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Dedicatória

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Dedicatória (Dedication) from Bloco Filmes on Vimeo.

Publicado por Bloco Filmes

Em novembro do ano passado, uma pessoa super importante pra mim, iria fazer aniversário no dia 09. Mais ou menos uma semana antes resolvi dar de presente a ela o livro “Poesia Completa” do Manoel de Barros (poeta preferido dela). Quando cheguei em casa com o livro e decidi escrever a dedicatória. Porém, não consegui.

Talvez pela infinita distância entre a beleza da escrita do Manoel e a minha. Ou talvez pela distância entre mim e ela. Não sei. Sei que com isso, comecei a pensar que era o próprio livro que não me deixava escrever nas suas páginas, pensei que como a poesia de Manoel de Barros foi escrita no meio do mato, o livro podia estar traumatizado por estar numa cidade de concreto, precisando se reencontrar com os lugares que ele foi concebido pra me deixar escrever a dedicatória. Pois é, viajei né? Sim, viajei. Dessa viagem da minha cabeça, acabou virando algo real.

Como faltava só uma semana para o aniversário Dela, comprei uma passagem no dia seguinte para Campo Grande, terra do Manoel. Nesse momento, pensei em registrar toda essa trajetória de uma forma experimental, para ver se dali saía talvez um curta, um documentário, uma dedicatória. Passei 3 dias lá sozinho, levando o livro pela cidade, pelo meio do mato, no meio dos bichos e afins. Fazendo cada poesia do livro voltar a sentir “o cheiro do sol de lá”… Toda essa trajetória me levou a um final incrivelmente mais lindo do que eu poderia imaginar, mas isso prefiro que vocês vejam no próprio filme.

Bom, voltando a trajetória, voltei para Porto Alegre e consegui finalizar o curta até o dia do aniversário. Entreguei para Ela o livro com um laço de presente, na Casa de cultura Mário Quintana. Mas, antes que ela abrisse o livro para ver a dedicatória, fomos até umas das salas de cinema de lá e passei o curta numa sessão fechada pra ela.

Essa é a história desse curta, dessa experiência… espero que vocês gostem.

dica da Luciana Leitão

Como ler e analisar um clássico da literatura

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Você consegue analisar um texto literário? Confira 10 dicas para fazer isso bem e aproveitar melhor a sua leitura

Publicado no Universia Brasil

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Crédito: Shutterstock.com / Comparar o texto literário que está lendo com outros do mesmo autor ajuda a determinar se houve alguma evolução

Ler uma obra literária é formidável. Os textos literários têm, em geral, o objetivo de emocionar o leitor, e para isso exploram a linguagem conotativa ou poética.

Confira a seguir 10 dicas para aproveitar melhor a sua leitura:

1. Não se irrite com facilidade

A dica é ler com curiosidade e expectativas razoáveis. Não é importante entender cada palavra da obra. A literatura vai além dos vocabulários.

2. Escolha a melhor edição

Busque a edição do livro que tenha uma boa introdução, ou seja, a mais fácil de entender. Boas introduções explicam o contexto histórico, os fatos mais importantes da obra, a vida do autor, a estrutura, o estilo e muito mais.

3. Não interrompa a leitura para buscar palavras no dicionário

Apenas faça isso se a palavra em questão apareça muitas vezes na obra, ou se não conhecer o seu significado impede você de entender o texto.

4. Faça anotações

Fazer anotações ajuda muito, especialmente quando a obra tem muitos personagens (exemplo: Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez). Você pode simplesmente anotar as coisas que mais chamam a sua atenção. Outra dica é fazer um resumo ao final de cada capítulo. Alguns textos literários não têm uma narrativa linear. É o caso da poesia. Nem sempre há uma história com começo e fim.

5. Identifique os temas

Geralmente, há temas e subtemas. É preciso identificá-los.

