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O que seria da literatura numa “escola sem partido”?

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Aluna de uma escola estadual do Rio de Janeiro. Alessandra Coelho/PMRJ

Aluna de uma escola estadual do Rio de Janeiro. Alessandra Coelho/PMRJ

 

Dom Casmurro, de Machado de Assis, continuaria a ser um romance de adultério

José Ruy Lozano, no El País

Aconteceu em meados de 1990. O aluno, de família religiosa, dirige-se ao professor e afirma, em alto e bom som: “Não vou ler esse livro aí, é obra de Satanás”. A obra em questão era Noite na taverna, de Álvares de Azevedo, o romântico brasileiro discípulo de Byron e Musset, que temperou os enredos de seus contos com cemitérios, crânios humanos e orgias à meia-noite.

À época, não havia sombra do debate sobre a “escola sem partido”, frequente no ambiente de extrema polarização política que hoje toma conta do Brasil. Mas o fato – verídico – revela a impossibilidade de trabalhar com a literatura numa escola pretensamente neutralizada de qualquer questionamento histórico, político, social ou comportamental.

Para os defensores da ideia de uma “escola sem partido”, que ameaça a educação nacional, Dom Casmurro, obra-prima de Machado de Assis, continuaria a ser um romance de adultério. E Capitu, a Madame Bovary dos trópicos, a Anna Kariênina que pudemos ter. A interpretação hoje consagrada do narrador ambíguo e não confiável, representante da elite patriarcal brasileira, que suprime sua insegurança impondo cruel desterro à esposa, seria considerada esquerdismo militante, influência feminazi talvez. Para eles Capitu é culpada, não há dúvida.

Seria possível ignorar que romances como Vidas secas, de Graciliano Ramos, e Capitães da areia, de Jorge Amado, não sejam obras engajadas no debate político e social brasileiro do período – anos 30 do século passado – e ainda atuais nos dias que correm? Para os patronos da “escola sem partido”, todo o teor de denúncia social de obras como essas deveria ser ignorado, bem como qualquer diálogo com a realidade do jovem que ainda se depara com carências similares e injustiças idênticas.

Num exercício de reductio ad absurdum, imaginemos o professor de literatura brasileira apresentando aos alunos do Ensino Médio o poema narrativo O navio negreiro, de Castro Alves. Se o poeta toma partido dos escravos e critica a economia que engendrou o trabalho servil, logo teríamos os “apartidários” defendendo a discussão do outro lado: “Seria preciso ouvir a voz dos senhores, senão estaremos tomando partido em nossas aulas! ”

Podemos recuar mais e mais na discussão e perguntar o que foram os primeiros escritores do Brasil independente senão ideólogos de um projeto político de constituição da nacionalidade, para além de seus inquestionáveis méritos artísticos. Os índios de Gonçalves Dias e José de Alencar existiriam fora do processo de construção social a que se devotaram os dois autores? Certamente não.

Até nas mais remotas obras da literatura portuguesa encontramos dificuldades semelhantes. Quando Gil Vicente apresenta em suas peças de teatro o padre lascivo e o comerciante ladrão, o professor se verá na contingência de fazer o contraponto. Para amenizar a crítica religiosa, ler, talvez, trechos da vida dos santos? Tecer elogios às virtudes do livre-mercado a fim de dirimir a acusação ao capitalismo predatório?

Sombrios os tempos em que somos obrigados a reafirmar a literatura não só como experiência de linguagem e veículo de sensibilidade mas também de conhecimento, de tomada de consciência do mundo. Os abnegados sem partido recitariam os versos de Ferreira Gullar sem perceber a acidez irônica que o poeta militante lhes dá: “O preço do feijão/não cabe no poema. O preço/do arroz/não cabe no poema (…)/Como não cabe no poema/o operário/que esmerila seu dia de aço/e carvão/nas oficinas escuras/(…) Só cabe no poema/o homem sem estômago/a mulher de nuvens/a fruta sem preço”. Ou, então, caberia ao professor explicar a política econômica da atual gestão e das que a antecederam. Sem tomar partido, é óbvio.

José Ruy Lozano é professor do Instituto Sidarta e autor de livros didáticos.

