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Após ‘Big Little Lies’, mais livros de Liane Moriarty devem chegar às telas

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Shailene Woodley (Jane), Reese Witherspoon (Madeline) e Nicole Kidman (Celeste) em cena de "Big Little Lies"

Shailene Woodley (Jane), Reese Witherspoon (Madeline) e Nicole Kidman (Celeste) em cena de “Big Little Lies”

 

Felipe Giacometi, na Folha de S.Paulo

Não é tão comum uma série chegar à TV com um elenco recheado de atrizes de peso de Hollywood como foi o caso de “Big Little Lies”, que tem no elenco as vencedoras do Oscar Nicole Kidman e Reese Witherspoon, além de Shailene Woodley, em alta pela saga “Divergente”, e Alexander Skarsgård.

A atração, uma das apostas da HBO para 2017, estreou quase simultaneamente a outros pesos-pesados do canal, como “Girls” e “Last Week Tonight”, de John Oliver.

Outra alavanca para a história que esmiúça os podres da vida de casais aparentemente perfeitos é Liane Moriarty. Sucesso de vendas principalmente nos EUA, a australiana é autora do livro homônimo que rendeu a série, adaptada em oito capítulos. No Brasil, o livro foi traduzido pela Intrínseca como “Pequenas Grandes Mentiras” (R$ 49,90, 400 págs.).

Segundo o jornal britânico “The Guardian”, ela vendeu seis milhões de cópias de suas obras em todo o mundo, embora o reconhecimento em seu país natal só tenha vindo depois da fama que conquistou nos EUA.

A primeira a sondá-la para filmar seus livros foi a também australiana Nicole Kidman (a atriz tem dupla cidadania). “Minha agente disse que Nicole estava em Sydney e queria tomar um café comigo para falar da possibilidade de adaptar o livro. No começo, havia a ideia de fazer um filme, mas depois ficou como uma série”, afirma.

As negociações evoluíram, e a atração foi para a HBO. Acabou filmada na Califórnia, nos oeste dos EUA, embora a trama original se passe em uma fictícia cidade no litoral australiano.

“No fim, [a diferença] é o sotaque”, avalia Moriarty, comparando os dois locais. “Não acho que a série ter sido gravada nos EUA afete muito. O visual é muito parecido com o que eu imaginava e, viajando pelo mundo, vi muita gente dizendo que a história poderia ter acontecido na realidade delas”, diz.

Sobre as diferenças entre palavra escrita e imagem, a autora considera que algumas vezes é mais fácil mostrar com uma filmagem o que os personagens estão sentindo, o que nos livros poderia levar páginas e páginas.

Mas, na série, as personagens precisam falar em voz alta o que estão pensando. Não há os monólogos internos do romance.

Por causa da distância entre EUA e Austrália, Liane não acompanhou de perto as gravações, mas disse ter ficado muito satisfeita com o resultado da adaptação.

“Nicole também é australiana e tem casa em Sydney, então pudemos nos ver e conversar sobre o papel dela. Com Reese, não me encontrei muito, mas quando eu visitei o set, ela foi adorável. Foi uma escolha perfeita para o papel de Madeline.”

ADAPTAÇÕES

Enquanto a trama começa a engrenar na TV -neste domingo (5) vai ao ar o terceiro episódio-, Liane está em casa novamente e com a rotina corrida: começou a escrever outro livro e se prepara para ver outros três de seus romances irem para as telas.

“‘As Lembranças de Alice’ teve o script finalizado, e Jennifer Aniston está ligada ao projeto. Há uma possibilidade de ela interpretar Alice, que eu espero que aconteça”, diz a autora.

“‘O Segredo do Meu Marido’ também está quase pronto. Estão definindo quem vai protagonizar o filme. Também há conversas para ‘Truly Madly Guilty’, que é meu livro mais recente, novamente seja feito pela produtora de Nicole Kidman. Mas essa é uma história bem pequena, então definitivamente não será uma série.”

