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“Me sinto desvalorizado pelo Brasil”, diz professor premiado

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Wemerson está entre os 50 finalistas do Global Teacher Prize

Wemerson está entre os 50 finalistas do Global Teacher Prize

 

Eleito educador do ano em 2016, capixaba de 26 anos concorre agora a prêmio considerado “Nobel da Educação”. Em entrevista à DW, ele critica falta de investimentos nos professores e nas escolas públicas.

Publicado no DW

O professor de ciências Wemerson da Silva Nogueira conhece bem os desafios enfrentados nas escolas públicas e os impactos que projetos polêmicos discutidos ao longo de 2016 em Brasília, como a PEC do teto dos gastos e a reforma do ensino médio, podem trazer para dentro da sala de aula.

Formado em uma faculdade à distancia, Nogueira pagava a mensalidade de 190 reais (valor da época) com o dinheiro que ganhava vendendo picolés e colhendo café na roça da família, em Nova Venécia, no norte do Espírito Santo. Hoje, aos 26 anos, e com apenas cinco anos de formado, ele já ganhou dez prêmios nacionais — incluindo o de “Educador do ano 2016”.

As premiações mais recentes foram em reconhecimento ao projeto “Filtrando as lágrimas do Rio Doce”, desenvolvido em fevereiro de 2016 com 50 alunos do 8º ano do ensino fundamental da Escola Estadual Antonio dos Santos Neves, em Boa Esperança, também no norte do Espírito Santo.

Nogueira transformou as águas do Rio Doce, afetadas pelo rompimento das barragens de Mariana, em Minas Gerais, em um verdadeiro laboratório de química. No início, a ideia era apenas identificar os poluentes presentes na água. Mas os alunos perceberam que a necessidade de ajudar a comunidade ribeirinha era muito maior que apenas aprender a tabela periódica. “As famílias não têm saneamento básico, e o rio era a única fonte de água daquela população”, diz Nogueira.

Após aprenderem a analisar os poluentes, os estudantes desenvolveram filtros de retenção de areia capazes de limpar a água poluída pelo maior desastre ambiental ocorrido no Brasil. Mais de 500 filtros já foram distribuídos de graça à população ribeirinha de Regência (ES). “O projeto continua até que todas as famílias afetadas ganhem um filtro.”

Nogueira ganhou visibilidade internacional. Ao lado do professor amazonense Valter Menezes, ele está entre os 50 finalistas do prêmio Global Teacher Prize, atualmente considerado o “Nobel da Educação” – uma das premiações mais importantes da área. Os dois brasileiros foram selecionados entre mais de 20 mil candidatos de 179 países.

Em entrevista à DW Brasil, Nogueira critica a falta de investimentos do governo nas escolas públicas e o baixo reconhecimento dos professores. “Me sinto desvalorizado pelo meu país”, diz. “Venho conquistando todos esses prêmios porque acredito na educação. E não porque meu país acredita nela.”

Wemerson Nogueira é professor de ciências na Escola Estadual Antonio dos Santos Neves, no Espírito Santo

Wemerson Nogueira é professor de ciências na Escola Estadual Antonio dos Santos Neves, no Espírito Santo

DW Brasil: Você é um professor muito jovem e já bastante premiado. Qual é o segredo para fazer a diferença?

Wemerson Nogueira: Eu busco ser um aprendiz dentro da sala de aula. Tento falar a mesma linguagem dos meus alunos e proponho projetos práticos para ensinar conteúdos científicos, que muitas vezes são tidos como chatos e difíceis de aprender. Eu só ensino assim. Primeiro, exponho minhas ideias de projetos aos alunos, para cativá-los, para despertar o interesse deles no tema. Só depois vem a teoria. Os projetos envolvem de paródias de músicas sobre elementos da tabela periódica a atividades fora da escola.

Como é ser professor de escola pública no Brasil?

É algo muito desafiador. A maioria das escolas sofre com tanta falta de recursos e infraestrutura que o professor vai ficando desestimulado em dar aula. O aluno percebe e fica desanimado. Apesar de todas as dificuldades, nós, professores, tentamos encontrar formas de motivar os nossos alunos a quererem aprender mais, a fazer coisas novas. Mas isso tem ficado cada vez mais difícil diante da crise que estamos enfrentando no país, com o governo querendo congelar os investimentos em educação. Essa conjuntura gera um desinteresse geral na rede pública.

Como você avalia os impactos da PEC 55 na educação?

Não há dúvida de que é necessário reajustar as contas do nosso país, mas não concordo em mexer na educação. O governo deveria olhar para educação como a principal prioridade. É na educação que o país vai formar cidadãos capazes de contribuir com outras áreas importantes, como saúde e segurança. Daqui a 20 anos, teremos uma nova geração de alunos, e a demanda por uma educação mais moderna. Congelando investimentos na área, como vamos alcançar o desenvolvimento de duas décadas?

Alunos da escola onde Wemerson leciona analisam os poluentes presentes nas águas do Rio Doce

Alunos da escola onde Wemerson leciona analisam os poluentes presentes nas águas do Rio Doce

 

O Brasil teve desempenho fraco no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) em 2015 e dificuldades de alcançar as metas do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). A falta de investimentos é suficiente para explicar os resultados ruins?

É difícil generalizar. Tem um ou outro estado que está se destacando, como o Espírito Santo [que teve o melhor desempenho no Pisa], mas sei que a realidade da minha escola é muito diferente das do interior do sertão, que muitas vezes não oferecem nem uma folha de papel para os alunos escreverem a prova. Os baixos resultados do Brasil nos rankings são consequência direta da falta de investimentos na área. Até tem investimentos sendo feitos, mas a sensação é que eles são precários e não chegam a todas as escolas do país. E para funcionar direito, a escola precisa de 100% de investimentos. Menos que isso não dá conta.