Editora recusa livro para ‘não engrossar o caldo do impeachment’ e Fla-Flu das redes sociais vai para o mundo literário

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Antonio Risério: “Tudo está acima do Fla-Flu das redes sociais” Foto: Divulgação

 

Gustavo de Almeida, no Extra

O escritor baiano Antonio Risério teve um romance cancelado nesta terça-feira pela Editora 34, que havia lançado dois livros de sua autoria em 2007 e 2012. Segundo email recebido por Risério, a principal justificativa da editora era “não engrossar o caldo do impeachment”. Em menos de 24 horas, o editor Carlos Andreazza, da concorrente Record, fez proposta a Risério de lançar o romance – que estava programado para sair em junho.

– Fiquei sabendo por e-mail. Achei triste, coisa que remonta às velhas práticas stalinistas que pareciam ter sido sepultadas. E isso de uma gente que hoje publica autores russos que Stalin condenou… ninguém olha mesmo para o próprio rabo. Mas não teve nada de terrível, não. Minha educação trotskista da juventude me preparou para todo e qualquer tipo de embate, sempre jogando limpo – disse Risério ao EXTRA.

Andreazza defende que as editoras promovam o debate das ideias Foto: Guito Moreto / Agência O Globo

Andreazza defende que as editoras promovam o debate das ideias Foto: Guito Moreto / Agência O Globo

 

Procurada, a Editora 34 não respondeu até o fim da tarde desta quarta-feira. No comunicado feito a Risério, a editora argumentou ao escritor que os defensores do impeachment estão usando medidas criminosas: “Em face do acirramento da crise, com a turma pró-impeachment apelando para medidas ilegais e até criminosas para levar a cabo, a qualquer custo, a derrubada do atual governo (…), nós, editores e diretores da 34, não nos sentiríamos bem engrossando esse caldo. Num momento em que o bom senso e a reflexão crítica estão indo por água abaixo, o seu livro poderia ser instrumentalizado nesse sentido”.

Segundo o escritor, a obra fazia referência ao marketing político usado pela presidente Dilma Roussef na campanha eleitoral de 2014. O curioso: Risério é contra o impeachment da presidente.

– Impeachment não é golpe, mas não acho que seja o melhor caminho. Fico com a Rede e o PSOL: minha opção é a via eleitoral. A minha postura é clara. O sistema político brasileiro apodreceu e merece cair por inteiro. Fernando Henrique e Lula foram fundamentais para que isso acontecesse: jogaram fora, cada um a seu modo, a oportunidade histórica que tiveram de reinventar a política no Brasil. Ao contrário dos mártires cristãos, Lula não está pagando por suas virtudes, mas por seus pecados – explicou o autor.

Risério, de esquerda, fará parte do mesmo catálogo que o direitista Constantino Foto: Marco Antônio Teixeira

Risério, de esquerda, fará parte do mesmo catálogo que o direitista Constantino Foto: Marco Antônio Teixeira

 

Na Record, o esquerdista Risério terá a companhia de, por exemplo, Rodrigo Constantino, autor de “Esquerda Caviar” e detrator do governo do PT. Mas ele é muito claro:

– Tudo está acima do Fla-Flu das redes sociais. Uma editora supostamente “de esquerda” me censurou. Outras editoras fizeram propostas. Entre elas, a Geração Editorial, do Emediato, que é considerada “de esquerda”, e a Azougue, do Sérgio Cohn, que tende para um saudável libertarismo algo anarquista. A Record chegou primeiro. Na minha memória, quando ouço o nome Record, ocorre-me logo a figura do generoso comunista Jorge Amado. Agora, não temo nada. Nem ando ao lado de Collor, Calheiros ou Maluf e outros bandidos… Tenho a minha vida e o meu trabalho. E só converso em cima disso – disse.

O editor da Record, Carlos Andreazza, elogia Risério – “um pensador independente” – e nega que haja qualquer necessidade de se publicar apenas escritores de um só perfil ideológico.

