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Os livros e escritores mais lidos no mundo

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O americano John Green, do best-seller "A Culpa é das Estrelas". Foto: Justin Tallis/AFP

O americano John Green, do best-seller “A Culpa é das Estrelas”. Foto: Justin Tallis/AFP

 

Nunca se imprimiu tantos livros como nos últimos anos. Os best-sellers mundiais vendem milhões de exemplares e muitos autores são grandes estrelas do mundo da cultura. Mas a popularização da internet, que já abalou jornais, revistas e outros veículos de comunicação, coloca em dúvida o futuro do livro físico

Célio Martins, no Certas Palavras

De cima para baixo: Dan Brown, J.K. Rowling, John Green, Nicholas Sparks e o brasileiro Paulo Coelho.

De cima para baixo: Dan Brown, J.K. Rowling, John Green, Nicholas Sparks e o brasileiro Paulo Coelho.

Quando Miguel de Cervantes conseguiu autorização do rei Felipe II para publicar Dom Quixote de la Mancha, em 1604, a primeira edição teve apenas 300 exemplares. No ano passado, a tiragem inicial do livro A Espiã, do escritor brasileiro Paulo Coelho, foi de 150 mil exemplares só nos Estados Unidos. E a última obra do americano John Green – autor do best-seller A Culpa é das Estrelas – que leva o título nada sugestivo Tartarugas Até Lá Embaixo, será lançado agora em outubro no Brasil com 200 mil exemplares apenas para o público tupiniquim.

A simples comparação evidencia como o livro impresso conquistou leitores e atravessou com firmeza as grandes revoluções na comunicação. Em quase seis séculos desde aquele acontecimento histórico protagonizado por Cervantes, jornais e revistas se popularizaram, veio o telefone, o rádio, a televisão e, mais recentemente, a internet, invento que abalou todas os outros meios de comunicação. Mas o livro impresso seguiu sua jornada (quase) inabalável.

A cada ano surgem grandes “estrelas” do mundo dos chamados best-sellers. Nomes como J.K. Rowling (Harry Potter), J. R. R. Tolkien (O Senhor dos Anéis), Dan Brown (O Código Da Vinci) e Paulo Coelho (O Alquimista) compõem um universo de autores que já venderam mais de 100 milhões de exemplares de suas obras e movimentam centenas de bilhões dólares todos os anos.

Nos dias atuais, no entanto, em que jornais, revistas e outros meios de comunicação buscam novos modelos para se manterem vivos na aldeia digital (termo que deve substituir o famoso conceito de “aldeia global”, criado pelo teórico da comunicação Marshall McLuhan), surge o questionamento inevitável se o livro impresso vai superar essa nova revolução tecnológica. Como não poderia ser diferente em se tratando do futuro de um formato de distribuição de conhecimento, cultura e entretenimento, as previsões são divergentes: de um lado os que acreditam que o livro se perpetuar, independentemente do que vier pela frente; de outro, os que veem o mesmo fim destinado aos outros impressos.

“Muito já se disse sobre o fim do livro impresso, frente à evolução do digital, mas o que aparentemente se desenha não é a extinção de um em função do outro, mas a coexistência das duas plataformas como diferentes experiências de leitura”, diz Danielle Machado, editora executiva da Intrínseca, que tem no seu catálogo campeões de venda como John Green e Walter Isaacson.

Opinião parecida tem o diretor de marketing da Record, Bruno Zolotar, e a diretora de comunicação da Editora Rocco, Cintia Borges. “Você vai numa Bienal do livro e vê uma multidão de jovens comprando livros físicos. O Umberto Eco dizia que o livro físico jamais seria substituído como aconteceu com o cd, por exemplo, porque o livro de papel é uma plataforma perfeita para a leitura”, argumenta Zolotar. “Enquanto a principal característica do mundo digital é a transitoriedade, a sobreposição de informações e conteúdo, o livro é um objeto tangível e de vida longa”, complementa Cintia.