6. Analise os personagens e o narrador

Quem é o protagonista da obra? Às vezes, o autor dedica muito tempo a descrever os personagens. Além disso, é preciso determinar também quem é o narrador. Provavelmente, o narrador é um dos personagens, mas também pode ser apenas uma voz onipresente.

7. Preste atenção em como a história é narrada

Não fique atento a descobrir apenas quem é o narrador da história. Tente entender também como essa história é narrada. Note se a narração é linear, ou seja, se conta os fatos em ordem cronológica.

8. Preste atenção ao estilo de linguagem

É uma linguagem coloquial ou formal? Existe alguma conexão entre o argumento e o estilo? Você deve notar, por exemplo, se há muita descrição ou uso de metáforas no texto.

9. Considere o contexto histórico

É importante considerar a situação política, econômica e social em que a obra foi escrita, assim como os movimentos culturais vigentes da época.

10. Compare o texto com outros do mesmo autor

Comparar o texto literário que está lendo com outros do mesmo autor ajuda a determinar se houve alguma evolução. Ajuda a entender se o texto se encaixa em algum movimento literário.

 

TV Câmara exibe hoje documentário sobre o escritor Rubem Alves

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O teólogo e educador Rubem Alves é personagem da 'Série Memórias', da TV Câmara(Imagem: Augusto de Paiva/AAN)

O teólogo e educador Rubem Alves é personagem da ‘Série Memórias’, da TV Câmara
(Imagem: Augusto de Paiva/AAN)

Publicado no Comunique-se

Em homenagem ao escritor e jornalista Rubem Alves, a TV Câmara produziu um documentário que traz  relatos de como  a trajetória do também pedagogo se mistura com a educação contemporânea no Brasil. Dirigido por Dulce Queiroz, o material faz parte da ‘Série Memórias’, que traz a biografia de grandes personalidades brasileiras. O filme será exibido no próximo sábado, 19, às 21h.

Intitulado “Rubem Alves – O professor de espantos”, o filme aborda algumas fases da vida de Alves. Primeiro, o pastor da Igreja Presbiteriana que vê sua fé ruir em pleno regime militar ao ser vítima da cumplicidade entre Estado e Igreja.  Depois, o mundo acadêmico, onde revela-se educador e filósofo, para, finalmente, encontrar-se na maturidade e dedicar-se à literatura e a poesia.

Partidário das ideias de Paulo Freire e em constante diálogo com pensadores e poetas como Nietzsche, Bachelard, Robert Frost e Adélia Prado, o “jardineiro” Rubem Alves semeia ideias tão “revolucionárias” que acabam provocando a crítica e o desprezo de muitos setores da intelectualidade brasileira e também a cumplicidade de todos os que são apaixonados pela Educação, explica a emissora.

Caetano Veloso: Brisa

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Leio com certa preocupação que o “acordo” sobre a língua portuguesa ficará ainda em banho-maria até 2015

Caetano Veloso, em O Globo

Paquito, duplamente colega meu (já que compõe canções e mantém uma coluna semanal), a propósito da aprovação do novo PDDU pela câmara dos vereadores de Salvador (que, dizem, liberaria as empresas imobiliárias para construir sem respeitar a passagem da brisa), relembrou o divino poema de Bandeira (que Paquito mesmo musicou faz alguns anos):

Recebendo notícias do calor do Rio e curtindo o ventinho brando (é verdade que nem sempre tão brando) que entra por minha casa do Rio Vermelho, emocionei-me ao reler os versos desse pernambucano carioca que fazia poesia assim como quem não faz nada.

Brisa é uma linda palavra. Uma linda ideia expressa no som adequado. Fico pensando nos rappers paulistanos, sobretudo Mano Brown, de quem ouço com tanta frequência a palavra “brisa” ocupando área semântica especial, funcionando como metáfora para outras dimensões da vida. Mano Brown e os Racionais, aliás, é que escreveram a música sobre Marighella que soa como feita por quem sente real identificação com a guerrilha. Nada a ver com meu lento lamento semimonumental. Nelson Rodrigues dizia que “Caminhando” de Geraldo Vandré — a canção favorita dos que se queriam revolucionários — era “uma berceuse”. Felizmente ele não teve de viver para ouvir a minha “Um comunista”. Nelson era um tipo angelical de anticomunista (em geral uma malta desagradável). A brisa de Bandeira, Paquito, Brown e Salvador salva tudo.

