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Como é estudar em uma escola “sem regras”

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Bruna Rasmussen, no Hypeness

Uma garotinha sobe em uma árvore. De galho em galho ela se diverte, até que pede ajuda, não consegue descer. “Se subiu, desce”, diz o homem. Ela tenta, tenta e por fim consegue. Em poucos segundos, está no alto novamente: aprendeu a descer. Em torno dela, dezenas de crianças brincam com pedaços de madeira velha e canos, escalam grades, andam de patinete e dão cambalhotas – não há adultos por perto. Essa grande bagunça é o recreio das crianças da Swanson Primary School, em Auckland, Nova Zelândia, e o homem é Bruce McLachlan, diretor que implementou na escola a política de zero regras.

“Nós queremos que as crianças estejam seguras e queremos cuidar delas, mas acabamos embrulhando-as em algodão enquanto que elas deveriam poder cair“, diz Mclachlan ao criticar a forma com que tratamos as crianças. A iniciativa do intervalo sem regras partiu de um experimento feito por duas universidades locais. A ideia é que ao dar às crianças a responsabilidade de cuidar de si mesmas, dá-se também a oportunidade de aprenderem com seus próprios erros. “Quando você olha para o nosso parquinho, parece um caos. De uma perspectiva adulta, parece que as crianças vão se machucar, mas elas não se machucam“, afirma.

Ao manter as crianças livres para se divertir e sem se preocupar com o que é ou não permitido, foram registrados menos acidentes, casos de bullying e vandalismo, enquanto que a concentração das crianças nas aulas e a vontade de ir à escola aumentaram. O experimento deu tão certo que se tornou uma política permanente da escola.

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Todas as imagens: Reprodução

Você passaria em uma entrevista para estudar na Universidade de Oxford?

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Uma das melhores universidades do mundo divulga exemplos das temidas questões feitas durante seu processo seletivo; confira se você convenceria os examinadores.

Publicado no G1[ via BBC Brasil]

 

Universidade de Oxford, no Reino Unido (Foto: Divulgação/Nasir Hamid/University of Oxford)

Universidade de Oxford, no Reino Unido
(Foto: Divulgação/Nasir Hamid/University of Oxford)

As entrevistas de seleção para a Universidade de Oxford – uma das melhores do mundo segundo rankings internacionais – são temidas pelos estudantes por conterem perguntas imprevisíveis e pouco convencionais.

Em uma tentativa de desmistificar seu processo de seleção e torná-lo mais transparente, a universidade divulgou uma lista com perguntas feitas aos que se candidatam a vagas na instituição em cursos de diferentes áreas do conhecimento.

Confira abaixo dez dessas perguntas e, em seguida, nas palavras dos próprios examinadores, explicações sobre o que elas de fato estão tentando descobrir.

1. Biologia

Owen Lewis, Brasenose College

Se você tivesse que escolher entre salvar florestas tropicais ou barreiras de corais, qual você salvaria?

Espera-se que o candidato seja capaz de usar seus conhecimentos gerais e senso comum para formular uma resposta. A pergunta não requer conhecimentos detalhados. O estudante pode talvez ser indagado sobre a importância da biodiversidade e das espécies raras. E sobre recursos de interesse humano – como combustível, alimento, ecoturismo e remédios – que provêm das florestas e recifes de corais, ou dependem deles.

Finalmente, é preciso considerar o impacto da mudança climática, erosão do solo, poluição, extração da madeira, combustíveis renováveis, pesca predatória etc. “A resposta final não interessa”, diz Lewis. “Ambos, floresta e recifes, precisam ser administrados de maneira sustentável para que se encontre um equilíbrio entre as necessidades do homem e a necessidade de conservação”.

2. Engenharia

Byron Byrne, Department of Engineering Science

Como você projetaria uma barragem de gravidade para represar água?

Primeiro, o candidato deve determinar as forças agindo sobre a barragem antes de considerar a estabilidade da parede quando submetida à ação dessas forças. Os candidatos provavelmente reconhecerão que a água pode empurrar a barragem. Então, espera-se que eles construam expressões matemáticas simples para prever quando isso ocorreria. Alguns talvez discutam possíveis falhas por deslize, questões de desenho estrutural e os efeitos de infiltrações de água na barreira, por exemplo.