Mas esse otimismo não é compartilhado por gente como o jornalista e escritor paranaense Laurentino Gomes, autor de obras campeãs de venda no país como 1808 e 1822. “No longo prazo, todos os formatos de distribuição que utilizam a plataforma papel vão desaparecer. É uma questão de lógica econômica e ambiental. O livro, mais denso e menos perecível, ainda resistirá um pouco mais de tempo no papel. Mas é só questão de tempo até que livro digital se imponha definitivamente sobre o formato papel”, prevê.

Agatha Christie, um ícone dos best-sellers

Agatha2Na chamada biblioteca de best-sellers, com infindáveis títulos e autores em suas prateleiras, é interessante observar que a onda de escritores dos milhões de exemplares, chamados de comerciais – ou literatura de entretenimento, como preferem classificar muitos literatos para diferenciá-los da ‘alta literatura’ – não começou recentemente.

A campeã e uma das precursoras dessa história é Agatha Christie. O Guiness Book descreve a escritora britânica como a romancista mais bem-sucedida da história da literatura popular mundial em número total de livros vendidos, uma vez que suas obras, juntas, venderam cerca de três bilhões de cópias. Seu maior sucesso, O Caso dos Dez Negrinhos, é de 1939 e bateu os 100 milhões de exemplares.

Outra estrela de maior grandeza desse universo é o norte-americano Sidney Sheldon – o autor de O Outro Lado da Meia-Noite é o escritor mais traduzido do planeta, segundo o Guinness.

Não é só ficção

Além dos autores os quais se pode classificar como de ficção, há escritores de milhões de exemplares em vários outros setores, como religião, ciência, autoajuda, jornalismo, biografias, literatura infantil e até livros para colorir.

Entre os livros mais vendidos no Brasil neste ano, por exemplo, o primeiro colocado – de acordo com levantamento do site publishnews – o primeiro colocado é um livro religioso e o segundo, de autoajuda: Batalha Espiritual – Entre Anjos e Demônios (Editora Petra), do Padre Reginaldo Manzotti, e O Homem mais Inteligente da História (Editora Sextante), de Augusto Cury. Ambos com mais de 100 mil exemplares só neste ano.

Os livros escritos por religiosos, aliás, transformaram-se numa mina de ouro para as editoras. O Padre Marcelo Rossi, por exemplo, fez milagre ao vender mais de 8 milhões de exemplares de Ágape e obter tiragem inicial de 500 mil de Kairós.

No campo da chamada autoajuda, o médico psiquiatra e professor Augusto Jorge Cury superou as fronteiras do Brasil há muito tempo e virou um astro internacional. Seus livros já foram publicados em quase 80 países. Só no Brasil ele vendeu mais de 20 milhões de exemplares, segundo números divulgados pelo site do Grupo Educacional Augusto Cury. Felicidade roubada – um romance psicológico sobre os fantasmas da emoção, é uma de suas obras de grande sucesso.

Alta literatura

O fenômeno das grandes tiragens de livros físicos não se resume aos títulos considerados comerciais ou populares. Obras da chamada alta literatura também exibem números impressionantes.

Além de Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes, citado no início desta reportagem, estão no topo das vendas ainda nos dias atuais obras como Um Conto de Duas Cidades (200 milhões de exemplares), de Charles Dickens, O Pequeno Príncipe (140 milhões), de Antoine de Saint-Exupéry,

Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez, Lolita, de Vladimir Nabokov, e O Nome da Rosa, de Umberto Eco, esses com mais de 50 milhões de livros vendidos.

A galáxia juvenil

Paula-PimentaNão é de hoje que livros destinados ao público juvenil fazem sucesso. Os autores mais “curtidos” por adolescentes e jovens formam uma galáxia que ajuda a movimentar o grande universo da indústria do livro. Mundialmente, além de J.K. Rowling (Harry Potter), outro dos grandes nomes atuais desse nicho é a norte-americana Meg Cabot. Autora de mais de 70 livros, bateu recordes com a série de onze volumes de O Diário da Princesa.

