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Livraria nas montanhas oferece o prazer da leitura a 3.400 m de altura

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Biblioteca laFetrinelli, Mont Blanc Foto: LORENZO PASSONI / ICON DESIGN

laFetrinelli ganhou o título de livraria mais alta da Europa – muito provavelmente do mundo

A. J. Oliveira, no Estadão

Em um pequeno espaço perto do topo de uma das maiores montanhas da Europa, abriu as portas recentemente uma loja de livros diferente de qualquer outra: a laFeltrinelli 3466. Situada no interior de uma estação de teleférico a uma altitude de 3.466 metros, ganhou o título de livraria mais alta da Europa – muito provavelmente do mundo. Foi construída em Ponta Helbronner, um dos cumes que despontam do icônico Mont Blanc, que não é um único monte, mas sim um maciço de montanhas dividido pela Itália, França e Suíça.

Para chegar lá, é preciso subir por 20 minutos a bordo de uma cabine ampla e moderna, com grandes janelas que proporcionam vista panorâmica da deslumbrante natureza selvagem dos Alpes. É como o bondinho do Pão de Açúcar, só que giratório, para que todos os até 80 visitantes a bordo tenham a chance de contemplar tanto as montanhas, quanto os dois cênicos vales lá embaixo, Ferret e Veny, além da charmosa Courmayeur. A cidade, destino famoso entre alpinistas, fica a poucos quilômetros da fronteira francesa.

Durante a subida, dá para ver do alto as cabras ibex, exímias escaladores nativas daquela região. No século 19, a espécie foi implacavelmente caçada e levada à beira da extinção: estima-se que, em 1856, havia só 60 animais confinados em uma reserva. Mas projetos de preservação conseguiram elevar o número de espécimes para 40 mil e reintroduzi-los pelos Alpes. Lá em cima, fica até um pouco difícil de respirar, já que o ar é mais rarefeito.

Interior da biblioteca laFetrinelli Foto: LORENZO PASSONI / ICON DESIGN

A livraria em si tem o tamanho de um bom apartamento: 60 m². Apesar de pequena, é aconchegante e convidativa. Com catálogo de 376 títulos e 1.726 volumes, a laFeltrinelli 3466 foi inaugurada em 21 de junho, a princípio com a ideia de ser algo temporário, uma pop-up store. Duraria só até setembro, para aproveitar a alta temporada dos meses de verão. “Mas vendeu tão bem, tanto livros quanto souvenirs, que decidimos manter”, afirma Maria Lagazzi, porta-voz da Skyway Monte Bianco, empresa que opera o teleférico.

Ela conta que a visão do Mont Blanc e a sensação de estar em um lugar único no mundo incentiva os visitantes a levarem uma recordação. Toda vez que alguém compra um livro na livraria mais alta da Europa, Ylenia Mareliati, atendente de caixa, usa um carimbo especial para eternizar nas páginas a lembrança da visita. “É belo trabalhar aqui com essa vista”, ela confessa. O ponto forte são os livros de montanhismo: uma vasta seleção de títulos conta histórias de superação de alpinistas e explora a relação do ser humano com a montanha.

Impossível não se arrebatar por elevadas reflexões ao folhear um bom livro em uma das mesinhas à frente da janela. Entre uma página e outra, novas ideias vão sendo absorvidas e ganham ares sublimes ao levantar o olhar e contemplar o gelo eterno do Mont Blanc. Mesmo no verão, lá em cima fazia 3 graus — no inverno pode chegar a menos 40. Há um mirante em cima da estação para admirar a magnificência e respirar o ar puro do cume.

Por trás do projeto da livraria, há um conceito que desdobra paralelos instigantes entre viajar, ler e subir a montanha. “Os leitores, como os próprios livros, têm dentro de si o desejo extraordinário de horizontes sempre novos, e o fôlego para ir adiante e buscá-los”, lê-se na placa em uma das paredes da sala que, até junho, abrigava uma exposição de cristais extraídos do subsolo da montanha. “Este lugar é feito para eles: leitores e livros. Um lugar único e inesperado onde se pode fazer uma pausa, encontrar novas histórias, imergir na leitura com o Mont Blanc como companheiro e fonte de inspiração.”

