Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged Periferia

Não é dinheiro que falta na periferia, diz criador de sarau literário em SP

0

Gabriela Jujita, no UOL

São 15 anos de histórias recitadas e compartilhadas na periferia de São Paulo, nas vozes de um mundo quase que desconexo do centro. Elas se reúnem toda semana no Sarau da Cooperifa, criado pelo poeta Sérgio Vaz ‘no outro lado da ponte’, como se diz na zona sul paulistana.

O escritor de 52 anos recebeu a reportagem do UOL em sua casa, no Taboão da Serra (Grande São Paulo), para falar sobre os desafios do movimento cultural iniciado por ele e o amigo Marco Pezão, em 2001, na região próxima ao Jardim Ângela, que já foi considerada uma das mais violentas do mundo pela ONU.

A Cooperifa: Por que poesia em um bar?

“Quando eu criei a Cooperifa numa fábrica abandonada [no Taboão da Serra], junto com outros malucos, a gente não tinha muitas opções de lazer nem de cultura na comunidade, nas quebradas. O único espaço público que a gente tinha eram o bar e a igreja”, diz Vaz.

Sérgio Vaz, poeta e criador da Cooperifa

Sérgio Vaz, poeta e criador da Cooperifa

Ele já era poeta, tinha livros publicados e queria um lugar para ler seus textos e trocar ideias. O Sarau da Cooperifa nasceu assim, em um galpão, depois passou para um bar no Taboão (fechado cerca de um ano e meio depois), até que se instalou no bar do Zé Batidão, no Jardim Guarujá (zona sul), de onde nunca mais saiu.

Toda noite de terça-feira, o boteco recebe poetas, cantores –iniciados ou iniciantes– e muita gente interessada em ouvir o que outros têm a dizer.

Quem quiser se apresentar, primeiro coloca o nome na lista e espera ser chamado para usar o microfone. Para os que vão assistir, “o silêncio é uma prece”, como se costuma dizer ali. É assim que funciona o encontro literário.

A gente não desconfiava do que estava fazendo. A gente estava ressignificando o bar.

A região do Jardim Guarujá também é o lugar onde o poeta cresceu e fica a mais ou menos 25 km do centro de São Paulo. É vizinha do Jardim Ângela, que em 1996 foi indicado pelas Nações Unidas como o local mais violento do planeta.

“A gente não desconfiava do que a gente estava fazendo, a gente estava ressignificando o bar. O bar sempre foi o nosso centro cultural, nós nunca demos bola pra ele. Porque é lá que ocorrem as reuniões para a comunidade de bairro, é pra lá que as pessoas vão depois do trabalho, onde se reúnem pra falar de futebol, de música, onde tem samba, onde tem forró. Faltava a gente ter humildade de reconhecer que aquele era o nosso espaço. Se é o bar que nós temos, então é o bar que nós vamos transformar.”

Por um bom tempo, o sarau foi realizado sempre às quartas-feiras, mas ficava tão lotado, com as pessoas tomando a calçada e o meio da rua, que foi preciso mudar o dia da semana.

“A gente não percebeu que outras pessoas, em outros lugares, estavam pensando como a gente. Faltava um lugar. A gente não sabia a força que estava já acumulada [nas pessoas]. A gente estava sentado em cima de urânio, faltava enriquecê-lo. Foi bem isso, a gente foi enriquecendo o urânio.”

A pobreza intelectual

O significado de ‘pobreza’, diz Vaz, uma palavra associada constantemente à periferia, não tem a ver com o carro na garagem nem com a conta no banco. E isso ele descobriu só na adolescência.

Se o centro tem, nós temos que ter também.

“Quando eu fui ao Bixiga pela primeira vez [bairro na região central de São Paulo], nos anos 1980, foi a primeira vez que eu tive noção da pobreza. Porque eu tive uma infância rica, apesar da simplicidade, de liberdade e de brincadeiras. Quando eu cheguei à [rua] Treze de Maio e vi aqueles bares, aquelas pessoas circulando, livraria, o cineclube do Bixiga, eu falei: ‘Caramba, bicho! Que coisa mais linda! Por que é que a gente não tem isso?’ Mas eu não fiquei com raiva, eu fiquei com inveja. ‘Se o centro tem, nós temos que ter também’, essa era a minha ideia.”

