Contando e Cantando (Volume 2)

Posts tagged Qualidade

Desde 2005, má formação docente e currículo são problemas do ensino no país

0

docenti
Marcelle Souza, no UOL

Os dados do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), divulgados nesta sexta-feira (5) pelo MEC (Ministério da Educação), mostram uma evolução insatisfatória nos anos finais do ensino fundamental e principalmente no ensino médio. Para especialistas, uma melhora significativa depende da melhora na formação dos professores e da discussão de um currículo nacional para a educação básica.

“Desde 2005, o MEC está falando da crise do ensino médio e ele não melhora. Não houve mudança curricular, faltam professores, não há flexibilidade. O governo federal não enfrentou o problema. O aluno sai do ensino fundamental, mas não termina o ensino médio”, diz Maria Helena Guimarães de Castro, diretora-executiva da Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados), de São Paulo, e professora aposentada da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). A especialista também ocupou o cargo de presidente do Inep, instituição do MEC atualmente responsável pelo Ideb, entre 1995 e 2002, na gestão de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

De acordo com o vice-presidente do Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação), Eduardo Deschamps, a melhoria de qualidade no ensino médio e no fundamental 2 [do 6º ao 9º ano] depende de mudanças importantes nesses dois níveis de ensino. “Enquanto você não ataca as questões centrais, como o currículo e formação inicial de professores, você não vai conseguir impactar de verdade na formação dos alunos, pode ter mudanças pontuais, mas não pode esperar resultados significativos”, diz. Ele também atribui à Lei do Piso salarial docente e às greves do ano passado a causa dos maus resultados.

O ministro da Educação, Henrique Paim, disse nesta sexta que o Brasil vive uma onda de melhoria dos anos iniciais que tende a avançar para os outros anos com o tempo. Ele admite que é preciso intensificar as políticas voltadas para o ensino médio. “A implantação de políticas de gestão voltadas ao ensino médio é mais recente do que o esforço que fizemos nos anos iniciais e nos anos finais. Ao longo desses anos o que conseguimos fazer no ensino médio foi criar condições básicas de funcionamento”, defendeu.

Avanço insatisfatório

Os dados divulgados hoje mostram que o país só conseguiu bater a meta de qualidade nos primeiros anos do ensino fundamental (do 1º ao 5º ano). Nas demais séries, o desempenho foi insatisfatório, ficando abaixo das projeções feitas para 2013.

Além disso, a série histórica do Ideb mostra que só os anos inicias tiveram aumento significativo: saiu de 3,8 em 2005 para 5,2 em 2013. Nos demais anos, a variação não foi de um ponto em oito anos: de 3,4 para 3,7 no ensino médio e de 3,5 para 4,2 no segundo ciclo do ensino fundamental.

grafico-historico-do-ideb-1409956329330_615x507

Segundo o vice-presidente do Consed, o mau desempenho já era esperado pelos secretários. “Nós tínhamos uma expectativa de retrocesso, basicamente porque as questões não foram implementadas. A melhoria do ensino médio depende da sua reformulação, que passa pela discussão com a sociedade, com a universidade, e a importância de encontrar um sistema nacional que integre os sistemas de ensino”, afirma.

“Se o aluno chegar melhor ao ensino fundamental, maior a probabilidade de terminar o ensino médio. Não dá para olhar o ensino médio isolado”, diz Castro. Já constatamos uma melhora razoável nos anos iniciais, mas nos finais [do fundamental] e no médio, o crescimento é muito lento. Isso não é uma boa notícia. Vamos ficar para trás”.

Os dois defendem a discussão de uma base curricular nacional para o ensino fundamental e para o ensino médio e mudanças na formação dos docentes. “Se não houve uma mudança [nas notas], a culpa não é dos professores. As faculdades e os cursos não estão preparando os professores para desenvolver as suas funções na sala de aula. Elas não estão se mexendo para mudar o programa de formação de professores tanto na pedagogia quanto na licenciatura”, diz a diretora do Seade.

Para Marta Vanelli, secretária geral da CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação), a solução passa também por investimento na carreira do professor. “O motivo [do desempenho das escolas no Ideb] é a desmotivação dos professores, por conta da desvalorização. Junto com isso, falta estrutura nas escolas, faltam laboratórios, material didático, e muitos professores têm contratos temporários”, diz.

