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Serie baseada em Quem é você, Alasca? tem data de estréia definida

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Helder Gatti, no Mundo Hype

A serie baseada no livro Quem é Você, Alasca? de John Green já tem data de estreia definida para os Estados Unidos.

A série está sendo produzida pela plataforma de streaming Hulu e deve estrear em 18 de outubro de 2019.

A serie será estrelada por Kristine Froseth (de Sierra Burgess é uma Loser) e Charlie Plummer (Todo o Dinheiro do Mundo).

Charlie Plummer será Miles Halter, um adolescente que leva uma vida sem graça e sem muitas emoções na Flórida. Seu passatempo é memorizar as últimas palavras de grandes personalidades da história, e uma dessas personalidades, François Rabelais, um escritor do século XV, disse no leito de morte que ia em “busca de um Grande Talvez”.

E assim ele resolve ir atrás deste Grande Talvez, saindo da barra da saia dos pais e se matriculando em uma escola no Alabama, onde conhece Alasca Young (Kristine Froseth), uma menina descolada. Inteligente, engraçada, porém louca e enigmática.

Alasca vai tirar Miles de sua zona de conforto e juntos vão buscar o Grande Talvez.

A minissérie terá 8 episódios e ainda não temos informação de qual rede no Brasil irá exibi-la.

A certeza é que no Brasil existirá muito publico para a série, pois John Green é um dos autores mais lidos por aqui, desde o publico adolescente até o adulto. E com certeza, Quem é Você, Alasca? é um dos livros mais queridos de John Green por aqui, onde já teve diversas edições , inclusive uma em quadrinhos e a ultima em comemoração aos 10 anos de lançamento.

Quem é o queniano eleito o ‘melhor professor do mundo’

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Peter Tabichi foi premiado como um “professor excepcional” dentro e fora da sala de aula

Um professor de ciências da zona rural do Quênia, que doa a maior parte de seu salário para apoiar os alunos mais pobres, ganhou um prêmio de US$ 1 milhão (R$ 3,9 milhões) ao ser eleito o melhor professor do mundo.

Sean Coughlan, na BBC Brasil

Peter Tabichi, membro da ordem religiosa franciscana, ganhou o Global Teacher Prize de 2019, conferido pela Fundação Varkey, organização de caridade dedicada à melhoria da educação para crianças carentes.

Tabichi foi elogiado por suas realizações em uma escola sem infraestrutura, em meio a classes lotadas e poucos livros didáticos.

Ele quer que os alunos vejam “a ciência é o caminho certo” para ter sucesso no futuro.

O prêmio, anunciado em uma cerimônia em Dubai, reconhece o compromisso “excepcional” do professor com os alunos em uma parte remota do Vale do Rift, no Quênia.

Ele doa 80% de seu salário para apoiar os estudos dos seus alunos, na Escola Secundária Keriko Mixed Day, no vilarejo de Pwani. Se não fosse a ajuda do professor, as crianças não conseguiriam pagar por seus uniformes ou material escolar.

Melhorando a ciência

“Nem tudo é sobre dinheiro”, diz Tabichi, cujos alunos são quase todos de famílias bem pobres. Muitos são órfãos ou perderam um dos pais.

Seu objetivo é que os estudantes tenham grandes ambições, além de promover a ciência, não apenas no Quênia, mas em toda a África, diz.

Mas Tabichi diz que enfrenta “desafios com as instalações precárias” de sua escola, inclusive com a falta de livros ou professores.

“A escola fica em uma área muito retoma. A maioria dos estudantes vêm de famílias muito pobres. Até pagar o café da manha é difícil. Eles não conseguem se concentrar, porque não se alimentaram o suficiente em casa”, contou em entrevista publicada no site do prêmio.

Getty Images
Image caption Muitos alunos caminham mais de seis quilômetros para chegar a escola no Vale do Rift

As classes deveriam a ter entre 35 e 40 alunos, mas ele acaba ensinando grupos de 70 ou 80 estudantes, o que, segundo o professor, deixa as salas superlotadas.

A falta de uma boa conexão de internet faz com que ele vá até um café para baixar os materiais necessários para suas aulas de ciências. E muitos dos seus alunos andam mais de 6km em estradas ruins para chegar à escola.

