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Posts tagged publicar livros

Em Londres, uma livraria singular

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Persephone Books em Londres: 20 anos de existência e foco nas escritoras (Charlotte Hadden/The New York Times)

A Persephone Books se dedica, especialmente, a divulgar as excelentes obras de autoras renegadas do século 20

Publicado na Exame

Por Sarah Lyall, do The New York Times

A Lamb’s Conduit Street é agradável demais para ser real, como se a velha Inglaterra dos seus sonhos, aquela que existe em sua cabeça, de repente criasse vida. Mas parece adequado que essa rua de paralelepípedos em Bloomsbury, com lojas idiossincráticas que vendem queijo artesanal, bolos caseiros e outros artigos raros, também seja o lar da Persephone Books, uma joia de lugar, dedicado principalmente a obras negligenciadas de escritoras de meados do século XX.

Ao entrar na livraria, por um momento parecemos voltar no tempo. Há pôsteres vintage pedindo às mulheres do tempo da guerra que, por exemplo, se juntem ao serviço naval feminino britânico. Mas o presente também está aqui. Na vitrine há uma imagem ampliada das observações desagradáveis que o senador americano Mitch McConnell fez sobre a senadora Elizabeth Warren em 2017, usando uma linguagem no estilo “Jane Eyre”: “Ela foi advertida. Ouviu a explicação. No entanto, persistiu.”

A persistência é uma maneira de descrever a filosofia da loja em si, que começou há 20 anos reimprimindo sob encomenda títulos esquecidos de uma época da ficção feminina amada por sua fundadora, Nicola Beauman. Ao receber uma pequena herança de seu pai, ela abriu o negócio com uma lista de 12 livros no primeiro ano.

Persephone Books, em Londres (Charlotte Hadden/The New York Times)

Aqui você vai encontrar livros de mulheres de que provavelmente nunca ouviu falar, como Oriel Malet e Isobel English, e outras que podem ser mais familiares, como Katherine Mansfield e Frances Hodgson Burnett. (Há alguns homens nas prateleiras.)

Também vai encontrar, em um lugar de destaque, “Miss Pettigrew Lives for a Day”, obra de 1938 escrita por Winifred Watson, que veio para a Persephone depois que uma cliente mencionou que este havia sido o livro favorito de sua mãe. Publicado pela Persephone em 2000, o livro – a história de uma governanta pobre e simples que é enviada erroneamente por sua agência de emprego para trabalhar para um cantora glamourosa – tornou-se um hit inesperado, foi transformado em filme e tem venda constante desde então.

O que há em um livro da Persephone?

“Sou consideravelmente alérgica à ideia egocêntrica de que tudo está de acordo com meu gosto, mas tenho de confessar que sempre tive esse grande interesse pela ficção feminina do início do século XX – o que os acadêmicos chamariam de um gosto mediano e eu chamaria de uma boa leitura”, disse Beauman.

“O que os une é que eles foram esquecidos e que são muito bem escritos. Gosto muito de histórias que prendem a atenção. Quando termino de ler um livro, gosto de me sentir absolutamente perturbada pelo que li, de estar em um mundo diferente.”

A cada ano, cerca de seis obras se juntam à lista, de modo que agora há 132 ao todo. Todas ainda são impressas, e ainda estão à venda, por 13 libras cada; sempre que os novos títulos chegam, os livros antigos são movidos um pouco e as prateleiras são reorganizadas para dar espaço.

Depois de algumas temporadas apenas como editora, a Persephone se tornou uma livraria, deixando seu antigo escritório em Clerkenwell e vindo para seu espaço atual. O local é escritório e loja, dividido em duas salas que parecem se misturar.

A autora mais popular da loja se chama Dorothy Whipple, que tem impressionantes dez livros na lista, Persephones nº 3, 19, 40, 56, 74, 85, 95, 110, 118 e 127. Suas histórias são engraçadas, espirituosas e cheias de ponderações sobre a vida de pessoas reais.

“Gosto de livros que me contam como vivíamos. Eu me interesso muito pelo livro como história social.” E acrescentou: “A boa escrita é importante para mim, e é por isso que só temos 132 títulos.”

Nicola Beauman, fundadora da Persephone Books (Charlotte Hadden/The New York Times)

Os livros são elegantes, encadernados com papel cinza-claro e sem adornos, exceto pelo título em um retângulo branco na capa. Beauman se inspirou nas capas simples dos livros da Penguin de 1930 e no costume francês de publicar livros com capas brancas e letras vermelhas, disse ela, enquanto que as cores são um tipo de homenagem às velhas canecas de café Dean & Deluca.

