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O livro que mudou a minha vida

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A história de um personagem pode fazer com que o leitor se reconheça por meio de suas palavras e ações. O processo é chamado cientificamente de “identificação” e pode ajudar a resolver dilemas da vida cotidiana

Autoconhecimento para ajudar o próximo - Filho adotivo de mãe alemã e pai italiano, desde muito cedo Cláudio Assiz, 62 anos, foi incentivado à leitura. Foi seminarista, formou-se em História, Filosofia e Direito, trabalhou como radialista e acabou ingressando na carreira policial. Dedicou 35 anos da sua vida à Polícia Civil e, agora, aposentado e com mais tempo em mãos, dedica esse tempo aos animais. A rotina policial não é nada fácil, recorda Cláudio. “É uma atuação desconfortável, pois a Polícia tem a obrigação de ser a guardiã da sociedade.” Foi no ambiente familiar, na religião e na intimidade com livros que encontrou suporte que o permitiu ter uma visão aberta para entender os problemas sociais que rodeavam sua profissão. “Procurei praticar a polícia cidadã, sem violência. Julgar os atos e não as pessoas foi um discernimento que veio com os livros de filosofia”, diz. Em sua biblioteca já passaram desde a coleção completa de Monteiro Lobato a obras de filosofia, direito, antropologia, e esotéricos. Mas foi na leitura do Manual Básico de Teosofia, de Antônio Geraldo Buck, que Assiz encontrou respostas a algumas de suas inquietações. “O livro mistura ciência, religião e filosofia, e me aprofundou nas questões de autoconhecimento. E, ao me entender melhor, tenho mais compaixão e tolerância com o próximo”, conta (Wlater Alves / Gazeta do Povo)

(Wlater Alves / Gazeta do Povo)

Carol Benelli, no Gazeta do Povo

“Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros mudam as pessoas”, disse uma vez o poeta gaúcho Mário Quintana. Parece simples, mas como entender o significado que um livro tem para cada um?

Autoconhecimento para ajudar o próximo – Filho adotivo de mãe alemã e pai italiano, desde muito cedo Cláudio Assiz, 62 anos, foi incentivado à leitura. Foi seminarista, formou-se em História, Filosofia e Direito, trabalhou como radialista e acabou ingressando na carreira policial. Dedicou 35 anos da sua vida à Polícia Civil e, agora, aposentado e com mais tempo em mãos, dedica esse tempo aos animais. A rotina policial não é nada fácil, recorda Cláudio. “É uma atuação desconfortável, pois a Polícia tem a obrigação de ser a guardiã da sociedade.” Foi no ambiente familiar, na religião e na intimidade com livros que encontrou suporte que o permitiu ter uma visão aberta para entender os problemas sociais que rodeavam sua profissão. “Procurei praticar a polícia cidadã, sem violência. Julgar os atos e não as pessoas foi um discernimento que veio com os livros de filosofia”, diz. Em sua biblioteca já passaram desde a coleção completa de Monteiro Lobato a obras de filosofia, direito, antropologia, e esotéricos. Mas foi na leitura do Manual Básico de Teosofia, de Antônio Geraldo Buck, que Assiz encontrou respostas a algumas de suas inquietações. “O livro mistura ciência, religião e filosofia, e me aprofundou nas questões de autoconhecimento. E, ao me entender melhor, tenho mais compaixão e tolerância com o próximo”, conta

O escritor italiano Ítalo Calvino declara em seu livro Assunto Encerrado que as coisas que a literatura pode revelar são “pouco numerosas, mas insubstituíveis”. Nesses aprendizados estão sentimentos como a maneira de ver o próximo e a si mesmo, de atribuir valor às coisas, de encontrar as proporções da vida e o lugar do amor e morte nela, além de outros temas como a rudeza, a piedade, a tristeza, a ironia e o humor.

