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A inspiração real para Moby Dick

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Reprodução

No aniversário de 168 anos da publicação do livro, conheça a história real da baleia assassina do século 19

Isabela Barreiros, na Aventuras na História

O escritor estadunidense Herman Melville publicou seu maior romance no ano de 1851. Moby Dick se tornou um dos maiores clássicos da literatura, contando a história do capitão Ahab que tem uma obsessão no mar: matar a baleia que arrancou fora sua perna, a famosa Moby Dick.

O que poucos sabem é que o autor teve uma inspiração da vida real para escrever o livro. Moby Dick foi influenciada pela história de Mocha Dick, uma baleia albina conhecida por destruir todos os barcos que passavam por seu caminho.

Ela provavelmente viveu durante o começo do século 19, nas águas da ilha de Mocha, perto da costa do Chile. O mais assustador do animal, além da destruição causada pela sua cauda, era sua aparência. Albina, Mocha Dick estava coberta por enormes cicatrizes em sua cabeça.

Crédito: Reprodução

O explorador Jeremiah N. Reynolds escreveu o artigo Mocha Dick or the white whale of the Pacific em 1839, descrevendo a baleia como “uma aberração da natureza, branca como a lã e com a cabeça coberta de cracas”. Ela também possuía uma maneira muito particular e agressiva de agir no mar.

“Ao invés de projetar sua cabeça obliquamente para frente e soprar com um esforço curto, acompanhado por um ruído de bufo, como de costume da sua espécie, ela arremessava a água da narina num volume alto e expandido, em intervalos regulares e um tanto distantes”, explicou o autor.

Estima-se que o animal tenha conseguido escapar de mais de cem armadilhas organizadas especificamente para assassiná-lo. Mas foi na década de 1830 que Mocha Dick foi morta por marinheiros.

A carcaça de aproximadamente 20 metros foi usada pelos baleeiros. Eles produziram mais de cem barris de óleo de baleia e de âmbar-cinzento – considerado uma das mais importantes substâncias para a elaboração de perfumes.

Designer gráfico cria gibi com super-herói que combate os problemas do Brasil

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Coleção. Ruan Victor exibe as produções que tem do seu super-herói Bombeiro Mascarado – Fábio Guimarães / Agência O Globo

Personagem, batizado de Bombeiro Mascarado, será destaque na primeira publicação do Universo RZE Comics

Daniela Kalicheski, em O Globo

NITERÓI — Na ficção, o grupo formado por um bombeiro, um ex-combatente da Segunda Guerra Mundial, uma estudante, um soldado e um ninja realiza o sonho do povo brasileiro: juntos, combatem os problemas do Brasil causados por vilões cheios de poder (nem sempre sobrenaturais). A “Liga da Justiça” brasileira foi batizada de Universo RZE Comics, e é liderada pelo Bombeiro Mascarado, personagem criado pelo designer gráfico Ruan Victor. Entusiasta do mundo dos quadrinhos desde o tempo de criança, em São Gonçalo, ele começou a produzir ficção no formato de gibis independentes, há três anos, e já desenvolve projetos para expandir seu trabalho ao lado dos artistas gráficos que integram o grupo.

A criação do Bombeiro Mascarado foi inspirada num momento dramático. Victor presenciou a atuação de bombeiros num incêndio. Admirado, imaginou como seria o trabalho deles se tivessem poderes sobrenaturais. Nasceu então a ideia de uma história em formato de gibi. Ele fez tudo por conta própria, do roteiro aos desenhos e à impressão. O feedback positivo veio como incentivo para que o designer profissionalizasse a criação.

— É difícil viver disso no Brasil, as editoras preferem investir em produções que já são sinônimo de sucesso, que apresentam tramas americanas de heróis com milhões de fãs pelo mundo. É justificável, mas também é importante ter uma representação nacional. Quero fazer algo no nosso país, que é rico em problemas a serem resolvidos. Por que não podemos ter heróis salvando nossas cidades? Só vemos Nova York nas tramas — questiona Victor.

Imagem do Bombeiro Mascarado – Divulgação

A participação em feiras geeks e a divulgação on-line do seu trabalho permitiram que ele entrasse em contato com pessoas de outros estados, com interesse e personagens semelhantes. Juntos, criaram o Universo RZE Comics, um projeto paralelo aos quadrinhos que narram as aventuras do Bombeiro Mascarado e que reúne todos os personagens numa liga de heróis. A primeira HQ deve ser lançada em breve e está em desenvolvimento um audiovisual para o YouTube.

