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Como aprender um idioma 24 horas por dia… sem perceber!

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publicado no Babbel

Da próxima vez que alguém disser isso desconfie um pouco. Na maioria dos casos, isso não condiz com a verdade. Certamente, quase todos temos afazeres e muitas horas de trabalho por dia. Mas apesar disso, a frase não deveria ser: “No fim, eu acabo sempre desperdiçando muito tempo?” Muitas vezes, nós realmente precisamos de organização e um pouco de iniciativa. É necessário se dedicar um pouco e ter perseverança para aprender um idioma novo. Quando trata-se de exercitar uma língua, em muitos casos, basta usar o tempo de maneira útil e aproveitar todas as oportunidades para estudar. Nós reunimos algumas dicas simples para ajudar você a encontrar oportunidades de se aventurar no aprendizado de um idioma durante o seu dia.

1) Leia um jornal na língua estrangeira

Compre um jornal estrangeiro (muitas bancas vendem jornais internacionais. Como alternativa, você pode assinar um jornal semanal ou uma revista, por exemplo, o New Yorker) e aproveite para lê-lo durante o caminho ao trabalho, no metrô ou no ônibus etc. Não desanime se você não entender todos os vocábulos. Tente compreender as palavras através do contexto, ou sublinhe-as, procure seu significado no dicionário e faça uma lista com vocábulos que você aprendeu.

2) Malhação para o corpo e a mente!

Essa dica tem dupla utilidade. Se você malhar regularmente, certamente, você vai se sentir bem disposto. E se você seguir nossos conselhos, você também vai fazer grandes progressos. Como isso funciona? Muito simples: escolha um material de áudio, por exemplo um audiolivro, um cd – tudo no idioma que você quer aprender – ou simplesmente, ouça e repita as palavras que você aprendeu na última aula de inglês. Assim, você faz uma “malhação” dupla e o tempo na academia vai passar voando!3) Coma etnicamente

Essa é mais uma desculpa típica de pessoas que trabalham muito: “Eu não tenho tempo para absolutamente nada, nem mesmo para cozinhar. Imagine você, que toda noite, eu vou comer no quiosque dos italianos!” Ótimo! Assim, você mata dois coelhos com uma cajadada só: da próxima vez, tente fazer o pedido em italiano e enquanto você espera pela comida, você pode trocar umas palavras com o dono do quiosque e com os atendentes. Você não precisa se aprofundar nos assuntos – o importante é superar a timidez, começar a falar e se acostumar com o som da outra língua.

4) Faça amizade com seus colegas de trabalho franceses ou com sua vizinha espanhola

Existe maneira melhor de aperfeiçoar os conhecimentos de um idioma? Faça a pausa do almoço com seu colega estrangeiro, procure um tema específico para conversar e peça a ele que corrija seus erros gramaticais e de pronúncia. Se você tem um vizinho de outro país, faça o mesmo com ele: organize jantares e teste suas habilidades linguísticas. Pode até mesmo ser o início de uma nova amizade!

5) O tão merecido descanso

Não há nada melhor do que relaxar no sofá com o gato no colo e assistir a um bom filme ou ler um bom livro. Por que não unir o útil ao agradável? Assista ao filme em som original com legenda (também sempre no idioma original), de modo que você possa ler e fixar imediatamente as palavras que acabou de ouvir. Preste atenção à maneira de falar e a expressões de linguagem típicas do idioma e ponha-os em prática na primeira oportunidade. Se você preferir tentar a sorte com literatura, evite livros muito profundos e complicados, pelo menos, no início. Supostamente, alguns dos melhores poliglotas começaram a aprender idiomas estrangeiros através desenhos animados e livros infantis. Tentar não custa nada!

4 técnicas matadoras para memorizar qualquer coisa

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publicado na Super

1. Construa um “palácio da memória”
Também conhecido como “método de loci”, este dispositivo de memorização remonta à Grécia Antiga. Segundo o mito, o poeta grego Simônides de Ceos precisou identificar os corpos de pessoas que haviam morrido no desabamento de um palácio. Como ele se lembrava exatamente da localização de cada um, conseguiu assim “reconhecer” cada um dos cadáveres desfigurados.