O canditato não terá estudado todos esses assuntos na escola, então será orientado para que se avalie quão rapidamente as novas ideias são absorvidas. A pergunta também investiga a habilidade do candidato de aplicar física e matemática a novas situações e pode testar seu interesse e entusiasmo pelo campo da engenharia.

3. Literatura Inglesa

Lucinda Rumsey, Mansfield College

Após o enorme sucesso da série de livros de Harry Potter, a autora, JK Rowling, acaba de publicar um livro para adultos. De que forma, na sua opinião, escrever livros para crianças é diferente de escrever para adultos?

Candidatos que cresceram lendo as histórias de Harry Potter talvez tenham lido o novo livro de Rowling. É possível que tenham refletido sobre a mudança na audiência da escritora e sobre sua própria passagem, enquanto leitores, de crianças a adultos.

Mas mesmo aqueles que não tenham lido a obra de Rowling podem falar a respeito de si próprios como leitores, sobre a maneira como abordam diferentes tipos de livros, sobre formas como escritores desenvolvem o conjunto de suas obras e escrevem para públicos diferentes.

Interessa ao examinador saber – quaisquer que sejam os livros que o candidato esteja lendo – se o estudante está lendo de forma ponderada e consciente, e se é capaz de pensar como um crítico literário sobre todos os livros que lê.

Nem todos os candidatos têm o mesmo acesso a uma grande variedade de livros, portanto, o examinador busca fazer sua avaliação com base no que o candidato sabe, não no que ele não sabe.

“Se eu perguntasse essa mesma pergunta em relação a Shakespeare, alguns candidatos talvez tivessem uma opinião sobre a produção literária dele, mas muitos não teriam”, disse a examinadora, professora Lucinda Rumsey, do Mansfield College, Oxford.

“Se eu começo com Harry Potter, todos têm pelo menos um ponto de partida, de reconhecimento. E acho que Rowling merece uma menção, tenho certeza de que muitas pessoas que estão se inscrevendo neste ano para estudar inglês na universidade tornara-se leitoras ávidas por causa dos livros dela”.

4. Ciência dos Materiais

Steve Roberts, St Edmund Hall

Quão quente precisa estar o ar dentro de um balão para que ele seja capaz de erguer um elefante?

O examinador diz que nas vezes em que perguntou essa questão em entrevistas, nenhum candidato conseguiu chegar a uma temperatura exata no tempo reservado para a resposta – dez minutos. “Mas não esperávamos que eles conseguissem,” explica. “Usamos esse tipo de pergunta para tentar descobrir como os candidatos pensam sobre problemas e como se comportariam em uma aula dirigida”, ele explica.

Roberts diz que esclarece isso aos candidatos antes mesmo de fazer perguntas desse tipo. Ele diz que o que está tentando avaliar é quão rapidamente o estudante consegue chegar ao cerne do problema. Por exemplo, quais são os princípios elementares de física em jogo aqui? Que conceitos e que equações seriam úteis? De que maneira o candidato responde a sugestões e pistas? Como ele aborda conceitos básicos e identifica as questões mais importantes: Afinal, como funciona um balão de ar quente? Que outros mecanismos funcionam da mesma forma? Qual é o tamanho típico de um balão e quanto pesa em média um elefante? E o peso do próprio balão?

Finalmente, Roberts que saber como o candidato “usa rudimentos de matemática para ter uma noção rápida da resposta provável, usando aproximações sensatas quando trabalha com fórmulas e tendo em mente as unidades”.

5. Filosofia, Política e Economia

Dave Leal, Brasenose College

Quando eu estava na escola, na década de 1970, falava-se que um dia seríamos atingidos por uma crise previdenciária. A discussão se arrastou durante os anos 80 e 90, até que tivemos uma crise previdenciária. E nada havia sido feito para nos preparar para ela. Será que existe um problema com o sistema político británico, nos impedindo de lidar de maneira sensata com problemas de médio e longo prazo quando são identificados?

O examinador, Dave Leal, do Brasenose College, diz que essa questão é um convite para que o candidato reflita sobre democracia e suas limitações. “Houve candidatos que trouxeram boas discussões sobre diferentes métodos de votação. Por exemplo, e se porções do parlamento fossem eleitas para termos mais longos? Talvez isso gerasse políticas de mais longo prazo”, diz Leal.