“Pensei: ‘Por que um livro não pode ser parecido com isso?’”, disse ela.

Ou, como diz o site da empresa: “Os livros Persephone são todos cinza porque – bem –realmente gostamos de cinza. Imaginamos também uma mulher que chega em casa cansada do trabalho, e há um livro esperando por ela, e não importa sua aparência, porque ela sabe que vai gostar dele.”

No interior, porém, os livros são coloridos. Cada um tem uma contracapa diferente, inspirada em estampas ou tecidos associados ao ano de sua publicação original. Alguns vêm do Museu Victoria & Albert; outros podem ser tecidos cedidos por clientes. “Uma vez, uma pessoa trouxe um lenço do tempo da guerra, e você podia literalmente sentir o cheiro do pó de arroz da mãe dela”, disse Beauman.

A Persephone tem seguidores dedicados e apaixonados. Cerca de 30 mil pessoas assinam sua revista gratuita, a “Persephone Biannually”, que inclui artigos sobre os livros mais novos e outros assuntos. Seu site contém reflexões espirituosamente eruditas de Beauman, que ultimamente assumiram um tom preocupado por causa da incerteza sobre o destino das pequenas empresas com o Brexit, ou a saída do Reino Unido da União Europeia.

Em março, a empresa comemorou seu 20º aniversário com sanduíches de salmão defumado, chá, champanhe e bolo em uma festa que durou o dia todo, com o fluxo constante de visitantes dando lugar a um grupo maior à noite.

Beauman disse: “A ideia no início era que, se você gosta de um de nossos livros, vai gostar de todos eles, Isso funcionou quase totalmente. É muito raro alguém não gostar de um dos livros. Não gosto de usar a palavra ‘marca’, mas somos um tipo de marca.”

Eles publicaram os próprios livros e descobriram não precisar de editoras

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Autopublicação, que atrai até famosos como Paulo Coelho, ganha espaço com crise do mercado editorial. Autores mais lidos de plataformas como o Kindle chegam a ganhar 50.000 reais em um mês

Rodolfo Borges, no El País

John Kennedy Toole ganhou o prêmio Pulitzer de ficção de 1981 por A Confederacy of Dunces (Uma confraria de tolos), mas não pôde celebrar. Doze anos antes, o autor do livro que se tornaria uma referência de Nova Orleans tinha tirado a própria vida, sem conseguir lidar com a rejeição do editor Robert Gottlieb a sua obra. A trágica história de Toole, conhecida porque sua mãe persistiu anos depois no projeto de publicar o livro, soa distante numa época em que é possível publicar livros por conta própria sem qualquer custo — e quando fazê-lo pode ser até melhor (e mais rentável) do que aguardar por editoras que possivelmente não teriam tempo ou dinheiro para sequer avaliá-los.

A economista Eliana Cardoso, já com dois livros de ficção publicados pela Companhia das Letras, chegou a buscar uma editora para publicar o terceiro, Dama de paus. Diante da negativa, partiu para o Kindle Direct Publishing (KDP), plataforma de autopublicação da Amazon que chegou ao Brasil em 2012. Meses depois, a escritora recebeu a notícia de que tinha ganhado o concurso anual promovido pela gigante do varejo desde 2016 no Brasil. “É um luxo ter o livro revisto e editado por uma grande editora. Por outro lado, a autopublicação através do KDP é uma saída espetacular”, celebra Cardoso, que embolsou o prêmio de 30.000 reais e verá seu livro impresso pela editora Nova Fronteira. Ela conta que o aplicativo de edição disponibilizado pela Amazon é muito fácil de usar, que o processo não apresenta nenhum custo para o autor e que cabe a ele definir o valor a ser cobrando, do qual ele pode ficar com até 70% do preço de capa — as editoras costumam repassar cerca de 10% para seus autores por livros físicos e 25% pelos digitais.