Eu, por exemplo, recebi muito apoio da minha prefeitura e da secretaria de educação do ES para implementar meu projeto. Mas será que um professor lá no interior do sertão teria o apoio que eu tive? Eu me sinto valorizado pelo meu estado, pelo meu município e pela minha escola. Mas me sinto desvalorizado pelo meu país. Venho conquistando todos esses prêmios porque acredito na educação. E não porque meu país acredita nela. O Brasil tem hoje dois finalistas no maior prêmio de educação do mundo. Os dois de escola pública. Os governantes deveriam olhar para nós como exemplos, e investir mais, para que mais professores possam promover projetos diferenciados. Está acontecendo o inverso e isso me entristece.

Caso os investimentos em educação sejam, de fato, reduzidos pelos próximos anos, que iniciativas podem ser tomadas para melhorar a educação no país?

O governo poderia criar laboratórios de ciências e de informática nos estados e municípios que pudessem ser usados por várias escolas ao mesmo tempo, por agendamento de turmas. Acho que não sairia muito caro. Se eu vencer o prêmio mundial [o primeiro colocado receberá 1 milhão de dólares], vou construir na minha cidade um laboratório de informática e de ciências, para que os alunos carentes possam ter aula de experiências e fazer pesquisas na internet. Também pretendo abrir a minha própria fundação, com a oferta de bolsas de estudo para quem quiser seguir a carreira de professor e orientação de professores para trabalharem com projetos práticos. Se eu sozinho, com esse prêmio, poderia fazer isso, imagino que o governo tenha recursos para fazer muito mais.

Qual é a necessidade de aumentar a atratividade da profissão de professor entre os jovens?

Nós precisamos inovar em educação. Essa inovação não virá dos professores antigos, que estão perto de se aposentar. Com tudo o que tem sido discutido, muitos alunos perdem a vontade de seguir a carreira de professor. Na semana passada, dei uma palestra para 750 alunos do ensino médio. Perguntei quantos já tiveram vontade de ser professor. Quase metade do grupo levantou a mão. Quando perguntei quem toparia se tornar professor hoje, apenas cinco se manifestaram. Eles não estão errados. A realidade hoje no Brasil é muito difícil para professores e alunos da rede pública. No final da palestra, depois de falar da minha trajetória e conquistas, repeti a pergunta. E todos levantaram a mão. Foi emocionante. O Brasil precisa disso. Motivar os nossos alunos a serem professores.

Diploma inútil? Por que tantos brasileiros não conseguem trabalho em suas áreas

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Com tantos graduados no mercado, muitos não conseguem exercer suas profissões - Thinkstock

Com tantos graduados no mercado, muitos não conseguem exercer suas profissões – Thinkstock

 

Ingrid Fagundez, na BBC Brasil

Enquanto você lê esta reportagem, milhares de jovens pelo Brasil se preparam para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), prova que pode garantir a entrada deles na universidade. Os estudantes apostam na graduação para começar uma carreira. No entanto, muitos dos que pegam o diploma hoje não conseguem exercer sua profissão.

A culpa não é só da crise econômica, que levou o desemprego a 11,8% no terceiro trimestre deste ano, segundo o IBGE, mas do perfil dos recém-formados. Eles se concentram em poucas áreas e, quando buscam uma vaga, percebem que não há tanto espaço para as mesmas funções.

Essa análise foi feita pelo economista e professor da USP Hélio Zylberstajn, a partir de um cruzamento de dados do Censo do Ensino Superior e da Rais (Relação Anual de Informações Sociais), do Ministério do Trabalho.

Os números de 2014, os mais recentes disponíveis, mostram que 80% dos formandos estudavam em seis ramos: comércio e administração; formação de professor e ciências da educação; saúde; direito; engenharia e computação. Ao olhar o que faziam os trabalhadores com ensino superior, o professor notou que os cargos não existiam na mesma proporção dos diplomas.

Um bom exemplo é o setor de administração que, em 2014, correspondia a 30% dos concluintes. Apesar da fatia expressiva, apenas 4,9% dos trabalhadores com graduação eram administradores de empresa. Outros 9,4% eram assistentes ou auxiliares administrativos, função que nem sempre exige faculdade.

“As pessoas fazem esses cursos, mas evidentemente não há demanda para tantos advogados ou administradores. Elas acabam sendo são subutilizadas”, diz Zylberstajn.

O professor também diz que o número total de graduados seria superior ao que o mercado brasileiro pode suportar. De acordo com o Censo do Ensino Superior, em 2014, um milhão de pessoas saíram das salas de aula. Em 2004, eram 630 mil.

Mais gente no ensino superior

Mas o que levou esse número a crescer tanto?

A multiplicação das instituições privadas, ao lado da maior oferta das bolsas do Prouni e do Fies (Fundo de Financiamento Estudantil), facilitaram o acesso dos brasileiros à graduação. De 2000 a 2014, a quantidade de instituições dessa natureza aumentou 15%. Outro fator, dizem os entrevistados, é cultural: no país, a beca é sinônimo de status.

“A gente despreza o técnico e supervaloriza o superior. É uma tradição ibérica. Como por muito tempo foi uma coisa da elite, passou a ser considerado um meio de ascender socialmente”, afirma Zylberstajn.

Para a professora Elisabete Adami, da Administração da PUC-SP, esse objetivo está ligado à ideia de que o diploma basta para ganhar mais.

Ela diz que deu aulas em faculdades privadas de São Paulo e notava o desejo de seus alunos de melhorar de vida.

“Na sala, tinha três que eram carteiros, muitos motoboys, o pessoal que trabalhava em lojas. O que eles queriam ali? Subir.”

