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Como a doença influenciou a obra final do poeta João Cabral

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Como a doença influenciou a obra final do poeta João Cabral

(Foto: Eder Chiodetto/Folhapress)

Um livro analisa os últimos trabalhos de João Cabral de Melo Neto e conclui que, mesmo cego e deprimido, ele manteve sua excelência literária

Marcelo Bortoloti, na Época
Quando morreu, em 1999, o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto estava cego. Passava os dias com as janelas fechadas em seu apartamento no Rio de Janeiro, ouvindo o noticiário do rádio. Não gostava de música. Havia muito tempo não saía de casa e estava afastado de seu principal prazer, a leitura. Deprimido, não podia beber por proibição médica. Tomava dezenas de medicamentos, que atrapalhavam sua dicção. Mesmo ateu, dizia ter medo da morte, impressionado com a imagem do inferno que descobrira criança num colégio de padres. Para amigos próximos, falava do receio de ver sua obra esquecida depois que se fosse.

O fim dele foi o ponto mais triste de uma trajetória marcada por transtornos físicos e psicológicos nas duas últimas décadas da vida. Nesse período turbulento, ele produziu cinco livros que compõem sua produção menos conhecida e estudada. Naquela época, rechaçado pela nova geração de poetas (que o considerava formalista demais), desacreditado pelos críticos (que supunham que sua poesia se esgotara nos anos 1960), ele escreveu livros como Auto do frade, que quase ninguém leu. Quinze anos após sua morte, o principal especialista em sua obra, Antônio Carlos Secchin, lança um livro que pode fazer justiça à fase final. Publicado pela editora Cosac Naif, Uma fala só lâmina analisa criticamente cada um dos 20 livros de João Cabral, incluindo os últimos, que Secchin põe no mesmo patamar dos demais. É um convite para voltar às obras derradeiras e também a seus anos finais de vida, cujo drama seguramente influenciou os rumos de sua poesia.

João Cabral ainda é pouco lido. Foi o escritor brasileiro que teve mais chances de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, em 1992. Grande parte do público não conhece mais que seu poema Morte e vida Severina, musicado por Chico Buarque e transformado em filme e peça de teatro. Mestre do rigor formal e das sobreposições de imagem, produziu uma obra que exige grande concentração e raciocínio do leitor. Isso afastou o público acostumado à poesia mais leve e emotiva. “Existem escritores que produzem em função de uma expectativa do público. Cabral estava completamente fora disso. Ele quis fazer uma obra coerente até o final, quem quiser que o acompanhasse. Muita gente não acompanhou”, diz Secchin. Essa poesia que não transige tem relação com o temperamento de João Cabral. Ele foi um diplomata pouco sociável. Por causa da profissão, passou 40 anos longe do Brasil e escreveu a maior parte de sua obra fora do país. Em razão da distância, não frequentou as rodas literárias de sua geração. Dizia ter horror a escrever cartas e se correspondeu com poucos amigos. Nos postos diplomáticos que ocupou, tinha aversão a festas e badalações. Vivia recolhido a sua casa, lendo e escrevendo. “Me interessava escrever minha obra, não conhecer paisagens”, disse, em sua última entrevista, ao cineasta Bebeto Abrantes.

O ponto alto de sua carreira aconteceu na segunda metade dos anos 1960, quando o poema Morte e vida Severina foi adaptado para o teatro. Nesse mesmo período, ele entrou para a Academia Brasileira de Letras e publicou A educação pela pedra, considerada sua obra-prima. Muitos críticos consideravam que Cabral não tinha mais para onde avançar.