A verdade é que a parceria se mostrou bastante proveitosa para ambas as empresas. Como uma das maiores redes de livrarias italianas, com mais de 120 lojas espalhadas pelo país, a marca atrai visitantes para o teleférico, que por sua vez oferece ao grupo Feltrinelli a chance única de estar presente no ponto mais alto da Europa Ocidental – o Monte Elbrus, com seus 5,6 km de altura, chega a ser maior que o Mont Blanc.

Mas, tecnicamente, fica no Cáucaso, em território russo, então é meio europeu, meio asiático. Outra livraria com título curioso, que está até no Guinness Book, fica a 230 metros do chão, no 60º andar de um hotel em Xangai, na China: é a mais alta dentro de um prédio.

Em termos de altura absoluta, é claro que ela não chega nem perto da nova livraria alpina. Durante sua inauguração, a presidente da Skyway Monte Bianco, Federica Bieller, ressaltou seu significado. “Graças à abertura da laFeltrinelli 3466, nosso tecnológico teleférico valoriza ainda mais a subida, tornando-a uma excursão cultural”, explicou a executiva. “A valorização da cultura de montanha, passar adiante as palavras dos autores que a amaram e a desafiaram, o Mont Blanc como cenário para fantasiar”, diz Bieller.

Em funcionamento no lado italiano da montanha desde 1947, toda a infraestrutura passou por uma gigantesca reforma entre 2011 e 2015. Com um investimento de € 110 milhões, a capacidade de visitantes por ano cresceu de 100 mil para 300 mil. As estações formam um verdadeiro complexo turístico, com diversas atrações ao longo da subida. Na estação-base, Courmayeur: The Valley (O Vale) há apenas a bilheteria e um café.

Mas, na parada intermediária, Pavillon: The Mountain (A Montanha), a 2.173 metros de altitude, o visitante se torna explorador e tem uma miríade de atividades à sua disposição. No Buffet Alpino, pode degustar os deliciosos sabores da bela região do Vale de Aosta, onde fica Courmayeur; dentro da estação tem até cinema e centro de convenções, além de uma vinícola um tanto especial – a Cave Mont Blanc.

Seu espumante Cuvée des Guides, com apenas cem garrafas produzidas ao ano, tem propriedades únicas por conta das baixas pressão atmosférica e temperatura naquela altitude. Do lado de fora, um passeio pelo Jardim Botânico Saussurea, que reúne mais de 900 espécies de plantas e flores de várias partes do mundo, oferece um vislumbre da natureza alpina, com uma profusão de insetos voando, pulando e zunindo por toda parte.

Montanhistas podem ir e vir como quiserem pelo ambiente ao redor, fazendo trilhas nos meses mais quentes, mas recomenda-se sempre o acompanhamento de guias. “A montanha é livre, nós não freamos ninguém”, afirma Lagazzi. O mesmo vale para esquiadores, que podem descer o Mont Blanc no inverno, mesmo sem grandes estruturas para a prática. É preciso ter experiência. “Não é como esquiar em pista”, ela diz. Já quando chega na estação final, Punta Helbronner: The Sky (O Céu), o explorador vira peregrino.

Aqui, no ponto mais alto da Europa, ou em outra perspectiva, o ponto mais baixo do céu, além da laFeltrinelli 3466 e do observatório 360 graus, é possível fazer uma leve refeição ou tomar um café no bistrô panorâmico, e até atravessar a vertiginosa passarela toda de vidro SkyVertigo. A sensação é de estar caminhando pelo céu sobre o gelo eterno do cume lá embaixo. Àquela altitude, o clima muda rápido: Lagazzi dá a dica de fazer a subida de manhã, quando a visibilidade é melhor. Tocar o céu e regressar ao vale é um pouco como começar e concluir a leitura de um bom livro – não se é mais o mesmo no final.

Saiba como incentivar os jovens de hoje no prazer da leitura

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 Crianças e adolescentes descobrem na literatura a melhor aventura de suas vidas. Romance, suspense, ficção científica e a vida real traduzidas nas páginas os encantam (foto: Euler Junior/EM)


Crianças e adolescentes descobrem na literatura a melhor aventura de suas vidas. Romance, suspense, ficção científica e a vida real traduzidas nas páginas os encantam (foto: Euler Junior/EM)

Conquistar crianças e adolescentes para a literatura exige criatividade e sabedoria para que o contato com o mundo dos livros seja para sempre

Lilian Monteiro no UAI

Ler por prazer. Ler para estudar. Ler para se informar. Todas as formas nos levam ao conhecimento de culturas, histórias, hábitos, realidade, fantasias, ideias, vivências, sonhos e de nós mesmos. É uma das habilidades mais incríveis da humanidade. Desde o primeiro livro impresso na década de 1450, fruto da invenção da tipografia do alemão Johannes Gutemberg, que foi a Bíblia, até os exemplares digitais do século 21, a leitura é a arma mais eficaz para nosso aprendizado. Decifrar, interpretar, decodificar, compreender, analisar, imaginar! Nada como se perder no universo encantado dos livros.

