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Atração da Flip, Paul Beatty ouviu ‘não’ de 18 editoras antes de publicar romance premiado

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‘O vendido’, ácido romance do americano, venceu o Man Booker Prize

Leonardo Cazes, em O Globo

RIO — “Eu”, o protagonista do romance “O vendido” (Todavia), do escritor americano Paul Beatty, assim se apresenta no início da história: “sendo otimista, sou um agricultor de subsistência, mas, três ou quatro vezes por ano, engato um cavalo numa carroça e troto por Dickens, vendendo minhas mercadorias”. As mercadorias a que ele se refere são melancias quadradas e maconha. Dickens é um imaginário subúrbio pobre e meio rural de Los Angeles, na Califórnia.

SC O escritor americano Paul Beatty, um dos convidados da Flip 2017 - Hannah Assouline / Divulgação / HANNAH ASSOULINE

SC O escritor americano Paul Beatty, um dos convidados da Flip 2017 – Hannah Assouline / Divulgação / HANNAH ASSOULINE

Já Eu é um jovem negro que escolheu estudar zoologia com o sonho de “transformar a fazenda do pai em um viveiro para vender avestruzes aos rappers que tocavam loucamente nas rádios do início dos anos 1990, aos estreantes mais disputados da NBA e a coadjuvantes de filmes de grande bilheteria”. O personagem, que teve o pai assassinado por policiais, vai parar na Suprema Corte americana por reintroduzir a escravidão e a segregação racial na sua cidade.

— Minha esposa falou uma frase muito boa quando eu estava escrevendo o livro: “o inimaginável acontece o tempo todo” — afirma Beatty, em entrevista ao GLOBO por telefone, de Nova York, onde vive, dando uma pista para decifrar a obra que venceu o Man Booker Prize no ano passado. “O vendido” é o primeiro romance lançado no Brasil do escritor, que é um dos convidados da 15ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Beatty participa da mesa “O grande romance americano” ao lado do jamaicano Marlon James, no dia 29.

Na história que criou, o real e o absurdo se retroalimentam. Eu, por exemplo, teve uma infância atormentada pelo pai, um psicólogo que utilizou o filho como cobaia dos mais diversos — e perversos — experimentos cognitivos e criou o círculo de intelectuais negros de Dickens, que se reunia numa loja de donuts nas tardes de domingo. Hominy Jenkins, que voluntariamente se torna o primeiro escravo de Eu, é um ator idoso e decadente cuja maior glória foi ser o primeiro reserva do elenco do seriado de TV “Os batutinhas”, entre as décadas de 1950 e 1960, sem nunca ter tido a chance de fazer o papel principal.

HUMANOS E SURREAIS

Esses personagens, ao mesmo tempo muito humanos e um tanto absurdos, materializam o questionamento de Beatty sobre a percepção e a maneira como vemos o mundo. Em “O vendido”, situações grotescas, comentários preconceituosos e gestos violentos são narrados no mesmo tom de absoluta normalidade e com um humor que deixa o leitor desconfortável: “Talvez seja a iluminação discreta, ou a decoração brilhante, cujo esquema de cores é projetado para ser um emblema de um donut granulado multicolorido. Seja como for, meu pai reconheceu que a loja era o único lugar de Dickens onde os negros sabiam como agir”, narra Eu. Formado em Psicologia, o escritor reconhece a influência da disciplina no romance.

— Eu aprendi muito estudando psicologia, aprendi sobre a maneira como eu vejo o mundo, como eu vejo as pessoas e, nesse sentido, a psicologia ajuda muito a minha escrita. No caso da percepção, a psicologia se debruça sobre o que você acha que está acontecendo quando algo está acontecendo, sobre o que você acha que sente quando você sente. Há muita liberdade para interpretação ali — afirma.

A Dickens de Beatty não é um cenário pós-apocalíptico tão em voga em certa literatura recente. A ideia para um subúrbio rural californiano surgiu durante uma visita do escritor à cidade de Compton, no sul de Los Angeles. Beatty, que nasceu na região, se surpreendeu ao ver pessoas andando a cavalo e, em conversas, descobriu que há estudantes da região que compram leite não nos mercados, mas dos seus vizinhos. Ele chama a atenção para um passado ainda presente, mas esquecido.

