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Cláudia Costin: “O maior erro foi não ter discutido a reforma do Ensino Médio com os jovens”

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A professora Cláudia Costin, em dezembro de 2015. Jorge Araújo Folhapress

A professora Cláudia Costin, em dezembro de 2015. Jorge Araújo Folhapress

 

Especialista diz que a reforma do ensino médio era urgente e elogia o aumento da carga horária

Marina Rossi, no El País

A necessidade de uma reforma no Ensino Médio é praticamente um consenso entre especialistas e educadores. Mas o fato de ter sido feita por meio de uma Medida Provisória, às pressas e sem diálogo com a comunidade escolar, é um ponto negativo quase consensual também. Cláudia Costin, professora de Harvard e da Fundação Getúlio Vargas, acredita que a falta de diálogo para propor uma reforma tão profunda na educação brasileira foi o maior problema da Medida Provisória do Ensino Médio, que acaba de ser aprovada no Senado, faltando apenas ser sancionada pelo presidente Michel Temer.

Ex-ministra da Administração e Reforma do Estado no Governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), ex-secretária Municipal de Educação do Rio de Janeiro e ex-secretária da Cultura de São Paulo, Costin passou também pelo Banco Mundial.

Pergunta. O que você achou da proposta da reforma do Ensino Médio?

Resposta. Era urgente reformar o Ensino Médio. Hoje temos 13 disciplinas na grade curricular de alguns Estados, chegando a ter até 15 disciplinas em outros para uma carga de quatro horas e meia por dia. Não é razoável. Dos 30 países que ficaram em primeiro lugar no Pisa [Programa Internacional de Avaliação de Estudantes], nenhum tem uma carga assim.

P. Por que o nosso modelo é assim ainda hoje?

R. Esse modelo de disciplinas tem muito mais a ver com interesses corporativos do que com o interesse dos jovens. São associações e sindicatos de professores que pressionam para que muitas disciplinas ainda permaneçam no currículo. A escola no Brasil já não é pensada para adolescentes e jovens. O currículo é enciclopédico. Por isso, quando começaram a trabalhar na Base Nacional Comum Curricular fiquei muito otimista quando deram atenção para esse excesso de disciplinas.

P. Qual é o ponto negativo, na sua opinião, dessa reforma?

R. Não gostei de ter sido por meio de uma Medida Provisória. O Brasil teve várias mudanças educacionais ao longo da história e sempre foi um processo muito discutido. Era muito importante discutir essas mudanças com os jovens. Eles têm idade para isso. Nós temos uma tendência no Brasil de infantilizar o adolescente…

P. Como assim?

R. Todo mundo se inspira no modelo educacional da Finlândia, por exemplo. Mas esquecem de uma coisa: lá eles nunca chamam os pais para discutir a escola ou falar do aluno. Eles falam com os jovens. O jovem vota para presidente da República mas não pode definir o que vai acontecer na sua vida escolar. Isso é um paradoxo. Mesmo que ele cometa erros, ele deve participar das decisões, pois ele pode aprender com os erros.

P. E quais os pontos mais positivos desta reforma?

R. Gostei muito de terem aumentado a carga horária para cinco horas diárias, diante das quatro horas e meia atuais. Deram um prazo para que as escolas possam cumprir essa alteração. Acho que aumentar a quantidade de horas é, inclusive, muito mais factível do que o ensino integral.

P. E sobre a não obrigatoriedade de oferecer as aulas de artes e educação física?

R. Acho que arte, por exemplo, é fundamental desde o ensino básico. Mas sobre sociologia e filosofia, acho interessante que não seja necessariamente por meio de uma disciplina. Você pode ensinar sociologia inserida na disciplina da física, por exemplo. Não precisa ser uma disciplina à parte. De maneira geral, vejo com bons olhos a proposta que saiu. Acho que teríamos ganhado mais se tivessem colocado urgência no projeto de lei que já tramitava na Câmara, e não transformado em uma Medida Provisória. O maior erro foi não ter discutido com os jovens.

P. A Câmara aprovou a Medida Provisória na mesma semana em que o Senado aprovou a PEC do teto de gastos. Essa proposta de estabelecer limite para os investimentos públicos pode interferir no que se está propondo para a Educação?