A técnica consiste em usar a memória espacial para gravar nomes, fatos ou listas. O objetivo é criar um lugar imaginário, como uma casa ou um palácio, visualizar os móveis de cada cômodo e associar uma memória a cada um deles.

Imagine que você queira gravar os nomes de todos os presidentes brasileiros, por exemplo. Getúlio Vargas pode ser ligado à poltrona da sala e Juscelino Kubitschek, ao lustre. O ideal é que as associações entre os móveis e os elementos a serem memorizados sejam divertidas ou inusitadas – você pode associar Jânio Quadros ao quadro na parede, por exemplo.

Depois que fizer todas as associações, a ideia é percorrer mentalmente o “palácio” várias vezes, lembrando-se da posição de cada móvel e, consequentemente, dos nomes ou fatos vinculados a eles. Oradores gregos e romanos, como Cícero, usavam essa técnica para memorizar seus longos discursos.

2. Invente acrônimos, acrósticos e encadeamentos
Acrônimos são palavras formadas por letras que representam, por sua vez, outras palavras. A ferramenta de gestão CHA (Conhecimento, Habilidade e Atitude) é um exemplo.

Já os acrósticos são frases formadas por palavras cuja primeira letra é a dica para o que precisa ser lembrado. Se você quer memorizar, por exemplo, os nomes dos bairros paulistanos Mooca,Penha, Belém e Carrão, por exemplo, pode gravar a frase “Meu Pai Bebe Café”.

Outro dispositivo útil é o encadeamento, sugere o site The Memory Institute. Para guardar elementos numa determinada ordem, crie uma frase narrativa com eles. O ideal é que cada item “puxe” o outro por associação. Para gravar, nesta ordem, as palavras “menina”, “panela”, “doze”, “abóbora” e “verde”, por exemplo, você pode criar uma sentença como “A menina vendeu uma panela por doze reais ao plantador de abóboras, que ainda estão verdes”. A estrutura de encadeamento traz lógica para as palavras avulsas, além de facilitar a fixação de uma ordem.

3. Faça conexões entre informações novas e velhas

Uma das melhores formas de reter um dado é contextualizá-lo, isto é, integrá-lo aos conhecimentos que você já tem. Quanto mais conexões você fizer com os seus conhecimentos prévios, mais facilmente gravará uma novidade, dizem ao site Business Insider os autores do livro Make It Stick: The Science Of Successful Learning, Peter Brown, Henry Roediger e Mark McDaniel.

Uma ótima forma de fazer isso é aplicar, na prática, tudo que você precisa memorizar – ou, no mínimo, vislumbrar hipóteses de aplicação desses dados na vida real. Se você precisa gravar como funciona o processo de transmissão de ondas de calor, por exemplo, tente pensar nessas informações a cada vez que tiver uma xícara de chá em suas mãos num dia de frio.

4. Explore o seu próprio humor

A neurocientista Carla Tieppo, professora adjunta da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, diz que um excelente método para estimular a memória é criar imagens bizarras, engraçadas e surreais sobre o elemento que precisa ser recordado.

Se você acaba de conhecer uma pessoa, por exemplo, imagine-a numa situação esquisita, que faça você rir, e que tenha relação com o som do nome dela. É uma forma muito eficiente de gravar para sempre como ela se chama – quanto mais “cócegas” a imagem mental fizer em você, mais fácil será fixá-la, diz a professora.

Um poema de Bocage: convite à leitura

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final-sala-de-leitura-235x300Thaís Nicoleti, em Folha de S.Paulo

A 15 de setembro de 1765, nascia na cidade de Setúbal, em Portugal, um dos maiores sonetistas da língua portuguesa. Estamos falando de Manuel Maria Barbosa du Bocage, muitas vezes lembrado pela autoria de poemas eróticos ou satíricos e por uma vida desregrada que lhe rendeu muitos dissabores, até mesmo a prisão.

Foi o maior representante do Arcadismo português, tendo participado da Nova Arcádia, uma academia de belas-artes. Foi nessa instituição que adotou, como faziam os árcades, um pseudônimo. Criou-o fazendo um anagrama de seu primeiro nome e uma homenagem ao rio Sado, que banha a sua cidade. Foi assim que surgiu Elmano Sadino.