— É estranho, na Califórnia ainda permanece uma certa iconografia western nos arredores de cidades como Los Angeles. Daí comecei a pensar sobre isso e me deixei levar para esse legado cultural da agricultura na região. Não há fazendas lá, mas há todo esse antigo contexto histórico que fica perdido e você nem sempre percebe.

ENTREVISTADO ARREDIO

Antes de vencer o prestigiado Man Booker Prize com o romance, no ano passado, Beatty enfrentou muitas dificuldades para publicar “O vendido” no Reino Unido. Ele foi recusado por nada menos do que 18 editoras diferentes até fechar com a independente Oneworld — curiosamente, a mesma casa que publicou “Uma breve história de sete assassinatos”, de Marlon James, vencedor do mesmo prêmio em 2015 e seu companheiro de mesa na Flip.

O enorme assédio da imprensa após o prêmio britânico rendeu a fama de entrevistado difícil para Beatty. Ao tratar de temas candentes na sociedade americana — racismo, desigualdade, violência policial e justiça —, não raro seu romance foi lido como um manifesto sobre o momento presente dos Estados Unidos, ainda antes da eleição de Donald Trump. O escritor fica incomodado com essa interpretação e não vê o livro como uma crítica à sociedade americana. Na sua opinião, se há alguma crítica no romance, a crítica é à maneira como nós lemos e pensamos sobre nós mesmos.

— É muito louco como as pessoas leem hoje em dia — aponta Beatty, que com “O vendido” só pretendia fazer uma ficção que fosse, nas suas palavras, “única”. — Ao falar com todos esses jornalistas, eu percebi que, muitas vezes, eles têm uma estranha agenda política na qual querem encaixar o livro e me encaixar também. Isso apenas para afirmar a maneira como eles acham que eu vejo o mundo, eu vejo o Brasil, esse tipo de coisa. Isso é tão cansativo e falso, ao menos vindo de mim. Não tenho nenhum interesse em fazer isso.

Essa confusão entre narrador e autor não é à toa. A obra é recheada de comentários políticos. Em certa passagem do romance, o protagonista Eu afirma: “Como no caso do presidente negro, você acha que, depois de dois mandatos vendo um camarada de terno fazer o discurso do Estado da União, vai se acostumar com uma melancia quadrada, mas por alguma razão isso não acontece nunca”. Perguntado se ele concordava com o seu protagonista, Beatty criticou a maneira como os dois mandatos de Barack Obama foram encarados por muitos americanos.

— Nós agimos como se tudo fosse tão novo o tempo todo. No caso de um presidente negro, agimos como se fosse uma supernova. Uma supernova leva bilhões e bilhões de anos. Novamente, estamos falando de percepção. Em literatura, é a mesma coisa. Estava lendo uma peça antiga de Aristófanes, de 2,5 mil anos atrás, e ele já questionava o que era literatura. Essa passagem no livro é sobre isso — afirma ele.

Contudo, ligar a televisão e ver Donald Trump como presidente dos Estados Unidos tampouco tem sido uma experiência banal:

— A cada vez que eu vejo Trump na televisão eu penso: não acredito que esse cara virou presidente. Não sei se daqui a alguns anos vou continuar chocado. Ele não é o primeiro idiota a ser presidente, mas é um tipo único de idiota. A questão que se coloca é quando e como nós nos acostumamos com certas coisas. E por que nos recusamos a nos acostumar com outras.

Voltado a escritores independentes, Prêmio Kindle de Literatura anuncia segunda edição

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Ganhadora do 1º Prêmio Kindle de Literatura, Gisele Mirabai mostra a versão impressa de "Machamba", cuja versão impressa teve lançamento anunciado pela Nova Fronteira nesta quinta-feira (29) (Foto: Nando Dias Gomes/Divulgação)

Ganhadora do 1º Prêmio Kindle de Literatura, Gisele Mirabai mostra a versão impressa de “Machamba”, cuja versão impressa teve lançamento anunciado pela Nova Fronteira nesta quinta-feira (29) (Foto: Nando Dias Gomes/Divulgação)

 

Disputa vai dar R$ 30 mil ao ganhador. Obras precisam ser inéditas e devem ser inscritas primeiro na plataforma de autopublicação KDP.

