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Prêmio Oceanos aceitará livros em português de qualquer país

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Eduardo Saron, Ana Sousa Dias, Manuel da Costa Pinto e Selma Caetano durante coletiva de imprensa para anúncio das mudanças no Oceanos - Alessandro Giannini

Eduardo Saron, Ana Sousa Dias, Manuel da Costa Pinto e Selma Caetano durante coletiva de imprensa para anúncio das mudanças no Oceanos – Alessandro Giannini

 

Inscrições para concurso literário começa nesta sexta-feira

Alessandro Giannini, em O Globo

SÃO PAULO — O Itaú Cultural anunciou na manhã desta quinta-feira a internacionalização do Oceanos — Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa. A partir deste ano, serão aceitos livros publicados em quaisquer países, contanto que escritos em língua portuguesa. Até o ano passado, eram aceitos apenas títulos de autores brasileiros e portugueses publicados no Brasil. As inscrições começam nesta sexta-feira e podem ser feitas por meio do site do instituto (www.itaucultural.org.br).

— Chegamos ao momento que eu tanto acalentava há muito tempo. Estamos eliminando três palavras do regulamento: “publicados no Brasil”. A partir deste ano, qualquer livro em língua portuguesa publicado em qualquer lugar do mundo no ano anterior ao prêmio poderá concorrer. Ficou muito mais fácil — disse Selma Caetano, durante coletiva de imprensa para anúncio das mudanças no Oceanos.

Como parte da ampliação do concurso literário, o Itaú Cultural apresentou também a crítica literária portuguesa Ana Sousa Dias, que passa a integrar o corpo de curadores com os brasileiros Selma Caetano, que coordena o grupo, e Manuel da Costa Pinto. A ideia, segundo o triunvirato de curadores, é possibilitar que obras brasileiras, portuguesas e africanas sejam representadas de forma mais ampla e concorram em igualdade de condições.

— Creio que as pessoas vao se surpreender com a quantidade e a qualidade dos livros portugueses que surgirão. Vai ficar mais complicado, mas vai ficar mais completo. Com a vantagem de termos esse mapeamento da cena literária em língua portuguesa — disse Ana Sousa Dias.

Ainda segundo os participantes da coletiva, livros editados em Brasil e Portugal que sejam inscritos pelas duas editoras serão considerados. Mas, segundo os curadores, para avaliação será considerada a primeira edição. No caso das edições simultâneas, o autor terá a prerrogativa de escolher qual será avaliada.

O processo de avaliação, em si, permanece inalterado, assim como o valor total dos prêmios em dinheiro (R$ 230 mil) e a distribuição entre os quatro vencedores (R$ 100 mil para o primeiro lugar, R$ 60 mil para o segundo, R$ 40 mil para o terceiro e R$ 30 mil para o quarto).

Os inscritos passam por três peneiras, sendo que todos os livros serão lidos. Na primeira etapa, os curadores indicam um júri de avaliação formado por 40 especialistas que, entre julho e setembro, leem todos as obras e indicam por meio de votação os 50 melhores. Na segunda, entre setembro e novembro, um júri intermediário, formado por seis integrantes eleitos pelo corpo de jurados da fase anterior, avalia os semifinalistas e elege os dez melhores entre eles. Na última etapa, os mesmos seis jurados escolhem os quatro vencedores.

O prêmio tem um custo total de cerca de R$ 1,4 milhão, dos quais R$ 800 mil são incentivados por Lei Rouanet e R$ 600 mil de modo direto pela instituição. Os valores incluem a premiação de R$ 230 mil.

Em dez edições, o Oceanos premiou cinco autores não-brasileiros. No ano passado, foram recebidas 740 inscrições, entre as quais estavam 14 livros de autores portugueses, dois de angolanos e um de um autor moçambicano. Os quatro vencedores foram, pela ordem do primeiro ao quarto: “Galveias”, do português José Luís Peixoto; “A resistência”, de Julián Fuks; “O livro das semelhanças”, da poeta mineira Ana Martins Marques, e o livro de contos “Maracanazo e outras histórias”, do jornalista carioca Arthur Dapieve.

