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Posts tagged Paul Auster

Iscas de leitura

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iscas de leitura


“Leitura” (Reading), 1892
by Almeida Júnior (1850-99)

Em meio à feiura efêmera da política e da violência, podemos seguir outro poeta e lembrar com Drummond: ‘E como ficou chato ser moderno, agora serei eterno’

 

Ana Maria Machado em O Globo

Fim de ano e de governo, hora de balanços, promessas, esperanças. Uma encruzilhada dos tempos: também começo de ano e de governo. Em meio a tanta notícia ruim, sequestros, tiroteios, assaltos, massacres de escolares, números negativos e escândalos em série, tudo a alimentar nossa apagada e vil tristeza, o ritual de recomeço procura se nutrir de bons sinais aqui e ali . O reatamento de relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos. O encontro de uma canção inédita nos guardados de Dorival Caymmi. A empolgante vitória de Gabriel Medina como campeão mundial de surfe — e a elegância com que os adversários reconheceram sua grandeza.

O Ano Novo recorda a beleza de começos e recomeços. “Belo porque corrompe com sangue novo a anemia”, como já cantou João Cabral em “Morte e vida severina”. Que seja, então. Mas em meio à feiura efêmera da política e da violência, podemos seguir outro poeta e lembrar com Drummond: “E como ficou chato ser moderno, agora serei eterno.”

Convido então a buscar um pouco dessa beleza eterna. Para muita gente, verão é também tempo de férias, a oportunidade de mergulhar em leituras. Não vou sugerir novidades, isso já foi feito à exaustão nas páginas pré-natalinas. Mas proponho um passeio por começos instigantes. Hoje muita gente só compra livros pela internet, perdendo a oportunidade de folheá-los numa livraria. Então trago ao espaço comum de nosso jornal algumas frases iniciais de bons livros, iscas de romances. Talvez você reconheça algumas, talvez tenha saudades de outra e resolva reler. Pode também se deixar fisgar por uma desconhecida e então a busque para conferir. Os livros virão identificados ao final da coluna. Nenhum é novidade. Mas creio que, sem exceção, cada um poderá dar prazer e ajudar a pensar sobre o mundo que nos cerca — razão pela qual faço questão de trazê-los a esta página de opinião.

A — Em meus anos mais jovens e mais vulneráveis, meu pai me deu um conselho que, desde então, tenho feito virar e revirar em minha mente. “Sempre que tiver vontade de criticar alguém”, disse, “lembre-se de que nem todo mundo teve as vantagens que você teve.”

B — Alguém deve ter dito mentiras sobre Joseph K., pois, sem ter feito nada de errado, certa manhã ele foi preso.

C — No dia em que o matariam, Santiago Nazar levantou-se às 5h30m da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo. Tinha sonhado que atravessava um bosque de grandes figueiras onde caía uma chuva branca, e por um instante foi feliz no sonho, mas ao acordar sentiu-se completamente salpicado de cagada de pássaros.

D — O homem me pede fogo. Ergo para ele o isqueiro aceso e noto contrariado que minha mão treme um pouco. Seus olhos cor de zinco se fixam nos meus dedos. Nervoso? Sacudo a cabeça negativamente, odiando-o como se pode odiar a pessoa que nos descobre o segredo que mais queremos ocultar.

E — Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte.

F — Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lengalenga tipo David Copperfield.

G — Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o que, mas sei que o universo jamais começou. Que ninguém se engane. Só consigo a simplicidade através de muito trabalho.

H —Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.

I — Ela ficou, mas a gota de sangue que pingou na minha luva, a gota de sangue veio comigo.

J — Foi um número errado que começou tudo, o telefone tocando três vezes, altas horas da noite, e a voz do outro lado chamando alguém que não morava ali.

K — Ai, me dá vontade até de morrer. Veja a boquinha dela como está pedindo beijo — beijo de virgem é mordida de bicho-cabeludo. Você grita vinte e quatro horas e desmaia feliz.

