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Aluna da UFSCar encontra poemas ‘inéditos’ de Drummond

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Estudante encontrou poemas inéditos de Carlos Drummond de Andrade (Foto: Wilson Aiello/EPTV)

Estudante encontrou poemas inéditos de Carlos Drummond de Andrade (Foto: Wilson Aiello/EPTV)

 

Obras foram publicadas em edição da revista Raça, em São Carlos, SP.
Trechos podem ajudar na compreensão do processo criativo do escritor.

Publicado no G1

A estudante Mayra Fontebasso, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), descobriu três peças importantes no mundo literário: poemas ‘inéditos’ de Carlos Drummond de Andrade. Publicados em uma revista de São Carlos (SP) em 1929, os trechos nunca foram estudados e pertencem à fase jovem do escritor. “São inéditos pelo fato de não terem sido catalogados. Eles foram publicados em revista, mas nunca foram recolhidos em livros e nem estudados”, explicou o professor de literatura Wilton Marques, que coordena a pesquisa. (Veja as obras no fim do texto).

Os “poemas perdidos”, como são intitulados, foram encontrados em um exemplar da revista Raça doado pela família Damiano. Na época, o jornalista Carlos Damiano era o editor responsável pelas publicações. Agora, o acervo pertence à Fundação Pró-Memória.

Segundo Marques, as características dos textos correspondem a uma época desconhecida da vida de Drummond, de quando ele tinha cerca de 20 anos, e por isso eles se tornaram relíquias. “Ainda é um Drummond jovem e excitante literariamente, mas que já apresenta um tipo de poema que vai caminhar para a modernidade depois”.

Até então desconhecidos, os achados são considerados ‘inéditos’ porque não fazem parte do conjunto principal de sua obra e mostram um modo diferente do acostumado modernismo de Drummond.

“A gente percebeu que não só é inédito em livros, como nenhum estudioso nunca se debruçou sobre eles porque, provavelmente, por ser uma revista local, nunca foi alvo de estudos da área de literatura, são pedras preciosíssimas”, afirmou a universitária, aluna do último ano do curso de graduação em letras.

História
Drummond nasceu em Minas Gerais em 1902 e é considerado um dos poetas mais influentes do século 20. Seus primeiros poemas são marcados pela individualidade do autor, que, ao longo o tempo, começa a jornada pelo modernismo, onde deixa sua marca registrada.

Mas as descobertas podem alterar essa linha. “Primeiro eu desconfiei muito desses poemas porque não tinham a assinatura completa do autor, ele assinava só como Carlos Drummond. Esses são poemas que não são parecidos com o Drummond que a gente conhece, o Drummond famoso e modernista”, disse Mayra.

Os achados serão estudados pelos pesquisadores para a melhor compreensão do processo criativo do escritor e também farão parte de uma antologia da Revista Raça, editada na cidade entre 1927 e 1934, com circulação tanto na região quanto na capital paulista.

“Agora eu espero encontrar outras pedras no meio do meu caminho, no meio dessa minha pesquisa, e provavelmente há textos inéditos de outros escritores, não só do Drummond”, finalizou Mayra. Veja abaixo os poemas encontrados.

O poema das mãos soluçantes, que se erguem num desejo e numa súplica
Como são belas as tuas mãos, como são belas as tuas mãos pálidas como uma canção em surdina…
As tuas mãos dançam a dança incerta do desejo, e afagam, e beijam e apertam…
As tuas mãos procuram no alto a lâmpada invisível, a lâmpada que nunca será tocada…
As tuas mãos procuram no alto a flor silenciosa, a flor que nunca será colhida…
Como é bela a volúpia inútil de teus dedos…

O poema das mãos que não terão outras mãos numa tarde fria de Junho
Pobres das mãos viúvas, mãos compridas e desoladas, que procuram em vão, desejam em vão…
Há em torno a elas a tristeza infinita de qualquer coisa que se perdeu para sempre…
E as mãos viúvas se encarquilham, trêmulas, cheias de rugas, vazias de outras mãos…
E as mãos viúvas tateiam, insones, as friorentas mãos viúvas…

O poema dos olhos que adormeceram vendo a beleza da terra
Tudo eles viram, viram as águas quietas e suaves, as águas inquietas e sombrias…
E viram a alma das paisagens sob o outono, o voo dos pássaros vadios, e os crepúsculos sanguejantes…
E viram toda a beleza da terra, esparsa nas flores e nas nuvens, nos recantos de sombra e no dorso voluptuoso das colinas…
E a beleza da terra se fechou sobre eles e adormeceram vendo a beleza da terra…

CARLOS DRUMMOND.