Recentemente, Selma e Costa Pinto passaram 20 dias em Portugal conversando com editores locais sobre a premiação e foram recebidos pelo ministro português da Cultura, Luís Filipe de Castro Mendes. Com isso, a expectativa é de que o aumento no número de inscritos seja da ordem de 50%.

– Nessas conversas, os editores portugueses estimaram entre 200 e 300 inscrições de livros lusos a mais – disse Selma Caetano.

Costa Pinto acrescentou que a produção de poesia portuguesa também pode ganhar destaque.

– Portugal é o país da poesia. E há uma produção muito grande, inclusive de pequenas editoras – disse o crítico literário e curador do prêmio.

Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural, disse que para este ano não haverá ampliação do prêmio em dinheiro, mas nãos descartou a possibilidade para o próximo ano.

– Estamos estudando isso para a edição de 2018 – disse ele.

Ministro da Educação comete erro crasso de português

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O ministro da Educação, Mendonça Filho (José Cruz/Agência Brasil)

O ministro da Educação, Mendonça Filho (José Cruz/Agência Brasil)

 

Mendonça Filho, afirmou durante entrevista que “haverão (sic) mudanças” ao se referir ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem)

Publicado na Veja

Durante entrevista ao vivo para GloboNews na última quinta-feira, o ministro da Educação, Mendonça Filho, cometeu um crasso erro de português. Ao ser questionado sobre o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o ministro afirmou que “haverão (sic) mudanças, mas essas mudanças não ocorrerão em um curto prazo”.

Na ocasião, o ministro falava sobre as mudanças feitas por medida provisória no currículo do Ensino Médio e afirmou que modificações também acontecerão no Enem. De acordo com a gramática do português, o verbo “haver” no sentido de “existir”, “fazer”, “ocorrer”, “acontecer” sempre será impessoal, ou seja, não terá sujeito e ficará sempre no singular.

Um dia após a declaração de Mendonça Filho, a pasta comandada por ele foi alvo de uma polêmica envolvendo a reforma do Ensino do Médio e youtubers.

Em reportagem publicada na última sexta, o jornal Folha de S. Paulo revelou que o Ministério da Educação (MEC) pagou 65.000 reais para dois youtubers defenderem em um vídeo a Reforma do Ensino Médio, sancionada pelo presidente Michel Temer.

Produzido em outubro, o vídeo, com 1,7 milhão de visualizações, não deixava claro que o conteúdo era uma campanha publicitária e tratava o assunto de maneira descontraída e com linguagem jovem. “Você que quer trabalhar com História, não vai querer ficar perdendo tempo com célula”, diz no vídeo o youtuber Lukas Marques, um dos apresentadores do canal “Você Sabia?”.

Para educador português, ‘não se aprende nada numa aula’

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Palestra do professor José Pacheco em Brumadinho (MG)

Palestra do professor José Pacheco em Brumadinho (MG)

 

Angela Pinho, na Folha de S. Paulo

Idealizador da Escola da Ponte, em Portugal, José Pacheco influenciou professores do mundo todo com a proposta educacional implantada no colégio a partir de 1976.

Os colégios dos quais participa ou que aconselha não têm aulas, séries nem provas. As crianças escolhem projetos –fazer um robô, por exemplo– e aprendem os conteúdos curriculares a partir deles. No Brasil, onde Pacheco vive hoje, dezenas de escolas seguem seus princípios.

Na semana passada, ele foi a Brumadinho (MG) participar do seminário internacional de educação Experiências em Trânsito, promovido pelo Instituto Inhotim. Falou sobre sua resistência ao modelo tradicional de escola, que não consegue ensinar a todos, e contou suas experiências práticas.

