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Ariano Suassuna sofre AVC hemorrágico no Recife

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Escritor, dramaturgo e poeta paraibano, de 87 anos, ficará internado em UTI neurológica por tempo indeterminado após ter sido operado

25.04.2007 - Divulgação / E mail - JB CE - Ariano Suassuna - O Globo

25.04.2007 – Divulgação / E mail – JB CE – Ariano Suassuna – O Globo

Publicado em O Globo

RIO – O escritor, dramaturgo e poeta paraibano Ariano Suassuna, de 87 anos, foi internado na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Real Hospital Português, no Recife, na noite de segunda-feira, após ter sofrido um acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico. De acordo com a equipe médica, o quadro de saúde de Suassuna é considerado grave, mas estável.

Suassuna foi internado às 20h com sangramento intracraniano. O escritor foi então levado para a sala de cirurgia, onde foi submetido a um procedimento de emergência. A operação, considerada bem sucedida, durou cerca de uma hora e terminou por volta das 23h. De acordo com o hospital, Suassuna foi levado para a UTI neurológica sem previsão de alta. Um boletim médico será divulgado no fim da manhã desta terça-feira.

Em 21 de agosto, Suassuna foi internado após ter sofrido um infarto. No dia 26 teve alta, mas voltou a ser internado três dias depois, quando foi diagnosticado um aneurisma cerebral. Evoluiu satisfatoriamente ao tratamento e deixou o Real Hospital Português em 4 de setembro.

Autor de “O auto da compadecida” e “Romance da pedra do reino”, entre outras obras, Suassuna nasceu em 16 de junho de 1927, em João Pessoa, e mudou-se para o Recife em 1942.

Rubem Alves é internado em UTI após pneumonia em Campinas, SP

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Novo boletim médico deve ser divulgado no começo da tarde de quarta-feira.
Página oficial em rede social pede orações e ‘boas vibrações’ para o poeta.

Publicado por G1

Rubem Alves, de 80 anos, é poeta, pedagogo e escritor. (Foto: reprodução/EPTV)

Rubem Alves, de 80 anos, é poeta, pedagogo e
escritor. (Foto: reprodução/EPTV)

O escritor Rubem Alves está internado na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Centro Médico de Campinas (SP) há seis dias. De acordo com o hospital, ele foi encaminhado para o local na noite da quinta-feira (10) por insuficiência respiratória, após uma pneumonia.

De acordo com o último boletim médico divulgado pelo hospital na noite de terça-feira (15), o escritor, de 80 anos, se alimentava por sonda, respirava com a ajuda de aparelhos, estava sedado, mas apresentava quadro estável.

Segundo a entidade, um novo boletim médico deve ser divulgado no começo da tarde desta quarta-feira (16).

A página oficial do escritor em uma rede social divulgou uma nota sobre a internação de Rubem Alves e pediu para que os fãs enviassem ‘boas vibrações’ e orações para ajudar na recuperação do poeta.

Intelectual

Rubem Alves é pedagogo, poeta, filósofo, cronista, contador de estórias, ensaísta, teólogo, acadêmico, palestrante, autor de livros para crianças e psicanalista. Ele nasceu no dia 15 de setembro de 1933, em Boa Esperança, no sul de Minas Gerais e atualmente mora em Campinas.

Página oficial pede para fãs enviarem 'boas vibrações' para o escritor (Foto: Reprodução/ Facebook)

Página oficial pede para fãs enviarem ‘boas vibrações’ para o escritor (Foto: Reprodução/ Facebook)

#ForçaRubemAlves

Bisneto de Alphonsus de Guimaraens recupera história de 200 anos de literatura nas várias gerações da família

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Domingos passou os últimos anos em arquivos pessoais e de universidades para contar a história de seus antepassados

Arte - Igor Machado

Arte – Igor Machado

Maurício Meireles em O Globo

RIO — Domingos Guimaraens tinha 7 anos e não sabia bem o que ocorria naquela viagem da família a Mariana (MG). Fazia calor, por isso o menino e os primos tiraram a camisa e correram pelas ruas pedregosas até o cemitério. Foram parados pelo avô, Alphonsus Filho, na frente de um mausoléu. Emocionado como o menino nunca vira, o velho pediu um retrato com os netos na frente do lugar. Lá dentro, estavam os restos mortais do pai do homem, o poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), para quem inauguravam um museu na casa onde morou. Hoje, ao pensar em todos na foto, a imagem que vem à mente de Domingos é de uma “espiral que gira sem fim no tempo”, da qual eles fazem parte — os vivos e os mortos.