OLHAR FEMININO Marly de Oliveira, a segunda mulher de João Cabral, em foto de 1987. Ela lia para ele, mas João Cabral só acompanhava textos curtos (Foto: Agência O Globo)

OLHAR FEMININO
Marly de Oliveira, a segunda mulher de João Cabral, em foto de 1987. Ela lia para ele, mas João Cabral só acompanhava textos curtos (Foto: Agência O Globo)

Em 1972, ele partiu para um posto no Senegal, onde ficou mais de sete anos. Vivia numa mansão com 14 empregados para servi-lo, à mulher e a um filho. Sua rotina era de clausura. “Ele voltava a 1 da tarde do trabalho e ficava a tarde inteira lendo. Sete da noite, trocava de roupa e continuava lendo”, diz seu filho, João Cabral de Melo. Na correspondência com o editor Daniel Pereira, depressão e doenças se tornaram tema constante. Em 1975, escreveu: “Tenho andado ocupado, ocupadíssimo e, para variar, doente. Doenças acumuladas: polineurite, seguida de crises hepáticas, seguidas de alergia”. O resultado desse período foi A escola das facas, recebido friamente pela crítica. Secchin defende o livro. Diz que inaugura um viés histórico e mais autobiográfico. João Cabral dificilmente punha suas emoções ou experiências particulares nos poemas que escrevia. Nesse livro, estão presentes com força suas vivências de infância. A partir daí, sua escrita foi ficando rara e difícil. João Cabral costumava dizer que escrever lhe era doloroso. Ele anotava suas ideias em pequenos papéis que guardava no bolso. Depois, se trancava no escritório para desenvolvê-las em forma de poema, num trabalho exaustivo de lapidação. Um poe­ma poderia levar anos para atingir a forma final. “Posso dizer que, de livro para livro, o fazer poético torna-se mais difícil. Meus primeiros livros saíam com mais facilidade”, disse em entrevista na época.

Em 1984, transferido para Portugal, escreveu ao editor Daniel Pereira. “Gostaria de nunca ter escrito uma linha, pois a poesia só me tem dado aporrinhações”, dizia. No ano seguinte, lançou Agrestes, cuja produção o deixou esgotado. Nesse livro, com 14 poemas sobre a morte, ele se despede do leitor em forma de verso. Mas não parou de escrever. Um novo choque tumultuou sua vida em 1986, com a morte de Stella, a primeira mulher, vítima de câncer. Durante 40 anos, ela cuidara de todos os aspectos práticos da rotina de João Cabral. Datilografava seus poemas e ajudava na organização dos papéis. Deixava seu terno, calças e sapatos prontos, do lado de fora do banheiro, para que ele vestisse ao sair do banho. Quando a mulher morreu, ele perdeu o rumo. Passou meses deprimido no Rio de Janeiro. Foi quando conheceu a poeta Marly de Oliveira. Apaixonou-se no meio do luto.

Marly era uma mulher bonita, inteligente e refinada. João Cabral era considerado o maior poeta brasileiro. Tinha 15 anos a mais e parecia ainda mais velho, por causa das doenças. Não foi uma conquista fácil. João Cabral voltou para seu posto em Portugal. Ligava diariamente para ela, muitas vezes embriagado, pedindo que o acompanhasse. Acabaram se casando. Hoje, as duas famílias avaliam negativamente o casamento. “Minha mãe se tornou uma espécie de enfermeira dele e acabou com a mesma depressão do João. Ela anulou sua carreira para cuidar dele”, afirma Mônica Moreira, filha do primeiro casamento de Marly. “Marly estava acostumada a que tomassem conta dela. Passava o dia inteiro fechada no quarto, lendo literatura clássica. Meu pai ficou entregue às traças”, diz Inez Cabral, filha de João Cabral.

