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6 coisas que Aristóteles entendeu errado

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Viking

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Armand Marie Leroi, no Brasil Post

Todo mundo sabe que Aristóteles foi um grande pensador. Ele inventou a lógica, escreveu a Política, a Poética e a Metafísica – livros que os filósofos leem até hoje. Mas pouca gente sabe que também foi um grande cientista – o primeiro. Foi a primeira pessoa a compreender que as teorias sobre o funcionamento do mundo natural têm de ser testadas pela evidência de nossos sentidos: pela realidade empírica. Ele escreveu sobre física, cosmologia e química, mas, principalmente, amava biologia. Ele colecionou milhares de fato sobre animais e plantas e então, em uma dúzia de livros, os explicou. É o maior sistema científico já construído por um homem. Mas até os maiores fãs de Aristóteles – entre os quais me incluo – têm de admitir que ele entendeu algumas coisas errado.

1. As mulheres são monstruosas.

Aristóteles diz que as mulheres têm menos dentes que os homens. Não está claro por que ele pensa nisso. Talvez ele tenha contado os dentes de sua jovem esposa e descobriu que ela não tinha os sisos. Mas os dentes são o menor dos problemas de Aristóteles com as mulheres. Comparadas aos homens, diz ele, elas são “imaturas”, “deficientes”, “deformadas”; são até um pouco “monstruosas”.

Estudiosos feministas levaram isto a sério, como deveriam. Mas tudo está ligado à biologia de Aristóteles. Ele acha que os homens têm sangue mais quente que as mulheres, têm um papel mais importante na reprodução e de modo geral são mais perfeitos. Ele dá algumas evidências para seus comentários. Nota que se você “mutilar” um menino — cortar seus testículos — sua voz nunca engrossará e ele não ficará calvo: ele se tornará feminilizado. A inferência de que as mulheres são naturalmente homens mutilados é razoável, mesmo que não seja exata.

É difícil resistir à conclusão de que as opiniões de Aristóteles sobre a biologia feminina são pelo menos em parte condicionadas pelos costumes patriarcais de sua época. Em Política, ele nem sequer considera a possibilidade de que as mulheres fossem cidadãs. A seu crédito, ele rejeita a sugestão de Platão em A República de que as mulheres deveriam ser partilhadas comunitariamente. Isto, porém, não é uma defesa dos direitos das mulheres: ele apenas pensa que a partilha das mulheres apoiada pelo Estado causará problemas. Provavelmente tinha razão.

2. Algumas pessoas merecem ser escravas.

A Atenas do século 4º funcionava com escravos. Em sua Política, Aristóteles considera a justiça disso. Ele admite que prisioneiros de guerra não merecem ser escravizados: são homens livres que apenas tiveram má sorte. Mas também afirma que algumas pessoas merecem ser escravizadas. Os escravos “naturais” são o tipo de pessoas que têm a capacidade de aceitar ordens, mas não têm inteligência suficiente para pensar por si mesmas. São pessoas mecânicas. Não são muito melhores que os animais.

É uma avaliação bastante dura. Coloque de lado a questão da propriedade, porém, e você poderá ver o que Aristóteles está pretendendo. Ele compreenderia o capitalismo industrial moderno. Ele indicaria que os trabalhadores em um “centro de remessa” do tipo dirigido pelas firmas de encomendas pelo correio, que obedecem roboticamente às ordens de “controladores” ambulantes, são escravos no sentido de que não podem exercer sua razão. Eles são escravos “naturais”? São incapazes de exercitar a razão? Não. Mas é assim que são tratados.

3. As enguias não se reproduzem.

As enguias são um problema para Aristóteles. O problema é que elas não têm gônadas. Abra o corpo de uma enguia e você não encontrará os espermatozoides e os óvulos que encontra dentro de outros peixes. Como então elas se reproduzem? A solução de Aristóteles é que elas não se reproduzem: apenas são geradas espontaneamente da lama. É claro, Aristóteles não poderia saber sobre a bizarra história de vida da enguia europeia: como ela só desenvolve suas gônadas quando faz uma viagem de 10 mil quilômetros dos rios da Grécia até o mar de Sargaços, nas Bermudas; como ela desova na profundidade, morre, e os filhotes fazem a longa viagem de volta. Mas sua solução para o problema da enguia foi excessivamente radical. Na verdade, ele pensa que muitos animais — moscas, percevejos, sanguessugas, ostras, moluscos — também são gerados espontaneamente de matéria-prima inanimada. A teoria da geração espontânea foi extremamente influente. Foi somente em 1668 que o cientista italiano Francesco Redi mostrou que para que surjam moscas na carne podre outras moscas primeiro têm de depositar ovos nela. O experimento de Redi era simples. Aristóteles poderia tê-lo feito. Mas não fez.