Rodolfo Garrido foi fazer faculdade de engenharia porque queria ganhar mais  - Arquivo pessoal

Rodolfo Garrido foi fazer faculdade de engenharia porque queria ganhar mais – Arquivo pessoal

Rodolfo Garrido pensava nisso quando largou o ensino técnico para entrar em uma faculdade privada. Ele ganhava R$ 2.600 como programador de produção em uma metalúrgica. Como engenheiro, diz, seu salário poderia subir para R$ 4.000.

Com a oportunidade do financiamento estudantil, decidiu apostar.

“Já trabalhava na área, então só juntei os estudos. Para poder me graduar e ter um salário melhor, poderia ganhar o dobro. Quando surgiu o incentivo do governo, comecei a pesquisar, porque antes era uma bolada.”

Depois de três semestres, teve que deixar as aulas porque ficou desempregado.

Segundo a diretora do Escritório de Desenvolvimento de Carreiras da USP, Tania Casado, a crença de Rodolfo é endossada por pesquisa. Elas indicam salários maiores para empregos de nível superior. Mas A a professora faz uma ressalva: os estudos são feitos com quem já está trabalhando nesses cargos.

“Os dados são verdadeiros, só que é preciso lê-los corretamente. O fato de você fazer uma faculdade não significa que vai para um vaga desse tipo.”

Os motivos pelos quais Rodolfo escolheu engenharia também ajudam a explicar a concentração dos estudantes em seis áreas, que incluem saúde, direito e computação. São profissões tradicionais, teoricamente mais estáveis e bem pagas. Além disso, são as mais oferecidas pelas instituições privadas, responsáveis por 87,4% da educação superior no país.

“As pessoas vão para faculdades pagas, que têm cursos de menor custo, como Direito e Administração”, diz o professor Hélio Zylberstajn.

Eles são mais baratos porque não usam outros equipamentos a não ser a sala de aula. Cursos de Química, por exemplo, exigem laboratórios e substâncias controladas.

Outro fator para decisões tão parecidas seria a pouca idade com que os brasileiros escolhem uma profissão.

“É uma meninada de 17, 18 anos, que faz Administração porque o pai fez, ou porque acha legal ser CEO”, diz a professora Elisabete Adami, da PUC-SP.

Aceitar o que tiver

Evelyn queria ser administradora de empresas, mas trabalha como assistente administrativa  - Arquivo pessoal

Evelyn queria ser administradora de empresas, mas trabalha como assistente administrativa – Arquivo pessoal

Com tantos professores, administradores e advogados no mercado, muita gente tem dificuldade de conseguir um bom cargo na sua área. Às vezes o jeito é aceitar vagas que pedem apenas ensino médio.

Quando Evelyn Maranhão se formou, em 2011, pensava que seria administradora de empresas. Cinco anos e muitas negativas depois, trabalha como assistente administrativa. Ela registra pedidos e lança horas-extras no sistema de uma empresa de manutenção predial.

“Achei que ia lidar com estatística, relatório, análises, e, na verdade, faço o que uma secretária faria. Imaginava que estaria na tomada de decisões.”

Há quem nem consiga exercer sua profissão.

Antes de cursar enfermagem, Vivian Oliveira trabalhava com eventos. Mesmo depois da formatura, continua organizando congressos, feiras e festas. Nesse meio tempo, diz, mandou incontáveis currículos, mas não foi chamada para entrevistas. Só foi contratada por uma clínica, onde ficou um ano.

“Até há vagas, mas como não tenho muita experiência, eles não chamam.”

Para a enfermeira, o fato de não ter estudado em uma universidade conceituada prejudicou sua trajetória “Se surgir uma posição no (hospital Albert) Einstein, vai entrar alguém de faculdade renomada. Vi que meus colegas buscam fazer pós em lugares reconhecidos, porque colocam esse nome no currículo.”

Formada em enfermagem, Vivian trabalha com eventos  - Arquivo pessoal

Formada em enfermagem, Vivian trabalha com eventos – Arquivo pessoal

 

Faculdade renomada

A falta de experiência e a formação em instituições pouco prestigiadas são os principais empecilhos que os formandos enfrentam nos processos de seleção, diz Luciane Prazeres, coordenadora de Recursos Humanos da agência de empregos Luandre.

Prazeres relata que muitos profissionais chegam no mercado sem ter feito estágio porque precisavam trabalhar para pagar os estudos. E alguma experiência na área é sempre requisitada pelos empregadores.

“A maioria são recepcionistas, operadores de call center que buscam o oposto do que estão fazendo. Mas, se ele não sai do mercado para fazer estágio, é difícil conseguir uma oportunidade.”

Segundo ela, é comum que, ao abrir um posto, as empresas peçam candidatos formados em determinada universidade.

Professora na PUC-SP, Elisabete Adami diz notar essa diferença ao ver que seus alunos saem empregados do curso.

“Pega estudantes da PUC, da FGV, do Insper, da USP…eles não estão tão sem trabalho. O pessoal de faculdades de segunda linha não encontra espaço e vai ter que fazer uma pós para complementar a formação.”

Para Adami, houve uma proliferação de escolas com menos qualidade, que entregariam profissionais deficientes.

“Esses conglomerados pagam, em média, R$ 17 a hora-aula. Que tipo de professor você vai ter?”

No entanto, pondera, a estrutura ruim não é sempre sinônimo de profissionais mal-preparados. Só que, nesses ambientes, eles são mais frequentes do que em instituições de ponta.

“Sai gente boa, mas por conta própria, porque são esforçados.”

Entre uma graduação ruim e uma boa formação técnica, diz Adami, ela aposta na segunda.

“Essa mania de ser o primeiro da família a se formar é uma ilusão, mas é forte no Brasil. É algo secular. Na França e na Alemanha, você não tem esse percentual de jovens na universidade.”

