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Morre o poeta Manoel de Barros, aos 97 anos

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Recluso, autor criou linguagem própria, transformando a natureza em matéria-prima para versos

O poeta Manoel de Barros aos 93 anos - Divulgação

O poeta Manoel de Barros aos 93 anos – Divulgação

Publicado em O Globo

RIO — O escritor cuiabano Manoel de Barros morreu nesta quinta-feira, aos 97 anos. Ele foi internado no dia 24 de outubro no Proncor, em Campo Grande (MS), para uma cirurgia de desobstrução do intestino. A causa da morte ainda não foi divulgada. O escritor completaria 98 anos em 19 de dezembro.

Em agosto de 2013, quando perdeu seu segundo filho, o primogênito Pedro, vítima de um AVC (cinco anos depois de João, que morreu num acidente de avião), Manoel de Barros desabou. A filha Martha afirmou, então, que depois da perda, e por causa da idade, “ele estava se apagando como uma velinha”. Uma imagem poética que faz jus a um personagem cuja dedicação aos versos teve o afinco e a simplicidade de quem vê o mundo pela lente da beleza.

Nos últimos anos, por conta da saúde debilitada, praticamente não saía de casa, em Campo Grande, sob os cuidados da filha e da mulher, Stella, com quem estava casado desde 1947. No ano passado, antes de completar 97 anos, ainda escreveu o poema “A turma”, e então se recolheu no silêncio. Não conseguia mais escrever e se alimentava com dificuldade. Mas isso não significava que as edições de seus livros estivessem no limbo. Suas obras continuam despertando a atenção dos leitores-admiradores. Em fevereiro, a editora Leya lançou uma caixa com sua poesia completa, composta de 18 livros (incluindo o poema inédito). No final de outubro, o selo Alfaguara (Objetiva) anunciou a contratação da obra do poeta, que começará a ser reeditada no segundo semestre de 2015. Além disso, dezenas de cartas que o escritor trocou com figuras como o bibliófilo José Mindlin, o embaixador Mário Calábria e o editor Ênio Silveira foram levantadas por pesquisadoras e, podem, no futuro, serem reunidas em livro.

Nascido em Cuiabá em 1916, Manoel era filho do capataz João Venceslau Barros. Viveu por muitos anos em Corumbá (MS), antes de se mudar para a capital sul-mato-grossense. Ainda criança, passava longas temporadas na fazenda do pai, no Pantanal, onde desenvolveu o olhar para os movimentos da natureza. Engana-se, porém, quem o vê como um “poeta do Pantanal”, rótulo que ele sempre recusou. “A poesia mexe com palavras e não com paisagens”, justificava.

VISIONÁRIO DA HUMILDADE

Manoel foi aluno interno em escolas em Campo Grande e depois no Rio de Janeiro. Quando cursava o internato São José, na Tijuca, descobriu os sermões do padre Antonio Vieira, com quem aprendeu “a beleza de uma sintaxe”. Jovem estudante de Direito na então capital federal, acabou se envolvendo com figuras comunistas da cena carioca. Mas, depois de romper com o Partido Comunista ao saber que Luis Carlos Prestes deu seu apoio à Getúlio Vargas, desiludiu-se com a política e resolveu viajar. Passou por Bolívia e Peru (“vivendo como um hippie”, dizia), antes de chegar a Nova York. Na cidade americana, viu “as novidades do mundo” e fez cursos de cinema e artes plásticas. Na volta ao Brasil, conheceu a mineira Stella no Rio de Janeiro e três meses depois já estava casado.

Mesmo sendo considerado um dos maiores autores brasileiros, comparado frequentemente a Guimarães Rosa e ao português Fernando Pessoa, sua reclusão por tantas décadas em terras pantaneiras e a timidez acabaram dificultando a divulgação de sua obra. Nos anos 1980, admiradores famosos de seus versos, como Millôr Fernandes e Antônio Houaiss, começaram a divulgar poemas de Manoel de Barros, ou a citá-lo em colunas de jornais.

O filólogo, que admirava o poeta desde o seu primeiro livro, via nele um “visionário da humildade e solidariedade humanas”. Já Carlos Drummond de Andrade chegou a declarar que o cuiabano era o “maior poeta brasileiro” vivo. O sucesso do filme “Caramujo-flor” (1989), do cineasta sul-matogrossense Joel Pizzini, ensaio visual baseado na vida e na obra de Manoel, também responsável pelo reconhecimento tardio.