Atualmente, integra o conselho consultivo do Projeto Âncora, escola pública de Cotia (SP), que segue os princípios da Ponte. O colégio português, que completou 40 anos na última quinta-feira (1º), obteve “muito bom” na mais recente avaliação externa oficial de Portugal. Esta é a segunda melhor nota da escala, que vai de “insuficiente” a “excelente”.

Leia a entrevista a seguir.

Folha – Por que o senhor diz que dar aula no século 21 é um “escândalo”?
José Pacheco – Porque não se aprende nada numa aula. Não se prova nada em uma prova. Por que há aula? Por que são 50 minutos? Por que há turma? Por que há série? Ninguém sabe responder isso, e essa escola que está aí, igual à do século 19, produz ignorância e infelicidade.

Na Constituição, está escrito e consagrado o direito à educação. Na LDB, está escrito que é um direito de todos os brasileiros. As escolas dão esse direito? Não. Produz muitos milhões de analfabetos, muita ignorância, muita defasagem. Se a política educacional não garante o direito à educação, podem continuar com as mesmas práticas? Não. Estou a falar de ética. De direito. Se o modo como o professor trabalha não consegue ensinar tudo a todos, tem o direito de continuar desse modo?

Sem aulas e, portanto, sem uma ordem de conteúdos a seguir, como as escolas podem garantir os objetivos curriculares mínimos?
Nas nossas escolas não há objetivos mínimos. São objetivos máximos, que é toda a grade. Todas as crianças, jovens e adultos aprendem tudo que está na grade, ao contrário de outras escolas. Só que não tem um planejamento por ano, idade, série, ciclo porque isso não tem fundamento nenhum.

E quando nenhum projeto desenvolvido pelos alunos demanda, por exemplo, que aprendam a raiz quadrada. O professor tem que sugerir?
Sim, o currículo tem que ser cumprido. Mas aparecem as necessidades. Agora, quando eu digo que numa aula não se aprende nada, há professores que se levantam indignados e dizem que aprenderam tudo na aula. E eu pergunto: quem sabe fazer raiz quadrada? Ninguém sabe, e tiveram aula. Tiveram prova e não provaram nada.

Se eu perguntar qual é a forma para calcular o volume da esfera, é a mesma coisa. Nada se aprende numa aula, e isso é um tabu. É preciso que alguém diga aquilo que todo mundo já sabe.

O que acha da proposta para a Base Nacional Comum Curricular que está em discussão?
Quando a equipe que propõe a base nacional estabelece conteúdos por ano, com anos iniciais e anos finais, significa que vamos ter uma escola com anos iniciais e anos finais. Ou seja, uma escola cartesiana do século 19. Não é assunto sério. Educação é uma só. Por que se subdivide, onde está a fundamentação científica e pedagógica? Será que um médico trabalha com os recursos e as fundações teóricas do século 19? Não. O professor trabalha.

Como vê o uso de tecnologia na escola?
As novas tecnologias são incontornáveis. Nós autorizamos ao limite. Nas escolas onde eu trabalho, nós construímos plataformas digitais de aprendizagem. A criança trabalha também com o celular, o iPhone, laptop, tudo. Desde que haja acesso à informação no domínio virtual, vamos lá.

Nós utilizamos tudo quanto é nova tecnologia, porém não damos um laptop para cada aluno.

Por quê?
Porque vamos criar monstrinhos de tela de computador, que não veem nada do lado, que estão a pastar conteúdo na internet sem saber o que estão a fazer. Nunca tantos instrumentos de comunicação nós tivemos e nunca tanta solidão existiu neste mundo.

Vi numa escola em Nova York cada aluno no seu laptop, e um professor lá na frente com a intranet. Ele vigiava tudo o que os alunos estavam a ver. Era um único conteúdo. Havia divisória entre cada criança. Não podiam ver o que o outro estava falando. As pessoas não percebem que estão a reforçar o individualismo, a condenar os outros à solidão?

Como é nas escolas onde o sr. trabalha?
As crianças têm acesso a tudo para procurar respostas às perguntas contidas nos roteiros de estudo que construímos com ela para concluir um projeto. Elas pegam o laptop e vão procurar.