R. Eu sou super a favor de um Governo que está em déficit corte despesas. Mas é um bom momento para se estabelecer prioridades, que, ao meu ver, seriam a criação de uma rede de proteção social para os mais pobres e a educação. Como vamos crescer em bases sustentáveis sem investir em educação de qualidade? E investir em educação de qualidade significa pagar melhor o professor. O maior gasto com a educação é o salário do professor e é assim que deve ser. Sobre a PEC, não sei como farão para investir na ampliação da rede de período integral, por exemplo, com os limites de gastos. Eu tenho a expectativa de que em pouco tempo alguém se dê conta de que essa PEC seja revista antes dos dez anos.

Cérebro bom exige cama e comida, afirma professora do MIT

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A neurocientista e especialista em liderança Tara Swart

A neurocientista e especialista em liderança Tara Swart

Bruno Benevides, na Folha de S. Paulo

O futuro da formação em negócios passa por cursos que ofereçam ioga, meditação, ginástica e comida saudável, segundo a neurocientista britânica Tara Swart, que não revela a idade.

Formada em medicina na Universidade de Oxford, com especialização em neurociência pelo King’s College, em Londres, Swart trocou o hospital pela escola. Ela ensina executivos a usarem melhor seus cérebros.

Um profissional no comando precisa treinar a mente da mesma forma que um atleta treina o corpo —aprender a tocar um instrumento musical ou uma nova língua são formas de melhorar o rendimento, aconselha ela, que chefia cursos sobre liderança e neurociência no MIT (Massachusetts Institute of Technology), nos EUA.

A especialista atua também como coach de executivos por meio de sua consultoria, “The Unlimited Mind”, na qual tenta usar as descobertas mais recentes da neurociência para ajudar seus clientes.

Folha – Como a neurociência pode ser útil na vida profissional?
Tara Swart – Quando você atua como líder, se entender algumas pequenas questões-chave sobre o funcionamento do cérebro conseguirá tomar as melhores decisões e também extrair mais do cérebro das outras pessoas.

Como seria a escola de negócios perfeita, do ponto de vista da neurociência?
Quando você ensina neurociência, precisa sentar com os alunos para mostrar como aprender da melhor forma possível. Neurociência tem muito a ver com mudar o comportamento e conhecer coisas novas.

Fazer exercício pela manhã, antes do início das aulas, deve ser incluído no programa porque assim os alunos vão fazê-lo. Em dias que você se exercita, há uma chance maior de você ser produtivo, porque o cérebro fica mais oxigenado, lembra mais coisas, aprende melhor e pensa de forma mais criativa. Também há outros aspectos: a comida que consome, a água que bebe, se toma café ou álcool à noite. Tudo isso afeta o cérebro. Então, é preciso dar os melhores conselhos, mas também ajudar os alunos a terem acesso a isso. Precisa disponibilizar, ter comida saudável e muita água na sala de aula, por exemplo.

Um outro nicho no qual a neurociência atua hoje é nos modos de acalmar a mente e ajudar a focar no que importa. Então, no fim do dia, no curso do MIT temos um guia que dá uma aula para acalmar a mente. Temos também esteiras, para que o aluno faça exercícios. Isso ajuda no que chamamos de aprendizado espacial. É uma técnica na qual você aprende alguma coisa, para e vai aprender outra completamente diferente, como correr. Pequenas coisas, como isso, estimulam seu cérebro a aprender mais do que se você só ficar sentado ouvindo o professor falar.

Como o estudante deve escolher um curso desse tipo?
É importante saber quanto de ciência o curso ensina. Há muito curso baseado em psicologia por aí e as pessoas estão procurando algo mais específico. Então, busque algo que não seja só psicológico, mas que traga as descobertas recentes da neurociência.

Há muitos cursos sobre o assunto, mas, infelizmente, muitos têm pessoas sem um conhecimento científico rigoroso, que falam coisas muito simplificadas ou que não são verdade. É preciso tomar cuidado sobre isso.