O negócio é tão bom que até escritores de grande sucesso, como Paulo Coelho, publicam seus livros pela plataforma. Enquanto a Companhia das Letras distribui seus livros físicos no Brasil, os e-books são vendidos diretamente pela Amazon em todo o mundo (com exceção dos EUA), o que lhe permite ficar com 35% do valor de cada volume, já que a venda não é exclusiva da Amazon. Gerente para o KDP da Amazon no Brasil, Talita Taliberti destaca que outros sucessos literários, como Mário Sergio Cortella e Augusto Cury, também já publicaram pela ferramenta, e diz que da lista dos 100 livros mais vendidos pela empresa no Brasil, em torno de 30 costumam ser de autopublicação.

Entre eles dificilmente não estará um livro de Nana Pauvolih, uma professora que trocou as aulas de história pelo sucesso literário (e financeiro) em 2013. Em seu segundo mês de KDP, a autora de literatura erótica já ganhava mais do que nos seus dois empregos como professora, nas redes pública e privada do Rio de Janeiro. O sucesso de livros como A coleira e de séries como Redenção acabou chamando a atenção da agente literária Luciana Villas-Boas, que fez a ponte da autora com editoras como Rocco e Planeta, que hoje publicam suas obras. Sete anos depois de começar a publicar suas histórias em blogs, Pauvolih conta 29 livros, 25 deles autopublicados, e mais de 100.000 e-books vendidos — além disso, a mencionada série Redenção está para virar minissérie da Rede Globo.

Autores de sucesso como Nana Pauvolih podem ganhar até 20.000 reais mensais, com picos de 50.000 reais em um bom mês de lançamento, mas precisam se empenhar na divulgação das próprias obras, ressalva Janice Diniz, outra autora independente de sucesso. Ex-professora de português, a autora de livros sobre histórias com cowboys como Casamento sem amor calcula em cerca de 48 os seus títulos publicados. “Publico mês sim, mês não. Só no último ano [2018], quando tive de escrever para a Happer Collins, que eu fiquei três meses sem publicar”, conta.

Hoje, Diniz publica pelo selo Harlequin da editora, com quem tem contrato até 2020, mas diz que vive bem desde 2015 apenas com os rendimentos da autopublicação. “Peguei todas as fases do preconceitos. De autora independente, em relação à literatura erótica e ao livro digital”, lembra a autora, que começou sua carreira literária pagando para imprimir seus livros. “Era inviável. Não tinha lucros, só gastos. E eu ainda comecei com uma trilogia. Tinha de manter um estoque dos dois primeiros e ainda pagar pela impressão do terceiro”, conta. Ela estava quase desistindo de se tornar escritora quando surgiu a possibilidade de publicar em meio digital.

Hoje, Janice Diniz conta com o auxílio de três amigas para administrar os cerca de 100 grupos de Facebook utilizados para divulgar sua obra, que, para ela, está acomodada confortavelmente na plataforma de publicação da Amazon. A escritora diz que até tentou utilizar outra opção, a Kobo Writing Life, mas o fato de os valores das vendas serem repassados aos autores apenas duas vezes por ano a afastou — já o KDP repassa os valores mensalmente e ainda remunera os autores por página lida, a partir de um fundo global que hoje gira em torno de 88 milhões de reais. A eficiência da Amazon, cujo serviço de venda direta chegou ao Brasil neste ano, contrasta com a crise do mercado editorial brasileiro.

Mercado editorial

No ano passado, Saraiva e Livraria Cultura, duas da maiores redes de varejo de livros do país pediram recuperação judicial — a Cultura, aliás, é a representante da plataforma Kobo no Brasil. O mesmo ocorreu com a distribuidora BookPartners. Além disso, a rede de livrarias Laselva, que tinha pedido recuperação judicial em 2013, enfim decretou falência em 2018. A crise obviamente reverbera nas editoras, que não recebem os pagamentos devidos. Quando pediu recuperação judicial, a Saraiva informou à Justiça ter uma dívida de 675 milhões de reais.

Foi nesse contexto que a editora Cosac Naify fechou as portas melancolicamente em 2015. Um ano depois, em mais uma demonstração de força, a Amazon comprou parte do passivo, de 230.000 livros, e poupou a falida editora do fardo de estocá-los, mas não do desconforto de lidar com as notícias de que a outra parte do acervo teria de ser destruída e transformada em aparas.

