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Não é dinheiro que falta na periferia, diz criador de sarau literário em SP

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Gabriela Jujita, no UOL

São 15 anos de histórias recitadas e compartilhadas na periferia de São Paulo, nas vozes de um mundo quase que desconexo do centro. Elas se reúnem toda semana no Sarau da Cooperifa, criado pelo poeta Sérgio Vaz ‘no outro lado da ponte’, como se diz na zona sul paulistana.

O escritor de 52 anos recebeu a reportagem do UOL em sua casa, no Taboão da Serra (Grande São Paulo), para falar sobre os desafios do movimento cultural iniciado por ele e o amigo Marco Pezão, em 2001, na região próxima ao Jardim Ângela, que já foi considerada uma das mais violentas do mundo pela ONU.

A Cooperifa: Por que poesia em um bar?

“Quando eu criei a Cooperifa numa fábrica abandonada [no Taboão da Serra], junto com outros malucos, a gente não tinha muitas opções de lazer nem de cultura na comunidade, nas quebradas. O único espaço público que a gente tinha eram o bar e a igreja”, diz Vaz.

Sérgio Vaz, poeta e criador da Cooperifa

Sérgio Vaz, poeta e criador da Cooperifa

Ele já era poeta, tinha livros publicados e queria um lugar para ler seus textos e trocar ideias. O Sarau da Cooperifa nasceu assim, em um galpão, depois passou para um bar no Taboão (fechado cerca de um ano e meio depois), até que se instalou no bar do Zé Batidão, no Jardim Guarujá (zona sul), de onde nunca mais saiu.

Toda noite de terça-feira, o boteco recebe poetas, cantores –iniciados ou iniciantes– e muita gente interessada em ouvir o que outros têm a dizer.

Quem quiser se apresentar, primeiro coloca o nome na lista e espera ser chamado para usar o microfone. Para os que vão assistir, “o silêncio é uma prece”, como se costuma dizer ali. É assim que funciona o encontro literário.

A gente não desconfiava do que estava fazendo. A gente estava ressignificando o bar.

A região do Jardim Guarujá também é o lugar onde o poeta cresceu e fica a mais ou menos 25 km do centro de São Paulo. É vizinha do Jardim Ângela, que em 1996 foi indicado pelas Nações Unidas como o local mais violento do planeta.

“A gente não desconfiava do que a gente estava fazendo, a gente estava ressignificando o bar. O bar sempre foi o nosso centro cultural, nós nunca demos bola pra ele. Porque é lá que ocorrem as reuniões para a comunidade de bairro, é pra lá que as pessoas vão depois do trabalho, onde se reúnem pra falar de futebol, de música, onde tem samba, onde tem forró. Faltava a gente ter humildade de reconhecer que aquele era o nosso espaço. Se é o bar que nós temos, então é o bar que nós vamos transformar.”

Por um bom tempo, o sarau foi realizado sempre às quartas-feiras, mas ficava tão lotado, com as pessoas tomando a calçada e o meio da rua, que foi preciso mudar o dia da semana.

“A gente não percebeu que outras pessoas, em outros lugares, estavam pensando como a gente. Faltava um lugar. A gente não sabia a força que estava já acumulada [nas pessoas]. A gente estava sentado em cima de urânio, faltava enriquecê-lo. Foi bem isso, a gente foi enriquecendo o urânio.”

A pobreza intelectual

O significado de ‘pobreza’, diz Vaz, uma palavra associada constantemente à periferia, não tem a ver com o carro na garagem nem com a conta no banco. E isso ele descobriu só na adolescência.

Se o centro tem, nós temos que ter também.

“Quando eu fui ao Bixiga pela primeira vez [bairro na região central de São Paulo], nos anos 1980, foi a primeira vez que eu tive noção da pobreza. Porque eu tive uma infância rica, apesar da simplicidade, de liberdade e de brincadeiras. Quando eu cheguei à [rua] Treze de Maio e vi aqueles bares, aquelas pessoas circulando, livraria, o cineclube do Bixiga, eu falei: ‘Caramba, bicho! Que coisa mais linda! Por que é que a gente não tem isso?’ Mas eu não fiquei com raiva, eu fiquei com inveja. ‘Se o centro tem, nós temos que ter também’, essa era a minha ideia.”

O segundo estalo veio alguns anos mais tarde, com o lançamento de seu primeiro livro, em 1988.