– A Record é uma editora plural e publica – e quer publicar – todos aqueles que, dentro da lei, são vozes relevantes e representativas. É o caso, por exemplo, do Rodrigo Constantino. São 74 anos de existência e de compromisso com o debate público. Nós, aliás, queremos abrigar o debate aqui dentro. É o papel de uma editora. O editor que temer “acirramento” de estigma deve procurar outra ocupação – diz

 

Escolas ocupadas em SP recebem mais de mil ofertas de aulas grátis

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Formulário recebeu mais de 1.300 voluntários em oito horas, diz grupo.
Dezenas de escolas são ocupadas por alunos contra a reestruturação.

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Publicado em G1
Um formulário publicado na internet no começo da tarde desta terça-feira (18) já tinha, às 20h, mais de 1.200 ofertas de aulas “doadas” por adultos nas escolas ocupadas por alunos contra o projeto de reestruturação planejado pelo governo estadual. Segundo o Hub Livre, grupo que apoia movimentos por meio de ferramentas nas redes sociais e que criou a proposta, o link para o formulário começou a ser divulgado às 13h30. Durante a tarde, o link viralizou nas redes sociais.

Segundo os resultados parciais do formulário, às 19h15, já havia 1.076 ofertas individuais de pessoas e grupos interessados em oferecer aulas, palestras e oficinas aos estudantes que protestam dentro das escolas. Às 19h30, o formulário registrava 1.136 respostas. Às 20h, já eram 1.204 voluntários e, às 20h30, o número chegou a 1.323.

O G1 procurou a assessoria de imprensa da Secretaria de Educação Estadual de São Paulo para saber se voluntários estarão autorizados a entrar nas escolas ocupadas. Em nota, ela afirma que “as atividades colaborativas propostas pelos manifestantes durante o processo reorganização da rede escolar não seguem o currículo oficial do estado, que conta com atividades específicas para cada disciplina proposta no caderno do aluno.”

A Secretaria declara também que haverá reposição do conteúdo perdido nas unidades ocupadas entre 18 e 23 de dezembro. “A Pasta reafirma que a reorganização é um processo democrático e visa melhorar a qualidade de ensino dos estudantes e apromorar as condições de trabalho dos educadores”, afirma a nota.

O Hub Livre estima ter recebido, em média, 3,5 voluntários por minuto durante a tarde desta terça. Entre as ofertas estão aulas “regulares”, como história, biologia, matemática e filosofia, e outros tipos de aulas livres, incluindo astronomia, italiano, permacultura, educação financeira, redução da maioridade penal, Língua Brasileira de Sinais (libras), ritmo e percussão, yoga, drogas e redução de danos, jornalismo e alimentação saudável.

A maior parte dos voluntários se dispõe a ficar com os estudantes entre uma e duas horas. Cerca de um terço das pessoas interessadas em apoiar as ocupações estão dispostas a “doar” aulas em qualquer uma das escolas atualmente ocupadas.

Um destes voluntários é o arte-educador Amilcar Zanelatto, de 54 anos. Morador de São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, ele afirmou que foi professor na rede pública estadula durante 12 anos, mas atualmente trabalha com projetos de artes ligados à educação.

Zanelatto diz que estudou na rede pública até o fim do ensino médio. “Até ingressar numa faculdade, fiz licenciatura em artes plásticas na Faap [Fundação Armando Álvares Penteado]”, contou ele ao G1. Ao ficar sabendo do projeto que pretende reunir voluntários para apoiar as ocupações, ele decidiu participar oferecendo uma oficina sobre acessibilidade e direitos das pessoas com deficiência.

“Essa é uma luta por um direito que é um direito inalienável. Então é a mesma luta que nós, pessoas com deficiência, travamos para atingirmos o direito de acesso à educação,
à saúde e a uma série de outras conquistas. E há uma semelhança nesse movimentos dos estudantes, há muita semelhança com movimentos dos quais participei nas década de 80”, relembrou ele.

A Secretaria de Educação do Estado de São Paulo mencionou, na mesma nota, índices relacionados à qualidade de ensino. Dentre eles, é citada a classificação de São Paulo como o segundo melhor ensino médio do país, de acordo com o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

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Aula de política
O consultor político Vítor Oliveira, de 28 anos, foi outro que decidiu contribuir com o protesto compartilhando seus conhecimentos. Formado em relações internacionais pela Universidade de São Paulo (USP), e com mestrado em ciência política, o jovem, que é sócio de uma consultoria política, afirma que já tem experiência como professor de cursos livres de educação política e direitos humanos.