No Brasil também existem grandes estrelas desse universo. Só para citar um exemplo, uma escritora de grande sucesso no momento é a mineira Paula Pimenta, que esteve em Curitiba na sexta-feira (21) para o lançamento de sua nova obra Minha Vida Fora de Série – 4ª Temporada. Paula ficou conhecida com a série Fazendo Meu Filme e já vendeu mais de 1,5 milhão de exemplares. Seus livros são lidos em Portugal, Espanha, Itália e toda a América Latina.

“Ainda fico surpresa quando vou ao salão de beleza ou à padaria e as pessoas pedem pra tirar foto comigo! Eu achava que essas coisas aconteciam só com os popstars e atores de televisão, e não com escritores”, relata a escritora ao comentar seu sucesso.

Autêntica Editora lança o clássico Heidi, a menina dos Alpes em dois volumes

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Publicado no Jornal do Brasil

Escrito em 1880 pela autora suíça Johanna Spyri, Heidi, a menina dos Alpes se tornou um clássico da literatura infantil universal. Agora, vem integrar a coleção Clássicos Autêntica, que tem como proposta resgatar títulos que marcaram e encantaram inúmeras gerações de leitores. Os dois volumes de Heidi chegam em tradução direta do alemão por Karina Jannini e com ilustrações originais de Jessie Willcox Smith.

Fonte de descobertas e reflexões importantes para a vida de qualquer pessoa, a narrativa acompanha o crescimento e as aprendizagens de uma menina órfã que, aos 5 anos, é entregue por sua tia ao avô, um velho zangado e rabugento que vive isolado no alto de uma montanha dos Alpes suíços. A vida livre, as flores, os animais e as maravilhosas paisagens seduzem a menina, que logo conquista os moradores do vilarejo e até mesmo o coração do avô – que passa a não saber mais viver sem a menina ao seu lado.

images.livrariasaraiva.com.brOs volumes editados pela Autêntica na coleção Clássicos – e Heidi não foge à proposta – apresentam um projeto gráfico delicado, com uma pegada vintage, e um zeloso trabalho de tradução, numa linguagem mais próxima do leitor brasileiro contemporâneo, sem perder de vista o tom clássico dos textos.

Para a editora Sonia Junqueira, Heidi mostra ao nosso leitor “diferenças naturais, espirituais e culturais importantes, que se devem não só à distância e às diferenças geográficas entre a Suíça, onde se passa a maior parte da história, e o Brasil, mas também aos136 anos que separam nossa vida hoje, no século XXI, da vida das personagens”.

Para a autora best-seller Paula Pimenta, a personagem marcou sua vida desde a primeira leitura. “A Heidi foi uma das minhas primeiras amigas do mundo dos livros, por isso foi uma delícia reler agora e matar a saudade. Pude relembrar todos os sentimentos que o livro despertou em mim”, comenta na 4ª. capa do livro.

Ao longo dos anos, o clássico já rendeu alguns sucessos e adaptações – no cinema, em 1937, com direção de Allan Dwan e, em 2005, com direção de Paul Marcus. Já no universo do desenho animado, a história ganhou uma série produzida pela Nippon Animation e a Eizo Zuiyô, em 1974, com grande sucesso na Europa.

A coleção Clássicos Autêntica já publicou dois volumes de As mais belas histórias, com textos de Andersen, Grimm e Perrault, Pollyanna e Pollyanna Moça, de Eleanor H. Porter. Para 2017, a editora prepara O mágico de Oz, Peter Pan, Alice no país das maravilhas e Alice através do espelho, entre outros.

foto-2016-12-29-17-08-13-121328740846366-funflyshipDepois que Dete foi embora, o velho voltou a se sentar no banco e soltou grandes baforadas do cachimbo. Fitava o chão e não dizia nada. Enquanto isso, Heidi se divertia explorando os arredores. Descobriu o estábulo das cabras, construído ao lado da cabana, e espiou dentro dele. Vazio. A menina continuou suas investigações e foi para trás da cabana, perto dos antigos pinheiros. Ali, o vento soprava tão forte por entre os galhos que até assobiava no topo. Heidi ficou parada, ouvindo. Quando o vento diminuiu, a menina voltou a se colocar na frente do avô. Ao vê-lo na mesma posição em que o tinha deixado, postou-se diante dele, com as mãos nas costas e começou a observá- lo. O avô levantou o olhar.

