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Editora recusa livro para ‘não engrossar o caldo do impeachment’ e Fla-Flu das redes sociais vai para o mundo literário

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Antonio Risério: “Tudo está acima do Fla-Flu das redes sociais” Foto: Divulgação

 

Gustavo de Almeida, no Extra

O escritor baiano Antonio Risério teve um romance cancelado nesta terça-feira pela Editora 34, que havia lançado dois livros de sua autoria em 2007 e 2012. Segundo email recebido por Risério, a principal justificativa da editora era “não engrossar o caldo do impeachment”. Em menos de 24 horas, o editor Carlos Andreazza, da concorrente Record, fez proposta a Risério de lançar o romance – que estava programado para sair em junho.

– Fiquei sabendo por e-mail. Achei triste, coisa que remonta às velhas práticas stalinistas que pareciam ter sido sepultadas. E isso de uma gente que hoje publica autores russos que Stalin condenou… ninguém olha mesmo para o próprio rabo. Mas não teve nada de terrível, não. Minha educação trotskista da juventude me preparou para todo e qualquer tipo de embate, sempre jogando limpo – disse Risério ao EXTRA.

Andreazza defende que as editoras promovam o debate das ideias Foto: Guito Moreto / Agência O Globo

Andreazza defende que as editoras promovam o debate das ideias Foto: Guito Moreto / Agência O Globo

 

Procurada, a Editora 34 não respondeu até o fim da tarde desta quarta-feira. No comunicado feito a Risério, a editora argumentou ao escritor que os defensores do impeachment estão usando medidas criminosas: “Em face do acirramento da crise, com a turma pró-impeachment apelando para medidas ilegais e até criminosas para levar a cabo, a qualquer custo, a derrubada do atual governo (…), nós, editores e diretores da 34, não nos sentiríamos bem engrossando esse caldo. Num momento em que o bom senso e a reflexão crítica estão indo por água abaixo, o seu livro poderia ser instrumentalizado nesse sentido”.

Segundo o escritor, a obra fazia referência ao marketing político usado pela presidente Dilma Roussef na campanha eleitoral de 2014. O curioso: Risério é contra o impeachment da presidente.

– Impeachment não é golpe, mas não acho que seja o melhor caminho. Fico com a Rede e o PSOL: minha opção é a via eleitoral. A minha postura é clara. O sistema político brasileiro apodreceu e merece cair por inteiro. Fernando Henrique e Lula foram fundamentais para que isso acontecesse: jogaram fora, cada um a seu modo, a oportunidade histórica que tiveram de reinventar a política no Brasil. Ao contrário dos mártires cristãos, Lula não está pagando por suas virtudes, mas por seus pecados – explicou o autor.

Risério, de esquerda, fará parte do mesmo catálogo que o direitista Constantino Foto: Marco Antônio Teixeira

Risério, de esquerda, fará parte do mesmo catálogo que o direitista Constantino Foto: Marco Antônio Teixeira

 

Na Record, o esquerdista Risério terá a companhia de, por exemplo, Rodrigo Constantino, autor de “Esquerda Caviar” e detrator do governo do PT. Mas ele é muito claro:

– Tudo está acima do Fla-Flu das redes sociais. Uma editora supostamente “de esquerda” me censurou. Outras editoras fizeram propostas. Entre elas, a Geração Editorial, do Emediato, que é considerada “de esquerda”, e a Azougue, do Sérgio Cohn, que tende para um saudável libertarismo algo anarquista. A Record chegou primeiro. Na minha memória, quando ouço o nome Record, ocorre-me logo a figura do generoso comunista Jorge Amado. Agora, não temo nada. Nem ando ao lado de Collor, Calheiros ou Maluf e outros bandidos… Tenho a minha vida e o meu trabalho. E só converso em cima disso – disse.

O editor da Record, Carlos Andreazza, elogia Risério – “um pensador independente” – e nega que haja qualquer necessidade de se publicar apenas escritores de um só perfil ideológico.

