Posts tagged Primeiro Dia

Criadora do “Diário de Classe”, em Santa Catarina, recebe ameaça de morte pelo Facebook

2
Na escola municipal em que estuda, Isa disse que a repercussão do site entre os colegas foi boa e que se sente bastante apoiada por eles - jura que gosta muito da turma

Na escola municipal em que estuda, Isa disse que a repercussão do site entre os colegas foi boa e que se sente bastante apoiada por eles – jura que gosta muito da turma

Publicado no UOL

A estudante Isadora Faber, 13, que se tornou conhecida por denunciar em uma comunidade do Facebook o sucateamento do colégio público em que estuda em Florianópolis, recebeu uma ameaça de morte pela mesma rede social.

Faber divulgou uma mensagem que recebeu no qual uma mulher, que afirma existir um plano para matar a jovem e seus familiares. A autora da mensagem ordena que seja deletada a página do fã clube da estudante no Facebook, criada por outra pessoa. Caso a página não fosse apagada, ela ameaça “meter bala” na estudante e no criador do fã clube.

Também no Facebook, Faber escreveu que não conhece a autora da mensagem e que irá denunciá-la na polícia.

Relembre

A partir da publicação no Facebook do Diário de Classe, Faber ganhou muitos elogios, fez palestras e concedeu várias entrevistas, mas também criou inimizades, principalmente na escola, teve a casa apedrejada e acabou tendo que ir depor na delegacia mais de uma vez.

Isadora, no entanto, já avisou que fez a rematrícula na Escola Básica Maria Tomázia Coelho, onde irá cursar a 8ª série no ano que vem. “Sei que a direção e professores sonhavam em me ver noutra escola em 2013, mas no primeiro dia da rematrícula, estava em São Paulo e fiz a rematrícula do aeroporto pela internet. Vou estar de olho em tudo em 2013, podem esperar”, afirmou em estudante no Diário de Classe.

Segundo Mel Faber, mãe de Isadora, a decisão de continuar na escola foi da garota. Mel acredita que, mesmo com as críticas e problemas enfrentados, a repercussão do Diário de Classe foi positiva. “Acho que o lado positivo prevaleceu. Durante a convivência, percebemos que ela [Isadora] amadureceu muito, melhorou muito na leitura e no português também. Participar de palestras e seminários abriu os horizontes dela”, disse a mãe.

Após a fama que veio com o Diário de Classe, Isadora foi palestrante em três eventos e “já está com o calendário bem cheio para o próximo ano, já começa em janeiro”, de acordo com a mãe. A página já foi curtida por mais de 500 mil pessoas no Facebook.

E nas últimas mensagens postadas no ano, a estudante apresenta a “próxima briga” que irá comprar – Isadora questiona a prestação de contas da escola, pois, segundo ela, “a secretaria disse em agosto de 2012 que a escola não recebia verbas por causa das prestações de contas”. A aluna já entrou em contato com a Secretaria Executiva de Controle Interno e Ouvidoria da Prefeitura de Florianópolis para saber o que aconteceu com as contas da escola.

Outros Diários

No mês de outubro, o UOL fez um levantamento e encontrou 30 páginas no Facebook que reuniam denúncias em escolas e universidades de 14 Estados brasileiros e do Distrito Federal.

Nas páginas, centenas de fotos expõem descuidos com as unidades escolares. Carteiras quebradas, banheiros sem porta, que não funcionam, salas de aula abandonadas, lousas quebradas, quadras inutilizadas, fiação exposta, lixo e reformas inacabadas são alguns dos problemas apresentados.

Nas mensagens, os alunos também reclamam da falta de professores, problemas com equipamento eletrônico e da qualidade da merenda.

Entre as 30 páginas encontradas pelo levantamento, 26 são escolas de ensino fundamental e médio, duas delas são de universidades e outras duas reúnem diferentes escolas do mesmo município. A maioria das instituições é de responsabilidade estadual.

São Paulo é o Estado com maior número de páginas (8), a Bahia tem quatro, Espírito Santo, Maranhão, Pará, Paraíba, Rio Grande do Sul e Santa Catarina têm duas cada. Para fechar a lista, ao menos uma página existe em Alagoas, Distrito Federal, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Piauí e Rio de Janeiro.

Onde tudo começou

Segundo Isadora Faber, a inspiração para escrever o Diário de Classe veio do blog da estudante escocesa Martha Payne, 9. A página foi criada para falar sobre a merenda da escola.

Além de mostrar a quantidade reduzida de comida por meio de fotos, a garota montou um ranking de “qualidade” e de “saúde” da merenda. Martha chegou a ser proibida de fotografar a merenda.

A convite da BBC Brasil, as duas blogueiras-mirins chegaram a trocar vídeos contando mais sobre a experiência pessoal de cada uma. Martha ficou feliz em saber que serviu de inspiração para Isadora.

