seu corpo deixado para ser comido pelos corvos. Há tempos os estudiosos achavam que Shakespeare havia inventado esses detalhes, mas todos eles estão presentes em uma passagem do “Discourse” de North, na qual ele cita Cade e dois outros rebeldes famosos. McCarthy e Schlueter argumentam que Shakespeare usou esses detalhes para fazer de Cade a personificação dos três.

Cade é um personagem sem muita importância, mas McCarthy argumenta que o “Discourse” de North pode ter inspirado um dos personagens mais icônicos de Shakespeare, o Bobo de “Rei Lear”. Ele mostra a passagem memorável em que o Bobo e Lear estão perdidos em uma tempestade, e o Bobo recita uma profecia que atribui a Merlin.

Estudiosos se debruçaram por anos sobre o que ele recita, que não parece bater com qualquer profecia conhecida de Merlin. Em seu livro, no entanto, McCarthy e Schlueter alegam que a passagem foi inspirada por uma versão da profecia de Merlin que North inclui em seu “Discourse” para apresentar uma visão distópica do mundo “virado de cabeça para baixo”. McCarthy e Schlueter acreditam que essas linhas podem ter inspirado alguns temas de “Rei Lear” e mesmo o personagem do Bobo.

Apesar de concordar que a passagem influenciou a cena de “Rei Lear”, Bevington adverte contra uma leitura excessivamente expansiva, mostrando que esses assuntos também constavam de trabalhos contemporâneos, como o “Elogio da Loucura” de Erasmo. Qualquer que seja sua influência, segundo Witmore, a descoberta sugere que apesar de estudiosos terem examinado exaustivamente fontes impressas, pode haver outros manuscritos não publicados que inspiraram o bardo e ainda precisam ser descobertos.

McCarthy já está planejando novos volumes baseados em técnicas eletrônicas, na esperança de apresentar mais descobertas que elucidariam o modo em que Shakespeare escreveu suas peças.

Por Michael Blanding

Quem precisa de crítica literária? Algoritmos já leem romances e conseguem analisar a estrutura de obras de ficção

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Marcelo de Araújo, no Estadão

Aristóteles escreveu na antiguidade um texto conhecido como Poética, ainda hoje um clássico da teoria literária. Na obra, Aristóteles trata de examinar a estrutura típica de grandes obras dramatúrgicas. Quais são os elementos constitutivos de uma boa tragédia? Qual é a estrutura típica de uma narrativa trágica bem sucedida? A resposta que Aristóteles dá a essas perguntas exerce ainda hoje influência sobre a estrutura narrativa de muitos romances e roteiros para o cinema. Não é por acaso, aliás, que a Poética se tornou leitura obrigatória entre roteiristas e é adotada em muitos cursos de escrita criativa.

Aristóteles só foi capaz de identificar a estrutura narrativa típica de grandes obras dramatúrgicas porque ele conhecia praticamente todas as tragédias da antiguidade. No entanto, face à enorme quantidade de obras de ficção publicadas em nossos dias, ninguém mais pode ter a expectativa de ler um vasto conjunto de obras literárias na tentativa de identificar algumas estruturas narrativas comuns.

Não seria então possível delegarmos a máquinas a tarefa de “ler” obras literárias em nosso lugar? Uma máquina não poderia talvez identificar os “arcos emocionais” comuns a diversas obras literárias com mais precisão do que qualquer ser humano? Na verdade, isso já vem ocorrendo.

Medindo arcos emocionais

Em 2016, Andrew Reagan e colegas publicaram um artigo intitulado “Os arcos emocionais das histórias são dominados por seis formas básicas” [1]. Um algoritmo desenvolvido pelos pesquisadores, batizado de “Hedonometer”, analisou 1.327 obras literárias disponíveis no site do Projeto Gutenberg. Cada obra foi dividida em segmentos ou “janelas” de 10 mil palavras. Cada janela foi submetida então a uma “análise de sentimentos.” A análise consiste na avaliação quantitativa dos sentimentos que algumas palavras, que ocorrem nas janelas, tendem a provocar no leitor. Palavras como, por exemplo, “estupro” e “terrorista” tendem a provocar nas pessoas uma reação negativa, por oposição a palavras como “sorriso” ou “amor”.