Sozinho, ele se aproxima da marca dos 700 exemplares vendidos. Sempre focando em narrativas que apresentam críticas sociais, com abordagens a respeito da cena política atual e falando da violência urbana.

— O tema principal é o Brasil, com seus fatos históricos somados a elementos sobrenaturais. O Bombeiro Mascarado precisa salvar as pessoas, ele combate o crime, mas não é um especialista em usar os superpoderes que tem. É bem atrapalhado. Uso isso para fugir do clichê. Ele acaba apanhando muito, mais do que bate — conta Victor, que, porém, sempre garante a vitória do seu super-herói.

Tornar a história interessante e passar uma mensagem que faça o leitor repensar suas atitudes são os pontos cruciais, segundo Victor:

— A edição de maior sucesso aborda um inimigo que tinha o poder de controlar o Aedes aegypti, e assim dengue, chicungunha e zika. Nosso herói precisa derrotá-lo. Tem conscientização na trama. A violência em São Gonçalo e Niterói também está presente constantemente — explica.

Os gibis do Bombeiro Mascarado podem ser adquiridos por meio da página facebook.com/bombeiromascarado ou, presencialmente, em feiras geeks. A próxima será a Gonçageek, dia 15 de abril, a partir das 11h, no Clube Mauá (Avenida Presidente Kennedy 635, no Centro de São Gonçalo).

Carlos Heitor Cony planejava lançar “Operação Condor” em 2018

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Foto: WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO

A obra seria uma reedição revista e ampliada de O Beijo da Morte. Funeral do jornalista e escritor será na terça-feira (9/1)

Publicado no Metrópoles

O jornalista e escritor Carlos Heitor Cony, que morreu na sexta (5/1), aos 91 anos, no Rio de Janeiro, planejava lançar, este ano, Operação Condor, reedição revista e ampliada de O Beijo da Morte, romance-reportagem em coautoria com a escritora e jornalista Anna Lee, sobre a morte de JK, Jango e Carlos Lacerda, de acordo com a Ediouro.

“Com a exumação do corpo de Jango, Anna colheu novas informações, viajou, entrevistou diferentes pessoas, pesquisou documentos e está finalizando o original para entregar à Nova Fronteira”, informou a editora, em nota.

Cony morreu de falência múltipla de órgãos e será cremado na próxima terça-feira (9/1), no Memorial do Carmo, no Rio.

Cony deixou orientação por escrito, lavrada em cartório, para que seu velório e enterro fossem reservados aos familiares. Ele dispensou todo ritual ao qual, como membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), teria direito.

Biografia
Ele trabalhou como funcionário público da Câmara Municipal do Rio de Janeiro até 1952, quando se tornou redator da Rádio Jornal do Brasil. Depois, passou por diversas redações, incluindo as dos jornais “Correio da Manhã” e “Folha de S. Paulo”.

Cony já publicou contos, crônicas e romances. O romance mais famoso dele é de 1995, “Quase Memória”, que vendeu mais de 400 mil exemplares. Esse livro marcou o retorno do jornalista à atividade de escritor/romancista. Seu romance “A Casa do Poeta Trágico” foi escolhido o Livro do Ano, obtendo o Prêmio Jabuti, na categoria ficção.

Biografia
Membro da Academia Brasileira de Letras, Carlos Heitor Cony nasceu no Rio em 1926. Sua estreia na literatura se deu com os romances “A Verdade de Cada Dia” e “Tijolo de Segurança”. Lançados em 1957 e 1958, os dois livros receberam o Prêmio Manuel Antônio de Almeida – abrindo uma carreira de distinções literárias que mais tarde incluiriam o Prêmio Jabuti (em 1996, 1998 e 2000) e o Prêmio Machado de Assis, em 1996, pelo conjunto da obra, além da comenda de Artes e Letras concedida em 2008 pelo governo francês.

