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As aventuras do poderoso Xangô: HQ transforma Orixás em super-heróis

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A criação: Página de "Contos de Òrun Àiyè", com lançamento previsto para junho imagem: Divulgação

A criação: Página de “Contos de Òrun Àiyè”, com lançamento previsto para junho imagem: Divulgação

Tiago Dias, no UOL

Se a Marvel se inspirasse na mitologia yorubá para criar suas histórias, o guerreiro Xangô teria uma força tão impressionante quanto Thor, defenderia a justiça tanto quanto Capitão América, e contaria com a ajuda de Oxum, Ogum e Oxossi para conquistar o trono do império africano de Oyó.

Mas não é mais necessário uma gigante do ramo para fazer explodir um novo universo nos quadrinhos. A HQ “Contos de Òrun Àiyé”, que deve ser lançada em agosto, dará aos Orixás cores e contornos de super-heróis.

“Eles têm poderes e distinções muito claras de personalidade, como os super-heróis têm. Xangô e Iansã são vermelhos. Ogun é azul e verde. Oxum é dourado”, conta o criador da história, Hugo Canuto. “Tem um código ali que dialoga muito com a figura do super-herói.”

Os Vingadores da mitologia de matriz africana: Hugo Canuto bebe na fonte dos Orixás para nova HQ imagem: Divulgação

Os Vingadores da mitologia de matriz africana: Hugo Canuto bebe na fonte dos Orixás para nova HQ imagem: Divulgação

 

Como qualquer fã de heróis que se preze, o quadrinista baiano cresceu lendo o universo de Thor, Conan e Super-Homem, personagens inspirados em mitologias distantes, mas que nunca tiveram dificuldade de assimilação por parte dos leitores brasileiros.

Caiu então a ficha na cabeça do autor, que já visitara outras culturas em “A Canção de Mayrube”, inspirada nos povos latinos: Por que o deus nórdico, na ficção da Marvel, é um super-herói e Xangô, guerreiro africano, é considerado um demônio?

“Por que aquilo que é brasileiro, que faz parte da cultura do país, é vista dessa maneira negativa e esse mesmo arquetípico da cultura euro ocidental é vista como herói?”, questiona.

"The Might Xangô" ou "O Poderoso Xangô": Homenagem a Jack Kirby deu origem ao projeto imagem: Divulgação

“The Might Xangô” ou “O Poderoso Xangô”: Homenagem a Jack Kirby deu origem ao projeto imagem: Divulgação

“The Orixás”

Com a vontade de afugentar preconceitos e fundir suas duas paixões, a cultura brasileira e as HQs, recriou em agosto passado uma capa clássica de “Os Vingadores”, com Xangô na mesma pose de Capitão América, e Ogún no lugar do Homem de Ferro.

Nascia ali “The Orixás” – uma homenagem despretensiosa ao quadrinista americano Jack Kirby, fundador da Marvel e um de suas maiores inspirações, que completaria 99 anos naquele dia se estivesse vivo.

A ilustração foi recebida com uma onda de curtidas e compartilhamentos. Canuto criou então capas fictícias para cada Orixá e decidiu bancar um projeto de verdade. Recusou ofertas de editores e foi para o conhecido crowdfunding. A “vaquinha” iniciada em novembro bateu sua meta de R$ 12 mil logo nas primeiras semanas — e encerrou a arrecadação com R$ 40 mil.

Fundindo mundos

Hugo Canuto: "Quero trazer esse universo para uma mídia que ainda é muito eurocêntrica, muito ligada a temas norte-americanos" imagem: Bruno Sarrion/Divulgação

Hugo Canuto: “Quero trazer esse universo para uma mídia que ainda é muito eurocêntrica, muito ligada a temas norte-americanos” imagem: Bruno Sarrion/Divulgação

Na prévia de “Contos de Òrun Àiyé”, cedida pelo artista e que abre esta reportagem, é possível ver a influência dos heróis clássicos, como se Jack Kirby e Stephen “Steve” J. Ditko (responsável pela arte de “Dr. Estranho”) jogassem suas cores e influências pop em um novo mundo de super-deuses.

Mas o projeto vai além de transformar os Orixás em meros arquétipos. “A história que eu estou construindo se situa no tempo lendário, no passado mítico, em que céu [Òrun] e terra [Àiye] é um só. Não tem como ser maniqueísta. Eles são muitos complexos, não se reduzem a bom e ruim”, explica Canuto.