Em uma sociedade regida pelo relógio e de procura por respostas instantâneas, o tempo de leitura permite resgatar o contato com o “eu interior”. “Ao ler um livro, cria-se um espaço para que emoções e pensamentos se assentem, promovendo uma recomposição e reestruturação no nosso próprio ser”, revela o professor de História da América da Universidade Federal de São Paulo, Rafael Ruiz Gonzalez.

Além disso, a narrativa de um livro também tem grande poder transformador. “Quando a gente se defronta com uma história que fala com o ser humano na sua intimidade, é como se um sinal de ‘pare’ aparecesse na nossa frente”, lembra o professor.

Eu, personagem

Aristóteles dizia que imitar é próprio da natureza humana. Rafael Ruiz explica que durante a leitura “nos colocamos em diálogo com os personagens e nos vemos por meio de suas palavras e ações”. Esse processo psicológico é chamado de identificação. “O sujeito assimila um atributo, pensamentos ou comportamentos do outro e se transforma, total ou parcialmente, segundo o modelo que o outro fornece”, relata Naim Akel Filho, coordenador da especialização em Neurociência da PUCPR.

O neurocientista ainda vai além. Ele conta que “a personalidade se organiza a partir de nossas experiências, baseada nos modelos com os quais nos identificamos. Portanto, esse processo de identificação com personagens literários pode mesmo moldar a personalidade de alguém com a mesma força das figuras centrais da vida do sujeito”.

É a maturidade do leitor que vai fazer com que, ao folhear algumas obras, elas causem perturbações no comportamento. Indepen­­dentemente da idade, obras da literatura clássica sempre tem um lugar na cabeceira, pois já tiveram sua qualidade atestada. “O clássico é aquilo que foi confirmado pelo tempo porque atinge o ser humano em qualquer época ou lugar, comoveu e provocou questões no homem desde a antiguidade e o toca na sua essência”, orienta o professor Rafael Ruiz.

Silêncio, por favor

Você parou para pensar por que aquele conselho dado a uma pessoa próxima nunca é ouvido? Se o conselho não viesse falado, mas em forma de papel, seria diferente. Akel Filho explica que “quando lemos, rebaixamos nossas defesas racionais e deixamos a emoção e a fantasia substituírem a racionalidade. Por isso é mais fácil sermos seduzidos pela ‘ficção’ do que convencidos pelo mundo real”.

Pesa também que nem sempre as pessoas estão prontas para receber um conselho, e quando um amigo ou terapeuta fala, a sugestão é repelida. Enquanto que a literatura fala manso com o leitor, penetrando no seu coração e mente.

Remédio de papel
Entre tantos espaços de terapia para as inquietações da alma, que tal um lugar diferente, onde você entra, conta sua questão, e sai medicada com um livro? Pensando nisso, a paulista Angélica Ayres trouxe para Curitiba a Mahatma, Livraria de Expansão. “É um espaço onde são selecionados livros que podem ser úteis para uma tomada de decisão, mudança ou redirecionamento de vida”, conta.

Lá é possível encontrar livros de psicologia, comportamento, terapias complementares e até alguns de auto-ajuda. Com 34 anos de experiência no mercado editorial, Angélica é formada em Jornalismo e conta que instalou a livraria em um local calmo. “Não quero clientes de passagem, pois procuro pessoas que de fato querem refletir sobre suas vidas. E Curitiba é uma cidade mais introspectiva por causa do clima, o que favorece a leitura”.

O que diferencia o espaço de uma livraria comum é o atendimento personalizado dado a cada um dos clientes e o conhecimento que a proprietária tem do acervo. Angélica lembra, entretanto, que a literatura é somente uma das ferramentas possíveis para o autoconhecimento. “O livro não substitui algo que a pessoa precisa de caráter físico ou psicológico. É um caminho que vai ajudar as pessoas a entenderem suas necessidades”, pondera.