A neurociência vai substituir a psicologia na educação de executivos?
A neurociência e a psicologia estão no mesmo espectro. Ambas são ciências cognitivas. A neurociência é mais sobre a fisiologia de seu cérebro. Não diria que ela vai substituir a psicologia, mas sua participação nessa educação de liderança e gestão vai aumentar. Há 20 anos, pessoas achavam que pensar de forma estratégica era um sinal de liderança, em comparação com uma atitude mais prática. Nos próximos 20 anos, entender o comportamento cognitivo vai ser o que dará uma vantagem para quem quiser ser um líder.

No Brasil, cresce o número de cursos que unem neurociência com diferentes áreas, como economia, marketing. Como a neurociência pode ajudar a entender esses assuntos?
De duas formas, na realidade. Uma é que agora podemos usar instrumentos como tomografia e exame de sangue para obter mais evidências sobre coisas que sempre achávamos que estavam certas. E também temos alguns conceitos que não tínhamos antes e que, atualmente, a neurociência mostra que é como devemos pensar. Um exemplo disso na área econômica é que cada uma das decisões que tomamos são influenciadas por emoção. Nós não poderíamos confirmar isso até podermos ver a tomografia de um cérebro no momento de tomar uma decisão.

É possível ensinar um cérebro a liderar?
Pessoas têm habilidades naturais, mas há duas opções. Ou focar nessas habilidades que já possui ou aprender novos hábitos e comportamentos. Sabemos hoje que os cérebros têm plasticidade, a habilidade de mudar. Não podemos exagerar, dizer que todo mundo vai virar um líder, mas a maioria das pessoas pode atuar no comando, fazer coisas que acham que não podem fazer. Um caminho é aprender novas línguas ou um instrumento musical depois que você já é adulto, porque isso ajuda seu cérebro a ficar flexível, o que permite pensar melhor, solucionar problemas de maneiras diferentes, ser mais criativo.

Como perceber que estamos ampliando a flexibilidade do cérebro?
Qualquer coisa que exija atenção e intensidade muda o cérebro. Para saber se o que você está fazendo é intenso o suficiente, se você sentir fome ou cansaço durante aquela atividade, é provável que seu cérebro esteja trabalhando muito. É como levantar peso na academia: você pode ver seu músculo aumentando. Se faz exercícios mentais, vai notar seu cérebro mudando e evoluindo também. Alguém que nunca cozinhou, pode começar a fazer uma comida, ou praticar um esporte que nunca fez, ou viajar e conhecer gente. É preciso expor o cérebro a novas experiências.

Como melhorar o rendimento do cérebro?
É preciso começar com a parte física dele. Primeiro, ele precisa descansar, com sete a nove horas de sono de qualidade por noite. Se não fizer isso, vai ter um QI menor no dia seguinte. Também é preciso dar mais nutrientes para o cérebro, o que significa consumir uma comida mais saudável, mais alimentos como abacate, salmão, ovos, óleo de castanha e de coco, chá verde. E beber mais água. Mantenha o corpo hidratado e o cérebro oxigenado através de exercício. Não precisa ser nada pesado, só não pode ficar sentado o dia todo, é preciso ser ativo. Se você não tiver tempo, apenas meditar e respirar melhor já ajuda a oxigenar o cérebro. Por último, é preciso levar um pouco de simplicidade para a rotina. Ser um líder exige muito do tempo. Então, se não se organizar, o cérebro vai perder tempo com questões menos importantes, como escolher qual roupa vestir pela manhã.

Ex-faxineira vira professora e muda vida de crianças de favela

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Foto: reprodução / TV Globo

Foto: reprodução / TV Globo

 

Publicado no Só Notícia Boa

Um exemplo de garra, superação e amor ao próximo.

Uma ex-faxineira de São Julião, no Piauí se tornou professora e virou referência pelo trabalho educacional voluntário que realiza com crianças carentes da comunidade Sol Nascente, umas das maiores favelas do Brasil.

Moradora de Ceilândia, cidade carente do Distrito Federal, a 40 km de Brasília, Margarida Minervina da Silva, popularmente conhecida como “Margarida do Primo”, foi destaque no ‘Fantástico’ da Rede Globo na edição deste domingo, 08 de janeiro.

Quando saiu do Piauí seu primeiro emprego na capital não foi como professora, mas como gari.

Depois disso, virou diarista foi faxina em cemitério. Ela contou que bico lavando cada túmulo por R$ 1.

