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País com a melhor educação do mundo, Finlândia aposta no professor

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Professores possuem mestrado e têm liberdade para criar currículo.
Finlândia lidera rankings internacionais de qualidade de ensino.

Universidade na Finlândia (Foto: AFP)

Universidade na Finlândia (Foto: AFP)

Vanessa Fajardo, no G1

O país com a melhor educação do mundo é a Finlândia. Por quatro anos consecutivos, o país do norte da Europa ficou entre os primeiros lugares no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), que mede a qualidade de ensino. O segredo deste sucesso, segundo Jaana Palojärvi, diretora do Ministério da Educação e Cultura da Finlândia, não tem nada a ver com métodos pedagógicos revolucionários, uso da tecnologia em sala de aula ou exames gigantescos como Enem ou Enade. Pelo contrário: a Finlândia dispensa as provas nacionais e aposta na valorização do professor e na liberdade para ele poder trabalhar.

Jaana Palojärvi esteve em São Paulo nesta quinta-feira (23) para participar de um seminário sobre o sistema de educação da Finlândia, no Colégio Rio Branco. A diretora do ministério orgulha-se da imagem de seu país “tetracampeão” do Pisa. O ranking é elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), e aplicado a cada três anos com ênfase em uma área do conhecimento. No último, em 2010, o Brasil ficou na 53ª colocação entre 65 países. Uma nova edição do Pisa será lançada em dezembro.

1Na Finlândia a educação é gratuita, inclusive no ensino superior. Só 2% das escolas são particulares, mas são subsidiadas por fundos públicos e os estudantes não pagam mensalidade. As crianças só entram na escola a partir dos 7 anos. Não há escolas em tempo integral, pelo contrário, a jornada é curta, de 4 a 7 horas, e os alunos não têm muita lição de casa. “Também temos menos dias letivos que os demais países, acreditamos que quantidade não é qualidade”, diz Jaana.

A diretora considera que o sistema finlandês de educação passou por duas grandes mudanças, uma na década de 70 e outra em 90. A partir do início da década de 90, a educação foi descentralizada, e os municípios, escolas e, principalmente, os professores passaram a ter mais autonomia.

“Fé e confiança têm papel fundamental no sistema finlandês. Descentralizamos, confiamos e damos apoio, assim que o sistema funciona. O controle não motiva o professor a dar o melhor de si. É simples, somos pragmáticos, gostamos de coisas simples.”

Jaana Palojärvi é diretora do Ministério da Educação da Finlândia (Foto: Vanessa Fajardo/ G1)

Jaana Palojärvi é diretora do Ministério da Educação
da Finlândia (Foto: Vanessa Fajardo/ G1)

O governo também não costuma inspecionar o ensino das 3.000 escolas que atendem 55.000 estudantes na educação básica. O material usado e o currículo são livres, por isso podem variar muito de uma unidade para outra.

“Os professores planejam as aulas, escolhem os métodos. Não há prova nacional, não acreditamos em testes, estamos mais interessados na aprendizagem. Os professores têm muita autonomia, mas precisam ser bem qualificados. Esta é uma profissão desejada na Finlândia.”

Os docentes da Finlândia ganham, em média, 3 mil euros por mês, em torno de R$ 8 mil reais, considerado um salário “médio” para o país. Para conquistar a vaga é preciso ter mestrado e passar por treinamento. O salário aumenta de acordo com o tempo de casa do professor, mas não há bônus concedidos por mérito. A remuneração não é considerada alta. “Em compensação, oferecemos ao professor um ambiente de trabalho interessante.”

Os professores têm muita autonomia, mas precisam ser bem qualificados. Esta é uma profissão desejada na Finlândia”
Jaana Palojärvi, diretora do Ministério da Educação da Finlândia

Jaana diz que a educação na Finlândia faz parte de uma cultura, resultado de um trabalho longo, porém, simples, mas evita dar lições ou conselhos a outras nações. “Temos muitas diferenças em relação ao Brasil, que é enorme, somos um país pequeno de 5,5 milhões de habitantes. Na Finlândia não temos a figura do Estado, a relação fica entre governo, município e escola. O sistema é muito diferente. A Finlândia não quer dar conselhos, nós relutamos muito em relação a isso”, afirma.