Coragem para enfrentar a vida - Por vezes, é nas páginas de um livro que as cortinas do teatro da vida se abrem. Foi o que aconteceu com a atriz e artista plástica Graci Mello, 32 anos, após a indicação do livro Montanha Mágica, de Thomas Mann, feita por um professor da universidade. A recomendação era de que era uma leitura obrigatória para a transição da fase adulta. “Acredito que quando era estudante estava carente de experiências, queria ver com meus próprios olhos, e não seguir o caminho que meus pais queriam e imaginaram para mim”, comenta. Nesse livro, a narrativa do personagem principal mostra que o medo é inerente e comum. “Saber disso permitiu enfrentar meus temores e não deixar o medo sobrepor à vontade de fazer as coisas”. E a história escrita a partir desse momento impactou a vida da atriz. Aos 23 anos, saiu da casa dos pais e foi morar com o namorado. “Estamos juntos há 17 anos e tem sido uma experiência linda. Sempre nos apoiamos muito e é um relacionamento tranquilo”, comenta. Parte do enfrentamento do “eu interior”, também tomou forma quando Graci decidiu fazer faculdade de Artes Cênicas. “Era muito envergonhada e, aos poucos, o teatro me mostrou como encarar as oportunidades que aparecem. Ensinou também a vivenciar o momento e não ter medo de me expor em público”, explica a atriz - (André Rodrigues / Gazeta do Povo)

(André Rodrigues / Gazeta do Povo)

Coragem para enfrentar a vida – Por vezes, é nas páginas de um livro que as cortinas do teatro da vida se abrem. Foi o que aconteceu com a atriz e artista plástica Graci Mello, 32 anos, após a indicação do livro Montanha Mágica, de Thomas Mann, feita por um professor da universidade. A recomendação era de que era uma leitura obrigatória para a transição da fase adulta. “Acredito que quando era estudante estava carente de experiências, queria ver com meus próprios olhos, e não seguir o caminho que meus pais queriam e imaginaram para mim”, comenta. Nesse livro, a narrativa do personagem principal mostra que o medo é inerente e comum. “Saber disso permitiu enfrentar meus temores e não deixar o medo sobrepor à vontade de fazer as coisas”. E a história escrita a partir desse momento impactou a vida da atriz. Aos 23 anos, saiu da casa dos pais e foi morar com o namorado. “Estamos juntos há 17 anos e tem sido uma experiência linda. Sempre nos apoiamos muito e é um relacionamento tranquilo”, comenta. Parte do enfrentamento do “eu interior”, também tomou forma quando Graci decidiu fazer faculdade de Artes Cênicas. “Era muito envergonhada e, aos poucos, o teatro me mostrou como encarar as oportunidades que aparecem. Ensinou também a vivenciar o momento e não ter medo de me expor em público”, explica a atriz

As diversas vidas que vivemos - O que seria da vida se fosse possível despir-se de preconceitos e aceitar a transição e a constante mudança? Para Cláudia Janiscki, 43 anos, especialista em I Ching e numeróloga, esse desafio teve início ao ler um livro milenar chinês. “Ler o I Ching ou Livro das Mutações foi como olhar no espelho. Fez com que eu enxergasse com clareza minhas vontades e qual caminho tomar para transformar aquilo que me causava insatisfação”, explica. Na época, Cláudia era dentista e não hesitou em largar anos de prática para tomar a estrada do auto-conhecimento. De lá pra cá, com o aprofundamento das questões humanas, também veio tranquilidade e a descoberta de um novo caminho trabalhando com pessoas. “Abri uma escola de ioga, onde pude praticar uma atividade que trazia benefícios diretos ao público. Agora, estou focada em numerologia e leitura de I Ching e acredito que não existe limite para melhorar e mudar”, comenta - (Daniel Castellano / Gazeta do Povo)

 (Daniel Castellano / Gazeta do Povo)

