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Salvador vai sediar primeira Feira do Livro Infantil em outubro

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Salvador vai sediar primeira Feira do Livro Infantil (FLIS) — Foto: Divulgação Editora Papa Livro/Ester Mendes

Programação permite o acesso do público em 27 espaços oficiais com selos editoriais de todos os gêneros, em mais de 30 horas de atividades relacionadas ao universo literário

Publicado no G1

Salvador vai sedia uma feira inédita inteiramente dedicada aos livros para crianças. A Feira do Livro infantil (FLIS) vai acontecer de 26 a 28 de outubro, no 3º piso do Shopping da Bahia, com entrada gratuita.

A FLIS é um projeto pensado para incentivar a leitura e divulgar autores brasileiros junto ao público infantil. A programação permite o acesso do público em 27 espaços oficiais com selos editoriais de todos os gêneros, em mais de 30 horas de atividades relacionadas ao universo literário.

Durante os três dias da Feira do Livro Infantil, os visitantes terão a oportunidade de interagir com grandes autores, em encontros e palestras exclusivas.

Clubes de leitura ampliam horizontes para além dos livros

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Crianças são contempladas pelo Leiturinha
Foto: Divulgação

Clubes de leitura valem pela experiência que proporcionam aos leitores, com opções pela internet que atendem a milhares de leitores, do público adulto ao infantil

Mariana Mesquita e Hugo Viana, na Folha de Pernambuco

Os clubes de leitura têm raízes que remontam aos salões onde os iluministas preparavam a Revolução Francesa e aos grupos em que os puritanos norte-americanos se reuniam para estudar a Bíblia, há quase 300 anos.

No século passado, surgiu o primeiro modelo à distância, nos Estados Unidos da década de 1920: o “The Book of the Month” passou a enviar pelos Correios os títulos que assinantes escolhiam a partir de uma lista. No Brasil, uma das iniciativas mais lembradas pelos consumidores é o Círculo do Livro, experiência da Editora Abril que funcionou de 1973 a 1993 e chegou a ter 500 mil filiados.

Mas nos dias atuais, mesmo tendo milhares de opções de compra por meio presencial ou pela internet, os leitores brasileiros vêm redescobrindo os serviços de assinatura mensal, que vêm ampliando sua área de atuação e se especializando para atender, de forma mais eficaz, às necessidades de seus públicos.

O foco na experiência é o elemento-chave por trás desse fenômeno editorial, já que a comodidade de receber o produto em casa não é o foco principal, e sim toda uma gama de vivências que um livro pode proporcionar: se aproximar dos filhos, conhecer um autor novo ou debater sobre escritores já conhecidos, além de expandir os próprios hábitos literários.

É o caso da empresa TAG, de Porto Alegre (RS), que se propõe a vender “experiências de leitura”. “O principal ingrediente, além da boa literatura, é o fator surpresa. O mistério acompanha toda a jornada do associado: a descoberta do título, a edição exclusiva que não pode ser encontrada em livrarias e não é revelada antes do envio, os materiais de apoio, os brindes, a apresentação que antecipa o próximo kit. Tudo é pensado para envolver e cativar o leitor. Após a descoberta, o associado pode acessar o aplicativo e participar dos encontros que possibilitam conversar sobre as obras, conhecer outras pessoas e gerar um senso de comunidade. Participar do clube significa retomar o hábito de leitura e descobrir novos títulos e autores que talvez não leria”, descreve a produtora de conteúdo Thaís Mahfuz.

Em julho passado, o clube completou 4 anos de existência, atendendo a mais de 36 mil associados (dos quais cerca de mil são pernambucanos). “Hoje, o Nordeste representa em torno de 15% da nossa base total de assinantes”, destaca. Para agradar a todos os perfis de leitor, eles acabam de lançar a TAG Inéditos, uma modalidade de assinatura voltada para os fãs de best-sellers, e elaboraram um kit mais simples (sem “mimos” e com capa em brochura), para diminuir o preço e possibilitar que pessoas com menor potencial aquisitivo possam ter acesso à proposta.

“Acreditamos muito no modelo por diversos motivos: praticidade, conforto, curadoria, retomada do hábito, senso de comunidade etc. Na prática, sentimos que a ideia e o produto são muito bem recebidos e alguns concorrentes começaram a aparecer, o que prova que o mercado está crescendo”, complementa Thais.