As palavras se sentem bem na poesia. “Que a brisa do Brasil beija e balança”. Diretamente no épico de Castro Alves ou citado na soneterapia de Augusto de Campos, esse verso é tudo o que as palavras querem para se sentirem bem. Para exercerem sua função e seu destino.

Leio com certa preocupação que o “acordo” sobre a língua portuguesa ficará ainda em banho-maria até 2015. A preocupação não impede que haja alívio. O acordo é cheio de lacunas e é suspeito. Tantos livros corrigidos e reimpressos! Pra quê? Mas o que me interessa comentar aqui é a docilidade — não, não apenas docilidade, a verdadeira paixão — com que os brasileiros adotam essas normas que são anunciadas. Isso me impressiona. Sempre me impressionou. Nos anos 1970, quando caíram os acentos diferenciais e os que indicavam sílaba subtônica (antes, tínhamos de escrever, por exemplo, “fôra”, para diferençar de “fora”, e tínhamos de pôr um acento grave em, por exemplo, “ràpidamente”, para frisar que o advérbio vinha de um adjetivo proparoxítono). Todo mundo se guiou. Em editorial da “Folha”, leio que o “acordo” não é uma dessas leis brasileiras que “não pegam”. Ao contrário. A mim, esse respeito rápido (vejo-o nos jornais e nos e-mails, ouço perguntas sobre as mudanças mesmo de pessoas pouco letradas) me parece da mesma natureza do interesse pelos professores de gramática: o povo quer ordem na língua que fala. Quer saber o que é certo, como se deve escrever. Deseja, num plano mais superficial, exercer sua vaidade; num plano mais profundo, saber que sua língua é respeitada e respeitável, que ela é forte.

Claro que detesto que tenhamos passado a grafar “para” para “para” e para “pára”. Isso só cria confusão e não tem absolutamente nenhuma vantagem. Lendo o excelente “Marighella” de Mário Magalhães, me deparei com alguns casos em que tive de recomeçar a ler a frase para saber se a palavra incial era um “fora” ou um “fôra”. Isso, embora mis velho do que o acordo, tampouco é bom. Para nada. Mas é bom que os falantes procurem adequar-se o mais pronto possível ao que lhes chega anunciado como regra. Eles buscam a norma, assim como o assalariado busca o carro e a geladeira. A vanguarda revolucionária dos sociolinguistas é leninista: eles sabem melhor o que os falantes querem. Segundo eles, os falantes querem que lhes seja dito que está bom do jeito que eles já fazem (sem deixar de contar que existem a norma, o carro e a geladeira).

Não se enganem: gosto do Bagno. Mas ao pensar sobre essas coisas, prefiro voltar a Marighella, Mano Brown, Paquito e Manuel Bandeira. Brisa. Os poetas sabem que os acordos podem ser respeitados porque a poesia vencerá no fim. Eles se submetem sabendo que é coisa de somenos. Não sou poeta para postar-me tão alto. Chio um pouco. Sou um falante popular que sempre quis saber melhor. Por favor, não roubem minha brisa.

Vamos viver no Nordeste, Anarina.

Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.

Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.

Aqui faz muito calor.

No Nordeste faz calor também.

Mas lá tem brisa:

Vamos viver de brisa, Anarina

foto: Internet

Livros de verão e literatura de verdade

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Milton Hatoum, em O Estado de S.Paulo

Há poucos meses atrás, na Feira do Livro de Guadalajara, vi uma cena que, de algum modo, diz muito sobre a literatura e a solidão, essas irmãs siamesas.