Com tantos elogios, Manoel começou a chamar atenção das editoras e do público. Ganhou dois prêmios Jabutis (por “O guardador de águas”, em 1989, e “O fazedor do amanhecer”, em 2002) e teve livros publicados em Portugal, França, Espanha e Estados Unidos. Em 1998, recebeu o Prêmio Nacional de Literatura do Ministério da Cultura, pelo conjunto do seu trabalho. Sua obra mais conhecida é “O livro sobre o nada”, lançada em 1996, no qual aperfeiçoou o seu autodeclarado “idioleto manoelês archaico” — uma linguagem própria criada para transmitir o desregramento dos sentidos. O autor, contudo, considerava seu primeiro livro, “Poesias concebidas sem pecado”, de 1937, o melhor.

Em 1998, o autor explicou seu processo de escrita em entrevista ao GLOBO:

— Eu estou trabalhando com a palavra e aí me vem uma ideia. E por isso não acredito em inspiração, acredito em trabalho.Mas sei também que transformar palavra em verso, combinar o ritmo com a ressonância verbal, é um dom linguístico. Tenho frases poéticas que são versos. Sei fazer frases.

POPULAR, MAS POUCO AVALIADO

Embora tenha sido por várias vezes o poeta que mais vendeu livros no Brasil, Manoel chegou a comentar que gostaria de também ter sido mais avaliado pelos grandes críticos literários do país, relatou a pesquisadora e professora de Letras da UFMG Lúcia Castello Branco em entrevista ao caderno Prosa, em fevereiro deste ano. O escritor é objeto frequente da academia, por meio da realização de dissertações e teses, mas, na opinião dela, a crítica deixa a desejar. Em uma reportagem do “Jornal do Brasil” de 1988, na qual era descrito como “o poeta que poucos conhecem”, Manoel explicou os motivos do seu isolamento: “Não tenho boa convivência com a glória. Acho que ela me perturbaria. Preciso muito do escuro”.

No documentário “Só dez por cento é mentira”, lançado em 2008 por Pedro Cezar, ao ser indagado sobre como gostaria de ser lembrado, Manoel ri, coça o peito, diz que a pergunta é cruel; já mais sério, fala que o único jeito é pela poesia. “A gente nasce, cresce, amadurece, envelhece, morre. Pra não morrer, tem que amarrar o tempo no poste. Eis a ciência da poesia: amarrar o tempo no poste”.

Internado em Campo Grande, Manoel de Barros tem quadro estável e está consciente

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Aos 97 anos, poeta passou por cirurgia no intestino e está em uma unidade de terapia intensiva

Manoel de Barros tem sofrido com problemas de saúde - Pedro Cesar / Divulgação Read more: http://oglobo.globo.com/cultura/livros/internado-em-campo-grande-manoel-de-barros-tem-quadro-estavel-esta-consciente-14533348#ixzz3Ir5ynR4O

Manoel de Barros tem sofrido com problemas de saúde – Pedro Cesar / Divulgação

Publicado em O Globo

RIO — Há mais de uma semana internado em uma unidade de tratamento intensivo de um hospital em Campo Grande (MS), o poeta Manoel de Barros tem quadro estável. Aos 97 anos, ele passou por uma cirurgia de desobstrução do intestino. Nesta quarta, o último boletim médico disponível afirma que ele está “consciente, orientado e mantendo sinais vitais estáveis”.

Martha de Barros, filha do poeta, confirmou o estado de saúde do pai. Segundo ela, Barros vinha sofrendo de desconfortos. Após ser operado, ele não necessita de aparelhos e consegue se comunicar.

Manoel de Barros completa 98 anos em dezembro. Nos últimos anos, por conta da saúde debilitada, ele tem ficado em casa, em Campo Grande. Por lá, está sob os cuidados da filha e da mulher, Stella. Ele não consegue mais escrever e se alimenta com dificuldade. Seus filhos João Wenceslau e Pedro morreram em 2007 e 2013, respectivamente.

Considerado um dos maiores poetas brasileiros, Barros publicou seu primeiro livro, “Poemas concebidos sem pecado”, em 1937. O autor recebeu ainda dois Jabutis (por “O guardador de águas”, em 1989, e “O fazedor do amanhecer”, em 2002). Seu trabalho foi transportado para cinema, peças de teatro e exposições. Recentemente, o selo Alfaguara (Objetiva) anunciou a reedição de sua obra.

