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Escola no Brasil reproduz loucamente a desigualdade, declara pesquisador

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O pesquisador Ricardo Paes de Barros

O pesquisador Ricardo Paes de Barros

Érica Fraga, na Folha de S.Paulo

As escolas no Brasil não oferecem aos alunos de baixa renda oportunidades de ascensão social. Ao contrário, elas reforçam as diferenças educacionais herdadas do ambiente familiar.

“A escola brasileira é loucamente reprodutora de desigualdade”, diz o pesquisador Ricardo Paes de Barros.

PB, como é conhecido, se tornou referência no estudo de temas como pobreza, desigualdade de renda, mercado de trabalho e educação.

Depois de quatro anos como subsecretário de Ações Estratégicas no governo de Dilma Rousseff, assumiu o posto de economista-chefe do Instituto Ayrton Senna (IAS) e passou a lecionar no Insper.

Desde então, tem se dedicado a buscar e testar evidências de que a introdução de habilidades socioemocionais nos currículos tem impacto educacional positivo.

Para ele, se a escola brasileira sair na frente com um ensino que estimule características como curiosidade, criatividade e persistência, talvez elimine uma década de atraso na educação:

“É importante que a escola estimule a curiosidade, a flexibilidade para buscar diferentes caminhos. Se a escola faz o contrário e destrói a autoconfiança do aluno, ela matou o aluno pobre.”

RAIO-X

RICARDO PAES DE BARROS, 62

Formação
Mestrado em estatística pelo Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) e doutorado em economia pela Universidade de Chicago

Cargo atual
Economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper

Carreira
Pesquisador do Ipea por mais de 30 anos e subsecretário de Ações Estratégicas da Presidência da República (2011-2015)

*

Folha – O que te atraiu na pesquisa sobre habilidades socioemocionais?
Ricardo Paes de Barros – Foi a Viviane [Senna, presidente do IAS] que mandou [risos]. Eu acredito nas preocupações dela.

O ensino dessas habilidades tem impacto positivo?
Cientificamente, a gente sabe que isso é a questão? Não. Mas tem um monte de evidência que aponta que talvez seja, sim. Os problemas humanos hoje são muito menos do tipo ter uma doença que não sabemos de onde vem, e muito mais o fato de que as pessoas não conseguem se entender.
Falta capacidade para resolver conflitos, ter compaixão e lidar com a diversidade. Numa economia que é mais globalizada, se você não tem essas características, vai gerar mais conflito e confusão do que não saber trigonometria ou geometria espacial.

Por que esse tema está em evidência? Há quem cite mudanças no mercado de trabalho.
Eu tenho dúvida. Acho que as pessoas estavam muito preocupadas com letramentos básicos, saber ler, escrever, fazer contas. Depois que você supera isso, o cara fala “bom, espera aí, será que educação é só isso?” É a mesma coisa que qualidade de vida. A gente começa perguntando se você passa fome, se sua casa tem luz, saneamento. Mas, quando você faz pesquisa sobre qualidade de vida na Suécia, tem que usar uma dimensão mais sofisticada.

Faz sentido focar nesse tipo de ensino Brasil, onde ainda não atingimos o domínio de letramentos básicos?
É uma boa questão. Não acho que você tenha uma demonstração definitiva disso. Mas o Brasil está tão atrasado que, se continuar andando na velocidade de todo mundo, nunca vai chegar lá.
Investir nisso pode te permitir andar mais rápido do que os outros. A noção de escola e o que a escola faz está mudando. A Coreia e a Finlândia estão desesperadas tentando descobrir para onde vão suas escolas. O Brasil tem que dar um salto para, em vez de seguir todo o caminho dos outros caras, dar um balão e encontrar o cara.

Nesses países, a preocupação é que, se você estimular a criatividade, o pensamento crítico, a curiosidade, pode dar um salto, porque o cara com essas características quase aprende sozinho.
Mas, para isso acontecer, ele tem que saber aprender, tem que ter meta, ser criativo, curioso. Se você criar uma geração de crianças que já tenham isso, pode ser então que você dê um salto.

Os estudos que vocês têm feito mostram que isso é possível?

A evidência não prova que isso é verdade, mas é consistente com que seja. Se você fala “deixa a Finlândia fazer isso” você pode estar naturalizando décadas de atraso.