“Eu tinha noção dos problemas físicos, estruturais da periferia. Mas não sabia que a gente tinha esse problema intelectual. Essa distância do livro, esse desapego à palavra, à literatura, à poesia.”

É diferente

“É diferente porque nós ainda estamos conquistando, ainda estamos lutando por coisas para sermos considerados como gente. Nós sofremos racismo, sofremos preconceito, a gente está nas piadas, pela cor da pele, pela situação econômica. Não se reconhece o ser humano da periferia, e sim a periferia como um todo. Nós somos números [para o poder público], não seres humanos. (…) O que a gente precisa é que o Estado nos reconheça como brasileiros. Da mesma cidade, da mesma língua, da mesma pele, que paga o mesmo imposto.”

Participante do Sarau da Cooperifa se apresenta em bar na zona sul de São Paulo

Participante do Sarau da Cooperifa se apresenta em bar na zona sul de São Paulo

O estigma do fracasso: Como é sentida esta diferença entre o centro e a periferia?

“É difícil ser feliz sem sonhar. Eles roubam isso da gente, não é o dinheiro. Quando a gente fala de infraestrutura, você vai ter, mas não vai ter total. ‘Eu vou te dar educação, mas não vai ser aquela. Eu vou te dar lazer e cultura, mas nem fica sonhando em montar uma banda’. Acima de tudo, o que eles estão roubando do país é o sonho, de nação, de pátria. A periferia é quem sofre mais, mas todo mundo sofre, ainda que não saiba.”

O que ainda falta?

“O grande desafio é tirar das pessoas o fracasso que nos foi imposto. O meu nome não pode estar aliado ao sucesso, ao dinheiro, ao bem-estar. A gente precisa perder isso, e colocar no lugar um rótulo de vencedor. É por isso que é importante falar dos Racionais, do Emicida, do rap nacional, do funk, do samba. Essas pessoas são vencedoras. A gente não pode ter vergonha de vencer, como se tivesse roubado de alguém. Temos que ser inspiração.”

Uma das conquistas marcantes recentes, na opinião do escritor, é a parte pobre da população ter conseguido acesso a mais bens materiais. Mas, para ele, mais importante do que dar o poder de compra é fazer com que o cidadão periférico compreenda que pode ser alguém que vence. E Vaz acredita que não virá de fora da periferia o incentivo para evoluir.

A gente está fazendo filho, mas quer ter direito ao gozo. É isso que as pessoas não entendem.

“Um dos gritos mais fortes que a periferia deu foi com o nascimento do hip hop aqui no Brasil. Foi quando a periferia se assumiu: ‘eu posso, eu sou possível, sou negro, e daí? Sou da favela, e daí?’ Quem tem que ter vergonha é o governo, não somos nós. (…) Tudo que acontece neste país é feito por gente trabalhadora, da classe média, gente rica, nós fazemos parte disso também. Mas a gente também quer gozar, não só fazer filho. A gente está fazendo filho, mas a gente quer ter direito ao gozo. É isso que as pessoas não entendem. Parece que fecharam a panela e não entra mais ninguém.”

O pensamento crítico: O que mudou nesses 15 anos?

“Falando da Cooperifa, mudou um pouco a autoestima. Nós crescemos num lugar que era conhecido só pelo Gil Gomes [repórter policial do programa de TV ‘Aqui Agora’], pelo Afanásio Jazadji [jornalista policial e ex-deputado estadual], pelo [jornal] Notícias Populares. A referência que a gente tinha do nosso bairro era quando matava-se ou morria alguém. Agora é diferente: ‘eu moro onde tem o Sarau da Cooperifa, onde fazem o Cinema na Laje’. A referência mudou.”

Qual é o benefício da autoestima?

“É o pensamento crítico. Você começa a questionar por que é que você mora em um barraco de madeira e o cara mora na mansão. ‘Por que aquele cara foi fazer faculdade e eu não fui?’ (…) Nós estamos vivendo a nossa Primavera de Praga, é a nossa Nouvelle Vague. Só que a gente quer mostrar para os nossos vizinhos, pro cara do baile, pro cara da rua.”
Como fica o contraste entre cultura e violência?

“É uma palavra da moda, mas é o empoderamento: ‘estou vivo e quero fazer valer a minha existência, então vou brigar um pouco’. A cultura tem esse poder de fazer cobranças. A si e aos outros. O Raul Seixas fala: ‘falta cultura pra cuspir na estrutura’. A gente precisa ter cultura para cuspir na estrutura.”