4. A eternidade do mundo.

Aristóteles, um maravilhoso naturalista, tem muitas evidências da evolução à sua frente. Ele vê que as espécies podem ser agrupadas em famílias; ele vê como elas são adaptadas a seus ambientes, e tem uma teoria sobre hereditariedade – a mais sofisticada que existia até que Mendel publicou a sua em 1866. Alguns de seus antecessores, os filósofos pré-socráticos, tinham teorias quase evolucionárias para explicar a origem da vida. Aristóteles avalia, e rejeita, todas elas.

5. Existe vida lá fora.

Aristóteles era um geocêntrico. Ele pensava que a terra se situa no centro do cosmo: o sol, a lua, planetas e estrelas, embutidos em esferas cristalinas, giram ao redor dela. Copérnico, Galileu e Kepler mostraram que ele estava errado. O aspecto mais estranho da cosmologia de Aristóteles, porém, não é seu geocentrismo, mas sua convicção de que os objetos celestes são vivos. Eles são, na verdade, as coisas vivas mais perfeitas; são quase deuses. Ele se pergunta por que a lua não tem asas, e conclui que não precisa delas; tem uma maneira melhor de se deslocar. Tudo faz parte de sua convicção de que o cosmo, em toda a sua reluzente perfeição, tem um objetivo. Nós não; simplesmente pensamos que ele apenas é.

Essa é a astroteologia de Aristóteles. Seu Deus definitivo é o Primeiro Movedor; uma entidade imaterial que vive além das estrelas, e, indiferente à vida na terra, passa seu tempo pensando sobre pensar. As estrelas e os planetas desejam ser como ele e por isso giram eternamente. É por isso que as coisas vivas se reproduzem: elas querem ser como Deus, eternas. Para Aristóteles, o amor literalmente faz o mundo girar.

6. Como as abelhas se reproduzem.

Aristóteles tenta decifrar como as abelhas se reproduzem. A maioria dos animais (com exceção dos geradores espontâneos) tem machos e fêmeas, e é fácil identificá-los. Mas existem três tipos de abelhas: as operárias, os zangões e as abelhas “líderes”, ou rainhas. Ele reúne todos os dados que consegue, os analisa e dá um ciclo de vida para as abelhas que, embora engenhoso, é errado. Mas é o que ele diz no final de seu capítulo sobre as abelhas que importa:

Então esta, pelo menos até onde vai a teoria, parece ser a situação sobre a geração das abelhas — em conjunto, isto é, com o que as pessoas acreditam ser os fatos sobre seu comportamento. Não que haja atualmente qualquer compreensão adequada do que são esses fatos. Se no futuro eles forem compreendidos, será quando a evidência dos sentidos depender mais que de teorias, embora as teorias tenham uma participação, desde que o que elas indicam concorde com os fatos.

Isto é o que eu penso que está acontecendo, mas realmente não sei. Quando tentamos compreender o mundo, devemos considerar as teorias. Mas na verdade são os fatos que importam; e, se os fatos mudam, nossas teorias também devem mudar. É uma declaração sobre como fazer ciência, feita 23 séculos atrás, a primeira. É por isso que, como cientista, posso compreender o que Aristóteles diz. É por isso que gosto tanto dele.

O livro de Armand Marie Leroi, “The Lagoon: How Aristotle Invented Science“, é publicado pela Viking (US$ 29.95).

10 características que todo pensador deve ter

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Quer pensar de maneira crítica? Veja algumas dicas de como fazê-lo

Publicado no Universia Brasil

 

Fonte: Shutterstock     Abandonar as ideias dos livros didáticos para criar suas próprias não é uma tarefa simples

Fonte: Shutterstock
Abandonar as ideias dos livros didáticos para criar suas próprias não é uma tarefa simples

Aprender não é coisa fácil, não há dúvida quanto a isso. Contudo, refletir a respeito dos conceitos estudados pode ser um desafio ainda maior, afinal abandonar as ideias dos livros didáticos, por exemplo, para criar suas próprias não é uma tarefa simples. Se você tem interesse em desenvolver um pensamento crítico, veja abaixo algumas características que os pensadores têm e tente aplicá-las a sua rotina de estudos.