Porque uma parte é herança e a outra é mistério na história dos Guimaraens. Há pelos menos 200 anos, desde o século XIX, algo empurra os membros dessa família para a literatura, garantindo a sobrevivência de sua memória. Elo mais recente dessa cadeia, Domingos, hoje com 34 anos e poeta, passou os últimos quatro anos em arquivos pessoais e de universidades para contar a história de sua família. O resultado é a tese “Amanhã tudo isso será tinta — Alianças de sangue e escrita entre os Guimarães e Guimaraens”, defendida por ele no doutorado de Letras da PUC-Rio em abril. Nela, Domingos reúne perfis biográficos e críticos de quatro escritores de sua família. É uma história marcada, diz ele, por “laços de sangue e tinta”.

— Digo que é uma mão estranha que nos empurra para a literatura. É um laço de sangue, porque é a mesma família. Mas é um laço de tinta, porque existe um desejo de buscar o outro, reler sua obra e transformá-la. É uma reescritura constante, que tem sim algo de inexplicável e mágico, mas também é racional — afirma.

Domingos conheceu seus quatro antepassados pelas “histórias de ninar” que ouvia quando era criança. O primeiro é Bernardo Guimarães (1825-1884), tio-avô de Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), que latinizou o sobrenome para assinar suas poesias. Este é o pai de João Alphonsus de Guimaraens (1901-1944) e Alphonsus de Guimaraens Filho (1918-2008) — respectivamente o tio-avô e o avô de Domingos.

Bernardo, autor do romantismo, é conhecido por “A escrava Isaura”. O anedotário sobre sua vida é rico. Entre as melhores histórias está o dia em que, indignado com o tratamento dado aos presos na cidade de Catalão (Goiás), onde era juiz, abriu a porta da cadeia e mandou todos embora. Foi processado, mas inocentado. Domingos gosta de ver um ar libertário nesse gesto.

— Meu avô negava essa história. Para ele, proteger essa figura era negar essa história. Para mim é o contrário.

Bernardo também tinha uns versos sacanas. O poema chamado “O elixir do pajé”, impresso clandestinamente e assinado como B.G., fala de um índio com impotência sexual. Conta-se que uma pessoa da alta sociedade foi cobrar explicações ao poeta, e este teria dito: “Só podia mesmo ser coisa do Beato Gregório”. Outra vez, ele ajudou a forjar a morte de Álvares de Azevedo, seu amigo. Conseguiram arrecadar dinheiro para o velório, que foi gasto em bebida. Todos se assustaram quando o “morto” levantou no meio da cerimônia.

MORTE COMUNICADA EM TELEGRAMA

Alphonsus de Guimaraens, o simbolista, escreveu sobre seu antecessor, como é praxe na família. Mas foi a filha de Bernardo, Constança, noiva prometida a Alphonsus, que o marcou muito. Ela morreu jovem — daí a figura da noiva morta ser tão comum em seus poemas. Décadas depois, Alphonsus daria o nome dela a uma filha, que morreu ainda criança. O velho simbolista acabou se matando depois da perda da filha — um fato que a família ocultava, mas do qual Domingos fala abertamente:

— Acho que não é mais preciso esconder essa história.

O telegrama comunicando a morte a João Alphonsus, o filho mais velho, só dizia “morreu repentinamente”. Em dificuldades financeiras, a família mudou-se de Mariana para Belo Horizonte.

A partir da morte de Alphonsus de Guimaraens, o primogênito passa a cuidar da família e da obra do pai e, em 1938, organiza a poesia completa dele, em parceria com Manuel Bandeira. João circula nos meios modernistas, sendo amigo de Carlos Drummond de Andrade e Pedro Nava, por exemplo. Mas os laços de tinta pesam negativamente e, à sombra da reputação do pai, ele prefere fazer carreira com a prosa.