“Quero trazer esse universo para uma mídia que ainda é muito eurocêntrica, muito ligada a temas norte-americanos. Trazer algo que é tão vítima de preconceito, que é combatida por movimentos reacionários, para uma linguagem diferente e fazer com que as pessoas olhem de outra maneira”, observa o baiano. “Fiz uma ponte entre duas realidades.”

PA: Diretora veta trabalho sobre Pombagira em escola de “princípio cristão”

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Diretora de escola cristã vetou manifestaçõe sobre candomblé (foto)

Diretora de escola cristã vetou manifestações sobre candomblé (foto)

 

Carlos Madeiro, no UOL

A diretora do Centro de Educação Trindade, em Ananideua (na Grande Belém), proibiu estudantes do ensino médio de apresentar uma música em homenagem à Pombagira durante um festival e recebeu críticas de defensores da liberdade religiosa. A escola se intitula formadora de “princípios cristãos.”

A Pombagira é um Exú feminino cultuado em religiões de matriz africana. São entidades mensageiras dos orixás que têm como missão traduzir orientações dos deuses e espíritos superiores. Ela representa também a mulher liberta da submissão e ordem dos homens em uma sociedade machista.

Em uma gravação feita por um celular, na última quarta-feira (23), estudantes aparecem já na sala da diretora, que pede para que eles apresentem a música que seria interpretada no Festival de Cultura da escola.

Ao ser informada de que se trata de uma música chamada “Pombagira Cigana”, ela reage. “Pombagira? Credo!”

Em seguida, um dos alunos do grupo alega que ela precisa entender outras religiões, quando a diretora sobe o tom e veta a apresentação. “Não sou obrigada a entender as outras religiões! A escola tem um princípio cristão, e eu tenho de dizer para vocês que, dentro da minha escola, vai funcionar, vai se realizar, vai se apresentar o que eu achar conveniente. Negócio de pombagira eu não quero não aqui dentro”, alegou em tom áspero.

Um dos alunos pede então respeito à tradição religiosa, quando a diretora bate na mesa e grita: “Eu não quero e acabou.”

O UOL tentou entrar em contato com a direção da escola, mas as ligações aos dois números constantes na página da unidade não foram atendidos.
Críticas e apoio

Em sua página no Facebook, a escola defende que tem como princípios “promover através da educação sócio-interacionista o desenvolvimento harmônico dos educandos, nos aspectos físico, intelectual, social e espiritual, formando cidadãos pensantes e úteis à comunidade, à Pátria e a Deus.”

Na página, após o episódio, internautas se dividiram entre elogios e reclamações à postura da diretora.

“Preconceito e discriminação religiosa são crimes. Aprendam que igreja e escola são duas instituições com objetivos diferentes. E que religião é essa, que ignora e despreza as manifestações de crença diferentes de suas convicções? O que temos de Sagrado nisso?”, questiona um deles.

“Escola é para ensinar valores éticos, não para ensinar discriminação. Triste. Os pais dos alunos podem não ser cidadãos, mas a escola tem que ser, respeitar as leis, ser tolerante”, disse outra internauta.

Uma internauta também deixou sua mensagem, mas de apoio à postura escolar. “É simples: não gosta dos ensinamentos da escola, é só mudar pra uma escola de umbanda, você não é obrigado a permanecer em um local onde não se sente bem”, afirmou.

“Uma escola cristã para quem quer ter ensinamentos do cristianismo! Intolerância, nada! Apenas regras”, defendeu outra.

Por que brasileiro não lê autores brasileiros contemporâneos?

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Da esquerda para a direita: André Vianco, Raphael Draccon, Carolina Munhóz e Eduardo Spohr, autores de literatura fantástica brasileira. Imagem: Divulgação

Da esquerda para a direita: André Vianco, Raphael Draccon, Carolina Munhóz e Eduardo Spohr, autores de literatura fantástica brasileira. Imagem: Divulgação

 

Raphael Montes, em O Globo

Semana passada, fui abordado em uma livraria do Leblon por uma moça que queria ajuda na escolha de um livro de suspense ou de aventura. Entre os lançamentos, recomendei livros do André Vianco e do Raphael Draccon. A moça estava bastante entusiasmada com as indicações até ler a biografia dos autores. Sua expressão mudou subitamente e ela largou os livros com um vigoroso “ai, autor brasileiro não, né?”. Perguntei qual era o problema e ela se defendeu, dizendo que o livro não era para ela e que “dar de presente livro nacional pega mal, né?”. Sem muita paciência, me afastei, mas fiquei observando quando ela pescou um Harlan Coben na prateleira e enfiou-se na fila para pagar.