A professora mora em um barraco no Sol Nascente, uma imensa ocupação irregular da periferia de Brasília.

A escola pública que Margarida ajudou a construir é o único sinal da presença do Estado no local.

Ela dá aulas e recebe pouco mais de R$ 500. Ao lado de sua casa, Margarida leciona em uma escolinha de reforço que atende as crianças da comunidade, todas de escolas públicas.

“Todo mundo é capaz por igual, só que cada um tem o seu tempo, eu aprendo de uma maneira, você aprende de outra”, disse Margarida.

Com informações do Fantástico

Professora terá de pagar R$ 10 mil após chamar aluno de ‘negro burro’

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Governo do Estado de São Paulo foi condenado no mesmo processo.
Caso aconteceu no ano de 2008 em escola pública de Guarujá (SP).

Publicado no G1

Escola Estadual Prof Raquel de Castro Ferreira em Guarujá (Foto: Reprodução/Google Street View)

Escola Estadual Prof Raquel de Castro Ferreira
em Guarujá (Foto: Reprodução/Google Street View)

Uma professora e o Governo do Estado de São Paulo foram condenados pela Justiça a pagar indenização, de R$ 10 mil cada, para um aluno de uma escola pública em Guarujá, no litoral paulista, e à mãe dele, por conta de injúrias raciais.

Em 2008, a professora da Escola Estadual Professora Raquel de Castro Ferreira disse aos estudantes, durante uma aula, que ‘pessoas negras são burras e não conseguem aprender’. O comentário considerado ofensivo foi gravado pelo celular de um dos alunos.

Apesar do Estado ter entrado com recurso argumentando que o caso não passou de um “mero aborrecimento”, o desembargador Rebouças de Carvalho não acatou o pedido. Na última quinta-feira (17), ele confirmou a condenação tanto da professora, quanto do governo.

“Os fatos ocorreram no interior de uma escola pública e motivado por comentário infeliz e impróprio, ainda que episódico, e vindo de uma professora, ganha ainda contornos mais graves, isso porque a escola é o local da convivência, do incentivo à liberdade da tolerância e do respeito e, ainda, da promoção da dignidade humana. Referido tipo de comportamento de quem tem o dever de ensinar não pode ser admitido, devendo ser coibido”, ponderou.

A decisão da 9ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo confirmou a sentença que já havia sido assinada pelo juiz Marcelo Machado da Silva, da 4ª Vara Cível de Guarujá. Entre as provas colhidas durante o processo, está a gravação contida em um celular demonstrando que a professora se referiu “às pessoas de pele negra como sendo pessoas ‘burras’ e que não conseguem aprender”.

Como uma professora transformou a favela onde vive em Florianópolis

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Dona Uda, líder comunitária no Mont Serrat, na cadeira de balanço herdada da mãe

Dona Uda, líder comunitária no Mont Serrat, na cadeira de balanço herdada da mãe

 

Aline Torres,  no UOL

Maria da Costa Lourdes Gonzaga foi professora por 30 anos ou três gerações de alunos no Mont Serrat, comunidade do Maciço da Cruz, na região central de Florianópolis.

Diz brincando que tem sorte de ainda não ter aparecido nenhum bisneto de aluno seu, senão se sentiria muito velha. Segundo suas contas, deve ter dado aulas para mais de 15 mil crianças.

Dona Uda, como ficou conhecida, também batalhou por água encanada, esgoto, asfalto e ônibus para a favela onde vive até hoje.

Nas horas vagas, alfabetizou adultos. Ajudou a construir a escola de samba Copa Lord, uma das mais tradicionais da cidade, ao lado de seu marido, Armandinho, que foi presidente por 18 anos.

Quando ele morreu, em 1984, a comunidade pediu que ela assumisse a função, na qual ficou por dois anos. Até hoje, nenhuma outra mulher foi presidente de uma escola de samba no município.

Aos 78 anos, dona Uda ainda não parou. Coordena o grupo de mulheres negras Antonieta de Barros, é madrinha da melhor idade, responsável pelas 43 baianas da Copa Lord. Também batiza, dá a catequese e casa os fiéis da igrejinha de Mont Serrat.