Na sua cidade natal, foi erigida uma estátua em sua homenagem. De autoria do escultor Pedro Carlos dos Reis, a peça, talhada em mármore, foi posta sobre uma coluna coríntia. O monumento, de 12 metros de altura ao todo, foi instalado na praça do Bocage em 1871.

A obra de Bocage está reunida nos três tomos do livro “Rimas”, publicados do fim do século XVIII ao início do XIX. A seguir, vamos degustar um soneto de Bocage que é considerado um autorretrato seu.

Magro, de olhos azuis, carão moreno,

Bem servido de pés, meão na altura,

Triste de facha, o mesmo de figura,

Nariz alto no meio, e não pequeno;

 

Incapaz de assistir num só terreno,

Mais propenso ao furor do que à ternura;

Bebendo em níveas mãos, por taça escura,

De zelos infernais letal veneno;

 

Devoto incensador de mil deidades

(Digo, de moças mil) num só momento,

E somente no altar amando os frades,

 

Eis Bocage em quem luz algum talento;

Saíram dele mesmo estas verdades,

Num dia em que se achou mais pachorrento.

 

O leitor percebe facilmente que algumas palavras não lhe são muito familiares ou mesmo que algumas delas hoje têm sentido diverso daquele que apresentam no texto. Para a boa compreensão da obra, é muito importante considerar a época em que foi produzida e tentar recuperar o sentido que as palavras evocavam então.

Logo de início, o poeta usa o termo “carão” para se referir à própria face. Pode o termo significar apenas uma cara grande, mas também pode ser uma cara feia. Hoje, a palavra é mais usada em seu sentido figurado, ou seja, como sinônimo de repreensão ou descompostura. Uma pessoa pode levar um carão (sofrer admoestação) ou dar um carão (censurar, repreender).

No universo das modelos, coisa bem mais recente, “carão” é a “expressão poderosa e sensual” que as garotas fazem na passarela ou diante dos fotógrafos para se transformarem em verdadeiras mulheres fatais.

Voltando ao nosso Bocage, que se diz “bem servido de pés” e “meão na altura”, ficamos sabendo que o poeta tem pés grandes e estatura mediana. “Facha”, segundo o dicionário “Houaiss” é um termo de uso informal para dizer “face”, datado de 1805 — era, portanto, um termo novo na época de Bocage, caso a sua datação seja mesmo essa.

Na segunda estrofe, aparece o verbo “assistir” numa acepção menos usual hoje, ao menos no Brasil. “Assistir”, no texto, não quer dizer “presenciar” ou “ver” (como em “assistir a um jogo ou a a uma aula”); nesse contexto, o termo significa “morar”. O poeta se diz “incapaz de assistir num só terreno”, revelando sua instabilidade, reforçada nas antíteses de que se vale em imagens como níveas mãos/ taça escura ou zelos infernais/deidades.

Na terceira estrofe, revela-se um lisonjeador de moças, a quem, metaforicamente, chama de “deidades” (divindades), metáfora que,  em seguida, numa espécie de autoironia, ele próprio traduz: “de mil deidades/ (Digo, de moças mil)”, substituindo deidades por moças, o etéreo pelo concreto e, de quebra, invertendo a posição do numeral “mil”, num quiasmo (disposição cruzada da ordem das partes simétricas de duas frases).

Finaliza o soneto (dois quartetos, dois tercetos, versos decassílabos organizados no esquema rímico abba/ abba/ cdc/dcd) resumindo a própria descrição: “Eis Bocage em quem luz algum talento”. Hoje é muito comum vermos as construções “eis aqui” ou mesmo “eis aí”, em que advérbios de lugar reforçam o sentido de “eis”, este também um advérbio cujo sentido é “aqui está”.

A etimologia dessa palavra é incerta, conforme atestam tanto Houaiss como Antônio Geraldo da Cunha. Segundo este, pode tratar-se de forma evolutiva do latim “ex”. Segundo Cegalla, pode provir de “heis” (por “haveis”) ou do latim “ecce”. Gramaticalmente, seu complemento, não sendo um nome, será um pronome pessoal do caso oblíquo (eis-me, ei-lo, eis-nos).