Dias antes, eu havia dado uma palestra ao lado de diversos autores de literatura nacional. O evento estava cheio e o entusiasmo dos leitores em ter contato direto com autores era evidente. Diante de episódios tão díspares, foi inevitável a pergunta: por que o brasileiro não lê brasileiros? Sendo mais específico: por que brasileiro não lê brasileiros contemporâneos?

Quero falar daquelas obras de gênero (policial, fantasia, chicklit, terror) que disputam com os best-sellers e, vez ou outra, conseguem seu espaço no mercado editorial. André Vianco, por exemplo, chegou na marca de um milhão de exemplares com suas histórias de vampiro — tema bastante explorado em obras estrangeiras também. O mesmo vale para Thalita Rebouças e Paula Pimenta, fortíssimas no segmento jovem. Há romances nacionais para os mais variados gostos, sempre trazendo características e paisagens tipicamente brasileiras, o que torna a identificação com a história muito mais eficaz. Por que, então, os livros estrangeiros ainda têm preferência?

A internet deu voz a diversos potenciais contadores de histórias. A facilidade no contato com os leitores e editoras; a praticidade e a eficácia da divulgação, além de outros recursos que o mundo virtual disponibiliza são os motivos que tornaram mais fácil o surgimento de novos autores — em sua maioria jovens — no mercado editorial. Ao passo que o número de escritores cresceu, a publicação também sofreu mudanças. Sua forma tradicional deixou de ser o único meio pelo qual um livro é editado e posto à venda. Abriu-se um leque de alternativas que vão desde a publicação independente até a premiação em concursos literários. Isso é ótimo, pois aumentou a variedade de temas e deu maior destaque à produção nacional. Ao fazer sucesso, um escritor ajuda não só a si, como a todos que produzem aquele tipo de literatura no país.

Por outro lado, com o crescimento da quantidade de textos publicados, a qualidade diminuiu. Buscando realizar o sonho de ter seu livro à venda, muitos escritores não tomam os cuidados devidos na hora de lançar sua obra no mercado: falta paciência, profissionalismo e comprometimento. Daí, alguns romances chegam às prateleiras mal revisados e mal editados, o que denigre a imagem da literatura nacional de gênero — que ainda está em delicada construção.

Muitas vezes apontada como a vilã da história, a editora precisa ser defendida. A maioria das editoras recebe dezenas de originais por semana, o que torna impossível a cuidadosa avaliação de todos eles. Assim, destacam-se na pilha aqueles que prendem logo nas primeiras páginas e que trazem uma proposta bem feita, sem erros graves de gramática etc.

Uma vez editado, o romance brasileiro entra em uma verdadeira selva, disputando atenção e espaço com best-sellers estrangeiros que já chegam ao país com a onda do sucesso. Como todo negócio, as editoras precisam sobreviver financeiramente. Por isso, costumam investir pesado na produção, na distribuição e na divulgação dessas obras internacionais. São títulos que já deram um retorno positivo em outros países e, provavelmente, trarão bons números por aqui também. Vencer esta barreira de marketing para chegar ao leitor brasileiro é um grande desafio ao escritor nacional.

Nesse sentido, os blogs e canais literários são essenciais para a divulgação de um livro. Essas plataformas apresentam lançamentos e resenhas que geram uma repercussão inimaginável junto aos leitores. Quando uma rede de leitores especializados elogia um romance, a propaganda se difunde rapidamente na rede. Além disso, a internet facilita o contato direto entre escritores — principalmente nacionais de gênero — e blogueiros. Há vantagens para os dois lados: para o escritor, que acompanha de perto o retorno sobre sua obra; para o blogueiro, que pode trocar ideias e fazer entrevistas.

Infelizmente, alguns blogs acabam esquecendo que seu principal papel é difundir o gosto pela leitura. Muitos se deixam levar pelo sistema de parcerias (ganham livros de autores e/ou editoras para sortear) e acabam baixando a qualidade ou simplesmente deixando de comprar obras — uma vez que recebem quase todas de graça. A mim, isso parece uma inversão de papéis.

Por fim, claro, os leitores. Como os títulos brasileiros não costumam receber maior atenção da imprensa, o boca a boca acaba sendo responsável pela quebra do preconceito que muitos leitores têm com obras nacionais. Além disso, o leitor é a força maior que leva um escritor a se dedicar ao seu romance. Sem leitores não há escritores. É essencial que todos juntos se dediquem a criar uma literatura brasileira de gênero cada vez mais especializada e bem difundida entre nós. Vamos em frente?