Proliferação de faculdades levou à formação de profissionais deficientes, diz professores  - Thinkstock

Proliferação de faculdades levou à formação de profissionais deficientes, diz professores – Thinkstock

Ensino técnico

O ensino técnico é citado pelos entrevistados como uma opção interessante.

Hélio Zylberstajn, da USP, diz que o ensino é negligenciado e faz falta para o país. O professor sugere que disciplinas ligadas ao ensino técnico sejam incluídas na grade curricular do ensino médio, e não em institutos, como acontece hoje.

“Estamos carentes de técnicos. No ensino médio, deveríamos formar mão de obra em cooperação com as empresas.”

Esse tipo de formação é uma possibilidade que deve ser analisada antes da decisão definitiva pelo ensino superior, diz Tania Casado, do Escritório de Desenvolvimento de Carreiras da USP.

“É preciso olhar para o lado e ver que há muitas posições não preenchidas, porque as pessoas não têm estudo específico. Os jovens precisam saber disso ao se lançarem em um curso.”

Se a escolha for pelo ensino superior, Casado diz que o estudante não deve conhecer apenas a profissão, mas as ocupações que ela abrange. Um graduado em Medicina, por exemplo, pode tornar-se um gestor de plano de saúde. Da mesma forma, alguém formado em Administração pode tornar-se um consultor.

Além de analisar as alternativas que o mercado oferece, aconselha a diretora, o candidato deve olhar para si e escolher algo com o que se identifique. Se depois quiser mudar de área, a transição não tem que ser dolorosa. Nem sempre uma nova faculdade é necessária, afirma. Às vezes uma especialização ou cursos livres são suficientes.

“Carreira é isto: olhar o entorno e se olhar, o tempo inteiro. E saber que, à medida que você vai evoluindo, pode haver outros interesses, o que é bom. É preciso se preparar para esses interesses, mas não necessariamente isso passa por uma graduação.”

Por que é tão penoso lançar um livro no Brasil?

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O escritor tem a impressão de que perpetrou um imperdoável embuste

Fernando Dourado Filho, na Revista Amanhã

Lançar um livro é um dos eventos mais angustiantes que podem acometer nossa frágil individualidade. O estresse é o mesmo das festas de fim de ano, quando as UTIs ficam coalhadas de pais atordoados com as demandas de uma família insaciável. Nos dias que antecedem a primeira noite de autógrafos, no caso de o autor ousar organizar uma, as coisas pioram muitíssimo e o escritor tem a impressão de que, no fundo, cometeu um ato de impostura, de soberba, de falsidade ideológica, enfim, que perpetrou um imperdoável embuste.

Por mais que ele saiba que duas dezenas de almas caridosas estarão presentes e lhe lançarão olhares benevolentes enquanto ele rabisca autógrafos empolados para esticar o tempo, a sensação inelutável é a de que ele tirou da paz de suas casas aquelas pessoas. E o autor, justo ele, que odeia vida social e já sonhou em viver isolado numa ilha do mar Egeu, se sentirá mais do que nunca uma fraude. Com que direito expor aquela brava gente às balas perdidas da vida urbana brasileira?

A bem da verdade, se pudesse, ele subiria na mesa e, patético, pediria desculpas públicas pelo deslize, daria um exemplar para cada um dos presentes graciosamente e ainda os mandaria de volta para casa de Uber às suas expensas, sob juramento solene de que jamais voltaria a escrever um livro. Mas agora já é tarde. As engrenagens da máquina já estarão rodando e só lhe competirá encarar a realidade dos fatos.

Se a recepção aos passantes está marcada para as 7 horas de uma quinta-feira, ele poderá tomar um Lexotan de 3 miligramas às 5 horas e, a caminho da livraria, emborcar uma dose de conhaque de alcatrão para fazer face à desventura que semeou na vida alheia. Sim, é isso que lhe passa pela cabeça na noite do domingo que antecede o primeiro de tantos eventos similares. Mas por que será? Vamos arriscar algumas explicações.

a) Ora, um livro é um projeto autoral por excelência. É fruto de uma sobreposição de impressões que vão tomando forma até o dia em que traduzem – ou tentam – um todo coerente. Não, ninguém desperta um belo dia e diz para si mesmo: “Hoje eu vou escrever um livro”. Assim sendo, dado o caráter intimista, o grande desafio é saber se ele vai perpassar o crivo alheio e encontrar um pequeno espaço no coração do leitor. A esmagadora maioria, contudo, quase a totalidade dos livros publicados diariamente, morre de inanição. Poucos serão os leitores que chegarão ao fim da leitura e infinitamente menos numerosos serão os que o comprarão. Um livro é como um filhote de tartaruga que escorrega pela areia até o mar nas praias da Bahia. Poucos chegarão à vida adulta;

b) Mas digamos que um dia você tenha em mãos o que outrora se denominava os originais e que você, num momento de soberba e amor pela humanidade, os enviou a uma editora. Como a maioria delas sabe que os ditos escritores se disporão a qualquer acordo para ser editados, elas se permitirão fazer o básico ou pouco mais. Tentarão impor um modelo de negócios blindado contra surpresas e em que a pressão recairá sobre o autor. Ademais, se eximirão previamente de erros de revisão. Dentro de uma faixa mínima, como se temessem deparar tubarões com água pela cintura, se arriscarão, mas, é claro, vão rir com discrição dos devaneios do escritor amalucado que, siderado por um lampejo de glória fugaz, falará de sua obra com ares de patriarca bíblico, ao passo que a editora, benevolente, o puxará para a terra com a força de um cabo de amarração, daqueles que aprisionavam o Zeppelin no alto das torres de atracação;