O segundo estalo veio alguns anos mais tarde, com o lançamento de seu primeiro livro, em 1988.

“Eu tinha noção dos problemas físicos, estruturais da periferia. Mas não sabia que a gente tinha esse problema intelectual. Essa distância do livro, esse desapego à palavra, à literatura, à poesia.”

É diferente

“É diferente porque nós ainda estamos conquistando, ainda estamos lutando por coisas para sermos considerados como gente. Nós sofremos racismo, sofremos preconceito, a gente está nas piadas, pela cor da pele, pela situação econômica. Não se reconhece o ser humano da periferia, e sim a periferia como um todo. Nós somos números [para o poder público], não seres humanos. (…) O que a gente precisa é que o Estado nos reconheça como brasileiros. Da mesma cidade, da mesma língua, da mesma pele, que paga o mesmo imposto.”

Participante do Sarau da Cooperifa se apresenta em bar na zona sul de São Paulo

Participante do Sarau da Cooperifa se apresenta em bar na zona sul de São Paulo

O estigma do fracasso: Como é sentida esta diferença entre o centro e a periferia?

“É difícil ser feliz sem sonhar. Eles roubam isso da gente, não é o dinheiro. Quando a gente fala de infraestrutura, você vai ter, mas não vai ter total. ‘Eu vou te dar educação, mas não vai ser aquela. Eu vou te dar lazer e cultura, mas nem fica sonhando em montar uma banda’. Acima de tudo, o que eles estão roubando do país é o sonho, de nação, de pátria. A periferia é quem sofre mais, mas todo mundo sofre, ainda que não saiba.”

O que ainda falta?

“O grande desafio é tirar das pessoas o fracasso que nos foi imposto. O meu nome não pode estar aliado ao sucesso, ao dinheiro, ao bem-estar. A gente precisa perder isso, e colocar no lugar um rótulo de vencedor. É por isso que é importante falar dos Racionais, do Emicida, do rap nacional, do funk, do samba. Essas pessoas são vencedoras. A gente não pode ter vergonha de vencer, como se tivesse roubado de alguém. Temos que ser inspiração.”

Uma das conquistas marcantes recentes, na opinião do escritor, é a parte pobre da população ter conseguido acesso a mais bens materiais. Mas, para ele, mais importante do que dar o poder de compra é fazer com que o cidadão periférico compreenda que pode ser alguém que vence. E Vaz acredita que não virá de fora da periferia o incentivo para evoluir.

A gente está fazendo filho, mas quer ter direito ao gozo. É isso que as pessoas não entendem.

“Um dos gritos mais fortes que a periferia deu foi com o nascimento do hip hop aqui no Brasil. Foi quando a periferia se assumiu: ‘eu posso, eu sou possível, sou negro, e daí? Sou da favela, e daí?’ Quem tem que ter vergonha é o governo, não somos nós. (…) Tudo que acontece neste país é feito por gente trabalhadora, da classe média, gente rica, nós fazemos parte disso também. Mas a gente também quer gozar, não só fazer filho. A gente está fazendo filho, mas a gente quer ter direito ao gozo. É isso que as pessoas não entendem. Parece que fecharam a panela e não entra mais ninguém.”

O pensamento crítico: O que mudou nesses 15 anos?

“Falando da Cooperifa, mudou um pouco a autoestima. Nós crescemos num lugar que era conhecido só pelo Gil Gomes [repórter policial do programa de TV ‘Aqui Agora’], pelo Afanásio Jazadji [jornalista policial e ex-deputado estadual], pelo [jornal] Notícias Populares. A referência que a gente tinha do nosso bairro era quando matava-se ou morria alguém. Agora é diferente: ‘eu moro onde tem o Sarau da Cooperifa, onde fazem o Cinema na Laje’. A referência mudou.”

Qual é o benefício da autoestima?

“É o pensamento crítico. Você começa a questionar por que é que você mora em um barraco de madeira e o cara mora na mansão. ‘Por que aquele cara foi fazer faculdade e eu não fui?’ (…) Nós estamos vivendo a nossa Primavera de Praga, é a nossa Nouvelle Vague. Só que a gente quer mostrar para os nossos vizinhos, pro cara do baile, pro cara da rua.”
Como fica o contraste entre cultura e violência?