Publicado no G1

A Amazon e a editora Nova Fronteira anunciaram, nesta quinta-feira (29), o 2º Prêmio Kindle de Literatura, voltado a escritores independentes.

Os concorrentes devem publicar seus romances inéditos e em português no Kindle Direct Publishing (KDP), plataforma de autopublicação da Amazon (clique aqui para ver todas as regras).

O vencedor, a ser anunciado em janeiro de 2018, receberá R$ 30 mil e poderá assinar contrato com a Nova Fronteira para lançar a versão impressa da obra. As inscrições vão de 1º de agosto a 31 de outubro.

As exigências para participar do 2º Prêmio Kindle de Literatura são:

O escritor precisa ser residente no Brasil – no caso de ter menos de 18 anos, é necessário que seja representado por um responsável legal;

O romance precisa ser escrito em português e inédito. O regulamento permite ainda inscrever “obras que tenham pequena parcela do seu conteúdo publicado em blogs pessoais ou revistas eletrônicas, desde que não ultrapasse 25% do total”;

Para participar, é preciso publicar o romance fomato digital no KDP (clique aqui), a plataforma de publicação da Amazon, entre 1º de agosto e 31 de outubro. O KDP é uma ferramenta gratuita;

É preciso usar a hashtag #premiokindle no campo das palavras-chaves durante a publicação;
Os livros inscritos devem ficar exclusivos para o Kindle no período do prêmio;

Os autores vão ter o controle total do processo de publicação, do design de capa até a definição do preço do livro. Eles também podem receber até 70% dos royalties pelo trabalho;

Não podem concorrer romances tenham já tenham sido anterioremente contratados com qualquer editora no Brasil ou no exterior;

O regulamento ainda complementa: “Também não podem ser relacionadas a outras obras do mesmo autor ou de autores diferentes (inclusive no que diz respeito aos personagens, que devem ser inéditos) e não podem fazer parte de uma série”.

Os livros inscritos na segunda edição do Prêmio Kindle vão ser avaliados por editores escolhidos pela Nova Fronteira e pelos escritores Carlos Heitor Cony e Geraldo Carneiro.

Eles vão apontar cinco finalistas, que serão divulgados entre 11 e 22 de dezembro. A cerimônia de premiação deve acontecer entre 15 e 31 de janeiro de 2018.

A Amazon informa que o 1º Prêmio Prêmio Kindle de Literatura teve mais de 1,7 mil autores brasileiros, de 460 cidades. Eles publicaram mais de 2 mil livros no KDP.

A ganhadora foi Gisele Mirabai, com o livro “Machamba”. Nesta terça, a Nova Fronteira anunciou o lançamento da versão impressa da obra.

“Eu dizia que o Prêmio Kindle de Literatura foi um divisor de águas na minha carreira, mas hoje sinto que é ainda mais do que isso”, disse, por meio de nota, a vencedora.

“Para mim, o prêmio foi uma ponte: do digital para o impresso, dos ‘nãos’ que eu tinha recebido para o ‘sim’ que eu tanto queria ouvir, mas também uma ponte para um mundo novo, que conecta a autonomia e liberdade da autopublicação, com a qualidade e exigência do mercado de literatura contemporânea.”

Sobre a visibilidade proporcionada pela disputa, o gerente geral de conteúdo para Kindle, Ricardo Garrido, afirmou que “dos mais de 2 mil títulos inscritos [no 1º Prêmio Kindle], mais de 30 estiveram entre os 100 eBooks mais vendidos na Amazon.com.br”.