c) Vamos agora admitir que você tenha couraça de paquiderme, como dizem outros atores dessa comédia e, depois de apontar falhas de revisão às pencas, pois bem, digamos que você queira falar sobre as etapas subsequentes. Não porque você seja açodado ou inexperiente. Pelo contrário. Mas porque você roda mundo com frequência e acha que o planejamento tem suas virtudes, apesar de abominar o discurso conservador. Ademais, cá entre nós, em encarnações passadas, você já comandou áreas que equivalem a 20, 30 vezes o faturamento de sua editora. Sabe o que você vai ouvir? “Nananinanão”. Como uma criança flagrada afagando o suspiro ainda no forno, você será alvo de um peteleco nas falanges e de uma preleção sobre o “modus operandi” da casa. E, como se obedientes aos caprichos de um oráculo, até seus mais próximos dirão que as coisas nesse mundo “funcionam assim”. Ora, como obter resultados diferentes se o método é o mesmo?;

d) Você então bota a viola no saco e vai tocar sua vida, duvidando até que aquele projeto exista. Na solidão do confinamento, o tempo passa. Até o dia em que alguém telefona e diz que os exemplares estão saindo da gráfica. A essa altura, você terá colecionado 20 ou 30 “nãos”. Na verdade, você estará cansado, exausto. Mesmo porque a parte nobre do trabalho, aquela que agora poderia se traduzir em real expectativa de mercado, já não pode mais ser feita. É tarde. Isso porque ninguém terá integrado o processo a contento. O modelo matricial não dialogou entre si. Nada de Drücker, muito de Ionesco. A toda hora se apresentará um interlocutor novo com funções auto-atribuídas de logística, comércio, marketing, divulgação, comunicação e afins. Cada um dará uma pitadinha de sal no refogado e, cumprida a tabela (no entender dele), desaparecerá na nebulosa matricial. A maioria de suas perguntas ficará sem resposta;

e) Se você é o autor e sobreviveu a tudo isso, parabéns. Não é raro que você esteja vivendo os dias mais pungentes de sua vida, só comparáveis aos do infarto que seu pai sofreu quando você ainda tinha 13 anos e os médicos olhavam-no com benevolência e diziam: “Temos que rezar, meu filho”. Qualquer sugestão ainda não atendida – a imensa maioria delas – é facilmente atribuída à bufoneria e aos devaneios do ego. “A vaidade dele é tão grande quanto a barriga de um cervejeiro”, você lerá na correspondência interna que um incauto vazou. O que menos conta é a qualidade do que você escreveu. Qualquer sugestão de capa, formato, fonte ou papel será tida como desvario, quando não como voluntarismo e arbítrio. “Grande escravocrata, será que a Lei Áurea não chegou a vossa remota província?” – dirão os arautos da ordem às suas costas. Pois para essa indústria, o escritor é satanizado. Mesmo que ele professe a mais franciscana das humildades, ele é pré-condenado em todas as instâncias. Pois todos estão imbuídos da convicção de que ele é o elo vulnerável, o ser frágil a ser espezinhado, o nefelibata, o bobo de corte que estará no centro do ridículo. Até seus amigos dirão que as fotos estão péssimas, o “timing” foi perdido e você tem encontro marcado com o fracasso. Quando muito leais, dirão que é tempo de tirar lições para não repetir os mesmos erros no futuro. E isso tudo porque você ainda está longe do tal lançamento;

f) Nos dias que o antecedem, data crucial para que a livraria dê (ou não) algum a sobrevida de visibilidade a seus escritos, o que acontece? Tudo, rigorosamente tudo, que você teceu com mãos operosas, muito além do que todos os atores até então envolvidos jamais sonharam, está à beira do esgarçamento e destruição. Por qual razão? Porque os vasos não se comunicaram; porque todos os elos tiraram dias de férias no pior dos momentos e outros tantos decretaram operação-tartaruga porque se sentiram “inseguros”, quando não “desconfortáveis” com o rumo do projeto. Seja com a pressão, seja com as condições pactadas. E lá está você, o alvo silente da peçonha alheia, todos a querer ver a nave submergir para poder gritar em uníssono: “eu não disse?”;

g) Ora, as chances de ganhar algum dinheiro com o livro são quase nulas. Se ele vender muito bem – metade de seus amigos mais 100 unidades –, é possível que o chamem para um convescote literário em Itacaré, com direito a uma passagem de ônibus e R$ 500 de cachê. Isso se você preencher um formulário que nem uma matrícula em Harvard pediria tanto. Perder, contudo, é matematicamente certo. Pelo que já se viu, aliás, se perdem primeiro os amigos que têm alguma veleidade literária. Dirão que o que você escreveu é puro lixo e se esbaldarão de rir com uma passagem truncada. Se serve de consolo, quando isso acontecer, sorria. Pode ser, muitas vezes, que você esteja no bom caminho. Mas o bom do auto da fé ocorrerá pelas suas costas;

h) E aqueles amigos, ditos admiradores incondicionais, que o bombardearam por meses a fio em jornais, revistas e redes sociais, dizendo que você deve um livro à humanidade? E que, indo além do que recomenda a gentileza, se comprometem a adquirir seu livro para dar de presente aos amigos e clientes? Simples: todos sumirão. Todos alegarão que um brinde de R$ 30 é uma miséria e, ademais, que a crise os leva a contenções de despesas. Coerência, portanto, zero. O que é pior: acaso o pobre autor cobrou o cumprimento de alguma promessa? Nada, sequer disse que estava lançando o tal livro, na verdade. É bem da natureza humana, não há dúvida. Enquanto é hipótese, o sonho alimenta. Se vira realidade, esvanece. Lembram de quando Vinícius, o poetinha, insistia em levar Elizeth Cardoso para a cama? Alguém recomendou que “a Divina” lhe respondesse: “Pois só se for agora, Vinícius. Estou pronta…” Sem palavras, ele tergiversou e nunca mais falou no assunto;