Mas João morre em 1944 e Alphonsus Filho, que se sentia apenas um escudeiro para assuntos literários, assume a responsabilidade pela obra da família. Organiza a poesia e a prosa de Bernardo Guimarães, reedita a obra do pai e do irmão e publica estudos sobre cada uma delas.

É bom lembrar que Alphonsus Filho tinha 3 anos quando o velho Alphonsus morreu. E foi à obra do pai que ele mais se dedicou, inclusive publicando inéditos dele. A correspondência de 40 anos entre Alphonsus Filho e Drummond mostra como este último ajudou ao longo do processo.

“AQUI JAZ O POETA DO LUAR”

Apesar de quase não se falar nas relações entre as duas escolas literárias, as cartas mostram, ainda, como alguns modernistas admiravam o simbolista Alphonsus de Guimaraens.

Mas, entre as histórias sobre o poeta, talvez a mais marcante seja a de seus dois velórios. Quando morreu, o poeta foi enterrado em um túmulo simples, com uma cruz de madeira e as inscrições: “Aqui jaz o poeta do luar”. Mais tarde, o filho caçula, trabalhando no governo de Juscelino Kubitschek, articulou a exumação do poeta e sua transferência para um mausoléu — bem a tempo, porque pouco depois um deslizamento de terra destruiu o lugar do antigo túmulo. Assim, Alphonsus Filho fez um novo enterro para o pai, criando uma memória para si, já que era pequeno demais para se lembrar do primeiro sepultamento. A biografia que ele escreveu do simbolista (“Alphonsus de Guimaraens em seu ambiente”) é narrada como um monólogo no qual o filho conta ao pai a história do próprio pai.

— É como se meu avô criasse um diálogo que nunca existiu com o pai dele. E o segundo enterro é uma forma de criar uma memória que ele nunca teve do pai. Essa uma das minhas influências ao escrever a história da família — afirma Domingos, que ainda tem primos e parentes vivos com uma forte relação com a escrita. Como ele diz, os Guimaraens são espelhos que se miram, se refletem, se refratam, “criando túneis e abismos virtuais”.

Novos livros com poemas atribuídos a Gregório de Matos desmontam imagem do ‘Boca do Inferno’

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Ilustração de manuscrito do séc. 18 que reuniu poemas de Gregório de Matos, supostamente

Ilustração de manuscrito do séc. 18 que reuniu poemas de Gregório de Matos, supostamente

Nelson de Sá, na Folha de S.Paulo

O que se sabe do homem Gregório de Matos e Guerra (1663?-1699?) é muito pouco. Por exemplo, de próprio punho, sobrevive uma única assinatura, no livro de matrícula do curso de direito canônico na Universidade de Coimbra, em Portugal.

Mas ele foi, mais do que um homem, um gênero literário na Bahia do século 17, dizem João Adolfo Hansen, 72, da USP, e Marcello Moreira, 47, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.

No final deste mês, chegam às livrarias cinco volumes com os poemas atribuídos a Gregório, editados e analisados por ambos. Reproduzem o códice (manuscrito em pergaminho com as folhas unidas como num livro) “Asensio-Cunha”, reunido no século 18, antes da lenda.

O Gregório proto-nacionalista e obsceno, imagem que resiste até hoje, teria sido uma invenção dos críticos e historiadores românticos do século 19, diz Hansen. “Eles transformaram a poesia na expressão psicológica de um indivíduo-autor.”

Assim, Silvio Romero (1851-1914) “vai dizer que Gregório não era nem índio nem branco nem negro: já era mazombo, um autêntico nacionalista”. E José Veríssimo (1858-1916) “vai dizer que é um canalha, um neurótico”.

SISTEMA

As visões românticas culminam em Antonio Candido, de “Formação da Literatura Brasileira” (1957), “que afirma que não existe, na Colônia, um sistema coeso de autor-obra-público”. É exatamente o que a nova edição de Gregório refuta.

Autor da história literária mais influente ou, como descreve Hansen, “totem que já virou tabu”, Candido vê ausência de condições materiais no século 17 para a disseminação literária -da proibição de imprensa pela Coroa portuguesa ao analfabetismo.