‘O ensino médio se reduziu a uma preparação para o vestibular’, diz educadora

0

Filósofa e professora Viviane Mosé critica modelo educacional do país

2013-640361624-2013082616289.jpg_20140801

Publicado em O Globo

Para a filósofa Viviane Mosé, educadores precisam refletir sobre as reais demandas dos alunos e adequar o ensino aos novos tempos. Ela participará do encontro internacional “Educação 360”, que será realizado pelos jornais O GLOBO e “Extra” de 5 a 6 de setembro na Escola Sesc de Ensino Médio, no Rio, em parceria com o Sesc e a prefeitura do Rio e apoio do Canal Futura

A sra. já disse que precisa haver uma revolução no ensino médio. Que revolução seria essa?

Se o ensino fundamental tem melhorado, o ensino médio permanece estagnado. Como trata da educação de adolescentes e jovens, é hoje o olho do furacão. Mesmo com oferta de vagas, com a melhora das condições físicas das escolas, muitos jovens abandonam os estudos, fenômeno que já aparece nos anos finais do ensino fundamental. A escola, do modo como está estruturada, não consegue atrair. Se esse fenômeno acontece em muitos países, em função da democratização do saber permitida pela internet, no Brasil se apresenta de modo ainda mais grave, já que o ensino médio se reduziu a uma preparação para o vestibular. Como as escolas públicas não conseguem competir com as particulares, jovens das classes populares não encontram nada na escola: nem acesso à universidade, nem ferramentas que o ajudem a viver melhor, nem acesso ao mercado de trabalho, nem espaço de encontro e experiências lúdicas. Muitas medidas paliativas têm sido tomadas, como as cotas para as escolas públicas nas universidades, mas nada disso resolverá o problema. O Brasil precisa repensar o ensino médio, que deve oferecer diferentes possibilidades, dependendo da vocação e do interesse do aluno.

O que torna um projeto educacional bem-sucedido?

Um projeto é bem sucedido quando as crianças aprendem e não abandonam a escola. Quando encontram na escola um espaço de crescimento não apenas intelectual, mas humano. A escola não deve se sustentar na administração de conteúdos, mas na aquisição de ferramentas para viver melhor. Os conteúdos estão disponíveis na rede, precisamos estimular a capacidade de ler e interpretar dados e sofisticar nossa habilidade de ler o mundo. Essa é uma escola que dá certo, pois permite que a pessoa continue aprendendo.

Qual o novo papel do professor?

Nós, professores, nos sustentávamos nos conteúdos que tínhamos e devíamos passar aos alunos. Hoje, esses conteúdos estão disponíveis, muitas vezes, com mais dinamismo e qualidade nas novas mídias. Então, nosso poder passa a ser o de preparar os alunos para lidar com as mídias. Isso significa incentivar a inteligência, o pensamento e, especialmente, a capacidade de filtrar dados e interpretá-los, para que não sejam levados por uma onda de informação manipulada ou de má qualidade. O professor não é mais quem sabe tudo, mas quem se interessa por tudo. A educação caminha para a formação de pesquisadores, e isso é muito favorável.

As escolas precisam olhar mais para as comunidades ao redor?

Elas devem se abrir para o mundo. Não podem mais se esconder por trás de altos muros. Os desafios do mundo devem ser questões presentes no cotidiano das escolas, não apenas questões acadêmicas abstratas. Mas esse mal, o isolamento, deve começar a ser vencido nas universidades, que nasceram dos conventos, com seus altos muros.

Muitos especialistas associam as manifestações do ano passado ao aumento do acesso à educação. Acredita nesta conexão?

De forma nenhuma. As manifestações são consequência do acesso às novas mídias, que rapidamente reúne pessoas. Mas essa reunião se deu em um momento em que as pessoas ainda não têm uma educação de qualidade, voltada para a vida, para as questões sociais. Sem rumo, elas se perderam, não produziram conquistas, desembocaram em violência. Em breve, teremos outro cenário: manifestações, sim, enormes, mas com direção, sentido, maturidade política e intelectual.

No encontro “Educação 360”, a senhora vai participar de uma mesa sobre as iniciativas de educação que partem do Brasil. As ações brasileiras guardam um diferencial comum?

