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Os perigos de ler um livro em público

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Fabio Mourão, no Dito pelo Maldito

Ler um livro fora de casa pode ser uma ação bem arriscada. Encontrar um momento tranquilo na cama é relativamente fácil, e o sofá é sempre confortável para uma boa leitura, mas o mundo lá fora pode ser um lugar implacável com os leitores.

De certa forma, não faltam momentos para apreciar um livro, seja em longas viagens de ônibus ou avião, visitas à praia, filas de banco, esperas no carro, no metrô, ou até mesmo em uma simples ida ao parque em um tarde preguiçosa de sol, já é uma oportunidade válida para ler um livro. Mas, apesar de tudo, nós, leitores, temos que admitir que ler em público pode ter os seus problemas.

Primeiro que, ler enquanto se anda pela rua pode ser algo bem perigoso ao se tentar atravessar uma avenida. Sempre existe a possibilidade do livro cair em uma poça d’água, de ter que enfrentar excesso de barulhos no parque, e até a luz forte do sol pode complicar a visualização das páginas.

Mas nenhum desses motivos chegam perto da real, e pior, ameaça à um leitor,… As outras pessoas.

Algumas pessoas simplesmente não resistem em falar conosco, justo quando estamos lendo um livro. Talvez eles não entendam, mas ler em público é uma forma sutil de dizermos ao mundo: “Estar imerso nos personagens e conceitos deste livro é infinitamente mais interessante do que qualquer coisa que você possa vir a dizer”. Apesar de parecer uma atividade social quando praticada em público, ler é, e sempre será, um ato solitário e introvertido. E com a inclusão da música pelos fones de ouvido então, é a maneira mais fácil de bloquear todos ao nosso redor.

Mas parece que algumas pessoas veem isso como uma espécie de desafio. Eles não resistem em nos interromper quando estamos perfeitamente satisfeitos em nosso mundo de papel e tinta. Esses, não entendem que o caminho mais rápido para ofender um leitor é interromper um bom livro para qualquer coisa que não seja um incêndio.

Então, porque eles fazem isso? Por que eles se sentem compelidos a incomodar alguém que está claramente tentando ficar sozinho no meio da multidão? Eu, que passo muito por isso, reuni aqui algumas categorias que representam esse risco.

✔ O Opinador
Curiosamente, algumas pessoas estão convencidas de que todo mundo está interessado no cultivo de seus pensamentos estúpidos. Inicialmente, eles sempre te instigam com alguma pergunta imparcial sobre a obra. Não se deixe enganar, é apenas uma forma de encontrar uma porta aberta para que eles te possam empurrar opiniões pestilentas que você não vai querer ouvir, com o objetivo final de convencê-lo de que o autor teve claramente um ponto de vista particular que, por coincidência, apenas ele consegue observar.

✔ O Esnobe
Esse tipo de gente é motivada mais pelo livro em si, do que pelos conceitos que ele carrega. Essas pessoas não conseguem acreditar que você perca seu tempo com esse livro, quando poderia estar ocupado com os livros ‘superiores’ de sua própria prateleira. Eles não querem falar sobre o que você está lendo, só querem substituir a sua leitura.

✔ O Salvador
Outras pessoas acreditam que a única razão que te levaria a ler um livro, é porque você é incapaz de entreter-se de outra forma, ou talvez seja tímido demais para se socializar com outras pessoas. A ideia de que nós não queremos conversar com estranhos, é absolutamente incompreensível para eles. Então, assumem a estranha responsabilidade de tentar nos resgatar de nós mesmos.

✔ O Falador
Diferente do Salvador, esses egoístas estão tão preocupados com o próprio tédio, que eles insistem em te arrastar para uma conversa, apenas para que não tenham que ficar sozinhos com seus próprios pensamentos. Normalmente, eles começam com alguma pergunta ridícula, do tipo: “Tá fazendo o que?”… Exigindo que o leitor exerça um grande auto-controle para não responder: “Eu estava apreciando este livro até você abrir essa sua boca!”. Às vezes, eles falam sobre o livro que você está lendo, mas na verdade eles não se importam com isso.

Há uma variação interessante e igualmente insuportável dentro dessa categoria, são aqueles que insistem em ler sobre seu ombro. O que te obriga a suportar aquela respiração incomoda em seu pescoço.

✔ O Entusiasta
Até mesmo outros leitores podem ser um problema. Algumas pessoas ficam tão animadas por você estar lendo o livro que eles amam, que não conseguem ficar quietos quando avistam a obra em suas mãos. E antes que você perceba, eles estragam o final que você estava tão ansioso pra conhecer e ainda insistem para que você leia a resenha que fizeram no skoob.

Estes são alguns dos perigos de se efetuar uma leitura em público. Talvez não haja nada a ser feito a respeito. Talvez tenhamos que aceitar que sempre seremos interrompidos na melhor parte de um livro. É provável que estejamos sempre vulneráveis aquele cara que quer provar que um livro de bolso é superior a um dispositivo eReader, ou vice-versa.