1 – Persistência é essencial

Os pensadores não desistem quando encontram dificuldade lendo um texto complexo ou se deparando com uma opinião divergente da sua. Na verdade, eles tendem a encará-los com entusiasmo, lendo-os por mero prazer. Além disso, os pensadores também escutam pacientemente as ideias dos outros para que assim, unindo suas leituras e experiências, possa articular seus argumentos autonomamente.

2 – Reflexões na ponta do lápis

Geralmente, a partir das várias ideias que têm, os pensadores escrevem textos. Não para postar nas redes sociais e mostrar o quão cult eles são, mas sim para se organizar e, consequentemente, raciocinar melhor diante de tantas nuances.

3 – Vive para aprender

Os pensadores são curiosos por natureza: perguntam incessantemente para saciar suas dúvidas. E não se desesperam quando não obtêm respostas, porque sabem que as perguntas valem mais que as respostas.

4 – É possível aprender a partir de tudo

Como bons curiosos, eles sabem que tudo tem uma história e, portanto, qualquer coisa é motivo para iniciar novos estudos. E eles podem ser bastante criativos fazendo isso, afinal eles criam seus próprios métodos de aprendizado.

5 – Opinião e fato não são equivalentes

Os pensadores têm plena consciência de que suas opiniões não são fatos, muito menos inquestionáveis. Isso porque eles articulam suas próprias ideias, ou seja, sabem que aquilo se aplica aos seus valores e experiências, mas podem não ter a mesma recepção com outras pessoas.

6 – Tudo se conecta, nada está isolado

Pensar implica em brincar com as ideias e os pensadores fazem isso por livre e espontânea vontade: vinculam conceitos aparentemente desconexos a todo instante tanto para analisar uma situação quanto apenas para fazer piada. Entretanto, independentemente de suas razões, ele faz isso refletindo tanto no fato por si só como sobre quais são as raízes dele.

7 – Não julgar é um de seus preceitos

O pensador valoriza demais as análises para julgar as pessoas por suas opiniões, porque ele sabe que para tê-las você teve que primeiro refletir para depois tirar conclusões, afinal ele mesmo passa por esse processo.

8 – Pode compartilhar sim

Por mais que eles não busquem aprovação de suas ideias, os pensadores as compartilham com o objetivo de socializá-las e, assim, criar um debate, afinal reconhecem que só dessa maneira podem continuar aprendendo.

9 – Sempre há uma novidade

Por mais cotidiana que seja a situação, eles a enxergam como nova, porque têm o hábito de encontrar padrões em tudo e ver as muitas facetas de um mesmo fato. Portanto, tudo é encarado como novidade.

10 – Complexidade e simplicidade

Eles sabem que o mundo pode ser visto tanto como complexo como simples, isto é, eles têm a habilidade de pensar de maneira simples um aspecto complexo da realidade e vice-versa.

Albert Camus, um pensador para o século XXI

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O tempo jogou a favor do filósofo. Seu centenário ocorre numa era em que a violência e o totalitarismo são intoleráveis – e suas ideias libertárias são atuais como nunca

Fernando Luis Schüler na revista Época

Albert Camus chamou o século XX de “o século dos rancores”. Nascido em novembro de 1913, viveu uma vida relativamente curta e intensa. Morreu em 1960, três anos depois de receber o Prêmio Nobel de Literatura. Já se vão 100 anos de seu nascimento, mas é difícil não pensar em Camus como um intelectual do nosso tempo. Defini-lo é perigoso. A melancolia, a estética noir dos cafés de Saint-German-des-Prés andam lado a lado com a imagem do homem viril, amante da dança, do sol, da Espanha e de algumas das mulheres mais encantadoras de seu tempo, como Maria Casares e Catherine Sellers.

Camus viveu o lado obscuro do século XX. Século da “peste”, do medo, da submissão do homem ao absurdo da ideologia. A grande guerra, a ocupação da França, o engajamento na resistência, a guerra de independência na Argélia, sua terra natal e de formação. Após o fim da guerra, foi um dos poucos intelectuais franceses a tomar plena consciência – e a tratar disso com coragem – do horror soviético, dos campos de concentração, do absurdo totalitário. Acossado pela intelligentsia ligada, ou simpática, ao sovietismo, condenou igualmente os ataques nucleares dos Estados Unidos ao Japão; a prerrogativa dos vetos, no Conselho de Segurança da ONU; o absurdo da Guerra Fria, cuja lógica sempre se recusou a adotar. Fez da oposição ao franquismo quase sua obsessão pessoal.