“É uma palavra da moda, mas é o empoderamento: ‘estou vivo e quero fazer valer a minha existência, então vou brigar um pouco’. A cultura tem esse poder de fazer cobranças. A si e aos outros. O Raul Seixas fala: ‘falta cultura pra cuspir na estrutura’. A gente precisa ter cultura para cuspir na estrutura.”

O que foi mais difícil nesses 15 anos?

“O mais difícil foi conscientizar as pessoas do poder da palavra, do poder do livro. A importância da literatura, que a literatura não pode mais ser o pão do privilégio. Três anos atrás, nós fizemos uma campanha na comunidade, ‘Natal com livros’, distribuímos 12 mil livros. Mesmo de graça as pessoas não queriam o livro. O mais difícil é isso, é fazer com que a pessoa entenda que ela não é responsável por ser alienada, por aquela ignorância que ela está sentindo. E nada de pedir para Deus o que é obrigação dos políticos.”

Dificuldade para viver de literatura não desanima escritores da periferia

0

 

 Paraty  (RJ) -  Os  escritores Jéssica Oliveira, Marçal Aquino, Márcio  du  Coqueiral e Diego  Moraes falam sobre o que os leva a escrever e as dificuldades que encontram para viver de literatura  Tomaz Silva/Agência Brasil


Paraty (RJ) – Os escritores Jéssica Oliveira, Marçal Aquino, Márcio du Coqueiral e Diego Moraes falam sobre o que os leva a escrever e as dificuldades que encontram para viver de literatura Tomaz Silva/Agência Brasil

 

Vinicius Lisboa, na Agência Brasil

A Flipzona, que tem programação própria durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), reuniu autores de três diferentes periferias brasileiras na tarde de hoje (1º) para falar sobre o que os leva a escrever, os obstáculos que enfrentam e como suas origens estão presentes em sua obra.

Jéssica Oliveira, de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, Márcio du Coqueiral, de Aracaju, e Diego Moraes, de Manaus, responderam a perguntas do escritor Marçal Aquino e rejeitaram o desânimo com as dificuldades de viver de literatura.

“Falta muita coisa, mas a gente tem que hackear e tem que fazer na raça também”, afirmou Jéssica, que escreve crônicas muitas vezes inspiradas em histórias que ouve nas três horas diárias de transporte público entre a Baixada Fluminense e o centro do Rio de Janeiro. “Estou há apenas duas gerações do analfabetismo, e a pessoa que mais me dá repertório para escrever, minha avó de 86 anos, não sabe ler e assinar o próprio nome.”

A autora conta que sempre foi estimulada a gostar de ler, mas começou a querer escrever quando um professor recomendou livros de autores de sua cidade. “Antes, só lia autores distantes da nossa convivência. Comecei a ler e a sair por pro barzinho e encontrar os caras”, lembrou Jéssica. “Quando eu falo do Rio de Janeiro, posso escolher de que Rio de Janeiro eu vou falar. Moro na periferia da periferia, em Morro Agudo.”

Ela questiona a visão de quem acredita que só a publicação em papel dá legitimidade aos escritores e afirma que as dificuldades financeiras não farão com que pare de escrever. “Se rolar dinheiro, bom. Se não rolar, vou escrever também.”

Romances perdidos em enchente

Márcio du Coqueiral, nascido em Estância, Sergipe, e morador da capital, Aracaju, chegou a ficar dois anos sem escrever após uma experiência traumática: uma enchente em sua rua fez com que perdesse tudo em casa, incluindo dois romances finalizados e um terceiro em produção. “Não escrevia nem bilhete”, lembrou o escritor, que conseguiu salvar poucos textos, que reuniu no livro O que Sobrou da Enchente.

Em sua obra, o escritor diz que tenta estimular pessoas que não gostam de ler. Com textos curtos espalhados em ônibus, papéis de pão e outros locais inesperados, Márcio quer incentivar “as pessoas a perderem um minuto lendo aquilo”.

Desempregado e com duas filhas, Márcio trabalha atualmente como freelancer, escrevendo as memórias de um advogado de sua cidade, e não rejeita trabalhos braçais para pagar as contas, nem vê problema nisso. “Faço da minha literatura o que um médico em zona de guerra também faz. O que ele tem à mão, ele aproveita”.