Um estudante poderia, fazendo uma outra abordagem dessa mesma pergunta, refletir sobre a responsabilidade do eleitorado. Se os eleitores não pensam a longo prazo, talvez a culpa não seja dos políticos e o problema seja a educação – pondera o examinador. “Outro candidato poderia, talvez, ponderar sobre a importância de haver uma segunda instância política, que não é eleita (pelo povo) para onde todos os assuntos realmente importantes poderiam ser delegados.”

“Um sugeriu que ninguém deveria ter permissão de se candidatar ao parlamento, a não ser que tivesse filhos que dependessem dele. Isso daria ao político uma motivação pessoal para pensamentos de longo prazo em uma variedade de assuntos”. Leal diz que, assim como em outras perguntas incluídas nas entrevistas de admissão, não existe uma única “resposta correta”. A maioria das respostas dadas serve de base para mais reflexões.

Por exemplo, no caso de termos mais longos no parlamento: Quais seriam as consequências mais amplas dessa mudança? Seriam desejáveis? “Estamos testando a capacidade (do candidato) de começar a localizar a fonte de um problema e de testar soluções por meio de discussões”, explica o examinador. “A solução oferecida pelo estudante interessa menos do que evidências de sua habilidade de refinar ideias e de se autocorrigir, quando necessário”.

6. História

Stephen Tuck, Pembroke College

Imagine se não tivéssemos qualquer registro histórico sobre o passado, exceto tudo aquilo relacionado a esportes. Quanto poderíamos descobrir sobre o passado com base exclusivamente em esportes?

O examinador diz que faria essa pergunta a um candidato que tivesse incluído esportes entre seus interesses no seu formulário de inscrição, mas explica que a pergunta também se aplicaria a outras áreas de interesse – como filme, teatro ou música, ele acrescenta.

“O que eu estaria tentando saber é como o candidato usaria sua imaginação, tendo como ponto de partida um assunto com o qual ele tem familiaridade (provavelmente, muito mais familiaridade do que eu) para abordar questões de pesquisa histórica”, diz Tuck.

As respostas poderiam fazer referência a relações de raça, classe e gênero na sociedade (quem jogava os esportes, e que tipo de esportes, em um certo período), política internacional, império (que países estavam envolvidos, que grupos de países jogavam os mesmos esportes), desenvolvimento econômico (desenvolvimento tecnológico dos esportes, como o esporte era assistido), os valores dentro de uma sociedade (esportes sanguinolentos ou mais suaves), saúde (índices de participação nos esportes) e muitas outras questões – a lista é longa, diz o examinador.

“Eu perguntaria questões suplementares, para incentivar o estudante a elaborar ainda mais suas ideias e, com frequência, não teria respostas em mente, estaria simplesmente interessado em ver quão longe o estudante seria capaz de levar sua análise”.

7. Direito

Ben McFarlane, Faculty of Law

Se a punição para motoristas que param em ruas onde há duas faixas amarelas (na Grã-Bretanha, duas faixas amarelas indicam que não é permitido estacionar) fosse a morte, e se, portanto, ninguém estacionasse nas faixas amarelas duplas, essa lei seria justa e efetiva?

Não são esperadas respostas certas ou erradas para essa questão, explica o examinador. Os candidatos precisam demonstrar que reconheceram os vários temas que a pergunta levanta. “O candidato que distingue entre ‘justo’ e ‘efetivo’ se sai melhor. As questões se tornam diferentes uma vez que essa distinção é feita”, diz McFarlane.

“Uma lei justa pode não ser efetiva, ou vice-versa. A questão da proporcionalidade de uma punição em relação a um crime está diretamente relacionada a quão justa é a lei. A resposta para a questão da efetividade está embutida na questão: ‘e se, portanto, ninguém estacionasse nas faixas amarelas duplas'”.

8. Medicina

Robert Wilkins, Department of Physiology, Anatomy and Genetics

Por que o ritmo dos seus batimentos cardíacos aumenta quando você se exercita?