Pesquisa aponta que autistas sofrem menos preconceito na rede pública

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Pesquisa da Unicamp mostra que preconceito é menor na rede pública (Foto: Antonio Scarpinetti/Unicamp)

Pesquisa da Unicamp mostra que preconceito é menor na rede pública (Foto: Antonio Scarpinetti/Unicamp)

Situação reflete implantação de políticas de inclusão, diz pesquisador.
Estudo foi desenvolvido na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.

Roberta Steganha, no G1

Uma pesquisa desenvolvida na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, em Campinas (SP), mostrou que os estudantes com autismo sofrem menos preconceito nas escolas públicas. Segundo o professor Robson Celestino Prychodco, responsável pelo estudo, essa situação reflete a implantação de políticas públicas de inclusão de alunos com deficiência.

“As políticas públicas são recentes, então, a gente começa a sentir os efeitos disso, a partir dos alunos que estão na educação infantil. […] Impulsionado pela norma, pela legislação, acaba produzindo efeitos melhores, então, o preconceito diminui e aceitação aumenta”, afirma.

Leis e normas
Segundo o professor, as escolas públicas e particulares são obrigadas a seguir as leis 12.764, de 2012 – que instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA) – e a Lei Brasileira de Inclusão, de 2015.

A lei 12.764 reconhece o autismo como deficiência e prevê que, quando necessário, o estudante tenha direito a um acompanhante especializado. Para Prychodco, é nesse ponto que começa a exclusão, especialmente nas escolas particulares, que criam mecanismos para não ter que aceitar esses alunos, exigindo, por exemplo, que a família pague por esse tipo de assistência que a legislação garante.

“Os mecanismos de exclusão nas públicas são menos incisivos, porque elas são sujeitas às normas de uma maneira mais regulamentada e fiscalizada do que nas particulares [..] Na pública, a criança chegou, o diretor não pode simplesmente dizer que não vai matricular, se ele tem a vaga, ele é obrigado a matricular”, explica.

Inclusão
A pesquisa foi desenvolvida pelo pesquisador durante seu mestrado na universidade. Dentro das três maiores comunidades relacionadas ao autismo em uma rede social, ele selecionou cerca de 200 pais e responsáveis por crianças com esse tipo de transtorno para responder perguntas.

Com as informações passadas por eles, segundo o pesquisador, foi possível constatar que a inclusão, atualmente, é maior na educação infantil. “Temos um impacto das políticas públicas muito maior na educação infantil. Ela tem uma receptividade muito maior e tem estratégias de lidar com essas diferenças de uma maneira mais tranquila”, destaca.

Os números da pesquisa também mostraram que, para a maioria dos responsáveis, o preconceito “nunca” ou “raramente” acontece no ambiente escolar. “O preconceito acontece, mas não com tanta intensidade e na escola pública, ele acontece menos ainda”, afirma.

Retrocessos
No entanto, a pesquisa também mostrou que apesar das políticas públicas, os pais ainda têm dificuldades para conseguir matricular os filhos com autismo, especialmente, em escolas particulares. Dentre 53 participantes do estudo que solicitaram uma vaga, 21 alunos foram recusados, sendo que 8 tiveram que recorrer a outras instâncias para serem aceitos.

“A lógica da escola particular, ela foge um pouquinho do padrão, ela tem formas de funcionamento que muitas vezes criam mecanismos para excluir a criança com deficiência da escola com mais força”, explica.

Ainda de acordo com a pesquisa, 12 responsáveis responderam que a escola recusa o aluno porque o vê “como um problema”, ou “como um doente que não deveria estar naquele espaço”.

Crescimento
O estudo revelou também que na educação infantil, as escolas estão mais preparadas e embasadas para atender a diversidade, mas que as coisas mudam quando essas crianças alcançam as próximas etapas da escolarização devido às diferenças de aprendizado e o preconceito fica mais evidente.

“Conforme a criança vai crescendo, vai aumentando a complexidade, então, dependendo das limitações, do diagnóstico e tratamento que ela fez, ela tem condições de acompanhar as outras crianças, fazer vestibular, só que dependendo, se ela tem um grau severo de autismo, fica mais difícil. Então, essa percepção da diferença vai aumentando”, destaca.

Redes sociais
Prychodco destaca também que a pesquisa revelou a importância das redes sociais no processo de aceitação da deficiência e redução do preconceito.