Mais do que o bom resultado do país no Pisa, Jaana comemora a equidade entre as escolas – também apontada pelo exame. “Para nós, é o mais importante. Queremos que as escolas rurais localizadas nas florestas, ou do Norte que ficam sob a neve em uma temperatura negativa de 25 graus, tenham o mesmo desempenho das da capital, das áreas de elite. E (este desempenho) é bem semelhante.”

Entre todos os países testados pelo Pisa, a Finlândia tem a menor disparidade entre as escolas. O resultado tem explicação. Lá, os alunos mais fracos estão sob a mira dos docentes. “Os professores não dedicam muita atenção aos bons alunos, e sim aos fracos, não podemos perdê-los, temos de mantê-los no sistema.”

‘Tecnologia é ferramenta, não conteúdo’

Tecnologia também não é o forte das escolas finlandesas, que preferem investir em gente. “Não gostamos muito de tecnologia, ela é só uma ferramenta, não é o conteúdo em si. Tecnologia pode ser usada ou não, não é um fator chave para a aprendizagem.”

A educação básica dura nove anos. Só 2% dos estudantes repetem o ano, o índice de conclusão é de 99,7%. O segredo do sucesso não está ligado ao investimento, segundo Jaana, que reforça que o país investe apenas 6% de seu PIB no segmento. “O sistema de educação gratuito não sai tão caro assim, é uma questão de organização”, afirma.

A diretora do ministério da Finlândia esteve na terça-feira (21) em uma audiência pública na Comissão de Educação e Cultura do Senado, em Brasília, para apresentar o modelo de educação do seus país aos parlamentares brasileiros.

Jaana Palojärvi, diretora do Ministério da Educação da Finlândia, apresenta o sistema finlandês em São Paulo (Foto: Vanessa Fajardo/ G1)

Jaana Palojärvi, diretora do Ministério da Educação da Finlândia, apresenta o sistema finlandês em São Paulo (Foto: Vanessa Fajardo/ G1)

Divulgada a programação completa da Flip

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Evento literário em Paraty acontece entre 3 e 7 de julho
Edição deste ano terá mais convidados de fora do mundo literário, diz curador
O polêmico escritor francês Michel Houellebecq é um dos destaques

A programação da Flip foi divulgada na manhã desta quinta-feira Marcelo Piu - 23.09.2012 / O Globo

A programação da Flip foi divulgada na manhã desta quinta-feira Marcelo Piu – 23.09.2012 / O Globo

Mauricio Meirelles, em O Globo

RIO – Mais do que antes, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece entre os dias 3 e 7 de julho e vai homenagear os 60 anos de Graciliano Ramos, terá convidados de fora do mundo literário, anunciou nesta quinta-feira a organização do evento. A programação completa foi divulgada nesta manhã, em entrevista coletiva.

— Ter pessoas de fora da literatura não é uma novidade, mas acho que nesta edição essa característica fica mais marcada — disse Miguel Conde, curador da Flip. — Este ano, quisemos participantes que exploram os limites do discurso literário, seja em diálogo, por exemplo, com a poesia ou a pesquisa histórica. São os autores mais interessantes que li nos últimos anos.

É o caso do crítico de arquitetura da revista “New Yorker” Paul Goldberger, que vai debater com o arquiteto português Eduardo Souto de Moura, vencedor do Prêmio Pritzker em 2011, considerado o Nobel da área. Também da cantora Maria Bethânia, que participa de um recital em homenagem ao poeta português Fernando Pessoa, junto da professora Cleonice Berardinelli.

Na área do cinema, o destaque é o aniversário de 80 anos do documentarista Eduardo Coutinho, que participa sozinho de uma mesa no dia 6 de julho, sábado. A outra mesa sobre a sétima arte traz um velho conhecedor da obra de Graciliano Ramos: o cineasta e imortal da Academia Brasileira de Letras Nelson Pereira dos Santos, que dirigiu “Vidas secas”, baseado no livro do autor homenageado.

Outro nome forte fora da literatura é o historiador de arte T. J. Clark. Ele vai falar sobre o quadro “Guernica”, de Picasso.

Sábado é dia dos medalhões estrangeiros

Sábado, 6 de julho, promete ser um dos dias mais disputados da tenda dos autores da Flip. Nesse dia, está o polêmico autor francês Michel Houellebecq, autor de “O mapa e o território”, lançado no Brasil pela Record. Há duas edições, ele confirmou participação, mas cancelou em cima da hora.