– O que quer fazer agora? – perguntou, pois a menina continuava imóvel.

– Quero ver o que tem dentro da cabana – respondeu Heidi.

– Então venha! – o avô se levantou e seguiu na frente.

– Traga sua trouxa de roupas – ordenou.

– Não vou precisar mais delas – explicou Heidi.

O velho se virou e olhou fundo nos olhos negros da menina,

que ardiam de curiosidade para ver as coisas dentro da casa.

– Ela não deve ser muito boa da cabeça – disse consigo mesmo.

– Por que não precisa mais das roupas? – perguntou, por fim.

– Prefiro andar como as cabras, que têm pernas bem leves.

Trecho de Heidi, a menina dos Alpes vol. 1

‘Um Ano Inesquecível’ apresenta histórias escritas por autoras de livros juvenis

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Publicado na Folha de S.Paulo

Muitos dizem que os melhores momentos da vida são vividos na adolescência. Em uma época cheia de mudanças – e primeiros amores, encontros, festas e viagens -, são sempre os instantes inesperados que transformam um dia comum em uma lembrança especial.

“Um Ano Inesquecível” é um livro sobre esses momentos marcantes que não podem ser apagados da memória com tanta facilidade. Assinado por quatro autoras queridas entre o público jovem – Paula Pimenta, Bruna Vieira, Babi Dewet e Thalita Rebouças – a obra apresenta quatro personagens que vivem experiências e sentimentos intensos ao longo das quatro estações do ano.

No livro, Paula Pimenta traz uma história sobre uma viagem de inverno. Babi Dewet conta como um outono pode mudar tudo. Bruna Vieira mostra a paixão brotando com a primavera. E Thalita Rebouças narra um intenso amor de verão.

Paula Pimenta começou sua carreira literária em 2001. Formada em publicidade, trabalhou na Rede Minas como produtora do programa Brasil das Gerais e como assessora de marketing no Minascentro. É autora das séries “Fazendo Meu Filme” e “Minha Vida Fora de Série”.

Dona do maior blog voltado para o público adolescente do Brasil, o Depois dos Quinze, Bruna Vieira alcançou o sucesso pouco a pouco. Aos 15 anos, ela sofreu uma desilusão amorosa e decidiu usar as palavras para superar o trauma, criando o blog que fez sua vida mudar. Hoje blogueira e escritora, Bruna Vieira soma acessos que passam dos 10 milhões e recentemente atingiu a marca de 1 milhão de seguidores em seu perfil no Instagram.

Babi Dewet nasceu no Rio de Janeiro e é formada em Cinema. Começou a sua carreira escrevendo fanfics e publicou a trilogia “Sábado à Noite” em 2014. Amante de música, é apresentadora de shows e eventos de cultura coreana e pop, e possui um canal no YouTube sobre KPop e livros, além de fazer parte da equipe de vídeos do DramaFever.

Thalita Rebouças é jornalista de formação, mas abandonou as redações para batalhar por seu sonho de ser escritora, que tinha desde criança. Aos 25 anos, publicou seu primeiro livro, “Traição Entre Amigas” e, ao longo de 15 anos de carreira, a autora publicou 19 títulos, teve suas obras traduzidas no exterior e vendeu mais de 1.5 milhão de livros.

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Livro traz protagonistas que vivem experiências e sentimentos intensos durante as quatro estações do ano

 

Abaixo, leia um trecho do conto escrito por Paula Pimenta.

*

Acordei no dia seguinte me sentindo bem mais animada. Eu ainda estava com a garganta meio dolorida, mas a gripe tinha passado quase totalmente. Olhei para a cama ao lado e vi que o Dudu não estava lá, provavelmente tinha ido para o quarto dos meus pais, então me espreguicei e comecei a me lembrar dos acontecimentos da noite anterior.

