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Manifestações já ganham espaço nas salas de aula dos colégios paulistanos

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Estudantes trocam experiências sobre política, movimentos sociais, mobilização digital, partidos políticos, representatividade, ditadura, mídia e até literatura e cinema

Paulo Saldaña, no Estadão

A onda de manifestações que tomou o Brasil chegou aos colégios. Além de dominarem a conversa dos jovens, os protestos motivaram uma programação oficial das escolas, que têm promovido atividades para discutir mobilidade, política, movimentos sociais, mobilização digital, partidos políticos, representatividade, ditadura, mídia e até literatura e cinema. Tudo tem sido tema de debates nas salas de aula.

Werther Santana/Estadão Máscara do filme ‘V de Vingança’ virou sinônimo de ativismo e tem sido usada com frequência

Werther Santana/Estadão
Máscara do filme ‘V de Vingança’ virou sinônimo de ativismo e tem sido usada com frequência

Tentar entender os atos e a importância dos atores envolvidos é a tônica das atividades dentro dos colégios, com a participação de alunos do ensino fundamental e, sobretudo, do médio. Assim como nas ruas, os jovens é que têm tido o papel mais ativo nos debates. Até porque muitos deles participaram de alguns dos atos, que começaram com a reivindicação contra o aumento da tarifa de ônibus e depois tiveram uma proliferação de pautas, indignações e causas de protesto.

“Tudo isso rapidamente virou tema na sala, o que fizemos foi organizar esse debate e puxar os links necessários para uma boa reflexão”, diz o professor de História Luis Fernando Massa, do tradicional Colégio Ofélia Fonseca, de Higienópolis, zona oeste de São Paulo. “Cidadania é um grande tema transversal, mas há também conteúdos específicos, que vão de movimentos sociais do século 19 na Europa a revoltas pelo Brasil.” Ditadura militar e também manifestações no Oriente Médio, no que ficou chamado de Primavera Árabe, também tem espaço nas conversas.

O estudante Luis Gerodetti, de 16 anos, acompanhou uma das manifestações – além de participar das discussões nas redes sociais e nas aulas no Ofélia. “Nos encontros, a gente entendeu que a queda no preço da passagem foi um passo. Mas não adianta querer tudo ao mesmo tempo”, disse ele, aos colegas Guilherme, Amanda e Caio, todos de 17 anos. Para eles, que estão no 3.º ano, a internet é a fonte mais confiável para se informar sobre os protestos. “As TVs só mudaram o enfoque, apoiando os atos por causa da audiência”, diz Amanda.

A máscara do filme V de Vingança, que apareceu em diversas cenas nos últimos dias, também tem sido vista nos corredores da escola. “É meio que um símbolo de ativismo, nem todos que estão com a máscara vão para vandalizar”, explica o estudante Luca Scuracchio, de 15 anos, dono do adereço.

Mídia. Em um movimento que ganhou proporções nas redes sociais, a análise da mídia ganhou destaque entre os alunos. A comparação de notícias foi uma das principais atividades do Colégio São Judas Tadeu, na Mooca, zona leste. “Estamos pegando os editoriais, textos de colunistas, e fazendo comparações para entender como os meios de comunicação estão abordando as manifestações, tentando ver o que está por trás do que vira notícia”, diz a professora de História Mônica Broti.

Ela explica que, do ponto de vista pedagógico, a abordagem tenta abarcar toda a problemática com um foco histórico, tendo em vista as manifestações que o Brasil já teve. “Fizemos também comparações com fotos da Praça da Sé no movimento das Diretas Já e das passeatas no impeachment do Collor, ampliando o debate.”

Para a estudante do 9° ano Victória Donato Ribeiro, de 13 anos, esse tem sido um momento histórico para a juventude, uma oportunidade de, assim como jovens de outras épocas, deixar sua marca. “Temos conversado muito sobre isso, que os jovens fazem a diferença. Porque a gente acreditou”, diz ela. “Eu tenho gostado bastante. O governo não tem de mudar tudo, o povo tem de decidir. Os políticos não são mais povo, só ligam pra eles mesmos.”