O Hedonometer contém um dicionário com as 10 mil palavras mais frequentes no conjunto de obras a serem analisadas. A cada palavra do dicionário foi atribuído um valor que varia entre 1 e 9. Palavras que têm uma conotação negativa receberam um valor baixo, por oposição às palavras que têm uma conotação positiva. (O valor 5, intermediário entre 1 e 9, indica que a palavra é emocionalmente neutra, não desperta nenhum sentimento especial no leitor). Os valores foram atribuídos graças ao trabalho de milhares de pessoas recrutadas especialmente para essa tarefa. As três palavras que receberam a maior pontuação média foram, respectivamente, “riso”, “felicidade”, e “amor”. As três últimas palavras no ranking foram “estupro”, “suicídio”, e “terrorista” [2].

A ocorrência dessas palavras, em cada segmento de 10 mil palavras, permite ao Hedonometer avaliar a carga emocional predominante em cada segmento da obra, e retraçar as flutuações emotivas ao longo da obra como um todo. São essas flutuações emotivas que Reagan e colegas denominam de “arco emocional” da narrativa [3]. A análise de sentimento realizada pelo Hedonometer consiste na representação gráfica das flutuações emotivas ao longo de cada obra analisada. Segundo Reagan e colegas, é possível detectar, no conjunto das 1.327 obras analisadas, seis tipos básicos de arcos emocionais.

Uma história com final feliz, por exemplo, é marcada por um arco ascendente na parte final, diferentemente de narrativas com finais trágicos, que são marcadas por um arco emocional descendente. O artigo de Reagan e colegas, porém, não é o único trabalho recente que descreve o modo como algoritmos podem ser utilizados para “ler” grandes quantidades de textos literários com o objetivo de analisar certas estruturas comuns, inerentes a praticamente qualquer obra de ficção.

Detectando best-sellers

Em 2016, Jodie Archer e Matthew Jockers lançaram um livro chamado The Bestseller Code: Anatomy of the Blockbuster Novel, publicado no Brasil como O Segredo do Best-Seller (Astral Cultural, 2017). A dupla desenvolveu um programa, chamado “Bestseller-ometer”, na expectativa de poder identificar potenciais best-sellers. O programa “leu” mais de 20 mil romances buscando identificar características típicas dos títulos que entram para a lista de best-sellers do New York Times. A descrição técnica do programa aparece no último capítulo do livro. Mas o que me interessa aqui não é a descrição técnica do algoritmo, mas sim examinar algumas implicações que a difusão de programas como o “Hedonometer” e o “Bestseller-ometer” poderia ter para o mercado editorial e para a nossa compreensão acerca do conceito de “leitor.”

O número de manuscritos que editoras e agências literárias recebem todos os dias costuma ultrapassar bastante a capacidade que seus funcionários têm de ler. Histórias de livros que se tornaram sucessos literários, mas que foram inicialmente ignorados por várias editoras, se tornaram famosas. Mas isso geralmente ocorre, não porque os autores rejeitados sejam gênios incompreendidos, mas porque os profissionais do mercado simplesmente não conseguem dar conta do volume de leitura que recebem. Muitas editoras e agências literárias contratam leitores externos, que decidem quais manuscritos merecem ser avaliados para possível publicação.

Segundo Archer e Jockers, o Bestseller-ometer teria 80% de chance de detectar um manuscrito que tem o potencial para se tornar um bestseller. Se algoritmos desse tipo se tornarem correntes no mercado editorial, então, no futuro, os primeiros “leitores” de muitas obras de ficção não serão mais pessoas, mas máquinas que, para todos os efeitos, estarão realizando o mesmo tipo de atividade que os leitores contratados por editoras e agências literárias realizam.

