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‘Maior poeta da história do Brasil’ ganha nova tradução para o inglês

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Tradução para “Quadrilha'', de Carlos Drummond de Andrade, no “New York Times''

Tradução para “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade, no “New York Times”

Publicado no Brasilianismo

O Brasil é “um país onde os poetas são levados a sério”, diz um texto publicado no “New York Times” para apresentar de forma muito elogiosa uma nova tradução para o inglês de textos de Carlos Drummond de Andrade, “amplamente considerado o maior poeta da história do Brasil”, segundo o jornal.

Crítica a livro com tradução de poesia de Drummond, no “New York Times''

Crítica a livro com tradução de poesia de Drummond, no “New York Times”

“Multitudinous Heart” (multitudinário coração) foi traduzido por Richard Zenith e reúne quase 400 páginas de versos do poeta brasileiro.

“Conhecemos um poeta sofisticado e cerebral (…) que se alterna entre melancolia e ironia, sentimental e auto-depreciativo, remoto e juvenil”, diz o jornal norte-americano.

A crítica publicada no “New York Times traz ainda trechos de algumas das mais famosas poesias de Drummond traduzidas (como os versos de “Quadrilha”, que vira “Square Dance” e que aparece no topo deste post).

Os 10 melhores poemas de Vinicius de Moraes

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Carlos Willian leite, na Revista Bula

 

Pedimos aos leitores, colaboradores, seguidores do Twitter e Facebook — escritores, jornalistas, publicitários, professores — que apontassem os poemas mais significativos de Vinicius de Moraes. Considerado um dos mais importantes nomes da poesia e da música nacionais, Vinicius de Moraes deixou uma obra vasta, passando pela literatura, teatro, cinema e música. No gênero musical, Vinicius teve como principais parceiros um seletíssimo grupo, que incluía entre outros, Tom Jobim, Toquinho, Baden Powell, João Gilberto, Chico Buarque e Carlos Lyra.

Do encontro entre Vinicius e Jobim nasceu uma das mais fecundas parcerias da história da música mundial, marcada por clássicos como “Se Todos Fossem Iguais a Você”, “A Felicidade”, “Chega de Saudade”, “Eu Sei que Vou te Amar”, “Garota de Ipanema” e “Insensatez”.

Na literatura e no teatro Vinicius de Moraes deixou obras-primas, com destaque para a peça teatral “Orfeu da Conceição”, escrita em 1954, baseada no drama da mitologia grega Orfeu e Eurídice. A peça foi transformada no filme “Orfeu Negro”, em 1959, pelo diretor francês Marcel Camus, alcançando repercussão mundial e conquistando a Palma de Ouro no Festival Cannes e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Na literatura, foram mais de 10 livros, com destaque para “Forma e Exegese”, “Cinco Elegias” e “Poemas, Sonetos e Baladas”, também conhecido como “O Encontro do Cotidiano”, publicado em 1946, que traz o poema “Soneto de Fidelidade”, que posteriormente seria declamado junto com a música “Eu Sei que Vou Te Amar”.

Sobre o poeta Vinicius de Moraes escreveu Carlos Drummond de Andrade: “Vinicius é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural. Eu queria ter sido Vinicius de Moraes”.

Vinicius de Moraes nasceu no Rio de Janeiro em 19 de outubro de 1913, e morreu na madrugada de 9 de julho de 1980, aos 67 anos, devido a problemas decorrentes de uma isquemia cerebral.

Os poemas selecionados foram publicados nos livros “Cinco Elegias”, “Poemas, Sonetos e Baladas”, “Novos Poemas”, “Novos Poemas (II)” “Pátria Minha”, Livro de Sonetos” e “Antologia Poética”.

Soneto de Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Pátria Minha

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu…

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda…
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão…
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes.”

Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Soneto de Contrição

Eu te amo, Maria, eu te amo tanto
Que o meu peito me dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma teu encanto.

Como a criança que vagueia o canto
Ante o mistério da amplidão suspensa
Meu coração é um vago de acalanto
Berçando versos de saudade imensa.

Não é maior o coração (mais…)

Organiza o Natal, por Carlos Drummond de Andrade

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Texto extraído do livro “Cadeira de Balanço”

Publicado no Correio do Estado

Carlos Drummond de Andrade, poeta brasileiro (Foto: Reprodução)

Carlos Drummond de Andrade, poeta brasileiro
(Foto: Reprodução)

Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom. Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas.

Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro. A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz. O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível. A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã. O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive. E será Natal para sempre.