Ao lamentar em seu blog os “dias mais difíceis” para os livros no Brasil, o presidente do Grupo Companhia das Letras, Luiz Schwarcz, escreveu em novembro do ano passado que “as editoras ficaram sem 40% ou mais dos seus recebimentos” por conta da crise nas redes de livrarias. “Passei por um dos piores momentos da minha vida pessoal e profissional quando, pela primeira vez em 32 anos, tive que demitir seis funcionários que faziam parte da Companhia há tempos”, escreveu o editor, acrescentando linhas depois: “Numa reunião para prestar esclarecimentos sobre aquele triste e inédito acontecimento, uma funcionária me perguntou se as demissões se limitariam àquelas seis. Com sinceridade e a voz embargada, disse que não tinha como garantir”.

Numa situação dessas, não é de se espantar que um autor estreante como J. L. Amaral tenha buscado refúgio na autopublicação. Após trabalhar 20 anos como bancário, esse publicitário por formação resolveu parar tudo para tentar uma carreira literária. Em janeiro de 2017, enviou seu Entre pontos para cinco editoras. Em setembro daquele ano, como não tinha recebido nenhuma resposta, resolveu publicar o livro por conta própria, no KDP. Três meses depois, estava entre os finalistas do Prêmio Kindle daquele ano. “Enquanto o mercado não se estabilizar, vai ser difícil ter um espaço à sombra”, constata o autor, que publicou Borboletas azuis pela mesma plataforma no ano passado e, enquanto escreve o terceiro livro, tenta aprimorar sua formação como escritor e roteirista.

Em contraste com as redes físicas de livros, os ambientes virtuais têm celebrado crescimento. A Amazon não revela seus números, mas só no prêmio promovido neste ano foram 1.500 livros inscritos. O Clube de Leitores, que permite publicar livros digitais e físicos, diz lançar 40 obras por dia em sua plataforma e celebrou no ano passado um crescimento de 30%, como registra o portal Publishnews. A Bibliomundi, outra plataforma digital, publicou 931 livros no ano passado e diz que dobrou seus registros de autores independentes. São poucos, contudo, os que conseguem andar com as próprias pernas no mundo da literatura. Eliana Cardoso, que ganhou o último Prêmio Kindle, confessa expectativa quando à relação que pode vir a desenvolver com a Nova Fronteira após a publicação de Dama de paus, mas seu próximo projeto literário, um livro infantil, já tem destino certo: o Kindle Direct Publishing. “A Nova Fronteira não está trabalhando nesta área, e o KDP oferece um aplicativo só para livros infantis”.

Fundador da Zahar ganha biografia nos 60 anos da editora

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Jorge Zahar reinventou a publicação de livros de ciências sociais no Brasil

Bolívar Torres, em O Globo

RIO — Como bom editor, sua vida foi o seu catálogo. Mais especificamente, o catálogo da Zahar, antiga Zahar Editores e Jorge Zahar Editor, que somando suas três fases completou em julho 60 anos de existência — e cerca de três mil títulos publicados. Para celebrar o aniversário da editora que carrega seu nome, o homem que reinventou a publicação das ciências sociais no Brasil ganha uma biografia do jornalista, escritor e editor Paulo Roberto Pires. “A marca do Z — A vida e os tempos do editor Jorge Zahar”, que será lançado na próxima terça, reconstrói a trajetória da casa que trouxe ao país obras de autores como Freud, Hobsbawm, Sartre e Lacan. É uma análise do ambiente intelectual e editorial brasileiro das últimas sete décadas, assim como da trajetória íntima de um de seus principais fomentadores.

Nascido em 1920 e morto em 1998, Zahar foi, com seu faro por títulos ao mesmo tempo importantes e comercialmente viáveis, um influencer muito antes de esse termo existir.

O editor orge Zahar, em 1998, ano de sua morte - Gabriel de Paiva / Agência O Globo

O editor orge Zahar, em 1998, ano de sua morte – Gabriel de Paiva / Agência O Globo

— A biografia do Jorge é a biografia de uma ideia muito bem sucedida — diz Pires, que conviveu com o editor no fim da sua vida, na última metade dos anos 1990. — Em um determinado momento, cresceu por aqui a ideia de que o país precisava desse tipo de leitura (de livros de ciências sociais). Ele saca isso muito bem e vai depurando essa visão, edita as coisas mais teóricas e também as mais básicas, fundamentais, para um público mais amplo. Sempre fui um leitor de biografias de editores, acho muito importante para a gente entender a cabeça de quem faz cabeça de gerações, quem escolhe o livro que a gente vai ler.