Suspensa em 2004, biografia de Caetano Veloso chega às livrarias

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Publicado no UAI

Foto tirada na casa do cantor em 1982. (foto: Thereza Eugênia/Divulgação)

Foto tirada na casa do cantor em 1982. (foto: Thereza Eugênia/Divulgação)

Biografias, salvo exceções, têm uma estrutura inconfundível. O prólogo, é regra, traz um fato marcante da vida do biografado. Logo depois vem o capítulo inicial, geralmente aberto com os primeiros anos do personagem.

Caetano: uma biografia. A vida de Caetano Veloso, o mais doce bárbaro dos trópicos (editora Seoman), de Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco, que chega às livrarias na próxima semana, tem início na noite de 23 de março de 2003.

No Kodak Theatre, em Los Angeles, Caetano apresentou, ao lado da mexicana Lila Downs, Burn it blue durante a cerimônia do 75ª edição do Oscar. A canção havia sido indicado ao prêmio pelo filme Frida. Para os autores, o ”fato não poderia ser ignorado”, já que Caetano havia se apresentado para o maior público de sua carreira.

É uma opção, que ganha novo sentido quando se chega à página 523 do livro (são 544 no total). No posfácio, o leitor fica sabendo que Drummond e Nolasco poderiam ter enterrado um trabalho que consumiu seis anos da dupla. E que a biografia, originalmente, seria publicada entre 2004 e 2005, pouco após a apresentação no Oscar. Por outra editora (Objetiva), com um outro texto. Que Caetano não autorizou.

A dupla de autores, funcionários públicos que nunca foram tietes de Caetano – ”não tínhamos conhecimento profundo sobre ele quando começamos”, afirma Drummond, também poeta e compositor da Imperatriz Leopoldinense –, após realizados alguns encontros com o músico pediu uma declaração dele ”que desse segurança à continuidade dos trabalhos”.

Caetano escreveu, em 2001, um documento em que reconheceu a existência do projeto – ”Eles me apresentaram algum material extraído das entrevistas que fizeram, sendo que alguns documentos (textos e fotos) a que tiveram acesso me surpreenderam e emocionaram”, diz trecho da carta.

Em 2004, já de contrato assinado com a Objetiva (que lhes pagou um adiantamento de R$ 20 mil), os dois voltaram a Caetano. Precisavam de uma autorização formal para a continuidade do trabalho. O escritório do artista não autorizou, e a editora desistiu de publicar o livro. Que só foi retomado em 2015, quando decisão do Supremo Tribunal Federal retirou a obrigatoriedade de autorizações prévias para a publicação de biografias.

A história terminaria agora, com o livro pronto, não fosse uma outra questão. Caetano não teria autorizado o livro na época porque não havia gostado do texto. A Objetiva teria exigido um terceiro autor, um nome de peso (a jornalista Ana Maria Bahiana).

“Chegamos a aceitar (a exigência), mas o projeto não foi em frente. Gostar ou não de um texto é uma questão absolutamente normal. Mas o que Caetano tinha lido (no início dos anos 2000) era um outro texto, que não estava em sua versão final. E tinha valor, do contrário, por que a Objetiva nos pagaria um adiantamento?”, afirma Drummond.

Em turnê pela Europa, Caetano falou sobre a polêmica em entrevista publicada na última segunda-feira, 24, pelo jornal português Observador. ”Não reli, mas vou olhar agora quando voltar para o Brasil. Eles fizeram uma pesquisa muito cuidadosa, falaram com todos os meus parentes, irmãos, meus amigos de infância, as pessoas com quem eu trabalhei em vários períodos, e acho que eles fizeram um levantamento que deve valer a pena para quem se interessa pela minha vida. Agora, quando a li pela primeira vez, falei para eles: ‘Olha, isso precisaria ser reescrito’, porque… como texto literário, achei um pouco fraco. Agora eu não reli, mas foi preciso autorização minha para que eles pusessem as fotografias, e eu dei autorização. Sem reler.”

REESCRITA

Drummond e Nolasco entrevistaram 103 pessoas para o projeto (20% delas, na conta dos autores, já morreram). Para a publicação da biografia, não fizeram nenhuma nova entrevista. ”Depois de tudo o que aconteceu, não nos sentíamos mais à vontade para fazer entrevista”, justifica Drummond. Passaram um ano, já com a nova editora, reescrevendo o livro e checando as informações.