Opções para apresentar a poesia às crianças

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poesia

Anna Rachel Ferreira, em Nova Escola

Eu tenho uma questão pessoal com poesia. O primeiro livro de poemas que me lembro de ter lido por completo foi Libertinagem, de Manuel Bandeira (1886-1968), quando cursava o Ensino Médio. Não me recordo de muita coisa sobre os textos, só de que, na época, não gostei. Depois tentei outros autores, mas sempre ficava com a sensação de que os poetas só complicam as coisas simples por alguma razão desconhecida. A maneira rebuscada, exagerada e abstrata – na minha concepção – como eles se expressam me deixava irritada. E eu sempre acabava deixando a leitura de lado com a decepção de quem não compreendeu o que tentavam lhe dizer.

Até que um dia, um ser iluminado acrescentou o livro Memórias Inventadas – A Segunda Infância, de Manoel de Barros (1916-2014), à lista de um dos vestibulares que eu prestaria naquele ano. Nunca me esqueço do estranhamento ao pegar aquela caixinha de papelão que mais parecia um presente, criado especialmente para mim. Quando aberta, ela guardava páginas soltas, mas encaixadas e amarradas com um laço de fita cor de laranja. Era uma simplicidade tão bonita que me motivou a ter bastante cuidado ao tocá-la. Após soltar o laço, eu manuseei as folhas delicadamente e as espalhei na cama dos meus pais. Permaneci um breve momento ali admirando as letras e as ilustrações em um encantamento inebriante.

Tinha ficado toda animada quando a professora explicou sobre a sonoridade de Barros, de como as palavras formavam sons que criavam imagens na nossa cabeça e traziam sensações em nossos corpos. Então, comecei a ler em voz alta, imaginando as águas batendo nas pedras, sentindo a brisa no meu rosto, totalmente mergulhada naquele universo novo. Gostei tanto que fiz meu irmão – 5 anos mais novo que eu – sentar do meu lado, fechar os olhos e me ouvir ler alguns dos textos de prosa-poética – classificação dada àquela obra. Não sei dizer como se sentiu ou ainda se ele se lembra disso mas, para mim, foi um momento mágico e, por isso, inesquecível!

Ainda tenho minhas dificuldades com o gênero, mas fico pensando se não foi uma questão de ter sido apresentada a ele muito tarde ou de maneira incorreta. Não sei dizer com certeza. Mas, a lembrança desse meu momento com Manoel de Barros me é tão cara que acho um pecado que alguém passe pela vida sem ter uma experiência assim. Cheguei à conclusão de que, nesse caso, quanto antes puder viver isso, melhor.

Por essa razão, pedi para a Bruna Escaleira, colaboradora de NOVA ESCOLA, escritora e apaixonada por poesia, fazer uma lista com indicações de leitura para apresentar os poemas às crianças. Confira os comentários dela!

 

Poesia fora da estante 2

Poesia Fora da Estante – Volume 2
(org. Vera Aguiar, Simone Assumpção e Sissa Jacoby, 112 págs., Ed. Projeto, tel.: 51/3346-1258, 28 reais)
Além de ser muito bem amarrada, guardo um carinho especial por essa coletânea. Foi o livro que me apresentou à poesia – pra nunca mais nos separarmos! Os poemas cuidadosamente escolhidos, de autores renomados ou pouco conhecidos, vão mostrando que poesia é uma brincadeira fácil e surpreendente.

 

 

 

 

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Ou Isto ou Aquilo
(Cecília Meireles, 66págs., Ed. Global, tel.: 11/3277-7999, 39 reais)
Um clássico da literatura infantil! A trivialidade da temática escolhida por Cecília faz com que a obra seja sempre atual. A sutileza da sonoridade cativa os pequenos desde o primeiro verso.

 

 

 

 

 

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Exercícios de Ser Criança
(Manoel de Barros, 48 págs., Ed. Salamandra, tel.: 11/2790-1300, 39 reais)
Nunca é cedo para desconstruir conceitos. Com Manoel, os pequenos aprendem que poesia não é só verso e rima – e pode estar em qualquer canto do quintal!

 

 

 

 

 

 

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O Bicho e o Alfabeto
(Paulo Leminski, 72 págs., Ed. Cia das Letrinhas, tel.: 11/3707-3500, 39 reais)
Uma leitura leve e com humor inteligente. Nesse livro para crianças, o ar brincalhão do Leminski “adulto” ganha ainda mais ternura.