Outro clube que possui proposta parecida é o Leiturinha, criado em 2014 e com foco no público infantil. Segundo Rodolfo Reis, que fundou o clube junto com Luiz Castilho e Guilherme Martins, a ideia surgiu a partir de uma conversa sobre a importância de compartilhar o hábito da leitura com os filhos, para estabelecer um vínculo permanente de carinho e aprendizado, aliada à difícil tarefa de escolher livros adequados para as crianças.

Em 2016, o Leiturinha se uniu à empresa de brinquedos PlayKids, e hoje está presente em 5,1 mil cidades em todo o Brasil. “Promovemos o hábito da leitura compartilhada para 120 mil famílias, sendo Pernambuco uma das maiores praças do Nordeste”, destaca.

Ainda de acordo com Reis, “quando uma família assina o Leiturinha não está recebendo apenas livros, mas também uma experiência única para pais e filhos. Todos os produtos PlayKids têm o endosso de uma equipe de especialistas em desenvolvimento infantil e os kits passam por uma criteriosa seleção, trazendo os melhores títulos disponíveis no mercado editorial. Essa seleção baseia-se nos aspectos que devem ser estimulados em cada fase do desenvolvimento”. Ele garante: “entregamos muito mais do que livros”.

O projeto repercute entre os leitores. “Fiz assinatura do Leiturinha. Tenho um filho de nove anos e outro de cinco. Fiz dois planos, um para cada um”, explica Luciana Xavier, 37 anos, engenheira elétrica. “Acho excelente. Eles gostam muito dos livros. A gente incentiva eles a ler, desde pequenos, os livros voltados para a faixa etária deles. Vejo muito cuidado e carinho na preparação dos kits. É um material muito bom”, opina.

Quando recebe o kit, a família se reúne em torno dos livros. “O de cinco anos precisa que a gente leia para ele, já que está na fase de alfabetização. Sempre que chega o material a gente senta com ele. O de nove lê sozinho, mas a gente pede feedback da história”, detalha Luciana, que descobriu o serviço através de propagandas na internet.

Fábio Paiva, da EduQuadrinhos, prepara lançamentos a cada mês – Crédito: Ed Machado / Folha de Pernambuco


EduQuadrinhos

Fábio da Silva Paiva, doutor em Educação, também está nesse mercado de leitura, mas sua participação está voltada a outro gênero literário: os quadrinhos. Pesquisador da presença dos quadrinhos na educação, Fábio percebeu, quando terminou o doutorado, que essa produção não costuma chegar aos leitores.

“Resolvi buscar formas de fazer com que esse material chegasse a mais gente. Então criei uma página no Facebook, um Canal de YouTube e publiquei minha dissertação de mestrado e tese de doutorado em livro, durante a Comic Con, no Recife”, explica Fábio.

O passo seguinte foi a criação do EduQuadrinhos: projeto que tem um mês, em que os assinantes recebem, todo mês, dois quadrinhos, um infantil e outro adulto, que vêm acompanhados de um texto do autor, explicando a seleção dessas HQs e sua relevância cultural. “No texto, falo sobre o que pode ser ensinado e aprendido a partir da leitura dos quadrinhos. As obras são selecionadas por mim. Esse projeto surgiu do desejo de dar continuidade e alcançar mais pessoas, através dessa ideia de que o quadrinho pode fazer parte da educação”, explica Fábio.

No primeiro volume, foram enviados “A noiva”, de Eron Villar, para os pais, e “O Rei e o Príncipe”, assinado pelo próprio Fábio e por Rhebeca Morais. “A ideia é essa: quadrinhos para diversão, entretenimento e também menção aos pontos de educação que estão nas obras”, detalha Fábio, que está em processo de concluir a caixa do segundo mês (a assinatura, disponível no site do projeto, custa R$ 42,50).

Ricardo Leitão, presidente da Cepe, quer facilitar e baratear o acesso aos livros e periódicos do catálogo da editora – Crédito: Brenda Alcântara / Folha de Pernambuco

Clube de descontos em Pernambuco

Embora não funcione com a mesma proposta de outros clubes de leitura, a Companhia Editora de Pernambuco criou uma maneira de facilitar e baratear o acesso às obras de seu catálogo. Após se inscrever no site da Cepe, o usuário passa a contar com descontos especiais tanto nos livros, como nas publicações mensais, além de ter acesso a promoções exclusivas.

Segundo o presidente da editora, Ricardo Leitão, “a iniciativa reflete uma política de valorização dos produtos editoriais da Cepe, que somente em 2018 está lançando 82 novos livros”. A ideia surgiu também como uma maneira de ampliar ainda mais o comércio virtual da Cepe, que já vem crescendo significativamente nos últimos anos (entre 2016 e 2017, houve um incremento de 137% nas vendas da plataforma digital).