No mesmo dia, está a autora americana Lydia Davis, que ganhou na última quarta-feira o Man Booker Prize, um dos principais prêmios literários do mundo. Ela divide a mesa com o inglês John Banville, autor de “Luz antiga”, que a Globo Livros lança dia 8 de junho. Banville era um velho convidado, mas nunca tinha vindo.

Depois do sucesso do poeta sírio Adonis ano passado, a Flip aposta em outro poeta árabe: Tamim Al-Barghouti, autor egípcio-palestino conhecido por sua atuação na Primavera Árabe. Ele participa de mesa no último dia, 7 de julho.

Novos nomes da poesia brasileira confirmados

Três dos nomes mais elogiados da poesia brasileira contemporânea consolidam seu reconhecimento com o convite para a Flip. É o caso da mineira Ana Martins Marques, autora de “A arte das armadilhas” (Companhia das Letras), que divide a mesa, no dia 4 de julho, quinta-feira, com as poetas Alice Sant’Anna e Bruna Beber.

Entres os nomes da nova geração, estão os romancistas Daniel Galera, José Luiz dos Passos e Paulo Scott. Daniel escreveu o livro “Barba ensopada de sangue” (Companhia das Letras) e José é autor de “O sonâmbulo amador” (Objetiva), ambos elogiados pela crítica ano passado. Paulo Scott é autor de “O habitante irreal” (Objetiva), lançado no final de 2011, que também foi bem recebido.

Diretor da Flip reclama dos preços abusivos dos hotéis

O diretor-geral do festival, Mauro Munhoz, reclamou dos preços abusivos dos hotéis na cidade durante o evento.

— Tentamos, desde a primeira edição, conscientizar os empresários locais para não cobrar tão caro. Se não tivéssemos esse trabalho, estaria muito pior a situação. Com os preços cobrados, não é como se eles matassem a galinha de ovos de ouro, mas a maltratassem — afirma Mauro. — Acho que seria o momento de o Ministério do Turismo e a secretaria estadual de turismo fazerem um trabalho.

Os hotéis caros não são a única causa da subida no orçamento da Flip ao longo dos últimos anos. Este ano, ele será R$ 8,6 milhões, quase o mesmo do ano passado (R$ 8,4 milhões) e maior que 2011 (R$ 6,8 milhões). Munhoz afirma que os equipamentos para eventos culturais, como tendas e equipamentos de som, subiram de preço acima da inflação nos últimos anos. Os ingressos para das tendas tiveram um reajuste.

Venda de ingressos começa em 10 de junho

Os ingressos para as conferências da Flip poderão ser adquiridos a partir das 10h do dia 10 de junho, pelo site Ingresso Rápido, em pontos de venda indicados no mesmo endereço e pelo telefone (4003-1212). A partir das 9h do dia 3 de julho, a venda acontece apenas na bilheteria oficial da Flip, em Paraty. As entradas para as mesas realizadas na tenda dos autores custarão R$ 46. Para assistir à transmissão na tenda do telão, R$ 12, e para o show de abertura R$ 22 (pista) e R$ 46 (cadeira). Há limite de dois ingressos por pessoa de acordo com o CPF do comprador.

Veja a programação completa:

Quarta 3 de julho

19h – conferência
de abertura com Milton Hatoum
Graciliano Ramos:
aspereza do mundo e
concisão da linguagem

21h30m – show de abertura
Gilberto Gil

Quinta 4 de julho

10h – mesa 1
O dia a dia debaixo d’água
Alice Sant’Anna
Ana Martins Marques
Bruna Beber

12h – mesa 2
As medidas da história
Paul Goldberger
Eduardo Souto de Moura

14h30m – mesa Zé Kléber
Culturas locais e globais
Marina de Mello e Souza
Gilberto Gil

17h15m – mesa 3
Formas da derrota
José Luiz Passos
Paulo Scott

19h30m – mesa 4
Olhando de novo para Guernica, de Picasso
T. J. Clark

Sexta-feira 5 de julho

10h – mesa 5
Graciliano Ramos:
ficha política
Randal Johnson
Sergio Miceli
Dênis de Moraes

12h – mesa 6
O prazer do texto
Lila Azam Zanganeh
Francisco Bosco

15h – mesa 7
A vida moderna em Kafka e Baudelaire
Roberto Calasso
Jeanne Marie Gagnebin