Nós ensinamos a selecionar, analisar, criticar, comparar, avaliar, sintetizar, comunicar informação —processos de pensamento complexos que o professor mediador deve ensinar. E elas sabem analisar, criticar, comparar e vão produzir conhecimento. Não fazem cópia. E depois vão testar a recolha de dados junto com um professor. E aí acontece a passagem da informação para o conhecimento.

Porque colocar uma criança em contato com o laptop e a informação não conduz ao conhecimento. Ela vai copiar. E, depois, o conhecimento não é suficiente. Tem que pegar esse conhecimento e colocar numa ação. É assim que as crianças desenvolvem competências.


RAIO-X: JOSÉ PACHECO

Idade 65 anos

Profissão Professor e pedagogo, mestre em ciências da educação pela Universidade do Porto

Realizações Idealizador da Escola da Ponte (1976), no Porto, e um dos criadores do Projeto Âncora, em Cotia (SP), ambos colégios públicos

A repórter ANGELA PINHO viajou a convite do Instituto Inhotim

‘As pessoas que mais nos acompanham na vida são os livros’, diz Valter Hugo Mãe

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Sylvia Colombo, na Folha de S.Paulo

Livros podem ser como pessoas. Apesar de achar a própria ideia “ousada”, é sobre essa possibilidade que o escritor português Valter Hugo Mãe, 45, discorrerá em suas palestras em São Paulo (31 de agosto) e em Salvador (5 de setembro), dentro do ciclo de conferências “Fronteiras do Pensamento”, evento do qual a Folha é parceira.

O autor de “A Máquina de Fazer Espanhóis” e “O Filho de Mil Homens”, cuja obra no Brasil era editada pela Cosac Naify, agora terá seus livros publicados pela Biblioteca Azul.

Em entrevista à Folha, por Skype, o escritor falou de sua relação com os livros e do novo romance, que se passa no Japão antigo.

*

Folha – Como serão suas palestras no Brasil?

Valter Hugo Mãe – Partirei da presença de um livro na minha infância para refletir sobre o que penso a respeito da felicidade, que é um tema recorrente nos meus livros. A felicidade não existe sem conter a tristeza.

Quero contar minha experiência enquanto autor na busca de uma espécie de redenção, de salvação, a partir da literatura. E questionar até que ponto os livros não são, eles próprios, motivações para a felicidade.

Talvez eu vá dizer que os livros de alguma forma representam pessoas e, enquanto estivermos dentro de um espaço carregado de livros, estaremos na verdade no meio de uma multidão.

Por que talvez?

Porque que vou dizer, mas considero ousado (risos). Vou citar alguns autores de que gosto, mas obviamente pressupor que as pessoas entendam que estou falando de estar cercado apenas de bons livros. O foco será nessa honesta sensação que tenho de que, com o tempo, as pessoas que mais nos acompanham na vida talvez sejam livros. No meu caso, as pessoas que mais demoram na minha vida são mesmo feitas de papel.

O escritor português Valter Hugo Mãe em Sabatina Folha no ano passado - Eduardo Anizelli/Folhapress

O escritor português Valter Hugo Mãe em Sabatina Folha no ano passado – Eduardo Anizelli/Folhapress

 

Você acaba de terminar mais um romance. Pode falar um pouco dele?

Terminei, mas ainda não entreguei. Estou dando a última leitura para mandar hoje mesmo. Neste momento, estou na página 59 (risos). Esse processo é patológico. Estou naquela fase em que começa a depressão pós-escritura. A gente fica tanto tempo meditando sobre um texto que, quando entrega, é quase como sofrer um ato de violência.


Por quê?

Não é porque eu não queira compartilhar, fico ansioso para que as pessoas leiam e me digam o que pensam, fazendo com que eu aprenda algo mais sobre o livro que eu jamais saberia sozinho.

Mas essa hora de entregar é uma coisa horrenda (risos), porque nós vínhamos juntos há tanto tempo, e de repente o autor fica para trás.