Do filme A sociedade dos poetas mortos, de 1989, ao As vantagens de ser invisível, de 2012, a sétima arte sempre elegeu a literatura como um personagem espetacular para discutir a vida. Entre tantas películas, na primeira um professor de literatura inglesa e norte-americana inova no modo de ensinar e por meio da leitura leva os alunos a uma reflexão sobre como fazer a vida valer a pena. No decorrer da história, eles descobrem que o docente havia participado de uma Sociedade dos Poetas Mortos, um clube de leitura de poesia, e decidem reviver o grupo. Já em As vantagens de ser invisível, a trama mostra a recuperação da depressão de um adolescente tendo como melhores amigos seus livros e o seu professor de literatura. O filme retrata o poder dos livros em curar nossas ansiedades e de nos fazer

Hoje, o Bem Viver propõe a discussão de como fazer com que crianças e adolescentes mergulhem nas páginas da literatura. Como estimulá-los a abrirem um livro, físico ou não, que contemplem histórias que os despertarão a desenvolver o hábito da leitura? Não há nada mais forte do que o exemplo. E não há quem personifique o poder da leitura do que a história de Maria Vilani. Não há inspiração maior para abraçar um livro. De tudo o que ela se tornou, era apenas uma criança que queria aprender a ler. Nascida em Fortaleza, hoje moradora do Grajaú, Zona Sul de São Paulo, mãe de cinco filhos, entre eles o rapper Criolo, professora autodidata, filósofa, escritora, poeta, agitadora cultural (uma das líderes do Centro de Arte e Promoção Social Grajaú), aprendeu a ler sozinha. Conta que o pai a ensinou a “desenhar” o nome e passou a decodificar o beabá diante das páginas de jornais e revistas que serviam de embrulho para as compras do dia a dia. Nunca deixou de alimentar o desejo de ler e aprender. “Tinha a necessidade de conhecer outras formas de pensar.”

Maria Vilani, com quatro livros publicados, entre eles Cinco contos sem desconto e de quebra dois poemas e Penteando a vida, declara que para a criança ler é “preciso ver alguém lendo. O que eu faço e como criei meus filhos foi incentivando-os. Lia para eles e uma vez por semana, com todos em volta da mesa, líamos e cada um tinha a oportunidade de interpretar o que foi lido, sem censura, com seu olhar. Criança tem facilidade para imaginar e criar. É só dar liberdade e estimular”. Ela conta que tem um projeto, o “Sonhagem”, “que é o sonhar acordado, trabalhar a imaginação e a curiosidade de buscar”.

VITRINE Para Maria Vilani, se a família não tem o hábito da leitura, não lê junto. O ideal seria a criação de projetos voltados para pais, tios, avós e professores para que despertem o desejo, já que “são os reprodutores e multiplicadores. A criança vai seguir quem é importante para ela. Digo sempre que os livros em casa precisam ter fácil acesso. É necessário que estejam à mão das crianças, com as capas voltadas para frente como uma vitrine para que possam olhar, pegar e ler. É nosso dever facilitar, tornar o livro atrativo como o brinquedo e o alimento dispostos dessa forma. É a maneira de atiçar a curiosidade pela literatura infantil e infantojuvenil”.

Maria Vilani afirma que o ideal é ler de acordo com a idade e proporcional à inteligência. Independentemente de livros clássicos ou não, o importante é que seja compreendido. “Mas nunca devemos esquecer os clássicos, eles são a origem dos nossos saberes. Mas creio que toda leitura é válida e, se atrai, é porque nos faz refletir e nos embala.” Ela reforça que é“a favor da roda de leitura na família, na sala de aula, no projeto social. “E seja blog, site, Facebook, sou a favor de despertar o gosto pela leitura. Acho que todos são caminhos. Somos singulares e seremos afetados de forma peculiar. O objetivo, acredito, é atingir o maior número de público. Até quem ainda não foi alfabetizado, basta influenciá-los com livro sem texto e por meio das figuras criar uma história juntos, soltar a imaginação. Até ouvindo música você está lendo, interpretando a letra, sentindo a mensagem”, observa.