17h15m – mesa 8
Ficção e confissão
Tobias Wolff
Karl Ove Knausgård

19h30m – mesa 9
Lendo Pessoa à beira-mar
Maria Bethânia
Cleonice Berardinelli

21h30m – mesa 10
Uma vida no cinema
Nelson Pereira dos Santos
Miúcha

Sábado 6 de julho

10h – mesa 11
Maus hábitos
Nicolas Behr
Zuca Sardan

12h – mesa 12
Encontro com Eduardo Coutinho

15h – mesa 13
O espelho da história
Aleksandar Hemon
Laurent Binet

17h15m – mesa 14
Os limites da prosa
John Banville
Lydia Davis

19h30m – mesa 15
Encontro com Michel Houellebecq

Domingo 7 de julho

11h – mesa 16
Graciliano Ramos: políticas da escrita
Wander Melo Miranda
Lourival Holanda
Erwin Torralbo Gimenez

13h – mesa 17
Tragédias no microscópio
Daniel Galera
Jérôme Ferrari

15h – mesa 18
Literatura e revolução
Tamim Al-Barghouti
Mamede Mustafa Jarouche

17h – mesa 19
A arte do ensaio
Geoff Dyer
John Jeremiah Sullivan

18h45m – mesa 20
Livro de cabeceira

‘Tive dificuldades, mas superei ‘, diz down formada em Biologia na Bahia

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Amanda Amaral Lopes, 24 anos, mora na cidade de Vitória da Conquista.
Segundo entidades, este é o primeiro caso do tipo registrado no estado.

Lílian Marques, no G1

Foto de Amanda no convite de formatura. (Foto: Arquivo Pessoal)

Foto de Amanda no convite de formatura.
(Foto: Arquivo Pessoal)

Amanda Amaral Lopes, 24 anos, vai se formar em licenciatura em Biologia, nesta quinta-feira (23). Ela mora em Vitória da Conquista, cidade no sudoeste da Bahia, e é a primeira pessoa com síndrome de down, no estado, a concluir um curso superior. A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), em Salvador, e a Associação Baiana de Síndrome de Dow (Ser Down) afirmam que esse é o pirmeiro registro que as duas instituições tomaram conhecimento no estado. No Brasil já houve outros casos, afirmam as duas associações.

Para a mãe da jovem, Alba Regina Amaral, a formatura de Amanda é uma conquista de toda a família. O apoio dos familiares foi fundamental para que ela seguisse com os objetivos planejados. “É muito importante, foi uma conquista de todos. Todo mundo sempre participou, incentivou tudo. Sempre foi iniciativa dela, a gente sempre apoiou, mas ela fez as escolhas por ela. A dificuldade sempre existe, mas, na medida do possível, a gente precisa superar”, disse Alba.

A mãe de Amanda destacou que o momento também é triste porque o pai da jovem morreu há pouco tempo, e não pôde compartilhar do momento de alegria da filha ao lado da família.

A colação de grau de Amanda é na noite desta quinta-feira (23). Ela cursou Biologia pela metodologia de ensino à distância (Ead), em uma faculdade privada. Pelo menos uma vez na semana, a jovem tinha aulas presenciais e diz que contou muito com o apoio de colegas e professores para superar dificuldades.

Antes de fazer Biologia, Amanda queria ser jornalista, mas como o curso não formou turma na faculdade escolhida, ela optou pela área de Ciências da Natureza. “A sensação [de se formar] é ótima, é a melhor possível, estou muito feliz. Na verdade, quando eu era criança eu lia muita poesia e pensei em ser jornalista, mas foi a força do destino me colocou na área de biologia. A professora [de biologia no Ensino Médio] me incentivou muito”, revela.

Amanda nasceu na Bahia, mas morou durante boa parte da vida escolar em Divinópolis, em Minas Gerais. Lá ela foi alfabetizada em escolas convencionais da rede particular e cursou o Ensino Fundamental todo em uma escola municipal, também convencional. A jovem também sempre fez acompanhamento com fisioterapeuta e fonoaudiólogo. A mãe da jovem ressaltou toda a atenção que a agora licenciada em Biologia teve durante a vida escolar. “Ela sempre foi muito estimulada, desde pequena. Amanda foi alfabetizada por bons professores, teve bons profissionais acompanhando ela”, disse Alba Regina Amaral.

Amanda diz que sempre que tinha dificuldades, mesmo na escola, contava com o apoio dos colegas e professores, o que a ajudou a superar qualquer tipo de obstáculo. Ela define a relação com os colegas e educadores como “ótima e legal”. Sobre os preconceitos sofridos, ela afirma que preferiu relevar e não destaca nenhum. “Tive dificuldades, mas superei com meus colegas de de sala e professores, tanto na escola quanto na universidade. Tinha dificuldade em matemática”, afirma.