Aposentado, ele não conseguiu se adaptar à vida no Rio de Janeiro. A sacada de seu apartamento tinha uma vista maravilhosa da Baía de Guanabara, e ele não achava graça. “Essa natureza opulenta do Rio não me interessa”, disse na época. Pouco saía de casa, com medo da violência. Começou a fumar aos 69 anos. Fumava até ficar com os dedos amarelados. Foi proibido de beber depois da operação da úlcera, mas não cumpria a ordem. Marly tentava esconder as bebidas de casa. Ele saía em silêncio para o botequim da esquina, onde comprava vodca ou cachaça de má qualidade. A mistura da bebida com remédios era explosiva. Várias vezes João Cabral caiu dentro de casa e se cortou. Embora escrevendo com sofrimento e dificuldade, a poesia ainda lhe dava sentido à vida. Reuniu uma nova leva de poemas e lançou seu último livro, Sevilha andando, em 1990. João Cabral declarou que pretendia continuar escrevendo, mas o problema da visão interrompeu seus planos. Começou a sofrer uma degeneração macular, que gradativamente o impediu de ler e escrever. Ficou cada vez mais recolhido e deprimido. “Nunca fiz outra coisa na vida senão ler. Ficar cego foi um castigo violento que Deus me deu”, disse. Marly e sua filha Inez liam em voz alta para ele, mas João Cabral só conseguia acompanhar textos curtos. A televisão lhe dava dor de cabeça. Só restava o rádio. Os poucos amigos que frequentavam seu apartamento encontravam um cenário melancólico. “Estou sem vontade, sem razão de viver”, disse ao escritor e crítico José Castello, autor da biografia João Cabral de Melo Neto: o homem sem alma. Num derradeiro esforço para continuar produzindo, tentou ditar versos para Marly. O último poema que escreveu na vida, usando esse método, fala da impossibilidade da escrita sem visão: Pedem-me um poema,/um poema que seja inédito,/poema é coisa que se faz vendo,/como imaginar Picasso cego? Com esses versos melancólicos, se despedia. O livro de Antônio Carlos Secchin mostra que conseguiu concluir com dignidade e talento suas obras finais.

Escritor Ferreira Gullar é eleito o novo integrante da Academia Brasileira de Letras

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Escritor ocupará a cadeira de número 37, onde já passaram Ivan Junqueira, João Cabral de Melo Neto, Assis Chateaubriand e Getúlio Vargas

Publicado no Correio da Bahia

 

Escritor Ferreira Gullar é eleito o novo integrante da Academia Brasileira de Letras

Foto: Divulgação

O escritor maranhense Ferreira Gullar, de 84 anos, é o novo imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL). Eleito nesta quinta-feira (9), Gullar ocupará a cadeira de número 37, onde já passaram Ivan Junqueira, João Cabral de Melo Neto, Assis Chateaubriand e Getúlio Vargas.

José Ribamar Ferreira, mais conhecido como Ferreira Gullar, é poeta, tradutor, dramaturgo, ensaísta e crítico de arte.

Ele escreveu livros marcantes como A luta corporal (1954), Poema Sujo (1976) e Em alguma parte alguma (2010), que em 2011 ganhou o Prêmio Jabuti.

Além do Jabuti, os livros de Gullar já receberam diversos outros prêmios de literatura, incluindo seus poemas infantis. Ele se destacou, ainda, como crítico de arte e roteirista de televisão. Em 2010, o autor foi agraciado com o Prêmio Camões, a mais importante premiação literária da língua portuguesa.

A cerimônia de posse na ABL acontece, porém, apenas no próximo ano.

Jerónimo Pizarro se firma como uma das maiores autoridades na obra de Fernando Pessoa

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Colombiano lidera jovens pesquisadores do espólio do poeta português

Equipe de jovens investigadores se beneficia do fato de obra do poeta (na foto múltipla acima) estar há dez anos em domínio público - Divulgação

Equipe de jovens investigadores se beneficia do fato de obra do poeta (na foto múltipla acima) estar há dez anos em domínio público – Divulgação

Maurício Meireles em O Globo

RIO — O labirinto que Jerónimo Pizarro percorre não é feito de paredes, mas de papéis. Trinta mil documentos, para ser mais exato. Há mais de dez anos, o pesquisador colombiano começou uma tarefa interminável: investigar os documentos deixados por Fernando Pessoa em seu espólio, guardado pela Biblioteca Nacional de Portugal. Hoje, Pizarro lidera uma equipe de jovens pesquisadores que é a principal responsável pelas novas descobertas nos arquivos do poeta. E o colombiano, que se consolida como uma das maiores autoridades da atualidade na obra do autor, é o mestre desse labirinto.