A escola no Brasil contribui para reduzir a desigualdade?
A escola brasileira é loucamente reprodutora de desigualdade. O Brasil é um dos países onde o ambiente familiar mais influencia o resultado educacional. Não só temos pouca escolaridade, mas a escolaridade que temos é completamente dependente do ambiente familiar, o que é um absurdo.
Por isso, é importante que a escola estimule a curiosidade, estimule a ter flexibilidade para buscar diferentes caminhos. Se a escola faz o contrário e destrói a autoconfiança do aluno, ela matou o aluno pobre. Porque se ela afeta a autoconfiança do aluno rico, a mãe e o pai chegam lá e a reconstroem, eles falam “esquece esse professor, ele é maluco”. Agora, se o professor destrói a autoconfiança do aluno pobre, a mãe vai e destrói junto. Ela acredita que, se a escola disse que o aluno é burro, é porque ele é burro mesmo. Se a escola ensina para o aluno que o mundo é diverso e flexível e que ele precisa ter autoconfiança e persistir, ela elimina o impacto do ambiente familiar.

Colocar o ensino de habilidades socioemocionais na base [nacional comum curricular] é uma aposta de que isso poderá nos fazer ganhar uma década.

Como avançar da base para a prática em um país tão grande e diverso como o Brasil?
O fato de o país ser diverso não me assusta. Você precisa fazer com que o aluno seja curioso, criativo, tenha senso crítico. O básico é o mesmo para todo mundo. Mas estamos longe de especificar o básico. O que está escrito na base é muito amplo.

Como deveria ser?
A base australiana ou as bases das províncias do Canadá são muito mais específicas sobre o que significa cada coisa que você tem que ensinar e dão muito mais dicas ao professor sobre como ensinar. Os Estados e os professores em sala de aula vão ser obrigados a fazer isso aqui.

Qual é o impacto da crise atual para a educação?

Claro que é péssimo, tira um monte de dinheiro da educação porque a arrecadação cai, atrapalha a pobreza.
Mas mostra o quanto o socioemocional é importante, porque estamos falando de valores, ética. Você tem uma crise em que as pessoas perderam a noção do que é certo e errado, de ética, do que pode e não pode fazer. No Japão, metade das pessoas já teria se suicidado se tivesse se envolvido numa coisa dessa magnitude. Ou seja, a noção do certo ou errado é mais sólida.
O cara falsifica carne e perde mercado. Não tem nada de produtivo nisso, é um problema de um querendo levar vantagem no outro, escondendo, mentindo. Não estamos sabendo resolver certos conflitos, se fazer greve é bom ou ruim. Daqui a pouco, as pessoas vão começar a se questionar se pagam imposto ou não. Isso é um problema socioemocional, de valor, atitude, ética, de tomar decisões coletivas.

Pesquisador descobre livro de Machado de Assis ignorado por um século e meio e nunca publicado

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Aos 25 anos. O escritor à época em que sairia seu planejado volume de poemas

Aos 25 anos. O escritor à época em que sairia seu planejado volume de poemas

 

Wilton Marques, da UFScar, encontrou menções a ‘Livro dos Vinte Anos’ enquanto pesquisava a relação de literatos com periódicos; não se sabe, porém, por que Machado desistiu da obra

Publicado no Estadão

Crisálidas (1864) foi o primeiro livro de poemas de Machado de Assis (1839-1908) – mas quase não foi. Duas notas publicadas no Correio Mercantil em 1858 e em 1860 e um anúncio veiculado no Correio da Tarde também em 1860 mostram que ele se preparava para lançar o Livro dos Vinte Anos. Essa informação, descoberta agora pelo professor Wilton Marques, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e divulgada com exclusividade para o Estado, nunca foi incluída em suas biografias, e especialistas contemporâneos dizem nunca ter ouvido falar no tal livro de poemas.

Tudo começou com uma outra descoberta – a do poema O Grito do Ipiranga que Machado de Assis publicou no Correio Mercantil em 1856. O professor quis, então, escrever um livro sobre esse texto, mas achou que precisava ampliar sua pesquisa para dar corpo à obra.

Iniciou, assim, uma investigação sobre a presença de literatos em jornais. Estava debruçado sobre os arquivos do Correio Mercantil na Hemeroteca Digital Brasileira, lendo os textos de Macedo, Gonçalves Dias, Manuel Antonio de Almeida, José de Alencar e Machado de Assis, quando se deparou com a seguinte nota na primeira página: “Mais um volume de versos se anuncia, e podemos já dizer mais um poeta se vai revelar. Modesto e muito jovem são, além de felizes inspirações, qualidades bastantes para recomendarem o nome do Sr. Machado de Assis, autor do livro cuja publicação se nos anuncia”. Machado era, então, um garoto de 19 anos.

