Protesto de estudantes no Chile em defesa de acesso universal à educação pública

Protesto de estudantes no Chile em defesa de acesso universal à educação pública

 

Érica Fraga, na Folha de S.Paulo

A perspectiva de renda mais alta é provavelmente o principal motivo pelo qual as pessoas buscam estudar mais.

Um profissional com diploma universitário tem salário significativamente maior do que outro que tenha parado no ensino médio. No Brasil, por exemplo, a diferença é mais do que o dobro.

O que pouco se fala é que esse tipo de número representa uma média por trás da qual há grande dispersão. Ou seja, dependendo de fatores como o investimento financeiro feito e a qualidade do curso, o ganho adicional varia bastante.

Menos discutido ainda é o risco de que algumas pessoas amarguem prejuízo com o ensino superior.

No Chile e na Colômbia, duas e três em cada dez pessoas, respectivamente, nunca vão recuperar o dinheiro gasto com um diploma universitário.

Se forem considerados cursos de ensino superior de duração mais curta e perfil técnico nesses mesmos países, os números pioram para, respectivamente, cinco e seis em cada dez.

São profissionais que teriam contabilizado maior retorno até a aposentadoria se tivessem ido do ensino médio diretamente para o mercado de trabalho.

Os números fazem parte de um estudo feito para o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) no ano passado.

A insatisfação com o custo do ensino superior e a ausência de cursos gratuitos têm provocado protestos dos estudantes chilenos desde 2010. E os dados do estudo ajudam a entender essa crise.

Os retornos crescentes à educação são, corretamente, muito enfatizados por trazerem benefícios individuais enormes em termos de bem-estar e mobilidade social.

Do ponto de vista coletivo, também há ganhos importantes, já que populações mais escolarizadas são mais eficientes, o que contribui para o crescimento econômico.

É compreensível que cause enorme revolta descobrir que o investimento de tempo e dinheiro num curso universitário está sendo jogado fora.

A relevância do tema fica mais evidente quando pensamos no perfil dos estudantes que podem sair no prejuízo.

A pesquisa ressalta que os alunos de cursos universitários técnicos e tecnológicos –que apresentam os piores retornos– normalmente vêm de famílias de baixa renda, para quem o custo de um erro financeiro é maior.

Não tenho conhecimento de um estudo detalhado como o do BID para o Brasil. Como a estrutura do ensino superior –em termos de fonte de financiamento, duração dos cursos e outros fatores– varia bastante de um país para o outro, não é possível inferir quais seriam as conclusões de pesquisa similar para a realidade brasileira.

Seguindo uma tendência mundial, o número de matrículas nas universidades brasileiras aumentou 74% entre 2005 e 2015. Parte significativa do crescimento ocorreu no setor privado, com subsídios do governo federal a financiamentos estudantis.

Essa expansão foi freada com a crise fiscal e os empréstimos ficaram mais caros. No ano passado, pela primeira vez desde 2009, o número de novos ingressantes no ensino privado caiu.

É urgente reverter essa parada. A fatia de brasileiros de 25 a 34 anos com diploma universitário era de apenas 16% em 2015, contra 42% na média do OCDE.

Mas medidas nessa direção deveriam ser acompanhadas de passos para garantir transparência sobre o retorno que as pessoas —principalmente as que cursam instituições privadas— podem efetivamente esperar investindo no ensino superior.

Temos boas fontes de informação sobre a aprendizagem e a qualidade dos cursos, como o Enade (prova oficial feita pelos concluintes do ensino superior) e o RUF (Ranking Universitário Folha ).

Devemos ir além.

Chile e Colômbia criaram em anos recentes websites oficiais onde é possível consultar dados sobre empregabilidade e salários (veja aqui o site do Chile e da Colômbia )

Essas bases ajudaram a viabilizar a pesquisa feita para o BID. Um passo nesse sentido seria muito bem-vindo no Brasil.