A meta é duplicar as vendas através do site até agosto de 2019, ampliando as fronteiras do hábito de leitura entre os clientes da editora. Para atrair mais participantes para o clube, que já conta com 1,5 mil usuários, quem se inscrever no site da Cepe ganha três meses de assinatura da versão digital da Revista Continente. E o melhor: os serviços e vantagens do clube são gratuitos.

Por dentro dos Clubes

TAG
Desde 2014
36 mil associados (quase mil deles de Pernambuco)
15% da base está no Nordeste

Leiturinha
Desde 2014
Foco no público infantil
120 mil famílias recebem os kits

Cepe
Criado em agosto deste ano
82 livros lançados em 2018
Entre 2016 e 2017, ampliou em 137% as vendas digitais
1,5 mil clientes

Walcyr Carrasco destaca importância da leitura e conta detalhes dos seus trabalhos no Flipoços em MG

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Walcyr Carrasco conversou com público em duas palestras no Flipoços em MG (Foto: Tiago Ivan da Silva)

 

Dramaturgo falou sobre suas obras destinadas ao público infantil, além do sucesso de “Verdades Secretas”.

Publicado no G1

O público do Festival Literário Internacional de Poços de Caldas, o Flipoços, acompanhou duas palestras do dramaturgo e jornalista Walcyr Carrasco, nesta sexta-feira (4). Com o auditório lotado em ambas as sessões, o autor da novela “O Outro Lado do Paraíso” falou sobre a influência da leitura na profissão e destacou algumas de suas principais obras.

No período da tarde, a palestra foi acompanhada por mais de 400 alunos das escolas do Sul de Minas, que ouviram sobre a força da literatura na carreira. “Tudo o que conquistei foi porque gostava de ler. Eu só consegui ser reconhecido porque sempre li muito. Me apaixonei pelos livros quando li as primeiras obras de Monteiro Lobato, numa cidade menor do que Poços de Caldas. A leitura me abriu as janelas para o mundo”.

O escritor ainda destacou que a leitura é um hábito: “Aprendemos a gostar de algo quando temos uma meta, quando é importante para nós. Às vezes parece difícil, mas quando nos acostumamos a leitura flui facilmente”.

Walcyr Carrasco começou a escrever por volta de 12 anos e teve o primeiro livro publicado aos 28 anos de idade. Agora, no Flipoços, lançou três livros infantis – “Mordidas que podem ser beijos”, “Lais, a fofinha” e “O menino narigudo”.

À noite, na palestra “As verdades secretas de Walcyr Carrasco”, o autor falou para o público adulto sobre a obra que ganhou o prêmio Emmy Internacional, de melhor telenovela.

Mas o destaque foi para sua novela atual, que terá o último capítulo exibido no próximo dia 11. Em “O Outro Lado do Paraíso”, Walcyr contou sobre a inspiração em clássicos da literatura, como “O Conde de Monte Cristo”.

“Li este livro umas três ou quatro vezes e a protagonista Clara é inspirada no personagem principal, um homem. Desta vez, eu preferi trazer as características para uma personagem feminina”.

O autor ainda destacou alguns atores do atual trabalho que se encerra na próxima semana, como Sérgio Guizé, Bianca Bin, Marieta Severo e Fernanda Montenegro. Sem detalhes sobre o último capítulo, Walcyr Carrasco disse que ainda não sabe sobre a próxima obra e que pretende descansar antes de um novo trabalho.

Mãe exerce papel fundamental na formação de futuros leitores

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Foto: DINO

Pesquisa do Instituto Pró-livro revela dado importante entre público brasileiro

Publicado no Terra

Se hoje você é um leitor ou leitora assíduo, provavelmente teve alguma influência marcante durante a infância. Ouvir uma história antes de dormir ou simplesmente ver os pais com um livro na mão pode fazer toda a diferença na vida de uma criança. De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 4, do Instituto Pró-Livro, é a figura da mãe que ganha destaque nas recordações dos entrevistados.

Quando questionados se tiveram alguma influência no gosto pela leitura, 11% mencionaram a mãe ou responsável do sexo feminino como referência. Em segundo lugar, com 7% das respostas, aparecem professores e professoras. Pais e outros parentes foram mencionados apenas em 4% das respostas.