O desassossego que sempre acompanhou Camus não se restringia ao contexto histórico em que viveu. Seu tema é existencial. A solidão. Sua própria. “Se eles não querem que eu lute”, escreveu, em 1939, logo depois de ser impedido de servir na guerra, em função da tuberculose crônica, “é porque meu destino é sempre ser deixado de lado.” O desconforto, a inadequação. Camus declarou certa vez que passara a vida com uma estranha sensação de que era culpado de alguma coisa. A desconfiança crônica com a qualidade de sua literatura. O casamento desapaixonado com Francine. O fastio com a vida intelectual parisiense. A sedução da fuga para as “cidades sem passado”. E o tédio das conferências. Uma delas, em Porto Alegre, numa noite fria, agosto de 1949, durante uma turnê pelo Cone Sul. Recebido com uma fala curta e elogiosa de Erico Verissimo, anotou em seu diário: “Essas ilhotas de civilização são frequentemente horrendas”.

LUZ E ESCURIDÃO O escritor Albert Camus tinha a melancolia dos cafés parisienses associada ao gosto pela dança, pelo sol da Espanha e pelas belas mulheres (Foto: Cecil Beaton/Condè Nast Archive/Corbis)

A ética de Camus (Foto: ÉPOCA)Camus alcançou celebridade quando lançou, em maio e outubro de 1942, O estrangeiro e O mito de Sísifo. Com Calígula, sua primeira grande incursão pela dramaturgia, as três obras de juventude compõem sua “trilogia do absurdo”. O estrangeiro é seu livro mais lido, traduzido e, para muitos, sua obra-prima. Ele conta a história de Mersault, espécie de anti-herói moderno, homem comum, destituído de abstração e expectativas. Mersault comete um crime banal e é, de certo modo, condenado por sua indiferença. À espera da guilhotina, resigna-se. “Se me obrigassem a viver dentro de um tronco seco, sem outra ocupação além de olhar a flor do céu acima da minha cabeça”, pensa, “eu teria me habituado aos poucos.” Camus o definiu como o “homem que se recusa a se autojustificar”. Perto de sua execução, rejeita, com uma quase violência, o consolo de um padre. Ele poderia ter recebido a bênção, não faria muita diferença. Tampouco seu pequeno gesto de revolta faz muita diferença. Ele guarda, porém, um elemento de dignidade pessoal. Mersault agarra o que lhe resta, a pequena verdade de sua vida sem transcendência. Por essa verdade, vale viver seus últimos dias. Observar uma vez mais a luz da lua e encontrar algum descanso. Um descanso mediterrânico, de alguém em paz com seu destino, que dispensa a filosofia. Que descobre, como uma revelação, e toma para si, como fato da vida, a “suave indiferença do mundo”.

Filósofo em formação, na casa dos 20 anos, ainda em Argel, Camus se propôs a enfrentar um antigo tema da filosofia: o sentido da vida humana. Possivelmente, o mais complicado de todos, dado a soluções precárias. Seu argumento: a condição humana é dada pelo “absurdo”. O absurdo é nossa exigência de clareza diante de um mundo opaco. O confronto desesperado “entre a interrogação humana e o silêncio do mundo”. Camus recorreu à história de Sísifo, que lhe parecia o perfeito herói absurdo. Sísifo tenta escapar de seu destino, enganar os deuses. Seu castigo será empurrar infinitamente a pedra de mármore, montanha acima, até vê-la cair, e recomeçar tudo de novo. Camus encontra aí uma metáfora da condição humana. Podemos imaginar Sísifo feliz quando sabe que aquele é seu destino. Podemos vê-lo em desespero, quando imagina que seu destino poderia ser outro. Cada um de nós é Sísifo. Cada um carrega sua própria pedra. Sísifo nos lembra que somos iguais, que fazemos todos a mesma pergunta e ouvimos todos nenhuma resposta. Há, porém, alguma margem de manobra. É possível jogar, é possível agir com “vivacidade”. Camus enumera modelos de “jogo”: o amante, o comediante, o aventureiro. Haveria outros. O “moralista”, quem sabe, personagem que Camus sempre rejeitou. Para si, escolheu o “criador”, o artista, para ele a síntese de todos os homens absurdos e, dentre eles, o mais feliz. Cada qual fará suas escolhas. A pedra nos lembra simplesmente que tudo é precário, que há limites. Mas, de alguma maneira, nos tranquiliza. “Assim como, em certos dias, a descida é feita na dor”, escreve, “também pode ser feita na alegria” e a “própria luta para chegar ao cume pode encher o coração de um homem.”
Um segundo grande tema de Camus diz respeito à política. Sua posição: a consciência do absurdo não nos deve levar à indiferença moral. O desafio é fundamentar uma ética universalista, pautada pela justiça, pela recusa da violência, num mundo dessacralizado, carente de uma ordem última de valores – seja ela dada por Deus, seja por algum movimento próprio da história. Esse tema aparece em Calígula, quando o Imperador sugere que Cherea, seu executor, creia em “alguma ideia superior”. Cherea rejeita a sugestão, mas afirma crer que “algumas ações contêm mais beleza do que outras”. Calígula responde, dizendo acreditar que “todas elas são equivalentes”.