No entanto, Tabichi diz que está determinado a dar aos alunos uma chance de aprender sobre ciência e ampliar seus horizontes.

Seus estudantes foram bem sucedidos em competições científicas nacionais e internacionais, incluindo um prêmio da Sociedade Real de Química do Reino Unido.

Fora da sala de aula

Tabichi diz que parte do desafio tem sido persuadir a comunidade local a reconhecer o valor da educação, o que leva a visitar famílias cujos filhos correm o risco de abandonar a escola.

Ele tenta mudar a mentalidade de pais que esperam que suas filhas se casem cedo – encorajando-os a deixar as meninas continuarem seus estudos.

O professor também ensina técnicas de cultivo mais resistentes aos moradores dos arredores, já que a fome é uma realidade frequente na região.

“Insegurança alimentar é um grande problema, então ensinar novos jeitos de plantar é uma questão de vida ou morte”, disse em entrevista à Fundação Varkey.

Além do contato com as famílias, a atuação de Tabich se estende aos “clubes da paz” que ele organiza na escola, para representar e unir as sete tribos presentes ali. A violência tribal explodiu no Vale do Rift depois da eleição presidencial de 2007 e houve muitas mortes em Nakuru.

“Para ser um grande professor você tem que ser criativo e abraçar a tecnologia. Você realmente tem que abraçar essas formas modernas de ensino. Você tem que fazer mais e falar menos”, ele disse à fundação.
O prêmio

O prêmio conferido a ele busca elevar o status da profissão de docente. O vencedor do ano passado foi um professor de arte do norte de Londres, Andria Zafirakou.

O fundador da premiação, Sunny Varkey, diz esperar que a história de Tabichi “inspire os que procuram entrar na profissão e seja um poderoso holofote sobre o incrível trabalho que os professores fazem no Quênia e em todo o mundo, diariamente”.

“As milhares de indicações e inscrições que recebemos de todos os cantos do planeta são testemunho das conquistas dos professores e do enorme impacto que eles têm em as nossas vidas”, diz.

Carolina Maria de Jesus: Doodle do Google comemora 105 anos da autora

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Autora de “Quarto de Despejo” faria 105 anos nesta quinta-feira (14); obra foi publicada em mais de 10 países

Isabela Cabral, no Tech Tudo

Carolina Maria de Jesus, escritora brasileira de origem humilde, recebeu uma homenagem na página inicial do Google nesta quinta-feira (14). Na data em que ela completaria 105 anos, o logo tradicional do buscador foi substituído pelo Doodle que traz uma ilustração com seu rosto em perfil e representações de seus característicos diários e de uma casa simples.

Contra todas as expectativas, Carolina ganhou fama mundial após a publicação de seu primeiro livro, “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, que relatava com uma escrita poderosa as dificuldades da população que vivia nas favelas de São Paulo. A autora é lembrada até hoje por poemas e frases marcantes.

Quem foi Carolina Maria de Jesus?

Nascida em Minas Gerais em 1914, a escritora era filha de mãe solteira descendente de escravos e agricultores meeiros e cresceu com uma educação limitada. Já na capital paulista, criou três filhos também sozinha, trabalhando como empregada doméstica e recolhendo papel, latas e garrafas para reciclagem. Precisou construir ela mesma sua casa, um barraco improvisado com tábuas de madeira compensada, barras de ferro e outros materiais reaproveitados. Enquanto isso, Carolina ainda arrumou tempo para preencher diários detalhados sobre sua vida.

Tudo mudou quando Carolina conheceu o jornalista Audalio Dantas, em 1958. Ele escutou, por acaso, uma ameaça dela a um grupo de homens: ela colocaria os nomes deles em seu livro se eles não se comportassem. Curioso, o repórter pediu para ver o tal livro e ficou impressionado com o talento da então trabalhadora doméstica. Trechos dos cadernos foram publicados no jornal local e viraram uma sensação.