Um ano e meio depois sem que nada tivesse ocorrido, outra menção ao volume, em janeiro de 1860. Agora, com mais detalhes: “Vai publicar-se uma coleção de versos com o título de Livro dos Vinte Anos. O autor é um moço que enceta apenas a carreira das letras. Talento viçoso e original, o Sr. Machado de Assis promete mais um poeta e um prosador distinto no país. Nas poesias ligeiras ou ensaios de prosa que tem publicado até hoje, revela o Sr. Assis qualidades notáveis que recomendam o seu nome. O público receberá sem dúvida o seu livro como merece o talento do autor, que tem tanto de real como de modesto. Na atualidade é uma associação rara”.

'Correio Mercantil', 19 de janeiro de 1860

‘Correio Mercantil’, 19 de janeiro de 1860

 

Lá se vai mais um mês e um anúncio no Correio da Tarde traz novidades mais concretas. Ele diz: Livro dos Vinte Anos por Machado de Assis. Um volume de 200 a 240 páginas; 2$. Assina-se nas lojas de costume e na tipografia do Sr. Paula Brito, onde é impresso.

E, então, fez-se um silêncio que dura até hoje, 156 anos depois. Por que o livro nunca foi lançado? O número de assinantes não foi suficiente para bancar a impressão nesta espécie de crowdfunding do século 19? Machado não gostou do resultado do trabalho? Brigou com o editor? Por que nunca se falou nesta obra?

Wilton Marques fica com a hipótese da consciência literária de Machado e da mudança de interesse. “Tem uma expressão de Jean-Michel Massa que diz que Machado tinha uma autocrítica vigilante muito forte. Exigia muito do texto na busca de um comprometimento com o dado estético, com a formalidade do texto literário. E por isso ele jogava muita coisa fora”, comenta o professor. Vale lembrar que quando organizou Poesias Completas (1901) – porque, como disse em carta ao editor Garnier, queria deixar esta obra como sua bagagem poética –, ele excluiu muitos poemas de outros títulos que ele mesmo tinha organizado. “Esse exercício de autocrítica é muito forte e mais um indício de que ele abandonou o livro.”

'Correio da Tarde', 20 de fevereiro de 1860

‘Correio da Tarde’, 20 de fevereiro de 1860

Fora isso, Marques diz que os poemas do Livro dos Vinte Anos seriam da fase romântica de Machado – e ele discordava de seus ideais. E que àquela altura o autor estava totalmente dedicado ao teatro – foi com peças, aliás, que ele estreou na literatura.

A hipótese de que os poemas do malogrado livro, como o professor escreve no artigo que será publicado na revista Machado em Linha até dezembro, tenham sido incluídos em títulos posteriores também está fora de cogitação. Ele lembra que o escritor datava seus textos e em Crisálidas (1864), por exemplo, só um dos poemas é de antes de 1860.

José Luiz Passos, escritor, professor de literatura brasileira da Universidade da Califórnia (Ucla) e autor de Machado de Assis: Romance Entre Pessoas, não conhecia essa referência, mas imagina que o livro talvez não tenha valido a pena para Machado, e, por isso, ele teria abortado a publicação. “Às vezes, ele apostava numa capacidade de produção muito maior que as condições reais que ele tinha de execução”, comenta Passos.

Isso, sem contar com o compromisso e a tentativa de agradar – neste caso, mais tarde – a seu editor Garnier, para quem prometeu, e nunca entregou, O Manuscrito do Licenciado Gaspar e Histórias de Meia-noite. Passos comenta também sobre um libreto de ópera que ele teria escrito, mas que nunca apareceu.

“Esses livros não realizados são mais um exemplo da capacidade de produção imaginativa dele, dessa ambição de colocar para fora, de publicar cada vez mais”, diz. E como boa parte de sua produção era em jornais, o professor acredita que ainda há muito a ser revelado. “A cada vez que se organiza uma coletânea dos contos de Machado, sempre aparece algum texto – principalmente porque ele também escrevia sob mais de 20 pseudônimos”, explica.