Exposição mostra correspondência entre Carlos Drummond de Andrade e sua mãe

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Cartas do escritor para Julieta começam a ser exibidos nesta terça-feira, em BH. Os documentos serão mostrados ao público pela primeira vez

Carolina Braga, no Divirta-se
cartas de Carlos Drummond para sua mãeComo um garimpeiro, Marconi Drummond anda à caça de tudo que possa preservar a memória do primo ilustre, o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Depois de encontrar em Lavras, Sul de Minas, importante lote de cartas escritas pelo poeta, muitas delas endereçadas à mãe, Julieta, chegou a hora de o público ter contato com esse rico acervo, acrescido de novas descobertas. Será a oportunidade de conhecer as respostas dadas às cartas encaminhadas pelo poeta à mãe. Uma intimidade inédita que estará aberta à população a partir de terça-feira, na exposição QuasePoema – Cartas e outras escrituras drummondianas.

Há cerca de um mês, Marconi Drummond e Fabíola Moulin, responsáveis pela curadoria da mostra, começaram a organizá-la. Por uma curiosidade – ou instinto investigador –, eles foram para o Rio de Janeiro consultar dois acervos. A primeira parada foi na Fundação Casa Rui Barbosa, que, mesmo com inventário muito organizado, não foi produtiva. Já na segunda tentativa, no Instituto Moreira Salles, Marconi se deparou com um tesouro.

“Conseguimos casar algumas cartas do filho com algumas da mãe. Respostas a perguntas e até comentários sobre mensagens anteriores. É uma grande rede de correspondência afetiva entre mãe e filho”, diz. Será a primeira vez que 88 documentos e cartas escritas por Drummond serão apresentados ao público. Ao acervo do Memorial Carlos Drummond de Andrade se somam as 28 cartas assinadas por dona Julieta Augusta Drummond.

Será um encontro da afetiva poesia postal entre mãe e filho. Uma instalação vai projetar as cartas em mesas antigas. Os escritos em papel também estarão no local, assim como fotografias e outros documentos familiares. Na sala também haverá a exibição do documentário Consideração do poema, com Caetano Veloso, Fernanda Torres, Gregório Duvivier, Drica Moraes, Laerte, Chico Buarque e Marília Pêra, entre outros, recitando trechos da obra do poeta.

Carlos Drummond de Andrade saiu de Belo Horizonte em 1934 para trabalhar no Rio de Janeiro. Vinha com certa frequência visitar a família, mas a comunicação se dava sobretudo por via postal. Pelas cartas, o tom carinhoso era recíproco. “Minha boa mãe” era como ele iniciava a mensagem, por vezes assinada como Carlitos. Ela, por sua vez, respondia “Meu bom Carlos” e frequentemente terminava com “a bênção da tua mãe muito amiga de coração, Julieta”.

Como Marconi Drummond observa, mãe e filho quase nunca fazem referência a questões literárias. “Ele também não compartilha com ela sua vida emocional e de funcionário público”, conta. O que comentam tem mais a ver com as rotinas da vida em Itabira e no Rio de Janeiro, as mudanças trazidas pela guerra e assuntos de natureza prática.

Em uma das cartas, Julieta Drummond fala do início da atividade mineiradora em Itabira. “Ela escreve para o filho dizendo que a cidade estava vivendo um clima progressista e ela estava feliz com isso, mas atenta e receosa pela desconfiguração do cenário da infância dele”, comenta o curador. “É um Drummond visto por uma ótica absolutamente inédita. É um filho afetuoso na sua mais absoluta intimidade.”

Coleção preciosa

As cartas adquiridas pela Fundação Carlos Drummond de Andrade foram compradas em outubro do ano passado do jornalista e empresário Eduardo Cicarelli, de Lavras, que guardou os documentos durante 20 anos. Ele é colecionador de selos e foi graças ao hábito de comprar exemplares antigos que descobriu o acervo de cartas da família Drummond. O lote de documentos pertencia a Ita, a cunhada de Drummond, que, por sua vez, herdou as cartas da sogra, Julieta Augusta, mãe do poeta.

O lote tem 212 itens, entre cartas, fotografias, bilhetes, postais e telegramas. Estão datados entre 1915 e 1986. Quando chegou a Itabira, o material foi higienizado, separado em plásticos adequados e guardado em caixas. Segundo Marconi Drummond, por enquanto não há previsão de itinerância da mostra QuasePoema – Cartas e outras escrituras drummondianas. “Acho que deveria, pelo ineditismo desse encontro. Nem eles mesmos viram essas cartas juntas. É muito bonito promover essa aproximação poética entre mãe e filho”, conclui o curador.

QUASEPOEMA – CARTAS E OUTRAS ESCRITURAS DRUMMONDIANAS
Do dia 18 deste mês a 18 de janeiro de 2015. Casa Fiat de Cultura, Praça da Liberdade, 10, Funcionários, (31) 3289-8900. Terça a sexta-feira, das 10h às 21h; sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h. Entrada franca.