Não há uma gente mais criativa que a nossa, eu penso. Depois de andar do Oiapoque ao Chui, tenho a honra de conhecer experiências incríveis e inéditas que dão muito certo. Muitas vezes, escolas muito pobres; em outras, mais ricas, sempre com criatividade e vontade, conseguem produzir uma educação de qualidade. Temos de valorizar essas práticas e compartilhá-las, precisamos adotar o modo brasileiro de educar que dá certo, e não importar modelos, o mundo inteiro repensa a educação.

Inovações na educação ‘servem de estímulo a professor’, diz OCDE

0

Estudo vê ‘indícios’ de benefícios trazidos por inovações na sala de aula; relação não é ‘facilmente comprovável’.

classeinteligentekorea
Inovações – de filosofia, estilo e até de recursos tecnológicos – nas escolas podem ter impacto positivo na valorização de professores e, em alguns casos, nas notas dos alunos em algumas disciplinas.

É o que sugere um estudo-piloto divulgado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o relatório Mensurando Inovação na Educação.

A análise se debruçou sobre 28 sistemas educacionais (entre países, estados americanos e territórios canadenses, Brasil não incluído) no mundo.

Segundo os especialistas da OCDE, ainda que não haja uma relação facilmente comprovável entre inovação e melhorias na educação, “em geral, países com maiores níveis de inovação veem aumento em alguns resultados educacionais, incluindo melhor performance em matemática na oitava série (13 e 14 anos), resultados de aprendizado mais igualitários e professores mais satisfeitos”.

Entre as inovações analisadas estão materiais didáticos, recursos educacionais, estilo de ensino, aplicação de conhecimento na vida real, interpretação de dados e textos, disponibilidade de computadores e sistemas de e-learning nas aulas, novas formas de organizar atividades curriculares e uso de tecnologia na comunicação com pais e alunos, entre outros.

Porém, os investimentos em tecnologia e inovação não são unanimidade entre estudiosos de educação, já que nem sempre esses investimentos se traduzem em melhor desempenho ou em benefícios mensuráveis – e muitas vezes incorrem em aumento de gastos.

Questão de confiança
O autor do relatório, Stephan Vicent-Lancrin, explica à BBC Brasil que de fato não é possível verificar com certeza a relação direta entre inovação e benefícios. Mas há “indícios” de que aquela tenham efeitos positivos na igualdade de oportunidades entre alunos, no desempenho em disciplinas como matemática e, sobretudo, no estímulo a professores.

“Não podemos afirmar com certeza que as notas melhoram graças a inovações na sala de aula. Mas vemos que inovações trazem confiança para (que agentes participantes da educação) promovam outras mudanças”, diz Vincent-Lancrin.

“A relação mais forte que observamos foi em relação à satisfação de professores. Mais inovações trouxeram mais motivação.”

As práticas foram estudadas pela OCDE entre 2000 e 2011, no ensino primário e secundário, e o país estudado que mais adotou inovações no período foi a Dinamarca (com 37 pontos no índice calculado pelo órgão), seguido por Indonésia (36), Coreia do Sul (32) e Holanda (30).

Entre as mudanças observadas na Dinamarca estão, por exemplo, aumento no uso de testes-padrão elaborados por professores, e mais intercâmbio de conhecimento entre o corpo docente.

Segundo o relatório, “os sistemas educacionais que mais inovaram são também os mais igualitários em termos de desempenho dos estudantes”. Por exemplo, os da Indonésia e da Coreia do Sul.

Sendo assim, o estudo aponta que há uma “presunção” de que mais inovação desencadeie mais igualdade de oportunidades e aprendizado entre alunos, ainda que isso não possa ser efetivamente provado.

Debate
Mas se a adoção de novas práticas na ciência e na economia produtiva é apontada como um fator importante para a competividade global, na educação essa correlação não é tão simples. O próprio estudo aponta que existem também sistemas educacionais com baixa inovação e alto desempenho.

Ao mesmo tempo, argumentos pró-inovação na educação incluem maximizar o retorno do investimento público, buscar avanços no desempenho de alunos e reduzir a desigualdade de oportunidades entre estudantes, aponta a OCDE.

O relatório diz que, “ao contrário do que se costuma pensar, há um nível razoável de inovação no setor educacional, tanto em relação a outros setores da sociedade como em termos absolutos. Setenta por cento dos formandos empregados no setor educacional consideram seus estabelecimentos como altamente inovadores, índice similar ao da média (do restante) da economia (69%)”.