Passos, no entanto, não conhece tantos anúncios da natureza dos encontrados por Wilton Marques. “Esse Livro dos Vinte Anos foi uma surpresa e é mais uma evidência de alguém que está tentando tudo – de contratos com editores a colaboração em periódicos.” E Machado tinha ambição. Segundo o professor, ele queria ser um autor clássico. “Ele se coloca ao pé dos grandes e não faz literatura de ocasião.” Mais um motivo para se livrar dos poemas românticos?

O crítico Silviano Santiago, que acaba de entregar o manuscrito de Machado, romance sobre os últimos quatro anos de vida do escritor, também nunca ouviu falar do livro. “Mas como Carlos Drummond que não publicou o manuscrito que enviou em 1925 a Mário de Andrade, e esperou 1930 chegar para publicar o volume Alguma Poesia, Machado também deve ser elogiado por não ter tido a coragem de publicar esse livro. Realmente, ambos os escritores não começam bem em matéria de escrita poética. Pensando nesse tipo de carreira literária é que talvez se possa entender melhor a célebre alegoria de Machado, que começa por dizer que “Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, etc.”, comenta.

Obra rara

Um volume da primeira edição de Crisálidas, o primeiro livro de poemas de Machado, foi incorporado ao acervo da Estante Virtual este ano. A relíquia custa R$ 4.748. Há outras 30 obras raras no portal que reúne sebos de todo o País.

Pesquisador identifica 164 textos de Lima Barreto assinados com pseudônimos

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O professor Felipe Botelho Corrêa tira o pó do busto de Lima Barreto: pesquisa foi feita durante seu doutorado na Inglaterra - Fernando Lemos

O professor Felipe Botelho Corrêa tira o pó do busto de Lima Barreto: pesquisa foi feita durante seu doutorado na Inglaterra – Fernando Lemos

 

Crônicas, publicadas nas revistas ‘Careta’ e ‘Fon-Fon’, saem pela primeira vez em livro

Leonardo Cazes, em O Globo

RIO – “J. Caminha”, “Leitor”, “Aquele”, “Amil”, “Eran”, “Jonathan”, “Inácio Costa”. Todos esses pseudônimos assinavam crônicas nas revistas ilustradas “Fon-Fon” e “Careta” nas primeiras décadas do século passado, mas os seus verdadeiros autores permaneciam desconhecidos. Não mais. Todos os textos saíram da mesma pena, a de Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922). O trabalho do jovem pesquisador carioca Felipe Botelho Corrêa, de 33 anos, hoje professor do King’s College em Londres, resultou na descoberta de 164 textos inéditos em livro e que agora estão reunidos na obra “Sátiras e outras subversões” (Penguin-Companhia), que será lançada na próxima segunda-feira, com um debate com a professora da UFRJ Beatriz Resende, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon. Antes, no sábado, Corrêa participa de um bate-papo com o escritor e jornalista Fernando Molica na Cadeg, em Benfica, às 16h. O debate é parte da Flupp Pensa.

A pesquisa, realizada durante seu doutorado na Universidade de Oxford, consistiu numa verdadeira investigação de detetive. Já se sabia que Lima Barreto tinha escrito em revistas ilustradas, e alguns de seus pseudônimos foram apontados pelo seu biógrafo, Francisco de Assis Barbosa, autor de “A vida de Lima Barreto”, lançado em 1952. Outra fonte preciosa foram os manuscritos de Carlos Drummond de Andrade guardados na Fundação Biblioteca Nacional. O poeta mineiro começou a escrever um dicionário de sinônimos da literatura brasileira, mas nunca chegou a concluí-lo. Nos textos, há referência a alguns dos pseudônimos utilizados pelo escritor carioca. A partir das pistas dadas por Barbosa e Drummond, Corrêa foi atrás das provas que confirmassem as informações — e não só as encontrou, como descobriu outros pseudônimos.

— Essas revistas eram satíricas, então (o pseudônimo) era uma forma de o autor não responder pelo texto, evitar perseguição política. O que não consegui desvendar foi se era o Lima que escolhia o pseudônimo ou o editor. Tem alguns casos que é claramente ele que escolhe porque são referências à sua trajetória — afirma Corrêa.

Já alguns nomes, como “Leitor” e “Aquele”, foram mais difíceis de decifrar. O professor explica como conseguiu identificar a autoria:

— O processo da descoberta é cruzar os textos conhecidos com os textos que não são conhecidos. Quando começa a ver alguma informação que bate, percebe que tem algo ali e sai em busca de outras para confirmar. Digitalizei toda a obra do Lima Barreto para facilitar a busca por palavras.