L — Foi no verão de 1998 que meu vizinho Coleman Silk — que, antes de se aposentar dois anos antes, tinha sido catedrático de literatura clássica no vizinho Athena College durante mais de vinte anos, além de acumular mais dezesseis como decano da universidade – me confidenciou que, aos 71 anos de idade, estava tendo um caso com uma faxineira que trabalhava na faculdade.

Graças a Scott Fitzgerald (“O Grande Gatsby”), Franz Kafka (“O processo”), Garcia Marquez (“Crônica de uma morte anunciada”), Erico Veríssimo (“Saga”), Machado de Assis (“Memórias póstumas de Brás Cubas”), J. D. Salinger (“O apanhador no campo de centeio”), Clarice Lispector (“A hora da estrela”), Leon Tolstoi (“Ana Karenina”), Lygia Fagundes Telles (“A noite escura e mais eu”), Paul Auster (“Trilogia de Nova Iorque”), Dalton Trevisan (“O vampiro de Curitiba”), Philip Roth (“A nódoa humana”).

Boas leituras.

Ana Maria Machado é escritora

Os escritores de best-sellers declaram guerra à Amazon

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Stephen King, uma das mais de 900 assinaturas do manifesto contra a Amazon

Uma página inteira no “The New York Times” contra o titã digital, último capítulo da batalha

Cristina F. Pereda, no El País

 

Um conflito que vale uma página inteira na edição dominical do The New York Times. A briga entre a Amazon e a editora Hachette, longe de se resolver, se complicou ainda mais neste fim de semana graças à carta assinada por 900 escritores no jornal norte-americano na qual pedem que a gigante da Internet deixe de impedir a venda de suas obras ou bloquear os preços pelo litígio que mantém com a Hachette.

As duas empresas estão se enfrentando já faz alguns meses pelo preço dos ebooks e as condições que a maior livraria do mundo, a Amazon, quer impor a editoras e autores. É o último exemplo de como o mercado digital invadiu uma indústria tradicional, arrebentando sua estrutura, introduzindo novos modelos de negócio e obrigando tanto os recém-chegados – Amazon – quanto os veteranos – neste caso, a Hachette – a reconhecerem que precisam uma da outra para subsistir.

A carta dos autores chegou, além disso, um dia depois do envio, pela empresa de Jeff Bezos, de um e-mail a todos seus clientes do Kindle no qual solicitava que tomassem partido a favor dos livros eletrônicos. A empresa também publicou na Internet o endereço de e-mail do presidente da Hachette, Michael Pietsch, para que leitores e autores pedissem que aceitassem as condições impostas pela Amazon.

Os autores, entre os quais se encontram Stephen King, John Grisham e Paul Auster, afirmam que “nenhum vendedor de livros pode bloquear sua venda ou prevenir ou desalentar o público a que peçam os livros que desejam. Não é justo que a Amazon exclua um grupo de autores para uma vingança seletiva”. A situação, como demonstra a carta, é grave o suficiente para aglutinar, além disso, uma maioria de autores que nem sequer trabalham com a editora afetada.

A Amazon argumenta que “os e-books podem e deveriam ser mais baratos” e acusa a editora “de ter conspirado ilegalmente com outras empresas para subir os preços”. Os autores acusam a empresa de boicotar a Hachette eliminando as ventas antecipadas de seus livros, anular os descontos, atrasar os pedidos dos clientes e sugerir que seria melhor comprar outros títulos. Até agora não foi divulgado, no entanto, quais são as condições que a Amazon quer impor à Hachette e que esta se nega a aceitar.

A empresa de Seattle, criada precisamente com o objetivo de se converter na maior livraria do mundo e a partir da venda de livros conseguiu consolidar a venda de todo tipo de produtos, compara a situação atual com a que aconteceu nos anos 40 com a chegada do livro de bolso, dez vezes mais barato que o de capa dura. “Pensaram que este preço destruiria a cultura e faria estragos na indústria (para não citar suas próprias contas bancárias). Muitas livrarias se negaram a vendê-lo”, diz o texto publicado por Bezos. “Aos editores de capa mole não restou outra saída que procurar outra maneira de vendê-los, como bancas e lojas de bairro.”