Segundo Stephan Vincent-Lancrin, o setor educacional apresentou índices de inovação mais elevados do que o restante do setor público, mas são necessários mais estudos para entender exatamente seus desdobramentos no ambiente escolar.

“Estamos tentando colocar o assunto no mapa para entender seu impacto”, diz.

Fonte: G1

Nas redes de ensino eficazes, todos os alunos têm vez

0

Uma escola não consegue resultados elevados se não se preocupar com todos os seus estudantes
Bagunca-sala-de-aula-size-598

João Batista Araujo e Oliveira

Numa rede de escolas de alto desempenho, a grande maioria dos alunos atinge os níveis mínimos esperados. Mas mesmo dentro delas, há uma dispersão muito grande de notas: há alunos mais e menos inteligentes, mais e menos esforçados, mais e menos disciplinados, e assim por diante. Como as notas médias são elevadas, a dispersão dos resultados pode ser grande – quase sempre há uns poucos alunos que ficam nos níveis inferiores. Em síntese: escolas de alto desempenho atenuam, mas não eliminam as diferenças individuais nem as diferenças no desempenho escolar.

Segundo, vejamos as práticas. As boas escolas acompanham o desenvolvimento individual dos seus alunos e usam os dados de acompanhamento – inclusive de avaliação – para dar apoio aos alunos em dificuldade.

Um dos sistemas educativos mais avançados do mundo (a rede pública do estado americano de Massachusetts) adotou há alguns anos uma metodologia interessante denominada Data-Wise, desenvolvida por professores da Universidade Harvard liderados pelo pesquisador Richard Murnane. A metodologia ajuda os diretores e o pessoal da escola a interpretar dados e a elaborar testes que forneçam pistas importantes sobre o desempenho do aluno. Mas há um segredo. Na hora de avaliar as provas, os professores aprendem uma nova linguagem. Ao invés de dizerem “o aluno errou”, “o aluno não sabe” ou “o aluno não viu”, eles aprendem a falar “eu não ensinei isso dessa forma” ou “eu ensinei isso assim, mas não percebi que um aluno poderia não ter entendido ou poderia ter intepretado de forma diferente”. Em síntese: os problemas de aprendizagem são convertidos em problemas de ensino, em que os professores passam a assumir a responsabilidade pelo erro dos alunos e buscar soluções no ensino.

Um outro tipo de abordagem consiste em atacar os problemas emocionais e sociais que impedem muitos alunos, especialmente os jovens, de se dedicar aos estudos e levar a escola a sério. Algumas estratégias concentram-se em tutorias, com um pequeno grupo de alunos assistido por um professor ou mesmo um voluntário. Outras consistem numa mistura de tutoria com o desenvolvimento de habilidades prossociais.

O sucesso nessa área – que é difícil de ser alcançado — sempre é a combinação entre o diagnóstico correto e o remédio adequado administrado em doses certas. O fracasso das inúmeras tentativas de “reforço”, “recuperação”, Educação de Jovens e Adultos (EJA) e outras iniciativas mais ou menos associadas a plumas e paetês sugere a necessidade de um cuidadoso planejamento para essas intervenções.

O ponto mais importante é que nas redes de boas escolas, todos alunos têm vez.

Fonte: Veja

As razões do sucesso da universidade que ultrapassou a USP

0

O reitor da Universidade Católica do Chile diz que aumento de produtividade e estímulo à divulgação científica explicam ascensão da instituição em ranking

 