No mesmo verso, temos uma inversão sintática: “algum talento” é sujeito de luz” (forma do verbo “luzir”). Eis Bocage, em quem algum talento luz, brilha, sobressai.

Finalmente, rima “talento” com “pachorrento”, esta uma palavra nova à época do texto (segundo Houaiss, seu primeiro registro data de 1789). Sendo “pachorra” a falta de pressa, o poeta, num dia em que se achou se achou “mais pachorrento” (com tempo de sobra, sossegado), escreveu o poema.

Em textos poéticos, costuma haver grande concentração de recursos de estilo, que passam pelas chamadas figuras de linguagem, mas não se esgotam nelas. A escolha das palavras, sua disposição na frase ou no verso, o uso (ou não) de rimas e de metrificação regular, as imagens evocadas, tudo concorre para a construção e a expressão de ideias e estados de espírito. No exercício atento da leitura, vamos aprendendo a língua e o mundo.

Professores do Pedro II adotam termo ‘alunxs’ para se referir a estudantes sem definir gênero

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Docente recorre a palavra sem artigo “a” e “o” em cabeçalho de prova, enquanto coordenador prega aviso na parede

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Raphael Kapa, em O Globo

O “x” pode deixar de ser a principal letra usada na matemática para se tornar protagonista em diferentes disciplinas escolares. O uso da letra para suprimir gêneros não é novo. Movimentos feministas e LGBTs já pregam a utilização de termos como “médicx”, “enfermeirx” e “advogadxs”. A novidade está no recurso em ambientes escolares. No Colégio Pedro II, em São Cristóvão, o “x” no lugar das letras “a” e “o” já está em avisos institucionais em murais e em cabeçalhos de provas. Para especialistas, é importante o debate sobre gênero, mas eles sugerem cuidado ao se decidir quando fazer isso.

— A alteridade faz parte do universo escolar. Por isso, é importante o jovem já saber isso no colégio. A questão é que o aprendizado é feito em etapas. O estudante precisa primeiro entender o que é gênero e sua aplicação linguística para depois debater sobre ela. É necessário, portanto, pensarmos em que momento esta discussão e estas supressões de gêneros nas palavras devam ser iniciadas —afirma Anna Fernandes, pedagoga especializada em alteridade pela UFRJ.

No Pedro II, as primeiras menções ao termo “alunxs” foram feitas pelo grêmio do colégio em seus jornais e informes. A atitude chamou atenção do professor de Biologia Alex Von Sydow que, ao conversar com os estudantes, soube que este assunto já estava sendo tratado em outras aulas como a de Sociologia.

— Com isso, comecei a tratar sobre o assunto de forma interdisciplinar nas minhas aulas. Em uma prova, como resultado deste processo, coloquei “alunxs” no cabeçalho. Na hora da aplicação não teve resistência mas depois alguns estudantes riscaram o termo e colocaram “aluno”. Foram poucos e isto é natural — afirma Alex.

O colégio afirma que não indica e nem proíbe o uso de termos em que o gênero é suprimido. Na entrada de uma de sua unidades, um aviso para falar de mudanças no cotidiano devido a uma obra, assinada pelo coordenador de disciplina Raul Oliveira, já adere, logo no começo, com “Prezadxs alunxs”. O Ministério da Educação afirma que há indicações para comportamentos que visem preservar a alteridade de gênero, como garantias de banheiros de acordo com a identidade de gênero, mas que não há nenhuma determinação sobre o uso de termos como “alunxs”.

O que é apontado pelos professores é que um debate não pode se sobrepor ao próprio aprendizado. Alex acredita que este tipo de discussão deve ser feita nas séries finais do ensino fundamental e no ensino médio, ambientes onde os estudantes possuem mais maturidade para este processo de desconstrução. A professora Anna Fernandes concorda com esta postura.

— Nas séries iniciais, é necessário saber que existe o gênero e as letras que o regem em nossa sociedade. Essa discussão já é um passo para mostrar uma primeira alteridade. Existe eu e existe o outro, que pode ser de um gênero diferente do meu. Ou seja, é um passo de cada vez.