Fotos do álbum de família do poeta - Divulgação

Fotos do álbum de família do poeta – Divulgação

Dissidente soviético Eduard Limonov inspira livro de escritor francês

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Rachel Donadio, na Folha de S.Paulo

Emmanuel Carrère, um dos mais conhecidos escritores franceses, encontrou um personagem perfeito em Eduard Limonov, que se descreve como o Johnny Rotten dos escritores soviéticos dissidentes. O resultado é o livro “Limonov” (Ed. Alfaguara), com o subtítulo “as ultrajantes aventuras do poeta soviético radical que se tornou um vagabundo em Nova York, uma sensação na França e um anti-herói político na Rússia”.

Carrère direciona sua mescla de ficção com reportagem biográfica e o seu interesse por grandes questões para esse poeta russo cuja classificação é impossível: ao mesmo tempo um rebelde e um totalitário, um escritor obsceno de memórias semificcionais que, após anos no Ocidente, ficou ao lado dos sérvios na guerra da Bósnia e depois retornou à Rússia para se tornar um agitador político ultranacionalista.

Carrère, cuja família materna é russa, disse que viu em Limonov algo emblemático sobre o mundo pós-soviético. Os dois se conheceram em Paris no começo dos anos 1980, e Carrère retomou o contato em 2008. Passou duas semanas em Moscou com Limonov, que tentava, sem sucesso, levar ao Parlamento o seu Partido Bolchevique Nacional, composto por um espectro de pessoas que vão de skinheads ultranacionalistas a desajustados da contracultura.

“Depois de duas semanas, não sabia o que eu achava dele -se eu gostava dele ou não e se o achava um mocinho ou um vilão”, disse Carrère, 56.

O dissidente soviético Eduard Limonov / Ilya Pitalev/Xinhua

O dissidente soviético Eduard Limonov / Ilya Pitalev/Xinhua

O livro começa com uma citação do presidente russo, Vladimir Putin: “Quem quer a União Soviética de volta não tem cérebro. Quem não sente saudades dela não tem coração”. Essa complexa nostalgia é o tema central de “Limonov”, assim como a interação entre o radicalismo e o revanchismo; a atração pelo fascismo, mesmo dentro da classe criativa; e a ingenuidade da “intelligentsia” ocidental ao pensar que a história, ou pelo menos o nacionalismo, acabaria depois da Guerra Fria.

A obra se baseia em grande parte nas memórias semificcionais de Limonov. Afinal, como Carrère conseguiria saber o que passou pela cabeça do autor russo quando este fazia amor com uma de suas problemáticas mulheres ou muitas namoradas? Ou que ele teve uma experiência semelhante a atingir o nirvana quando esteve na prisão? “Não fiz checagem nenhuma”, disse Carrère. “Se estiver errado, não me importo.”

Limonov, que hoje tem 71 anos e leva uma vida modesta em Moscou, chama-se na verdade Eduard Savenko. Mudou de nome como “homenagem ao seu humor ácido e combativo, porque ‘limon’ significa limão, e ‘limonka’ é uma gíria para um tipo de granada de mão”, escreve Carrère. Depois de fazer trabalhos subalternos e cometer pequenos crimes, Limonov começou a escrever poesia. Em 1974, fugiu de Moscou para Nova York.

Ao contrário de Joseph Brodsky e Yevgeny Yevtushenko, poetas dissidentes a quem ele inveja e despreza, Limonov teve uma vida marcada pelas drogas, pela violência e pelo sexo.

Quando Limonov chegou à França, em 1980, estava desfrutando do sucesso de “It’s Me, Eddie”, livro de memórias fictícias sobre sua vida em Nova York.

“O que ele tem na cabeça é medonho”, escreve Carrère, “mas você precisa admirar a honestidade com a qual ele descarrega isso: ressentimento, inveja, ódio de classe, fantasias sádicas, mas sem hipocrisia, sem constrangimento e sem desculpas”.

8 fatos estranhos da vida dos escritores

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Como todos os seres humanos, os escritores possuem diversificados hábitos e manias, fato esse que se acentua em determinadas situações.

Estátua de Franz Kafka em Praga.

Estátua de Franz Kafka em Praga.

Dayane Manfere, no Homo Literatus

Muitos podem considerar certas manias como loucura, outros não se importam, mas o que impera é a dúvida: o hábito ajudou os escritores ou a escrita influenciou seus hábitos?