Pelos menos as últimas 30 edições com inéditos do poeta lusitano têm a participação do pesquisador, seja na descoberta ou na organização. Os poemas desconhecidos de Pessoa que a “Granta Portugal” publicou, ano passado, por exemplo, foram descobertos pelo colombiano e pelo brasileiro Carlos Pittella-Leite, seu orientando. A prosa de Álvaro de Campos, cuja edição antiga não estava completa, foi reorganizada por ele com os inéditos. A publicação de novos poemas em francês e em inglês, além da descoberta de novos heterônimos, teve seu comando. Sete das edições críticas que a Imprensa Nacional portuguesa patrocina desde os anos 1980, quando a primeira parte do espólio foi vendida à Biblioteca Nacional do país, foram organizadas por Pizarro. A lista de livros é profícua.

— Chamo o Jerónimo de mestre do labirinto, porque poucos sabem percorrer os documentos sem se perder. Há teorias de que ele possui irmãos gêmeos trabalhando para ele 24h por dia, pois ele sempre responde a qualquer e-mail em menos de dez minutos, a qualquer hora do dia. E ainda assim sempre aparenta saúde e bem-estar… — brinca o pesquisador Carlos Pitella Leite, da equipe do colombiano. — Além da professora Cleonice Berardinelli, com quem tive a honra de estudar por muitos anos, ninguém me surpreende tanto quanto o Jerónimo ao mergulhar na obra pessoana: o que a mestra Cleonice tem de profundidade, Jerónimo tem de amplitude.

São inúmeras novidades, mas nenhuma delas chegou ao Brasil. A única exceção é a edição crítica que Jerónimo Pizarro fez do “Livro do desassossego” — lançada no país ano passado, em versão comercial, pela Tinta-da-China.

Poeta proibido em casa

A obra é motivo de controvérsia, porque Pessoa apenas deixou fragmentos, alguns sem data, e ninguém sabe ao certo como pretendia organizá-los. Por isso, nas palavras de Jerónimo Pizarro, remexer os velhos papéis do poeta é como cair em uma armadilha.

— Havia muitas versões do “Livro…” Em 1982, surgiu uma importantíssima, que demorou 20 anos para ficar pronta. Outra editora lançou uma em 1991, mas a alterou em 1997. Em 1998, sai a do Richard Zenith (publicada no Brasil pela Companhia das Letras), mas a versão dele já foi alterada pelo menos três vezes — afirma Pizarro. — Em 2010, quando aparece a edição crítica, o cenário era muito caótico. A primeira edição tinha 500 fragmentos, a última já tinha quase 800. Era importante consultar de novo os originais.

Não à toa, depois das 20h Fernando Pessoa é assunto proibido na casa de Jerónimo Pizarro em Bogotá. E lá não entram fotos, camisas, souvenirs do poeta. É preciso desintoxicar, porque também é difícil viver tão imerso na obra de alguém.

— Sinto que durante toda a minha vida Fernando Pessoa vai me preparar surpresas. Afinal, mais da metade do espólio ainda está por conhecer. Estou a descobrir Pessoa todos os dias. É uma tentação permanente, estou sempre entre tentar fugir e ser atraído — diz o pesquisador, com seu português de sotaque castelhano e lusitano. — É um trabalho para várias gerações. Se formos brincar um bocadinho e formos analisar as previsões astrológicas do poeta, só daqui a 150 anos ele será plenamente conhecido.

Como um colombiano se tornou uma das principais autoridades na obra de Fernando Pessoa? Foi por amor, diz ele. Quando fazia seu doutorado em literatura hispânica em Harvard, Pizarro apaixonou-se por uma portuguesa. E, por isso, começou um doutorado simultâneo em Portugal relativo ao espólio — para ter motivos para passar o verão em Lisboa. Concluiu os dois. Hoje, ele ensina na Universidad de Los Andes, em Bogotá.

Claro que o amor não foi tudo. Jovem, Pizarro começou a ler literatura brasileira e apaixonou-se por Guimarães Rosa. Leu Manuel Bandeira, Machado de Assis e outros. Por pouco não veio para o Brasil estudar a obra do autor de “Grande sertão: veredas” (“Quase que Guimarães Rosa foi meu Fernando Pessoa”, brinca).