“Manaus é de asfalto e sangra”

Autor de Manaus, Diego Moraes conta que sua literatura nada tem a ver com a tradição de lendas regionais do Amazonas. “A minha Manaus é de asfalto, sangra”, diz ele. E acrescenta: “esse lance de pertencer a um lugar é balela. A escrita pode ter um passaporte infinito, pode ser cosmopolita sempre”, afirmou Diego.

Apesar disso, ele defende que os autores não sejam fake (falsos). “Vejo muito isso na periferia. Tentam escrever algo que não dominam, tentam escrever uma novela do Manoel Carlos”, critica ele, referindo-se ao autor de novelas da Rede Globo que costuma ambientar tramas no bairro do Leblon.

Com uma trajetória que inclui ter vivido em situação de rua por um ano e se recuperado da dependência química de cocaína, ele afirma que a literatura alivia suas dores. “A literatura é meu refúgio e minha fortaleza. A literatura é onde eu gozo e onde eu sinto tesão”, diz o escritor, que tem como um dos maiores orgulhos saber que sua literatura desperta o interesse de jovens da periferia, inclusive cooptados pela criminalidade. “Vejo moleques que estavam no tráfico e que me seguem. Tem coisa melhor que isso?”

Para Diego Moraes, o escritor não pode esperar nada de ninguém. “Do céu, só vai cair merda de pombo e chuva”, diz ele, que promete para seu primeiro livro: “vem pancada por aí”.
Edição: Nádia Franco

“Livro não dá dinheiro, só da Ibope”

0

Para autor da periferia, a elite e a imprensa conseguem fazer com que o povo fique contra o povo. “O culpado é a vítima. Sempre”

/ , no El País

Título original:“Até hoje eu não sei o que é pior, a igreja ou a droga”

O escritor Ferrez. / Fernando Cavalcanti

O escritor Ferrez. / Fernando Cavalcanti

“Vocês não vão fechar a minha loja, né? Aqui é o meu ganha pão”, perguntou Ferrez, ao ver o cenário que o fotógrafo montava para fazer a foto ao lado, ocupando casi todo el espacio. O escritor acabava de chegar, pontualmente no horário combinado para essa entrevista, à sua loja, a 1DASUL, no Capão Redondo. O bairro, que fica a mais de uma hora de distância do centro de São Paulo, abriga a loja de roupas e acessórios que o escritor paulistano de 39 anos criou há 16 anos. “Livro não dá dinheiro, só da Ibope”, diz ele, que está prestes a publicar seu 11º livro, Os ricos também morrem, pela Editora Planeta. A pergunta, que assustou, foi seguida de piada.

Autor da chamada ‘literatura marginal’ ou ‘literatura combativa’ – ou os dois, Ferrez começou a escrever aos sete anos, copiando trechos da Bíblia porque “era o único livro que eu tinha na mão”. Aos 12, escrevia poesia. Em 1997, lançou o primeiro livro de poemas. Seu pai, que foi motorista a vida toda, levou carne para a família comer pela primeira vez quando Ferrez tinha 15 anos. A realidade na periferia vivida pelo escritor é o que alimenta as linhas agressivas dos seus textos. Crítico e ácido, Ferrez é também irônico e engraçado, características muito expostas nos contos que serão publicados no novo livro.

Nasceu em Valo Velho, um bairro pertencente ao Capão Redondo, na zona sul de São Paulo. Foi para o Capão com três anos de idade, onde vive até hoje com a mulher e uma filha. Não pensa em sair de lá, ainda que seja um dos bairros mais perigosos de São Paulo. Pouco após o término dessa entrevista, houve um assassinato em uma rua próxima de onde estávamos, segundo informava a rádio. Ferrez não cogita ir embora do bairro por duas razões. A primeira é que “aqui eu sou importante. Em outro lugar, eu não sou nada”. E a segunda tem a ver com a sua própria literatura e sua própria voz: “Daqui eu tiro o tom das minhas histórias”.