Para ilustrar a questão vamos iniciar com Fernando Pessoa, poeta português que viveu alguns anos de sua vida na África do Sul. Era um grande apreciador de horóscopos, e quando Cecilia Meireles marcou um encontro com o poeta enquanto esteve em Portugal, levou um chá de cadeira: passou horas aguardando-o e, decepcionada pela ausência, foi embora. Chegando a seu hotel, recebeu um livro com uma explicação: seu horóscopo informou que aquela manhã não era um bom dia para encontros.

Victor Hugo por sua vez, só escrevia em pé. Por vezes passava quatorze horas seguidas trabalhando e foi justamente assim que produziu sua obra Os Miseráveis.

Já o inglês Lord Byron, um dos maiores poetas europeus e personalidade que mais influenciou no romantismo, tinha gansos como animais de estimação. Eles o acompanham, inclusive, a ida em eventos sociais. Byron tinha também outros fatos e rituais que marcaram sua vida, além de dúvidas até hoje impostas, como o fato de que tinha uma perna torta, mas ninguém sabia qual era e quem dizia saber nunca entrava em um consenso.

Honoré de Balzac amava café. Ingeria cerca de 50 xícaras por dia, e quando não conseguia tomar, ele mesmo moía os grãos e o comia puro.

Já Edgar Allan Poe, enquanto esteve em um internato na Inglaterra, que ficava ao lado de um cemitério, teve aulas de matemática ao lado dos túmulos onde ele e os demais alunos calculavam a idade dos mortos pela data marcada nas lápides. Para os exercícios físicos os alunos abriam as covas onde os mortos da cidade seriam enterrados.

Entre as irmãs Brontë, Emily era a mais excêntrica. A romancista passava horas parada, olhando para a janela, ficava silenciosa contemplando o mundo. Certa vez sua irmã Charlotte a apanhou olhando para a janela e descobriu, horas depois, que as venezianas estavam fechadas, Emily ficou seis horas parada observando as venezianas da janela.

Já Franz Kafka tinha um complexo enorme sobre seu corpo. Foi adepto de diversas dietas e inclusive por questões de saúde era vegetariano. Na época em que viveu, o nudismo estava em voga e assim como seus demais contemporâneos Kafka frequentava SPA, mas diferente dos demais se recusou a retirar as calças e ficou conhecido como “o homem com calção de banho”.

Pablo Neruda só escrevia com tinta verde. Inclusive certa vez escrevia um poema quanto à tinta se tornou escassa. Quando o estoque voltou ao normal já era tarde, perdeu a inspiração e seu poema ficou inacabado.

Até quanto os hábitos desses e tantos escritores os influenciaram a se tornarem o que são hoje? E você, tem algum hábito que o influencia ou alguma influência que derivou novos hábitos?

Fontes

1 – A vida secreta dos grandes autores. Robert Schnakenberg. Ediouro

2 – Manias e métodos de trabalho de 10 grandes escritores. Revista Bula, por Euler de França Belém (clique aqui)

3 – Costumes e manias dos escritores famosos. Folha de S. Paulo (clique aqui)

4 – As manias mais curiosas dos escritores. Saraiva Conteúdo, por André Bernardo. (clique aqui)

5 – A mania dos escritores. Falando de Literatura, por Fernanda Jimenez. (clique aqui)

Mostra exibe anotações em livros da biblioteca de Waly Salomão

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Exposição com o acervo inédito do poeta abre ao público hoje na Biblioteca Parque Estadual

Um dos livros grifados por Waly: “O grifo muda o nosso olhar em relação ao livro. A gente ouve a voz dele nas marcações”, diz Omar Salomão, filho de Waly e curador da mostra - Reprodução

Um dos livros grifados por Waly: “O grifo muda o nosso olhar em relação ao livro. A gente ouve a voz dele nas marcações”, diz Omar Salomão, filho de Waly e curador da mostra – Reprodução

Mariana Filgueiras em O Globo

RIO — A ideia surgiu por acaso, numa conversa da editora Anna Dantes com o músico Marcelo Yuka. Ele viu o livro “Signos”, de Merleau-Ponty sobre a mesa do escritório dela, tomou-o para folhear, e Anna comentou que o exemplar havia sido do poeta Waly Salomão. Estava ali porque ela começaria em breve a pensar em uma exposição sobre Waly, mas que ainda não tinha um mote definido. Na última página do livro, Yuka notou uma ameaça de poema entre rabiscos, frases sublinhadas, palavras circuladas. Anna comentou que todos os livros de Waly eram assim, repletos de grifos. O músico sugeriu: “Você podia fazer uma exposição só com os grifos dele: ‘A biblioteca de grifos de Waly Salomão’”.