Um dos problemas do volume aparece aí. O texto tem início e fim com a cerimônia do Oscar. A trajetória de Caetano de 2003 até os dias atuais aparece no posfácio, num texto que parece escrito às pressas, sem qualquer profundidade (e nada diferente do que se acha numa rápida pesquisa na internet). E é uma época prolífica para Caetano, em que ele se reaproximou do público jovem (com a trilogia da banda Cê) e protagonizou duas turnês históricas (uma com Roberto Carlos e outra com Gilberto Gil).

O texto, já que a polêmica atual é esta, carece de personalidade. É por vezes ingênuo (”Em tempos de ditadura, o programa alternativo sempre seria uma boa opção para quem quisesse respirar novidades e arejar a cabeça”). Em alguns momentos, abusa dos chavões (”Em coração de pai e de mãe sempre cabe mais um”).

Mas a profundidade com que os autores tratam da história (até 2003, vale repetir), e a profusão de fontes (são pelo menos três para cada fase do artista, além de extensa bibliografia), acaba validando a biografia como um documento responsável e crível sobre a longa trajetória de Caetano.

Os autores não se prendem a fofocas ou qualquer assunto de menor importância. E ainda delineiam ricas passagens biográficas sobre aqueles que estiveram próximos ao artista (Maria Bethânia tem muito destaque). Entre os pontos fortes está a fase inicial, na infância em Santo Amaro da Purificação. Os autores contaram com a colaboração de parentes (os irmãos Mabel e Rodrigo Velloso, principalmente) e amigos de infância do compositor. Estão ali os anos escolares (há inclusive documentos impressos no livro, bem como desenhos feitos pelo próprio Caetano), relatos dos primeiros emprego e namorada.

Foi um antigo colega de colégio, Wanderlino Nogueira (hoje integrante do Comissionado do Comitê dos Direitos da Criança da ONU, em Genebra) quem apresentou a Caetano a obra de Oswald de Andrade. O livro ainda relata a origem de várias canções (Itapoã foi inspirada, por exemplo, nos primeiros momentos de namoro com Dedé Gadelha, quando Caetano viajava escondido para a praia baiana).

Há também fontes pouco conhecidas, como Respício do Espírito Santo, então tenente, que ajudou Caetano durante o período em que ele ficou preso pela ditadura militar (leia trecho nesta página).

”Hoje, minha sensação é de alívio por ter terminado algo que, em determinado momento, parecia que ia se perder”, conclui Drummond, logo acrescentando: ”Não me considero um biógrafo. Sou apenas um sujeito que fez um livro sobre o Caetano”.

Trecho
”Com a censura imposta, não se podia ser claro sobre o paradeiro de Caetano. Fora isso, havia muita especulação a respeito. Quem sabia a verdade, publicava matérias cifradas ou mesmo se calava por segurança. Desde a transferência de quartéis na própria Vila Militar, Dedé o perdera de vista. Foi assim até o dia em que o tenente Respício esteve com Bethânia. Foi ele quem levou notícias sobre Caetano. Ele passava bem e estava detido em seu quartel. Ela pediu para visitar o irmão. Não havia problema. Pelo menos ali, Caetano podia receber visitas. E mais: deixou seu telefone para que Bethânia ligasse no dia em que fosse. Ele mesmo mandaria buscá-la. No dia e hora marcados lá estava o Simca Chambord azul do tenente para pegar Bethânia. A ansiedade durante o percurso só não foi maior do que a alegria pelo reencontro, apesar do choque. Caetano estava um caco, abatido, de cabelo reco, vestido de soldado… Quase sumia de tão magro.”

A história de 18 grandes mulheres brasileiras, reunidas num livro on-line

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Carolina Maria de Jesus, um dos principais nomes da literatura no Brasil - Foto: Audálio Dantas/Agência Brasil Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/03/21/A-hist%C3%B3ria-de-18-grandes-mulheres-brasileiras-reunidas-num-livro-on-line © 2017 | Todos os direitos deste material são reservados ao NEXO JORNAL LTDA., conforme a Lei nº 9.610/98. A sua publicação, redistribuição, transmissão e reescrita sem autorização prévia é proibida.