As diversas vidas que vivemos – O que seria da vida se fosse possível despir-se de preconceitos e aceitar a transição e a constante mudança? Para Cláudia Janiscki, 43 anos, especialista em I Ching e numeróloga, esse desafio teve início ao ler um livro milenar chinês. “Ler o I Ching ou Livro das Mutações foi como olhar no espelho. Fez com que eu enxergasse com clareza minhas vontades e qual caminho tomar para transformar aquilo que me causava insatisfação”, explica. Na época, Cláudia era dentista e não hesitou em largar anos de prática para tomar a estrada do auto-conhecimento. De lá pra cá, com o aprofundamento das questões humanas, também veio tranquilidade e a descoberta de um novo caminho trabalhando com pessoas. “Abri uma escola de ioga, onde pude praticar uma atividade que trazia benefícios diretos ao público. Agora, estou focada em numerologia e leitura de I Ching e acredito que não existe limite para melhorar e mudar”, comenta.

dica do Chicco Sal

Livros para curar o incurável

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A vida é cheia de momentos em que só a literatura pode nos ajudar

Danilo Venticinque, na revista Época

Nunca acreditei nas promessas da autoajuda, mas sempre confiei no poder curativo da literatura. Não importa qual situação enfrentemos na vida, há sempre um personagem de ficção que passou por ela, ou memórias de outras pessoas que superaram os mesmos dramas. Poucas experiências são tão transformadoras quanto ler o livro certo no momento certo – e há um livro certo para qualquer estado de espírito. Se você desconfia de todos ao seu redor, há um livro que pode ajudá-lo. Sente-se traído por uma pessoa amada? Há um livro para isso. Está entediado com a futilidade da vida e em busca de um significado para tudo? Há um livro (ou talvez todos) para isso.

Como qualquer pessoa com um trabalho vagamente relacionado à literatura, vez ou outra sou procurado por alguém que quer indicações de livros. No início, ciente da minha ignorância, eu desconversava. Com o tempo, perdi a vergonha. Indicar o melhor livro para cada pessoa e cada situação tornou-se um desafio delicado e recompensador. Não é necessário qualquer treinamento para se tornar um terapeuta literário: apenas o gosto pela leitura, uma memória razoável e um pouco de pretensão.

A busca pela indicação ideal ultrapassa os limites da minha estante. Perdi a conta de quantas vezes indiquei um livro que eu não havia lido, com base na vaga impressão de que seria a leitura perfeita para aquela pessoa, naquele momento. A falta de regulamentação para os terapeutas literários permite essas irresponsabilidades. Fora isso, minha pequena experiência nessa área me convenceu de que é possível conhecer um livro sem jamais ter encostado nele.

Uma das autoras que mais indiquei sem ter lido foi Joan Didion, de O ano do pensamento mágico e Noites azuis. No primeiro, a autora descreve sua solidão após perder o marido, com quem viveu por quase 40 anos. No segundo, narra sua vida após a morte da filha, apenas 20 meses depois. Os dois livros entraram merecidamente nas listas de mais vendidos. É provável que você já os tenha lido, ou tenha ouvido falar deles. Comprei os dois quando foram lançados, mas nunca me senti preparado para lê-los. Mesmo assim, Joan Didion sempre foi minha recomendação para amigos e conhecidos que procuravam um livro para ler após enfrentar uma grande perda.

No último sábado, passei por uma dessas situações em que recorremos aos livros em busca de consolo: a morte inesperada de um grande amigo, em circunstâncias particularmente dolorosas. Na literatura, no cinema e na música, há milhares de obras que nos alertam sobre a finitude da vida e nos aconselham a aproveitar cada momento ao lado de pessoas queridas. Lamento não ter seguido os conselhos. Perdi a chance de passar mais tempo com uma das pessoas mais incríveis que conheci. A caminho do velório de meu amigo, na mesma igreja em que fui padrinho de seu casamento, não pude deixar de lembrar de todas as vezes em que deixamos de nos encontrar por preguiça, e de imaginar as conversas que poderíamos ter tido. Um doloroso e inevitável exercício de ficção.