O livro vai e eu fico com aquela angústia porque, obviamente, não posso disciplinar o leitor, então não sei o que vai acontecer. Se o leitor vai ler o livro distraído, ou rapidamente, ou interromper a leitura onde eu acho que não deveria. E ele pode, inclusive, ser burro, e não saber coisas elementares que eu acho fundamentais que um ser humano saiba.

Enfim, talvez seja também a minha burrice de autor que está em causa. Fico sem saber se expliquei o suficiente. É uma mistura de insegurança com tristeza. E eu sempre sofro isso de modo performático, então preciso criar uns rituais.

Como assim, pode dar um exemplo?

Ah, eu tenho umas superstições, umas coisas que sempre repito a cada livro. Por exemplo, logo que termino, eu imprimo tudo e coloco essa impressão debaixo de um Galo de Barcelos. O Galo de Barcelos, como você sabe, é um objeto de artesanato tão famoso que simboliza Portugal, uma coisa muito antiga, folclórica.

Existe uma superstição aqui, sobretudo na região norte do país, onde eu vivo (no Porto), que diz que nenhuma casa é feliz se não tiver um Galo de Barcelos. E esse foi minha mãe que me deu.

É uma coisa boba, porque eu não acredito que o galo dê sorte, mas como foi minha mãe que me deu, acho que, se não fizer isso, estarei ofendendo-a, porque ela me deu o galo convicta de ele tomaria conta de mim.

Sobre o que é seu novo romance?

É uma história que acontece no Japão e conta a história de um artesão, um homem humilde que vive no sopé de uma montanha, perto de Kyoto, no Japão antigo.

Tentei buscar um Japão mitológico, não tecnológico e não sofisticado. Esse foi o Japão que me impressionou desde menino, daquele povo esforçado, trabalhador, mas ao mesmo tempo capaz de uma ira, de uma violência.

Conhecer o Japão depois de ter esse Japão mitológico na memória mudou muito sua visão do país?

Sim, acho bonito eles terem conseguido entrar no futuro sem perder a memória. É uma memória endêmica que eles recusam a deixar de lado. Depois de ser um país profundamente bélico, de uma história de agressões, o Japão conseguiu erguer também a sociedade mais cordial do planeta.

Há uma aprendizagem diante dessa passagem de uma violência secular para uma pacificação. Imagine, com essa quantidade de gente que hoje habita a ilha, o país implodiria se eles ainda estivessem com os sabres erguidos a matarem-se uns aos outros (risos).

Você dizia que queria passar um tempo numa cidade pequena do Brasil e escrever um livro. É seu próximo projeto?

Não é pra já, mas tenho essa vontade, que precede a minha aceitação no Brasil como autor. O Brasil é uma atração minha desde a meninice, mas a minha relação com o país tornou-se tão especial que eu não gostaria que um livro que eu escrevesse sobre o Brasil fosse visto como uma espécie de correspondência fútil.

Não quero correr o risco de as pessoas pensarem que escrevi um livro oportunista para que os brasileiros gostem mais de mim.

Então preciso que o livro surja e que seja legítimo. Mas vai acontecer, a não ser que eu morra de um câncer fulminante.

Bom, você conta sempre que tinha a ideia, na infância, de que iria morrer logo, aos 18, e não morreu

Então, depois que isso não aconteceu, agora acho que não vou morrer mais, então vai dar tempo de escrever o livro sobre o Brasil (risos).

Você tinha uma visão muito crítica da União Europeia, achava que Portugal vinha sendo maltratado. O que achou da saída do Reino Unido?

Acho que colocou um freio no continente. Do modo como estava funcionando, era, sim, uma forma de os grandes manipularem os menores.

Mas eu sou um europeísta convicto, e acho que de maneira nenhuma a Europa pode se desfazer. Se isso ocorrer, vai nos enfraquecer ao ponto de nos tornarmos apenas belos museus medievais.