Liane Moriarty, autora de "Big Little Lies", ao lado de Reese Witherspoon, no tapete vermelho da série

Liane Moriarty, autora de “Big Little Lies”, ao lado de Reese Witherspoon, no tapete vermelho da série

Livro que teria inspirado ‘O Pequeno Príncipe’ chega ao Brasil

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Ilustração original de 'Les histoires de Patachou', feita por André Hellé - André Hellé / Reprodução

Ilustração original de ‘Les histoires de Patachou’, feita por André Hellé – André Hellé / Reprodução

 

Bolívar Torres, em O Globo

RIO — Editora da Piu, especializada em literatura infantojuvenil, Paula Taitelbaum adora garimpar livros raros ou “perdidos” do gênero. Em 2016, pesquisando na Bibliothèque Nationale de France, de Paris, encontrou as histórias de Patachou, um garotinho que descobre o mundo “misturando fantasia e melancolia”, como ela define. Escritos em 1929 pelo poeta francês Tristan Derème (e ilustrados pelo seu conterrâneo André Hellé em 1930 e 1932), os contos sobre o personagem estavam reunidos em dois volumes obscuros (“Patachou petit garçon” e “Les histoires de Patachou”). Encantada, a editora começou a investigar mais sobre a obra, até que tropeçou em uma tese polêmica: segundo o pesquisador Denis Boissier, Patachou seria a inspiração por trás de “O Pequeno Príncipe”, de Saint-Exupéry. A partir daí, Paula teve a certeza de que precisava publicá-la no Brasil, pela própria Piu. Com os títulos de “O pequeno Patachu” e “As histórias de Patachu” (o nome do personagem foi aportuguesado para facilitar a pronúncia) e bancados por financiamento coletivo, os dois volumes devem chegar em junho nas livrarias.

— O interesse em publicar a história veio pela qualidade do texto e das ilustrações e por essa curiosidade relacionada com “O Pequeno Príncipe” — diz Paula. — As coincidências entre as obras são mesmo impressionantes.

Em seu estudo, publicado em uma prestigiosa revista literária francesa, em 1997, Boissier aponta paralelos entre os dois livros, mostrando que várias das palavras-chaves do texto de Derème são as mais usadas por Saint-Exupéry em “O Pequeno Príncipe”. A semelhança do tema (o olhar generoso de duas crianças) e o uso constante dos mesmos símbolos (como a estrela, por exemplo), também impressionam — o pesquisador, porém, não fala em plágio, mas em inspiração.

Nesse sentido, o desconhecimento em torno de Patachou é mesmo curioso. Apesar de ter feito muito sucesso até os anos 1950, o personagem sumiu desde então, ganhando pouquíssimas edições pelo mundo. Se tudo que fez a fama do livro de Saint-Exupéry também aparece no personagem de Derème, então por que uma obra permanece popular através das décadas, enquanto a outra entrou para o esquecimento?

O próprio Boissier não tem uma resposta definitiva. Embora ache impossível explicar o sucesso de uma obra, o pesquisador lamenta que as pessoas não se interessem em procurar outros autores que aqueles consagrados “pela indústria”. E culpa o “império industrial” da editora Gallimard, que até 2015 tinha exclusividade dos direitos de “O Pequeno Príncipe” na França (desde então a obra está em domínio público). A popularização de um concorrente, como Patachu, não seria interessante para a editora.
— Nada pode atrapalhar a glória daquele que rende tanto dinheiro à Gallimard — diz Boissier, em entrevista ao GLOBO. — Nunca haverá capitalização sobre a obra de Darème. Ao contrário: só se empresta aos ricos.

Boissier acredita que nem mesmo sua teoria teve muita receptividade na França.

— Meu trabalho passou despercepido, a não ser por um especialista de Saint-Exupéry, Michel Autrand, que se achou na obrigação de divulgar a descoberta. Recentemente meu trabalho começou a ser muito modestamente assinalado na internet. E é só.

Para Paula, no entanto, a tese de Boissier é “perturbadora”.

Versão brasileira da obra contará com ilustrações originais da década de 1930 - André Hellé / Reprodução

Versão brasileira da obra contará com ilustrações originais da década de 1930 – André Hellé / Reprodução

— Ele faz uma análise inclusive de frases que são poeticamente (ou metaforicamente) muito parecidas e raciocínios que são exatamente iguais nos personagens Patachou e Pequeno Príncipe — analisa. — Ele cita as páginas, demonstra questões relacionadas com elementos como a rosa, o elefante, o carneiro, a caixa, as estrelas, etc. Seria muito delicado dizer que é plágio, nem acho que seja, mas a sensação que ficamos é a de que Saint-Exupéry leu as histórias de Patachou em algum momento da vida, gostou e ficou com elas guardadas, absorveu esse diálogo entre um homem mais velho e um menino, e de como esse menino poderia fazer com que o adulto visse o mundo a partir do olhar da infância. Acho que a maior contribuição é essa: o mundo infantil, inocente, visto pelos olhos de um adulto. Além disso, Tristan Derème foi um dos criadores da chamada “escola fantasista literária” que enfatizava a imaginação, o ritmo, a musicalidade, o humor e, ao mesmo tempo, a melancolia. Elementos que, não podemos negar, estão presentes em “O Pequeno Príncipe”.