O sucesso levou ao lançamento do livro “Quarto de Despejo”, que em apenas três dias vendeu 10 mil cópias e se tornou uma das obras mais lidas na história da literatura brasileira. Ele foi mais tarde traduzido para 13 línguas diferentes e distribuído em mais de 40 países. Foi transformador, pois a publicação deu voz a pessoas marginalizadas e abriu novos caminhos para autores negros no Brasil e no mundo. Em seus 62 anos de vida, Carolina viria a publicar mais três livros, fora os seis póstumos, com textos inéditos organizados por pesquisadores.

O selo editorial dos anos 1990 que só publicava livros feministas no Brasil está de volta

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Arquivo Pessoal
Rose Marie Muraro autografa seu livro “Os seis meses em que fui homem”, em meados dos anos 2000.

‘Rosa dos Tempos’ foi criado por Rose Marie Muraro e publicou clássicos do movimento feminista brasileiro e mundial em 1990.

Andrea Martineli, no HuffpostBrasil

Duas mulheres importantes para a evolução do feminismo no Brasil, Rose Marie Muraro e Ruth Escobar, há mais de 15 anos, se uniram para ampliar as vozes das mulheres brasileiras por meio da literatura. Ambas acreditavam que com educação era possível transformar um mundo guiado pela opressão às mulheres. Em 1990, juntas, as escritoras fundaram um selo editorial chamado “Rosa dos Tempos”, dedicado exclusivamente à temática feminista que, em 2018, está de volta.

“Só existe um editor homem trabalhando com a gente. Todas as demais são mulheres”, conta Ana Lima, editora-executiva da Editora Record, que é uma das responsáveis pelo retorno do selo, em entrevista ao HuffPost Brasil. O time é composto por 3 editoras-executivas, Ana Lima, Ana Paula Costa e Andreia Amaral, 2 gerentes de marketing, Rafaella Machado e Livia Vianna, e Roberta Machado, que é diretora comercial e vice-presidente da empresa.

O projeto de Muraro e Escobar tornou-se realidade, no passado, com o apoio da jornalista Laura Civita, da socióloga Neuma Aguiar e do fundador e então editor da Record, Alfredo Machado. No entanto, depois de 2005, e com 170 livros lançados — que hoje estão de catálogo — , o selo acabou esquecido. Segundo Lima, o fato de ter um time essencialmente feminino trabalhando em conjunto neste momento possibilitou que a ideia de retomar o selo feminista se tornasse realidade.

“Essa conversa [de retomar o Rosa dos Tempos] começou a virar uma constante. Toda hora a gente esbarrava em algum material interessante que seria bom publicar de qualquer forma, mas que, com o selo, teria uma visibilidade diferente”, constata Lima.

E a ideia começou a tomar corpo em outubro do ano passado. Juntas, as editoras começaram a trabalhar em cima do antigo catálogo, o logo foi reformulado, uma seleção de livros que serão reeditados foi feita, assim como a aquisição de publicações inéditas no Brasil. E sim, todos são livros escritos por mulheres e para mulheres.

“A história das mulheres em vários campos foi abafada. Existe toda uma história da medicina de mulheres, de mulheres cientistas e ninguém fala sobre isso porque não há interesse. E não interessa porque não foi priorizado. Assim como foi priorizada uma história branca, foi priorizada uma história masculina”, afirma a editora-executiva.

Para Roberta Machado, vice-presidente e diretora comercial da Record, além de uma demanda de mercado, retomar o selo é contribuir ainda mais para o debate sobre direitos das mulheres: “Ficou bacana, porque montamos um modelo bem ‘feminino’ de gestão. A ‘Rosa’ é totalmente colaborativa, sem hierarquia, com editoras de perfis distintos, todas motivadas e unidas pelo objetivo que é gerar o melhor conteúdo para contribuir pro debate, sempre”.

Feminismo em Comum – Para todas, todes e todos, da filósofa Márcia Tiburi, foi o primeiro livro publicado pelo selo, lançado em janeiro deste ano. Em 2018, serão publicadas oito obras. Para o primeiro semestre, já estão em produção os livros O mito da beleza, de Naomi Wolf; Mamãe&Eu&Mamãe, de Maya Angelou, e A terra das mulheres, de Charlotte Perkins Gilman.

Em parceria com o Instituto Rose Marie Muraro, sediado na Glória, no Rio de Janeiro, cada exemplar publicado pelo selo será enviado à biblioteca mantida pela instituição.