Sua visão política se revelou com toda a clareza em O homem revoltado, publicado em outubro de 1951. Camus o considerou seu livro mais importante. À publicação do livro, seguiram-se o conhecido debate e a ruptura com Sartre. O debate dividiu uma geração inteira e, de certo modo, prossegue. De um lado, a ética universalista de Camus, seu imperativo de “não violência”, o cansaço da ideologia. De outro lado, o realismo político de Sartre, que à época se alinhava aos comunistas, no ambiente intoxicado da Guerra Fria.

Vargas Llosa bem definiu o argumento de Camus, em O homem revoltado. Disse que, para ele, “toda tragédia da política começou no dia em que se decidiu que era lícito matar um homem em nome de uma ideia”. O tema surge na cena em que Yanek, o poeta terrorista, personagem central da peça teatral Os justos, se recusa a explodir a carruagem do Grão-Duque, quando percebe que teria de explodir junto duas crianças, que o acompanhavam. A hesitação de Yanek faz dele, naquele instante, um “homem revoltado”. Camus sabia que erguia uma perspectiva ética em bases frágeis: num mundo caótico, que mal haveria de explodir uma criança? Ética é construída no deserto. Talvez um pacifismo ingênuo, que ele chamava de ética da “solidariedade humana que nasce nas prisões”, do exercício da empatia, como um longo aprendizado. Nesse aprendizado, o “homem revoltado” é o pedagogo. Aquele que anda na frente. Por vezes, é Dom Quixote. Ele tateia nessa escuridão infernal, a ausência de valores últimos. O tempo, porém, parece lhe pertencer.

Em maio de 1952, Francis Jeanson, jovem colaborador de Sartre, publicou, na revista Les Temps Modernes, um artigo acusando Camus de professar uma “moralidade cruz vermelha”. Um humanismo subjetivista e vago, que desconsidera o papel da história e da economia nas revoluções. Na polêmica que se seguiu, Sartre evitou o debate no terreno filosófico. Lançou mão do argumento ad hominem: “E se seu livro fosse feito de conhecimentos colhidos às pressas, de segunda mão?”. Numa sugestiva hierarquização de valores, disse considerar os campos de concentração soviéticos tão inadmissíveis quanto “o uso que a imprensa chamada burguesa faz deles”. Camus recusou o clichê: “Não se decide sobre a verdade de um pensamento conforme seja ele de esquerda ou de direita”.

VITÓRIA PARCIAL O filósofo Jean Paul Sartre. No ambiente politicamente carregado dos anos 1950, ele se saiu vencedor (Foto: Boris Lipnitzki/AFP)
A ética de Sartre (Foto: ÉPOCA)

No ambiente politicamente carregado dos anos 1950, é possível dizer que Sartre se saiu vencedor. Camus se viu, em boa medida, isolado. Em setembro de 1951, escreveu a Francine: “Estou pagando caro por este livro infeliz. Hoje tenho dúvidas sobre ele, e sobre mim mesmo”. A história diria o contrário. Sartre manteve-se fiel ao sovietismo. Só veio a revisar sua posição, ainda que parcialmente, quando os tanques soviéticos invadiram a Hungria, em 1956.

Num sentido amplo, Camus tornou-se, nos anos do pós-guerra, um liberal. No final de O homem revoltado, observa que “a política e a sociedade têm apenas o encargo de ordenar os negócios de todos, para que cada um tenha o tempo e a liberdade dessa busca comum”. Observa como o capitalismo soube, pela via do reformismo social, melhorar as condições de trabalho, percebe o crescimento constante das classes médias e a desconcentração do capital – no mercado de capitais e nos pequenos negócios. Estávamos em 1950. Ele manifestava suas simpatias pelo modelo escandinavo, mas não ia além disso. Sua teoria social não é sistemática. Seu argumento é estético. Numa sociedade perfeita, escreve, “as crianças continuarão a morrer, sempre injustamente”. Não há antídoto para o drama mais fundamental, o desejo humano pela clareza num mundo opaco. Mas não há dúvidas de que o espírito da revolta, cujo vértice é a dignidade humana, nos permite melhorar o mundo.

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