 

 

 

 

 

 

 

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Berimbau e outros poemas
(Manuel Bandeira, 64 págs., Ed. Global, tel.: 11/3277-7999, 35 reais)
O poeta que falou tanto da sua infância quando adulto não podia ficar de fora das prateleiras dos pequenos. As ilustrações aproximam ainda mais os famosos poemas do cotidiano das crianças de hoje.

 

 

 

 

 

 

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Cultura
(Arnaldo Antunes, 48 págs., Ed. Iluminuras, tel.: 11/3031-6161, 38 reais)
Mais um adulto que não esqueceu como é ser criança. Ou será uma criança que aprendeu a ser adulto? De qualquer maneira, vale a pena ler as “sacadas” dignas de quem está começando a descobrir o mundo!

Reedição da obra de Manoel de Barros tem antologia com poemas de 18 livros

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manoel de barros

Uma semana antes da morte do poeta, a Alfaguara adquiriu os direitos de publicação que antes pertenciam à Leya

Publicado no Divirta-se [ via Correio Brasiliense]

Manoel de Barros morreu em novembro do ano passado, mas deixou um baú de felicidades os leitores. Na arca simbólica, há coisas inéditas que devem chegar em breve às prateleiras das livrarias. Uma semana antes da morte do poeta, a Alfaguara adquiriu os direitos de publicação que antes pertenciam à Leya. Em março, a editora começou o relançamento da obra do matogrossense sob coordenação da artista plástica Martha de Barros, filha do poeta.

O primeiro volume, Meu quintal é maior do que o mundo, é uma antologia de poemas coletados nos 18 livros que a editora pretende relançar. A seleção ficou a cargo de Martha, que queria um livro capaz de iniciar leitores novos. “O que buscamos foi não apenas suprir essa necessidade imediata, como também lançar um formato inédito que contivesse um pouco de toda sua obra: uma antologia”, explica. “Desta forma, podemos atender não apenas àqueles que já são seus leitores e fãs, mas também àqueles que ainda não conhecem bem sua obra, já que a antologia organiza e retoma cada fase da produção literária do poeta, servindo como uma espécie de iniciação à poesia dele.”

Além dos 18 livros de poesia, a Alfaguara vai reeditar os infantis Poeminha em língua de brincar e Cantigas por um passarinho à toa e um volume de prosa da coleção Para ler na escola, com poemas voltados para o ambiente escolar. O novo projeto incorpora material iconográfico inédito — como manuscritos, desenhos e cartas — e os caderninhos do poeta devem aparecer em outra edição. “Ainda estamos em fase de levantamento de material iconográfico e a ideia é fazer uma edição ‘definitiva’. Sobre edições de luxo, ainda não há projetos nesse sentido”, avisa Martha. Em Meu quintal é maior que o mundo, um fac-símile de uma carta de Antônio Houaiss lembra como as palavras do poeta podem ser lidas como um filtro contra a “arrogância, a exploração, a estupidez, a cobiça, a burrice”.

» Entrevista // Martha de Barros

Os livros de Manoel de Barros costumam ser obras inteiras, completas, com grande sentido embutido. Como foi extrair trechos para montar uma antologia? Que critérios você seguiu?
Foi difícil, pois tudo que eu relia achava precioso. Seus poemas têm uma força muito grande… tive insônia, dificuldade mesmo. Mas segui minha intuição, escolhendo os trabalhos que o próprio poeta mais gostava e também os consagrados pelo seu público.

O relançamento será em ordem cronológica em relação aos anos em que as obras foram publicadas?
Ainda estamos resolvendo isso com a editora. Existe essa possibilidade, sim. Mas não é necessário seguir a exata ordem em que os livros foram publicados originalmente. A antologia, nesse sentido, funciona bem como um primeiro passo no projeto de relançamento, já que serve quase como um guia e foi toda organizada na ordem cronológica de publicação de seus livros.

Suas ilustrações acompanham os livros? Quais?
Por enquanto estou trabalhando com as imagens de capa e organizando todo material.

O que te guia quando ilustra a obra de Manoel? Seu traço é parecido com o dele. Há uma simbiose entre pai e filha?
Ele me escolheu para fazer o que chamava de “iluminuras” para seus livros. Meu trabalho sempre foi independente do dele. Tínhamos uma sensibilidade parecida e uma identificação artística familiar e de amizade.

O que está previsto para os cadernos do Manoel de Barros? Haverá edição fac-simile? Eles podem vir a fazer parte de uma exposição?
Ainda estamos organizando o material deixado por ele. Penso que ainda há muita coisa a ser feita — inclusive exposições.