Carolina Maria de Jesus, um dos principais nomes da literatura no Brasil – Foto: Audálio Dantas/Agência Brasil

Lançada pela Fundação Joaquim Nabuco, obra traça o perfil de personagens que se destacaram em diferentes áreas

Caio do Valle, no Nexo

Salvaguardadas as exceções, ainda é tímido, na tradicional narrativa histórica, o espaço conferido às mulheres na construção social, política, cultural e econômica do Brasil. O protagonismo masculino perdura nesse terreno, bem como no da memória social. Assim, o passado segue se organizando em torno do vulto de grandes homens, refletidos em monumentos, nomes de ruas e episódios consagrados no imaginário popular. Um livro gratuito publicado pela Fundação Joaquim Nabuco, do Recife, tenta corrigir um pouco dessa distorção, apresentando 18 mulheres brasileiras que se destacaram ao longo dos últimos séculos. Em comum entre si, as homenageadas na obra “Memória Feminina: mulheres na história, história de mulheres” têm contribuições que se encontram, “em sua maioria, representadas em museus e espaços de memórias”, como arquivos e centros culturais.

Apesar desse foco, segundo escrevem na apresentação os pesquisadores Maria Elisabete Arruda de Assis e Maurício Antunes, além de patrimônios materiais (representados por objetos pessoais, obras de arte, manuscritos, livros), buscou-se acessar os imateriais. Quer dizer, os que “não estavam apenas nos museus brasileiros, mas também nas comunidades locais”: tradições legadas de uma geração para a outra. É por isso que o leitor encontra artigos sobre as cirandas de Lia de Itamaracá, a preservação da tradição religiosa de matriz africana Xambá por Mãe Biu em Pernambuco, bem como a contribuição de Dona Santa, na preservação dos maracatus. Também há um texto sobre a líder sindicalista Margarida Alves, defensora dos direitos dos trabalhadores sem terra assassinada em 1983 e inspiradora da Marcha das Margaridas.

A importância feminina na literatura
No campo das letras, aparecem Carolina Maria de Jesus, Pagu e Clarice Lispector. A primeira, moradora de uma favela paulistana, ganhou notoriedade mundial ao publicar o livro “Quarto de despejo: diário de uma favelada”, em 1960. Nessa obra, vêm à tona as condições precárias de vida de parcela significativa da população, em especial das mulheres pobres.

“Essas mulheres, como Carolina, responsáveis por seu próprio sustento, apesar de desqualificadas pela imprensa e por fontes oficiais, compunham um grupo que teve presença constante e intensa pelas ruas da cidade de São Paulo desde o período colonial. Suas falas, entretanto, sempre apareciam de forma indireta, transcritas nos documentos pela pena dos escrivães, o que as impedia de assumir um protagonismo narrativo”
Elena Pajaro Peres historiadora, responsável pelo artigo sobre Carolina Maria de Jesus

Figuras de destaque nas lutas feministas e nas artes
O livro ainda traz o perfil de pessoas de “inestimável contribuição para a mudança do papel da mulher na sociedade quanto aos seus direitos”, como a zoóloga Bertha Lutz, sufragista nos anos 1920, e a escritora Francisca Senhorinha da Motta Diniz, que fundou, no século 19, o primeiro periódico do país pela emancipação feminina. As artistas plásticas Tarsila do Amaral, Maria de Lourdes Martins Pereira de Souza, Lygia Pape, Djanira da Motta e Silva, Georgina de Albuquerque e Nair de Teffé aparecem retratadas em seus contextos históricos e por meio de suas trajetórias de vida e profissional. Há ainda relatos sobre a atriz Leila Diniz, identificada como um símbolo da liberdade sexual dos anos 1960, e Nise da Silveira, proeminente figura da psiquiatria brasileira no século passado. Um capítulo do livro é dedicado à figura da “Miss Sambaqui”, um crânio de mulher pré-histórico encontrado no litoral paulista na década de 1950.