“Não acho que seja ilegítimo do governo estadual propor uma reorganização, ainda que implique fechamento de algumas escolas”, explicou ele ao G1. “Mas, do ponto de vista da gestão democrática das escolas, que é uma necessidade, acho muito ruim que estudantes, professores e pais não tenham sido ouvidos nessa reorganização.”

Oliveira diz que se ofereceu para “doar aulas” no seu próprio tempo livre, sem vínculo com seu trabalho, e que está disponível para conversar com os estudantes das escolas na Zona Oeste de São Paulo, mais próximas de seu trabalho e de sua casa.

O jovem afirmou que não pensou em contribuir com os protestos com doações. “Não tinha pensado em fazer isso porque não tenho conhecido meu que está envolvido, então seria muito até um pouco ilegítimo da minha parte. Mas a partir do momento que estão pensando em aulas livres, em discussões, se torna mais razoável a minha participação”, disse.

“Não tem nada que me agrada mais nesse mundo do que gente que quer discutir e refletir sobre essas questões. É por isso que pensei na participação dessa forma”, afirmou o consultor.

“Livro não dá dinheiro, só da Ibope”

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Para autor da periferia, a elite e a imprensa conseguem fazer com que o povo fique contra o povo. “O culpado é a vítima. Sempre”

/ , no El País

Título original:“Até hoje eu não sei o que é pior, a igreja ou a droga”

O escritor Ferrez. / Fernando Cavalcanti

O escritor Ferrez. / Fernando Cavalcanti

“Vocês não vão fechar a minha loja, né? Aqui é o meu ganha pão”, perguntou Ferrez, ao ver o cenário que o fotógrafo montava para fazer a foto ao lado, ocupando casi todo el espacio. O escritor acabava de chegar, pontualmente no horário combinado para essa entrevista, à sua loja, a 1DASUL, no Capão Redondo. O bairro, que fica a mais de uma hora de distância do centro de São Paulo, abriga a loja de roupas e acessórios que o escritor paulistano de 39 anos criou há 16 anos. “Livro não dá dinheiro, só da Ibope”, diz ele, que está prestes a publicar seu 11º livro, Os ricos também morrem, pela Editora Planeta. A pergunta, que assustou, foi seguida de piada.

Autor da chamada ‘literatura marginal’ ou ‘literatura combativa’ – ou os dois, Ferrez começou a escrever aos sete anos, copiando trechos da Bíblia porque “era o único livro que eu tinha na mão”. Aos 12, escrevia poesia. Em 1997, lançou o primeiro livro de poemas. Seu pai, que foi motorista a vida toda, levou carne para a família comer pela primeira vez quando Ferrez tinha 15 anos. A realidade na periferia vivida pelo escritor é o que alimenta as linhas agressivas dos seus textos. Crítico e ácido, Ferrez é também irônico e engraçado, características muito expostas nos contos que serão publicados no novo livro.

Nasceu em Valo Velho, um bairro pertencente ao Capão Redondo, na zona sul de São Paulo. Foi para o Capão com três anos de idade, onde vive até hoje com a mulher e uma filha. Não pensa em sair de lá, ainda que seja um dos bairros mais perigosos de São Paulo. Pouco após o término dessa entrevista, houve um assassinato em uma rua próxima de onde estávamos, segundo informava a rádio. Ferrez não cogita ir embora do bairro por duas razões. A primeira é que “aqui eu sou importante. Em outro lugar, eu não sou nada”. E a segunda tem a ver com a sua própria literatura e sua própria voz: “Daqui eu tiro o tom das minhas histórias”.

Pergunta. Seu novo livro é feito apenas de contos inéditos?
Resposta. Não, já publiquei alguns. Mas eu fiz esse livro para ser falado na rua, para ser uma piada. Eu queria sentir o que eu senti quando escrevi Capão Pecado (seu primeiro romance, publicado em 2000) e o Manual Prático do Ódio (2003), que é ver as pessoas comentarem sobre os personagens nas ruas…

P. Isso acontecia?
R. Muito. As pessoas me paravam na rua e diziam “meu, e aquela mina é mó pilantra, traiu o cara…” Eu ia nas escolas e os alunos me paravam para perguntar sobre um capítulo do livro. Me ligavam da cadeia pra perguntar do Manual Prático do Ódio. Me diziam “mano, não to entendendo, fala aí, o que que quer dizer isso?”. E eu dizia: mano, cê tá falando de onde? De [presídio] Presidente Bernardes? Para, to fora”.