i) São reações muito divertidas, se pensarmos bem. Os elos mais simples de ser estabelecidos, não o são. Não há o menor espaço para a pro-atividade e todos, quase todos, esperam palavrinhas de afago por ter feito exatamente um pouco aquém do se esperava deles. Quem surpreendeu foi você, o rebotalho do escritor. As boas ideias que germinaram saíram, no mais das vezes, de sua cabeça, apesar da interdição absoluta ao direito de pensar. Não obstante tanto, não esqueça: agradeça penhoradamente todos os que se pautaram pela lei do menor esforço e deram forma concreta a algum “insight” que você tenha tido, apesar de a maioria deles ter ido para o lixo;

j) Para finalizar esse arrazoado, não esqueça, sob quaisquer hipóteses, que é de péssimo tom você acalentar um projeto bojudo, espraiado ao longo de meia dúzia de anos, mesmo que você deixe a obra pronta e sequer cogite de viver tanto tempo. Não, isso é soberba. É “hubris”. Todos dirão em uníssono que nos pautamos por marcos regulatórios e sua solidão é absoluta. Com quem falar a respeito? Ninguém. Os que lhe são próximos dirão que não querem se acumpliciar com um sumidouro de dinheiro. Os que estão a meia distância, acharão ridícula sua pretensão. Os mais distantes dirão: “Quem sabe? Tente”.

Não há ser mais isolado no mundo do que um escritor às vésperas de lançar um livro. É um infeliz no sentido mais estrito da palavra. A malignidade de sua enfermidade é um truísmo. Nem o prazer incomparável de frequentar livrarias lhe restará por que ele só terá olhos para a gôndola onde seu livro morou durante alguns dias, antes do repouso eterno num depósito empoeirado. Mas lute, amigo. Nem que seja por você mesmo. Trave o bom combate.

Bem-formada, nova geração chega mal-educada às empresas, diz filósofo

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Cortella lança o livro "Por que fazemos o que fazemos?" sobre a busca de propósito no trabalho

Cortella lança o livro “Por que fazemos o que fazemos?” sobre a busca de propósito no trabalho

 

Segunda-feira, seis da manhã. O despertador toca e você não quer sair da cama. Está cansado? Ou não vê sentido no que faz?

na BBC Brasil

Na introdução de seu novo livro, o filósofo e escritor Mario Sergio Cortella coloca em poucas palavras o questionamento central da obra Por que fazemos o que fazemos?. Lançada em julho, ela trata da busca por um propósito no trabalho, uma das maiores aflições contemporâneas.

Em entrevista à BBC Brasil, Cortella, também doutor em Educação e professor, fala como um mundo de múltiplas possibilidades levou as pessoas a negarem ser apenas uma peça na engrenagem.

O filósofo explica como a combinação de um cenário imediatista, anos de bonança e pais protetores fez com que a “busca por propósito” dos jovens seja muitas vezes incompatível com a realidade.

“No dia a dia, eles se colocam como alguém que vai ter um grande legado, mas ficam imaginando o legado como algo imediato.”

Essa visão “idílica”, afirma, transforma escritórios e salas de aula em palcos de confronto entre gerações.

“Parte da nova geração chega nas empresas mal-educada. Ela não chega mal-escolarizada, chega mal-educada. Não tem noção de hierarquia, de metas e prazos e acha que você é o pai dela.”

Leia os principais trechos da entrevista abaixo:

BBC Brasil – O que desencadeou a volta da busca pelo propósito?

Mario Sergio Cortella – A primeira coisa que desencadeou foi um tsunami tecnológico, que nos colocou tantas variáveis de convivência que a gente fica atordoado.

A lógica para minha geração foi mais fácil. Qual era a lógica? Crescer, estudar. Era escola, e dependendo da tua condição, faculdade. Não era comunicação em artes do corpo. Era direito, engenharia, tinha uma restrição.

Essa overdose de variáveis gerou dificuldade de fazer escolhas. Isso produz angústia em relação a esse polo do propósito. Por que faço o que estou fazendo? Faço por que me mandam ou por que desejo fazer? Tem uma série de questões que não existiam num mundo menos complexo.

Não foi à toa que a filosofia veio com força nos últimos vinte anos. Ela voltou porque grandes questões do tipo “para onde eu vou?”, “quem sou eu?”, vieram à tona.

Livro de Cortella foi lançado em julho e traz reflexão sobre trabalho

Livro de Cortella foi lançado em julho e traz reflexão sobre trabalho

 

BBC Brasil – Podemos dizer que nesse contexto vai ser cada vez menor o número de pessoas que não tem esses questionamentos?

Mario Sergio Cortella – Cada vez menor será o número de pessoas que não se incomoda com isso. O próprio mundo digital traz o tempo todo, nas redes sociais, a pergunta: “por que faço o que faço?”, “por que tomo essa posição?”. E aquilo que os blogs e os youtubers estão fazendo é uma provocação: seja inteiro, autêntico. É a expressão “seja você mesmo”, evite a vida de gado.


BBC Brasil – No seu livro, você fala da importância do reconhecimento no trabalho. Qual é ela?

Mario Sergio Cortella – O sentir-se reconhecido é sentir-se gostado. Esse reconhecimento é decisivo. A gente não pode imaginar que as pessoas se satisfaçam com a ideia de um sucesso avaliado pela conquista material. O reconhecimento faz com que você perca o anonimato em meio à vida em multidão.

No fundo, cada um de nós não deseja ser exclusivo, único, mas não quer ser apenas um. Eu sou um que importa. E sou assim porque é importante fazer o que faço e as pessoas gostam.

BBC Brasil – Pelo que vemos nas redes sociais, os jovens estão trazendo essa discussão de forma mais intensa. Você percebeu isso?