No convite de formatura, Amanda conclui sua mensagem agradecendo a familiares, amigos, colegas e professores pela ajuda em realizar o seu grande sonho: “aprender e ensinar”.

Amanda ainda não teve contato com a profissão fora da sala de aula. Antes de procurar um trabalho na área, ela quer alcançar outro objetivo, o de fazer uma pós-graduação na área de Libras (Língua Brasileira de Sinais). “Quero ajudar os outros que têm dificuldade”, diz.

A imortal baiana do candomblé

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Mãe Stella é a primeira ialorixá na Academia de Letras da Bahia

Os artigos de Mãe Stella para o jornal A Tarde são escritos à mão (Edson Ruiz)

Os artigos de Mãe Stella para o jornal A Tarde são escritos à mão (Edson Ruiz)

Cynara Menezes, na Carta Capital

Não sem espanto a mãe de santo Stella de Oxóssi recebeu a notícia de sua eleição, na quinta-feira 25, para a cadeira 33 da Academia de Letras da Bahia, lugar ocupado no passado pelo poeta Castro Alves. Ao contrário do hábito dos candidatos nesta e em outras praças, Stella não tinha feito campanha. “Levei um choque, pois é uma coisa que não é comum”, diz a ialorixá do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, primeira mãe de santo acadêmica do País. “Depois vi que foi a comunidade que proporcionou isso e achei uma recompensa.” A posse será em setembro e ela confessa não saber exatamente qual seu papel na Academia.

O título não é meramente honorífico. Mãe Stella publicou seis livros, bem mais do que alguns imortais da Academia Brasileira. Nascida Maria Stella Azevedo dos Santos, formou-se em Enfermagem pela Escola Bahiana de Medicina. Foi enfermeira durante 30 anos até ser escolhida, em 1976, mãe de santo do Ilê Axé Opô Afonjá, uma das casas de candomblé mais importantes e tradicionais do estado, fundada em 1910. O último de seus livros é uma antologia dos artigos publicados quinzenalmente no jornal A Tarde. Escreve à mão e suas “filhas” digitam o texto. “Sou analfabeta em computador.”

Na quinta-feira 2, a ialorixá completou 88 anos. Ela desce as escadas do sobrado onde vive com certo esforço, mas sem o apoio de ninguém. Por causa da dificuldade de locomoção, passa a maior parte do tempo no andar de cima da casa. Só desce para acompanhar a cerimônia de culto a Xangô, orixá da Justiça, às quartas-feiras, ou para receber visitas. Seu cérebro continua, porém, afiado. “Envelhecer é uma briga constante entre o que a mente pode e o corpo não deixa.”

A ialorixá tem o costume de assistir ao noticiário na televisão, ler jornal e revistas. “Gosto de saber das coisas. Se a gente não se informa, vira inocente útil.” Em suas colunas de jornal, conta histórias antigas, fala de espiritualidade, do candomblé e da atualidade. Em um dos textos mais recentes, criticou os sacerdotes que confundem religiosidade com fanatismo e aqueles que utilizam a religião como meio de enriquecimento, inclusive no próprio candomblé. “Alguns acham que o barato da religião é ficar rico baseado na crença alheia”, provoca. “Mas religião não é meio de vida.”

Bem informada, ela acompanha as polêmicas entre líderes evangélicos e homossexuais. O candomblé não é contra os gays e nele não existe a palavra pecado, explica. “Se Deus consentiu que existisse, quem pode ser contra a homossexualidade? Se é um assunto que não prejudica o outro, temos a obrigação de ser felizes.” Ela desmente, com bom humor, a crença frequente entre gays de que o orixá Logun-Edé seria homossexual, por aparecer na tradição como meio homem, meio mulher. “Logun-Edé foi morar com a avó Iemanjá e, como era o único homem no pedaço, passou a se vestir como as mulheres de lá. É mito que seja gay. Mas é um bom mito.”