A editora espera que, no Brasil, o destino de Patachu seja outro e que o personagem possa conquistar um amplo público, tanto infantil quanto adulto. Para isso, já ganhou inclusive uma ajuda da Embaixada Francesa, que concedeu a Piu um prêmio que financiou a tradução dos dois livros.

— É um livro infantojuvenil que não é especificamente escrito para crianças — destaca. — Existe uma espécie de filtro que mostra o mundo da criança pelos olhos de um adulto. Justamente por isso há um ar de encantamento, de leveza e de beleza no texto. Ainda tem o humor e a poesia, mesmo que em certos momentos essa poesia soe melancólica. E a forma como o texto flui em tom de conversa ou confidência.

Hotéis pelo mundo onde se pode dormir com os livros

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Conheça os 7 hotéis onde pode dormir rodeado de livros.

Conheça os 7 hotéis onde se pode dormir rodeado de livros.

 

Publicado no Volta ao Mundo

Há hotéis que têm o ginásio ou a piscina abertos durante a noite. Mas para quem gosta de ler antes de dormir, nada como ficar num hotel repleto de livros e com bibliotecas que nunca fecham portas.

O The New York Times fez uma seleção. Nós fizemos crescer a lista: há hotéis que têm salas de leitura ou livrarias com milhares de exemplares à disposição, e que funcionam 24 horas por dia. Outros não têm telefone, wi-fi ou televisão nos quartos. Há ainda os inspirados em escritores de renome. Conheça os hotéis nas imagens abaixo:

1. Library Hotel, Nova Iorque O Library Hotel tem uma sala de leitura (library room) com seis mil livros que nunca fecha portas.

1. Library Hotel, Nova Iorque
O Library Hotel tem uma sala de leitura (library room) com seis mil livros que nunca fecha portas.

2. Heathman Hotel, Portland O Heathman Hotel, em Portland, tem uma livraria aberta 24 horas por dia, 365 dias por ano, e possui uma coleção de 2700 livros autografados por alguns dos mais importantes nomes da literatura contemporânea.

2. Heathman Hotel, Portland
O Heathman Hotel, em Portland, tem uma livraria aberta 24 horas por dia, 365 dias por ano, e possui uma coleção de 2700 livros autografados por alguns dos mais importantes nomes da literatura contemporânea.

3. Sylvia Beach Hotel, Newport O Sylvia Beach Hotel, debruçado sobre o mar, em Newport, é o típico paraíso para escritores. Não há telefone, wi-fi ou televisão e os quartos são inspirados em autores como Agatha Christie, Mark Twain, William Shakespeare ou Jules Verne.

3. Sylvia Beach Hotel, Newport
O Sylvia Beach Hotel, debruçado sobre o mar, em Newport, é o típico paraíso para escritores. Não há telefone, wi-fi ou televisão e os quartos são inspirados em autores como Agatha Christie, Mark Twain, William Shakespeare ou Jules Verne.

 

4. B2 Boutique Hotel & Spa, Zurique Nem todos os hotéis literários ficam nos Estados Unidos, naturalmente. O B2 Boutique Hotel & Spa, em Zurique, tem uma wine library, onde os hóspedes podem beber um copo de vinho e escolher entre os seus 33 mil livros.

4. B2 Boutique Hotel & Spa, Zurique
Nem todos os hotéis literários ficam nos Estados Unidos, naturalmente. O B2 Boutique Hotel & Spa, em Zurique, tem uma wine library, onde os hóspedes podem beber um copo de vinho e escolher entre os seus 33 mil livros.

 

5. Eurostars Book Hotel, Munique No Eurostars Book Hotel, em Munique, cada andar é dedicado a um género literário.

5. Eurostars Book Hotel, Munique
No Eurostars Book Hotel, em Munique, cada andar é dedicado a um gênero literário.

 

6. Taj Falaknuma Palace, Hyderabad O Taj Falaknuma Palace, um palácio indiano do século XIX, tem uma livraria com mais de cinco mil livros e manuscritos raros.

6. Taj Falaknuma Palace, Hyderabad
O Taj Falaknuma Palace, um palácio indiano do século XIX, tem uma livraria com mais de cinco mil livros e manuscritos raros.

 

7. Gladstone’s Library, País de Gales Talvez o mais impressionante o Gladstone’s Library, no País de Gales. Tem nada mais nada menos do que 250 mil livros à disposição, e uma biblioteca com quartos. Confortáveis, garantem os responsáveis.