A Feira estava cheia de gente, mas não necessariamente de leitores. Ao visitar o estande de uma editora, vi um escritor de língua espanhola, sentado diante de uma mesinha, à espera de leitores. Ele tinha um ar desolado e conversava com uma mulher. Quando eu passava perto dos dois, ele perguntou à mulher onde estavam os leitores. Ela sorriu e apontou para uma fila de leitores excitados, que queriam comprar a edição espanhola de Cinquenta Tons de Cinza, o best-seller do momento.

É improvável que os leitores dessas historinhas de sexo e violência – ou sexo com violência – leiam romances de Conrad, de Dostoievski ou de Graciliano Ramos. Quantos se aventuram a ler Coração das Trevas, Crime e Castigo ou Infância? Para a maioria dos leitores, um livro de ficção é puro entretenimento, algo que não convida a pensar nas relações humanas, no jogo social e político, na passagem do tempo e nas contradições e misérias do nosso tempo, muito menos na linguagem, na forma que forja a narrativa. Talvez por isso o poeta espanhol Juan Ramón Jiménez tenha afirmado que a poesia é a arte da imensa minoria. Isso serve para a literatura e para todas as artes. Os poucos, mas felizardos espectadores da peça O Idiota, dirigida por Cibele Forjaz, sabem disso.

Flaubert costumava lamentar a época em que viveu: a crença entusiasmada e cega no progresso e na ciência, as batalhas fratricidas na França, a carnificina das guerras imperialistas, e a idiotice e bestialidade humanas, que ele explorou com ironia em sua obra. Em uma carta de sua vasta correspondência, escreveu que o ser humano não podia devorar o universo. Referia-se ao consumismo crescente na segunda metade do século 19.

O que o “Ermitão de Croisset” diria dos dias de hoje, quando a propaganda insidiosa na tevê não poupa nem as crianças e tudo gira em torno da vida de celebridades, de uma fulana famosa que teve um bebê, de sicrano que se separou de beltrana ou traiu uma fulaninha? Qual o interesse em saber que a princesa da Inglaterra está grávida?

Essas baboseiras são ainda mais graves num país como o Brasil, cuja modernidade manca ou incompleta exclui milhões de jovens de uma formação educacional consistente.

No começo da década de 1990, quando eu passava uma temporada em Saint-Nazaire, um jovem operário entrou no meu apartamento para consertar o vazamento de uma tubulação. Quando passou pela sala, viu um romance em cima da mesa e exclamou:

Ah, Stendhal. Li vários livros dele, e o que mais aprecio é esse mesmo: A Cartuxa de Parma.

E onde você os leu? Quando?

Aqui mesmo, ele disse. Na escola secundária.

Era uma das escolas públicas daquela pequena cidade no oeste da França.

Nicolas Sarkozy e outros presidentes conservadores tentaram prejudicar o ensino de literatura e ciências humanas na escola pública francesa, mas nenhum deles teve pleno êxito. Aprender a ler e a pensar criticamente é um dos preceitos de uma sociedade democrática, e esse mandamento republicano ainda vigora na França. O que os prefeitos e secretários de Educação dos quase 5.700 municípios brasileiros dizem a esse respeito?

A precariedade da educação pública é um dos problemas estruturais da América Latina. Até mesmo a Argentina, que já foi uma exceção honrosa, começa a padecer desse mal.

Comecei essa crônica evocando a solidão de um escritor em Guadalajara. Melhor assim: a solidão está na origem do romance moderno, é um de seus pilares constitutivos e faz parte do trabalho da imaginação do escritor e do leitor.

O tempo se encarrega de apagar todos os cinquenta tons de cinza, e ainda arrasta para o esquecimento os crepúsculos, cabanas e toda essa xaropada que finge ser literatura. Enquanto isso, Coração das Trevas, publicada há mais de um século, é uma das novelas mais lidas por leitores de língua inglesa.

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