A resposta simples, que todos os estudantes podem dar, é que (a frequência dos batimentos aumenta) porque você precisa distribuir mais oxigênio e nutrientes para os músculos e remover produtos metabólicos. No entanto, diz o examinador, questões subsequentes avaliariam se o estudante tem a compreensão de que é preciso haver uma maneira de o corpo saber que tem de aumentar os batimentos. E se ele sabe de que maneiras possíveis isso é alcançado.

As respostas poderiam incluir a identificação, pelo organismo, de baixos índices de oxigênio ou altos índices de carbono. Mas na verdade, os índices desses gases talvez não variem tanto, então os estudantes são convidados a propor outros sinais e formas pelas quais essas possibilidades poderiam ser testadas. Isso permitiria ao examinador avaliar o candidato em quesitos como habilidade de resolver problemas e de pensar criticamente, curiosidade intelectual, entusiasmo e capacidade de ouvir.

9. Música

Dan Grimley, Merton College

Se você pudesse inventar um novo instrumento musical, que tipo de som ele faria?

O examinador diz que está interessado em respostas que revelem a maneira como o estudante usa sua imaginação de forma crítica.

Que tipos de sons instrumentos e vozes produzem hoje? Como esses sons poderiam ser desenvolvidos de forma criativa? Há novas maneiras de se produzir sons (meios digitais) que transformaram o modo como ouvimos ou entendemos sons hoje em dia? Será que o conceito de “instrumento” tornou-se obsoleto? É possível imaginarmos formas mais simbióticas, mais híbridas, de gerar e de vivenciar sons musicais?

“A pergunta não se limita, de forma alguma, à música erudita”, diz Grimley. “Respostas que envolvam toda uma gama de estilos e gostos musicais, produzidos e consumidos nos lugares mais diversos, seriam bem-vindas”.

10. Ciência da Computação

Brian Harrington, Keble College

Um grupo de piratas possui cem moedas de ouro. Eles têm de dividir o tesouro, mas precisam seguir certas regras:

– O pirata mais ‘graduado’ propõe a divisão

– Todos os piratas, incluindo o mais graduado, votam. Se metade, ou metade mais um, vota pela divisão, ela passa a valer. Se menos da metade aceita a divisão, o pirata mais graduado é lançado ao mar e é feita uma nova votação.

– Os piratas agem de forma lógica e se preocupam apenas em obter o máximo de ouro possível

Considerando-se esse contexto, que divisão deve ser proposta pelo pirata mais graduado?

O examinador diz que esse clássico problema de lógica é um bom exemplo do tipo de pergunta que poderia ser feita ao candidato. “Gosto de observar como o estudante absorve a orientação que recebe, e se ele é capaz de dividir o problema em frações menores para depois resolver um problema complexo, aplicando soluções de forma algorítmica”, diz Harrington. E avisa: “Se o estudante tem alguma dúvida, quero que me diga – não que fique sentado em silêncio, empacado!”

Solução para o problema dos piratas:
Para resolver esse problema, é preciso analisar o que acontece com apenas dois piratas, e a partir daí, repetir a operação com três, quatro, até chegar ao sete. (Fica estabelecido que o pirata líder, o mais “graduado”, tem a letra A. Os outros serão B, C, D etc.)

Dois Piratas
O pirata A sugere que ele fica com todas as moedas. Ele vota em sua sugestão, ela é aprovada. Pirata A leva as cem moedas, pirata B leva zero moedas.

Três Piratas
O pirata A sabe que se fosse jogado ao mar, o pirata C não levaria nada (já que a situação voltaria a ser o cenário anterior, envolvendo dois piratas – e o pirata C passaria a ocupar o lugar do pirata B). Então, o pirata A suborna o pirata C com 1 moeda, o pirata C vota a favor da proposta. Pirata A leva 99 moedas, pirata B leva zero, pirata C leva 1.

Quatro Piratas
Pirata A sabe que, se ele morrer, pirata C não leva nada (porque novamente, o cenário volta para a situação anterior, envolvendo três piratas, e o pirata C passaria a ser o pirata B). Então, ele precisa de 1 moeda para suborná-lo. Portanto, pirata A leva 99, pirata B leva zero, pirata C leva 1, pirata D leva zero.