O que foi mais difícil nesses 15 anos?

“O mais difícil foi conscientizar as pessoas do poder da palavra, do poder do livro. A importância da literatura, que a literatura não pode mais ser o pão do privilégio. Três anos atrás, nós fizemos uma campanha na comunidade, ‘Natal com livros’, distribuímos 12 mil livros. Mesmo de graça as pessoas não queriam o livro. O mais difícil é isso, é fazer com que a pessoa entenda que ela não é responsável por ser alienada, por aquela ignorância que ela está sentindo. E nada de pedir para Deus o que é obrigação dos políticos.”

Saga quixotesca de um recém-formado à procura de emprego na Pauliceia

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Eliane Trindade na Folha de S.Paulo

Ele desembarcou em São Paulo em 1º de agosto após 18 horas de viagem desde Foz do Iguaçu em um ônibus de sacoleiros. Trazia na bagagem o diploma em Letras pela Unila (Universidade Federal de Integração Latino Americana ) e os sonhos, definidos como “fumaça na penumbra, belos e efêmeros”.

Bruno Eliezer Melo Martins, 27, logo descobriu que sonhar na Pauliceia, para um rapaz “latino americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior” como ele, é tarefa quixotesca.

Tal qual Dom Quixote de la Mancha, do romance de 1605 de Miguel de Cervantes, o mineiro de Poços de Caldas tenta vencer seus moinhos de ventos, enquanto busca emprego como mediador cultural, tradutor (de espanhol e francês), revisor ou educador.

Nas entrevistas de emprego, ele usa o terno comprado no Paraguai com dinheiro emprestado por um amigo para fazer bonito na cerimônia de colação de grau em julho.

Um outro amigo descolou a casa na qual ficou alojado nos primeiros 20 dias em Sampa. A aclimatação à metrópole inóspita foi em meio aos livros da sortida biblioteca da família em viagem aos Estados Unidos.

“Creio que nesse período li uns 15 livros. Tenho uma meta de, copiando o exemplo de José Mindlin [bibliófilo], ler ao menos dois por semana”, diz o recém-formado bacharel, filho de um serralheiro e de uma dona de casa.

Leu tanto (de Samuel Beckett a Julio Cortázar, passando por José Lezama Lima, autor pelo qual se apaixonou na graduação), que “na solidão de uma casa de artista até pensei que poderia ser feliz ali.”

Com a volta dos donos, Bruno foi parar numa ocupação do Movimento dos Sem-Teto no centro de São Paulo. Pesadelo que durou dez dias.

“Não gosto nem de lembrar, fiquei doente, vi gente passando fome, tentei organizar qualquer coisa e não consegui diálogo, assembleias todos os dias, vi gente usando muita droga, pessoas enfermas e em estado degradante. Ainda é difícil falar de tudo que vi e vivi ali. Foi duro, triste.”

De lá saiu para um quartinho, com um beliche e uma cama, sobre a qual abriga seus livros, um guarda-roupa e uma pequena mesa. Aluga o cômodo no apartamento de uma senhora simpática, que o faz lembrar da dona de pensão do conto “As Formigas”, de Lygia Fagundes Telles.

É dali que pesquisa sobre possibilidades de empregos, envia currículos. “Não para poetas, mas qualquer vaga.” Ele conta que dia desses foi à avenida Paulista ler poemas de Manuel Bandeira: Estrela da Manhã, Pasárgada.

“Mas os pedintes pareciam receber mais moedas que eu. Percebi que recitar Bandeira e não ser escutado era um desrespeito com o próprio. Poesia não pede esmola, tampouco a literatura precisa disso.”

O recém-formado também desbrava a riqueza cultural de uma São Paulo cosmopolita e cara. “A cidade oferece muitas opções e dentro das minhas possibilidades tenho participado, algumas (a maioria, na verdade) são pagas, os cursos são caríssimos e nem todos oferecem bolsas ou descontos”, lamenta, mas se joga nas bibliotecas públicas e em cursos gratuitos que garimpa.

Sua preocupação maior, admite, é a absoluta falta de recursos financeiros. “Meu salário é o pouco do cheque especial que ainda tenho. A situação é de completa pindaíba, as contas chegam, sei que em breve conseguirei algo, mas penso quase com desespero neste momento.”