Em meados dos anos 60, Cony já tinha oito livros publicados – além de ficção, coletâneas de crônicas. “Todos eram romances de forte afirmação do individualismo, numa época e num país com pouca tolerância para com individualismos. As esquerdas viam Cony com desconfiança, apesar de seus livros saírem por uma editora sobre a qual não restava a menor dúvida: a Civilização Brasileira, de Ênio Silveira, um homem ligado ao Partido Comunista. Ênio podia não concordar com Cony quanto à linha apolítica e alienada que imprimia a seus romances, mas não abria mão de tê-lo entre seus editados. Cony era talvez o maior escritor profissional do Brasil – produzia um romance por ano, firmara um público certo e não dava bola para os críticos”, escreveu Ruy Castro sobre o autor no Estado no final dos anos 90.

Em 1967, no entanto, lançaria um livro seminal em sua trajetória: “Pessach, a Travessia”. A obra retrata um escritor carioca que, em pleno regime militar, rejeita qualquer tipo de posição política mais radical, assim como renega sua origem judaica. Pouco depois de completar 40 anos, no entanto, acaba se comprometendo, involuntariamente, com questões políticas. O livro continha crítica dura ao Partido Comunista. Em 1999, o autor voltaria ao tema com “Romance Sem Palavras”, no qual continuava a história do escritor Paulo.

Ditadura
Em entrevista publicada no Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo em 2008, Cony relembrou o período da ditadura ao falar do romance “O Ventre” – e tratar da melancolia e do pessimismo que são normalmente associados à sua obra, influência, naquele instante, do pensamento de Sartre.

“Havia nessa época um tom exagerado de bossa nova, de desenvolvimento, que não me encantava. Da mesma forma que não aderi à literatura engajada que surgiu depois da Revolução de 1964, mesmo depois de preso pelos militares. Nessa época, escrevi “Antes, o Verão”, um romance completamente alienado, sem nenhum referência política, assim como “Balé Branco”, que veio em seguida. Mesmo “Pilatos”, que saiu em 1973, quando a situação continuava difícil. É curioso que alguns críticos entenderam ao contrário, identificando o homem castrado do romance como uma alusão ao que viviam os cidadãos, alijados politicamente. Mas não era nenhuma metáfora para mim. Minha crítica aberta estava nos textos que escrevia para os jornais, especialmente o Correio da Manhã”, disse.

“Pilatos” é ainda hoje considerado por muitos o grande livro de Cony – inclusive pelo próprio autor. Lançado em 1973, narra a história de um homem que, após sofrer um acidente, vaga pelas ruas do Rio com o órgão sexual mutilado em um jarro, encontrando diferentes personagens pelo caminho. Havia na obra uma sátira sobre a situação política e a contestação no Brasil. E o autor, feliz com o resultado, decidiu abandonar a escrita de romances. Foi o que fez, ao menos pelos próximos 20 anos, até a publicação, em 1995, de “Quase Memória”.

Nele, o escritor explora território nem sempre claro que existe entre a ficção e a memória – e o faz a partir das lembranças que têm do pai. O cineasta Ruy Guerra trabalha há anos na adaptação para o cinema da obra e, em 1996, em texto publicado no caderno Cultura, explicaria como a relação entre pais e filhos o levou à produção.

“Houve mesmo uma vez que cheguei a aflorar o assunto e dediquei-lhe um rápido parágrafo, quando falava de algumas lembranças da minha juventude. Só que depois achei que ele merecia mais, e melhor, e resolvi deixar para outra ocasião. Só que agora a questão se tornou muito mais difícil. Surgiu um livro. Um livro magnífico, que conta as aventuras de um pai que faz lembrar o meu. Talvez por isso me tenha tocado tão profundamente o seu humor e sua ternura. Quase Memória é o livro que eu gostaria de ter escrito sobre o meu pai. Como escrever agora algo sobre a matéria? Só me resta aceitar a sabedoria do destino, fazer um filme com o seu romance, e assim cumprir a minha promessa de infância, de outro modo, sob uma outra forma, com um outro pai.”

Relações humanas
Ainda que toque em temas políticos, a obra de Cony tem como foco, antes de mais nada, as relações humanas – e, em direção ao final da vida, essas relações se transformam na possibilidade de reencontro. “Quase Memória”, na aproximação que o autor tenta com a figura paterna, faz parte desse processo, assim como “A Casa do Poeta Trágico”, lançado em 1997, que evoca a ideia de que todo homem tem a capacidade de distinguir entre o bem e o mal, mas nem sempre a sabedoria de se decidir por um ou outro. Como coloca o professor gaúcho Antonio Hohlfedt, em texto publicado na edição dos “Cadernos de Literatura Brasileira” dedicada a Cony, o autor lança mão de recursos memorialísticos para contar histórias da classe média urbana, no quadro da falência da família e da busca da identidade e do sentimento de vazio dos narradores”, dentro do conceito de que “a literatura é um modo de resistência”.