Depois de descermos do terraço, fomos direto para o pub, que realmente estava bem cheio. A maioria das pessoas era mais velha, mas o Ben me levou direto para uma mesa onde estavam algumas da nossa idade. Quer dizer, da idade dele. Eu certamente era a mais nova ali.

Logo notei que o grupo era todo de brasileiros. Os primos dele estavam lá, além de alguns garotos que eu já tinha visto no café da manha do meu hotel e também algumas meninas. Assim que viram o Ben, começaram a falar alto, vibrando por ele ter chegado e perguntando por que tinha demorado tanto. Percebi que ele era muito querido por ali. Ele me apresentou rapidamente para todos, que pelo visto já sabiam sobre a minha peripécia na neve… Algumas meninas vieram me perguntar como eu havia tido coragem de ir tão alto, outras me alertaram para nunca subir em um teleférico sem saber para onde ele ia… Aos poucos fui entendendo que aquele era um grupo de amigos que passava todas as férias ali. Os pais da maioria deles esquiava – profissionalmente ou por hobby – então todos os anos eles se reencontravam. Fiquei sabendo também que, no dia em que eu tinha chegado, o Ben havia ido a Santiago apenas para encontrar os primos no aeroporto, pois ele já estava ali desde o começo do mês.

“Nos estávamos no mesmo voo que você”, o Glauco, um dos primos, me contou. “Alias, te vimos no aeroporto em São Paulo e ate comentamos que, com aquele vestido curtinho você devia estar indo para o hemisfério norte, onde agora e verão… Ficamos surpresos quando entrou no mesmo avião que a gente!”

“Ahhhh, Glauco… Quer dizer que notou a menina ainda no aeroporto…”, uma das garotas, de quem eu não lembrava o nome, brincou.

Fiquei envergonhada, mas o outro primo, que se chamava Adriano, explicou: “O irmao dela inventou de jogar futebol em plena sala de embarque, ela estava tentando ler e toda hora ele jogava a bola em cima dela, querendo atenção.

Os pais deles estavam resolvendo alguma coisa no guichê da companhia aérea, então foi a Mabel que tomou a bola do menino. Nos ate brincamos que ela era uma santa, pois eu estava vendo a hora que aquela bola ia voar no café que estávamos tomando! Mas acho que irmão dela deve ter aprontado mais depois, porque tanto no avião quanto ônibus ela ficou com a maior cara de emburrada.”.

“Por isso, quando chegamos aqui e vimos que ela estava naquela área de recreação que tem entre os hotéis, digitando alguma coisa no celular, resolvemos jogar umas bolinhas de neve nela, só pra descontrair, pra ver se ela ia toma-las da gente também! Era só uma brincadeira, mas ela apelou total, começou a xingar…”, o Glauco esclareceu. “A Mabel e muito brava, já estou avisando pra ninguém deixa-la nervosa, viu?”

Todo mundo achou graça, mas eu fingi estar realmente brava e falei: “Ah, então foi por isso que vocês ficaram jogando neve em mim! Fiquei de castigo por causa disso, sabia?”.

Uma das meninas, que ate aquele momento estava apenas ouvindo a conversa, falou: “Nossa, você ainda fica de castigo… Quantos anos tem?”.

Ela falou aquilo com tanto desdém que eu enrubesci no mesmo instante. Não queria que me achassem criança, mas eu também não achava certo mentir a minha idade.

“Tenho 14…”, confessei. “Mas facho 15 daqui a um mês, no final de agosto!”, completei depressa. “E sim, meus pais dizem que vão me deixar de castigo enquanto eu merecer, até depois que eu for maior de idade.”

Vários deles riram, dizendo que os pais de alguns ali deviam fazer o mesmo. Umas meninas falaram que eu parecia mais nova, outras disseram que eu parecia mais velha… Apenas a garota que fez a pergunta ficou calada, me olhando como se eu a tivesse ofendido por alguma razão.