O problema, alerta Maria Vilani, é que a realidade do mundo muda rapidamente e há uma dificuldade de acompanhar esse avanço e criar uma metodologia que concilie algo que é maravilhoso e não se pode perder. Além de incentivá-lo com Maria Vilani, o Bem Viver foi conversar com outras especialistas, escritoras, jornalista, educadora, psicanalista, crianças e adolescentes que veem a leitura como parte de si. E aí, qual história o capturou para o mundo dos livros?

Liberdade para criar

É sempre uma surpresa encontrar crianças e adolescentes que gostam de ler. O encantamento é imediato diante das interpretações e do que dizem sobre o significado da leitura e do livro nesse começo de vida. Marina Metzker Pifano de Melo, de 11 anos, aluna do Colégio ICJ, diz que gosta de ler porque é uma aventura. “É melhor do que filme porque quando leio posso inventar o espaço e imaginar o que eu quiser.” Articulada, atenta, com cuidado ao escolher cada palavra durante a entrevista, Marina destaca que ler é interessante porque depois pode compartilhar seus pontos de vista, além de trabalhar a criatividade. “Tenho dois livros preferidos: O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, e A menina que colecionava borboletas, da Bruna Vieira.” Ela lembra que o interesse pela leitura começou bem pequena, “quando pedia a minha mãe para me contar várias vezes a história da A bonequinha Preta”, da mineira Alaíde Lisboa de Oliveira, obra com quase 80 anos e ainda sucesso, um clássico.

Marina enfatiza que ler a ajuda a “falar melhor, me tornar uma aluna melhor nas aulas de redação, não errar vocabulário e saber usar palavras difíceis e diferentes mesmo em um contexto mais simples. Sempre leio dois livros por semana. Pego na biblioteca do colégio ou peço à minha mãe, que até reclama de tantos que quero. Adoro ganhá-los de presente e de conversar com minha prima, Adriana, já adulta, formada em administração, sobre literatura”. A mãe, Patrícia, conta que fica admirada com o nível do papo entre as duas. Nada infantil. O que também deve encher de orgulho o pai, Humberto. Marina é filha única.

À vontade para falar, Marina chama a atenção para a “coleção das princesas modernas, da Paula Pimenta. Ela mudou a história, colocou no mundo real e com problemas atuais. Achei bem importante a discussão. Li A droga da obediência, do Pedro Bandeira, e como ele escreve bem. Aliás, são tantos assuntos e ideias que não sei como consegue, é maravilhoso”. Ela conta que a maioria de seus colegas gosta de ler e quem ainda não se rendeu ao livro, Marina tem opinião formada. “Acho que algumas escolas forçam um livro, um assunto determinado para trabalho ou prova. Aí, se o aluno não gosta do tema, lê como obrigação. É questão de experimentar. Tentar ler antes de falar que não gosta. É importante ser curiosa. Descobri este ano que amo ficção científica depois de ler O admirável mundo novo, que fala de assuntos interessantes.”

CURIOSO

Já Rafael Henrique Castro Barbosa, de 12, do Colégio Batista, conta que despertou para a leitura aos 9 anos. “Um dos motivos foi a atração pela capa do livro As crônicas de Nárnia na estante de casa. O rosto do leão e o fato da minha prima, Ana Paula, estar lendo e comentando sobre a história, me deixava curioso. Olhava para ele várias vezes, mas a quantidade de páginas me intimidava. Um dia, decidi descobrir a história, ela foi se desenvolvendo e gostei. Acho importante que, desde pequeno, meus pais, Vanessa e Hudson, leram para mim. Meu irmão mais velho, Samuel, de 19, foi outro incentivador, principalmente com os livros da saga de Percy Jackson. E meu pai está estudando teologia e anda lendo muito, o que também me motiva.”

Para Rafael, a leitura aumenta seu vocabulário e, “pela forma que os autores escrevem, ajuda na produção de texto. A maioria dos meus colegas não lê. Os meninos são mais ativos, agitados e querem jogar bola. Já as meninas, mais quietas, leem mais. Eu acho legal. Um dos meus preferidos é Um cadáver ouve rádio, de Marcos Rey, gostei muito da história de Robison Crusoe e também de O grande desafio, do Pedro Bandeira. Na verdade, o que me interessa são livros de aventuras, viagens, naufrágios e suspense. Não gosto de drama e romance”.