“Mas hoje a gente sabe que existia um sistema absolutamente consistente”, questiona Hansen. Havia outros modos de escrever e ler, na Salvador então com 30 mil habitantes e no Recôncavo Baiano com 150 mil.

Muitos dos poemas de Gregório são descritos como “Tonilhos para cantar” ou “Letrilhas para cantar”. O próprio levava consigo uma viola de cabaça. “Era prática difusa entre a população pouco letrada”, diz Moreira. “Escravos memorizavam e cantavam as poesias, acompanhando-se de viola.”

Mais importante, as poesias circulavam na Bahia em forma manuscrita, nas folhas volantes que seriam recolhidas depois no códice “Asensio-Cunha”. “As sátiras eram lançadas sob frinchas de portas, à noite, e afixadas em lugares públicos, para serem lidas em voz alta.”

TARADO

Junto com os manuscritos, por vezes, aparecia uma “Vida” do poeta, que “não é uma biografia, como compreendida hoje”. Servia como prólogo, introduzia o poeta como um personagem.

“O que aconteceu a partir do século 19 é que a ‘Vida’ deixou de ser lida como gênero literário e passou a ser lida como documento empírico”, diz Hansen. “E a partir daí a psicologia entrou. O homem era um doente, um nevropata, um tarado.”

A poesia atribuída a Gregório, na realidade, “propõe muitas deformações dos tipos que ela ataca”. Segue as convenções clássicas da sátira, em que “o poeta deve usar maledicência, pornografia, termos chulos”.

Quando desqualifica os índios “pela ideia de que seu pênis é pequeno”, é para atingir “os descendentes de Diogo Álvares e Catarina Paraguaçu, que haviam recebido títulos de nobreza da Coroa”.

O que Gregório —ou quem quer que tenha escrito— afirma é que “a verdadeira aristocracia é branca, católica, tem sangue, família”. Em outras palavras, diz Hansen, “a desigualdade era algo evidentemente natural”.

Distante do Gregório antropofágico dos concretistas ou do “arauto da independência”, o poeta que surge na nova edição “tem a racionalidade da Corte, é integrado à hierarquia, exige que a boa ordem seja mantida”.

Imagem do códice 'Asensio-Cunha', base da nova edição

Imagem do códice ‘Asensio-Cunha’, base da nova edição

Para viver Florbela Espanca, Dalila Carmo mergulhou na vida e obra da poeta

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Atriz portuguesa é a protagonista do longa ‘Florbela’, de Vicente Alves do Ó
Filme português de maior sucesso em Portugal em 2012 é lançado no Brasil

Márcia Abos em O Globo

SÃO PAULO — Dar vida no cinema a uma personagem como a poeta Florbela Espanca (1894-1930) exigiu da atriz Dalila Carmo, de 39 anos, um ano e meio de intensa pesquisa. A intérprete mergulhou na obra da escritora, em seus diários, cartas e manuscritos. Leu três biografias e uma fotobiografia em busca da essência de uma mulher de talento e inteligência extraordinários, de vida atormentada e à frente de seu tempo. O resultado pode ser visto nos cinemas, no filme “Florbela”, o segundo longa-metragem do cineasta português Vicente Alves do Ó, de 42 anos.

Dalila foi convidada para protagonizar o filme em 2010, quando Vicente lhe disse que escrevia o roteiro pensando nela como intérprete da poeta. Lançado em 2012 em Portugal, “Florbela” ficou quatro meses em cartaz, uma marca considerada fora do comum para filmes portugueses.

— Eu sabia que Vicente Alves do Ó estava a me escrever aquele projeto. Mas não criei expectativas em relação a isso até porque em Portugal há quatro ou cinco filmes subsidiados por ano. Por isso, disse, “olha, não quero ouvir falar disso até saber se vai para a frente ou não”. Não queria entusiasmar-me — lembra a atriz, lamentando a crise pela qual passa o cinema e o teatro português, o que tem levado atores como ela a buscar trabalho na TV, em telenovelas.

Ao saber que o filme seria realizado, Dalila sentiu medo e insegurança porque interpretaria “uma pessoa que toda a gente pensa que conhece”.