A equipe que trabalha com Jerónimo Pizarro se beneficia do fato de Fernando Pessoa ter entrado em domínio público em 2006, gerando um segundo boom dos estudos pessoanos. Num caso talvez inédito, a obra do poeta foi liberada para uso duas vezes. A primeira foi em 1985, nos 50 anos de sua morte. Na ocasião, os herdeiros do escritor descobriram uma brecha na lei que esticou o prazo do domínio público para 70 anos, e, em 1997, a obra de Pessoa voltou para a posse deles. Por isso, até 2006 só se conhecia do espólio os escritos permitidos pelos herdeiros — publicados pela Assírio & Alvim, em Portugal, e pela Companhia das Letras, no Brasil. Por aqui, as edições ainda têm o texto estabelecido naquele período.

— As editoras brasileiras e de outros países não reagiram ao fato de Pessoa estar em domínio público — avalia Pizarro.

No ano passado, o trabalho do colombiano foi laureado com o Prêmio Eduardo Lourenço, troféu que leva o nome do filósofo e crítico literário que é uma espécie de Antônio Cândido lusitano. Pizarro foi o primeiro autor latino-americano a receber a honraria. Lourenço definiu o colombiano como “o mais jovem dos heterônimos pessoanos” na ocasião. Afinal, editar Pessoa também é ajudar a construir a obra do poeta, já que ele só publicou um livro em vida, “Mensagem”. O que restou no espólio são livros inacabados, projetos com uma caligrafia difícil — que Pizarro hoje sabe decifrar como poucos.

No Brasil e em Portugal, a pesquisa em arquivos está um pouco fora de moda, depois de ter cedido espaço à teoria literária. MasPizarro defende que é impossível fazer a crítica literária da obra de Fernando Pessoa sem a pesquisa no espólio. Em primeiro lugar, porque as edições antigas podem conter erros. Em segundo, porque o que foi publicado não representa nem metade do que o autor escreveu.

— Hoje a universidade portuguesa estimula pouco os alunos a pesquisarem no espólio. Portugal e Brasil são países com muita influência francesa, e a França tem uma relação difícil com a filologia, em favor da teoria literária. É difícil explicar que a crítica textual faz parte da crítica literária, e elas podem conviver — defende Pizarro.

Fernando Pessoa ficou conhecido como o poeta múltiplo, por conta de seus heterônimos. Mas ele era muitos mais do que se pensava. Ao lado de Patrício Ferrari, Pizarro publicou “Eu sou uma antologia”, em que lista 136 autores fictícios criados pelo escritor — número que pode crescer com novas pesquisas documentais. A primeira lista do tipo, feita em 1990 por Teresa Rita Lopes, tinha 72 nomes.

A pesquisa pessoana sempre foi dividida em grupos de acadêmicos, nem sempre com relações amistosas. Ao formar um time de pesquisadores jovens, Jerónimo Pizarro espera se posicionar do lado de fora de conflitos acadêmicos históricos.

— Tentei criar um novo caminho, com mais liberdade. Quero trabalhar fora do feudalismo das universidades — diz ele.

Sem acordo, editoras lançam duas traduções de ‘Paradiso’, de Lezama Lima

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Martins e Estação Liberdade alegam que adquiriam os direitos da obra do romancista e poeta cubano e querem honrar o contrato

Maria Fernanda Rodrigues, no Estadão

Na melhor das hipóteses, o leitor brasileiro poderá, a partir da próxima semana, escolher entre duas traduções do romance Paradiso, do cubano José Lezama Lima (1910-1976): a de Josely Vianna Baptista, feita para a Estação Liberdade, ou a de Olga Savary, encomendada pela Martins. Mas a obra do poeta e romancista não está em domínio público para que novas traduções saiam assim à vontade.

"Paradiso" chega às livrarias em duas novas traduções, mas não há consenso entre editores

“Paradiso” chega às livrarias em duas novas traduções, mas não há consenso entre editores

A história é complicada. Angel Bojadsen, diretor editorial da Estação Liberdade, comprou os direitos do título em 2006 diretamente da irmã do escritor, Eloísa Lezama Lima. Foi nessa época que Josely, que já tinha traduzido a obra para a Brasiliense em 1987, iniciou uma nova versão (os direitos daquela primeira edição também foram comprados de Eloísa). Antes disso, porém, em 1983, os direitos de Lezama Lima passaram para o Estado cubano, já que ele não deixou testamento. E desde 1997, a Agencia Literária Latinoamericana é responsável pelas negociações estrangeiras. Foi com essa agência que o editor Evandro Martins Fontes fez negócio em 2011. Ou seja, os dois têm contratos assinados e querem honrar seus compromissos.