Estímulo à leitura

Desenvolver a linguística, aperfeiçoar o vocabulário e instigar a imaginação e a criatividade. Sabendo da importância da leitura para o desenvolvimento de crianças e adultos e do baixo índice da leitura no país, o Colégio Batista Mineiro – unidade BH Floresta – incentiva seus alunos a terem esse delicioso hábito. Tanto que há uma série de iniciativas para estimular crianças e jovens nas maravilhas da leitura, como o Literarte. Focado nos estudantes do 3º ano do ensino fundamental, o projeto visa estreitar o contato das crianças com os livros. Tudo a partir de renomados autores brasileiros, como Monteiro Lobato, Vinícius de Moraes, Ziraldo, Maurício de Sousa, Ruth Rocha, Alaíde Lisboa. O projeto, anual, tem início nos primeiros meses de aula, com a visita dos alunos à biblioteca. São semanas de estudo e contato com os clássicos da literatura infantil. Esses dias dedicados à leitura resultam em uma linda apresentação para familiares e pais. Em seguida, e dentro da programação do Literarte, o colégio faz até o dia 14 deste mês a Feira Literária, quando os convidados são levados a conhecer os autores e a adquirir novos livros. Karlla Mabel, coordenadora do 3º ano e organizadora do projeto, conta que o Literarte existe há 17 anos e o resultado é o aumento gradual do interesse pela leitura a cada edição.

Um livro para cada pessoa

Kristy Dempsey, escritora e bibliotecária da Escola Americana de BH, acaba de lançar o livro Em superhero instruction manual, no qual conta a história de um menino que sonha se tornar um super-herói e busca ajuda em um manual. O livro é voltado para crianças de 4 a 10 anos e tem o objetivo de mostrar que, na vida real, os melhores heróis surgem de circunstâncias inesperadas. Todos têm a capacidade de ser grandiosos em atitudes, gestos e qualidade pessoais.“Estudos mostram que a melhor maneira de fazer crianças e adolescentes ler e amar a literatura é colocar as escolhas nas mãos dos leitores. Basta ter literaturas diversas e disponíveis para eles escolherem o que querem ler. Donalyn Miller, pedagoga conhecida como a Encantadora de Livros, diz que: ‘a leitura forma e transforma quem nos tornamos’, tanto como leitores quanto como seres humanos. Encorajamento e oportunidades para escolher o que leem tem benefícios duradouros para crianças.”

Conforme Kristy Dempsey, leitores que escolhem livremente o que vão ler desenvolvem confiança nas habilidades de tomar decisões, criam a capacidade de ter responsabilidade por suas escolhas, criam confiança e reforçam um sentido de autoconhecimento, melhoram suas habilidades em leitura e continuam leitores ao longo da vida. Para ela, qualquer leitura é válida. “O que importa é ler, independentemente do gênero. Mas se a gente quer que nossos filhos fiquem engajados nos clássicos ou em literatura considerada mais nobre, precisamos engajá-los em literatura que eles se interessam desde cedo.”

Para a bibliotecária, a responsabilidade do gosto pela leitura é dos pais. “Em meu mundo utópico, toda criança chegaria no primeiro dia da escola na vida com centenas de livros já lidos com os pais em casa. Autora e pedagoga Mem Fox diz que, ‘leitores são criados nos colos dos seus pais’. Se a criança chega na escola já com um amor pela leitura, aprender a ler vai ser um privilégio, independentemente da dificuldade com as mecânicas de leitura. Cada família deve ter tempo junto para a leitura, seja em voz alta, ou cada um com seu livro em seu cantinho. A criança que vê o pai ou a mãe lendo pelo prazer vai valorizar a leitura”, afirma. Ela conta que, claro que tem alunos que chegam na escola afirmando que odeiam ler. “Dou um sorriso e digo que ele não encontrou seu livro ainda e que em nossa biblioteca existem tantos livros maravilhosos que ele deve se preparar para uma caça aos tesouros. Acredito que existe um livro para cada pessoa, o livro que vai tornar essa pessoa um leitor.”

TÁTICAS

Para Kristy Dempsey, a leitura é um tipo de ensaio emocional. “Por meio da literatura, experimentamos e aprendemos sobre partes da vida, que não conhecemos ainda. Começamos a criar um roteiro para nossas vidas. Quando o aluno lê só para terminar um exercício, ele não nada nas ideias e nas emoções do livro. Se eles não estão se vendo dentro do livro, devemos mudar nossas táticas de ensino”, diz.