Seremos um continente de museus decrépitos. As pedras, a monumentalidade vai estar toda aí, mas as pessoas não vão ter como viabilizar um futuro, só vai existir o passado. Se nos desagregarmos, os países se transformarão em digníssimos lugarejos.

A Bíblia toda e para todos

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Frederico Lourenço, aqui fotografado em 2014, sempre teve a intenção de traduzir a Bíblia Miguel Manso

Frederico Lourenço, aqui fotografado em 2014, sempre teve a intenção de traduzir a Bíblia Miguel Manso

 

A editora Quetzal vai começar a publicar em Setembro uma nova tradução da Bíblia. É feita a partir do grego por Frederico Lourenço e sairá em seis volumes, até 2019. Está a ser apresentada como a mais completa jamais feita em português.

Lucinda Canelas, no Publico

Francisco José Viegas tem uma “relação muito especial” com a Bíblia, mas desde que começou a ler os quatro evangelhos na nova tradução de Frederico Lourenço que a Quetzal faz chegar às livrarias a 23 de Setembro essa “relação muito especial” transformou-se numa “aventura maravilhosa”. A leitura não confirmou apenas que são fundamentais para a cultura ocidental – fez com que descobrisse neles a “invenção do romance moderno”. “Ler esta Bíblia é uma aventura poética, uma aventura da história”, que muito se deve à coragem de Frederico Lourenço, “alguém que transformou um sopro num relâmpago”.

Viegas, editor da Quetzal, falava esta quarta-feira de manhã na Cinemateca, em Lisboa, numa conferência de imprensa em que apresentou esta ambiciosa edição que divide a Bíblia em seis volumes – dois dedicados ao Novo Testamento, quatro ao Antigo – como a mais completa alguma vez publicada em português. Isto porque, explicaria depois o tradutor, é feita a partir da Bíblia grega, que no Antigo Testamento tem 53 livros, ao contrário da hebraica, que tem apenas 24, e da católica, com 46.

Até aqui, as traduções disponíveis em português não incluíam todos os livros do Antigo Testamento. Esta passará a fazê-lo, o que significa que terá, ao todo, 80 livros e uma organização bem diferente da das traduções tradicionais, que segue a matriz latina e que começa no Livro do Génesis e termina no do Apocalipse. Uma organização que não é, de todo, cronológica (o Génesis não foi o primeiro a ser escrito). “A forma completa do Antigo Testamento nunca tinha sido editada”, diz Lourenço. À tradução do actual cânone católico juntar-se-ão sete livros: o 3.º e o 4.º dos Macabeus, Salmos de Salomão, Odes, o Livro de Susana, o de Bel e o Dragão e a Epístola de Jeremias.

Depois de ler o primeiro volume, o que junta os evangelhos de João, Lucas, Mateus e Marcos, Francisco José Viegas garante que esta nova edição é verdadeiramente uma “experiência múltipla”, em que a poesia, a história, a contemplação, a magia e o puro amor das palavras se encontram. E o tradutor, claro, “é o alquimista deste milagre”, um “milagre” que só não é “alquimia pura”, porque dá muito trabalho. “O Frederico Lourenço obrigou-me a ler a Bíblia de outra maneira, com novos sentidos, novas palavras.”
Texto que não se entende

Frederico Lourenço, escritor, poeta e especialista em cultura helenística que já traduziu para português obras tão fundamentais como a Odisseia e a Ilíada, comprou a sua primeira edição do Novo Testamento em grego há mais de 30 anos, quando estava prestes a entrar no primeiro ano de Estudos Clássicos, quando era ainda um católico praticante “bem dentro da Igreja”. Hoje essa ligação perdeu-se – Lourenço continua a acreditar em Deus, mas já não é um católico praticante –, embora nunca tenha chegado para questionar a importância da Bíblia. “Descobrir mais tarde o Antigo Testamento em grego foi revelador, porque a versão grega mantém toda a qualidade poética que o texto tem”, diz.