“O relançamento do selo Rosa dos Tempos é importante porque sua criação foi para dar voz as mulheres. Foi a primeira editora dedicada aos diversos temas que são importantes para o desenvolvimento das mulheres e consequentemente para a sociedade. É importante também manter viva a história de duas mulheres guerreiras [Rose e Ruth]”, completa Tonia Muraro, diretora-executiva do Instituto e filha de Rose Marie Muraro, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Quem foi Rose Marie Muraro

Arquivo/Instituto Cultural Rose Marie Muraro
A escritora e editora Rose Marie Muraro, uma das líderes do movimento feminista no Brasil.

Uma das maiores representantes do movimento feminista no Brasil, Rose Marie Muraro morreu em junho de 2014, aos 83 anos, após complicações de um câncer na medula óssea que já tratava há dez anos. A autora de Os seis meses em que fui homem (1993) e Por que nada satisfaz as mulheres e os homens não as entendem (2003), escreveu mais de 44 livros ao longo de sua carreira.

Em 1999, ela contou sua história na autobiografia Memórias de uma mulher impossível. Nele, ela conta como aprendeu desde cedo a lutar contra as dificuldades, físicas e sociais, com força e determinação em meio às limitações. Muraro nasceu praticamente cega, e somente aos 66 anos conseguiu recuperar parcialmente a visão com uma cirurgia. Estudou Física, foi escritora e editora de livros, assumindo a responsabilidade por publicações polêmicas e contestadoras.

“O homem também tem que se rever. É natural, com a mulher se liberando, que o homem tenha ficado perdido, entregado os pontos. Mas mulher autoritária é o mesmo que mulher submissa. O objetivo (do feminismo) é integrar homem e mulher, e só se pode integrar dois sujeitos”, disse Rose Marie Muraro em entrevista à Folha de S. Paulo, em 1999.

Após a morte da intelectual, o Instituto Cultural Rose Marie Muraro foi criado para resguardar o legado dela e garantir às futuras gerações o direito de conhecer sua história. Enquanto viva, ela trabalhou arduamente para abrir espaço para “cabeças pensantes se reunirem e se aliarem em um objetivo comum para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa”.

“Nossa missão hoje é continuar proporcionando este espaço principalmente para as mulheres, mas homens também, que tenham como objetivo uma sociedade mais humana e menos desigual”, afirma Tonia que, também afirma que, no momento, a Instituição busca novas possibilidades de gestão para conservar o espaço e o acervo daprimeira biblioteca especializada em estudos de gênero do Brasil.

Segundo Tonia, sua mãe finalizou sua última obra pouco antes de falecer, em que retrata sua “impossível história de amor”. “Tenho uma vontade muito grande de lançar este livro inédito pelo ICRM e agora, se for possível, com o selo da Rosa dos Tempos. Acho que Rose e Ruth estão conspirando a nosso favor”.

Quem precisa de crítica literária? Algoritmos já leem romances e conseguem analisar a estrutura de obras de ficção

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Marcelo de Araújo, no Estadão

Aristóteles escreveu na antiguidade um texto conhecido como Poética, ainda hoje um clássico da teoria literária. Na obra, Aristóteles trata de examinar a estrutura típica de grandes obras dramatúrgicas. Quais são os elementos constitutivos de uma boa tragédia? Qual é a estrutura típica de uma narrativa trágica bem sucedida? A resposta que Aristóteles dá a essas perguntas exerce ainda hoje influência sobre a estrutura narrativa de muitos romances e roteiros para o cinema. Não é por acaso, aliás, que a Poética se tornou leitura obrigatória entre roteiristas e é adotada em muitos cursos de escrita criativa.

Aristóteles só foi capaz de identificar a estrutura narrativa típica de grandes obras dramatúrgicas porque ele conhecia praticamente todas as tragédias da antiguidade. No entanto, face à enorme quantidade de obras de ficção publicadas em nossos dias, ninguém mais pode ter a expectativa de ler um vasto conjunto de obras literárias na tentativa de identificar algumas estruturas narrativas comuns.