Em meio ao “ciclo vicioso dos desprovidos de recursos”, Bruno relata como é duro saber que sem um tostão não se pode nada. “Porém sigo como um Quixote inabalável em busca do literário, da paixão, da vida, dessa busca pela dignidade através do poema, da cultura, da beleza.”

“Não sou um sujeito revoltado, mas a minha intensidade da busca pela cultura é uma grande forma de protesto frente ao capital agressivo, ao imediato, à causa e ao efeito.”

A seguir, trechos das “Quixotadas Paulistanas”, o diário que o bacharel em letras, está escrevendo sobre suas vivências na Pauliceia, embrião do primeiro romance de um jovem sonhador.

“O que quero mesmo é escrever não sobre o que me passa, mas sobre a ficção prazerosa da própria vida. Não sei que será do futuro, como se dará minha vida. Às vezes, a única certeza é a incerteza. Mas nessa incerteza há também um prazer incontido de estar vivo e acreditar, por mais que digam o contrário, que o sonho é o caminho mais belo para a realidade.”

QUIXOTADAS PAULISTANAS

Prestes a completar dois meses em São Paulo e na antevéspera de seus 27 anos, nosso personagem vai a uma reunião que definiria seus rumos.

Na verdade, sua reunião era mais do que uma simples entrevista de emprego marcada pela recrutadora para cumprir sua meta diária de entrevistas, era a primeira vez em todo o período de sua estada em São Paulo que lhe convocavam para uma reunião/entrevista.

O dia de nosso personagem e candidato começou com uma parcimoniosa preparação com o requinte de um primeiro dia de trabalho, colocando aquele seu melhor terno e chamuscando a si com o restinho do perfume almiscarado, presente de tantos anos, de um amigo rico.

Nosso personagem tinha certeza de que a vaga seria sua, tinha confiança e pensava que seria um presente do céu que viria para sanar suas relações com cruéis credores e mercenários bancos.

Não viu problema em tomar um café numa boa cafeteria, comer dois croissants, pedir geleia de damasco e mais um expresso, para pagar, usou elegantemente seu cartão de crédito cujo limite foi atingido com aquela última compra.

Marcada para às 10h da manhã, lá vai o nosso candidato à vaga de professor em uma escola particular.

No prédio em que fica o escritório da agência de empregos, na rua Sete de Abril, é muito cordialmente recebido pelo porteiro que lhe indicou o sétimo andar na sala 107.

Por alguma razão, nosso candidato se sentiu oprimido por tantos setes e até se lembrou do sétimo pecado na lista dos dez melhores mandamentos, não roubarás, lembrou-se então de que não cometeria nenhum deslize e jamais mentiria em uma entrevista.

A sala 107 estava repleta de todas as pessoas, na recepção após pedirem-lhe a carteira de identidade, mandaram-no aguardar. Sentiu-se um pouco incomodado por ter um tratamento tão padrão, mas não deu muita importância a isso. Queria mesmo é falar de literatura e dos romances que já lera.

Possivelmente o candidato observou todas as outras pessoas e imaginou histórias, todos eles estavam como ele, desempregados e inservíveis, fora das engrenagens, nas margens da população economicamente ativa, sem dinheiro para pagar as contas mais básicas e comendo no crédito.

Nosso candidato pensou na dureza da vida e nos nãos que todos aqueles poderiam ouvir, mas para si, visualizava em sua primeira entrevista um glorioso sim e começaria a trabalhar como professor de literatura com um modesto salário, mas que seria o suficiente para vida digna, isto é, com as contas pagas.

Quando foi chamado, nosso candidato falou muitas coisas interessantes e que serviam para a vida, falou até de Dom Quixote resumindo a história para a entrevistadora que disse não conhecer, um cúmulo para o entrevistado.

Em resumo, disse a ela, Dom Quixote é a aventura de um leitor fascinado.

No final, a entrevistadora agradeceu muito a disponibilidade do candidato, mas não poderia dar prosseguimento ao processo seletivo, sem explicar o porquê, ela desejou-lhe boa sorte.

Nosso candidato não exigiu explicações, preferiu aceitar dignamente seu primeiro não e sair de cabeça bem erguida e também sorrindo para disfarçar que bem dentro de si ocorria uma tormenta que faziam os olhos marejar daquilo que chamam de decepção.

QUIXOTADAS NÚMERO 2

Nosso candidato, ao sair de seu primeiro e sonoro não, caminhou pelas ruas desconhecidas até uma casa de velas.