Em comparação à pesquisa anterior, de 2011, os dados são positivos: houve aumento de 50 para 56% de entrevistados que leram ao menos 1 livro nos três meses precedentes. Além disso, 73% da população afirma gostar de ler, o que mostra uma margem para o aumento desses números.

Além dos benefícios mais conhecidos da leitura, como maior capacidade de reflexão e comunicação, um estudo realizado pela Universidade de Roma aponta que quem lê é mais feliz, escreve mais e tem interações sociais ampliadas em comparação àqueles sem o hábito. É importante estar atento à faixa etária da criança, mas a partir dos 10 meses já é possível introduzir livros adequados na rotina dos pequenos.

Nesse primeiro momento, gravuras e materiais táteis chamam a atenção. A partir dos 2 anos, os livros indicados começam a ter um pouco de texto, o que ajuda a aumentar o repertório de palavras. Já com 3 anos, a criança estará apta a entender algumas situações simples que envolvem o seu dia a dia. Com o vínculo que se cria entre pais e filhos durante esse momento, vale aproveitar cada segundo – ou melhor, cada livro.

 

Com personagens bobinhos, novo romance de John Green é ingênuo demais

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Rodrigo Casarin, no Página Cinco

A clostridium difficile, chamada também de C. diff, é uma bactéria que pode atacar a parte central do intestino grosso, provocando diarreia, dor de barriga e febre. Em casos extremos, cirurgias são necessárias para sanar o problema; em casos mais extremos ainda, pode matar. Como diversas outras bactérias, a C. diff é contraída via contato com superfícies infectadas ou pela troca de secreções com uma pessoa que já a porta. Aza Holmes, uma garota de 16 anos, tem um medo perturbador de adquirir a C. diff.

Aza é a protagonista de “Tartarugas Até Lá Embaixo”, livro de John Green que acaba de sair no Brasil pela Intrínseca. Consagrado graças ao romance “A Culpa é das Estrelas”, que virou um sucesso também no cinema, o escritor norte-americano é conhecido por colocar personagens que sofrem de problemas de saúde em suas narrativas. Dessa vez, o que temos é uma adolescente que, ainda na escola, precisa tentar lidar com o Transtorno Obsessivo-Compulsivo, mais conhecido como TOC, doença mental que aflige quase 5 milhões de brasileiros – e também o próprio autor.

Junto de sua melhor amiga, Aza resolve investigar o desaparecimento de um bilionário que apostava na corrupção junto ao governo para ganhar licitações públicas e tocar obras superfaturadas – não, a narrativa não se passa no Brasil, mas em Indianápolis, capital da Indiana, no meio dos Estados Unidos. Logo que começa a apuração para descobrir onde o endinheirado foi parar, a protagonista reencontra Davis, filho do sumido e um antigo colega de escola. Quem conhece minimamente o estilo de Green, saca logo de cara que ali haverá um romance – e aviso, daqui pra frente o texto trará spoilers.

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“Prazer, tuatara”.

 

História tola e ingênua

Davis é órfão de mãe – Aza, por sua vez, é órfã de pai – e leva uma vida de extremo luxo e conforto graças ao dinheiro sujo conquistado pelo empresário desaparecido. Digo empresário porque, para o garoto, o homem está longe de desempenhar o papel de pai. Em um extremo caricatural, o homem inclusive ordena que, quando morrer, toda a sua imensa fortuna seja doada para uma tuatara, réptil cuja aparência lembra uma iguana, não para seus rebentos (Davis tem um irmão mais novo).

O garoto, então, passa a encarar o dinheiro como uma maldição, desconfia que as pessoas só se aproximam dele por causa da grana e, em uma cena de verossimilhança questionável, pega um pacote de comida do armário, tira 100 mil dólares de dentro dele e entrega a bolada a Aza. Aquilo era um teste: se ela aceitasse a bufunfa e ainda assim voltasse a lhe procurar, saberia que a menina estava interessada em algo além das verdinhas.

A cena dá uma ideia da ingenuidade que dita o tom de “Tartarugas Até Lá Embaixo”. Os personagens da obra são bobinhos, construídos seguindo uma mesma cartilha e sem grandes sutilezas: todos representam o estereótipo de alguém com determinado problema, mas também possuem alguma virtude exacerbada e profundo conhecimento em algo. Davis, por exemplo, que já é um chato normalmente, torna-se ainda mais insuportável quando desembesta a confabular sobre astronomia. Já Aza exige páginas e páginas para falar das paranoias que possui com as bactérias, seu corpo e a própria existência.

