Contando e Cantando (Volume 2)

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Se a dor fosse poesia…

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Publicado originalmente no Rudá Ricci

MinC lança segunda parte da campanha Leia Mais, Seja Mais

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Imagem Google

Publicado originalmente no Jornal do Brasil

Em vez das melodias que tocam durante uma espera telefônica, ouça poesia. É o que o Ministério da Cultura (MinC) oferece a partir desta quinta-feira (2) para quem ligar para o órgão e não conseguir atendimento imediatamente. A medida faz parte da segunda parte da campanha Leia Mais, Seja Mais, anunciada hoje no Rio de Janeiro.

Com custo de R$ 4 milhões, esta etapa terá também a veiculação de comerciais mostrando a leitura como atividade prazerosa. As peças publicitárias serão exibidas em emissoras de televisão e rádio comerciais e públicas até o fim de agosto. Na primeira etapa, foram veiculados anúncios em 74 revistas e jornais.

A meta é estimular a leitura principalmente, entre as famílias das classes C, D e E, que concentram cerca de 40% da população e a maioria dos não leitores no país, segundo levantamento do Instituto Pró-Livro, divulgado em março. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, o país tem hoje tem hoje 50% de leitores(pessoas que leram pelo menos um livro nos últimos três meses, inteiro ou em partes.)

Para atingir o público da campanha, os comerciais vão passar em horário nobre (período das 18h às 24h), mas não tem a intenção de disputar o público das novelas, assegurou a ministra Ana de Hollanda. Para ela, “a ideia é chamar atenção para a delícia de ler” e fazer com que os brasileiros incluam esse hábito no seu cotidiano.

“Durante o translado entre o trabalho e local de moradia, que pode levar cerca uma, duas, até três horas, o cidadão pode puxar um livro no ônibus, no metrô. Muita gente já faz isso. Não dá para ter televisão, nesses casos, mas um livro, sim”, disse a ministra. Segundo ela, dessa forma a viagem fica mais rápida e agradável .

A campanha também chega à internet e às redes sociais. O usuário será incentivado a incluir a capa do seu livro favorito na imagem do perfil do Facebook, por exemplo.

Outra frente é a utilização nas esperas telefônicas do ministério de trechos da obra de poetas como Gonçalves Dias e de Cládio Manuel da Costa. As gravações foram feitas por atores e estão disponíveis para download no site do órgão.

“Está tudo à disposição, gratuito e sem custos”, disse o coordenador da campanha e presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Galeno Amorim. Existe a sugestão de incentivar o uso das mensagens por empresas detelemarketing.

A Leia Mais, Seja Mais integra o Plano Nacional de Livro e Leitura (PNLL), uma iniciativa de R$ 373 milhões que conta com apoio de vários órgãos de governo e inclui cerca de 40 projetos para a cadeia produtiva do livro, bibliotecas e incentivo à leitura.

Metafísica do amor

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Wolney Fernandes no Instantes Possíveis

Pedi um chá de maçã para acompanhar o pedaço de torta de limão e abri o livro na página 10.

“O que vou ser depois que eu morrer? Eu vou perder os meus pensamentos?”*

Na TV ligada às minhas costas as imagens, mudas, eram lidas pelo recurso da tecla sap. O som que ecoava pelo lugar era o burburinho de conversas paralelas misturado ao barulho que os talheres orquestravam e, à minha frente, aquela questão existencial posta por letras tão bem alinhadas. Frente a ela, meus olhos buscaram outras paisagens porque meus pensamentos não conseguiam sair daquelas 58 palavras.

Foi então que os vi. Sentados de frente um para o outro, aquele casal tinha a ousadia de permanecer alheio a toda minha inquietude diante do embate metafísico que eu, silenciosamente, acabava de travar com as palavras de João Paulo Cuenca.

A paisagem que se seguiu era cartografada por beijos, afagos e olhares que não se desprendiam um do outro. Fiquei hipnotizado e, talvez tenha sido exatamente aquilo que meus olhos procuravam para me distanciar de minhas agonias tão chatas.

Meu coração, serenado diante daquelas vertigens apaixonadas, delicadamente reconduziu meus olhos para a leitura da crônica. Antes do final, eu já sabia que as respostas para aquelas duas questões estavam no fato de poder mudá-las, trocá-las, substituí-las por outras perguntas. E que esse movimento de troca me garantiria fôlego para chegar ao final do caminho.

Se apaixonado, então, a travessia pela vida poderia ser bem mais simples.

Foto: Wolney Fernandes
(*) Citação do livro “A última madrugada” de João Paulo Cuenca

Vinho com poesia

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Fernanda Jimenez, no Falando em Literatura

“Os vinhos são como os homens: com o tempo, os maus azedam e os bons apuram” Cícero

Eu sou praticamente leiga em vinhos, sou do tipo que compra pelo rótulo, pela garrafa (os vinhos que têm o fundo côncavo são os melhores, vinhos com denominação de origem certificada, fora os selos que garantem a qualidade), pelo teor alcóolico (procuro sempre os mais baixos) e também pelo nome. E comprando pelo nome, comecei a observar que existem rótulos com títulos bem interessantes, inclusive com poemas:

 

Os vinhos Albariños são da Galícia e os galegos, além do espanhol, falam também o galego- português. Virando a garrafa, olha a surpresa, um poema lírico trovadoresco de Martín Códax, século XIII:

 

Fácil de entender, não? Muito parecido com o português.

Martin Códax foi um trovador galego, escreveu cantigas de amigo, no tempo em que as poesias eram feitas para serem cantadas. Códax provavelmente era de Vigo e nos deixou sete cantigas, que foram encontradas por acaso na biblioteca pessoal de Paulo Vindel, em 1914. O pergaminho estava dentro de um livro do filósofo Cícero. Pouco se sabe quem foi o trovador, mas sua obra lírica galaico- portuguesa é de grande valor histórico. No pergaminho de Codáx, além dos poemas, também estão as partituras musicais. As mesmas notas estão reproduzidas na rolha do vinho Códax:

 

Abaixo uma cantiga de amigo, cantada por um grupo galego que leva o mesmo nome do trovador:

É ou não é um vinho com poesia? Agora falta provar.

Alma do vinho assim cantava na garrafa:
“Homem, ó deserdado amigo, eu te compus,
Nesta prisão de vidro e lacre em que se abafas,
Um cântico em que só há fraternidade e luz!”
(Charles Beaudelaire, do poema L Âme du Vin)

Foto clássica: Drummond e o homem

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Texto escrito por Alessandro Martins no Livros e Afins

As pessoas comuns perguntam o que o homem terá dito. Você pergunta o que Drummond terá respondido.

A foto foi rememorada no meme do Trotta. Alguém sabe o autor dela?

Curioso. Meu primeiro impulso foi colocar o título do post como Drummond e o bêbado. Mas caí em mim: nada garantia que ele de fato estivesse embriagado a não ser o meu pré-julgamento.

Então, Drummond e o mendigo. Mas, da mesma forma, nada garante em absoluto que ele seja um mendigo.

E, aos poucos, todos os outros atributos possíveis que eu daria ao homem foram caindo e restou este: o de homem. Que também não é definitivo.

No próximo exercício, vá para o espelho e faça os seus próprios atributos despencarem um por um.

Até que o homem seja a estátua e Drummond seja o poeta em carne e osso.

E até que aquelas pessoas, lá atrás na foto, dentro da água (e que você só notou agora), tenham deixado a imagem, adentrando ainda mais na profundidade do mar.

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