PROJETO LITERÁRIO EM REVISTA

Nas suas crônicas, o escritor falou muitas vezes do subúrbio, do bairro de Todos os Santos, onde vivia, e até da sua própria rua. Reclama da qualidade das calçadas, do serviço prestado pelos trens, do abandono em comparação com as áreas nobres da cidade. Tudo incrivelmente atual. Lima Barreto também comenta as notícias de jornal e faz troça dos políticos da Primeira República. Corrêa argumenta que ele escrevia para essas revistas, muito populares na época e que alcançavam tiragens de até 100 mil exemplares, não para ganhar dinheiro apenas. A vontade de se comunicar com um público mais amplo era parte do seu projeto literário.

— Lima tenta traduzir numa linguagem acessível questões intelectuais. A sátira e a caricatura são uma maneira de chegar às pessoas. Ele lia muito os russos, especialmente Tolstoi, que falava que a arte tem um poder de contágio, de comunhão de ideias. Era isso que Lima buscava.

O professor defende que Lima Barreto não era um pré-modernista, como ficou caracterizado pelos escritores e intelectuais que vieram depois dele, mas sim um modernista:

— Lima Barreto era um modernista, e não um pré-modernista como ficou marcado aqui no Brasil, no sentido do que se fazia e se entendia no mundo como projeto modernista. Se eu conseguir mudar isso, fico feliz.

LEIA TRECHOS DE CRÔNICAS DE ‘SÁTIRAS E OUTRAS SUBVERSÕES’

“Um bom ministro”

“Logo que o prestante cidadão foi empossado ministro da Agricultura, tratou de acabar com a burocracia.

A diretoria de agricultura não lhe pareceu corresponder ao nome. Não havia nela absolutamente nem um pé de couve. O ministro energicamente mandou retirar as mesas, todo o aparelho burocrático e espalhar terra nos salões das seções e semear couves.

Os empregados foram incumbidos de tratar dos canteiros, regar as mudas, transplantá-las e deixar por completo a mania de redigir pareceres e ofícios.

A diretoria de contabilidade foi transformada em horto florestal com baobás e jequitibás, gênero tartarin. Essa ideia foi muito gabada e elogiada pelo aspecto prático que oferecia, pois em breve poderíamos deixar de importar pinho-de-riga.

Calculou-se mesmo que, dentro de cinco anos, com essa floresta tartarinesca do ministro, a economia nacional ganharia cerca de cem milhões de contos.

O telhado do edifício do Ministério foi aproveitado para o plantio de fumo.

O ministro, que era administrador e bom observador, tinha notado que, quase sempre, nos telhados de casas velhas, nascem pés de fumo silvestres. (…)”

“Notas avulsas”

“Uma tarde destas, não sei por quê, deu-me na telha tomar um bonde do Catete e ir até o largo do Machado.

Há muitos anos não ia eu por aquelas bandas, embora sejam as do meu nascimento.

Tenho mesmo indiferença por elas, donde se pode inferir que a pátria pode ser muito bem o lugar em que nascemos, mas nem sempre é aquele que amamos.

Embarquei no bonde e fui desfrutando a paisagem urbana. Rua Senador Dantas! Como está mudada! Não tem mais a beleza ou as belezas de antigamente! Para onde foram? Voltaram para o cemitério? Quem sabe lá? Passeio Público. A mesma quietude. Lapa. A coluna das sogras lá está impávida a retesar fios e cabos. Tudo pouco mudado. Vamos adiante. Estamos em frente ao Palácio do Catete. Há na porta um vaivém de gentes e automóveis. Que há? É sua excelência, que vai para Petrópolis. Parece que embarcou no automóvel. Ao meu lado, um cidadão, olhando o telhado do palácio, pergunta a um amigo próximo:

— Por que é, Costa, que, quando ele sobe, a bandeira desce? (…)”

“Morro Agudo”

“Noticiam os jornais que os moradores de “morro Agudo”, localidade situada à margem da Estrada de Ferro Auxiliar à Central, protestaram contra a mudança de nome da respectiva estação, mudança imposta pela diretoria da Estrada que precedeu à atual.

Vem a pelo lembrar de que forma horrorosa os mesmos engenheiros vão denominando as estações das estradas que constroem.

Podemos ver mesmo nos nossos subúrbios o espírito que preside tal nomenclatura.