Velas e alfazema, mesmo sem ter o que comemorar não resistiu e comprou um robusto, se não para fumar, ao menos para guardar, marcando esse dia. Pagou o charuto com as moedas e as notinhas amassadas que ainda restavam em seus bolsos.

Sentiu as alfazemas como um perfume que lhe traria boas notícias, fechou os olhos e respirou profundamente o ar a loja de produtos esotéricos e saiu com o havano no bolso e ainda sem rumo.

É muito difícil saber o que realmente se passa com nosso candidato, um sujeito de tanto maravilhamento, mas também meio triste com a vida, com as coisas e com os sem rumos de seu itinerário.

Seus pés querem leva-lo em várias direções e por isso, parado espera para pensar para onde poderia ir. Vê uma banca de doces, se pudesse compraria um pé-de-moleque, já não há dinheiro.

Vê um viaduto, e do outro lado da calçada, um antiquário. Resolve caminhar até lá para conhecer um pouco das histórias de pessoas tão desconhecidas que um dia usaram aquelas quinquilharias.

O candidato viu um divã e ficou impressionado com seu formato, nada que fugisse as regras de um divã convencional, mas os pés eram dourados e era revestido por couro branco. Se possuísse um studio poderia comprar aquele divã e nele leria as obras completas de Freud e Lacan.

A dona do antiquário acompanhada de sua cadeira giratória observa todos os passos do candidato, muito provavelmente sabendo que não conseguirá dele nenhum tostão.

O candidato sai, continua sem rumo, mas, mesmo sem querer encontra um caminho conhecido, seus pés que o querem em todas as direções encaminha-o para o quarto alugado.

Sem pretensões entra no quarto, tira o calçado, deita e olha a luminária de duas lâmpadas, mas que só tem uma. Não sabemos que pensa o candidato. Mas é possível perceber que ele ainda sonha em trabalhar, talvez como poeta.

QUIXOTADA NÚMERO 3

De como passou o candidato uma manhã fria, sem ter onde ir.

É na brisa empoeirada da manhã que nosso candidato se debate em pensamentos de ternura para com seu primeiro emprego imaginário.

Sonha acordar cedo, preparar a valise com cadernos e canetas, tomar o café preparado por ele mesmo e sair para labutar os versos da vida.

Pensar na vida enquanto lavra as réstias de um equilibrado poema sobre a desventura de viver nesse tempo….

Nosso candidato caminha ainda com o comércio fechado, observando os pictogramas nas portas sem identificar qualquer coisa de compreensível…

Caminhava olhando atentamente o chão com a sujeira e os paralelepípedos semi soltos, fixava o olhar em bitucas de cigarro procurando identificar a marca, recolhia algum pedaço de papel para ler, pensando ser um trecho de algum poema.

Nosso preocupado candidato corria os olhos nas placas, nos stands, nos vendedores de bolos e cafés que se acumulam nas calçadas. Pensou que poderia fumar, mas não havia cigarros e se lembrou que havia deixado de fumar.

O sal do suor frio que lhe descia nas pestanas e a respiração ofegante de uma manhã de caminhos apressados para lugar algum conferiam ao nosso candidato o sono do desalento de suas aventuras.

Não poderia ser diferente, a busca por emprego era um segredo só seu e permitir que os outros soubessem de sua falta de ocupação corresponderia a reconhecer o fracasso de tantos anos.

Por isso, nosso candidato mantém uma série atividades como sair apressado pela segunda-feira e procurar em todos os lugares, inclusive embaixo das pedras e nos bancos indicativas de empregos quaisquer.

Nesse momento o candidato pensou até na vaga de pedinte, porém, sabemos que nosso candidato tem muito orgulho e, caso recebesse essa oferta, recusaria tal vaga.

O varredor, que varria a rua pela qual passava o candidato, sorria cantando uma trova muito alegre, mas o cantante não fez mais que aumentar a tristeza de nosso candidato.

Nesse meio tempo já se passara mais da metade da manhã e muito cansado o candidato resolveu se sentar próximo a uma praça. Sem querer adormeceu e não teve nenhum sonho. Mas foi acordado por um carinhoso vendedor de amendoim.

UM PEQUENO ROMANCE

Conheci o autor das “Quixotadas” por indicação de um amigo comum, que vive na Espanha, e pediu que o recebesse para uma conversa, na qual sugeri que Bruno escrevesse crônicas sobre as tantas histórias relatadas no almoço.