Esse é o objetivo da Amazon, que um preço mais barato impulsione a venda de títulos a um nível sem precedentes. A questão que não está resolvida é qual porção do bolo fica com a empresa norte-americana como distribuidora e intermediária, e qual fica nas mãos da editora e dos autores, se o bolo, ainda por cima, é cada vez menor.

“Todos os Poemas” expõe faceta pouco conhecida do escritor Paul Auster

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Lucas Ferraz, na Folha de S.Paulo

O ano de 1979 marcou uma virada na vida do escritor americano Paul Auster, 66. Com o primeiro casamento em crise e quebrado financeiramente, ele encerrava a década em que se dedicou à poesia em crise existencial e literária.

Sem conseguir escrever desde o ano anterior, ele se arriscava novamente na prosa com o texto experimental “Espaços em Branco”, que coincidentemente concluiu na mesma noite em que seu pai morreu.

Para Auster, foi seu renascimento como escritor e ponto de partida para tornar-se um dos mais importantes nomes da literatura contemporânea dos EUA.

O escritor americano Paul Auster, que tem suas poesias reunidas em livro, em Paris (Thomas Samson/AFP)

O escritor americano Paul Auster, que tem suas poesias reunidas em livro, em Paris (Thomas Samson/AFP)

Toda sua produção literária até esse período, que marca os anos de formação do autor, acaba de chegar às livrarias.

Todos os Poemas” (Companhia das Letras) expõe uma faceta pouco conhecida de Auster até mesmo por seu público nos EUA: a reunião de sua obra poética, escrita na década de 1970 – as exceções são “Espaços em Branco” e as reflexões “Anotações de um caderno de rascunhos”, de 1967, compostas quando ele tinha 20 anos.

“Foi a fundação de tudo o que fiz nos 30 anos seguintes”, disse o escritor em entrevista à Folha.

Fragmentos dos romances que tentou escrever nessa época foram usados anos depois na novela “Cidade de Vidro”, que compõe um de seus mais famosos livros, “A Trilogia de Nova York”.

“Nunca estava satisfeito com o que escrevia. Quando tinha 22 ou 23 anos, decidi que não poderia mais escrever ficção. Então me dediquei apenas à poesia”.

Parte dos poemas foram escritos no período em que viveu na França, entre 71 e 74. Na segunda metade daquela década, algumas de suas coletâneas foram publicadas em revistas de poesia, mas sem transformá-lo em um nome conhecido.

Há em seus poemas elementos que, mais tarde, ele desenvolveria em sua obra ficcional, como o existencialismo.

O último poema ele escreveu em 1979. “Descobri que estava me repetindo, a poesia me abandonou”, conta. “Talvez algum dia eu ressuscite e escreva [poesia] novamente”.

Sobre os diferentes gêneros em que transitou, ele faz uma comparação: “Poesia é como tirar fotografia, enquanto escrever ficção é como dirigir um filme, com imagens e muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo”.

Auster não tem dúvida de que “Espaços em Branco” foi um trabalho seminal para sua transição entre poesia e prosa.

Inspirado em um espetáculo de dança, ele tentou traduzir a experiência da performance coreográfica. O autor trabalhou no texto por duas semanas. O ponto final foi dado na madrugada do dia 15 de janeiro de 1979, mesma noite em que perdeu o pai.

“Foi algo cruel e estranho, que ainda me machuca. Justo no momento em que voltei à vida, meu pai morre. Foi terrível”, recordou Auster.

Após a morte do pai, o escritor começou a trabalhar no que seria seu primeiro romance, “A Invenção da Solidão”, em que mescla recordações pessoais, tendo como base a figura paterna, com imagens literárias e artísticas.

A seguir, trechos da entrevista que ele concedeu à Folha, em Nova York, na última quinta. (mais…)

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