É ele em geral da mais baixa adulação ou senão denuncia um tolo esforço para adquirir imortalidade à custa de uma placa de gare. (…)”

Pesquisador brasileiro ‘desvenda’ história em músicas do Iron Maiden

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O professor Lauro Meller analisou músicas do Iron Maiden que tratam de momentos históricos

O professor Lauro Meller analisou músicas do Iron Maiden que tratam de momentos históricos

 

No cockpit de um avião da Força Aérea Real, em alucinante perseguição pelos ares durante a Segunda Guerra, o piloto inglês mira o inimigo nazista e aperta o gatilho.

Fernanda Portugal, na BBC Brasil

Num campo de batalha na Crimeia, em 1854, em meio ao cheiro de pólvora e à respiração dos cavalos, o soldado britânico cai paralisado e com a garganta seca ao ser baleado pelos russos. Dentro de uma fria cela medieval, o condenado à morte pela Inquisição descreve seus últimos momentos, enquanto aguarda pelo carrasco.

A presença de cenas da história mundial em músicas da lendária banda de heavy metal britânica Iron Maiden ­– que acaba de lançar um novo álbum e fará shows em vários países do mundo a partir de fevereiro – tornou-se alvo de pesquisa acadêmica no Brasil.

Nos artigos técnicos Temas Históricos em Canções do Iron Maiden, partes 1 e 2, Lauro Meller, doutor em Letras pela PUC de Minas Gerais e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), traça uma linha cronológica da Pré-História à Segunda Guerra Mundial com a análise minuciosa de sete músicas do grupo.

“O Maiden presta uma grande contribuição ao despertar a curiosidade do seu público, principalmente o mais jovem: as canções se tornam portas de entrada para outros conhecimentos”, afirma o paraibano de 41 anos, que na UFRN coordena o Grupo de Estudos Interdisciplinares em Música Popular.

Ele ressalta que, desta forma, o sexteto britânico se distingue de boa parte das outras bandas de heavy metal, cujas letras abordam “violência, drogas ou mulheres, num ponto de vista quase sempre machista”.

A análise de Meller não se restringe às letras. Guitarrista, violonista e baixista afiliado à Ordem dos Músicos do Brasil, ele destrincha linhas melódicas, arranjos, registros vocais, riffs e solos de guitarra – e como estes ingredientes musicais potencializam a mensagem de cada canção.

Bruce Dickinson (o único de cabelo curto) e seus colegas de Iron Maiden lançaram novo disco

Bruce Dickinson (o único de cabelo curto) e seus colegas de Iron Maiden lançaram novo disco

 

“O Maiden associa às letras o instrumental grandioso, próprio do heavy metal. É possível estabelecer paralelo entre o heavy metal e a música erudita, principalmente a do século 19 no sentido do volume sonoro ‘poderoso’ e dos temas de guerras”, descreve o pesquisador, citando a Sinfonia 1812, escrita por Tchaikovsky em 1880, que retrata batalha travada entre França e Rússia, e ainda composições de Richard Wagner para orquestras com mais componentes do que era o padrão – aumentando, portanto, o “volume sonoro”.

No álbum recém-lançado (The Book of Souls), chamou atenção do público e da crítica a faixa Empire of the Clouds, que mais uma vez narra um episódio histórico: desta vez, o acidente com o dirigível britânico R101, que caiu na França em sua viagem inaugural, em outubro de 1930.

Com 18 minutos, é a canção mais longa de toda a discografia do Iron Maiden, grupo com quase 40 anos de estrada. Além disso, de maneira inusitada para os fãs, mescla piano, violino e violoncelo às três guitarras, à dupla baixo/bateria e à potente voz do cantor Bruce Dickinson, autor da obra.

A canção inspirou Meller a decidir mergulhar, em 2016, na produção de um livro que incluirá análises desta e de outras músicas, além das sete que integram os artigos já produzidos e divulgados na íntegra na publicação técnica Revista Brasileira de Estudos da Canção.

“Vou ampliar os textos, de modo a publicar um trabalho de grande fôlego. O título seria Temas Históricos e Literários nas Canções do Iron Maiden, incluindo também faixas inspiradas na literatura”, revela o estudioso, citando como um dos objetos do trabalho a antológica The Rime of the Ancient Mariner, lançada pelo Maiden em 1984 e baseada em obra do poeta romântico inglês Samuel Taylor Coleridge.

The Rime, com seus 13 minutos, era a mais longa faixa da banda até Empire of the Clouds.