Mario Sergio Cortella – Há algum tempo tenho tido leitores cada vez mais jovens. Como me tornei meio pop, é comum estar andando num shopping e um grupo de adolescentes pedir para tirar foto.

Uma parcela dessa nova geração tem uma perturbação muito forte, em relação a não seguir uma rota. E não é uma recuperação do movimento hippie, que era a recusa à massificação e à destruição, ao mundo industrial.

Hoje é (a busca por) uma vida que não seja banal, em que eu faça sentido. É o que muitos falam de ‘deixar a minha marca na trajetória’. Isso é pré-renascentista. Aquela ideia do herói, de você deixar a sua marca, que antes, na idade média, era pelo combate.

O destaque agora é fazer bem a si e aos outros. Não é uma lógica franciscana, o “vamos sofrer sem reclamar”. É o contrário. Não sofrer, se não for necessário.

Uma das coisas que coloco no livro é que não há possibilidade de se conseguir algumas coisas sem esforço. Mas uma das frases que mais ouço dos jovens, e que para mim é muito estranha, é: quero fazer o que eu gosto.

'Tsunami tecnológico' gerou volta da busca por um propósito, diz Cortella

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BBC Brasil – Esse é um pensamento comum entre os jovens quando se fala em carreira.

Mario Sergio Cortella – Muito comum, mas está equivocado. Para fazer o que se gosta é necessário fazer várias coisas das quais não se gosta. Faz parte do processo.

Adoro dar aulas, sou professor há 42 anos, mas detesto corrigir provas. Não posso terceirizar a correção, porque a prova me mostra como estou ensinando.

Não é nem a retomada do ‘no pain, no gain’ (‘sem dor, não há ganho’). Mas é a lógica de que não dá para ter essa visão hedonista, idílica, do puro prazer. Isso é ilusório e gera sofrimento.

BBC Brasil – O sofrimento seria o choque da visão idílica com o que o mundo oferece?

Mario Sergio Cortella – A perturbação vem de um sonho que se distancia no cotidiano. No dia a dia, a pessoa se coloca como alguém que vai ter um grande legado, mas fica imaginando o legado como algo imediato.

Gosto de lembrar uma história com o Arthur Moreira Lima, o grande pianista. Ao terminar uma apresentação, um jovem chegou a ele e disse ‘adorei o concerto, daria a vida para tocar piano como você’. Ele respondeu: ‘eu dei’.

Há uma rarefação da ideia de esforço na nova geração. E falo no geral, não só da classe média. Tivemos uma facilitação da vida no país nos últimos 50 anos – nos tornamos muito mais ricos. Isso gerou nas crianças e jovens uma percepção imediatizada da satisfação das necessidades. Nas classes B e C têm menino de 20 anos que nunca lavou uma louça.

BBC Brasil – Quais as consequências dessa visão idealizada?

Mario Sergio Cortella – Uma parte da nova geração perde uma visão histórica desse processo. É tudo ‘já, ao mesmo tempo’. De nada adianta, numa segunda-feira, castigar uma criança de cinco anos dizendo: sábado você não vai ao cinema. A noção de tempo exige maturidade.

Vejo na convivência que essa geração tem uma visão mais imediatista. Vou mochilar e daí chego, me hospedo, consigo, e uma parte disso é possível pelo modo que a tecnologia favorece, mas não se sustenta por muito tempo.

Quando alguns colocam para si um objetivo que está muito abstrato, sofrem muito. Eu faço uma distinção sempre entre sonho e delírio. O sonho é um desejo factível. O delírio é um desejo que não tem factibilidade.

Muitos jovens querem deixar grande legado, mas não tem noção de esforço, diz filósofo

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BBC Brasil – Muitos deliram nas suas aspirações?

Mario Sergio Cortella – Uma parte das pessoas delira. Ela delira imaginando o que pode ser sem construir os passos para que isso seja possível. Por que no campo do empreendedorismo existe um nível de fracasso muito forte? Porque se colocou mais o delírio do que a ideia de um sonho.

O sonho é aquilo que você constrói como um lugar onde quer conquistar e que exige etapas para chegar até lá, ferramentas, condições estruturais. O delírio enfeitiça.

BBC Brasil – Qual é o papel dos pais para que a busca pelo propósito dos jovens seja mais realista?

Mario Sergio Cortella – Alguns pais e mães usam uma expressão que é “quero poupar meus filhos daquilo que eu passei”. Sempre fico pensando: mas o que você passou? Você teve que lavar louça? Ou está falando de cortar lenha? Você está poupando ou está enfraquecendo? Há uma diferença. Quando você poupa alguém é de algo que não é necessário que ele faça.

Tem coisas que não são obrigatórias, mas são necessárias. Parte das crianças hoje considera a tarefa escolar uma ofensa, porque é um trabalho a ser feito. Ela se sente agredida que você passe uma tarefa.

Parte das famílias quer poupar e, em vez de poupar, enfraquece. Estamos formando uma geração um pouco mais fraca, que pega menos no serviço. Não estou usando a rabugice dos idosos, ‘ah, porque no meu tempo’. Não é isso, é o meu temor de uma geração que, ao ser colocada nessa condição, está sendo fragilizada.

BBC Brasil – Sempre lemos e ouvimos relatos de conflitos entre chefes e subordinados, alunos e professores. Como se explicam esses choques?

Mario Sergio Cortella – Criou-se um fosso pelo seguinte: crianças e jovens são criados por adultos, que são seus pais e mantêm com eles uma relação estranha de subordinação. A geração anterior sempre teve que cuidar da geração subsequente e essa vivia sob suas ordens.

A atual geração de pais e mães que têm filhos na faixa dos dez, doze anos, é extremamente subordinada. Como há por parte dos pais uma ausência grande de convivência, no tempo de convivência eles querem agradar. É a inversão da lógica. Eu queria ir bem na escola para os meus pais gostarem, não era só uma obrigação.