Cinco Piratas
Agora, o pirata A precisa de 3 votos, então ele precisa subornar com 1 moeda cada pirata que ganharia zero moedas caso ele morresse.

Pirata A leva 98 moedas, pirata B leva zero, pirata C leva 1, pirata D leva zero, pirata E leva 1.

Seis Piratas
A história é a mesma: pirata A precisa subornar os piratas B e D.

Pirata A leva 98 moedas, pirata B leva zero, pirata C leva 1, pirata D leva zero, pirata E leva 1, pirata F leva zero.

Sete Piratas
Nesse estágio final (embora seja possível prosseguir indefinidamente), o pirata-mor tem de conseguir quatro votos. Portanto, tem de subornar três piratas. Então, melhor subornar os três que teriam mais a perder caso ele morresse. Por exemplo, os piratas C, E e G.

Resultado: Pirata A leva 97 moedas, piratas C, E e G levam 1 moeda cada um e os outros ficam com zero.

6 coisas que Aristóteles entendeu errado

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Viking

Viking

Armand Marie Leroi, no Brasil Post

Todo mundo sabe que Aristóteles foi um grande pensador. Ele inventou a lógica, escreveu a Política, a Poética e a Metafísica – livros que os filósofos leem até hoje. Mas pouca gente sabe que também foi um grande cientista – o primeiro. Foi a primeira pessoa a compreender que as teorias sobre o funcionamento do mundo natural têm de ser testadas pela evidência de nossos sentidos: pela realidade empírica. Ele escreveu sobre física, cosmologia e química, mas, principalmente, amava biologia. Ele colecionou milhares de fato sobre animais e plantas e então, em uma dúzia de livros, os explicou. É o maior sistema científico já construído por um homem. Mas até os maiores fãs de Aristóteles – entre os quais me incluo – têm de admitir que ele entendeu algumas coisas errado.

1. As mulheres são monstruosas.

Aristóteles diz que as mulheres têm menos dentes que os homens. Não está claro por que ele pensa nisso. Talvez ele tenha contado os dentes de sua jovem esposa e descobriu que ela não tinha os sisos. Mas os dentes são o menor dos problemas de Aristóteles com as mulheres. Comparadas aos homens, diz ele, elas são “imaturas”, “deficientes”, “deformadas”; são até um pouco “monstruosas”.

Estudiosos feministas levaram isto a sério, como deveriam. Mas tudo está ligado à biologia de Aristóteles. Ele acha que os homens têm sangue mais quente que as mulheres, têm um papel mais importante na reprodução e de modo geral são mais perfeitos. Ele dá algumas evidências para seus comentários. Nota que se você “mutilar” um menino — cortar seus testículos — sua voz nunca engrossará e ele não ficará calvo: ele se tornará feminilizado. A inferência de que as mulheres são naturalmente homens mutilados é razoável, mesmo que não seja exata.

É difícil resistir à conclusão de que as opiniões de Aristóteles sobre a biologia feminina são pelo menos em parte condicionadas pelos costumes patriarcais de sua época. Em Política, ele nem sequer considera a possibilidade de que as mulheres fossem cidadãs. A seu crédito, ele rejeita a sugestão de Platão em A República de que as mulheres deveriam ser partilhadas comunitariamente. Isto, porém, não é uma defesa dos direitos das mulheres: ele apenas pensa que a partilha das mulheres apoiada pelo Estado causará problemas. Provavelmente tinha razão.

2. Algumas pessoas merecem ser escravas.

A Atenas do século 4º funcionava com escravos. Em sua Política, Aristóteles considera a justiça disso. Ele admite que prisioneiros de guerra não merecem ser escravizados: são homens livres que apenas tiveram má sorte. Mas também afirma que algumas pessoas merecem ser escravizadas. Os escravos “naturais” são o tipo de pessoas que têm a capacidade de aceitar ordens, mas não têm inteligência suficiente para pensar por si mesmas. São pessoas mecânicas. Não são muito melhores que os animais.

É uma avaliação bastante dura. Coloque de lado a questão da propriedade, porém, e você poderá ver o que Aristóteles está pretendendo. Ele compreenderia o capitalismo industrial moderno. Ele indicaria que os trabalhadores em um “centro de remessa” do tipo dirigido pelas firmas de encomendas pelo correio, que obedecem roboticamente às ordens de “controladores” ambulantes, são escravos no sentido de que não podem exercer sua razão. Eles são escravos “naturais”? São incapazes de exercitar a razão? Não. Mas é assim que são tratados.