Dois dias depois, ele me enviava os primeiros textos, transcritos em parte acima. Neste domingo, o recém-formado candidato ao primeiro emprego enviou também o primeiro capítulo do que chama de “romanceto”.

“Estou escrevendo um livro novo, minha amiga desconhecida. O título provisório é ‘São Paulo, me Abrace’. Estou me sentindo afogado pela fumaça desse elegante tabaco que me consome a vida. Estou me sentindo perdido e imóvel, estou vendo minha vida passar nas gretas do vazio.”

Livraria Leonardo Da Vinci reabre nesta quinta-feira totalmente reformada

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Daniel Louzada, à frente da livraria desde fevereiro, comandou a enorme reforma na tentativa de tornar o negócio sustentável e agora procura sócio para segunda loja - Fabio Rossi

Daniel Louzada, à frente da livraria desde fevereiro, comandou a enorme reforma na tentativa de tornar o negócio sustentável e agora procura sócio para segunda loja – Fabio Rossi

 

Livraria mantém aposta em acervo e recebe bate-papo com o poeta Antonio Cícero

Leonardo Cazes, em O Globo

RIO – Nos quatro meses de reforma da Livraria Leonardo Da Vinci, a pergunta que o novo dono, Daniel Louzada, mais ouviu foi: “mas a Da Vinci não acabou?”. Não, a livraria não só não acabou como reabre hoje totalmente remodelada e recebendo um bate-papo com o poeta Antonio Cicero. Os frequentadores mais saudosos da loja no subsolo do edifício Marquês do Herval, na Avenida Rio Branco, poderão até sentir falta do ambiente labiríntico de outrora. As paredes foram derrubadas para dar amplitude ao espaço, acomodar melhor os livros e o novo café. Contudo, o amplo acervo de obras de artes e ciências humanas continua lá, agora reforçado por uma seção de literatura. A icônica mesa de Dona Vanna Piraccini, a antiga dona, foi restaurada e coberta de livros.

Louzada conta que seu plano inicial era fazer uma intervenção mais modesta, mas, para o negócio ser sustentável, achou necessária uma grande transformação. O maior investimento foi feito no mobiliário. As mesas agora são móveis e podem ser rearrumadas a depender do evento.

— A Da Vinci era uma livraria que tinha torcida, mas não cliente comprando — diz o livreiro, que por 15 anos trabalhou na Saraiva. — A preocupação foi compreender o lugar da Da Vinci. E o nosso lugar é a alternativa. Não temos como competir com as grandes redes nos best-sellers, mas vamos ter a melhor seleção dentro da nossa proposta.

Apesar de não poder competir com as gigantes nos descontos, os best-sellers estarão à venda, explica Louzada. Só não estarão em destaque. Na estante de literatura estrangeira, por exemplo, é possível encontrar uma farta seleção de Bernard Cornwell e John Grisham e, na de religião, Padre Marcelo Rossi. Já na área de literatura brasileira, há todas as obras de Clarice Lispector.

Encontros e clube de leitura

Logo na entrada, ao lado de uma máquina de escrever, foi criado o espaço “O escritor indica”. Na estreia, o jornalista Mário Magalhães, autor de “Marighella”, escolheu algumas de suas biografias favoritas, como “Padre Cícero”, de Lira Neto. O acervo de ciências humanas, carro-chefe da casa, impressiona: são 1,2 mil títulos de ciências sociais e 700 de filosofia.

Nas paredes estão a inspiração do livreiro: Ênio Silveira, fundador da Civilização Brasileira, e a própria Vanna Piraccini. Uma das séries de encontros previstos, inclusive, será “Reencontros com a Civilização Brasileira”. O primeiro convidado será o historiador Jorge Ferreira. Já a série que marca a reinauguração é a “Papo de quinta”, quando escritores e críticos vão conversar com o jornalista Miguel Conde. A Da Vinci também vai ganhar um clube de leitura e atividades para crianças aos sábados.

Apesar das dificuldades, Louzada demonstra confiança na proposta e afirma que procura um sócio para abrir uma segunda loja:

— Eu acredito na missão civilizadora da livraria. Esse é o papel da Da Vinci. Por isso ela continua aberta, completando 64 anos neste mês.