O modo como tratou esses temas deu ao autor a pecha de pessimista inveterado. O jornalista Zuenir Ventura, amigo do escritor, discordaria, no entanto, em texto também publicado nos Cadernos de Literatura Brasileira. “Desconfiem do auto-proclamado Cony pessimista e muito menos acreditem no Cony cínico. Ou melhor, acreditem, mas considerem que é uma atitude filosófica, moral, intelectual, uma visão do mundo que é desmentida a cada dia por sua prática de vida. Gozador, ele deve se divertir com o efeito sobre os outros da imagem que criou de pessimista, mal-humorado e rabugento.”

Na mesma entrevista de 2008 citada acima, Cony falava dos problemas de saúde – “Segundo Ruy Castro, eu já me tornei o mais antigo doente terminal do Brasil” – e da falta de disposição para escrever novos romances. De lá para cá, a Alfaguara realizou trabalho de reedição de suas obras – mas Cony se dedicaria apenas ao jornalismo, seja nas colunas que publicava no jornal Folha de S. Paulo, seja na publicação de reuniões de crônicas. “Com 60 anos de carreira jornalística, é só abrir a gaveta e sacar alguma”, brincava.

Escrito ao longo de três décadas, materializa-se, enfim, o mais grandioso projeto de Ariano Suassuna

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Dividido em dois volumes, ‘Romance de Dom Pantero no palco dos pecadores’ foi definido pelo autor como ‘Autobiografia musical, dançarina, poética, teatral e vídeocinematográfica’

Felipe Torres, no UAI

Ciranda de personagens, espetáculo de circo, “castelo de cartas-espetaculosas”. Epopeia, ópera total, obra definitiva, poema-heroico. Mesmo para pesquisadores, familiares e discípulos, não há palavras muito precisas – ou há palavras em demasia – para classificar o livro póstumo do multiartista Ariano Suassuna (1927-2014). Ele próprio não foi econômico ao qualificá-lo no subtítulo da obra: “Autobiografia musical, dançarina, poética, teatral e vídeocinematográfica”. Recém-publicado pela Nova Fronteira, Romance de Dom Pantero no palco dos pecadores é dividido em dois volumes: O jumento sedutor e O palhaço tetrafônico. Escrito, ilustrado e reescrito nos últimos 33 anos de vida do poeta paraibano, ostenta fôlego proustiano, engenhosidade linguística roseana e estética armorial, com suas ilustrações inspiradas em arte rupestre.

Ariano Suassuna (1927-2014). (foto: Divulgação)

Ariano Suassuna (1927-2014). (foto: Divulgação)

Em narrativa marcada pela polifonia, o dramaturgo combina vozes de um sem-número de personagens, muitos deles inspirados em figuras reais. O principal deles é Pantero (ou Antonio Savreda), cuja ambição é conquistar a glória literária. Esse revezamento de criaturas, muitas delas já pertencentes ao universo de Suassuna, dá-se por meio de um misto de gêneros literários. “É um formato bem peculiar. Ariano achou uma forma nova, inexplorada no mundo, mas usando elementos da cultura popular brasileira. O livro todo é um espetáculo de circo, com elementos do teatro e cartas transformadas em monólogos. De certa forma, até lembra algo de O auto da Compadecida, quando o palhaço anuncia a estrutura da peça”, compara o escritor Raimundo Carrero, seguidor de Ariano desde muito e autor de um dos textos da contracapa. Para ele, Suassuna de fato se apoiou na própria vida para construir o romance. “É uma autobiografia no sentido de revisão da obra, revisão do seu espírito de escritor e dos temas da vida pessoal. Nela, vemos a consolidação da estética armorial e vemos os movimentos de cultura popular sendo levados para a literatura e para a cultura erudita”, completa.