“Eu estou no refeitório e começo a pensar que tem um monte de organismos morando dentro de mim e comendo a minha comida por mim, e que eu meio que sou esses organismos, de certa forma… Então eu sou um ser humano tanto quanto sou esse aglomerado nojento de bactérias, e na verdade não tem nada que possa me deixar totalmente limpa, sabe? Porque a sujeira está impregnada no meu corpo inteiro. Não consigo encontrar em mim nenhuma parte, nem a mais profunda, que seja pura, ou intacta, a parte onde supostamente está minha alma. O que significa que as chances de eu ter uma alma são as mesmas que as de uma bactéria”, diz Aza para sua analista.

A preocupação da garota com os microrganismos que vivem dentro dela fazem com que entre em parafuso quando beija Davis. Em sua cabeça, o contato com a língua do menino poderia ser a porta de entrada para uma infinidade de problemas. Em crise, chega a fazer bochecho e a tomar álcool em gel para tentar matar qualquer bactéria. No entanto, já no final da obra, aceita o convite de sua amiga para visitar uma exposição de arte que se passa no esgoto da cidade. Como assim alguém que sequer beija o garoto que pensa amar por ter medo de bactérias se enfia em galerias repletas de fezes, urina, ratos e baratas sem demonstrar nenhuma repulsa?

Essa grande inconsistência é um dos problemas de “Tartarugas até lá Embaixo”. Trata-se de um livro absolutamente ruim? Claro que não. Alguns momentos têm lá sua graça e acho digno o autor tratar de um assunto como o TOC junto aos jovens, mas é uma história bem tola e ingênua. De um escritor tão lido e adorado – Green já vendeu mais de 4,5 milhões de exemplares no Brasil e seu novo livro sai por aqui com tiragem de 200 mil unidades –, deveríamos esperar muito mais.

Há pelo menos dois anos que vinha postergando convidar o quadrinista André Dahmer para conceder uma entrevista ao blog. Motivos não faltavam para o papo, mas a impressão que sempre tive de André é que seu trabalho é tão relevante que qualquer hora é uma boa hora para ouvir o que ele tem a dizer. No entanto, nas últimas semanas ele começou uma nova série de tirinhas: “Brasil Medieval”, a melhor crítica artística (na minha opinião, óbvio) para o momento tenebroso pelo qual o país vem passando. Definitivamente, levando em conta sua série sobre o avanço do fascismo por essas bandas, era a hora de falar com André.

“Não se trata mais do conservadorismo clássico da elite brasileira, que sempre existiu. O buraco é muito mais profundo. Se antes você identificava ideais fascistas apenas em pequenos grupos de lunáticos, como supremacistas brancos, agora você constata que milhões de pessoas simpatizam com ideologias de extrema-direita, como a possibilidade de uma intervenção militar. O mais triste é que a maioria desses simpatizantes estão localizados na ponta mais frágil do sistema: são pessoas pobres e de classe média. Gente que não será contemplada com nenhum benefício, econômico ou social, caso esta e outras barbaridades venham a ser implantadas de fato”, diz o artista sobre os motivos que o levaram a criar a nova série.

Vencedor de quatro HQMix, um dos prêmios mais importantes dos quadrinhos no Brasil, André publica suas tirinhas nos jornais “O Globo” e “Folha de São Paulo” e em sua conta no Twitter. Seu livro “Quadrinhos dos Anos 10”, lançado pela Companhia das Letras, é um dos finalistas do Prêmio Jabuti deste ano. Dentre os sucessos do autor, estão a série “Malvados” e os personagens Emir Saad e Terêncio Horto. O trabalho do artista é focado essencialmente em críticas políticas, sociais e comportamentais.

“Temos um país de 200 milhões de habitantes, mas apenas 75.000 pessoas detém quase 1/4 de toda riqueza do país. Não é preciso ser um gênio para saber que isso não pode dar certo, nem do ponto de vista social, nem do econômico. É um modelo de concentração de renda muito violento, e que gera aberrações enormes no sistema”, diz sobre um dos alvos de seus desenhos. Já sobre nosso momento político e social, observa um povo perplexo diante de “uma quadrilha de bandidos que não importa com a opinião pública”.

Como surgiu a ideia de fazer a série com os cavaleiros medievais que tratam de temas contemporâneos como personagens?