Kristy Dempsey conta que, em seu livro, escolheu um assunto que chamaria a atenção dos pequenos: super-heróis! “Em minhas interações com crianças de 4 e 5 anos na escola,elas afirmaram um desejo de ter superpoderes. Eu queria ajudá-los a descobrir o que realmente nos torna super: a bondade e o desejo de ajudar. É assim que salvamos o mundo.”

Ser espelho e ponte

Jane Patrícia Haddad, mestre em educação, afirma que é urgente rever o sentido da literatura, principalmente na educação infantil (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)

Jane Patrícia Haddad, mestre em educação, afirma que é urgente rever o sentido da literatura, principalmente na educação infantil (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)

“Acredito que o livro (o bom) é uma ponte entre as gerações, uma forma de contato, onde pais, avós, filhos, professores e alunos possam se encontrar, se reconhecer e principalmente colocar a palavra em movimento”, acredita Jane Patrícia Haddad, mestre em educação. Para ela, nas escolas, faz-se urgente rever o sentido da literatura, principalmente na educação infantil. “Não, não é mais aceitável uma educação que prevê uma leitura direta da linguagem e da fala, onde professores transmitem e alunos aprendem. A leitura afetiva, feita e apresentada por pais e professores, é nela que existe ou não a palavra. Olhar essa criança é apostar nela, por meio da boa literatura é possível nos desarmarmos de qualquer defesa e pré-julgamento, principalmente de modelos padronizados”, afirma.

Jane Patrícia Haddad ressalta que ler é se reinventar em um mundo de pressa e ausência de sentido. “Tentemos não ter tanta pressa com a infância, abram mais tempo para os livros infantis, para a música, para a arte, talvez assim, tenhamos que ensinar menos o acolhimento com as diferenças, a tolerância com os idosos… O bom livro permite o encontro de afetos, um encontro sem pressa, um encontro de presença e de escuta. Uma escuta que permita um tecer de outras histórias e saberes.”

ALICE E POLYANA A mestre em educação lembra que a infância não é apenas uma etapa do desenvolvimento, não é um processo linear e único, é muito mais do que isso. “Criança é o que acreditamos que ela seja. Eu mesma fui uma criança que encontrou na literatura uma forma de sair de conflitos psíquicos. Encontrei na literatura uma saída positiva frente aos impasses do medo, da raiva, das perdas, da desatenção. Foi pelas mãos de professores e dos livros que desenvolvi atitudes responsáveis frente ao mundo. Foi nos professores que encontrei o afeto perdido na pressa da minha casa, foi no livro Alice no país das maravilhas que decidi encontrar o meu caminho. Foi no clássico Polyana que encontrei uma amiga que sentia o que eu sentia… foi no olhar da Tia Benedita (bibliotecária) que eu entendi que o castigo poderia ser amoroso… Enfim, a literatura é uma saída do mundo sem sentido, onde o essencial vem se perdendo nas urgências de uma sociedade adoecida, querendo preparar crianças e jovens para o mercado de trabalho.”

Com know-how, Jane Patrícia Haddad avisa que “a melhor forma de tornar nossos filhos e alunos leitores é oferecer a eles o caminho da fantasia, dos sonhos e do simbólico. Os livros são atalhos do coração, são possíveis exemplos de amor e sedução. Ler é reler o que muitas vezes nos foge. Leiam e permitam que seus filhos e alunos experimentem seus efeitos”.

Como fazer crianças e adolescentes lerem? Para a psicanalista e escritora Maria Elizabeth Timponi de Moura, Beth Timponi, a pergunta a faz lembrar um Hai-Kai de Issa Kobayashi (1736-1827 aproximadamente): “O apanhador de nabos/Mostra o caminho/Com um nabo/. Acredito que um professor que coloque essas três linhas no quadro vai ouvir a moçada falar sobre a corrupção no Brasil, sobre o antagonismo entre falar e fazer, sobre como pensamos tendo como referência o trabalho que fazemos. Não vejo outra forma de incentivar a leitura, principalmente dos clássicos, se sua atualidade e valor não forem revigorados por um leitor que contextualize os textos. Seria melhor dizer: ler com os clássicos, repensar com eles, dialogando com outros e também produzindo textos a partir da leitura. O estímulo para a leitura está na abertura que ela produz de um campo que ofereça espaço para o leitor entrar em atividade e colocar algo de si mesmo e de seu tempo”.