– A Record é uma editora plural e publica – e quer publicar – todos aqueles que, dentro da lei, são vozes relevantes e representativas. É o caso, por exemplo, do Rodrigo Constantino. São 74 anos de existência e de compromisso com o debate público. Nós, aliás, queremos abrigar o debate aqui dentro. É o papel de uma editora. O editor que temer “acirramento” de estigma deve procurar outra ocupação – diz

 

Governador da Bahia cita poema falso de Clarice Lispector na posse

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Chegada do governador Rui Costa à Assembleia Legislativa para a posse

Chegada do governador Rui Costa à Assembleia Legislativa para a posse

João Pedro Pitombo, na Folha de S.Paulo

O novo governador da Bahia, Rui Costa (PT), iniciou seu discurso de posse, nesta quinta-feira (1º), lendo um poema falsamente atribuído a Clarice Lispector em correntes da internet.

“Peço licença para citar um trecho de um poema que me foi enviado recentemente por um amigo como forma de incentivo”, disse o petista, logo após fazer os agradecimentos, na Assembleia Legislativa do Estado. Ele não mencionou a autoria do texto.

“Sonhe com aquilo que você quer ser/ porque você possui apenas uma vida/ e nela só se tem uma chance/ de fazer aquilo que quer”, diz um trecho lido pelo governador.

Marco Antonio Villa: “A década petista é a década da falácia”

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Autor de um livro sobre os dez anos do PT no poder, o historiador diz que os êxitos do partido são menores que a propaganda faz crer e que o Brasil é um país de miseráveis

José Fucs na revista Época

MAQUIAGEM O historiador  Marco Antonio Villa, na sua casa, em São Paulo. “Classe média não mora em favela” (Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA)

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O historiador Marco Antonio Villa, na sua casa, em São Paulo. “Classe média não mora em favela” (Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA)

O historiador Marco Antonio Villa, de 58 anos, é uma exceção na academia. Ao contrário da maioria de seus pares nas ciências humanas, Villa é um crítico duro das práticas do PT e dos governos petistas. Em seu novo livro, Década perdida – 10 anos de PT no poder (Editora Record), ele resgata os principais acontecimentos do período e traça um retrato impiedoso dos governos Lula e Dilma. Nesta entrevista a ÉPOCA, Villa critica a gestão econômica do PT e analisa as prisões dos mensaleiros. Ele também critica o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, por ter sido contra a abertura de um processo de impeachment contra Lula, em 2005. “Essa é uma dívida histórica que ele tem com o povo brasileiro”, afirma.

ÉPOCA – Em seu livro, o senhor chama os primeiros dez anos do PT no poder, entre 2003 e 2012, de “década perdida”. Por quê?
Marco Antonio Villa –
Nesses dez anos, o Brasil perdeu uma oportunidade histórica de dar um grande salto. Não só em termos de crescimento econômico, que foi muito baixo nos governos petistas, como também para enfrentar os graves problemas sociais do país. Pela primeira vez na história, tivemos a chance de combinar uma alta taxa de crescimento com um regime de liberdades democráticas plenas. Até a explosão da crise financeira, no final de 2008, as condições externas eram muito favoráveis. A China crescia dois dígitos por ano. Puxava o preço das commodities e gerava uma renda extra ao país, um dos maiores exportadores mundiais de alimentos e minérios. Em vez de aproveitar o momento, a partir da âncora criada nos anos 1990, com a queda da inflação e a estabilidade fiscal e monetária, o governo abriu o baú da história. Desenterrou velhas leituras econômicas, um keynesianismo cheirando a naftalina, e ideias de presença do Estado na economia cheias de teias de aranha, dos tempos do governo Geisel, nos anos 1980, que tiveram um alto custo para o país. Provavelmente, os primeiros três anos do governo Dilma estarão entre os piores da história econômica brasileira, e a perspectiva de melhora no curto prazo é baixa.