“As redes são importantes porque as pessoas com deficiência passam por um processo de isolamento, porque a criança tem comportamentos que não são padrão, então muitos pais são julgados. […] A rede social quebra isso, já que ela tem o poder da similaridade. Essa interação tira as pessoas do isolamento e favorece a aceitação da deficiência, porque você percebe que não está sozinho”, pontua.

O resultado disso, segundo o pesquisador, é o “empoderamento das famílias”, que deixam de ter posturas passivas e passam a lutar de maneira mais ativa para que seus filhos não sejam excluídos.

Outra visão de inclusão
Após tentar incluir o filho Gabriel, de 11 anos, que têm autismo em escolas regulares, Juliana Borges de Andrade Girotto, de Sumaré (SP), conta que desistiu depois de perceber que ela não funcionava na prática. Atualmente, o menino estuda num colégio particular para crianças especiais em Paulínia (SP). O valor é custeado pelo governo, porque a mãe conseguiu uma vaga via Secretaria de Saúde.

“Eu tentei inclusão, mas não tive êxito. O Gabriel ficava isolado da sala, deitado o tempo todo dentro da sala, a professora tinha mais crianças. Aí, com relatório médico, coloquei o Gabriel nunca escola de educação especial. Hoje são cinco crianças na sala dele. Ele já está no segundo ano nessa escola e a diferença foi total no desenvolvimento”, afirma.

Juliana conta ainda que para enfrentar o processo de inclusão de Gabriel nas escolas regulares precisou até fazer terapia. “A tentativa da inclusão causa frustração, eu tive que ir para terapia. Eu era última a sair da reunião, sempre me deixavam para depois, eu não tinha nenhuma atividade realizada pelo meu filho. Na educação especial isso não acontece. Eu já tô conseguindo ver resultado”, revela.

A mãe afirma que na prática a inclusão é mais fácil nas escolas públicas do que nas particulares devido à legislação, mas que isso não significa ter as mesmas oportunidades. “Eu até concordo que você consegue incluir mais fácil na pública, porque eles não podem negar nossa matrícula, porém, você coloca a criança da porta para dentro. Que a criança é incluída realmente, eu vou dizer para você que ela não é”, finaliza.

Falta de ensino de arte nas escolas gera preconceito

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Gislene é artista plástica e professora de arte - PEDRO NEGRÃO

Gislene é artista plástica e professora de arte – PEDRO NEGRÃO

 

Daniela Jacinto, no Jornal Cruzeiro

“Vagabundos que querem mamar nas tetas do governo”. Com essas palavras – ou algo do gênero – algumas pessoas têm demonstrado nas redes sociais a sua visão sobre os artistas e o desconhecimento de que a arte é um direito da própria população, previsto em lei. Para a arte-educadora, artista plástica e artesã Gislene Fernandes Pedroso, professora de arte no ensino fundamental 1 e de literatura infantil na pós-graduação em Educação do Instituto Campos Giglio (ICG), essas expressões mostram a consequência da falta do ensino de arte nas escolas. Essa deficiência na educação tem um prazo de cinco anos para ser corrigida, a partir de agora. Desde maio de 2016, as artes visuais, a dança, a música e o teatro são as linguagens obrigatórias no currículos dos diversos níveis da educação básica.

A nova lei, de número 13.278/2016, altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), de 1996, e estabelece um prazo para que as escolas promovam a formação de professores para implantar esses componentes curriculares no ensino infantil, fundamental e médio. Até então, a LDB não especificava todos os tipos de arte a serem abordados. Mesmo assim as escolas já inseriram essa disciplina em 1996.

Gislene, que trabalha com formação de professores, afirma que o preconceito com relação a arte também é reproduzido com relação ao professor de arte e ao ensino de arte na escola e ela acredita que seja pelo mesmo motivo: desconhecimento sobre o que é arte e a sua função na sociedade. As consequências da falta de conhecimento sobre o tema, para Gislene, são desastrosas. Conforme ela, ainda nos dias de hoje o professor de arte que trabalha em algumas escolas, onde principalmente a direção não tem esse conhecimento, tem de enfrentar batalhas em seu dia a dia que vão desde esclarecer que fazer arte não é fazer sujeira até mesmo se impor quando querem passar para o professor de arte a organização de eventos como o Dia da Família. “As aulas de arte têm uma programação, um objetivo a seguir e ser cumprido. Existe conceito e método, não são para organizar eventos”, frisa Gislene.