Eu tinha outros planos para esta coluna, mas preferi deixá-los para uma semana melhor. Em vez disso, decidi seguir, com anos de atraso, a minha própria recomendação. Dediquei o resto do fim de semana a ler Joan Didion. Devagar, como quem reaprende a pensar na vida. Ainda não terminei nenhum dos livros. Tenho pouco a dizer sobre eles. Tanto tempo depois do lançamento, as melhores e as piores resenhas já foram escritas. O que importa é o que os livros têm a dizer para mim e o que já disseram para os outros leitores. Foi uma indicação acertada, tanto para eles quanto para mim.

Por alguma coincidência, o luto é o tema principal de dois livros que mencionei em colunas recentes. Nina Sankovitch, de O ano da leitura mágica, só decidiu ler um livro por dia durante um ano porque tentava recomeçar a vida após a morte de sua irmã. Em O clube do livro do fim da vida, as conversas literárias de Will Schwalbe e sua mãe só se tornam rotineiras quando ela começa a passar por sessões semanais de quimioterapia.

Diante da certeza de que “a vida muda num instante”, como escreveu Joan Didion, nada mais natural do que recorrer aos livros para retomar o controle. São provas vivas de que não estamos sozinhos. Podemos contar com os pensamentos e as experiências de outra pessoa que enfrentou uma situação igual ou pior. Não a esqueceu, mas sobreviveu a ela e teve força para narrar sua história. Transformada em livro, a dor do autor pode ser um remédio para quem lê.

Os caminhos misteriosos dos livros e o fascínio pelas dedicatórias

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A história incrível de um livro que atravessou os oceanos, perdeu-se e voltou às mãos da dona. Havia uma dedicatória do moçambicano Mia Couto.

Renata Neder, na revista Época

"Renata, às vezes, os livros percorrem misteriosos caminhos, como os cadernos do personagem desta “Terra Sonâmbula”. Tu já és personagem desta dedicatória e, por isso, escrevo aqui toda a ternura.”  (Foto: Renata Neder)

“Renata, às vezes, os livros percorrem misteriosos caminhos, como os cadernos do personagem desta Terra Sonâmbula. Tu já és personagem desta dedicatória e, por isso, escrevo aqui toda a ternura.” (Foto: Renata Neder)

Eu tenho fascínio por livros com dedicatória. Às vezes isso é prática meio indiscreta, vou na casa de amigos, folheio livros e paro para ler cada dedicatória. Não resisto. Cada dedicatória conta uma história, sobre aquelas pessoas e sobre o caminho que o livro percorreu. Por que foi escolhido para ser dado, em que ocasião, para simbolizar o quê?

As dedicatórias anônimas ou em livros de pessoas desconhecidas são ainda mais interessantes. Dá pra ficar imaginando quem, afinal, teria escrito aquela mensagem. O que sentia, o que fazia, o que era na vida.

Sempre que eu entro em um sebo e pego um livro na mão, eu folheio as primeiras páginas em busca de uma mensagem, uma dedicatória. Um dia estava despretensiosamente folheando livros em um sebo em Botafogo quando encontro um livro do Mia Couto, autor moçambicano que eu amo sem fim.

Fiquei feliz com a descoberta porque, na época, sua obra estava esgotada no Brasil e pra comprar, só em sebo mesmo. Mas a grande surpresa veio quando eu percebi uma longa dedicatória no livro assinada pelo próprio Mia. Era uma mensagem longa e carinhosa destinada a uma Valéria. Pelo tom das palavras, eles eram bons amigos. Além da dedicatória havia, na página seguinte, alguns parágrafos escritos pela ‘ Valéria ‘ em tinta vermelha. O texto, meio poético, falava de sua amizade com o autor.

Comprei o livro, claro. E isso foi apenas o início de uma história muito bacana sobre os caminhos misteriosos que os livros percorrem.