— Pronto. Ali nasceu a exposição. A ideia estava na minha mesa, e eu ainda não tinha percebido — comenta Anna, ao lado do poeta Omar Salomão, filho de Waly, que assina com ela a curadoria da mostra que começa hoje para o público na Biblioteca Parque Estadual e segue até o dia 14 de dezembro, com exemplares do acervo pessoal do poeta morto em 2003. — Quando a gente se depara com as anotações que ele fazia, a maneira como ele lia, entende muito da mente dele. Os grifos eram um recado para ele mesmo como leitor futuro, como uma mensagem na garrafa. E agora as mensagens estarão ao alcance de todos os leitores.

Versos soltos entre anotações no livro de Merleau-Ponty - / Reprodução

Versos soltos entre anotações no livro de Merleau-Ponty – / Reprodução

Ato de libertação

Waly lia compulsivamente. Comia os livros, com aquela bocarra cheia de dentes e sorrisos, dobrando suas páginas, marcando palavras com o que tivesse à mão, fossem canetinhas, marca-textos ou as próprias unhas (Omar conta rindo das vezes em que viu o pai fazer isso). Fazia desenhos envolvendo as frases, emoldurava palavras unas, e às vezes, ao ler o mesmo livro em línguas diferentes, fazia anotações completamente distintas. Tinha cerca de 8 mil volumes nas estantes de casa — e a maioria carrega o percurso da sua leitura, como poderá ser visto pelo público na exibição.

Marguerite Duras era uma personagem constantemente grifada por Waly - / Reprodução Read more: http://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/mostra-exibe-anotacoes-em-livros-da-biblioteca-de-waly-salomao-14244635#ixzz3GDbTmPjK

Marguerite Duras era uma personagem constantemente grifada por Waly – / Reprodução

— O grifo muda o nosso olhar em relação ao livro. Os que ele fazia não eram grifos de estudo, as marcas não indicam uma leitura de estorvo, mas de libertação. A gente ouve a voz dele nas marcações, seja em volumes de Roland Barthes, Murilo Mendes ou nos livros de zen-budismo — observa Omar, lembrando que muitas dessas anotações ecoam em seus poemas e letras de músicas.

É possível ver mesmo: no livro “Lírica, Épica, Teatro e Cartas de Camões”, por exemplo, Waly emoldura a frase “Oh! bem-aventurados fingimentos”, assinando embaixo, como se o verso também pudesse ser dele; no livro “Malone morre”, de Samuel Beckett, ao lado da frase “Nasci sério, como tem gente que já nasce sifilítico”, escreve: “parece Nelson Rodrigues!”. Completa poemas de Drummond, como se fossem textos abertos; e numa dedicatória de um livro a Oswald de Andrade, desenha ali uma espécie de labirinto cerebral antropofágico sobre o nome do autor. Ah, sim, o poema notado por Yuka também esta lá: “Uma arte poética/ manter tenso o arco que /Abrange caos e cosmos/ Uma área poética/ Limpar a área do terreno/ Desprogramar bulas e receitas/Posologias e fórmulas prévias/ Ou ainda: “Uma arte poética/ Penetrar até o centro do coração de cada código e desprogramar/ Bulas, receitas e posologias e/ Fórmulas prévias/ Pescar em águas límpidas/ Pescar em águas turvas/ Usar em mão dupla/ O arco que une caos e cosmos”.

Painéis pela cidade

A mostra conta ainda com vídeos, depoimentos do autor e uma instalação interativa, onde o público poderá deixar sua própria intervenção em textos de Waly. O escritor Leonardo Villa-Forte vai colaborar com três instalações do “Paginário”, projeto de sua autoria que enche de grifos literários alguns muros da cidade. Serão três painéis: um na biblioteca, um na Rua da Alfândega e um na estação de metrô da Central. Já a filósofa Rosa Dias vai participar ministrando semanalmente jogos de leituras com convidados.

O antropofagismo de Oswald de Andrade dá origem a um esboço de cérebro - / Reprodução

O antropofagismo de Oswald de Andrade dá origem a um esboço de cérebro – / Reprodução

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