E trabalha para ver nascer a primeira universidade no morro. Ela e o padre Vilson Groh participam de audiências públicas e reuniões privadas com representantes do governo para viabilizar esse projeto.
Invisíveis

Segundo o historiador André Luiz Santos, autor de “Do Mar ao Morro: A Geografia da Pobreza Urbana em Florianópolis”, na década de 1920, a derrubada dos cortiços foi seguida pela isenção de impostos para famílias que desejassem construir belos imóveis nos locais desocupados à força, tanto no centro quanto em áreas nobres.

Com isso, os pobres e negros foram sendo expulsos para outras áreas, como o Maciço da Cruz. Foram doadas madeiras para que os casebres fossem erguidos nessa região “com a condição de não serem vistos”, escreve ele em sua tese.

Vista do morro da igreja Nossa Senhora do Mont Serrat, em Florianópolis

Vista do morro da igreja Nossa Senhora do Mont Serrat, em Florianópolis

 

O Mont Serrat foi um dos primeiros morros a serem povoados em Florianópolis. Recebeu escravos fugidos e soldados miseráveis no século 19. Depois houve a migração de pobres para a região.

Seis famílias ergueram os primeiros barracões: os Silva, os Veloso, os Cardoso, os Almeida, os Barbosa e os Costa, pais de Uda. “Aqui somos todos parentes”, resume ela.

Dona Uda nasceu no Mont Serrat no dia 30 de julho de 1938, filha do pedreiro Julio Sebastião da Costa e da lavadeira Angelina Veloso Costa. Apesar da vida difícil, o casal se esforçou para realizar o sonho da filha: ser professora.

“Vim a esse mundo com a mesma missão das minhas duas madrinhas. Somos as três Marias e dedicamos nossas vidas à sala de aula”, disse.

Aos oito anos, foi matriculada na Escola dos Pobres, como era chamada a Diocesana São José. Lá foi alfabetizada, mas ela queria mais.

Aos 13, foi para o Instituto Estadual de Educação, a maior escola pública de Santa Catarina, onde foi a primeira aluna negra. A diretora era Antonieta de Barros, que se tornou a primeira deputada estadual negra do país e a primeira mulher eleita em Santa Catarina.

Dona Uda com os seus primeiros alunos

Dona Uda com os seus primeiros alunos

 

Dona Uda se inspirou nesse pioneirismo e foi a primeira negra a passar no vestibular da Udesc (Universidade de Santa Catarina) para o curso equivalente a pedagogia.

Com o diploma em mãos, foi convidada a dar aulas na primeira escola criada em uma favela –a Básica Lucia do Livramento Mayvorne, situada no alto do Mont Serrat.

Quando começaram as aulas, tinha 12 alunos. No final do ano letivo, 500. Como a escola não comportava tantas crianças, saiu pela vizinhança explicando a situação e fez muita gente resolveu cooperar.

A Legião da Boa Vontade cedeu duas salas, a igrejinha local ofereceu uma terceira. Um antigo morador deu a chave de um velho casebre com três cômodos. E, mesmo na base do improviso, as 500 crianças tiveram aulas.

Na hora do lanche, a mãe de Uda preparava merendas para todos na igrejinha. “Era muito bonito. Nós vencíamos todos os obstáculos. O importante era que nenhuma criança ficasse ociosa”, conta.

Ela diz que seu principal ensinamento não foi o abecedário. Foi alimentar sonhos. “Eu dizia que eles podiam ser o que quisessem. Se uma menina do morro quiser ser médica, ela vai ser. Não tem o que segure a força de vontade.”

O estímulo rendeu frutos. Dona Uda guarda uma caixa cheia de convites de formatura de ex-alunos. São médicos, advogados, enfermeiras. Muitos fizeram mestrado e doutorado sobre a madrinha negra da favela. “Eu não pude ter filhos, então, virei mãe de todos.”

A frase parece exagero. Mas a porta de sua casa não está nunca fechada. Vizinhos, crianças e parentes entram sem bater. Querem saber como ela está, se precisa de algo, se passa bem da recuperação do joelho recém-operado, levam mimos. “Ela é mais beijada que a pomba do divino”, resume a amiga Patrícia Sardá. A família não para de aumentar.

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