Apesar desta indicação, o aviso sobre mudanças no dia a dia devido as obras no colégio Pedro II estava na porta da unidade que trabalha com as séries do primeiro segmento do ensino fundamental.

Livro reúne cartas de celebridades e anônimos sobre temas variados

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Entre as correspondências, palavras de Fidel Castro ao presidente Franklin Roosevelt

Elias Thomé Saliba, no Estadão

“Se for de seu agrado, mande-me uma nota verde americana de dez dólares, na carta, porque eu nunca vi uma nota verde americana de dez dólares e gostaria muito de ter uma.” Quem escreveu isso, num inglês meio torto, foi um menino de 12 anos chamado Fidel Castro, em novembro de 1940, numa atrevida carta ao presidente Franklin Roosevelt. Esta é uma entre as 125 reunidas por Shaun Usher em Cartas Extraordinárias. Concebido a partir do blog Letters of Note, o livro reproduz, em bela apresentação gráfica, a maior parte dos fac-símiles das missivas.

Como quase tudo que vem da internet, Usher não se pautou por nenhum critério de seleção, o que só vira um problema porque desorienta o leitor incauto. De qualquer forma, libera quem lê para começar por onde quiser, numa surpreendente viagem por esses espaços privilegiados, cheios de sinceridade, farta irrestrição verbal e que conectam, quase sempre em alta voltagem emocional, o privado e o público.

CARTAS EXTRAORDINÁRIAS

Reprodução > "Amigos insistiram para que eu lhe escrevesse pelo bem da humanidade. Mas relutei em fazê-lo por achar que seria uma insolência de minha parte. (...) É evidente que o senhor é a única pessoa do mundo capaz de impedir uma guerra que pode reduzir a humanidade ao estado de barbárie. (...)" (1939)

Reprodução
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“Amigos insistiram para que eu lhe escrevesse pelo bem da humanidade. Mas relutei em fazê-lo por achar que seria uma insolência de minha parte. (…) É evidente que o senhor é a única pessoa do mundo capaz de impedir uma guerra que pode reduzir a humanidade ao estado de barbárie. (…)” (1939)

Reprodução > Início da carta enviada por Fidel Castro a Franklin Roosvelt: "Tenho 12 anos. Sou um menino mas penso muito mas não penso que estou escrevendo para o presidente dos Estados Unidos. Se for de seu agrado, mande-me uma nota verde americana de dez dólares, na carta, porque eu nunca vi uma (sic)" (1940)

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Início da carta enviada por Fidel Castro a Franklin Roosvelt: “Tenho 12 anos. Sou um menino mas penso muito mas não penso que estou escrevendo para o presidente dos Estados Unidos. Se for de seu agrado, mande-me uma nota verde americana de dez dólares, na carta, porque eu nunca vi uma (sic)” (1940)

Reprodução > "Aceitei sua sugestão referente a Charlotte Braun e vou descartá-la. (...) Lembre-se, porém, de que você e seus amigos carregarão na consciência a morte de uma criança inocente. Está disposta a assumir tal responsabilidade?" (1955)

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“Aceitei sua sugestão referente a Charlotte Braun e vou descartá-la. (…) Lembre-se, porém, de que você e seus amigos carregarão na consciência a morte de uma criança inocente. Está disposta a assumir tal responsabilidade?” (1955)

Reprodução > De Grace Bedell, 11 anos, para Abraham Lincoln: "Eu tenho quatro irmãos e alguns deles vão votar no senhor e se o senhor deixar crescer a barba eu vou tentar convencer os outros a votar no senhor o senhor ficaria muito melhor porque tem o rosto muito magro” (sic) (1860)

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De Grace Bedell, 11 anos, para Abraham Lincoln: “Eu tenho quatro irmãos e alguns deles vão votar no senhor e se o senhor deixar crescer a barba eu vou tentar convencer os outros a votar no senhor o senhor ficaria muito melhor porque tem o rosto muito magro” (sic) (1860)