Essa lógica faz com que, quando o jovem vai conviver com um adulto que sobre ele terá uma tarefa de subordinação, na escola ou trabalho, haja um choque. Parte da nova geração chega nas empresas mal-educada. Ela não chega mal-escolarizada, chega mal-educada.

Não tem noção de hierarquia, de metas e prazos e acha que você é o pai dela. Obviamente que ela também chega com uma condição magnífica, que é percepção digital, um preparo maior em relação à tecnologia.

O que você vai ser quando crescer?

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crescer

Naquela madrugada chuvosa, descobri que ilusão, surpresa, fantasia e encenação podem conviver em um mesmo lugar: nos livros

Raphael Montes, em O Globo

Eu tinha cinco anos quando, pela primeira vez, uma senhora me perguntou: “O que você vai ser quando crescer?”. Aquilo me congelou. Olhei para ela com um sorriso amarelo. Era como se eu não pudesse voltar atrás: resposta dada, futuro definido. Muitos dos meus amigos da escolinha já tinham a resposta na ponta da língua e viviam anunciando seus futuros por aí: o Pedro seria astronauta, o Jonas seria bombeiro e o Pablo seria jogador de futebol. Naquela altura, isso me parecia tão certo quanto dois e dois são quatro. Para mim, astronauta sempre pareceu cansativo demais, bombeiro arriscado demais e jogador de futebol delirante demais — me colocar com uma bola no pé já representava um grande risco à sociedade.

Sentindo-me um peixe fora d’água, assumi para a velhinha que, no auge dos meus cinco anos de idade, eu ainda não sabia que rumo tomar na vida. Minha via-crúcis seguiu pelos anos seguintes, entre abordagens malsucedidas e escolhas dúbias. Aproveitei para perguntar aos meus pais o que eles queriam ser quando tinham minha idade. Minha mãe disse que sempre quis ser advogada, mas acabou fazendo Biologia, obrigada pela minha avó, para quem “advogado não era profissão de mulher”. Apenas anos depois, quando ela já era minha mãe (incrível pensar que teve uma vida antes de ser minha mãe), ela decidiu cursar direito e se formou advogada. Aos cinco, meu pai queria ser cobrador de ônibus porque, segundo ele, “vivia mexendo com dinheiro”.

Lembrei-me, então, de um tio-avô que viajava muito para uma colônia de férias em Pentagna, próximo ao município de Valença, e passava muitos meses por lá, descansando, encontrando amigos, vendo TV. Perguntei ao meu pai o que aquele meu tio-avô fazia e a resposta foi: “Ele é aposentado”. A partir daquele dia, decidi que, quando crescesse, eu queria ser aposentado. A possibilidade de ter muitas horas de ócio e viver viajando me parecia tentadora demais para eu não agarrá-la com unhas e dentes. Só mais tarde me explicaram que, antes de ser aposentado, eu precisaria ter outro emprego. Foi uma tristeza, claro, mas não me deixei abater.

Aos dez anos, decidi que seria mágico. Eu estudava no Colégio de São Bento e vivia de um lado pro outro com um maço de cartas nas mãos, mandando alguém escolher uma carta ou pensar em um número para que eu adivinhasse, buscando alguém para me dar uma moeda ou outro objeto pequeno que eu faria sumir diante de seus olhos. Comprava novos truques em um quiosque que havia no shopping Rio Sul, via e revia um show do David Copperfield que passara na Rede Globo, com apresentação da Ana Furtado, que eu tinha gravado num VHS. A prática leva à excelência, eu sabia. Mas nunca cheguei a ser realmente bom naquilo. Eu era determinado, mas meu público era um só e já ia ficando impaciente após ver o mesmo truque pela vigésima vez. De todo modo, a mágica me encantava por sua capacidade de surpreender e de iludir diante dos olhos. Ilusão e surpresa: duas sensações que sempre me fascinaram.

Depois, resolvi ser ator. Eu gostava de me sentir na pele de outro — pensar e agir como outra pessoa. Fiz um curso de teatro na Barra da Tijuca e cheguei a me apresentar em um ou dois espetáculos infantis, o suficiente para perceber que eu não tinha o menor talento para aquilo também.

Então, em uma noite chuvosa, naquela mesma colônia de férias em Pentagna, eu estava com minha tia-avó Iacy quando ela me entregou um exemplar de “Um estudo em vermelho”. Eu nunca havia lido um livro que não fosse daqueles obrigatórios na escola. Fiz cara feia, não queria ficar lendo, mas minha tia-avó insistiu e, afinal, por que não? Estava chovendo!

Quando percebi, tinha mergulhado de cabeça naquele universo, investigando crimes com Sherlock Holmes, tenso pelo que viria nas páginas seguintes e ansioso para chegar ao final. Naquela madrugada mesmo, terminei o livro. Eu estava em êxtase, como só ficamos quando nos deparamos com uma revelação, com todo um mundo novo e cheio de possibilidades. Ainda naquelas férias, li “A volta de Sherlock Holmes” e dois infanto-juvenis de Sidney Sheldon: “O fantasma da meia-noite” e “A perseguição”. Ainda naquelas férias, resolvi que seria escritor.

Fiz meus primeiros contos e, logo depois, um romance policial nunca publicado. Depois, vieram os outros livros. Naquela madrugada chuvosa, descobri que ilusão, surpresa, fantasia e encenação podem conviver em um mesmo lugar: nos livros. Mágica e atuação permeiam na mente do escritor. Sem falar no ócio, fundamental para alimentar as boas ideias. Por isso, escrevo livros, roteiros e, semanalmente, esta coluna. De certo modo, continuo a ser aquele moleque na dúvida do que vai ser quando chegar lá, quando crescer.

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