O poeta deixou algo inédito? Ele ainda escrevia nos últimos tempos de vida?
Sim, ele deixou inéditos que estamos organizando para entrar na reedição dos livros novos ou em outros trabalhos ou publicações.

Ele escreveu muitas poesias para os filhos. Você vê, de certa forma, sua vida e sua infância espelhadas na poesia de Manoel de Barros? Como ele
era como pai?
Sou impregnada de poesia, aprendi a gostar desde cedo, trabalhei com ele durante muito tempo. Sempre foi um bom pai e amigo especial. Sua poesia me emociona e trabalhar com ela tem me ajudado a suportar tantas perdas.

O que te toca e te emociona mais na poesia dele?
A poesia dele tem uma alegria própria da infância que nos revigora a alma!

Escritores acusam projeto patrocinado pela Secretaria Municipal de Cultura do RJ de censura

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Responsável pelo ‘Rio: Passagens’ afirma que contos de Fernando Molica e Marcelo Moutinho passaram por ‘processo de edição’

Site do projeto 'Rio: Passagens' - Reprodução

Site do projeto ‘Rio: Passagens’ – Reprodução

Publicado por O Globo

O lançamento nesta segunda do site “Rio: Passagens”, projeto que reúne contos, poemas e vídeos sobre a cidade em homenagem ao seu aniversário de 450 anos, em 2015, foi cercado de polêmica. Dois dos autores convidados, o jornalista e escritor Fernando Molica e o escritor Marcelo Moutinho acusaram os responsáveis pelo projeto de censura. De acordo com os dois, a produtora Arrastão de Ideias, que captou R$ 149 mil junto à Secretaria Municipal de Cultura, cortou trechos dos contos enviados a pedido dos organizadores. Além dos dois, participaram nomes como José Eduardo Agualusa, Nei Lopes, Paulo Scott, Silviano Santiago, Alice Sant’Anna e Armando Freitas Filho.

Molica e Moutinho acabaram saindo do projeto. “Eu e o Marcelo Moutinho descobrimos que, sem nossa autorização, nossos contos haviam sofrido cortes e mudanças (…). Entreguei a versão definitiva de ‘Tamborim’ há quatro meses, no dia 13 de agosto. Desde então, não fui procurado para tratar de eventuais modificações ou adaptações. Ontem, contei 36 alterações: foram cortadas diversas palavras ou expressões; sete frases inteiras e trechos importantes de outras oito”, disse Molica, em um longo desabafo publicado em seu perfil Facebook.

No texto, Molica alega não ter sido avisado que o projeto era voltado para formação de leitores, mas que aceitaria a supressão de palavrões em seu conto. “Isso, apesar de rejeitar e repudiar qualquer censura. Como escritor, não discrimino palavras. Além disso, a densidade dos contos praticamente inviabiliza sua leitura por crianças (…) A frase seguinte está entre as cortadas: ‘Pelo peso, menos de quilo, não deveria ser outro daqueles livros parrudos, cheios de fotos, produzidos por empreiteiras que se valem de leis de incentivos fiscais’. Não há qualquer palavrão aqui, mas suspeito que os organizadores não gostaram da referência a leis de incentivo. Empreiteiras e incentivos fiscais devem ter sido considerados danosos à formação de nossos jovens. Houve cortes em brincadeiras com o sotaque paulistano, houve muitos cortes. Todos afetam e desrespeitam o trabalho do autor”.

Moutinho, em sua reclamação, citou questões parecidas. “(…) Percebi que uma frase havia sido suprimida do meu texto original. O que ocorreu, viria a atestar, foi simplesmente a mutilação do texto, sem que eu tivesse conhecimento. Ante minha pronta reclamação sobre a sentença cortada, os organizadores ponderaram que havia, nela, um palavrão, e o site precisava ter censura livre. Respondi que entendia a justificativa, mas sem deixar de sublinhar o absurdo de se mexer no conto de um autor e lançar uma versão final sem que este seja consultado. Inclusive porque o texto fora entregue no dia 22 de agosto – portanto, há quase 4 meses -, e houve tempo suficiente para tal”, escreveu.

PRODUTOR JUSTIFICA EDIÇÕES

De acordo com o escritor e crítico literário Vinícius Jatobá, produtor do “Rio: Passagens”, os autores foram comunicados previamente sobre as restrições do projeto, que consiste em um site com material multimídia sobre o Rio de Janeiro produzido em português, com traduções para inglês, espanhol e francês, voltado para formação de leitores e uso em escolas.