7. Gladstone’s Library, País de Gales
Talvez o mais impressionante o Gladstone’s Library, no País de Gales. Tem nada mais nada menos do que 250 mil livros à disposição, e uma biblioteca com quartos. Confortáveis, garantem os responsáveis.

 

 

 

Quando as páginas dos livros inspiram viagens pelo mundo real

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A torre Azadi é um dos símbolos de Teerã, capital do Irá, a antiga Pérsia de “Mil e uma noites” - D. Stanley/Visual Hunt / Creative Commons/Reprodução

A torre Azadi é um dos símbolos de Teerã, capital do Irá, a antiga Pérsia de “Mil e uma noites” – D. Stanley/Visual Hunt / Creative Commons/Reprodução

 

Empresa carioca promove cursos “in loco” em cenários de clássicos da literatura mundial

Carolina Mazzi, em O Globo

RIO – O Império Persa narrado pela princesa Xerazade de “As mil e uma noites” foi a inspiração principal para que participantes de um grupo de estudos de literatura clássica da PUC-Rio subvertesse a lógica tradicional da sala de aula. Em vez de apenas ouvir e ler sobre os cenários que formam hoje o Irã, a professora Sandra Guimarães resolveu que era hora de ir além da imaginação e organizou uma “viagem-curso” ao país, com saída em 9 de abril e que, garante ela, não se trata somente de um passeio temático. É, sim, um tour aberto ao público:

— Não é só uma viagem turística. Promovemos cursos completos sobre a obra estudada, com aulas no Brasil e no Irã, antes e durante os passeios, ministradas por professores especializados.

A Pérsia narrada nos contos já não existe. Mas foi organizando o curso pelo país e pensando nas imagens narradas no romance que surgiu a ideia para criar a empresa de viagens Philos & Sophias, que agora já promove outros cursos por locais como as cidades na Espanha que marcaram a obra de Cervantes e a França de Ernest Hemingway (com datas ainda a serem definidas, mas confirmadas para 2017 e 2018).

— Mas é claro que, juntamente com os cenários das obras, fazemos passeios culturais para que a realidade daquele livro ou autor também seja contextualizada e outras vertentes da época, como a pintura, por exemplo, também sejam exploradas — diz Sandra.

São muitas inspirações literárias, mas a professora acredita que a ideia para a criação dos cursos não poderia ter sido outra senão o Irã:

— Por se tratar de uma cultura e de cenários muitos diferentes do que estamos acostumados, eu fiz uma aula mais lúdica, usando muitas imagens para que todos pudessem se ambientar. Tanto as histórias narradas no livro, como as fotos e vídeos, inspiraram os alunos, que insistiram para organizamos uma aula fora da sala.

O roteiro terá duração de 14 dias. Nas aulas ministradas por Sandra, há um tour por cenários narrados por Xerazade e importantes pontos históricos, como palácios, mesquitas, museus, sítios arqueológicos (como Pasárgada) e outros prédios históricos na capital, Teerã, além das cidades de Kashan, Isfahan, Shiraz e Persépolis.

Outro curso definido, com saída prevista para 12 de julho, tem como tema a Rússia e sua literatura. Na rota, os museus de Tolstói e Tchekhov, além de locais inspirados nas narrativas do país de Dostoiévski, como a Fortaleza de Tobolsk (um antigo presídio de passagem, onde o autor chegou a ficar) e uma parte da Sibéria (onde, durante o período de trabalhos forçados, provavelmente o romancista se inspirou para escrever alguns de seus clássicos, como “Memórias da Casa dos Mortos”).

Cenários em Moscou, como o Kremlin, inspiraram grandes escritores russos - Kishjar/Visual Hunt / Creative Commons/Reprodução

Cenários em Moscou, como o Kremlin, inspiraram grandes escritores russos – Kishjar/Visual Hunt / Creative Commons/Reprodução

 

Até o fim de 2017, um tour pela França de Hemingway, que morou em Paris na década de 1920, também visitará pontos de interesse do autor e que o inspiraram a escrever algumas de suas obras. Um dos passeios sai da capital francesa e chega a Lyon, trajeto muito percorrido por Hemingway. No caminho, um minicurso enogastronômico ministrado pelo sommelier Joseph Morgan Jr, professor na ABS (Associação Brasileira de Sommeliers).

Sandra afirma que o curso que foca em autores sul-americanos também abrirá inscrições. O roteiro passará, inicialmente, por Peru e Colômbia. A ideia é se aprofundar nas narrativas de Vargas Llosa e do realismo mágico de Gabriel García Márquez, que foi um dos idealizadores da famosa Faculdade de Cinema de Cuba e passou seus últimos dias no México. Por isso, esses dois países também devem ser incluídos no roteiro final, afirma Sandra.