A edição da Martins, feita em menos tempo, já começou a ser vendida. A da Estação Liberdade, que traz textos da irmã do autor, está em gráfica e deve ficar pronta na próxima semana.

Bojadsen chegou a sugerir uma coedição, mas, segundo Martins explicou, o contrato que fechou com a agência literária não permitia isso ou a cessão dos direitos. “Este tipo de solução seria complicado, pois teríamos que ter o aceite de todas as partes, inclusive do governo cubano e do sobrinho do Lezama Lima”, diz. O editor tentou, primeiro com Josely Vianna Baptista e depois com a própria editora, os direitos da tradução. “Como não consegui, contratei Olga Savary, que está com mais de 80 anos e vibrou com o trabalho.”

Verter Paradiso não é simples. No romance barroco – e quase autobiográfico –, o poeta experimenta com a linguagem para contar a história do também poeta José Cemí – da infância asmática à descoberta da vocação.

Hoje, Angel Bojadsen se arrepende de ter investido tanto tempo no processo de edição. Ele conta que quando a Martins anunciou a obra, sua versão não estava totalmente pronta. “Ainda estávamos debatendo detalhes com a Josely, que é extremamente meticulosa e reviu a tradução até os últimos detalhes. Combinamos de lançar apenas quando considerássemos a edição à altura da obra-prima de Lezama Lima”, explica. E completa: “Mas eu devia ter dado prioridade total e publicado a obra em 2007 ou 2008, neste caso não teria havido polêmica possível. Mas hoje a editora está em outro momento e decidimos abordar a literatura latino-americana de forma mais endêmica e continuada. Lançar Lezama Lima naquela época seria lançá-lo meio solitário em nosso catálogo”.

Cada uma das editoras mandou imprimir 2 mil exemplares da obra. “De minha parte, Paradiso é tão fundamental e fundador para a literatura latino-americana que comporta duas traduções em nosso mercado”, diz Bojadsen. Evandro Martins Fontes não concorda e disse que poderá tomar medidas legais. “Sou a favor do estado de direito. Não é legalmente possível que duas editoras tenham direitos exclusivos para uma mesma obra.”

Ontem à tarde, a Agencia Latinoamericana acompanhava a movimentação e confirmou, em e-mail enviado pela diretora Wanda Canals, que a instituição é mesmo a detentora dos direitos da obra do cubano. Canals se colocou à disposição da Martins para o que fosse necessário.

Paradiso
Autor: José Lezama Lima
Tradução: Olga Savary
Editora: Martins (624 págs., R$ 84,90)

Paradiso
Autor: José Lezama Lima
Tradução: Josely Vianna Baptista
Editora: Estação Liberdade (616 págs., R$ 74)

Pantim, bizu, galego: dicionário traz origem de termos comuns em PE

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Novo livro explica surgimento de palavras como ‘oxente’ e ‘bigu’.
Com 2.300 verbetes, obra de Paulo Camelo será lançada nesta quinta (7).

Dicionário explica algumas das expressões usadas em Pernambuco (Foto: Katherine Coutinho / G1)

Dicionário explica algumas das expressões usadas em Pernambuco (Foto: Katherine Coutinho / G1)

Katherine Coutinho, no G1

Ao conversar com um pernambucano, não se surpreenda se ele discordar de alguma atitude sua dizendo para você ‘deixar de pantim’. Para entender essa e outras expressões, facilitar a vida de quem chega ao Recife ou apenas conhecer mais sobre a cultura local, o médico e escritor Paulo Camelo resolveu fazer o ‘Dicionário do Falar Pernambucano’, que será lançado nesta quinta (7), às 17h, na Livraria e Café 17, em Casa Forte, no Recife.