Tanto a demora para a publicação do romance quanto o apuro estético dos dois volumes foram fruto de exigências feitas por parte da família de Ariano. Até há pouco tempo com seus escritos divididos entre duas editoras, o dramaturgo passou a ter a obra completa sob a tutela da Nova Fronteira. Isso só foi possível graças a algumas contrapartidas: o processo de editoração de Romance de Dom Pantero partiu inteiramente do Recife, feita por pessoas ligadas a Suassuna, e foi dada a garantia de, em um futuro breve, haver a publicação de novos títulos, alguns deles inéditos. “Sempre conversamos muito sobre esse livro e sobre toda a obra dele. Quando aconteceu o ‘encantamento’ de papai, demorou esse tempo todo para a gente ter o juízo assentado e condições de trabalhar na publicação. Ele deixou tudo pronto, faltando somente as capas, organizadas por mim a partir de desenhos dele. Tudo foi feito por mim, Ricardo Gouveia de Melo e Carlos Newton Jr., então saiu exatamente como a gente queria, sem nenhuma mudança”, conta Dantas Suassuna.

Além de atuar nos bastidores da publicação, o pintor dá nome a dois personagens do novo livro: Manoel Dantas Suassuna e Manoel Jaúna. Este último é descrito como discípulo do narrador – o próprio Ariano – e recebe a tarefa de construir a “Ilumiara Jaúna”. Para além da literatura, a missão já está sendo levada a cabo pelo filho: trata-se de uma enorme escultura feita em pedra na cidade de Taperoá, inspirada na Pedra do Ingá, também na Paraíba. No livro, a ilumiara (neologismo criado por Suassuna) se soma a outras quatro: Zumbi (em Olinda), Pedra do Reino (São João do Belmonte), Coroada (a própria casa onde Ariano morava, no Poço da Panela) e Acauã (fazenda da família Suassuna na Paraíba). “O próximo passo é promover um roteiro geográfico e literário para Ariano, visitar todos esses lugares, organizar apresentações culturais, peças de teatro. É algo já encaminhado”, revela Dantas Suassuna.

ENTREVISTA
“Ariano foi um artista revolucionário”

Carlos Newton Júnior / pesquisador especialista na obra de Ariano Suassuna e professor da UFPE

Ex-aluno e amigo de Ariano Suassuna ao longo de quase três décadas, o pesquisador e professor da Universidade Federal de Pernambuco Carlos Newton Júnior exerceu tarefa curiosa no longo processo de burilamento de Romance de Dom Pantero no palco dos pecadores. Nos últimos sete anos da vida do autor paraibano, ele foi responsável por digitar as muitas páginas escritas a mão por Ariano e dar conta das inúmeras alterações na obra. Com a morte de Suassuna, em 2014, ele assumiu a coordenação editorial do livro e, portanto, participou ativamente das decisões relacionadas à forma final tomada pelos dois volumes da obra. Enquanto acadêmico, Carlos Newton Júnior também é especialista no universo armorial de Ariano, assunto explorado por ele como tema de mestrado e doutorado.

O romance revisita toda a obra de Ariano e tem forte caráter autobiográfico. Que reminiscências da própria vida Ariano deixa no livro?
Várias reminiscências, tanto da vida mais estritamente pessoal quanto da chamada “vida literária”. No primeiro caso, lembranças da sua infância em Taperoá e sobretudo da grande tragédia que marcou toda a sua vida e repercutiu profundamente em sua obra, ou seja, o assassinato do seu pai, João Suassuna, quando Ariano contava apenas três anos de idade, isso antes mesmo da mudança de sua família, então chefiada por sua mãe, dona Ritinha, para Taperoá. No tocante à vida literária, personagens de peças e romances anteriores reaparecem ao longo do livro, e críticos que se dedicaram à obra de Ariano são transfigurados em personagens. Trata-se de uma autobiografia poética, na qual tudo é transfigurado pelo espelho da arte. O próprio Dom Pantero, enquanto personagem, surge da atuação de Ariano nas suas aulas-espetáculo. Ariano fez de si próprio experimento para seu personagem. Antero Savedra (o Dom Pantero) é considerado mentiroso e megalomaníaco por seus adversários do Recife porque cita vários artigos de críticos que elogiaram as obras dos seus irmãos, o romancista Auro Schabino, autor do romance A pedra do reino, e o dramaturgo Adriel Soares, autor da peça Auto d’A Misericordiosa. Os artigos teriam sido publicados em pequenos jornais do interior do Nordeste. Quem for procurar vai encontrar esses textos, que tratam da obra do próprio Ariano, em jornais do Rio ou de São Paulo, quando não em livros publicados no Brasil e mesmo no exterior. Dou apenas um exemplo: o crítico Gabriel Schabino Ferro, que aparece no romance, é, na verdade, o ensaísta português António Quadros (cujo nome completo era António Gabriel de Quadros Ferro), e o texto citado no romance, que teria sido publicado no jornal O Monitor, de Garanhuns, encontra-se num livro de António Quadros publicado em Portugal. É uma resposta bem humorada que Ariano dá aos “equivocados” do Recife.