Pergunta. Seu novo livro é feito apenas de contos inéditos?
Resposta. Não, já publiquei alguns. Mas eu fiz esse livro para ser falado na rua, para ser uma piada. Eu queria sentir o que eu senti quando escrevi Capão Pecado (seu primeiro romance, publicado em 2000) e o Manual Prático do Ódio (2003), que é ver as pessoas comentarem sobre os personagens nas ruas…

P. Isso acontecia?
R. Muito. As pessoas me paravam na rua e diziam “meu, e aquela mina é mó pilantra, traiu o cara…” Eu ia nas escolas e os alunos me paravam para perguntar sobre um capítulo do livro. Me ligavam da cadeia pra perguntar do Manual Prático do Ódio. Me diziam “mano, não to entendendo, fala aí, o que que quer dizer isso?”. E eu dizia: mano, cê tá falando de onde? De [presídio] Presidente Bernardes? Para, to fora”.

P. E você queria que isso acontecesse de novo?
R. Sim, porque deu saudade de ver as pessoas comentando. O que eu tinha era isso, eu não tenho mais nada além de ver as pessoas lendo as minhas histórias e comentando comigo. Eu cheguei a escrever um livro com contos mais formais e tinha uns oito contos prontos.

P. Formais, você quer dizer com uma linguagem menos coloquial que essa sua?
R. Isso. E aí eu estava numa festa e queria fazer as pessoas rirem, e aí eu começava a dizer: você viu a história do Bolonha?, aí eu contava a história do Bolonha, as pessoas começavam a rir… E aí eu ia ler meus contos novos, esses mais formais, e ninguém prestava atenção. E eu falava: O que foi? E as pessoas: Conta a história do Bolonha, mano. Mas aquilo era uma brincadeira, eu dizia. Não, mas aquilo é mais da hora que isso aí. Aí eu escrevi esses contos e passei a ler eles nas escolas. A história do pintinho é a mesma coisa (um dos contos do novo livro). A história do ovo também é boa, onde eu vou as pessoas pedem. Na Alemanha já me pediram “conta a história do ovo”.

P. Mas são ficções então? Não são histórias reais.
R. Não, mas eu pego o tom das pessoas.

P. É por isso que você precisa viver aqui no Capão Redondo…
R. Isso. Eu não pego a história, eu pego o tom das pessoas. Se uma mulher passa aqui [na padaria onde estávamos] e diz “para de beijar o menino, tira essa boca de chupar rola do menino”, isso é muito foda! (risos) Eu tenho que escrever um conto com isso. Se você falar isso na escola, você ganha todo mundo. Eu fico convivendo com essa mulher dentro de mim e incorporo nos contos.

P. Mas você tem um tipo de literatura combativa…
R. Eu não fujo disso. Todo lugar que eu estou no mundo, quando estou falando de literatura combativa, tem autor que diz que não tem esse compromisso, que não é prisioneiro disso ou daquilo. Eu acho lindo isso, mas não tem como você escrever uma coisa, sair na esquina, ver um cara morto e não sentir nada. Se você consegue fazer isso, boa sorte. Mas eu não consigo.

P. Sim, mas é um eterno debate entre os escritores que não querem compromisso e os que querem mudar as coisas através da literatura, que é uma ideia velha… Na Europa, por exemplo, muita gente diz que ser combativo na literatura é uma ideia velha, ultrapassada…
R. Mas agora que a Europa está entrando em crise, talvez voltem a ser mais combativos. É que eles viveram da América Latina por muito tempo, sugaram tudo o que a gente tinha em termos de ouro, de madeira, levaram as nossas pedras pra lá pra fazer o chão onde hoje eles pisam, passaram séculos sem trabalhar. Agora, talvez eles voltem a ser combativos.

P. Você acha que os livros podem mudar a vida das pessoas daqui do Capão Redondo?
R. Eu tenho prova [de que isso é possível] todas os dias. Tem gente aqui que já está na segunda faculdade e o primeiro livro que leu foi o meu. Eu não sou salvador de ninguém. Mas não sou o contraexemplo também. O cara não vai me ver fumando maconha na rua, batendo na minha mulher. Eu lido com criança também. Eu faço livro pra criança e tenho um projeto pra criança. Se eu entrar para falar com a criança e estiver bêbado, que exemplo eu vou estar dando? Todo mundo bebe na favela. Não precisam de mais um. Todo escritor tem essa coisa de pagar de louco, beber, fumar. Mas aqui é outra realidade. O moleque apanha do pai que bebe. Então não dá pra ser assim. De vez em quando eu tomo uma cachaça com um amigo ou outro. Mas os caras aqui ostentam. Porque tudo pra pobre é excesso. Ele tem que beber e encher essa mesa de cerveja, pro vizinho dele ver e falar “porra, o cara tá abonado, bebendo 200 cervejas”.