Figura discreta, Zahar não é exatamente um personagem de trajetória palpitante. O interessante é a sua capacidade de articulação ao longo dos anos. Filho de pai libanês e mãe francesa, Zahar começou a trabalhar na importação e distribuição de livros nos anos 1940. Autodidata, fundou a Zahar Editores em 1957. O primeiro livro lançado, “Manual de Sociologia”, de Jay Rumney e Joseph Mayer, é quase um manifesto do objetivo da editora em sua fase inicial: ser um intermediário entre os estudos universitários e o público geral, com livros que interessassem tanto a especialistas quanto a diletantes. Como descreveu o próprio Zahar em um comunicado de inauguração da casa, a obra colocava o leitor em contato com os “fundamentos” das ciências sociais, expondo seus conceitos com “clareza e grande concisão” e “sem prejuízo do rigor metodológico”.

A estratégia pretendia atender à formação de um público leitor “culto”, fenômeno que ganhava força no Brasil; entre 1945 e 1955, publicaram-se por aqui 321 títulos de ciências sociais, número que pulou para 551 na década seguinte, conforme nota Pires em seu livro.

Zahar, segundo o biógrafo, tinha um radar excepcional para garimpar títulos que se encaixassem nesse perfil, desde a sociologia à psicanálise. Interessavam-lhe menos os instant books, que capitalizam em torno de algum assunto do momento, do que os “fundos de catálogos”, que vendem constantemente anos a fio. Nenhuma obra da editora exemplifica melhor essa característica do que “História da riqueza do homem”, do jornalista americano Leo Huberman, que Zahar considerava “o livro da minha vida”. Escrito de forma didática para um público mais amplo possível, vendeu 300 mil exemplares ao longo de 30 anos.

— Essa garimpagem não vinha de uma mente superdotada trancada em um escritório, mas da constante interlocução de Zahar com todo mundo — diz Pires. — Ele conversava com professores, jornalistas, intelectuais, ele tinha um radar ligado, que alimentava com várias conversas. Sabia muito bem ouvir e filtrar o que era importante. A história do Lacan é a melhor de todas: quando eu li o Lacan, eu não tive certeza se eu entendi, mas eu tinha certeza de que ali havia uma coisa nova e interessante. Então é esse o raciocínio do editor.

A biografia mostra a relação de Zahar com amigos como Paulo Francis, Millôr Fernandes e, principalmente, Ênio Silveira. A tumultuada vida do editor da Civilização Brasileira, aliás, é quase um contraponto à de Zahar. Combativo, Silveira entrou em conflito com a ditadura militar. Muito mais sóbrio, Zahar nunca foi preso ou perseguido, mas isso não significa que não estivesse no detector dos militares. Por publicar livros de autores de esquerda, ou até apenas por espalhar o conhecimento, foi várias vezes citado como ameaça em antigos dossiês. Alguns desses arquivos, revisitados por Pires, mostram que ter um livro da Zahar em casa já era suficiente para uma pessoa se tornar alvo da repressão. O próprio Zahar admitiu que “a autocensura pesou”: em 1968, jogou fora seis mil páginas já traduzidas (de autores como Engels), por temor da ditadura.

— Os livros da Zahar tinham um lado, não existia essa coisa de apartidário — lembra Pires. — Mas se você for ver hoje, que ameaça representavam? Nenhuma. Eram livros de análise da sociedade, de debates intelectuais, não de doutrinação.

Zahar confessou que, se tivesse tido educação formal, gostaria de ter se tornado psicólogo ou professor universitário. O fato é que, com seu ofício, alimentou milhares de psicólogos e professores.

— Jorge não pode estudar, nem participar de uma vida acadêmica como gostaria, e imagino que essa foi a grande razão para ele ter se tornado um editor que fez a ponte com o leitor comum, interessado em se informar com qualidade — diz Ana Cristina Zahar, diretora editorial da casa, filha do seu fundador e uma das fontes da biografia.

Livro infantil diz que seios servem para tornar meninas “atraentes”

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Foto: Getty Images

 

Editora britânica viu-se obrigada a pedir desculpa pela linguagem utilizada no livro “Growing Up for Boys”, após várias críticas nas redes sociais

Diogo Barreto no Sabado

Não é apenas em Portugal que os livros para crianças têm causado polêmicas na esfera das redes sociais. A editora Usborne viu-se obrigada a pedir desculpa, depois de ter colocado no livro infantil dirigido a rapazes que uma das funções dos seios é fazer as meninas “parecerem adultas e atraentes”.