 

 

ÉPOCA – Nos dez anos do PT no poder, a renda da população subiu, o emprego aumentou, a classe média se tornou maioria, e a economia teve grandes picos de crescimento no governo Lula. Faz sentido falar em década perdida?
Villa –
Os êxitos do PT são bem menores do que se propala por aí. Eles são repetidos de forma tão sistemática e tão eficaz, sem nenhuma resistência da oposição, que acabam por adquirir um manto de verdade. Em 2010, o Brasil cresceu 7,5%, mas a partir de uma base muito baixa. Em 2009, houve uma recessão. Nos outros anos, o crescimento foi relativamente tímido. Em média, o Brasil cresceu menos que a América Latina e os países emergentes nesse período. Os argumentos do governo, de que a classe média se tornou maioria no país, são totalmente falaciosos. Classe média não mora em favela nem ganha dois ou três salários mínimos, ou até menos que isso por mês. Aconteceu é que o PT – como se fosse o Ministério da Verdade do livro 1984, de George Orwell – começou a criar novas categorias econômicas para dar êxito a um governo que é um fracasso. Inventou uma nova classe C, que seria uma outra classe média, diferente da classe média tradicional, e construiu a ideia de que o Brasil é um país de classe média. Não é. É um país de miseráveis.

 

 

ÉPOCA – O Bolsa Família não é uma saída para reduzir a miséria no país? Esse crédito não deveria ser dado ao governo petista?
Villa –
Ninguém discorda de que precisa haver programas assistenciais, mas não só para a população não morrer de fome. É preciso criar meios para enfrentar a miséria e a pobreza. Não meios que as petrifiquem, como os programas do PT. O governo gasta 0,5% do PIB com o Bolsa Família, mas não consegue transformar a vida das pessoas. Enquanto isso, metade do país não tem saneamento básico, a situação da infraestrutura é lamentável, e o analfabetismo funcional e real não para de subir.

 

 

“O PT estabeleceu uma sólida
aliança entre a base da pirâmide
e o grande capital”

 

ÉPOCA – No livro, o senhor dedica um bom espaço aos casos de corrupção, em especial ao mensalão, e diz que PT não combateu a corrupção como deveria. Só aconteceu coisa ruim nesses dez anos?
Villa –
Como historiador, não tenho culpa de que o volume de casos de corrupção tenha sido o maior da história republicana do Brasil. Nunca antes na história deste país houve tanta corrupção quanto na década petista. Gostaria de que não fosse assim, mas a sucessão de problemas nos ministérios, de desvios de recursos, nos dois governos Lula e no governo Dilma, é um recorde. A década petista é a década do discurso, a década da falácia. Não há realização material. Que grande obra pública foi construída nesses dez anos? Que usina hidrelétrica foi construí­da nesses dez anos? Nenhuma. A transposição do São Francisco, um fracasso. Estradas, fracasso. Ferrovias, fracasso. Portos, fracasso. Aeroportos, fracasso. Há apenas a tentativa de construir alguns estádios de futebol, mas não resolveremos problemas sociais com coliseus do século XXI. O PT é bom no palanque, mas um péssimo gestor da economia.

ÉPOCA – Como o senhor explica, então, os altos índices de popularidade de Dilma nas pesquisas?
Villa –
Essas pesquisas não servem para nada. Não permitem a compreensão da realidade, até pela forma como as perguntas são feitas pelos institutos de pesquisa e respondidas pelos entrevistados. As pesquisas dão apenas uma noção de como as pessoas veem o debate político. Mesmo tendo uma parcela considerável dos eleitores, o PT nunca venceu uma eleição presidencial no primeiro turno. Em 2002, quando era oposição, ganhou no segundo turno. Em 2006 e 2010, quando era governo, idem. Em 2010, até uma semana antes do pleito, diziam que Dilma teria 54% dos votos no primeiro turno. Teve 46%. Sempre há uma superavaliação da popularidade do governo. Se os índices de popularidade fossem tão altos, o PT teria ganhado as eleições no primeiro turno, especialmente em 2006 e em 2010. Em 2010, apesar da derrota, a oposição recebeu 44% dos votos no segundo turno.