P. E você queria que isso acontecesse de novo?
R. Sim, porque deu saudade de ver as pessoas comentando. O que eu tinha era isso, eu não tenho mais nada além de ver as pessoas lendo as minhas histórias e comentando comigo. Eu cheguei a escrever um livro com contos mais formais e tinha uns oito contos prontos.

P. Formais, você quer dizer com uma linguagem menos coloquial que essa sua?
R. Isso. E aí eu estava numa festa e queria fazer as pessoas rirem, e aí eu começava a dizer: você viu a história do Bolonha?, aí eu contava a história do Bolonha, as pessoas começavam a rir… E aí eu ia ler meus contos novos, esses mais formais, e ninguém prestava atenção. E eu falava: O que foi? E as pessoas: Conta a história do Bolonha, mano. Mas aquilo era uma brincadeira, eu dizia. Não, mas aquilo é mais da hora que isso aí. Aí eu escrevi esses contos e passei a ler eles nas escolas. A história do pintinho é a mesma coisa (um dos contos do novo livro). A história do ovo também é boa, onde eu vou as pessoas pedem. Na Alemanha já me pediram “conta a história do ovo”.

P. Mas são ficções então? Não são histórias reais.
R. Não, mas eu pego o tom das pessoas.

P. É por isso que você precisa viver aqui no Capão Redondo…
R. Isso. Eu não pego a história, eu pego o tom das pessoas. Se uma mulher passa aqui [na padaria onde estávamos] e diz “para de beijar o menino, tira essa boca de chupar rola do menino”, isso é muito foda! (risos) Eu tenho que escrever um conto com isso. Se você falar isso na escola, você ganha todo mundo. Eu fico convivendo com essa mulher dentro de mim e incorporo nos contos.

P. Mas você tem um tipo de literatura combativa…
R. Eu não fujo disso. Todo lugar que eu estou no mundo, quando estou falando de literatura combativa, tem autor que diz que não tem esse compromisso, que não é prisioneiro disso ou daquilo. Eu acho lindo isso, mas não tem como você escrever uma coisa, sair na esquina, ver um cara morto e não sentir nada. Se você consegue fazer isso, boa sorte. Mas eu não consigo.

P. Sim, mas é um eterno debate entre os escritores que não querem compromisso e os que querem mudar as coisas através da literatura, que é uma ideia velha… Na Europa, por exemplo, muita gente diz que ser combativo na literatura é uma ideia velha, ultrapassada…
R. Mas agora que a Europa está entrando em crise, talvez voltem a ser mais combativos. É que eles viveram da América Latina por muito tempo, sugaram tudo o que a gente tinha em termos de ouro, de madeira, levaram as nossas pedras pra lá pra fazer o chão onde hoje eles pisam, passaram séculos sem trabalhar. Agora, talvez eles voltem a ser combativos.

P. Você acha que os livros podem mudar a vida das pessoas daqui do Capão Redondo?
R. Eu tenho prova [de que isso é possível] todas os dias. Tem gente aqui que já está na segunda faculdade e o primeiro livro que leu foi o meu. Eu não sou salvador de ninguém. Mas não sou o contraexemplo também. O cara não vai me ver fumando maconha na rua, batendo na minha mulher. Eu lido com criança também. Eu faço livro pra criança e tenho um projeto pra criança. Se eu entrar para falar com a criança e estiver bêbado, que exemplo eu vou estar dando? Todo mundo bebe na favela. Não precisam de mais um. Todo escritor tem essa coisa de pagar de louco, beber, fumar. Mas aqui é outra realidade. O moleque apanha do pai que bebe. Então não dá pra ser assim. De vez em quando eu tomo uma cachaça com um amigo ou outro. Mas os caras aqui ostentam. Porque tudo pra pobre é excesso. Ele tem que beber e encher essa mesa de cerveja, pro vizinho dele ver e falar “porra, o cara tá abonado, bebendo 200 cervejas”.