Ariano trabalhou no romance por 33 anos e, conforme você diz no prefácio, o livro teria crescido bastante se não fossem os problemas de saúde enfrentados por ele. Pode-se dizer que, em alguma medida, é uma obra inacabada?
Quanto ao tempo de escritura do romance, engloba um período que vai desde as primeiras notas até a redação do romance propriamente dito, e é preciso lembrar que Ariano não se dedicou exclusivamente ao romance ao longo desse tempo. Os álbuns de iluminogravuras, por exemplo, que ele lançou na década de 1980, eram experiências para o Dom Pantero. O mesmo pode-se dizer da peça As conchambranças de Quaderna, em que Quaderna, o narrador de A pedra do reino, é levado ao palco. Por outro lado, desde A pedra do reino Ariano brinca com essa história de obra inacabada. A certa altura de seu depoimento ao juiz corregedor, o personagem Quaderna lembra a tradição dos romances epopeicos que ficaram incompletos, citando como exemplo O sertanejo, de José de Alencar. Nesse sentido, A ilumiara, a obra que Dom Pantero pretende escrever, fica, de fato, inacabada. Dom Pantero é um escritor frustrado que pretende escrever uma grande obra, da mesma forma que Quaderna sonhava escrever a “obra da raça brasileira”. Mas, no caso do Romance de Dom Pantero, não podemos falar, rigorosamente, em obra inacabada, pois Ariano colocou o ponto final no livro. Ele pode não ter escrito tudo o que queria, mas, sentindo-se sem forças, concluiu o romance, cujo final, aliás, é belíssimo, mencionando o desejo de Dom Pantero de morrer no palco, ministrando uma de suas “aulas-espetaculosas”.

O livro tem estilo bem particular no que diz respeito ao uso de maiúsculas e de hífens, que você chama de “pantérico”, em referência ao protagonista. Que funções esse modo de escrever exerce na narrativa e qual a importância dele?
Na verdade, é o próprio Dom Pantero quem menciona o processo “pantérico” de escrever, para se referir ao seu estilo. A escrita de Dom Pantero pretende ser não apenas poética, no sentido usual da palavra, mas resultante da fusão de vários gêneros literários. Se, num verso, não estranhamos uma determinada palavra com inicial maiúscula, por que deveríamos estranhar num romance que pretende fundir a prosa com a poesia? Creio ainda que os hífens e as maiúsculas têm uma importância visual no conjunto, além de outros significados, que poderão ser identificados pelos leitores. A autobiografia é também chamada de “musical”, como se vê logo na folha de abertura do livro. Ora, sendo assim, explica-se por que todos os nomes de instrumentos musicais vêm grafados com iniciais maiúsculas.

Que impacto a publicação do livro deve ter na maneira como a obra de Ariano Suassuna é percebida, sobretudo por parte da academia?
Do ponto de vista estético, Ariano foi um artista revolucionário. Não se acomodou em uma fórmula ou uma receita, como outros autores que, não obstante, construíram obras monumentais. Quando percebeu que não tinha mais o que dizer no campo específico do teatro, tendo revolucionado o panorama da moderna dramaturgia brasileira, partiu para o romance. Experimentou sempre. José Cândido de Carvalho, autor de O coronel e o lobisomem, e que foi amigo e grande admirador de Suassuna, foi o primeiro a perceber que A pedra do reino era um romance à frente do seu tempo, afirmando que o livro seria mais novo no ano 2000 do que na época em que foi publicado, em 1971. Que dizer então de Dom Pantero, fruto da fusão de vários gêneros artísticos, sobretudo literários – poesia, romance, teatro, carta, autobiografia, ensaio etc? Tenho dito, em várias ocasiões, que Dom Pantero é o romance mais pós-moderno da nossa literatura, um romance que se vale, para completar a narrativa, de imagens e até da internet. Que impacto isso causará na academia? Talvez o de um tsunami.