Manoel de Barros corrigiu 300 livros a mão, após achar erros, diz amigo

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Essa e outras passagens revelam traços da personalidade do escritor.
Manoel de Barros morreu nesta quinta-feira, em Campo Grande.

Trecho de livro de Manoel de Barros que foi corrigido por ele, após descobrir os erros de digitação (Foto: Anderson Viegas/Do Agrodebate)

Trecho de livro de Manoel de Barros que foi corrigido por ele, após descobrir os erros de digitação
(Foto: Anderson Viegas/Do Agrodebate)

Anderson Viegas, no G1

Com mais de 32 anos de amizade com o poeta Manoel de Barros, que morreu na manhã desta quinta-feira (13), em Campo Grande, o técnico agrícola e jornalista, Pedro Spíndola, guarda com carinho algumas passagens reveladas pelo próprio amigo e outras vivenciadas por ele no período de convivência que revelam traços marcantes da personalidade do escritor.

A amizade resultou na publicação em 2006 do livro “Celebração das Coisas” que faz um “apanhado” sobre a figura de Manoel de Barros.

Em entrevista do G1, Spíndola contou algumas dessas histórias. “O Manoel era muito tímido. Com os amigos e a família era alegre e brincalhão, mas com os outros era muito tímido. Ele me disse que logo depois de se formar em Direito, no Rio de Janeiro, foi trabalhar em um sindicato, se não me engano dos portuários. A entidade estava fazendo uma mobilização e mandaram que ele fosse dar uma entrevista na rádio. Na hora, em que ele foi entrar no ar, acabou vomitando no microfone, de nervoso e foi embora, sem dar a entrevista”, conta.

O jornalista diz que outra passagem que reforça o lado tímido de Manoel de Barros foi quando ele foi procurar o também xará, Manoel Bandeira, no Rio de Janeiro. “Ele era fã do Manoel Bandeira e naquele tempo os prédios não tinham como hoje, portaria, então as pessoas entravam direto. Ele foi até onde o Bandeira morava, subiu até o andar do apartamento dele, bateu na porta e não conseguiu esperar, virou as costas e foi embora”.

Essa timidez, conforme o amigo, fez com que o poeta não gostasse de dar entrevistas. “Ele tinha uma imensa preocupação de ser pego de surpresa, por isso, até uns 20 anos atrás ele falava que quem quisesse conhecê-lo deveria ler seus livros. Mas quando tinha de dar entrevistas, ele gostava de fazer por escrito, porque ai ele tinha tempo de pensar na pergunta e elaborar as respostas. Ele tem coisas maravilhosas ditas nessas entrevistas que respondia por escrito”, recorda.

Outra passagem da convivência com o amigo recordada por Spíndola é a que envolve o “Livro das Ignorãças”, de 1993. “O bibliófilo José Mindlin veio junto com a filha para Mato Grosso do Sul especialmente para conhecer o Manoel. Dessa passagem e com poemas escolhidos pelos dois nasceu o livro, que teve apenas 300 exemplares impressos. Um dia, o Mindlin mandou todos os exemplares para que o Manoel numerasse e assinasse cada um deles, mas acontece que ele achou nos livros dois erros nos seus poemas. A moça que digitou trocou duas palavras e aí ele não hesitou, rabiscou a caneta as palavras erradas e corrigiu escrevendo em cima”.

Um dos erros foi no poema “Uma Didática da Invenção”, onde logo na primeira linha a digitadora trocou a palavra “mundo” do original de Manoel de Barros, por “corpo”. A frase publicada no livro foi: “Para apalpar as intimidades do corpo é preciso saber:”, enquanto que a correta, com a correção do autor era: “Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:”.

O amigo se emociona ao recordar as passagens com o poeta e lembra da luta que trava para preservar a história de Manoel de Barros. Ele mostra, inclusive, uma pasta com diversos projetos sobre o poeta e sua obra que nunca conseguiu viabilizar.

Pedro Spíndola mostra pasta com projetos sobre Manoel de Barros que, por falta de apoio, não saíram do papel (Foto: Anderson Viegas/G1 MS)

Pedro Spíndola mostra pasta com projetos sobre Manoel de Barros que, por falta de apoio, não saíram do papel (Foto: Anderson Viegas/G1 MS)

Entre as iniciativas estão desde um encontro nacional sobre o trabalho de Manoel de Barros, passando por livros, como um de fotografias, em que profissionais tentariam retratar com imagens as poesias de Manoel, até um jornal sobre a obra dele, que chegou a ter das edições. “Falta apoio. Tentei viabilizar todos esses projetos [mostra a pasta] mas não consegui”, lamentou.

Com a morte de Manoel de Barros, Spíndola diz que o Brasil e o mundo perdem um poeta único. “Não tem o que falar da obra dele. Não tem como discuti-la. Não tem nada parecido e nenhum parâmetro para discuti-la”, concluiu.

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