Mas, que nada disso nos impeça de continuar com esse excelente hábito.

Literatura acima das nuvens e outros links

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Sérgio Rodrigues, no Todo Prosa

A Qantas, companhia aérea australiana, lançou um curioso programa (em inglês, acesso gratuito) de encomenda de livros de ficção e não-ficção para serem distribuídos em seus voos. Os tamanhos são variados como as rotas, mas a ideia é que o volume seja sempre lido entre a decolagem e o pouso. No cálculo, levou-se em conta que o leitor médio dá conta de algo entre duzentas e trezentas palavras por minuto. Os nomes dos autores ainda não foram divulgados.

Por alguma razão, não consigo imaginar Gol ou Tam fazendo isso.

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Há um ingrediente adicional que torna mais eficaz o recurso ao pensamento esotérico. Para deixá-lo doutrinariamente inofensivo, para despojá-lo de todo perigo satânico, Coelho o combina com doses adequadas de cristianismo tradicional: citações da Bíblia, quadros do Sagrado Coração de Jesus, rezas do Pai Nosso… O público majoritário não se sente em pecado por ler heresias, e o narrador, ao mesmo tempo que se faz passar por alguém dotado de poderes paranormais (capaz inclusive de telepatia), deixa saber que é também um bom cristão, apesar de seus flertes com a magia.

Por que Paulo Coelho é tão ruim, na avaliação de Héctor Abad Faciolince (em espanhol).

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A escrita é uma porta pequena. Algumas fantasias, como peças grandes demais de mobília, não passam por ela.

O blog de Maria Popova traz uma intrigante seleção (em inglês) de anotações de Susan Sontag sobre o ato de escrever, colhidas em seus diários (publicados no livro As consciousness is harnessed to flesh).

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Esta reportagem de Jones Lopes da Silva no jornal gaúcho “Zero Hora”, sobre as seringas compartilhadas que dizimaram quase toda uma geração de jogadores do Gaúcho de Passo Fundo, paga – no conteúdo e na forma – parte daquela dívida que, dizem, a literatura brasileira tem com o futebol.

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Dan Brown, que acaba de voltar ao primeiro lugar nas listas de best-sellers com seu “Inferno”, tem um método peculiar (em inglês) para combater o bloqueio criativo: pendura-se de cabeça para baixo.

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A ideia não é nova, mas nunca ganhou a sustentação de argumentos tão detalhados (em inglês, acesso gratuito): Humbert Humbert, o narrador pedófilo de “Lolita”, de Vladimir Nabokov, era judeu?

Jornalões com Alzheimer: esqueceram para que servem

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Alberto Dines, no Observatório da Imprensa

No mundo líquido do consumismo, uma conjuntura local marcada por lapsos e berloques.

O filósofo Zygmund Baumann define a pós-modernidade como aquosa, amórfica, sem coesão ou vontade. Temos a sorte de nos alhear desta liquidificação generalizada graças a um desses surtos de voluntarismo que periodicamente nos distanciam dos valores permanentes e nos aninham no mundinho da mundanidade e das nano-satisfações. E como a telenovela das 9 está prestes a terminar, as angústias nacionais estão com os dias contados.

A descartabilidade dos nossos jornalões, imposta no fim de abril, não mudará o nosso destino, mas vai alterar nossa capacidade de perceber a rota que percorremos. Evidentemente, não foi o fim do suplemento “Sábatico” ou a violenta compressão no espaço noticioso do Estado de S.Paulo que operaram a transformação. O secular diário paulistano é apenas um dos três de referência nacional (quatro, contando com o especializado Valor Econômico), mas o seu encolhimento foi letal, multiplicado pelo mimetismo. Seus concorrentes não vestiram luto, ao contrário, espalharam serpentina e confete, exultantes com a oportunidade de imitá-lo. Nivelar por baixo não é próprio dos setores de ponta do processo econômico – mas quem disse que a indústria de mídia é hoje um setor de ponta?

Numeralha

Como era previsto, nossa imprensa não apenas emagreceu, encurtou ou perdeu o fôlego. Está com Alzheimer – não se reconhece, perdeu as referências, não sabe quem é, nem o que dela se espera. Faz ruído por obrigação, extremamente seletiva na escolha do que badalará. Num mundo cada vez mais expandido, com possibilidades ilimitadas de produzir nexos e conexões, aumentam os pontos cegos e zonas de silêncio. As pautas e primeiras páginas (salvo catástrofes) são rigorosamente previsíveis.

O perigo da liquefação apontado por Baumann não é cogitado, não cabe, inexiste. Dondocas e consumidores são incapazes de entendê-lo. A numerologia virou culto, há jornais e revistas que se comprazem em colocar apenas números como títulos, desacompanhados de palavras ou referências. Breve teremos um jornal denunciando em manchete “53,97% !!!” O concorrente responderá: “Mentira! 84,23%”. A polêmica será dirimida no STF.

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