— Para uns, Florbela era aquela que andava sempre muito triste, que dizia poemas muito tristes. Outros acham que ela era completamente contestatória. Existem muitas leituras fechadas e muitos preconceitos. Eu não tinha sobre ela uma opinião formada. Estudei-a na escola, fazia parte do programa obrigatório. Mas nunca tinha me debruçado sobre ela. Adolescentes se apegam muito a ela, era um bocadinho moda, mas eu, por ser do contra, não — conta Dalila.

Além de mergulhar na leitura da obra da poeta, Dalila procurou pessoas de sua família ou que conviveram com ela. Uma das sobrinhas de Florbela lhe emprestou manuscritos. A atriz também tomou um chá com Aurélia Borges, na época com 98 anos. Ela fora aluna de português de Florbela quando criança.

— Foi Aurélia Borges quem forneceu seis poemas inéditos lançados em Portugal em novembro. Essa conversa foi muito importante para mim. Eu perguntava como era a voz dela. Tinha a necessidade de me agarrar a qualquer coisa mais palpável. Ela descrevia-me certas coisas, mas não me explicava como era a realidade física da Florbela. Era uma descrição mais emocional. Portanto, numa certa altura decidi centrar-me nisso — explica.

Aurélia Borges contou a Dalila que um dia Florbela chegou para dar aula com um chapéu roxo ou lilás, a cor preferida da escritora. O chapéu lhe caia mal e as alunas, com a sinceridade típica da infância, disseram isso a ela. A escritora ficou muito triste, começou a chorar e ficou amuada até o fim da aula.
— Ela não queria chocar. Estava convencida de que as pessoas iam aceita-la. Não havia em Florbela a contestação, a ideia de contrariar conscientemente as regras. Havia o desejo de liberdade. Essa é minha leitura. Apreciava um chapéu ou um vestido não pela vaidade, mas pela porção de beleza que aquele objeto tinha. Numa altura em que isso não era permitido. Seria uma pessoa normal nos dias de hoje. Só que nasceu no tempo errado _ constata Dalila, citando os três casamentos e a excomunhão da poeta e lembrando de quando ela foi apedrejada em Lisboa porque vestia calças.

O diretor compartilhou a interpretação de Dalila sobre a personagem, retratando-a como uma mulher com fome de vida e de liberdade. Optou por centrar a atenção do filme em quatro dias decisivos na vida de Florbela, quando ela se casa, pela terceira vez, com o médico Mário Lage (interpretado por Albano Jerónimo) e encontra seu irmão mais novo, o aeronauta Apeles (Ivo Canelas), em Lisboa numa licença de quatro dias do trabalho.

— Vicente me disse “quero que faça a tua interpretação sobre o universo pessoal dela. Quero que a câmera apanhe o que te vai dentro da cabeça”. Tentei, portanto, fazer um retrato psicológico dela. Uma das imagens muito presente de Florbela que me chegou naturalmente é sempre aquela ambivalência. De estar fisicamente num lugar e ter a cabeça em outro. Aquela eterna inquietação. Aquela ausência. Essa permanente inquietação foi minha grande prioridade —revela a intérprete, que mesmo depois de concluídas as filmagens leu uma quarta biografia da escritora, lançada em novembro em Portugal, para saber “o que acrescentaria” em sua composição.

Apesar de haver muitos escritos e fotos de Florbela, não há registros filmados da autora. Tampouco foram feitos filmes sobre ela. “Florbela” é o primeiro.

— Ninguém sabe na realidade quem ela foi. As pessoas quando vão ver um filme sobre uma personagem da vida real estão à espera de uma versão fechada. Esperam que o filme responda se suicidou ou não. Se teve ou não uma relação incestuosa com o irmão. Vicente preferiu deixar o caminho aberto para o público interpretar como quiser. Quis revelar a mulher, sua essência. Eu como atriz trabalho assim. Ao me escolher, ele esperava que eu fizesse isso. Essencialmente, foi uma aproximação ao espírito, à alma, à inquietação da poeta. Procurei a Florbela dentro de mim e encontrei a minha Florbela. E no fundo é um filme sobre muitas mulheres. Porque há muitas Florbelas, há muitas mulheres que se veem nessa literatura, nessa personagem — conclui Dalila.

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