P. Você disse no ano passado, em uma entrevista, que “o rolezinho era só o começo”. No que mais deu esse movimento da periferia?
R. Eu acho que não é um movimento. É a aceitação de um novo país. É as pessoas estarem preparadas para entender que tem gente que ascendeu financeiramente e que tem que participar das coisas boas que aquela faixa de consumo pode alcançar. Ter acesso ao shopping faz parte, comprar tênis de marca faz parte, andar de avião faz parte. Tem um monte de coisa que faz parte, só que a gente [a periferia] tem um jeito diferente de fazer as coisas e essa elite vai ter que entender isso.

P. Todo mundo está falando da chegada de uma crise econômica nesse momento. Como você, que além de escritor também é empresário, sente isso? A crise chegou na favela?
R. Pra gente nunca foi fácil. Enquanto está todo mundo falando que está bem, pra gente sempre foi pior. Mas de dezembro do ano passado pra cá piorou muito. Hoje mesmo eu estava (mais…)

Vargas Llosa: “Escritores têm de dar contribuição à política”

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O mundo se despediu, no mesmo dia, de dois ícones da literatura politicamente engajados: Günter Grass e Eduardo Galeano. Em entrevista à DW, o autor peruano Mario Vargas Llosa analisa o legado deixado por ambos.

Publicado no DW

A Europa e a América Latina sofreram grandes perdas nesta segunda-feira (13/04), com a morte dos escritores Günter Grass e Eduardo Galeano, ícones da literatura contemporânea.

Ambos eram engajados politicamente. Enquanto o alemão se tornou uma espécie de instância moral com relatos sobre os dramas vividos na Segunda Guerra e debates políticos na Alemanha, o uruguaio se tornou a voz dos oprimidos na América Latina.

Para outro ícone da atual literatura mundial, o peruano Mario Vargas Llosa, o alemão Grass foi um dos escritores mais importantes do século 20. “Günter Grass foi um modelo de escritor que infelizmente está desaparecendo. Ao mesmo tempo em que desenvolvia uma obra criativa, ele foi um escritor comprometido, que participou muito ativamente do debate público e das atividades cívicas”, disse Llosa, em entrevista exclusiva à DW.

Llosa, que, assim como Grass, também foi agraciado com o Nobel de Literatura, enalteceu o empenho do alemão em defender suas posições políticas em seu país, mas lembrou também um desentendimento que teve com o escritor alemão. “Günter Grass, infelizmente, representava muito a visão de dois pesos e duas medidas de muitos intelectuais europeus: para a Europa, a democracia, a civilização, mas para a América Latina, a utopia, guerrilheiros, bombas, guerra civil, revolução.”

Já as divergências políticas com Galeano foram maiores. “Nós estávamos, por assim dizer, em polos distintos, o que não me impede de reconhecer que ele tinha uma formação intelectual de muito alto nível”, comentou Llosa.

Deutsche Welle: Como o senhor recebeu a notícia das mortes de Günter Grass e Eduardo Galeano?

Mario Vargas Llosa: Com muito pesar, porque se trata de dois escritores importantes. Acredito que Günter Grass, que foi novelista, ensaísta e artista, é um dos grandes escritores do século 20. Sobretudo temos que recordar o romance O tambor, com o qual ele se tornou famoso, que acredito ser um dos grandes romances do século 20. Não somente pela riqueza de sua linguagem, mas também pelo valor simbólico da história que conta, que de alguma maneira reflete o terrível drama político e social que viveu o século 20 [Segunda Guerra Mundial]. Creio que seja um romance que mereceu a enorme popularidade que teve e, sem dúvida, deve figurar entre os romances mais importantes do século passado.

"Acredito que Günter Grass seja um dos grandes escritores do século 20", enaltece Llosa

“Acredito que Günter Grass seja um dos grandes escritores do século 20”, enaltece Llosa

Fora isso, acho que Günter Grass foi um modelo de escritor que infelizmente está desaparecendo. Ao mesmo tempo em que desenvolvia uma obra criativa, ele foi um escritor comprometido, que participou muito ativamente do debate público e das atividades cívicas. Acredito que atualmente haja esse tipo de escritor com cada vez menos frequência. Infelizmente, porque acredito que os escritores têm de contribuir para a vida política, tanto na linguagem como no campo da imaginação, da fantasia, que deveria ser um ingrediente importante na vida política.