3. As enguias não se reproduzem.

As enguias são um problema para Aristóteles. O problema é que elas não têm gônadas. Abra o corpo de uma enguia e você não encontrará os espermatozoides e os óvulos que encontra dentro de outros peixes. Como então elas se reproduzem? A solução de Aristóteles é que elas não se reproduzem: apenas são geradas espontaneamente da lama. É claro, Aristóteles não poderia saber sobre a bizarra história de vida da enguia europeia: como ela só desenvolve suas gônadas quando faz uma viagem de 10 mil quilômetros dos rios da Grécia até o mar de Sargaços, nas Bermudas; como ela desova na profundidade, morre, e os filhotes fazem a longa viagem de volta. Mas sua solução para o problema da enguia foi excessivamente radical. Na verdade, ele pensa que muitos animais — moscas, percevejos, sanguessugas, ostras, moluscos — também são gerados espontaneamente de matéria-prima inanimada. A teoria da geração espontânea foi extremamente influente. Foi somente em 1668 que o cientista italiano Francesco Redi mostrou que para que surjam moscas na carne podre outras moscas primeiro têm de depositar ovos nela. O experimento de Redi era simples. Aristóteles poderia tê-lo feito. Mas não fez.

4. A eternidade do mundo.

Aristóteles, um maravilhoso naturalista, tem muitas evidências da evolução à sua frente. Ele vê que as espécies podem ser agrupadas em famílias; ele vê como elas são adaptadas a seus ambientes, e tem uma teoria sobre hereditariedade – a mais sofisticada que existia até que Mendel publicou a sua em 1866. Alguns de seus antecessores, os filósofos pré-socráticos, tinham teorias quase evolucionárias para explicar a origem da vida. Aristóteles avalia, e rejeita, todas elas.

5. Existe vida lá fora.

Aristóteles era um geocêntrico. Ele pensava que a terra se situa no centro do cosmo: o sol, a lua, planetas e estrelas, embutidos em esferas cristalinas, giram ao redor dela. Copérnico, Galileu e Kepler mostraram que ele estava errado. O aspecto mais estranho da cosmologia de Aristóteles, porém, não é seu geocentrismo, mas sua convicção de que os objetos celestes são vivos. Eles são, na verdade, as coisas vivas mais perfeitas; são quase deuses. Ele se pergunta por que a lua não tem asas, e conclui que não precisa delas; tem uma maneira melhor de se deslocar. Tudo faz parte de sua convicção de que o cosmo, em toda a sua reluzente perfeição, tem um objetivo. Nós não; simplesmente pensamos que ele apenas é.

Essa é a astroteologia de Aristóteles. Seu Deus definitivo é o Primeiro Movedor; uma entidade imaterial que vive além das estrelas, e, indiferente à vida na terra, passa seu tempo pensando sobre pensar. As estrelas e os planetas desejam ser como ele e por isso giram eternamente. É por isso que as coisas vivas se reproduzem: elas querem ser como Deus, eternas. Para Aristóteles, o amor literalmente faz o mundo girar.

6. Como as abelhas se reproduzem.

Aristóteles tenta decifrar como as abelhas se reproduzem. A maioria dos animais (com exceção dos geradores espontâneos) tem machos e fêmeas, e é fácil identificá-los. Mas existem três tipos de abelhas: as operárias, os zangões e as abelhas “líderes”, ou rainhas. Ele reúne todos os dados que consegue, os analisa e dá um ciclo de vida para as abelhas que, embora engenhoso, é errado. Mas é o que ele diz no final de seu capítulo sobre as abelhas que importa:

Então esta, pelo menos até onde vai a teoria, parece ser a situação sobre a geração das abelhas — em conjunto, isto é, com o que as pessoas acreditam ser os fatos sobre seu comportamento. Não que haja atualmente qualquer compreensão adequada do que são esses fatos. Se no futuro eles forem compreendidos, será quando a evidência dos sentidos depender mais que de teorias, embora as teorias tenham uma participação, desde que o que elas indicam concorde com os fatos.