“Será um projeto desafiador e importante, pois ainda não encontrei, principalmente em português, trabalhos de cunho acadêmico e analítico sobre a obra dessa singular banda, apenas biografias”, explica o professor, que vai aliar o novo projeto ao pós-doutorado em música popular, a partir de janeiro, na Universidade de Liverpool, berço dos Beatles.

Acidente com dirigível R101 (na foto em voo teste sobre Londres, em 1929) é tema de nova música

Acidente com dirigível R101 (na foto em voo teste sobre Londres, em 1929) é tema de nova música. Aerofilms l A History of Britain from Above

Faixas analisadas

Sete canções foram escolhidas por Meller para os artigos já publicados, entre as inúmeras composições do Maiden com alusões históricas. Ficou de fora, por exemplo, Paschendale (2003), sobre uma batalha entre britânicos e alemães na Primeira Guerra Mundial.

Alguns episódios são contados em terceira pessoa. Outros, na “voz” de anônimos, o que “contribui para maior dramaticidade e faz o ouvinte sentir-se ‘na pele’ do personagem”, observa o professor. Confira:

Quest for Fire (Busca pelo Fogo), 1983: narra como a fonte de luz e calor foi pivô de sangrentas batalhas pelas tribos pré-históricas.

Alexander the Great (Alexandre, o Grande), 1986: percorre a biografia do soberano da Macedônia, nos anos 300 a.C.

Invaders (Invasores), 1982: fala sobre as invasões dos vikings à Europa, entre os séculos 8 e 9.

Hallowed be Thy Name (Santificado Seja o Vosso Nome), 1982: trata das horas anteriores (mais…)

“Big data da literatura”: romances seguem não mais do que 8 padrões

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O programador e professor literário, Matthew Jockers, de 48 anos, analisa bilhões de palavras para extrair sentido de milhares de livros ao mesmo tempo(Reprodução/ Youtube.com/VEJA)

O programador e professor literário, Matthew Jockers, de 48 anos, analisa bilhões de palavras para extrair sentido de milhares de livros ao mesmo tempo(Reprodução/ Youtube.com/VEJA)

Estudo do pesquisador Matthew Jockers analisa a distribuição dos “bons” e “maus” momentos de 40.000 obras como “Dom Quixote” e “Moby Dick”

Guilherme Pavarin, na Veja

Quando era adolescente, nos anos 80, o americano Matthew Jockers gastava a maior parte do tempo em seu quarto, calado, com os olhos fixos na tela do computador. Autodidata, testava códigos de programação e, caso obtivesse sucesso, exibia orgulhoso as conquistas virtuais para amigos e familiares. Seus pais não tinham dúvida de que se tratava de vocação: o filho, fã de números e de lógica, se tornaria programador. A previsão, mais tarde ele diria, estava 50% certa. No ensino médio, Jockers quis ir além. Ávido por conhecimento fora do universo matemático, procurou um professor de literatura no corredor da escola para pedir dicas de leitura. O tutor, com pressa, indicou apenas um: Crime e Castigo, do russo Fiodor Dostoiévski. O impacto foi imediato. Encantado, Jockers passou a devorar clássicos com a mesma voracidade com que se atirava aos computadores. Aos 15 anos, era um nerd literário.

Hoje com 48 anos, Jockers é um programador de ofício e phD em literatura inglesa pela Universidade do Sul de Illinois. Com um pé nas ciências exatas e outro nas humanas, ocupa o cargo de professor associado de inglês da Universidade de Nebrasca e dirige o Laboratório Literário da instituição, que se dedica a explorar livros usando ferramentas digitais. O método é chamado macroanálise. É uma espécie de aplicação à literatura das técnicas de big data – análise que se difunde pelo mundo apoiada no processamento de gigantescas quantidades de dados por meio de computador com o propósito de encontrar relações entre variáveis e tendências.

No caso do professor americano, os dados são conteúdos de milhares de obras literárias. O programa desenvolvido por Jockers faz uma varredura nos livros contabilizando palavras, frases, parágrafos e nomes, entre outros elementos. O conteúdo digitalizado vira, então, estatística. “Essa análise ajuda a extrair sentido de milhares de livros ao mesmo tempo, algo impossível de fazer a partir da leitura convencional dos livros”, diz Jockers à VEJA.com. Segundo esse raciocínio, a frequência de uso de uma palavra ou ainda de uma construção linguística pode revelar um padrão ou uma tendência.