educacao-reitor-puc-chile-ignacio-sanchez-20110228-001-size-598

Entrevista: Ignacio Sanchéz

Recentemente, a Universidade de São Paulo perdeu o posto de melhor instituição de ensino superior da América Latina no respeitado ranking organizado pela consultoria britânica QS Quacquarelli Symonds. Quem assumiu o lugar é a Pontifícia Universidade Católica do Chile (UC). Segundo o reitor Ignacio Sánchez, o avanço chileno se deve a uma combinação de aumento de produtividade acadêmica e estímulo à divulgação do conhecimento. Exemplo disso é a adoção do inglês em aulas, pesquisas e até no processo seletivo da instituição: ao “falar” a língua da ciência, a produção acadêmica da UC ganha alcance e reconhecimento. É uma medida que as universidades brasileiras demoram para colocar em prática. “Nossa ciência é reconhecida cada vez mais por sua qualidade”, diz Sánchez. O reitor virá ao Rio no fim deste mês, onde explicará as razões do sucesso da UC no III Encontro Internacional de Reitores Universia. Deve falar também sobre a proposta de reforma educacional em discussão em seus país. A proposta prevê, entre outras medidas, a redução dos recursos destinados à pesquisa que o governo envia a seis universidades não-estatais conhecidas no Chile como vocacionais ou comunitárias. A medida acertaria em cheio a própria UC. Sánchez discorda do governo: “O repasse de verbas deveria ser feito de acordo com a qualidade da produção científica, e não segundo o caráter estatal ou não da instituição”, diz. Outra mudança proposta pela presidente Michelle Bachelet é a universalização da gratuidade do ensino superior público: hoje, mesmo as universidades públicas cobram mensalidades. Novamente, Sánchez se opõe à reforma. “As pessoas com mais recursos terão universidade gratuita às custas das pessoas com menos recursos”, diz o reitor. Confira a seguir entrevista que ele concedeu a VEJA.com.

Qual o segredo da UC para assumir o posto de melhor universidade da América Latina? Há três anos, aparecíamos na segunda posição do ranking da QS, com uma pontuação bem próxima à da USP, que considero uma excelente universidade. Contudo, falhávamos ao divulgar nossas pesquisas no exterior. Tínhamos muito trabalho sendo desenvolvido, mas os métodos de apresentação eram muito diferentes em cada curso. Fizemos, então, um esforço para mudar isso. Outros dois fatores influenciaram nosso desempenho. O primeiro é a proporção de docentes por aluno. Há cinco anos, temos uma política de portas abertas que pretende aumentar o contato de estudantes com professores, inclusive após as aulas e durante o período de provas. Para tanto, foi necessário aumentar o número de professores. Hoje, são cerca de 3.200 docentes para 26.000 estudantes, uma relação de 8 profissionais por aluno [a média da USP é de 15]. O segundo fator está relacionado à pesquisa. Temos 35 programas de doutorado e desenvolvemos pesquisas em todas as áreas. A produtividade tem aumentado de maneira contínua, juntamente com os índices que medem a qualidade da nossa investigação. A UC tem o melhor índice de impacto de pesquisas da América Latina. Isso significa que nossa ciência é reconhecida cada vez mais por sua qualidade.

A UC exige que seus estudantes tenham um bom nível de proficiência em inglês. Isso tem influência na divulgação internacional das pesquisas? Sim, sem dúvida. Em média, fazemos 1.500 publicações por ano, sendo que mais de 90% são em inglês. Em nossos campi, mantemos uma cultura bilíngue na pesquisa e pós-graduação. Na pós, parte das aulas é ministrada em inglês, assim como ocorre nos encontros de professores em que há convidados que não falam espanhol. Na graduação, a exigência começa no vestibular. O estudante faz dois exames: um em espanhol, de conhecimentos de linguagem e compreensão de texto, e outro sobre o domínio da língua inglesa. Esse teste avalia conhecimentos básicos e nível de compreensão de leitura técnica. Não é cobrado que o aluno consiga ler um romance complexo, mas sim que possa participar das aulas que oferecem conteúdos em inglês. Se o candidato não é aprovado em inglês, mas obteve boa pontuação no exame em espanhol, pode entrar na universidade. Contudo, tem que fazer um curso gratuito em inglês na sua área de interesse. A UC é a única que faz essa exigência na seleção de alunos.

A reforma educacional proposta pelo governo pode afetar os bons índices de desempenho da UC? A reforma vai afetar todos os níveis de educação, da pré-escola à universidade. Para entendê-la, é importante fazer uma diferenciação. No Brasil, as instituições de ensino são estatais ou privadas. No Chile, além dessas, existe um terceiro tipo: são aquelas conhecidas como comunitárias ou vocacionais, que não têm fins lucrativos. Há escolas e universidades com esse perfil, como é o caso da UC. Essas instituições recebem verbas do governo para manter seu funcionamento, mas podem cobrar mensalidade dos estudantes. A rede privada não será afetada pelas mudanças propostas. Contudo, as comunitárias ou vocacionais — seis ao todo — não poderão mais cobrar mensalidades. Na prática, essas universidades, que hoje recebem suporte financeiro para manter bolsistas e para desenvolver pesquisas, passarão a receber menos recursos e poderão até deixar de receber qualquer valor. O governo ainda está detalhando as propostas e até outubro conheceremos com maior precisão o impacto das medidas.