A editora informou que vai rever o livro Growing Up for Boys, depois de terem surgido várias críticas nas redes sociais e na zona de comentários e avaliações da Amazon.

Growing Up for Boys, assinado por Alex Frith, foi publicado em 2013 e na descrição da Usborne pode ler-se que é “um livro franco e amigo que oferece conselhos a rapazes sobre o que esperar da puberdade e como permanecer feliz e confiante enquanto passam por mudanças físicas, psicológicas e emocionais”. Entre os temas abordados estão as “mudanças de humor e sentimentos, o que acontece com as meninas, dietas, exercícios, imagem corporal, sexo e relações, autoconfiança, álcool e drogas”, explica o The Guardian.

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No passado dia 27, o escritor e blogger Simon Ragoonanan chamou a atenção para a edição quando publicou no Twitter uma imagem do livro onde se podia ler: “As meninas têm seios para duas razões – alimentar bebês e parecerem adultas e atraentes”.

Em declarações ao jornal britânico, Ragnoonanan criticou a editora afirmando que a Usborne promove estereótipos de gênero entre as crianças. Entretanto, o livro foi também alvo de críticas na Amazon, onde recebeu diversas avaliações de uma estrela, apelidando os livros de serem sexistas.

Claire Nicholls, professora, explicou que “a falsa equivalência entre ter seios desenvolvidos e ser atraente e adulta” é também um problema, já que há meninas de 13 anos com um peito grande. “Descrever essas crianças como ‘adultas e atraentes’ infantiliza uma adulta com peitos mais pequenos”, afirmou.

Há três anos a mesma editora tinha sido criticada por publicar livros de atividades azuis, para rapazes, e cor-de-rosas, para e raparigas.

Já pensou em escrever um livro? Oportunidades facilitam publicações

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Até financiamento coletivo está entre as possibilidades para escritores

Thiago Andrade, no Correio do Estado

Ter um filho, plantar uma árvore, escrever um livro. Muitas vezes foi dito que essa é a receita para se ter uma vida completa. Em relação ao último conselho, o de escrever um livro, parece que hoje isso é mais fácil do que se imaginava. Plataformas de financiamento coletivo, custos mais baixos de impressão, e-books, entre outros, são os meios encontrados por quem quer imortalizar suas palavras em um volume publicado.

Uma busca no Google com os termos “publique seu livro” – se você usar aspas, o mecanismo de busca limita os resultados à frase, fica a dica – retornou “aproximadamente 459.000 resultados” em menos de um segundo. Ou seja, há muitas editoras dispostas a diagramar e imprimir seu texto, criar uma capa interessante e entregar tudo lindo para que você tente vendê-lo em livrarias ou para os amigos.

Os custos são bastante variáveis, mas de acordo com Valter Jeronymo, diretor da Life Editora, o mínimo para ter um livro publicado varia entre R$ 1,5 mil e R$ 2 mil para uma tiragem de 100 cópias. Esse valor inclui os custos de produção e os custos legais. “Ao contrário de editoras comerciais, os custos são bancados pelo autor. Ele pode escolher o papel, como quer a capa, a fonte”, explica o editor. Publicado pela editora, o livro será registrado na Biblioteca Nacional e receberá um Número Padrão Internacional do Livro (ISBN, de acordo com a sigla em inglês).

“A quantidade de clientes interessados em transformar trabalhos acadêmicos como monografias, TCC, dissertações ou teses em livro vem crescendo. Uma vez que o livro é publicado de acordo com todas as normas, ele pode usar isso para pontuar em concursos, sobretudo para professor”, explica Valter. Em 2015, a editora publicou apenas livros particulares. “Os editais costumavam garantir um grande volume, mas estamos em um momento que eles estão parados.”

Henrique Pimenta, professor de Português e Literatura, decidiu que para ter seu livro publicado seria necessário investir do próprio bolso. Assim, ele lançou “99 sonetos sacanas e 1 canção de amor” e agora se prepara para colocar à venda um novo trabalho: “Ele adora a desgraça azul”, um livro de contos. A edição está sendo preparada pela Editora Mondrongo, sediada em Itabuna, na Bahia.

“Pode-se dizer que as dificuldades em publicar dividem-se em duas categorias: todas e as principais”, comenta o escritor. As principais? “Acho que em primeiríssimo lugar é a essência, você ter um bom material, algo digno de ser dado a público. Haja suor! Depois, no meu caso, ter grana para investir num projeto sem retorno garantido”, ressalta. Pimenta relata já ter tido problemas na distribuição de seu livro anterior, o que pode desanimar quem está se lançando no mundo literário.