Todos os cursos são voltados para o público em geral, sem a necessidade de conhecimento prévio sobre os autores e suas obras:

— Os cursos podem servir para despertar o interesse mais profundo sobre aquele autor, aquela cultura e demais obras. É um curso sim, mas também uma visita turística, então, mesmo quem não conhece vai gostar. E quem já leu, com certeza, vai ter uma visão nova sobre aquele destino.

SERVIÇO

‘O Oriente das mil e uma noites, Irã’. Saída dia 9/4 e volta dia 21/4. A partir de US$ 5.650, com aéreo e hospedagem.

‘A Rússia através de Tolstói, Dostoiévski e Tchekhov’. Saída dia 12/5 e volta dia 31/5. Preço ainda a definir.

Informações. Para outras viagens e mais detalhes, confira o philosesophias.com.br.

Um mundo na palma da mão

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kindle

Rodney Eloy, no Pesquisa Mundi

“E-books’ têm um longo caminho a percorrer no país, mas podem se tornar uma ponte entre pessoas que ainda não leem e o universo dos livros

Cora Rónai | O Globo

No último fim de semana foi lançado no Píer Mauá um novo salão do livro carioca, a LER. Fui para lá sem ter ideia do que ia encontrar e fui agradavelmente surpreendida por um evento bonito, arejado, cheio de boas ideias e com um jeito de feirinha artesanal. As grandes editoras ficaram restritas aos estandes das livrarias, e com isso as pequenas, que, em geral, somem na Bienal, ganharam destaque; a cenografia aproveitou a locação ao máximo e contribuiu com detalhes curiosos, como uma chuva de flores aqui, um teto de guarda-chuvas virados ali, quadros com perguntas provocadoras que eram respondidas pelos visitantes em papeizinhos coloridos autocolantes. Havia até uma exposição de encantadores vestidos de livros da Analu Prestes, que cria as coisas mais lindas em papel.

Perto de uma das entradas, duas divisórias formavam um recanto que lembrava uma biblioteca, com a imagem de estantes cheias de livros — mas ali havia mais do que folhas ilustradas coladas nas paredes. É que as lombadas exibiam QR codes que, capturados por smartphones, levavam a links de onde se podiam baixar as obras para um leitor Kobo, gratuitamente. Aquele espaço despretensioso, que à primeira vista parecia apenas decorativo, oferecia um verdadeiro tesouro para os visitantes.

Para mim, oferecia também um retrato, difícil de capturar, da convivência entre as duas espécies de livros com que convivemos. Depois de muita polêmica e até do temor de que, um dia, substituiriam os seus irmãos de papel, os e-books começam a se firmar não como ameaça a um universo estabelecido, mas como uma alternativa a mais para quem gosta de ler.

Na noite anterior à minha ida à LER, eu havia, por acaso, jantado com uma amiga editora. A certa altura, a conversa se desviou para os livros eletrônicos, que ela relutantemente confessou ler, mais ou menos como quem confessa uma traição. Hoje já não encontro mais quem não leia e-books — até minha mãe, que nos seus 92 anos nunca quis saber de computadores ou smartphones, é fã do Kindle, onde consegue aumentar o tamanho das letras.

Há alguns anos, quando os e-books apareceram, imaginava-se que eles tomariam todo o mercado, num fenômeno não muito diferente do que aconteceu quando a televisão surgiu, e os catastrofistas previram que ela ia acabar com o cinema. Este ano, pela primeira vez, as vendas de e-books caíram, mas o seu mercado continua forte: prevê-se que, em 2018, eles responderão por um quarto dos livros vendidos no mundo. Nos Estados Unidos, 13% dos leitores já leem mais e-books do que livros em papel, e 15% dizem ler mais ou menos a mesma coisa nos dois formatos. No Brasil, onde 30% dos entrevistados numa pesquisa realizada em meados do ano confessaram que jamais compraram um livro na vida, os e-books ainda têm um longo caminho a percorrer, sobretudo do ponto de vista da tecnologia: a maioria das pessoas sequer ouviu falar em leitores como o Kindle ou o Kobo.

Ainda assim, os e-books têm tudo para fazer uma boa ponte entre as pessoas que (ainda) não leem, e o mundo fabuloso dos livros. Cada smartphone ou tablet espalhado pelo mundo tem o potencial de virar uma biblioteca mágica, que acompanha o dono aonde for. Na LER, vi alguns adolescentes escaneando os QR codes das lombadas de mentirinha, e fiquei muito feliz — eles estão no bom caminho.

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