O Colégio Equipe, também em Higienópolis, tem incentivado o protagonismo e a reflexão dos estudantes. A escola montou um painel com várias reportagens com leituras diferentes sobre a manifestação, de modo a incentivar a troca de ideias sobre o que está acontecendo. “A intenção é que todos os alunos, ao longo da semana, alimentem o painel e realizem um debate com convidados”, explica a diretora Luciana Fevorini. Na próxima quinta-feira, integrantes do Movimento Passe Livre vão participar dos debates. Pelo menos dois desses líderes estudaram no Equipe.

Professores veem como protestos no país podem cair no vestibular

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Manifestações podem ser ligadas a Revolta do Vintém, caras-pintadas e privamera árabe no Enem 2013 ou Uerj
Movimentos em épocas e países distintos têm elementos em comum com atual, mas é preciso observar diferenças também

Nas ruas. Manifestação contra o aumento da passagem de ônibus, em São Paulo Eliária Andrade

Nas ruas. Manifestação contra o aumento da passagem de ônibus, em São Paulo Eliária Andrade

Mariana Moreira, em O Globo

RIO — Um grupo de manifestantes se reúne em São Cristóvão para protestar contra o preço do transporte público e do alto custo de vida no Rio. A frase anterior poderia se referir aos protestos que começaram na semana passada. No entanto, é o resumo da “revolta do vintém”, de 1878, um dos assuntos que podem vir a ser abordados do 2º exame de Qualificação da Uerj e do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem 2013), como avalia Cezar Menezes, professor de História do Colégio e Curso GPI. Assim como a revolta, temas como a primavera árabe, a passeata dos cem mil, o impeachment de Fernando Collor, em 1993, e a participação dos jovens na política pela redes sociais podem ser abordados tanto em questões como em temas de redação, apontam professores.

Na revolta do vintém, um grupo de revoltosos se reuniu próximo ao Palácio de São Cristóvão para exigir a dimuição da taxa de vinte réis dos bondes.

— Embora a gente saiba que o movimento em si não esteja ligado ao aumento das passagens, é bem possível que relacionem um evento ao outro. Ambos são movimentos espontâneos das massas e os dois expõe uma repulsa à associação aos partidos políticos. No final do século XIX, o partido republicano tentou liderar o movimento – explicou o professor.

Márcio Branco, professor de História do Colégio e Curso Pensi, observou que o Enem não tem uma banca fixa, o que dificulta traçar um panorama sobre a possível abordagem da temática na prova de ciências humanas. Ao contrário da banca da Uerj, formada por cinco professores que moram no Rio de Janeiro, explica ele.
Branco aponta que há grandes chances de ter uma questão que trace um paralelo entre as manifestações que estão ocorrendo no país com a primavera árabe, iniciada em 2010 na Tunísia. Ele diz, no entanto, que as semelhanças não vão muito além do caráter de organização dos jovens por meio das redes sociais e da ausência de líderes políticos.

— Os movimentos somente porque surgiram nas redes sociais. No mundo árabe as manifestações tinham um alvo que eram um governos ditatorais. O movimento que vemos hoje nas ruas tem questões pontuais que afetam diretamente o cotidiano como a corrupção, as tarifas de impostos e o gasto com os grandes eventos – avaliou o professor ao comentar também que a participação dos jovens “caras pintadas” do impeachment contra o presidente do Collor também pode ser lembrado, mas aponta as diferenças — Aqui não há nenhuma reivindicação de destituição de poder. E na época, estudantes da União Nacional dos Estudantes estavam articulados com o Partidos dos Trabalhadores (PT), hoje não há articulação política.

Além das possíveis abordagens em questões, os professores também apontaram aspectos das manifestações que valem ser criticados e refletidos pelos estudantes porque podem ser tema de redação. Menezes avalia que o eixo central da discussão é a difusão das lideranças e a falta de partido político.

— Acho que o mais importante, embora ainda estejamos vivendo ainda o movimento, é prestarmos atenção ao comportamento dos jovens, que tem mostrado demandas reprimidas, cansados da apatia política. Gerações anteriores, bem ou mal, tiveram o apoio do PT. Essa perda de referência política e como governos de diversos países vem lidando com isso pode ser tema de redação.

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