Tem quem pense ainda que o professor de arte não precisa se preparar para dar suas aulas e que tem menos conhecimento que os demais. “Por mais incrível que isso possa parecer, tem quem ache isso, inclusive entre os próprios professores”.

Gislene lembra que teve um tempo nas escolas em que as aulas de arte se resumiam a copiar da lousa formas geométricas. As cores deveriam ser sempre as propostas pelo professor, e se as medidas das figuras não fossem exatamente o que estava pedindo no exercício, lá vinha uma canetada vermelha: estava errado.

Com o passar dos anos, veio a contribuição da pesquisadora Ana Mae Barbosa, que trouxe uma nova perspectiva para as aulas de arte-educação no Brasil. A oportunidade de conhecer arte é um dos privilégios da nova geração de estudantes, que também são incentivados a criar. Muitas escolas já implantaram esse ensino e a tendência, com a lei, é que todas sejam assim.

Visão simplista é por desconhecimento do conceito

Tem momentos da época de criança que acabam ficando na memória, seja por serem bons ou ruins, e entre as lembranças da arte-educadora Gislene Fernandes Pedroso estão os desenhos que fazia na aula de Educação Artística, que a professora costumava amassar e jogar no lixo. Isso ocorria, lembra ela, porque sua mão ficava suada e acabava manchando a folha. Por mais caprichado que estivesse, não havia desconto. “Sou insegura até hoje por causa disso e nunca acho que o que faço está realmente bom”, diz ela.

Graças a Ana Mae Barbosa, autora de diversos livros e artigos fundamentais para o estudo nesta área, e a principal referência em arte-educação no Brasil nos dias de hoje, a Abordagem Triangular tem ajudado os estudantes do ensino fundamental e médio a conhecerem de fato o que é arte. Gislene falou sobre o tema durante a oficina Arte-Educação: Reflexões sobre a Abordagem Triangular, realizada para educadores na sexta-feira passada, dentro do 1º Encontro de Educadores: Educação Solidária, promovido pelo Instituto Campos Giglio (ICG), de Votorantim.

De acordo com Gislene, Ana Mae revolucionou o ensino da arte no Brasil porque não se conformava com a forma como a arte era ministrada na escola. “A Abordagem Triangular é uma inovação do ensino de arte na escola, que era algo engessado, sem contexto. Por isso é que até hoje tem professores com uma visão simplista da arte”.

A a visão triangular, diz Gislene, é uma referência para trabalhar arte na escola, pois está baseada em três eixos: contextualização histórica; fazer artístico e apreciação artística (saber ler uma obra de arte). “Aula de arte não é apenas colocar os alunos para desenharem, pintarem. Se for assim basta abrir o YouYube e produzir algo, basta fazer um artesanato e pronto. O educador Paulo Freire falava muito sobre fugir de cópias e ter autonomia de criação”, diz.

Na prática, acrescenta Gislene, aula de arte consiste em ampliar o repertório cultural dos alunos, que não vão para a aula vazios. “Então cabe ao educador propor estratégias motivacionais para eles”.

E qual seria a função de promover a arte? Gislene afirma que a arte serve para formar cidadãos críticos, reflexivos e transformadores da sociedade.

Gislene exemplifica que uma aula de arte pode trabalhar diversos temas, inclusive aproveitar o assunto do momento, que é a Olimpíada. “O professor pode sugerir a confecção dos mascotes e contextualizar, explicando a origem de seus nomes, Vinícius e Tom”.

A escolha dos nomes homenageia os músicos Vinícius de Moraes e Tom Jobim, dois expoentes da Bossa Nova. Vinícius é o nome do mascote olímpico, já Tom, do paralímpico.

Outra dica é utilizar a contação de histórias. “Eu toco violão, canto, conto histórias, sempre no início de minhas aulas. Falo de algum livro e eles se interessam em ler. Dessa forma amplio o repertório de leitura deles”.

Entre as diversas obras já trabalhadas na escola, Gislene lembra do tanto que rendeu o livro Macaco danado, de Julia Donaldson e Axel Scheffler. “Percorremos com esse livro as áreas de Ciências, História, Geografia, Matemática, Língua Portuguesa. E os alunos produziram peças de teatro, dança e inclusive livro”, cita.

Gislene também gosta de trabalhar contos da tradição oral. “Ajudam a amplia o repertório porque trazem a cultura dos povos. Tudo o que o professor precisa para se aventurar com os alunos nas aulas de arte é ser criativo e ter estratégias de promoção de encantamento”, comenta.

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