Alguns anos depois, quando eu trabalhava em uma livraria, comecei a conversar com certa frequência com uma mulher que era frequentadora assídua do lugar. Ela, como eu, apaixonada por literatura africana de língua portuguesa. O nome dela era Valéria.

Os livros do Mia Couto estavam sendo reeditados no Brasil e um dia, enquanto falávamos sobre como isso era bom, contei a ela que eu tinha muitos livros dele garimpados em sebo. Contei a ela a sorte que tive por encontrar um livro com uma dedicatória do próprio Mia e recitei parte da dedicatória, que eu sabia de cor.

Ela ficou pálida. Só conseguiu dizer “Essa Valéria sou eu.” Achei que era brincadeira. Ela repetiu “Renata, essa Valéria sou eu.”

Eu, confesso, não acreditei. Aí ela disse: “Nesse mesmo livro eu escrevi um pequeno texto sobre o Mia e nossa amizade sobre o dia em que ele me deu o livro de presente.”

Era verdade. Era incrível, mas era verdade.

Aí vieram mil questões. Ela queria saber onde eu tinha comprado e como o livro foi parar nas minhas mãos. Eu queria saber por que ela tinha se desfeito de um presente tão lindo.

Valéria foi casada com um diplomata brasileiro e morou em Angola. Conheceu Mia Couto, ficaram amigos. Todos seus livros estavam em Angola, assim como este, presente do Mia. Quando se separou, não trouxe de volta para o Brasil, coisas de separação… Não sabemos exatamente como o livro foi parar em um sebo em Botafogo. Talvez o ex-marido tenha trazido de volta quando voltou ao país e vendido sua biblioteca a um sebo. Talvez tenha emprestado a alguém que o trouxe de volta.

Não sabemos que caminhos o livro percorreu. Mas o fato é que ele encontrou seu caminho de volta ao Brasil e aos cuidados de Valéria.

Apesar de estar emocionada com a história, confesso que estava um pouco triste por perder um livro com uma dedicatória do próprio Mia Couto, logo um dos meus autores favoritos. Mas o desejo do livro, de voltar para as mãos da dona daquela dedicatória, devia ser respeitado.

A tristeza durou pouco! Algumas semanas depois, Mia veio ao Brasil para um evento literário. Valéria contou a ele sobre essa jornada. E Mia ficou encantado com a história do caminho misterioso percorrido por seu livro.

Me enviou então seu livro “Terra sonâmbula” de presente. O livro conta a história de um velho e um menino, companheiros de viagem, que encontram nas suas andanças um diário. Um diário que também percorreu caminhos misteriosos.

O livro veio com uma dedicatória.

“Renata, às vezes, os livros percorrem misteriosos caminhos, como os cadernos do personagem desta “Terra Sonâmbula”. Tu já és personagem desta dedicatória e, por isso, escrevo aqui toda a ternura.” 

Obrigada, Mia, vou guardar para sempre com imenso carinho. Afinal, não é sempre que os livros atravessam oceanos e que a gente ganha dedicatória de nosso autor favorito.

Menos novelas e mais livros

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O número de novelas que as pessoas assistem, na maioria das vezes, é maior do que o número de livros que leem

Paulo Sérgio Buhrer no Administradores

Às vezes chego a pensar que as novelas geram ganhos a quem assiste, tamanho é o fascínio que despertam nas pessoas. Mas, longe disso. Elas geram mesmo é paralisia, de todos os gêneros, inclusive, físico, afinal, há pessoas que nem piscam quando a cena é chocante, picante, emocionante.

Você já ouvir dizer que alguém foi promovido porque sabia o nome de todos os personagens da novela das nove? Ou, porque recitou o último capítulo da novela das seis? Menos novelas e mais livros significa mais conforto, saúde, bem-estar, relacionamentos… mais vida.

Alguma pessoa coloca no currículo: “expert em novelas”. A não ser que você seja um crítico de TV, ou ganhe dinheiro com notícias noveleiras, ninguém melhora de vida vendo novela.