Não seria então possível delegarmos a máquinas a tarefa de “ler” obras literárias em nosso lugar? Uma máquina não poderia talvez identificar os “arcos emocionais” comuns a diversas obras literárias com mais precisão do que qualquer ser humano? Na verdade, isso já vem ocorrendo.

Medindo arcos emocionais

Em 2016, Andrew Reagan e colegas publicaram um artigo intitulado “Os arcos emocionais das histórias são dominados por seis formas básicas” [1]. Um algoritmo desenvolvido pelos pesquisadores, batizado de “Hedonometer”, analisou 1.327 obras literárias disponíveis no site do Projeto Gutenberg. Cada obra foi dividida em segmentos ou “janelas” de 10 mil palavras. Cada janela foi submetida então a uma “análise de sentimentos.” A análise consiste na avaliação quantitativa dos sentimentos que algumas palavras, que ocorrem nas janelas, tendem a provocar no leitor. Palavras como, por exemplo, “estupro” e “terrorista” tendem a provocar nas pessoas uma reação negativa, por oposição a palavras como “sorriso” ou “amor”.

O Hedonometer contém um dicionário com as 10 mil palavras mais frequentes no conjunto de obras a serem analisadas. A cada palavra do dicionário foi atribuído um valor que varia entre 1 e 9. Palavras que têm uma conotação negativa receberam um valor baixo, por oposição às palavras que têm uma conotação positiva. (O valor 5, intermediário entre 1 e 9, indica que a palavra é emocionalmente neutra, não desperta nenhum sentimento especial no leitor). Os valores foram atribuídos graças ao trabalho de milhares de pessoas recrutadas especialmente para essa tarefa. As três palavras que receberam a maior pontuação média foram, respectivamente, “riso”, “felicidade”, e “amor”. As três últimas palavras no ranking foram “estupro”, “suicídio”, e “terrorista” [2].

A ocorrência dessas palavras, em cada segmento de 10 mil palavras, permite ao Hedonometer avaliar a carga emocional predominante em cada segmento da obra, e retraçar as flutuações emotivas ao longo da obra como um todo. São essas flutuações emotivas que Reagan e colegas denominam de “arco emocional” da narrativa [3]. A análise de sentimento realizada pelo Hedonometer consiste na representação gráfica das flutuações emotivas ao longo de cada obra analisada. Segundo Reagan e colegas, é possível detectar, no conjunto das 1.327 obras analisadas, seis tipos básicos de arcos emocionais.

Uma história com final feliz, por exemplo, é marcada por um arco ascendente na parte final, diferentemente de narrativas com finais trágicos, que são marcadas por um arco emocional descendente. O artigo de Reagan e colegas, porém, não é o único trabalho recente que descreve o modo como algoritmos podem ser utilizados para “ler” grandes quantidades de textos literários com o objetivo de analisar certas estruturas comuns, inerentes a praticamente qualquer obra de ficção.

Detectando best-sellers

Em 2016, Jodie Archer e Matthew Jockers lançaram um livro chamado The Bestseller Code: Anatomy of the Blockbuster Novel, publicado no Brasil como O Segredo do Best-Seller (Astral Cultural, 2017). A dupla desenvolveu um programa, chamado “Bestseller-ometer”, na expectativa de poder identificar potenciais best-sellers. O programa “leu” mais de 20 mil romances buscando identificar características típicas dos títulos que entram para a lista de best-sellers do New York Times. A descrição técnica do programa aparece no último capítulo do livro. Mas o que me interessa aqui não é a descrição técnica do algoritmo, mas sim examinar algumas implicações que a difusão de programas como o “Hedonometer” e o “Bestseller-ometer” poderia ter para o mercado editorial e para a nossa compreensão acerca do conceito de “leitor.”

O número de manuscritos que editoras e agências literárias recebem todos os dias costuma ultrapassar bastante a capacidade que seus funcionários têm de ler. Histórias de livros que se tornaram sucessos literários, mas que foram inicialmente ignorados por várias editoras, se tornaram famosas. Mas isso geralmente ocorre, não porque os autores rejeitados sejam gênios incompreendidos, mas porque os profissionais do mercado simplesmente não conseguem dar conta do volume de leitura que recebem. Muitas editoras e agências literárias contratam leitores externos, que decidem quais manuscritos merecem ser avaliados para possível publicação.