O novo livro, que ainda não foi lançado, está sendo preparado há três anos. “Agora me intrometi na área da narrativa, escrevendo um conjunto de 23 contos ambientados em Campo Grande e imediações, Coxim, uma cidade minúscula a caminho de Japorã, entre outras localidades sul-mato-grossenses”, explica. Os contos giram em torno de pessoas normais, “ou seja, gente estranha pra caramba, que não se importa em ser desagradável e repulsiva quando seu desejo assim determina”, pontua o autor, que considera o material com boa qualidade estética.

NOVAS OPÇÕES

O financiamento coletivo, também conhecido como crowdfunding, tornou-se uma opção para viabilizar projetos em diversas áreas. Na literatura, ele chegou com força e já dá frutos. Uma iniciativa tem crescido, por viabilizar lançamento de autores com potencial, mas que não foram reconhecidos por grandes casas editoriais do País. O Bookstart oferece, na internet, oportunidade para que o escritor lance seu livro sem grandes custos.

“É uma inversão da lógica do mercado. Nós oferecemos uma pré-venda para publicar o livro. Uma vez que o autor propôs seu projeto e ele é aprovado, damos um orçamento e uma campanha virtual é criada. Em 90 dias, se o valor for alcançado, começamos a produção do livro que inclui revisão, capa, impressão, etc.”, explica Bernardo Obadia, criador do projeto. Ao final, o autor recebe um livro impresso e um e-book. O material é comercializado dentro da plataforma, que conta com uma loja virtual. “Há, hoje, cerca de três a seis milhões de manuscritos engavetados no Brasil. Decidimos que o crivo do que deveria ou não ser publicado seria dado pelo leitor”, comenta.

Um dos autores que logo vai ter seu livro publicado pela empreitada é Christian Pissini, 38 anos. “O Enxadrista” conseguiu superar a meta de R$ 4,3 mil necessária para a publicação e será lançado em maio. “É um conto, com duas histórias paralelas. A vida inteira de uma pessoa será decidida em uma partida de xadrez jogada por dois desconhecidos”, explica o autor sobre o enredo. Trata-se do primeiro livro do escritor, que trabalha como contador e faz gestão financeira para uma empresa de agropecuária.

“A sensação de ter o livro publicado é ótima. Apesar da facilidade, ainda é caro lançar uma obra. Com esse projeto, a gente tenta reunir os possíveis compradores para financiar o material”, comenta o autor. A relação de Christian com a literatura surgiu em uma revista chamada Consciência. “Eu faço parte da maçonaria e comecei a contribuir com a revista. Depois de participar de um concurso literário, acabei ganhando. Isso me animou”, pontua. O autor aguarda a publicação.

BAIXO CUSTO

Em Dourados, Luciano Serafim e Fernanda Ebling tiveram uma ideia simples e prática. Para publicar seus livros, os autores criaram uma editora de livros artesanais. Assim surgiu o Arrebol Coletivo. As edições são feitas em casa, com uma impressora a laser. “Temos parceiros que contribuem com partes do livro. Um amigo faz a capa, outro ajuda na revisão. O autor contribui com os custos de impressão”, explica. O livro é lançado com ISBN e vale como publicação formal, mas pode ter no máximo 68 páginas. “É o que dá para grampear”, pontua.

A editora pretende lançar oito títulos em 2016. “Esse número pode crescer, depende de como será. Também estamos pensando na possibilidade de abrir espaço para autores de fora do Estado”, comenta Luciano. Para ser impresso, o livro precisa passar pelo crivo de cinco integrantes do coletivo. “Queremos publicar material de qualidade. A proposta é que o autor se orgulhe do material que lançou”, pontua.

NO PASSADO

Reginaldo Alves de Araújo criou, em 1989, a Associação de Novos Escritores. A instituição fazia às vezes de uma editora, que tinha como objetivo lançar livros de autores estreantes. “Foram mais de 20 anos de produção, conseguimos lançar quase 1,5 mil livros”, comenta Reginaldo.

“O escritor nos contatava para manifestar interesse em publicar um livro. Ele nos entregava os originais, depois de revisados e aprovados, fazíamos um orçamento”, conta. As edições eram lançadas com uma tiragem de 500 volumes.

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