Isto é o que eu penso que está acontecendo, mas realmente não sei. Quando tentamos compreender o mundo, devemos considerar as teorias. Mas na verdade são os fatos que importam; e, se os fatos mudam, nossas teorias também devem mudar. É uma declaração sobre como fazer ciência, feita 23 séculos atrás, a primeira. É por isso que, como cientista, posso compreender o que Aristóteles diz. É por isso que gosto tanto dele.

O livro de Armand Marie Leroi, “The Lagoon: How Aristotle Invented Science“, é publicado pela Viking (US$ 29.95).

Aposentado compra apartamento vizinho para montar uma biblioteca

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Antoine, de 78 anos, comprou apartamento em Santos para guardar obras.
Aposentado acabou se especializando e gosta de debater história.

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Guilherme Lucio, no G1

Um aposentado de Santos, no litoral de São Paulo, vive, literalmente, cercado de livros. Antoine Abdid, de 78 anos, precisou comprar o apartamento vizinho para conseguir guardar um acervo de cinco mil livros adquirido ao longo de toda a vida.

Abdid explica que não foi fácil comprar o apartamento ao lado. “Meu vizinho queria alugá-lo, mas não adiantava. Eu precisava de um lugar fixo para guardar meus livros, eu estava irredutível. Conversei com um dos filhos dele, que convenceu o pai”, disse.

Seo Antoine, que nasceu em Damasco, capital da Síria, explica que sua paixão por livros começou em São Paulo. “Eu parei de estudar no colegial. Porém, na minha época existia muito debate sobre política, história, economia e religião. Isso aguçou a minha curiosidade. Foi assim que comecei a recorrer aos livros”, explica.

Ainda na adolescência, Antoine se mudou para o bairro José Menino, onde vive atualmente. No início, ele contava com apenas 30 obras. Hoje, sua biblioteca particular possui milhares de livros de história, religião, filosofia e antropologia.

Segundo o aposentado, a biblioteca não é pública. “É difícil você emprestar livros para pessoas que você não conhece. Para os meus amigos e conhecidos, até empresto alguns, pois acho importante a leitura e o acesso a ela. O acervo que tenho é pessoal”, conta Abdid.

Aposentado comprou apartamento ao lado para guardar livros (Foto: Guilherme Lucio/G1)

Aposentado comprou apartamento ao lado para guardar livros (Foto: Guilherme Lucio/G1)

O aposentado conta que marca cada livro com uma etiqueta. “Leva um certo tempo e dá trabalho. Tiro uma cópia da capa e colo na parte lateral. Além disso, vou a sebos e pego capas reforçadas que foram descartadas para colocar nos exemplares”, diz.

Além dos livros, o idoso também coleciona algumas centenas de DVDs. “Isso me mantém ativo. Mesmo com uma certa idade, precisamos nos manter ativos e fazer algo que gostamos. E os livros são a minha paixão”, afirma.

“Marx era igual a Jesus Cristo. Acreditava que o homem era bondoso, misericordioso”
Antoine Abdid,
78 anos

Comunismo

Antoine se diz um homem apaixonado por história, que considera fundamental na vida do ser humano. “Nós precisamos conhecer a nossa história. Precisamos saber o que aconteceu no passado, quais foram os erros e quais foram os acertos. Não entendo como as escolas de hoje têm tão poucas aulas de história”, afirma.

Católico apostólico romano e ex-comunista, o aposentado explica o motivo pelo qual acredita que o sistema não deu certo. “A Rússia, que foi onde o comunismo teve ínicio, não era um país preparado para esse sistema. Talvez, se o primeiro país a implantar o comunismo tivesse sido a França ou a Inglaterra, ele poderia ter dado certo. Karl Marx era igual a Jesus Cristo. Acreditava que o homem era bondoso, misericordioso. Mas, na vida real, as coisas não funcionam bem assim. O homem é mau, vive conspirando, só pensa no próprio bem estar. O homem é o lobo do homem”, desabafa.

Antoine também tem uma teoria sobre o início das religiões. “Tudo teve início no Egito. Foi lá que as religiões, próximas ao que conhecemos hoje, tiveram início. Depois foi para a Grécia e o Oriente”, diz.