— O convite foi bem específico, a encomenda foi específica e os autores teriam que seguir. Esse projeto tem um recorte, as edições foram feitas para adequar os textos. Eu tenho a obrigação de entregar o que prometi à prefeitura, que era um projeto de formação de leitores — explica Jatobá.

Dizendo-se “arrasado” com a repercussão entre os autores, o produtor justificou as edições:

— O conto do Molica se passa em Moema, em São Paulo. Ele passou por um processo editorial para se tornar mais carioca. Quanto ao Moutinho… ele me entregou um conto perfeito, mas tinha uma parte que falava de prostituição na Lapa. Eu disse a ele que eu não gostaria de ter esse trecho no conto. Ele aceitou o corte na época, mas às vésperas do lançamento ele leu o corte e pediu para sair do projeto — conta Jatobá.

Jatobá garante ter conversado sobre as alterações com os autores por telefone em agosto, quando os textos foram fechados para a tradução, e que eles não se lembrariam.

— Eles falam em censura, eu falo em edição. Editor edita. Sou grande admirador do trabalho dos dois, mas não posso descaracterizar o projeto por isso. Sinto que falhei com os dois, me comuniquei mal e fui um péssimo editor para esses dois autores, mas eu fiz o melhor para o projeto. Não poderia incluir um texto que se passa em São Paulo, não poderia voltar com o texto do Moutinho com piadas sobre prostituição.

Ainda de acordo com Jatobá, diferentemente do que falou Molica, todos os participantes do projeto serão pagos, mesmo os que não tiveram seus contos publicados, caso dele e de Moutinho. O produtor diz ainda que a opção dada por Molica e Moutinho, de utilizar os textos originais ou com menos alterações, não seria possível por questões técnicas (“os textos teriam que ser retraduzidos e regravados, não teríamos tempo e verba para isso”).

O secretário municipal de Cultura, Sérgio Sá Leitão, se manifestou sobre o imbróglio: “Vou pedir uma explicação aos responsáveis. Mas desde já me posiciono contra qualquer tipo de censura ou de mutilação e intervenção sobre obras de arte. Não há orientação ou intervenção da Prefeitura em relação ao conteúdo dos projetos que patrocinamos”.

Os 10 melhores poemas de Manoel de Barros

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Carlos Willian Leite, na Revista Bula

Pedimos aos leitores e colaboradores — escritores, jornalistas, professores — que apontassem os poemas mais significativos de Manoel de Barros, um dos mais aclamados poetas contemporâneos brasileiros. Nascido em Cuiabá em 1916, Manoel de Barros estreou em 1937 com o livro “Poemas Concebidos sem Pecado”. Sua obra mais conhecida é o “Livro sobre Nada”, publicado em 1996.

Cronologicamente vinculado à Geração de 45, mas formalmente ao Modernismo brasileiro, Manoel de Barros criou um universo próprio — subvertendo a sintaxe e criando construções que não respeitam as normas da língua padrão —, marcado, sobretudo, por neologismos e sinestesias, sendo, inclusive, comparado a Guimarães Rosa.

Em 1986, o poeta Carlos Drummond de Andrade declarou que Manoel de Barros era o maior poeta brasileiro vivo. Antonio Houaiss, um dos mais importantes filólogos e críticos brasileiros escreveu: “A poesia de Manoel de Barros é de uma enorme racionalidade. Suas visões, oníricas num primeiro instante, logo se revelam muito reais, sem fugir a um substrato ético muito profundo. Tenho por sua obra a mais alta admiração e muito amor”. Os poemas publicados nesta seleção fazem parte do livro “Manoel de Barros — Poesia Completa Bandeira”, editora Leya. Por motivo de direitos autorais, apenas trechos dos poemas foram publicados.

O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Retrato do artista quando coisa

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

O fazedor de amanhecer

Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.

Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

Prefácio

Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.

Os deslimites da palavra

Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas

Aprendimentos

O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura
é o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada.

Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs.

E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar.

Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles —
esse pessoal.

Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova.
Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.

Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

Uma didática da invenção

I

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2 lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

II

Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma.

III

Repetir repetir — até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo.

IV

No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:

Poesia é quando a tarde está competente para dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.

V

Formigas carregadeiras entram em casa de bunda.

VI

As coisas que não têm nome são mais pronunciadas
por crianças.

VII

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.

VIII

Um girassol se apropriou de Deus: foi em
Van Gogh.

IX

Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz .
Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

X

Não tem altura o silêncio das pedras.

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