A expressão ‘deixar de pantim’ significa deixar de besteira, que tal atitude é absurda e não tem fundamento. “É algo que importamos do francês. Enquanto no original significa uma pessoa toal, influenciável, em Pernambuco se tornou em um atitude idiota, uma frescura, como se diz”, explica Camelo, que se diverte com as expressões da terra.

Médico e escritor Paulo Camelo não gosta quando dizem que os pernambucannos falam errado (Foto: Katherine Coutinho / G1)

Médico e escritor Paulo Camelo não gosta quando dizem
que os pernambucannos falam errado
(Foto: Katherine Coutinho / G1)

A ideia do livro surgiu da percepção das diferenças regionais, especialmente das acusações de estar falando algo errado. “Sou escritor, poeta, sempre primei por falar e escrever bem a nossa língua. Quando vem alguém de fora, diz que falamos coisas que elas não entendem. Comecei então a pesquisar e percebi que tinham palavras ditas erradas ou caricatas, que diziam ser o pernambuquês. Mas nós não falamos erradamente”, defende o escritor, que tem 66 anos.

Entre as acusações de ‘erros’ estava o famoso oxente, tão popular no Nordeste. “Costuma-se dizer que é uma corruptela de ‘oh gente’, mas na verdade não falamos errado, falamos como antigamente. Importamos do galego [dialeto da região espanhola da Galícia], que se fala como ‘o xente’. Importamos no começo da colonização e ficou sem alteração”, contextualiza Camelo.

Buscando mostrar como os pernambucanos falam, na capital ou no interior, e que as expressões são não somente corretas como poderiam ser aceitas em qualquer dicionário, Camelo se dedicou a revirar seus livros de literatura pernambucana e a comprar dicionários de autores diversos para ajudar na composição da obra.

A lista final reúne aproximadamente 2.300 palavras e expressões utilizadas com frequência em Pernambuco, mas não necessariamente apenas no estado. “Eu procurei fazer realmente um dicionário, como mandam as regras, com explicações, e etimologia, quando possível”, aponta o escritor.

Livro traz 2.300 verbetes muito usados em Pernambuco (Foto: Katherine Coutinho / G1)

Livro traz 2.300 verbetes muito usados em Pernambuco
(Foto: Katherine Coutinho / G1)

Muitas das palavras que fazem parte da rotina pernambucana vieram de línguas estrangeiras. Além de “pantim”, que foi modificada, há ainda “alcatifa”, palavra árabe para carpete utilizada amplamente, até hoje. Outras expressões que foram dicionarizadas têm como origem onomatopéias. É o caso de “bizu”, muito utilizado por professores de cursinho pré-vestibular, que significa dica. “O bizu vem do barulho de uma pessoa cochichando para outra”, afirma Camelo.

Outro termo cuja origem é explicada no dicionário é “bigu”. Segundo a investigação do autor, é uma derivação de “be good” (‘seja bom’, em tradução livre), expressão utilizada pelos soldados norte-americanos que estavam no Recife durante a II Guerra Mundial, quando a cidade serviu como base para os EUA. Para pedir carona aos nativos, eles diziam “be good”, em uma tentativa de que os recifenses fossem simpáticos e atendessem ao pedido.

Ainda há aquelas palavras que ganham um novo significado na boca do povo, como “desmentir”. “Já ouvi muito as pessoas dizerem que ‘desmentiram o joelho’. Não tem nada a ver com revelar uma mentira, mas sim uma torção articular”, explica o médico, que buscou outra expressão na infância: “broti”. “Essa vem da colonização holandesa, broti é um tipo de pão. Minha avó me mandava buscar um broti na padaria. Era um pão redondo”, relembra.

O dicionário traz ainda a expressão “galego”, cujo sentido se transformou. No original, é a pessoa natural da Galícia, no Norte da Espanha, mas em Pernambuco são aqueles que têm pele clara e, usualmente, cabelo loiro ou aloirado. “Nosso português regional é rico em palavras importadas. Espero que esse dicionário seja útil para os nossos turistas visitantes”, aponta o escritor.

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