Anonimato e invisibilidade
Segundo Maria Elisabete Arruda de Assis, diretora do Museu da Abolição, e Maurício Antunes, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, as histórias são cristalizações de muitas outras, anônimas e invisibilizadas. A intenção é que se tornem espelhos para brasileiras, jovens e adultas, se olharem, se reconhecerem e se projetarem no futuro, “como cidadãs a serem respeitadas nas diferenças e na luta pela conquista da igualdade de gênero em nossa sociedade”. Ainda de acordo com eles, o objetivo do livro é desmontar preconceitos que esconderam ou apagaram a presença das mulheres na história do Brasil.

“Nossa história coletiva ganha com acercar-se desse conjunto de mulheres que foram sujeito da história de nosso país: sim, temos pintoras, escultoras, escritoras, atrizes, cientistas que foram rebeldes e afirmaram-se como protagonistas”
Tatau Godinho doutora em ciências sociais, no prefácio do livro

Um incentivo à leitura, diariamente na caixa de e-mails

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A escritora Hilda Hilst, autora de 'Tu não te moves de ti'

A escritora Hilda Hilst, autora de ‘Tu não te moves de ti’

 

Estudante envia um trecho de livro brasileiro por dia a inscritos, misturando cordel, obras independentes e consagradas

Juliana Domingos de Lima, no Nexo

O estudante de jornalismo Giovanni Arceno, 22 anos, é um amante de literatura. Ele se incomodou com os números que explicitam como o brasileiro lê pouco – menos de cinco livros por ano – e criou sua própria maneira de minimizar o problema: a newsletter Leia Brasileiros, que entrega aos seus assinantes todos os dias por e-mail (menos no fim de semana) um trecho de obra literária nacional.

A iniciativa surgiu como uma forma de compartilhar suas descobertas e sanar o que ele enxerga como um “vácuo que existe na nossa cultura de leitura”.

Aos 22 anos e prestes a publicar seu primeiro romance, 'Vitória' Arceno cuida sozinho da newsletter

Aos 22 anos e prestes a publicar seu primeiro romance, ‘Vitória’ Arceno cuida sozinho da newsletter

O livro mais lido pelo brasileiro é a Bíblia. Além disso, lemos, em média, 4,96 livros por ano, sendo 0,94 – cerca de 20% desse valor – indicados pela escola, segundo s quarta edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, feita em 2015 e divulgada este ano pelo Instituto Pró-Livro.

Os números mostram que a relação dos brasileiros com a literatura do país ainda é, de modo geral, distante e fortemente pautada pela obrigatoriedade.

Aos 22 anos e prestes a publicar seu primeiro romance, “Vitória”, pela editora Oito e Meio, Arceno cuida sozinho da newsletter. Ela é disparada todos os dias para 2.249 inscritos.

A estreia literária de Arceno trata de um casal jovem que precisa lidar com uma gravidez indesejada. E, segundo ele, tem mais a ver com os problemas trazidos por um amadurecimento forçado do que com uma história de amor. Entre suas influências, ele cita autores contemporâneos: os brasileiros Daniel Galera, Marçal Aquino e Luiz Ruffato e também o chileno Alejandro Zambra.

A curadoria traz na mesma medida, segundo o estudante, autores clássicos, contemporâneos, negros, mulheres, poetas, contistas. Autores de editoras menores também são contemplados na seleção. “Ser consagrado é retórica, muitas vezes as obras consagradas também são muito pouco lidas”, justifica.

Alguns dos trechos enviados recentemente eram, por exemplo, assinados por Nara Vidal, escritora mineira; Sérgio Tavares, autor de “Cavala”; Adauto Borges, repentista; Carolina Maria de Jesus, autora negra e favelada que escreveu “Quarto de Despejo”; e o poeta Manuel Bandeira.

Além da pílula literária enviada aos assinantes, a newsletter também traz um breve comentário de três linhas sobre autor, obra, editora ou período da publicação, indo além de apresentar uma autora ou autor.

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