Novos escritores, ávidos para publicar seu primeiro romance, talvez prefiram então buscar o aval de algoritmos ao invés de consultar escritores experientes ou críticos literários. Por outro lado, é possível também que muitos romances, que têm o potencial para se tornar um sucesso literário, sejam rejeitados com menos frequência, pois haverá um novo “leitor”, mais rápido e eficiente, atuando no mercado.

Lendo e aprendendo

Essa ampliação do conceito de “leitor” tem implicações jurídicas. Em setembro de 2016, pesquisadores da Google publicaram um artigo no qual descrevem o funcionamento de um algoritmo desenvolvido para gerar frases em linguagem natural [4]. O algoritmo “leu” mais de 11 mil obras de ficção para que as frases geradas pelo algoritmo fossem estilisticamente melhores do que as frases geradas por outros algoritmos para geração de linguagem natural.

Empresas como Google e Facebook vêm investindo bastante na geração de “assistentes virtuais”, capazes de responder perguntas e manter uma conversa coerente sob a forma de chats online. Programas desse tipo, na verdade, não são nenhuma novidade. Em 1966, por exemplo, Joseph Weizenbaum criou um programa de chat chamado Eliza, em homenagem à personagem de mesmo nome da peça Pigmalião (1913) de Bernard Shaw. O problema é que programas como Eliza contam com um número limitado de frases prontas, que são reutilizadas com alguns ajustes gramaticais conforme o input do interlocutor. Isso torna a interação com o programa repetitiva e pouco natural. Para evitar esse problema a Google e outras empresas pretendem desenvolver agora assistentes virtuais inteligentes, capazes de gerar frases novas e que soem naturais. Para isso, é necessário que o assistente virtual “leia” milhares de obras a fim de identificar uma diversidade de padrões e estilos de conversação, mas sem repetir literalmente as frases que lê.

O artigo publicado pelos pesquisadores da Google, no entanto, gerou um problema jurídico. As obras de ficção “lidas” pelo algoritmo não estavam em domínio público. No momento em que foram disponibilizadas online, não havia ainda sido considerada a possibilidade de que, entre os seus “leitores”, estariam também algoritmos, capazes de “ler” milhares de obras e de reutilizá-las para fins comerciais. Muitos escritores e escritoras se sentiram lesados ao saberem que suas obras haviam sido “lidas” por algoritmos, e não por pessoas.

O uso de algoritmos para a análise de obras de ficção não se limita à “leitura” de romances de maior apelo comercial. O uso se estende também à análise de clássicos da literatura. Pesquisadores poloneses desenvolveram em 2016 um algoritmo para analisar textos de autores como, por exemplo, James Joyce, Virginia Woolf, e Roberto Bolaño. Os pesquisadores constataram que muitos clássicos da literatura, diferentemente de best-sellers, têm uma estrutura fractal. Isso significa dizer que o tamanho das frases, contado em número de palavras, vai se alternando segundo padrões específicos. Esses padrões conferem à narrativa um ritmo próprio, do qual os leitores (e talvez até mesmo os autores) nem sempre são inteiramente conscientes [5].

No contexto da antiguidade, Aristóteles ainda estava em condição de conhecer praticamente todas as obras dramáticas relevantes e de examinar certas estruturas comuns a todas elas. Nos dias de hoje, porém, nenhum ser humano consegue ter sozinho essa visão de todo.

Algoritmos, eu acredito, não substituirão o trabalho de filósofos ou críticos literários. Mas algoritmos, ainda assim, podem muito bem, no futuro, vir a se tornar ferramentas indispensáveis para a análise da estrutura narrativa de obras literárias.

Marcelo de Araújo é professor de Ética e Filosofia do Direito da UFRJ e da UERJ.

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