Pepetela é um dos principais autores africanos Foto: Tiago Queiroz/Estadão

 

O escritor angolano Pepetela lança seu romance pós-apocalíptico no Sempre Um Papo e na USP

Maria Fernanda Rodrigues, no Estadão

O escritor angolano Pepetela, um dos principais nomes da literatura africana contemporânea, vem ao Brasil em outubro para dois encontros com leitores e para lançar o romance O Quase Fim do Mundo pela editora Kapulana.

No dia 15, das 19h30 às 21h, ele estará no Sempre Um Papo, em conversa com Afonso Borges, idealizador do projeto, no Sesc 24 de Maio. No dia seguinte, Pepetela estará na FFLCH-USP, para um debate sobre O Quase Fim do Mundo e uma sessão de autógrafos.

Com prefácio da também angolana Ana Paula Tavares, o livro, publicado originalmente em 2008, tem início em uma cidade africana fictícia e acompanha um grupo de pessoas que sobreviveram a um evento apocalíptico de origem desconhecida.

Na história, o médico Simba Ukolo, ao voltar para casa após um dia de trabalho, presencia um clarão que ilumina todo o céu. Na sequência, toda a vida na terra é aniquilada, sobrando apenas as roupas das pessoas, algumas plantas e poucos animais. Aos poucos, Simba percebe que não está só e um grupo de sobreviventes, de origens e perfis diversos, começa a se formar: uma senhora religiosa, uma adolescente, uma pesquisadora americana, um aviador sul-africano, um curandeiro etíope, uma historiadora somali, um ladrão, um mecânico, um pescador, uma criança.

Quem é Pepetela

Pepetela nasceu Artur Carlos Mauricio Pestana dos Santos, em Benguela, em 1941. Começou a faculdade em Lisboa, se exilou em Paris em 1962 e partiu para a Argélia seis meses depois – lá, ele se formou em Sociologia e trabalhou na representação do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e no Centro de Estudos Angolanos, que ajudou a criar. Em 1969, aderiu à luta de libertação angolana, em Cabinda, quando adotou o nome de guerra Pepetela, e onde foi guerrilheiro e também responsável no setor da educação. Em 1972, foi transferido para a Frente Leste de Angola, onde desempenhou a mesma atividade até ao acordo de paz de 1974 com o governo português.

Em 1975, até a independência de Angola, foi membro do Estado Maior da Frente Centro das FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola) e participou na fundação da União de Escritores Angolanos. De 1976 a 1982, foi vice-ministro da Educação. A partir daí, exerceu funções na universidade e em instituições de literatura e cultura.

Livros de Pepetela publicados no Brasil

Pepetela estreou na literatura em 1972, com As Aventuras de Ngunga. Autor de mais de 20 livros, ele está presente nas livrarias brasileiras com Mayombe, leitura também de vestibular, Se o Passado Não Tivesse Asas, A Sul. O Sombreiro, sobre o qual ele falou em entrevista à TV Estadão em 2012, O Planalto e a Estepe, O Cão e as Caluandas e A Geração da Utopia. Suas obras são publicadas no Brasil pela Leya e, mais recentemente, também pela Kapulana.

Leia trechos de O Quase Fim do Mundo, de Pepetela

“Chamo-me Simba Ukolo, sou africano, e sobrevivi ao fim do mundo. Se o fim do mundo quer dizer o aniquilamento absoluto da humanidade, haverá algum exagero na afirmação, pois escapou alguém, eu, Simba Ukolo, na ocorrência. Isso foi a primeira impressão, sozinho na minha cidade natal. Terrível sensação de solidão e de perda, mas sobretudo uma tontura de incredulidade. Dava mesmo para acreditar em coisa mais absurda? Viria a descobrir depois, não era de fato o único, havia sobreviventes, embora talvez não fossem todas as pessoas mais desejáveis com quem partilhar os despojos dos bilhões de humanos desaparecidos.”

“Foi quando se deu o relâmpago, chamo-lhe assim à falta de melhor palavra. Uma luz intensa, como um flash num céu azul, indolor. As trovoadas secas são comuns na região, a chuva vem depois. Até pode não vir chuva nenhuma. E foi isso mesmo que pensei, apenas uma trovoada seca. Só muito mais tarde associei essa luz intensa e o fato de ir passando, a partir daí, por carros mal estacionados ao longo da estrada, alguns mesmo no meio da estrada, vazios, imbambas abandonadas ao deus dará, bicicletas caídas, e nem rasto de gente. Alarmado, cheguei aos bairros periféricos, onde se acumulavam os excluídos de todos os processos econômicos e sociais, milhares e milhares de seres a lutarem desesperadamente para viverem um dia a mais. E os bairros estavam vazios. Pensei, terá havido um festival de música, única razão levando toda a gente para fora dos bairros? Ou um culto monstro de uma igreja que oferece todas as curas?”