É uma pena, porque enquanto os capítulos das novelas avançam, a carreira das pessoas, a competência e o aprendizado andam para trás. Raramente, e raramente mesmo você aprende alguma coisa produtiva vendo uma novela.

“Então não posso mais assistir minha novelinha?” Claro que pode, afinal, cada um é dono de si mesmo. A questão é que, pelo menos, nos intervalos, deveríamos trocar a novela por páginas de livros. Livros que aumentem nossa competência, que despertem nossa motivação e entusiasmo pela vida. Livros que nos direcionem para a carreira que pretendemos, e nos auxilie na preparação de competências e diferenciais para que ela seja um sucesso, enfim, ler os capítulos de livros traz resultados positivos e muito aprendizado, enquanto que acompanhar os capítulos da novela traz inércia, acomodação, e, pior, corremos o risco de criar um estado mental com inversão de valores, afinal, o que se passa nas novelas de hoje é todo tipo de imprestabilidade.

“Ah, mas a novela é um retrato da vida real”. Mentira. A vida real tem se deixado influenciar pelas novelas, invertendo valores morais como se fosse esse o padrão. Não é padrão a traição, o sexo sem amor, o pobre ser feliz e o rico depressivo, como se quisessem perpetuar a fome, a miséria, o pouco, incentivando de que feliz mesmo é quem não tem dinheiro, e, que, os ricos, cedo ou tarde apontam uma arma para a própria cabeça. Tudo isso é enganação e não podemos trazer para os capítulos da nossa vida o que se passa nas novelas.

Quer ver sua novelinha, veja, mas, prefira trocá-la por conhecimento que enobrece, por outras imagens que façam bem à sua mente, por ideias de especialistas nas mais diversas áreas, e não pelas infames imagens, sons e experiências novelísticas.

De outro ponto de vista, é preciso que compreendamos que nós é que nos deixamos influenciar, e, parecemos gostar do que se passa na TV, tamanha é a audiência desses programas. Não se chateie com quem quer lhe ajudar a sair do marasmo, da inércia de ficar no sofá, esparramado, vendo novela enquanto os filhos brincam sozinhos lá fora e seu companheiro (a) implora por atenção, ou enquanto um colega de trabalho está sendo promovido porque leu mais, foi a cursos, o que possibilitou a ele comprar o carro que você sempre quis, mas, a novela o convenceu de algum modo, que ela era mais importante que seu aperfeiçoamento e qualidade de vida.

Me dá uma dor no coração ver pessoas não indo a cursos, palestras, não lendo pelo menos um livro por ano, porém, recitando o nome dos personagens e o que cada um fez no capítulo anterior, deixando queimar o arroz, o feijão e derramar o leite no fogão, mas, não perdendo segundos da novela.

Assista sua novela, mas, com todo carinho do mundo, sugiro que comece a trocá-la por algo produtivo, divertido, instigante, como um livro, um curso, ou, simplesmente em sair para passear num parque sozinho ou em família, e observar a natureza, só para quebrar esse hábito de acomodação que a novela traz.

Eu sei que você chega em casa exausto, e tudo o que enxerga é a poltrona do sofá e tela da TV, porém, estar extenuado é um ótimo sinal de que está suando no trabalho, no entanto, suor já não é mais sinal de sucesso. Temos que complementá-lo com evolução, aprendizado, habilidades, coisas essas que a gente não aprende vendo novela.

O pior de tudo é que ficarmos vidrados na TV não permite sequer que descansemos, pois ficamos focados, atentos a tudo o que se passa, enchendo a mente com bobagens que vão atrapalhar num momento ou outro nossa vida.