Reprodução > De Abraham Lincoln a Grace Bedell: "Querida mocinha. Recebi sua amabilíssima carta. (...) Quanto à barba, como nunca usei, você não acha que as pessoas iriam dizer que é afetação de minha parte, se agora eu passasse a usar?" (1860)

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De Abraham Lincoln a Grace Bedell: “Querida mocinha. Recebi sua amabilíssima carta. (…) Quanto à barba, como nunca usei, você não acha que as pessoas iriam dizer que é afetação de minha parte, se agora eu passasse a usar?” (1860)

Reprodução > De Jack, o Estripador, "do inferno", para Georges Lusk: "Envio para o sinhor metade do rim que tirei de uma mulier gardei para o sinhor pois a outra parte eu fritei e comi estava muito gostozo” (sic) (1888)

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De Jack, o Estripador, “do inferno”, para Georges Lusk: “Envio para o sinhor metade do rim que tirei de uma mulier gardei para o sinhor pois a outra parte eu fritei e comi estava muito gostozo” (sic) (1888)

Nosso olhar pode borboletear por cartas pouco conhecidas, como a do sobrinho de Adolf Hitler, Patrick Hitler – o qual um ano depois de fugir da Alemanha e já residente nos Estados Unidos foi recusado pelo exército americano. Ele escreve ao presidente Roosevelt que, afinal, autoriza o alistamento – obviamente, após intensas e detalhadas investigações do FBI. Ou pode deter-se em missivas cheias de uma humildade desiludida, como a de Gandhi para Hitler, em julho de 1939, simplesmente pedindo “pelo bem da humanidade, para impedir uma guerra que nos poderia reduzir a um estado de barbárie”.

É sempre recomendável passar ao largo de alguns bilhetes de profundo mau gosto, colhidos no setor de criminalística, como aquele de outubro de 1888, acompanhado de uma caixinha de horrível conteúdo orgânico, remetido para George Lusk, o delegado de Whitechapel, e atribuído a Jack, o Estripador: “Envio para o sinhor metade do rim que tirei de uma mulier gardei para o sinhor pois a outra parte eu fritei e comi estava muito gostozo” (sic). Melhor vaguear pelos desvãos obscuros da vitrine, relendo escritos permeados de desbocados conselhos eróticos, como a de Anaïs Nin, de 1932, numa das muitas cartas nas quais, juntamente com seu amante Henry M[/TEXTO]iller, enviaram a um fictício “Colecionador”, obcecado com sexo: “Atividade intelectual, criatividade, romantismo, emoção. É isso que dá ao sexo suas texturas surpreendentes, suas sutis transformações e seus elementos afrodisíacos. (…) Por que você está perdendo tanto tempo por causa desse periscópio na ponta do pênis quando poderia desfrutar de todo um harém de maravilhas diferentes e sempre novas?”

O leitor pode ainda encher-se de nostalgia com a intensidade de cartas cheias de declarações afetivas, dor pela falta da pessoa amada ou registros comoventes da perda e do luto – nem sempre escritas por celebridades. Em 1615, Kimura Shigenari, jovem samurai de 22 anos, se preparou para comandar seus homens no cerco de Osaka. Sua esposa, sabendo que ele jamais voltaria e, sentindo-se incapaz de conviver com sua ausência, escreveu, pouco antes de se suicidar: “Nos últimos anos, partilhamos o mesmo travesseiro como marido e mulher que pretendiam viver e envelhecer juntos, e me incorporei a ti como se fosse tua própria sombra. (…) Agora perdi toda a esperança em relação ao nosso futuro juntos neste mundo e, atenta ao exemplo daqueles homens, decidi dar o passo extremo enquanto ainda estás vivo. Estarei esperando por ti no fim do que chamam o caminho para a morte.”

Muitas cartas descrevem o sempre inconformado desabafo da impotência humana em relação às tragédias da vida. Em novembro de 1905, Marc Twain, depois de perder o filho de nove meses com difteria, em seguida a sua filha Suzy, com meningite, e alguns anos depois, sua esposa, Olivia, assim respondeu a uma carta de 1904, acompanhada de um panfleto de J. H. Todd, criador e vendedor do “elixir da vida”, um remédio mágico capaz de curar todas as doenças: “Quem escreveu a propaganda é, sem dúvida, a criatura mais ignorante do planeta; sem dúvida, é um idiota (…) descendente de uma longa linhagem de idiotas que remonta ao Elo Perdido. (…) Daqui a alguns instantes, minha raiva vai passar e eu, provavelmente, vou rezar pelo senhor, mas enquanto não passa, apresso-me a desejar que o senhor, por engano, tome uma dose do seu próprio veneno.”