O resto da noite passou rápido, pois a conversa estava muito animada e eu acabei me enturmando com facilidade. Descobri que todos ali eram muito diferentes, mas tinham uma paixão em comum: a neve. Quando faltava pouco para as dez da noite, o Ben disse que ia me levar ao meu hotel, então todos perguntaram se eu ia me juntar a eles para esquiar na manha seguinte. Totalmente sem graça, expliquei que eu não era boa no esqui, e por causa disso o Adriano falou: Ela acha que a escolinha e só para crianças…”, lembrando o que eu havia dito a eles na pista. Isso fez com que todos discordassem, me dizendo que era muito importante ter pelo menos uma iniciação, pois se tentasse esquiar sozinha, sem a menor base teórica, eu poderia até me machucar.

“Todo mundo aqui passou pela escola de esqui…”, uma das meninas, a Renata, acrescentou. E em seguida se virou para o Ben, dizendo: “Se ela não quer praticar lá, por que você não da umas aulas particulares pra ela? E ate bom, porque individualmente da pra aprender mais rápido”.

Ele, que havia ficado meio calado a noite toda, apenas balançou os ombros, dizendo: “Se ela topar, eu ensino com o maior prazer…”.

Todos insistiram para que eu fizesse isso, então no fim das contas acabei prometendo que ia tentar fazer uma aula com ele, apenas como experiência. Mas se eu não gostasse, encerraria minha carreira de esquiadora ali mesmo.

Por isso, agora, deitada na cama e olhando as montanhas branquinhas lá fora, eu estava sentindo uma mistura de expectativa e ansiedade. Eu realmente achava que não tinha nascido para aquilo, e também ainda não tinha superado o trauma do dia do teleférico. Mas eu havia gostado muito do pessoal na noite anterior, não queria que eles pensassem que eu era uma medrosa, que desistia sem nem tentar…

Sendo assim, me levantei e avisei para os meus pais que eu ia fazer uma aula particular com o Ben naquele dia. Eles adoraram a notícia e falaram que tinham certeza de que eu acabaria amando aquele esporte.

No horário marcado, encontrei com ele na frente do lounge. Como combinado, eu não ia ter aulas no lugar da escola de esqui, por isso ele me levou ate uma área plana que ficava um pouco abaixo dos hotéis.

“Primeiro sem os esquis”, ele começou a explicar. “Vamos apenas treinar os movimentos dos bastões, pois quero que você observe a posição do seu corpo. Finja que você vai começar a esquiar… Como você faria?”

Eu mostrei para ele, que na mesma hora disse que eu estava com a postura muito ereta. Ele me fez flexionar os joelhos e inclinar o corpo para a frente.

“Agora vamos tentar com os esquis”, ele falou, quando achou que eu já estava com o porte adequado. Ele então os acoplou as minhas botas e me ajudou a ficar em pé Em seguida falou para eu ficar na mesma posição que ele tinha me mostrado antes.

Aos 11 anos, Kaciane leu mais de 500 livros e inaugurou a própria biblioteca

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Uma biblioteca e a possibilidade de mudar de vida. Conheça a história de uma garota apaixonada pelos livros

Publicado em O Globo

Kaciane Marques descobriu o interesse pelos livros “bem novinha”, como ela mesma conta. Original da cidade de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, a jovem de 11 anos foi apresentada ao mundo de histórias, aventuras e personagens fantásticos por meio do contato com os irmãos e familiares.

“Eu queria aprender a ler e escrever desde muito cedo. Foi aí que eu comecei a brincar de escolinha com os meus irmãos, e eles me ensinaram bastante. Quando entrei para a escola, praticamente já sabia ler e escrever. Depois de já ter aprendido um pouco, minha irmã me ajudava em casa”, relembra. Mais tarde, uma professora do segundo ano estimulou ainda mais esse contato com os livros.

O primeiro título que ela leu? As aventuras de Pedro, o Coelho, da escritora Beatrix Potter. “Eu achei mágico. Como foi meu primeiro livro, me imaginei dentro dele. Ainda hoje me sinto dentro do livro quando leio, e isso me encanta, sinto prazer de ler cada vez mais”.