“Brasil Medieval” é uma série que retrata o avanço do novo fascismo no Brasil. Não se trata mais do conservadorismo clássico da elite brasileira, que sempre existiu. O buraco é muito mais profundo. Se antes você identificava ideais fascistas apenas em pequenos grupos de lunáticos, como supremacistas brancos, agora você constata que milhões de pessoas simpatizam com ideologias de extrema-direita, como a possibilidade de uma intervenção militar. O mais triste é que a maioria desses simpatizantes estão localizados na ponta mais frágil do sistema: são pessoas pobres e de classe média. Gente que não será contemplada com nenhum benefício, econômico ou social, caso esta e outras barbaridades venham a ser implantadas de fato, muito pelo contrário. Tanto radicalismo é fruto de um processo de despolitização e demonização da política, além de descrença generalizada nas instituições públicas, como a Justiça e a polícia, por exemplo.

Como você encara esse momento político e principalmente social que estamos vivendo?

Vejo um povo perplexo diante de uma quadrilha de bandidos. Bandidos que não se importam com a opinião pública, porque fazem parte de um governo ilegítimo e, por consequência, sem qualquer compromisso com representatividade. Ora, se sabemos agora que não houve crime de responsabilidade no governo que foi derrubado; se a perícia do Senado e o Ministério Público constataram que Dilma não cometeu tal crime, este é um governo ilegítimo, sim. Agora, além de tudo, descobrimos através de depoimentos de pessoas presas e ligações telefônicas interceptadas, que o impeachment foi construído por corruptos que queriam acabar com a Lava a Jato. Pior: sabemos agora que muitos deles receberam propina para votar pelo impeachment.

A elite econômica também costuma estar no foco de suas críticas. Acha que essa elite é um dos problemas do Brasil?

Há gente rica em todos os lugares do mundo, inclusive em países desenvolvidos. Este não é o ponto. A questão é a histórica e absurda concentração de renda no Brasil, uma das piores do planeta. Temos um país de 200 milhões de habitantes, mas apenas 75.000 pessoas detém quase 1/4 de toda riqueza do país. Não é preciso ser um gênio para saber que isso não pode dar certo, nem do ponto de vista social, nem do econômico. É um modelo de concentração de renda muito violento, e que gera aberrações enormes no sistema. Por exemplo, já temos a segunda maior população carcerária do mundo. São quase 700.000 brasileiros, a maioria negros e pobres, encarcerados. Porém, mesmo com este forte controle social do Estado sobre os mais fracos, a violência só tem aumentado. Como é possível fazer que uma nação prospere dentro de um sistema tão desigual e perverso? É simplesmente impossível.

De que maneira o público costuma reagir às suas tiras? Percebeu alguma mudança no perfil dessas reações nos últimos tempos?

Bem, tenho recebido mensagens de lunáticos em maior quantidade do que de costume. Gente que acredita realmente que há possibilidade do comunismo ser implantado no país, o que é um pensamento totalmente fantasioso e tacanho. Veja, mesmo com uma década e meia com o PT no poder, nada disso aconteceu. Muito pelo contrário: apesar do forte e necessário investimento na área social, os anos Lula também foram marcados pela prosperidade sem precedentes do sistema financeiro e dos bancos, por exemplo. Então, sentir medo da tal ameaça comunista, e através do PT, é de uma ignorância histórica muito grande. Essa obsessão doentia foi construída ao longo dos anos para que agendas extremamente conservadoras avancem, como estamos vendo agora.

No dia das crianças você postou uma mensagem com algum otimismo. O que vislumbra para um futuro? E um futuro próximo?

Como disse, acredito que tempos obscuros formam gerações mais conscientes e libertárias. As próximas gerações saberão muito bem das atrocidades que estão sendo levadas a cabo agora, e os setores responsáveis por elas. Porém, para um futuro próximo, não vejo uma situação de melhora. Assim como as instituições, o povo brasileiro também está muito adoecido e perdido nesse processo todo. O ódio e a descrença, motores do novo fascismo, estão muito entranhados na população.

Em uma época de ataque a museus, por exemplo, vejo que você é um dos artistas que se preocupa e se posiciona de maneira combativa. Na sua avaliação, a classe artística tem feito o mesmo ou tem se omitido? E especificamente os quadrinistas?

É uma questão que também está ligada ao novo fascismo brasileiro, e é claro que precisa ser combatida por todos os artistas. Porém, a onda moralista contra as artes, na minha opinião, não passa de uma cortina de fumaça para tirar o foco de questões fundamentais do atual momento brasileiro: o risco que corre o nosso sistema democrático, a impunidade arquitetada entre os Poderes para livrar corruptos e os direitos que estão sendo roubados das classes trabalhadoras todos os dias.

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