Na literatura infantil não poderia ser diferente, alerta Beth Timponi. “Freud entendeu que o escritor faz seu trabalho quando consegue justamente remover as barreiras que impedem o leitor de se deixar levar pelo imaginário, pela ficção. A criança tem uma atividade imaginária muito aflorada e interessante. Mais do que isso, é pela via do imaginário que completa as lacunas do que ainda não tem recursos para simbolizar: fatos que vê, palavras que ouve, coisas que experimenta inclusive em seu próprio corpo.”

EXPRESSÃO A psicanalista explica que pelo imaginário a criança tenta construir algumas teorias sobre o mundo em que vive, sobre a dinâmica das relações afetivas na família e de seu lugar nela. Monta cenas, constrói personagens, faz desenhos numa atividade incessante de investigação, expressão e tradução. “As histórias infantis oferecem uma oportunidade excepcional para que a criança possa externalizar ou mesmo construir e dar forma ao que se passa em seu íntimo. É também um momento privilegiado em que a distância entre a criança e o adulto diminui já que ambos estão envolvidos numa trama que lança para uma outra dimensão problemas e situações diversas que a vida oferece. É o adulto que mostra o caminho da literatura para a criança ou adolescente na medida em que oferece um livro e lê, não para eles, mas com eles.!”

Interessados em compartilhar livros ou escolher um exemplar para levar para casa sem custo podem fazer uma visita ao Container com Letras, no hall das Bandeiras da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). A ação itinerante, que vai até o dia 23, das 10 às 19h, é uma iniciativa da organização não governamental Biblioteca de Compartilhamento e conta com o apoio da ALMG. Cerca de 15 mil obras estão disponíveis aos visitantes nas estantes do container de seis metros de comprimento, estruturado com ar-condicionado, computador, internet e uma tenda anexa com espaço para leitura. “Baseamos em valores da sustentabilidade e na ideia do desapego para propor, por meio do projeto, a desconstrução do conceito de propriedade. Acreditamos que o que fica acumulado deve circular, inclusive na literatura”, explica Giane Drumond, uma das diretoras do Biblioteca de Compartilhamento. O acervo atual do projeto tem mais de 45 mil livros, divididos em dois containers e um ponto de estoque.

Pequeno salto

A quarta edição da Pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil” (2016) feita pelo Instituto Pró-Livro e aplicada pelo Ibope Inteligência, com o apoio da Abrelivros, Câmara Brasileira do Livro e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), mostrou que o número de leitores no Brasil subiu 6 pontos percentuais entre 2011 e 2015. O levantamento teve abrangência nacional e aponta que o país tem cerca de 104,7 milhões de leitores, ou seja, 56% da população. A metodologia considera como leitor aquele que leu, inteiro ou em partes, pelo menos um livro nos últimos três meses. E o não leitor é aquele que declarou não ter lido nenhum livro nos últimos três meses mesmo que tenha lido nos últimos 12 meses. A pesquisa revelou que o brasileiro lê, em média, 2,54 livros no período referência de três meses anteriores à pesquisa. O número equivale a 4,96 livros por habitante/ano. O levantamento considerou todos gêneros: literatura, contos, romances, poesia, gibis, Bíblia, livros religiosos e didáticos. Quanto as motivações para ler, depois do “gosto ou interesse pessoal”, com 47%, a motivação religiosa foi apontada como a segunda principal razão para ler, com 22% das respostas.

O livro é o melhor amigo do homem

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Edival Lourenço, na Revista Bula

Há livro que nos diverte. Há livro que nos ensina. Há livro que nos faz lembrar e há livro que nos faz esquecer de tudo. Há livro que nos tensiona, há livro que nos relaxa. Há livro que nos leva ao infinito, há livro que nos deixa de quatro no chão. Há livro que nos amplia e a há livro que nos coloca em nossa verdadeira dimensão. O livro acompanha você na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na fila do consultório e na viagem de avião, no tumulto da rua e no aconchego do lar, na fartura de amor e na indigência afetiva. O livro nos faz sonhar ou cair na real, nos instiga a imaginação sem o enquadramento forçado de imagens visuais e se liga direto ao coração sem precisar de wi-fi ou bluetooth. O livro não é solução de todos os problemas nem a panaceia de todos os males. Mas não há problema que não amenize depois de uma boa leitura.