“Bom trabalho! Aposto que você também vai inspirar muitas outras crianças ao redor mundo!”, disse a escocesa no vídeo.

(*Com informações da BBC Brasil)

Com mais lojas no Brasil, e-books custam de 60% a 85% do preço de livros de papel

0

Alexandre Aragão, Marianna Aragão e Raquel Cozer, na Folha de S.Paulo

Com a entrada da Amazon e do Google Play no Brasil, na semana passada, o mercado de e-books no país está agitado. Apesar disso, o preço dos arquivos ainda é alto e não apresenta descontos tão robustos em relação aos livros de papel e tinta.

Levantamento feito pela Folha com 12 títulos de oito editoras, em destaque na página inicial de quatro lojas –Amazon, Google Play, Livraria Cultura e Saraiva–, mostra que os preços dos e-books variam entre 60% e 85% dos preços dos livros físicos.

Para quem lê em inglês, ainda é mais barato comprar livros publicados no idioma de Shakespeare na Amazon americana. Os valores são menores mesmo levando em conta o câmbio e a adição de 6% sobre o valor final da compra, por causa do IOF (imposto sobre operações financeiras) cobrado pela operadora de cartão de crédito.

O e-book mais vendido no Brasil na semana passada é um exemplo de título que, em inglês, sai por um preço menor. “Cinquenta Tons de Liberdade” custa, na Amazon brasileira, R$ 22,41. No site americano, o livro na versão eletrônica sai por US$ 8,55. Com adição de impostos e câmbio, o custo é de R$ 18,85.

O usuário que já possui conta na Amazon dos EUA deverá escolher entre o site americano e o brasileiro –mas poderá migrar de volta.

No entanto, segundo a empresa, é melhor usar a loja brasileira já que “a experiência será aprimorada, pois o usuário poderá navegar em português e comprar com cartão de crédito nacional, e as sugestões de oferta serão de livros em português”.

CONCORRÊNCIA

No primeiro dia de operação tanto do Google Play como da Amazon, um sobe e desce no preço de “Cinquenta Tons de Cinza” no decorrer da tarde mostra como a concorrência entre as lojas tende a ser acirrada.

Com preço sugerido de R$ 24,90, pela editora Intrínseca, o e-book chegou a custar R$ 21,90 na Saraiva, no Google Play e na Amazon –e terminou o dia a R$ 22,41 em todas as lojas. Procuradas, nenhuma das empresas quis comentar o assunto.

A Folha apurou que, por contrato, a Amazon obriga que as editoras ofereçam a ela o menor preço de capa nos e-books. Assim, a concorrência não teria como fazer preços finais menores que os da empresa.

Ex-morador de rua se forma em pedagogia na Universidade de Brasília

0

O ex-morador Sérgio Reis Ferreira se formou em pedagogia pela UnBO ex-morador Sérgio Reis Ferreira se formou em pedagogia pela UnB

Publicado no UOL Educação

Os olhos de Sérgio Reis Ferreira têm um brilho intenso; o sorriso é de inesperada candura; as mãos evidenciam sofrimentos passados e um discreto nervosismo. A tentação de enxergá-lo como herói é grande –mas qualquer tentativa de apreender Sérgio na superfície é imediatamente frustrada: é preciso muito tempo e generosidade para reler o longo e árduo caminho que este ex-morador de rua percorreu até aqui, ao gabinete do reitor da UnB (Universidade de Brasília) nesse mês de novembro de 2012.

Foi no primeiro dia de novembro, então, que -com um sorriso tímido- o mineiro Sérgio enfim pôde entregou nas mãos de José Geraldo de Sousa Junior a monografia que atesta a conclusão do curso de pedagogia iniciado por ele na UnB há seis anos, em 2006.

O ineditismo do caso obrigou a instituição a se desdobrar para manter o estudante aqui após a surpreendente aprovação no primeiro vestibular de 2006. “A universidade que não lida com isto –que não acompanha esse aluno proveniente de situação adversa em todas as circunstâncias, até que complete o seu ciclo– é que fracassa, e não ele”, disse José Geraldo de Sousa Júnior, em referência à constante ameaça de descontinuidade que pairava sobre Sérgio durante os anos na UnB.

Institucionalmente, a universidade colaborou para a permanência de Sérgio com apoio sob a forma de alimentação, transporte, assistência social, orientação pedagógica etc.

“Não estamos aqui em torno do personagem Sérgio –mas, sim, do sujeito que, sobretudo, saiu da condição de vítima e trouxe sua vida até aqui, realizando uma ultrapassagem”, disse o reitor José Geraldo, para quem Sérgio é “alguém que, mesmo numa situação adversa, confiou”: “Se chegamos até aqui, é porque ele quis assim”.