No caso de Eduardo Galeano, bem, ele foi sobretudo um ensaísta. Meus pontos de vista políticos são muito diferentes dos de Galeano. Nós estávamos, por assim dizer, em polos distintos, o que não me impede de reconhecer que ele tinha uma formação intelectual de muito alto nível. Foi, aliás, magnífico diretor de duas importantes revistas culturais.

Creio que suas teses sobre a América Latina estavam completamente equivocadas. O livro que o fez ficar famoso e que foi difundido mundo afora, As veias abertas das América Latina, apresenta uma descrição completamente caricatural de um, digamos, dogmatismo marxista, que torna caricata e falsifica profundamente a realidade da América Latina.

Porém, creio que devemos reconhecer em Galeano também um talento literário, uma qualidade intelectual e também a sua participação voluntária na vida cívica, na vida política de nosso tempo. Algo que, infelizmente, vem sendo cada vez menos frequente, sobretudo nas gerações mais jovens de escritores.

Em contextos diferentes, ambos escritores foram politicamente ativos. No caso de Grass, houve polêmica por seu ativismo político. Esse compromisso de Grass te incomodou?

Não, pelo contrário. Ele defendeu umas posições em seu país que me pareceram sempre muito respeitáveis. Ele enfrentou a extrema esquerda e os comunistas, porque acreditava na democracia. Ele defendeu a social-democracia, defendeu o partido socialista alemão, um partido democrático.

Llosa sobre Galeano:"Suas teses sobre a América Latina estavam completamente equivocadas e apresentam um dogmatismo marxista que falsifica a realidade"

Llosa sobre Galeano:”Suas teses sobre a América Latina estavam completamente equivocadas e apresentam um dogmatismo marxista que falsifica a realidade”

Minha polêmica com ele foi porque ele disse que os latino-americanos deveriam seguir o exemplo de Cuba, então, eu respondi dizendo que havia uma enorme contradição em defender a democracia para a Alemanha e defender o comunismo para os latino-americanos. Por quê? Qual é a diferença fundamental entre os latino-americanos, pela qual devemos sofrer ditaduras comunistas, e os europeus, para que esses possam viver democracias multipartidárias, com liberdade de expressão, com respeito aos direitos humanos? Essa foi a razão para o nosso desentendimento.

Nesse ponto, acho que Günter Grass, infelizmente, representava muito a visão de dois pesos e duas medidas de muitos intelectuais europeus: para a Europa, a democracia, a civilização, mas para a América Latina, a utopia, guerrilheiros, bombas, guerra civil, revolução. Essa visão completamente romântica e antiquada tem prejudicado muito a América Latina. Muitos europeus incorporaram essa visão mítica e realmente profundamente falsa do que é a realidade latino-americana.

Essa foi a razão para a controvérsia que tivemos, mas a polêmica não interrompeu a nossa amizade. A verdade é que fomos amigos até o fim e, cada vez que nos vimos, tivemos uma relação não apenas cordial, mas às vezes bem divertida.

De forma sucinta: quão grande é a perda para a literatura?

Acho que o trabalho de Grass é um trabalho sólido, que inspirará uma série de romances no futuro. Principalmente O tambor, que classifico como um grande romance, assim como Anos de cão, outro romance que creio que está entre os melhores.

E depois, há romances que foram tentativas interessantes, porém, digamos, falhas. Ele escreveu vários romances que eram muito audaciosos como tentativa, mas acredito que não como realização. Estou pensando, por exemplo, em O pregado, que é um romance no qual ele trabalhou duro e que, no entanto, acho que não deu certo, que é muito mais prolixo do que bem-sucedido. Mas o interessante é que ele se arriscou, não é verdade?

Ele escrevia coisas ousadas, queria renovar o gênero não só de forma temática, mas também estilística e estrutural. E depois, há os depoimentos autobiográficos, que são muito interessantes, porque expressam a sua época. Sem dúvida, Günter Grass será lembrado como um dos importantes escritores de nossa era.

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