Além de volumoso, o livro é de leitura difícil, em especial por parte de quem não é iniciado na obra de Ariano. Há um caminho a ser percorrido entre as obras do autor para enfim estar preparado para este romance?
Sem dúvida. O Dom Pantero é um romance para iniciados, sobretudo pelas referências intertextuais e intratextuais de que o autor se vale para compor a narrativa. O próprio narrador começa dizendo que A pedra do reino serve de introdução ao romance. Costumo dizer que o rico universo criado por Ariano tem várias portas de acesso. Para o leitor mais inexperiente eu recomendaria começar pelas peças de teatro, por comédias como Auto da Compadecida, A pena e a lei e Farsa da boa preguiça. Há ainda dois romances de Ariano que podem ser usados como introdução a seu universo, dois romances bastante acessíveis ao público jovem. Um deles é A história do amor de Fernando e Isaura. O outro é O sedutor do Sertão, um romance da década de 1960 e ainda hoje inédito. Como a Nova Fronteira pretende publicar toda a obra de Ariano, é provável que O sedutor do Sertão seja editado no ano que vem.

Qual a importância de levar a público essas obras inéditas? Ariano tinha o desejo de lançá-las?
Penso que nenhum escritor escreve para si mesmo. O desejo de lançar é permanente. Ariano sentia prazer em escrever. Escrever era a sua missão, sua vocação e sua festa, como ele próprio dizia. Por outro lado, ele sabia que a essência de sua obra era feita de futuro. Por isso não gostava de bater na porta dos editores. A pedra do reino ficou mais de 20 anos fora de catálogo justamente por causa disso. No tempo em que a editora José Olympio passava por dificuldades econômicas, Ariano estava mais interessado em escrever o Dom Pantero do que em procurar nova editora para A pedra do reino. Existem peças importantes de Ariano, anteriores a Auto da Compadecida, que precisam vir a público, a exemplo de Auto de João da Cruz. No campo do romance, além de O sedutor do sertão, é preciso reeditar o primeiro livro de O rei degolado, Ao Sol da onça Caetana, bem como publicar o segundo livro, As infâncias de Quaderna, este com uma boa fixação de texto, uma vez que só saiu em folhetins do Diário de Pernambuco, e isso na década de 1970, quando os erros tipográficos eram muito frequentes em jornal. Sem contar, ainda em relação às Infâncias, que Ariano mexeu muito no texto, ou seja, é preciso fazer todas as alterações que ele deixou em manuscrito. Há ainda poemas, ensaios, textos críticos etc., de maneira que muitos livros deverão vir a público nos próximos anos.

Autora Cassandra Clare anuncia nova série de livros

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Rachel Guarino, no Cabana do Leitor

Autora Cassandra Clare anuncia em sua conta oficial no Tumblr que está trabalhando em uma nova série de livros. Conhecida pela saga “Instrumentos Mortais”, o primeiro livro da nova série, “Sword Catcher”, acontece fora desse mundo das sombras.

Confira a tradução do anúncio:

Grandes notícias!

Estou muito empolgada em anunciar que eu tenho uma nova série de fantasia em andamento.

Sword Catcher será o primeiro livro da minha nova série para adultos, meu primeiro grande projeto de fantasia. Muitos dos meus leitores tem estado comigo há anos, e cresceram juntos com os meus personagens. E ao longo desses anos, leitores de todas as idades vieram até mim para dizer que gostariam de ler livros sobre personagens mais velhos, e também dizer que amariam me ver construir meu próprio mundo do começo.

Então, estou feliz em dizer que esses livros estão vindo da Del Rey books! Eu estou muito empolgada de estar trabalhando com Anne Groell, que editou os livros de Naomi Novik e George R. R. Martin, entre outros, e tem uma mão e tanto com mundos da fantasia. Estou emocionada de ser publicado pela Random House, que está animado tanto quanto eu para trazer a vocês o conto de um jovem criado para ser o dublê de corpo para um príncipe indigno, uma jovem mulher destinada a mudar o mundo, e uma série de outros personagens que eu mal posso esperar para vocês conhecerem.

Esses personagens – criminosos, príncipes, mágicos, e guerreiros – têm estado na minha cabeça por um tempo, e estou ansiosa para deixá-los sair. Eu não posso falar a data de publicação ainda, já que os livros são um trabalho em progresso. Mas eu mal posso esperar para dividir mais informações com vocês quando eu tiver.

O livro ainda não tem nada de publicação.

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