O reitor revelou que vem acompanhando atentamente a trajetória do aluno, e que sabe das dificuldades que o percurso representou não só do ponto de vista econômico, mas também nos aspectos subjetivo, social e intelectual. “Ainda assim, Sérgio nunca tentou me atingir pelo sentimentalismo”, disse o reitor. “A rua não é mais o seu lugar!”, disse a Sérgio, que agradeceu: “Obrigado mais uma vez por me fazerem crescer”.

Sérgio Reis Ferreira entrega sua monografia para o reitor da UnB José Geraldo de Souza Jr.

Monografia

“As dificuldades dos moradores de rua do Distrito Federal de se inserirem por meio da educação formal”, trabalho de conclusão de curso de Sérgio, pulsa com a narrativa simples – movida por sua evidente inteligência e por uma candente sinceridade ao narrar sua trajetória. O trabalho ganhou menção máxima. “A universidade não passou a mão na cabeça do Sérgio, ele fez valer este título. Este trabalho é o Sérgio: as fraquezas são fruto de sua história educacional, mas as conquistas são dele”, frisou o professor Cristiano Muniz, o orientador.

Dedicada “a todos os moradores de rua do DF e a todos os que me ajudaram direta e indiretamente”, a monografia resgata o caso de Sérgio e de outros dois amigos em situação de igual vulnerabilidade social – um que conseguiu a inclusão e não mora mais na rua; e outro que, a despeito da grande capacidade crítica e conhecimento, não consegue entrar na universidade e ainda mora ao lado do restaurante Piantella, na Asa Sul, no Plano Piloto da capital federal. Na monografia, Sérgio faz também uma contundente crítica à universidade.

“Acredito que a universidade idealiza o estudante perfeito e se esquece da complexidade da existência humana, pois quando vem mendigo morador de rua para dentro da universidade, vem também com estes as doenças, os vícios, a falta de disciplina e, naturalmente, a dificuldade de se adequar à rigidez acadêmica. Sendo assim, é a academia que, em um primeiro momento, tem que se adequar para receber estes estudantes até que se adaptem à academia. Falo isto por experiência própria, pois tive muito dificuldade para me adequar aos horários, às regras acadêmicas escritas e não escritas, a exigência de produção e, principalmente, para me adequar à cultura acadêmica, ou seja, a maneira de se falar e de se comportar em grupo”, diz Sérgio em sua monografia.

O formando comentou com o reitor sobre o árduo esforço por ajustar-se e aprender a se limitar pelos parâmetros comportamentais que regem a vida na UnB: “Eu não tinha condições de estar dentro dessa sociedade; tive de aprender a falar, a esperar, a me vestir, a me adequar à Universidade”, disse. O professor Cristiano concordou: “De fato, a liberdade inerente às ruas é um grande obstáculo ao enquadramento destes alunos na academia”.

Livros sob um bueiro

“Senti tudo na pele: frio; não fome, mas vontade de comer; e o fato de estar privado do mínimo necessário à vida em sociedade”, disse Sérgio, lembrando que, muitas vezes, guardava os livros sob um bueiro. “Eu me envergonhava de dizer aos colegas que meu material havia sido roído por ratos e baratas”, disse, reclamando que, “no Brasil, não há políticas públicas direcionadas a esta população de rua – não há bebedouros nem banheiros e as pessoas são obrigadas a buscar locais em que há água gratuitamente disponível”.

Mas o caminho até a sala de aula não era feito apenas de percalços físicos – de longas caminhadas a pé, de banhos no Parque da Cidade e de roupas lavadas no lago Paranoá: a “inclusão excludente” de Sérgio na Universidade o fazia sofrer intensamente, levando-o muitas vezes a abandonar o abrigo da instituição para sentir-se paradoxalmente acolhido pelas ruas. “Às vezes a discriminação doía, e eu chorava por saber que eu era o invasor”, revelou Sérgio.

Há quase três meses, uma fatalidade – em meio ao mar de outras adversidades – ameaçou impedir a formatura de Sérgio de forma radical: no dia 28 de agosto de 2012, ao tentar roubar do pedagogo uma quentinha, outro morador de rua o esfaqueou. “Quanto à agressão física que quase me levou a óbito, eu somente aprendi uma dura lição: quando seres humanos ‘invisibilizados’ e silenciados pela sociedade – como os moradores de rua – lutam desesperadamente, eles utilizam até os meios mais vis e sorrateiros, no caso, a violência.”

No encontro com o reitor, Sérgio resumiu a surpreendente e notável trajetória com uma frase: “Eu não tinha mais nada em que me agarrar – só tinha a Universidade – e então me agarrei a ela com unhas e dentes”.

*Com reportagem de Grace Perpetuo, da Agência UnB

foto: Emília Silberstein/Agência UnB

Go to Top