Qual é o valor do recurso que o governo repassa à UC hoje? Cerca de 42 milhões de dólares anualmente, cerca de 5% do nosso orçamento de 800 milhões de dólares. Esses 42 milhões de dólares correspondem ao dinheiro destinado aos fundos de pesquisa e à manutenção de bolsas para estudantes mais pobres. A Universidade do Chile, maior instituição de ensino superior estatal do país, recebe mais de 100 milhões de dólares por ano para a mesma finalidade.

O corte nas verbas vindas do governo pode prejudicar a pesquisa na UC? Esse é um dos pontos que ainda está em debate. O governo tem sido enfático em afirmar que as instituições serão financiadas por mérito em pesquisa e que, nesse caso, não haveria diferença entre públicas e comunitárias. Porém, há também uma proposta de que a verba seja proporcional ao número de estudantes pobres que a universidade abriga. Se essa ideia prevalecer, cada instituição deverá obrigatoriamente ter ao menos 20% de estudantes provenientes de estratos econômicos mais baixos. O problema é que, nesse caso, a qualidade da pesquisa não será levada em consideração.

A qualidade da instituição poderá ser afetada? Sim, o corte de incentivos prejudica a qualidade. Tirar recursos das universidades comunitárias equivale a retirar recursos do país. Isso porque essas instituições ajudam na formação profissional, no desenvolvimento da ciência e na geração de conhecimento. O ideal seria o contrário: recebermos cada vez mais apoio do Estado para financiar a pesquisa que fazemos pela inovação. Tudo o que a universidade faz em pesquisa é usado pelo país e isso deveria ser reconhecido. É claro que apenas receber recursos estatais não assegura a qualidade, porque temos, claramente, universidades que recebem mais que as outras e não transforma a verba em qualidade. Sabemos, no entanto, que realizar ciência e pesquisa depende de uma estrutura complexa, com laboratórios e bom corpo acadêmico. Isso custa muito caro.

Em 2011, milhares de estudantes chilenos tomaram as ruas do país exigindo ensino gratuito, inclusive na universidade, uma reivindicação acolhida pelo governo. Como o senhor enxerga essa questão? Atualmente, 60% dos estudantes mais pobres do país têm educação praticamente gratuita. Na UC, por exemplo, um aluno desse grupo não paga quase nada, pois recebe financiamento e bolsa. A universidade recebe o dinheiro do governo para manter esses alunos. Aqueles que têm melhores condições, mas ainda enfrentam dificuldades financeiras, recebem bolsas que vão de 40% a 80% do valor das mensalidades. Só os demais alunos, aqueles que de fato podem pagar, arcam com o valor integral. Isso ocorre em todas as universidades do país, inclusive nas estatais. Nos próximos quatro anos, o governo quer elevar a gratuidade para 75% dos estudantes. A partir do quinto ano, a gratuidade deverá ser universal, tanto nas escolas de ensino básico quanto nas universidades. Acredito que seja muito importante chegar aos 70% ou 80% de gratuidade, mas por meio de créditos para os mais pobres, exatamente como é feito hoje. A educação superior é muito cara: apenas 10% da população pode pagar por ela. Agora, fazer com que toda a educação pública seja gratuita, sem distinção de classes, não é uma ideia apropriada. Estaríamos garantindo gratuidade a meus filhos, por exemplo, que não precisam dela. Nesso sentido, a gratuidade seria um retrocesso.

Como o senhor enxerga a experiência da América Latina com a gratuidade do ensino superior? Sei que na USP há muitas pessoas com boa renda, que podem pagar pelo ensino. Em nossa região, porém, esse tema é carregado de visões ideológicas. No Chile, os movimentos estudantis consideram a gratuidade uma verdade inquestionável, mas não se perguntam quem estarão beneficiando. Pensam que o modelo deve ser universal e que as pessoas vão devolver através de impostos o que receberam do Estado. Isso está certo, mas também é certo que as pessoas com mais recursos vão obter beneficios às custas das pessoas com menos recursos. Eu não compartilho desse ideal. Esse tema tem sido manipulado e leva a explicações que não são claras.

 

Fonte: Veja

Go to Top