Na tradução que está a fazer dos 80 livros da Bíblia cruza a grega com a hebraica para mostrar que há complementaridades e diferenças. As dezenas e dezenas de notas que cada um dos seis volume da Quetzal trará juntam-se às introduções para ajudar o leitor a compreender o texto e o seu contexto, falam da origem de determinadas palavras e alertam para esta ou aquela interpretação que, ao longo da história, deu origem a debate e até a outros escritos.

Frederico Lourenço quis com esta abordagem pôr à disposição uma edição para todos: “Falta uma versão da Bíblia para crentes e não-crentes”, disse ao jornalistas, uma versão não-apologética daquele que é “talvez o livro mais importante de toda a tradição ocidental”. Para o tradutor, a Bíblia não devia ser um exclusivo das faculdades de Teologia, mas presença obrigatória em todos os cursos de Humanidades. “Esta edição tem uma intencionalidade linguístico-histórica, não teológica. (…) As notas tentam explicar a materialidade do texto, que muitas vezes não se entende.”

É precisamente porque o texto por vezes não se entende – e porque quer ser fiel ao que foi escrito, de acordo com a versão grega – que Lourenço optou por usar muito os parêntesis rectos ao longo do texto, assinalando as palavras que estarão subentendidas. “Às vezes o grego não nos permite atribuir um sentido exacto a determinada frase… Os parêntesis permitem-me dizer ao leitor o que foi realmente escrito e o que foi acrescentado para tornar o texto inteligível.”

O que se lê hoje nas igrejas pode ser bem diferente do que foi escrito na versão grega – para quem conhece as traduções disponíveis, vai sentir diferenças, por exemplo, no Pai Nosso e no Sermão da Montanha, de Mateus, garante Lourenço – porque houve um esforço de simplificação para que o livro chegasse mais facilmente às pessoas. “Há cartas de Paulo que parecem escritas por Marcel Proust, com frases que duram três páginas” e que depois na liturgia são resumidas a uma linha, exemplifica. “O que quis nesta edição foi dar alguns elementos para que as pessoas possam ter ideia do debate crítico que rodeia a Bíblia”, isto sem comprometer qualquer outro propósito: “O valor espiritual dos textos está lá sempre.” E é provavelmente por causa desse valor que Lourenço defende a sua intemporalidade – “tem 2000 anos, mas é um livro hoje e é um livro amanhã”.

Tal como aconteceu com a Ilíada e a Odisseia, Frederico Lourenço, 53 anos, esteve à espera do momento certo para se entregar a esta tradução. E é mesmo de entrega que se fala, já que abdicou de tudo o que estava a fazer profissionalmente – à excepção das aulas que dá na Universidade de Coimbra – para se poder dedicar ao projecto, algo que sempre quis fazer. “Senti que tinha mesmo de fazer isto”, disse ao PÚBLICO. “E agora sinto o mesmo que senti quando estava a trabalhar na Ilíada e na Odisseia – pânico de morrer antes de acabar.”

Passar dos dois poemas de Homero para a Bíblia confrontou-o com “dois gregos diferentes”, embora muitas palavras se repitam. A Bíblia, assegura, é muito mais difícil de traduzir porque nela a diversidade da linguagem é muito maior. É, no entanto, “muito bonito ver a continuidade da língua grega, perceber que às vezes se fala da vida de Jesus com as mesmas palavras com que se fala de Ulisses e de Penélope”.

Pegar na Bíblia era também um sonho antigo de Francisco José Viegas, que diz que publicá-la, numa altura em que “editar é cada vez mais difícil”, é “correr um risco” que dá muito prazer. Em grande parte devido ao tradutor em quem confiou: “Se a Bíblia é fogo, o nome de Frederico Lourenço vai ficar gravado no fogo.”

O preço de capa deste primeiro volume, cuja tiragem não foi divulgada, será de 19,90 euros. O segundo volume sairá em Março de 2017 e a Quetzal conta ter o último dos seis volumes nas livrarias no começo de 2019. No Brasil, a editora Companhia das Letras começará a publicar esta tradução da Bíblia em Maio de 2017.

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