Por essas e outras, o livro é o melhor amigo do homem. Obviamente que há controvérsias. A sabedoria popular diz que é o cachorro. Para o poeta Vinicius de Moraes, o melhor amigo do homem é o uísque. Uísque, por assim dizer, seria uma espécie de cachorro engarrafado. Mas eu lhes afirmo com minha convicção: o livro é, sem dúvidas, o melhor amigo do homem.

Quem nunca se perguntou que livro levaria para uma ilha deserta, certamente negligenciou um dos exercícios mais lúdico de seu sistema cognitivo. Porque teria de ser um livro que suprisse o gigantesco espectro dos desejos e das necessidades humanas. Talvez um livro mágico, digno de Jorge Luis Borges. No entanto, apenas imaginado e nunca escrito, nem resenhado por ele.

Mas trazendo o assunto ao rés do chão, quem é que na vida não passou pela situação de se achar sem remédio e viu tudo clarear após a leitura de um livro, que às vezes nem botava muita fé? Tem aquele livro que você ganhou há 20 anos e nunca leu. Por alguma razão que a própria razão não explica, você finalmente leu na semana passada e, se for pessimista, ficou com a sensação de ter perdido 20 anos na vida. Se for otimista, ficou com o sentimento de que você andou em busca do tempo perdido. E achou.

Tem aquele livro que você começa a ler enquanto espera o elevador e chega em casa e não solta mais. Atravessa a noite numa leitura ferrada, numa obsessão medonha. Na manhã seguinte, ainda aceso feito uma chama de maçarico, mal tem tempo de ligar para o trabalho e comunicar a ausência, para novamente retornar ao livro, para ler até o fim, mas desejando que o livro não termine nunca. Tem aquele livro que você toma emprestado e se apega tanto a ele que depois de lido não tem coragem de devolver. Ainda que esta atitude seja completamente contrária a seus princípios.

Tem aquele que você começa e acha maçante e idiota e joga pra lá, no fundo da estante. Passa anos sem pegar novamente. Mas um dia você, por acaso pega o livro e começa de novo e acha genial. E descobre com tristeza (ou alegria) que maçante e idiota não era outro senão você.

Tem aquele livro que você gosta tanto, mas tanto, que compra toda vez que sai uma edição ou uma tradução nova e cada vez que lê parece que ele está ainda melhor. Aliás, toda vez compra dois: um para riscar enquanto lê e outro para guardar intacto feito um manancial fechado. Tem o livro que alguém lhe tomou emprestado, não devolveu e você não lembra quem foi. Isso lhe traz angústia durante o dia e pesadelo durante a noite. O pior de tudo é que o livro está fora de catálogo e o sebo de sua confiança ainda não deu conta de lhe arranjar um exemplar.

O livro nos traz experiências que numa vida só não seria possível experimentar. Nos traz os conhecimentos acumulados pela humanidade. Sem eles cada geração teria que reinventar a roda ou reescrever a tabela periódica. Quem lê com regularidade enxerga mais distante e mais profundo e tem a chance de encontrar as melhores soluções para os problemas que a vida nos apresenta. Quem não aprendeu a gostar de livros e de leitura desconhece uma das dimensões mais exuberantes da vida. Pode até dizer que não sente falta alguma da leitura. Porque ninguém sente falta daquilo que não conhece. Mas é como ter os pulmões meio lacrados por um mal congênito e desconhecer o que é respirar a plenos pulmões. E assim parece que tudo está normal, mesmo respirando pela metade.

Quem gosta de livro, sabe que conteúdo e forma são tudo de bom. Mas aprecia até coisas que não estão no conteúdo nem na estética literária. O formato, a textura e a cor do papel, o cheiro, o som da página virando, a fonte das letras, a mancha da página, o tipo de capitulação e tudo o mais. E quando a leitura é feita em livro eletrônico, muitas dessas sensações são imaginadas, emuladas pelos sentidos, como a textura, a viração da página e o cheiro do papel.

Finalmente, quem gosta de livro sabe que a leitura o torna uma pessoa mais bem posicionada, especial, diferente, com requintes intelectuais que de outro modo jamais poderia alcançar. Adquire diversos pontos de vista consistentes sobre diversas coisas importantes no mundo. Quaisquer que sejam as suas atividades. A leitura como prática de vida torna a pessoa tão sábia e especial que ela aprende até se fazer passar por uma pessoa comum, modesta e semelhante a qualquer outra.

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