Não sou contra a TV e suas novelas. Sei do papel importante que a TV tem. Sou contra você não estudar, não se empenhar, não participar de eventos que a empresa oferece, negar hora extra, negar carinho, atenção a quem ama você, enfim, sou contra rejeitar conforto, bem-estar, crescimento. Aposto que nunca um artista de novela lhe deu esses conselhos, deu? Garanto que nenhum deles se preocupou em ligar pra você oferecendo ajuda quando não sobra dinheiro para comprar um tênis para o filho ir para o colégio, ou, duvido que algum deles tenha oferecido ajuda nos momentos mais difíceis que você enfrentou, e, mais, tenho certeza que nunca ligaram pra você oferecendo apoio para uma consulta médica particular para seu filho, enquanto você reclamava da demora no posto de saúde. Por que eles não fazem isso?

A resposta é simples: porque eles são personagens, e você é real. Não se deixe inverter, tornando-se um mero expectador da própria vida. Você é real e tem que sair do sofá e dos capítulos da novela para se tornar protagonista do filme da sua vida, da sua carreira, do seu destino e escrever belos capítulos no livro da sua história.

Firme campeão, campeã. O carro, a casa, o conforto, a vida que você deve sonhar não está nas novelas. Tudo isso está nos livros, cursos e na sua evolução constante. Mais livros e menos novela.

Grande abraço, fique com Deus, sucesso e felicidades sempre.

Afegão transforma consertos de caminhões em poesia e música

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Matiullah Turab fala das ferramentas e da sua ‘dor’ durante o dia. ‘O trabalho de um poeta não é escrever sobre o amor’, disse

Publicado no Extra Alagoas

Afegão transforma consertos de caminhões em poesia e música

Afegão transforma consertos de caminhões em poesia e música

Um afegão está “transformando” o conceito conhecido por poesia. Em vez de falar de natureza e romance, Matiullah Turab retrata o seu trabalho e a sua dor em um estilo poético e musical no país.

O rapaz, filho de um agricultor, faz a sua poesia baseado nos consertos que faz na sua oficina, principalmente caminhões, segundo o jornal “The New York Times”.

“O trabalho de um poeta não é escrever sobre o amor”, declarou. “O trabalho de um poeta não é escrever sobre flores. Um poeta deve escrever sobre o sofrimento e a dor das pessoas”, disse ao jornal.

Matiullah Turab, de 44 anos, diz que oferece em sua poesia uma voz para os afegãos crescidos sobre a guerra e seus autores cínicos, como os norte-americanos, o Talibã, o governo do Afeganistão e do Paquistão.

Versões gravadas de poemas do Sr. Turab se espalharam no país, especialmente entre seus companheiros étnicos, a quem ele chama de campeões. O homem também tem uma estreita ligação com Hezb-i-Islami – parte islâmico do partido político, que faz parte do grupo militante.

Apesar de suas “aflições” sociais serem “estreitas e divisionistas”, a sua poesia tem apelo de massa, de acordo com o “The New York Times”. Mr. Turab reserva sua caridade para os afegãos comuns, abatidos pela corrupção e decepção que vivem nesta última década.

“Não há nenhum político genuíno no Afeganistão”, disse ele, quebrando brevemente um raro sorriso. “Até onde eu sei, os políticos precisam do apoio do povo, e nenhum desses políticos têm isso. Para mim, eles são como os acionistas de uma empresa. Eles só pensam em si mesmos e os seus lucros”, relatou ao jornal.

Mesmo com seu desprezo pela política, Mr. Turab manteve-se popular nos “cantos influentes” do governo. O presidente Hamid Karzai até o convidou recentemente para o palácio presidencial em Cabul. “O presidente gostou da minha poesia e me disse que eu tinha uma excelente voz, mas eu não sei por que isso”, disse ele. “Eu critico ele”.

O poeta afegão, apesar de conseguir difundir sua “poesia” pelo país, é quase analfabeto. Embora ele possa, com dificuldade, ler cópias impressas, ele não consegue nem escrever nem ler a escrita dos outros, revelou. Ele disse que constrói sua poesia em sua cabeça e que confia na memória para lembrá-la.

Do G1, em São Paulo
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