P. Você disse no ano passado, em uma entrevista, que “o rolezinho era só o começo”. No que mais deu esse movimento da periferia?
R. Eu acho que não é um movimento. É a aceitação de um novo país. É as pessoas estarem preparadas para entender que tem gente que ascendeu financeiramente e que tem que participar das coisas boas que aquela faixa de consumo pode alcançar. Ter acesso ao shopping faz parte, comprar tênis de marca faz parte, andar de avião faz parte. Tem um monte de coisa que faz parte, só que a gente [a periferia] tem um jeito diferente de fazer as coisas e essa elite vai ter que entender isso.

P. Todo mundo está falando da chegada de uma crise econômica nesse momento. Como você, que além de escritor também é empresário, sente isso? A crise chegou na favela?
R. Pra gente nunca foi fácil. Enquanto está todo mundo falando que está bem, pra gente sempre foi pior. Mas de dezembro do ano passado pra cá piorou muito. Hoje mesmo eu estava (mais…)

Ferréz leva para França seu ódio aos ricos e à classe média

0

ferrez

Rodrigo Casarin, no UOL

“Sou o pregador do ódio!”.

Todos leitores sabem que os alvos preferidos de Ferréz são os ricos e a classe média alta. Em entrevista exclusiva ao UOL, após ser questionado sobre quem prega a conciliação entre todas as classes existentes no Brasil, disparou o torpedo que abre este texto. “Querem conciliação do quê? Enquanto meu povo lavar privada, quero que ele não idolatre os ricos, que entenda que já nasceu sendo roubado. Nosso povo aceita muito as coisas, é muito simpático”, continuou.

Antes, em sua fala na mesa que dividiu com Ronaldo Correia de Brito e Godofredo de Oliveira Neto no Salão do Livro de Paris, já havia seguido linha semelhante. “Se a gente da periferia não é a esperança, essa classe média preguiçosa que não sabe nem fazer café que também não é. Nós que possibilitamos a vida deles, só não recebemos a renda por isso”.

O autor de “Capão Pecado” disse estranhar o luxo de Paris, mas que isso faz com que entenda um pouco as vontades dos brasileiros mais abastados. “Em São Paulo eu não frequento os lugares da hora, aí, chego aqui, vejo o que o rico de lá quer fazer”. O escritor sabe que seu discurso incomoda muita gente, mas não se importa com isso, pelo contrário, afirma que seu papel não é “fazer massagem”. “Eles não gostam quando eu falo, mas da favela eles podem falar, né!?”.

É o povo mais simples, aliás, que está retratado em “Os Ricos Também Morrem”, seu novo livro, lançado pela Planeta, que apresenta contos feitos ao longo dos últimos três anos, escritos com uma linguagem bastante acessível para que possam ser facilmente compreendidos por alunos e por adultos que não estão habituados a ler.

Em um dos contos, o alvo são os food trucks, algo que também causa indignação em Ferréz. “Tem essa tendência de pegar tudo que já existe e colocar nome em inglês. Daqui a pouco lançam o super motoboy”, ironiza. “A classe média tem um esvaziamento cultural tão grande que precisa desses supérfluos, pagar R$30,00 em um pão com salmão, para achar que está vivendo”.

Ao ser questionado, por conta do título da obra, se os ricos morrem de maneira diferente, disse que sim: “eles morrem tomando suco verde e achando que são eternos”.

Dentre os textos está também “Pensamentos de um ‘Correria’”, conto inspirado em um assalto a Luciano Huck (levaram o relógio do apresentador), publicado originalmente na Folha de São Paulo. Narrando a situação da perspectiva do assaltante, Ferréz acabou sendo acusado de apologia ao crime e precisou prestar explicações em uma delegacia. Hoje, a respeito de Huck, diz que o global “é um bom representante da classe dos coxinhas”.