Amor pelos livros

Segundo ela, “não existe um segredo” para gostar de ler. “Para desenvolver esse prazer pela leitura devemos começar a ler livros do nosso interesse, do gênero com o qual nos identificamos e claro, como é o começo, com poucas páginas. Você só precisa se dedicar, ou seja, largar o celular”, explica Kaciane, que até o momento desta entrevista havia lido exatos 565 livros.

“Sem os livros, nada disso teria acontecido. Minha biblioteca não estaria funcionando e não teria acesso às oportunidades que eu tive.”

Nas indicações de Kaciane, uma variedade de livros infanto-juvenis. “Gosto bastante dos livros escritos pela Paula Pimenta — veja nossa entrevista com a escritora — , que é bem aconselhável para as pessoas da minha idade. Também gosto bastante dos quadrinhos do Mauricio de Sousa e dos livros da Thalita Rebouças”, recomenda.

Realização

Apaixonada pela leitura, em 2015, Marques realizou um sonho: inaugurou uma pequena biblioteca nos fundos da casa onde mora com a família. O espaço — que fica na rua Projetada 31, número 306, no bairro Lealdade e Amizade, em São José do Rio Preto, e funciona das 14h às 17h — foi construído com o apoio de algumas empresas e doadores.

São mais de 4 mil títulos e um fluxo semanal de 300 visitantes, muitos deles vindos de outros bairros. “Para uma pessoa retirar os livros aqui é necessário fazer um cadastro com o endereço e telefone. Depois disso, ela pode pegar até cinco livros e tem o prazo de 15 dias para devolver. Se não terminar de ler, pode renovar”, explica.

Isso muda o mundo

Recentemente, Kaciane conquistou uma bolsa de estudos em uma escola particular do município onde vive, efeito do confesso interesse pelos livros e dedicação aos estudos. Outro sonho realizado pela jovem foi o lançamento do primeiro livro: Tanto faz ou qualquer coisa, trabalho publicado pela HN Editora.

“Sem os livros, nada disso teria acontecido. Minha biblioteca não estaria funcionando e não teria acesso às oportunidades que eu tive. Meu livro dificilmente seria publicado. Mesmo essa entrevista não seria possível. Os livros mudaram tudo”, conclui.

Por que brasileiro não lê autores brasileiros contemporâneos?

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Da esquerda para a direita: André Vianco, Raphael Draccon, Carolina Munhóz e Eduardo Spohr, autores de literatura fantástica brasileira. Imagem: Divulgação

Da esquerda para a direita: André Vianco, Raphael Draccon, Carolina Munhóz e Eduardo Spohr, autores de literatura fantástica brasileira. Imagem: Divulgação

 

Raphael Montes, em O Globo

Semana passada, fui abordado em uma livraria do Leblon por uma moça que queria ajuda na escolha de um livro de suspense ou de aventura. Entre os lançamentos, recomendei livros do André Vianco e do Raphael Draccon. A moça estava bastante entusiasmada com as indicações até ler a biografia dos autores. Sua expressão mudou subitamente e ela largou os livros com um vigoroso “ai, autor brasileiro não, né?”. Perguntei qual era o problema e ela se defendeu, dizendo que o livro não era para ela e que “dar de presente livro nacional pega mal, né?”. Sem muita paciência, me afastei, mas fiquei observando quando ela pescou um Harlan Coben na prateleira e enfiou-se na fila para pagar.

Dias antes, eu havia dado uma palestra ao lado de diversos autores de literatura nacional. O evento estava cheio e o entusiasmo dos leitores em ter contato direto com autores era evidente. Diante de episódios tão díspares, foi inevitável a pergunta: por que o brasileiro não lê brasileiros? Sendo mais específico: por que brasileiro não lê brasileiros contemporâneos?