Segundo Archer e Jockers, o Bestseller-ometer teria 80% de chance de detectar um manuscrito que tem o potencial para se tornar um bestseller. Se algoritmos desse tipo se tornarem correntes no mercado editorial, então, no futuro, os primeiros “leitores” de muitas obras de ficção não serão mais pessoas, mas máquinas que, para todos os efeitos, estarão realizando o mesmo tipo de atividade que os leitores contratados por editoras e agências literárias realizam.

Novos escritores, ávidos para publicar seu primeiro romance, talvez prefiram então buscar o aval de algoritmos ao invés de consultar escritores experientes ou críticos literários. Por outro lado, é possível também que muitos romances, que têm o potencial para se tornar um sucesso literário, sejam rejeitados com menos frequência, pois haverá um novo “leitor”, mais rápido e eficiente, atuando no mercado.

Lendo e aprendendo

Essa ampliação do conceito de “leitor” tem implicações jurídicas. Em setembro de 2016, pesquisadores da Google publicaram um artigo no qual descrevem o funcionamento de um algoritmo desenvolvido para gerar frases em linguagem natural [4]. O algoritmo “leu” mais de 11 mil obras de ficção para que as frases geradas pelo algoritmo fossem estilisticamente melhores do que as frases geradas por outros algoritmos para geração de linguagem natural.

Empresas como Google e Facebook vêm investindo bastante na geração de “assistentes virtuais”, capazes de responder perguntas e manter uma conversa coerente sob a forma de chats online. Programas desse tipo, na verdade, não são nenhuma novidade. Em 1966, por exemplo, Joseph Weizenbaum criou um programa de chat chamado Eliza, em homenagem à personagem de mesmo nome da peça Pigmalião (1913) de Bernard Shaw. O problema é que programas como Eliza contam com um número limitado de frases prontas, que são reutilizadas com alguns ajustes gramaticais conforme o input do interlocutor. Isso torna a interação com o programa repetitiva e pouco natural. Para evitar esse problema a Google e outras empresas pretendem desenvolver agora assistentes virtuais inteligentes, capazes de gerar frases novas e que soem naturais. Para isso, é necessário que o assistente virtual “leia” milhares de obras a fim de identificar uma diversidade de padrões e estilos de conversação, mas sem repetir literalmente as frases que lê.

O artigo publicado pelos pesquisadores da Google, no entanto, gerou um problema jurídico. As obras de ficção “lidas” pelo algoritmo não estavam em domínio público. No momento em que foram disponibilizadas online, não havia ainda sido considerada a possibilidade de que, entre os seus “leitores”, estariam também algoritmos, capazes de “ler” milhares de obras e de reutilizá-las para fins comerciais. Muitos escritores e escritoras se sentiram lesados ao saberem que suas obras haviam sido “lidas” por algoritmos, e não por pessoas.

O uso de algoritmos para a análise de obras de ficção não se limita à “leitura” de romances de maior apelo comercial. O uso se estende também à análise de clássicos da literatura. Pesquisadores poloneses desenvolveram em 2016 um algoritmo para analisar textos de autores como, por exemplo, James Joyce, Virginia Woolf, e Roberto Bolaño. Os pesquisadores constataram que muitos clássicos da literatura, diferentemente de best-sellers, têm uma estrutura fractal. Isso significa dizer que o tamanho das frases, contado em número de palavras, vai se alternando segundo padrões específicos. Esses padrões conferem à narrativa um ritmo próprio, do qual os leitores (e talvez até mesmo os autores) nem sempre são inteiramente conscientes [5].

No contexto da antiguidade, Aristóteles ainda estava em condição de conhecer praticamente todas as obras dramáticas relevantes e de examinar certas estruturas comuns a todas elas. Nos dias de hoje, porém, nenhum ser humano consegue ter sozinho essa visão de todo.

Algoritmos, eu acredito, não substituirão o trabalho de filósofos ou críticos literários. Mas algoritmos, ainda assim, podem muito bem, no futuro, vir a se tornar ferramentas indispensáveis para a análise da estrutura narrativa de obras literárias.

Marcelo de Araújo é professor de Ética e Filosofia do Direito da UFRJ e da UERJ.

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