 

A pesquisa já dura vinte anos. Nos últimos meses, Jockers se empenha na missão de descobrir padrões das narrativas literárias a partir da chamada “análise de sentimento” das palavras. Ele alimentou o sistema com 6 bilhões de palavras, provenientes de cerca de 40.000 livros. Em seguida, marcou os termos normalmente associados a sentimentos “bons” ou “ruins”. O passo seguinte foi identificar as passagens das obras em que predominam momentos “positivos” (menos conflitos) ou “negativos” (mais conflitos), respectivamente.

Colocada na linha do tempo de cada obra, essa variação de sentimentos revelou que a narrativa dos 40.000 livros segue um número relativamente pequeno de padrões: entre seis e oito (o estudo ainda está em curso). Os padrões, por sua vez, se apoiam em apenas dois modelos (veja os gráficos abaixo) – que ele chama “homem da montanha” e “homem no buraco”, uma referência à sorte dos protagonistas. O primeiro descreve uma história de queda e reerguimento. Nesse tipo de trama, há uma grande variação de sentimentos ao longo da obra, com uma queda acentuada, em direção ao revés, próximo do meio do romance. Cerca de 45% dos romances analisados se encaixavam nesse modelo. No segundo, que usa a metáfora da montanha como síntese de ascensão, há uma variação emocional menor, com conflitos mais amenos. O salto emocional positivo – uma redenção, uma vitória, um amor conquistado – aparece em geral no meio da trama. Segundo Jockers, é a fórmula mais comum dos romances, presente em 54% das obras.

O estudo é inspirado em um discurso célebre do escritor americano Kurt Vonnegut (1922-2002), que propôs que os altos e baixos dos protagonistas da ficção fossem representados em gráficos para revelar as estruturas narrativas das obras. Vonnegut previu que, ao levar em conta a variação de sentimentos do personagem principal, as centenas de milhares de romances já escritos obedeceriam a poucos padrões. Jockers comprovou as suspeitas do escritor. “Os resultados mostram como funciona a escrita criativa e quais são as similaridades entre as grandes obras clássicas, por exemplo”, diz Jockers. Na nova etapa da pesquisa, ele pretende analisar apenas a variação emocional em best-sellers. “Estou investigando se os autores dos livros mais vendidos são previsíveis ou, pelo menos, se há algumas características específicas que podemos encontrar nessas obras.”

Jockers pode ser considerado o pioneiro da análise literária digital. Começou durante o curso de literatura inglesa na Universidade Estadual de Montana, quando usou a computação para obter os números de sílabas do célebre poema épico de autor desconhecido Beowulf. A partir dos anos 2000, aproveitando-se do avanço computacional, passou a se dedicar a pesquisas mais ambiciosas. Na mais longa e completa delas, vasculhou 3.592 obras para examinar as características dos autores do século XIX e a influência sobre escritores que os sucederam.

Para levar o trabalho a cabo, cruzou dados relativos a romances assinados por autores consagrados como Jane Austen, Charles Dickens, Herman Melville e Mark Twain, entre outros. Conclui que a autora de Orgulho e Preconceito foi a mais influente do período. De acordo com a análise, que levou em conta os temas abordados, a estrutura das obras, o vocabulário e forma narrativa, Jane Austin foi imitada à exaustão – mais do que os demais. “Eu não gostava muito das obras dela, mas passei a respeitá-la profundamente ao ver os resultados da análise. Ela estava anos à frente do seu tempo.”

Alguns críticos dizem que a ferramenta de Jockers faz exames simplórios das obras literárias. Sua análise estatística reduziria a dois uma gama de sentimentos difíceis de classificar. Outra queixa é a de que os computadores não seriam capazes de captar ironia ou humor negro. Jockers rebate: “A perda de informação na análise literária é aceitável em minha pesquisa. A ironia e o humor negro não estão presentes em todas as obras e, quando estão, representam parte pequena das mesmas. Não procuro criar verdades absolutas, mas, sim, iluminar os estudos literários”.

As narrativas dos romances seguem as duas tendências gráficas acima: um U (homem no buraco) ou um U ao contrário (homem na montanha). A análise leva em conta os sentimentos das palavras.(VEJA.com/VEJA)

As narrativas dos romances seguem as duas tendências gráficas acima: um U (homem no buraco) ou um U ao contrário (homem na montanha). A análise leva em conta os sentimentos das palavras.(VEJA.com/VEJA)

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