“PAPO DE QUINTA COM ANTONIO CICERO”

Onde: Livraria Leonardo Da Vinci — Av. Rio Branco, 185, Centro, subsolo (2533-2237)

Quando: Nesta quinta-feira, às 18h.

Quanto: Grátis.

Jovem reutiliza filtros para compor poesia e ‘serve’ com cafezinho em MG

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Poeta usa filtros de café usados para compor poemas em parque de São Lourenço (Foto: Reprodução EPTV)

Poeta usa filtros de café usados para compor poemas em parque de São Lourenço (Foto: Reprodução EPTV)

 

Poeta fica em parque com máquina escrevendo versos em filtros de café.
Apreciadores podem tomar café e comprar livro do autor de São Lourenço.

Publicado no G1

Filtros de café usados, uma máquina de escrever e muita imaginação. É assim que Carlos Alberto La Terza Júnior, de São Lourenço (MG), compõe poesias. O artista passa os dias escrevendo nos filtros e com o mesmo material, ele fez seu primeiro livro. Durante o período de férias escolares, ele exibiu o trabalho no Parque das Águas, e atraiu curiosos e admiradores.

É ao ar livre que as palavras tomam sentido na cabeça do poeta. “Eu transformo as ideias em poesias, as poesias em livros e tento fazer a diferença”, tenta resumir La Terza Júnior sobre seu método de composição.

O barulho da máquina, ali no meio do Parque das Águas, atrai curiosos. E não é só isso, a poesia é servida para os apreciadores regada a café quentinho. Não demora muito para surgir em volta do poeta uma roda de bate-papo.

“Ótimo, estava doida pra tomar um café, passei aqui já tomei”, brinca a dona de casa Luci Ferreira Villela. “Com poesia é melhor ainda.”

O poeta completa. “A poesia, ela cria laços. A poesia só existe se for de um para o outro, ela nunca é de um só. Pra existir o poeta, tem que existir o leitor, e nesse processo se faz muitas amizades.”

Primeiro livro foi todo confeccionado com filtros de café usados (Foto: Reprodução EPTV)

Primeiro livro foi todo confeccionado com filtros de café usados (Foto: Reprodução EPTV)

Livro sustentável
Há quase dois meses La Terza Júnior percorre cidades do Sul de Minas para espalhar poesia com sua máquina de escrever. Foi assim que nasceu o primeiro livro, “Leite de Pedra”.

“Você ‘tirar leite de pedra’, realizar um trabalho difícil, algo impossível, ou que se diz impossível, mas também tem a ver com a água, por eu ter nascido em São Lourenço, que é a ‘cidade das águas’. A água é o leite da pedra ‘né'”, completa.

O livro ainda veio com aroma de café. As páginas foram feitas de filtro de café, desses mesmo que a gente usa pra coar a bebida. A ideia de reaproveitar o material surgiu quando ele lavava louça em casa e viu naqueles papeis uma nova função.

A consultora Juliana Badin mora nos Estados Unidos. Passando pelo local, o poeta e seus filtros chamaram a atenção dela, já que nunca tinha visto nada parecido. “É uma ideia boa, que lá não existe, dá pra levar pra fora sim”, comenta.

Curiosos tomam cafezinho enquanto poeta compõe em filtros (Foto: Reprodução EPTV)

Curiosos tomam cafezinho enquanto poeta compõe em filtros (Foto: Reprodução EPTV)

Pra finalizar, o poeta deixa sua poesia. “Escutei uma música inédita, composta por 3 passarinhos, uma fresta de água correndo, e o barulho do vento baixinho.”

Como um livro entregue na solitária transformou preso em aluno de uma das principais universidades dos EUA

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Reginald Dwayne Betts foi preso aos 16 anos por roubo à mão armada - arquivo pessoal

Reginald Dwayne Betts foi preso aos 16 anos por roubo à mão armada – arquivo pessoal

 

O americano Reginald Dawyne Betts era um garoto estudioso que nunca havia tido problemas com a Justiça – até cometer um “erro terrível” em dezembro de 1996, aos 16 anos.

Publicado na BBC Brasil

Um homem estava dormindo em seu carro no estacionamento do shopping de Springfield. Eu e um amigo o roubamos à mão armada e levamos seu carro”, conta ele.

“No dia seguinte, voltamos ao shopping para fazer compras e levantamos suspeitas por termos usado o cartão de crédito de outra pessoa. Saímos correndo, mas a polícia nos pegou.”