Quero falar daquelas obras de gênero (policial, fantasia, chicklit, terror) que disputam com os best-sellers e, vez ou outra, conseguem seu espaço no mercado editorial. André Vianco, por exemplo, chegou na marca de um milhão de exemplares com suas histórias de vampiro — tema bastante explorado em obras estrangeiras também. O mesmo vale para Thalita Rebouças e Paula Pimenta, fortíssimas no segmento jovem. Há romances nacionais para os mais variados gostos, sempre trazendo características e paisagens tipicamente brasileiras, o que torna a identificação com a história muito mais eficaz. Por que, então, os livros estrangeiros ainda têm preferência?

A internet deu voz a diversos potenciais contadores de histórias. A facilidade no contato com os leitores e editoras; a praticidade e a eficácia da divulgação, além de outros recursos que o mundo virtual disponibiliza são os motivos que tornaram mais fácil o surgimento de novos autores — em sua maioria jovens — no mercado editorial. Ao passo que o número de escritores cresceu, a publicação também sofreu mudanças. Sua forma tradicional deixou de ser o único meio pelo qual um livro é editado e posto à venda. Abriu-se um leque de alternativas que vão desde a publicação independente até a premiação em concursos literários. Isso é ótimo, pois aumentou a variedade de temas e deu maior destaque à produção nacional. Ao fazer sucesso, um escritor ajuda não só a si, como a todos que produzem aquele tipo de literatura no país.

Por outro lado, com o crescimento da quantidade de textos publicados, a qualidade diminuiu. Buscando realizar o sonho de ter seu livro à venda, muitos escritores não tomam os cuidados devidos na hora de lançar sua obra no mercado: falta paciência, profissionalismo e comprometimento. Daí, alguns romances chegam às prateleiras mal revisados e mal editados, o que denigre a imagem da literatura nacional de gênero — que ainda está em delicada construção.

Muitas vezes apontada como a vilã da história, a editora precisa ser defendida. A maioria das editoras recebe dezenas de originais por semana, o que torna impossível a cuidadosa avaliação de todos eles. Assim, destacam-se na pilha aqueles que prendem logo nas primeiras páginas e que trazem uma proposta bem feita, sem erros graves de gramática etc.

Uma vez editado, o romance brasileiro entra em uma verdadeira selva, disputando atenção e espaço com best-sellers estrangeiros que já chegam ao país com a onda do sucesso. Como todo negócio, as editoras precisam sobreviver financeiramente. Por isso, costumam investir pesado na produção, na distribuição e na divulgação dessas obras internacionais. São títulos que já deram um retorno positivo em outros países e, provavelmente, trarão bons números por aqui também. Vencer esta barreira de marketing para chegar ao leitor brasileiro é um grande desafio ao escritor nacional.

Nesse sentido, os blogs e canais literários são essenciais para a divulgação de um livro. Essas plataformas apresentam lançamentos e resenhas que geram uma repercussão inimaginável junto aos leitores. Quando uma rede de leitores especializados elogia um romance, a propaganda se difunde rapidamente na rede. Além disso, a internet facilita o contato direto entre escritores — principalmente nacionais de gênero — e blogueiros. Há vantagens para os dois lados: para o escritor, que acompanha de perto o retorno sobre sua obra; para o blogueiro, que pode trocar ideias e fazer entrevistas.

Infelizmente, alguns blogs acabam esquecendo que seu principal papel é difundir o gosto pela leitura. Muitos se deixam levar pelo sistema de parcerias (ganham livros de autores e/ou editoras para sortear) e acabam baixando a qualidade ou simplesmente deixando de comprar obras — uma vez que recebem quase todas de graça. A mim, isso parece uma inversão de papéis.

Por fim, claro, os leitores. Como os títulos brasileiros não costumam receber maior atenção da imprensa, o boca a boca acaba sendo responsável pela quebra do preconceito que muitos leitores têm com obras nacionais. Além disso, o leitor é a força maior que leva um escritor a se dedicar ao seu romance. Sem leitores não há escritores. É essencial que todos juntos se dediquem a criar uma literatura brasileira de gênero cada vez mais especializada e bem difundida entre nós. Vamos em frente?

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