Para Antoine, Karl Marx pensava como Jesus Cristo (Foto: Guilherme Lucio/G1)

Para Antoine, Karl Marx pensava como Jesus Cristo (Foto: Guilherme Lucio/G1)

Mein Kampf

Livro de Hitler faz parte da coleção do aposentado (Foto: Guilherme Lucio/G1)

Livro de Hitler faz parte da coleção do aposentado
(Foto: Guilherme Lucio/G1)

Dentre os milhares de livros de seu acervo, Antoine tem alguns exemplares mais “exóticos”, outros raros, como uma das primeiras edições do livro de Adolf Hitler, Mein Kampf (Minha Luta, em português). Antes de tocar no assunto, ele preferiu deixar algo bem claro. “Muitas pessoas associam o livro ao nazismo. Eu sou uma pessoa apaixonada por história e por livros de história. Não quero que confundam as coisas”, enfatiza. O aposentado explica que leu apenas parte do livro. “Não cheguei ao final, mas achei interessante”, diz Abdid.

Sobre o regime alemão implantado durante a 2ª Guerra Mundial, Antoine explica que o regime foi “útil” para a Alemanha. “É lógico que houve problemas, mas a Alemanha conseguiu se reerguer. O objetivo principal era conquistar a Europa, como Napoleão também tentara, e não conseguiu”, conclui.

Aposentado tem livros por todo o apartamento (Foto: Guilherme Lucio/G1)

Aposentado tem livros por todo o apartamento (Foto: Guilherme Lucio/G1)

Livro para ensinar política para crianças de 5 a 7 anos consegue financiamento coletivo

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Brunella Nunes, no Hypeness

Desde que somos apenas um brotinho, nossos pais já têm mil planos e ambições para nós. Acontece que pai e mãe, na prática, não decide nada por ninguém, mesmo que as crianças cresçam sem noção alguma sobre poder e liberdade de escolha. Pensando nisso, o grupo do Laboratório Hacker vai criar um livro infantil focado em política, o “Quem Manda Aqui?”, primeiro volume de uma série de livros com o tema.

O livro, voltado para crianças de 5 a 7 anos, vai traduzir em imagens e poucas palavras conceitos como Monarquia, Ditadura, Democracia, Desígnio Divino e Meritocracia, além de falar sobre formas de decisão como Voto e Consenso. Segundo um dos idealizadores do projeto, Pedro Markun, o livro colaborativo terá ainda a participação das próprias crianças para ser elaborado.

Serão quatro oficinas em diferentes regiões de São Paulo dedicadas a ideias de pais e filhos que participarão como autores. Na obra, personagens e situações serão representados em linguagens visuais como colagem, pintura, desenho, material utilizado posteriormente na produção editorial.

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Entre os outros projetos bacanas já realizados por eles, Pedro citou alguns para o Hypeness: “faz um tempo que a gente vem explorando atividades para o público infantil que tentem explicar ou provocar uma reflexão política. A oficina de ‘Como fazer um projeto de lei?’ transforma as crianças em legisladores e coloca elas para pensar em soluções para problemas da cidade – que a gente escreve em forma de lei e encaminha para a Câmara Municipal”.

E por quê escolher as crianças? Pedro contou que os adultos têm dificuldades para visualizar soluções criativas, presos na realidade. “As crianças não têm essa limitação e são sempre capazes de imaginar outros futuros possíveis”, pontuou.

O projeto do livro arrecadou R$ 12.987 via financiamento coletivo, valor dedicado totalmente à causa e aos seus colaboradores, profissionais que serão remunerados. A obra infantil será publicada com Licença Livre (CC-BY) e ficará disponível gratuitamente para download.

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O trabalho do Laboratório Hacker é composto por um grupo de hackers, ativistas, desenvolvedores, advogados, palhaços e acadêmicos que buscam novas maneiras de fazer política a partir das tecnologias digitais. O espaço esta aberto das 14h as 20hs para quem quiser aparecer, na rua Alfredo Maia, 506 – próximo ao metrô Armênia.

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*Fotos cedidas gentilmente pela equipe Laboratório Hacker

Agradecimentos: Pedro Markun, Larissa Ribeiro e Raul Duarte

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