Ainda sobre a Globo, Ferréz não mostrou empolgação alguma ao saber que três novelas da emissora programadas para este ano serão, de alguma forma, ambientadas na favela. “Nunca vi nada na Globo ser positivo. Outro dia, vi que em uma novela tinha três estereótipos em um único personagem, que era negro, gay e cabeleireiro. Falta profundidade, qualquer tema eles transformam em uma idiotice”.

Neste ano Ferréz também lançará mais um livro juvenil, este pela Dsop, com ilustrações de Fernando Vilela. “A Menina Ana e o Balão” contará a história de uma garota que, após perder o seu pai, aluga um balão para procurá-lo no céu, uma forma de abordar a morte junto às crianças.

Quebra-cabeça leva aluno da periferia de SP para Stanford

0

Gustavo aprendeu inglês aos 12 anos lendo alguns livros que pertenciam ao seu pai

Publicado na Tribuna Hoje

No ano passado, Gustavo ganhou outra bolsa de estudos e foi fazer um curso de verão na universidade de Yale Divulgação| Ismart

No ano passado, Gustavo ganhou outra bolsa de estudos e foi fazer um curso de verão na universidade de Yale Divulgação| Ismart

A ideia de que a vida é um quebra-cabeça e as experiências são as peças usadas para completar este jogo foi o argumento central da apresentação de Gustavo Torres, de 17 anos, no processo de aplicação para entrar na universidade de Stanford (Estados Unidos).

Filho de um eletricista e de uma cuidadora de idosos, o jovem do Capão Redondo, periferia de São Paulo, foi aprovado e conseguiu uma bolsa de US$ 56 mil (R$ 148 mil).

Em entrevista ao R7, ele relembra os argumentos que usou para explicar porque merecia a vaga e a bolsa dizendo que as primeiras peças do quebra-cabeça que compõe sua vida foram conquistadas na Escola Estadual Miguel Munhoz Filho, onde aprendeu a ser mais “extrovertido”.

— Dava aula de matemática para o pessoal do fundão. Antes de conhecê-los era muito fechado. Aprendi a me relacionar melhor com as pessoas interagindo com eles.

Experiências

A inteligência acima da média o ajudou a aprender inglês sozinho, aos 12 anos de idade.

— Estava cansado de jogar viodegame, aí encontrei alguns livros do meu pai e começei a estudar. Eles foram minha base no inglês.

O bom desempenho acadêmico lhe rendeu recomendações dos professores. Com esse apoio, Gustavo ganhou uma bolsa do Instituto Smart para estudar no colégio particular Santo Américo.

— Foi meu primeiro choque de realidade. Percebi que havia um mundo totalmente diferente daquele que eu estava acostumado. No colégio Santo Américo tive aula em inglês pela primeira vez na minha vida. Também descobri que a diferença de infraestrutura de uma escola pública e de uma escola particular é muito grande.

No ano passado, ele recebeu outra bolsa de estudos e foi fazer um curso de verão na universidade de Yale. Essa experiência fomentou seu sonho de estudar numa faculdade americana.

— Já tinha vontade de fazer um curso de graduação fora do Brasil, em Yale esse desejo ficou maior.

Falando sobre a última “peça” que encaixou no quebra-cabeça de sua vida, a aprovação em Stanford, o jovem faz questão de agradecer o Alumni Education USA, órgão ligado ao governo dos Estados Unidos que promove o sistema de ensino daquele país, ao Instituto Smart e a Fundação Estudar.

— Estas três instituições oferecem ajuda para alunos com potencial acadêmico e poucos recursos como eu. Eles me ajudaram em todo processo de aplicação. Já consegui a aprovação em Stanford, mas ainda espero respostas do MIT (Massachussets Institute of Technology), da Universidade de Duke e de Harvard. Só vou decidir meu futuro depois que receber todas as respostas.

Projeto social

Além de se dedicar aos estudos, Gustavo também mantém um projeto social com um colega chamado João Araújo. Os estudantes criaram o programa Descobrindo o Sonho Jovem, para ajudar adolescentes a construir projetos de vida. A iniciativa foi levada a escolas públicas.

Go to Top