Hemingway. Estima-se que seu acervo seja composto de 6 mil correspondências

Hemingway. Estima-se que seu acervo seja composto de 6 mil correspondências

Mas o destaque da vitrine epistolográfica acaba, como sempre, arrebatado pelas cartas de crianças, as quais quando não escrevem – mas rabiscam seus inumeráveis desenhos entre tortuosas linhas num estilo pueril, de honestidade pura e chocante – acabam provocando as mais notáveis respostas aos seus bilhetes escritas por adultos compulsoriamente levados a desprezar papas na língua ou metáforas hipócritas. Em 1860, depois de ver um retrato ainda imberbe do então candidato a presidente Abraham Lincoln, Grace Bedell, uma menina de 8 anos, escreveu-lhe uma carta dizendo, sem mais delongas: “Eu tenho quatro irmãos e alguns deles vão votar no senhor e se o senhor deixar crescer a barba eu vou tentar convencer os outros a votar no senhor o senhor ficaria muito melhor porque tem o rosto muito magro” (sic). Lincoln respondeu à carta e até hoje se diz (sem insistir muito na verdade do fato) que ele passou a usar a barba por sugestão da menina. Já em 1897, Virgina O’Hanlon, de nove anos, seguindo o impaciente conselho do pai, que lhe dissera “se está no Sun é verdade”, escreve para o editor do jornal: “Por favor, diga a verdade para mim, Papai Noel existe?” A resposta vem em alto estilo: “Você poderia pedir para o seu papai contratar alguns homens para vigiar chaminés e pegar o Papai Noel, mas ainda que eles vissem Papai Noel entrando, o que isso provaria? (…) As coisas mais concretas do mundo são as que nem as crianças nem os adultos conseguem ver. (…) O mundo invisível é coberto por um véu que nem o homem mais forte, que nem todos os homens mais fortes juntos são capazes de rasgar. Só a fé, a fantasia, a poesia, o amor e o sonho conseguem abrir aquela cortina e contemplar e retratar a suprema beleza. Tudo isso é real? Ah, Virginia, essa é a única coisa real e imutável que existe neste mundo.”

“Lembre-se, porém, de que você e seus amigos carregarão na consciência a morte de uma criança inocente. Está disposta a assumir tal responsabilidade?” Essa foi a resposta certeira de Charles Schulz, o criador da série Peanuts a uma adolescente quando, em janeiro de 1955 ele teve que atender aos pedidos de defenestrar a personagem Charlotte Braun de seus quadrinhos, que despertara profunda antipatia nos leitores.

Diversão garantida mesmo só com as engraçadíssimas cartas nas quais Rudyard Kipling recomenda uma etiqueta escolar para o editor de uma revista de meninos, em 1898; ou na hilária resposta do humorista do stand-up, Bill Hicks, em 1993, a um padre que havia considerado blasfemo seu programa de TV: “Otimistas ou pessimistas divergem apenas sobre a data do fim do mundo”, escreve, parodiando o polonês Stanislaw Lec. Mas o arremate final vai para a carta de Groucho Marx, ainda um piadista incorrigível nos seus quase 86 anos, enviada a Woody Allen, em 1976: “O Goodie Ace falou para um amigo meu que você estava desapontado ou chateado ou feliz da vida ou bêbado porque não respondi a carta que você me mandou anos atrás. Você naturalmente sabe que responder cartas não dá dinheiro – a menos que sejam cartas de crédito da Suíça ou da máfia. Escrevo com relutância, pois sei que você está fazendo seis coisas ao mesmo tempo – cinco, incluindo sexo. Não sei onde você arruma tempo para se corresponder.” Humor marxista legítimo. Quer dizer, groucho-marxista.

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