 

ÉPOCA – Em sua opinião, o que levou o PT a ganhar três eleições seguidas?
Villa –
Com o Bolsa Família e o “Bolsa Empresário”, bancado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), o PT estabeleceu uma sólida aliança entre a base da pirâmide e o grande capital. Levando em conta que o Bolsa Família tem 13,5 milhões de famílias cadastradas, e cada família tem, no mínimo, três eleitores – o pai, a mãe e um filho com mais de 16 anos –, só aí são 50 milhões de pessoas, o equivalente a quase um terço do eleitorado. Ao mesmo tempo, o governo se aliou a grandes proprietários de terra, construtoras e aos setores mineral e industrial. O BNDES virou um instrumento de enorme eficácia para fortalecer essa aliança entre o PT e o grande capital. Essas alianças, no topo e na base da pirâmide, alcançaram tal solidez que, hoje, é muito difícil rompê-las. A oposição não consegue entender que essa estrutura precisa ser rompida, mas só pode ser rompida fazendo política. A oposição não sabe fazer política. Quer chegar ao poder sem fazer política. Não por acaso, foi derrotada nas eleições de 2002, 2006, 2010. Ao que tudo indica será derrotada em 2014 de novo.

 

ÉPOCA – A que o senhor atribui essa fragilidade da oposição?
Villa –
De um lado, o PSDB, o principal partido de oposição, não é um partido de fato. Está na oposição, mas não é oposição. É curioso. No populismo, o símbolo maior da oposição era a UDN. Nos tempos mais recentes, o PT. Qualquer oposição age diuturnamente criticando o governo e buscando uma aproximação com a sociedade, pensando sempre na próxima eleição, como fazia o PT no governo Fernando Henrique. O PSDB, não. A impressão é que o PSDB se sente constrangido de ser oposição. Parece que executa essa tarefa com desagrado. A oposição tem de ser agressiva. Quando o governo apresentar seus projetos, a oposição tem de se levantar, falar que tudo aquilo está errado, como a gente vê na Inglaterra, na França, em Portugal, na Espanha, na Alemanha, nos Estados Unidos.

ÉPOCA – No livro, o senhor diz que o ex-presidente Fernando Henrique cometeu um erro grave, ao ser contra o impeachment de Lula em 2005, para investigar sua participação no mensalão. Por quê?
Villa –
Para mim, Lula é o réu oculto do mensalão. Ele tinha ciência de tudo aquilo, chegou a ter até dois encontros com Marcos Valério. Pode não ter participado da organização do esquema, mas era o principal favorecido. Na estrutura do PT, o chefe da quadrilha, José Dirceu, não faria aquilo sem a concordância de Lula. Agora, o que fez Fernando Henrique? Saiu dizendo que um processo de impeachment de Lula criaria uma crise institucional, afetaria a economia, o crescimento do país. Essa é uma dívida histórica que ele tem com o povo brasileiro. No momento em que o PT estava nas cordas, em vez de levá-lo a nocaute, como o PT faria se estivesse do outro lado, o que o PSDB fez, por meio de seu principal líder, foi deixar Lula sangrando nas cordas, acreditando que o nocautearia facilmente nas eleições de 2006. A oposição teve medo, e esse medo é que deu combustível para que o PT virasse o jogo, estabelecesse uma aliança sólida com o PMDB e partidos satélites e criasse o novo Lula, no último ano do primeiro governo. Esse novo Lula é produto de uma leitura de conjuntura equivocada e danosa para o futuro do país. E essa leitura foi feita por Fernando Henrique e pelo PSDB.

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