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Caetano Veloso: Brisa

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Leio com certa preocupação que o “acordo” sobre a língua portuguesa ficará ainda em banho-maria até 2015

Caetano Veloso, em O Globo

Paquito, duplamente colega meu (já que compõe canções e mantém uma coluna semanal), a propósito da aprovação do novo PDDU pela câmara dos vereadores de Salvador (que, dizem, liberaria as empresas imobiliárias para construir sem respeitar a passagem da brisa), relembrou o divino poema de Bandeira (que Paquito mesmo musicou faz alguns anos):

Recebendo notícias do calor do Rio e curtindo o ventinho brando (é verdade que nem sempre tão brando) que entra por minha casa do Rio Vermelho, emocionei-me ao reler os versos desse pernambucano carioca que fazia poesia assim como quem não faz nada.

Brisa é uma linda palavra. Uma linda ideia expressa no som adequado. Fico pensando nos rappers paulistanos, sobretudo Mano Brown, de quem ouço com tanta frequência a palavra “brisa” ocupando área semântica especial, funcionando como metáfora para outras dimensões da vida. Mano Brown e os Racionais, aliás, é que escreveram a música sobre Marighella que soa como feita por quem sente real identificação com a guerrilha. Nada a ver com meu lento lamento semimonumental. Nelson Rodrigues dizia que “Caminhando” de Geraldo Vandré — a canção favorita dos que se queriam revolucionários — era “uma berceuse”. Felizmente ele não teve de viver para ouvir a minha “Um comunista”. Nelson era um tipo angelical de anticomunista (em geral uma malta desagradável). A brisa de Bandeira, Paquito, Brown e Salvador salva tudo.

As palavras se sentem bem na poesia. “Que a brisa do Brasil beija e balança”. Diretamente no épico de Castro Alves ou citado na soneterapia de Augusto de Campos, esse verso é tudo o que as palavras querem para se sentirem bem. Para exercerem sua função e seu destino.

Leio com certa preocupação que o “acordo” sobre a língua portuguesa ficará ainda em banho-maria até 2015. A preocupação não impede que haja alívio. O acordo é cheio de lacunas e é suspeito. Tantos livros corrigidos e reimpressos! Pra quê? Mas o que me interessa comentar aqui é a docilidade — não, não apenas docilidade, a verdadeira paixão — com que os brasileiros adotam essas normas que são anunciadas. Isso me impressiona. Sempre me impressionou. Nos anos 1970, quando caíram os acentos diferenciais e os que indicavam sílaba subtônica (antes, tínhamos de escrever, por exemplo, “fôra”, para diferençar de “fora”, e tínhamos de pôr um acento grave em, por exemplo, “ràpidamente”, para frisar que o advérbio vinha de um adjetivo proparoxítono). Todo mundo se guiou. Em editorial da “Folha”, leio que o “acordo” não é uma dessas leis brasileiras que “não pegam”. Ao contrário. A mim, esse respeito rápido (vejo-o nos jornais e nos e-mails, ouço perguntas sobre as mudanças mesmo de pessoas pouco letradas) me parece da mesma natureza do interesse pelos professores de gramática: o povo quer ordem na língua que fala. Quer saber o que é certo, como se deve escrever. Deseja, num plano mais superficial, exercer sua vaidade; num plano mais profundo, saber que sua língua é respeitada e respeitável, que ela é forte.

Claro que detesto que tenhamos passado a grafar “para” para “para” e para “pára”. Isso só cria confusão e não tem absolutamente nenhuma vantagem. Lendo o excelente “Marighella” de Mário Magalhães, me deparei com alguns casos em que tive de recomeçar a ler a frase para saber se a palavra incial era um “fora” ou um “fôra”. Isso, embora mis velho do que o acordo, tampouco é bom. Para nada. Mas é bom que os falantes procurem adequar-se o mais pronto possível ao que lhes chega anunciado como regra. Eles buscam a norma, assim como o assalariado busca o carro e a geladeira. A vanguarda revolucionária dos sociolinguistas é leninista: eles sabem melhor o que os falantes querem. Segundo eles, os falantes querem que lhes seja dito que está bom do jeito que eles já fazem (sem deixar de contar que existem a norma, o carro e a geladeira).

Não se enganem: gosto do Bagno. Mas ao pensar sobre essas coisas, prefiro voltar a Marighella, Mano Brown, Paquito e Manuel Bandeira. Brisa. Os poetas sabem que os acordos podem ser respeitados porque a poesia vencerá no fim. Eles se submetem sabendo que é coisa de somenos. Não sou poeta para postar-me tão alto. Chio um pouco. Sou um falante popular que sempre quis saber melhor. Por favor, não roubem minha brisa.

Vamos viver no Nordeste, Anarina.

Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.

Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.

Aqui faz muito calor.

No Nordeste faz calor também.

Mas lá tem brisa:

Vamos viver de brisa, Anarina

foto: Internet

Aconteceu: Festa Literária das UPPs agitou o Morro dos Prazeres (RJ)

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O Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, Centro do Rio: pacificado há cerca de dois anos, o local recebe a primeira edição da Flupp (Foto: Lorice Araújo/Governo do Estado)

Em 2010, o jornalista e escritor pernambucano Julio Ludemir completou 50 anos. Autor de um livro que conta a história do crime no Complexo do Alemão, o flamenguista fanático recebeu a notícia que sua obra estava encalhada na editora e os exemplares seriam incinerados.

Fã da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), Julio recolheu mil exemplares e foi para Paraty na expectativa de vender vários exemplares. A experiência foi malsucedida e traumática. No entanto, como acontece com a musa-canção de Milton Nascimento, escritores possuem “a estranha mania de ter fé na vida”.

Ao voltar de Paraty, compartilhou com o amigo Ecio Salles a ideia de criar uma festa literária, nos moldes da FLIP, numa favela carioca. Nascia a Festa Literária das UPPs, a Flupp. Heloísa Buarque de Hollanda e Luiz Eduardo Soares entraram no grupo e a profecia-poema de Pessoa se cumpriu: “Quando Deus quer e o homem sonha, a obra nasce”.

Durante cinco dias (7 a 11 de novembro), livros, leituras, escritores do Brasil e do mundo inteiro, oficinas, teatro, exposições, ações cultturais diversas ocuparam criativamente o Morro dos Prazeres, em Santa Teresa,  zona central do Rio de Janeiro.

Cerca de 7 mil pessoas passaram pelas três tendas (Policarpo Quaresma), Bruzundangas e Pontocom) para ouvir gente ilustre como Ariano Suassuna, Ferreira Gullar, João Ubaldo Ribeiro e Ana Maria Machado. Entre os convidados estrangeiros, o alemão Thomas Brussig, o palestino Najwan Darwish e o quadrinista francês Étienne Lécroart.

Para 2013, o autor homenageado já foi escolhido: será o poeta Waly Salomão, morto em 2003. A Flupp também deve ter casa nova, na Vila Cruzeiro, no Complexo do Alemão.

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G1 fará cobertura especial da Fliporto

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Cobertura da Fliporto 2012
FOTO: Divulgação


Publicado originalmente no AdNews

O G1 terá cobertura especial da oitava edição da Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto), que acontece de 15 a 18 de novembro em Olinda. O site transmitirá ao vivo algumas mesas do festival, que este ano homenageia o dramaturgo pernambucano Nelson Rodrigues.

Como a festa literária terá a presença de escritores internacionais, haverá tradução simultânea para todos acompanharem. Além disso, reportagens, fotos e vídeos deixarão os leitores por dentro de tudo que acontece no evento.

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