Betts foi preso e enviado a um reformatório juvenil. Três meses depois, foi julgado como adulto.

O juiz do caso chegou a dizer, antes de dar a sentença, que não tinha ilusões de que a prisão ajudaria Betts.

“Naquele momento pensei que ele me deixaria ir para casa, mas em seguida ele disse que eu poderia tirar algo bom dessa experiência, se assim o quisesse.”

Betts acabou provando que o juiz tinha razão. Hoje, aos 35 anos, acaba de se formar em Direito pela Universidade Yale, uma das instituições de maior prestígio dos Estados Unidos, é um poeta de sucesso. Ele diz que a virada em sua vida veio quando estava atrás das grades.
‘Milagre’

Condenado a nove anos de prisão, ele diz ter sido mandado várias vezes para a solitária por infrações como xingar um guarda ou se recusar a ser trancado em sua cela.

Uma dessas ocasiões provocou uma mudança radical em sua vida. “Algumas vezes acontecem coisas que parecem um milagre, e essa é uma delas.”

Ele conta que, em geral, livros eram vetados na solitária. Mas a regra não valia para detentos mantidos nesse regime para sua própria proteção.

“Você podia gritar para que alguém te mandasse um livro, e um completo estranho te enviava o que ele tinha”, afirma Betts.

Em uma dessas ocasiões, uma antologia de poemas escritos por negros, intitulada “Poetas Negros”, chegou às mãos do jovem detento. “Aquilo mudou minha vida.”
‘Valor à escrita’

Ler o poeta Etheridge Knight enquanto estava preso ensinou a Betts o 'valor da palavra escrita'

Ler o poeta Etheridge Knight enquanto estava preso ensinou a Betts o ‘valor da palavra escrita’

 

Um dos poetas que Betts leu foi Etheridge Knight (1931-1991), que escreveu sobre o período em que passou preso. “Ele não ficou culpando os outros, mas descreveu seus próprios problemas, experiências e vícios. Ele me fez dar valor à palavra escrita”, diz Betts.

“Knight, em especial, foi um sujeito que virou poeta na prisão e fez sucesso com seus textos após ser libertado. Ler ele e outros poetas me fez decidir ser também um poeta.”

Betts diz que isso o ajudou a aguentar o tempo que passou na prisão e, após sua libertação em 2005, o levou para um caminho completamente diferente.

Cinco anos depois, ele estava casado, tinha dois filhos e um emprego, estudava Literatura na faculdade e havia publicado livros antes de completar 30 anos.

Ele é o autor de “Uma Questão de Liberdade: Memórias de Aprendizado, Sobrevivência e Amadurecimento na prisão” e das coleções de poemas “Shahid Lê a Palma da Própria Mão” e “Bastardos da Era Reagan”.
Interesse pelo Direito

O período na prisão também despertou nele o interesse pelo Direito, mas ser advogado não era exatamente um objetivo de vida.

Mas Betts passou a vislumbrar essa possibilidade quando escrevia um dos seus livros de poesia na biblioteca da escola de Direito de Harvard.

“Quando estava na prisão, havia feito um curso básico de Direito, escrevi uma petição de habeas corpus por conta própria, trabalhei na biblioteca de livros jurídicos. Ao voltar para casa, participei a atuar como ativista. Meu mundo já estava dividido entre Direito e Literatura.”

Ele se inscreveu para faculdades de Direito e foi aceito em várias, entre elas quatro das universidades do grupo de elite dos Estados Unidos, a Ivy League, do qual Yale faz parte.

“Eu havia estado preso, e todos sabiam disso. Mas, quando me formei, fui escolhido para carregar a bandeira e liderar minha classe na entrada da cerimônia. Isso foi muito legal.”
Inspiração

Betts não esconde seu passado dos filhos. Recentemente, convidado a dar uma palestra na escola do filho mais velho, fez uma consulta a ele.

“Perguntei o que deveria falar, e ele sugeriu que falasse de mim. Respondi que, se citasse meus livros, teria que abordar meu período na prisão. Ele disse que deveria fazer aquilo, pois poderia ser inspirador para alguém”, diz Betts.

“Então, é meu filho quem me inspira hoje. Porque é fácil sentir vergonha de alguém que foi preso, mas ele sabe que alguém pode ter sua redenção: ir para a prisão e tornar-se uma pessoa diferente. Ele sabe quem sou hoje e que não deveria esconder os meus erros.”

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