Na Bahia, os seguidores do candomblé sofrem com o preconceito disseminado por pastores evangélicos, mas esse não é assunto do seu interesse. “Não tenho tempo para perder falando desse tipo de gente, para fazer guerra santa”, diz. “Porém, até Jesus, se fosse deste tempo, iria procurar a defesa dele, não ia sofrer calado.” Se a líder espiritual não fala, outros integrantes do terreiro estão atentos e participam das articulações políticas contra a intolerância religiosa. Mãe Stella lembra de quando Mãe Aninha, a fundadora do Opô Afonjá, foi ao Rio de Janeiro, em 1934, se queixar a Getúlio Vargas da proibição ao candomblé, e conseguiu. O Decreto 1.202 instituiu a liberdade de culto no País.

Tombado como Patrimônio Histórico em 1999, o Ilê Axê Opô Afonjá foi fundado por Mãe Aninha em uma enorme fazenda, que ocupava quase todo o atual bairro. Chamava-se Roça de São Gonçalo. Mãe Aninha, com medo de o terreno ser confiscado pela polícia, prática comum na época, foi ao cartório registrar a propriedade. Quando o funcionário perguntou “Em nome de quem?”, a mãe de santo respondeu: “Xangô”. Como não era possível, Mãe Aninha criou a Sociedade Cruz Santa do Ilê Axé Opô Afonjá, com ata, presidente e tudo o mais, em nome da qual as terras acabaram registradas.

“Ela era uma mulher de visão. Costumava dizer que queria ver todos os filhos a serviço de Xangô com anel no dedo, ou seja, formados”, conta Mãe Stella. Em honra à matriarca, a escola Eugênia Anna dos Santos funciona desde 1986 no terreiro. Atualmente, 350 crianças cursam o ensino fundamental. Além das aulas de matemática, português e demais disciplinas, elas aprendem história e cultura afro-brasileira, com noções da língua iorubá. Com o tempo, o terreno de Mãe Aninha foi invadido e se transformou em bairro. Na parte interna do terreiro, murado para evitar novas invasões, vivem atualmente cerca de cem famílias.

Mãe Stella é a quinta sucessora de Aninha. Depois da fundadora vieram Mãe Bada, Mãe Senhora e Mãe Ondina – a tradição do Opô Afonjá é de vitaliciedade e matriarcado. Stella, cuja mãe morreu quando tinha 7 anos, foi criada por um casal de tios, uma família de bens, “abastada”, como descreve. Seu tio era tabelião e a menina negra estudou em boas escolas da capital baiana. Aos 13 anos, foi iniciada no candomblé a partir da sugestão de uma conhecida. Nas biografias postadas na internet, diz-se que Stella apresentava então um “comportamento não esperado”. Pergunto o que era exatamente. Mediunidade?

“Que nada, era traquinagem. Eu, ao contrário das meninas da minha época, gostava de jogar bola na rua, subir no bonde. Além disso, falava sozinha, tinha meus amiguinhos que ninguém via. Aí alguém comentou: ‘Ela tem de fazer orixá’.” A menina foi levada, primeiro, ao terreiro do Gantois, onde esperou muito tempo e não foi atendida. A tia, brava, acabou por levá-la para “fazer orixá” no Opô Afonjá, com Mãe Senhora. “Mãe Menininha costumava dizer: ‘Você só não fez santo aqui por causa de um recado mal dado’.”

Tanto o Gantois quanto o Opô Afonjá sempre foram frequentados por artistas e políticos. O escritor Jorge Amado, o antropólogo Pierre Verger e o artista plástico Carybé costumavam ir até lá para a cerimônia ou simplesmente para bater papo com Mãe Stella. De Carybé ela recorda o jeito brincalhão. “Era um molequinho.” Ao lado de Verger, a mãe de santo conheceu o Benin, mas se encantou mesmo foi com a Nigéria, terra de seus ancestrais.

“A Nigéria é Salvador, o clima, os costumes, as árvores. Uma vez dormiram uns nigerianos aqui em casa, depois de viajar muitas horas e um deles, ao acordar, olhou pela janela e disse: ‘Andei tanto para saltar no mesmo lugar’”, gargalha. Sobre os políticos, fala que recebeu todos, de Antonio Carlos Magalhães a Jaques Wagner, mas prefere não dizer o nome de seu predileto, para não provocar ciúmes. Filha de Oxóssi, orixá caçador, Mãe Stella diz ter incorporado deste o hábito de não falar muito. “Caçador fica atento, não fala. Quem fala muito se perde. Os antigos diziam que quem fala muito dá bom dia a cavalo.” Ela adora provérbios, tema de um de seus livros. “Sou uma menina tímida.”

Sobre a morte, Mãe Stella conta que, no candomblé, o espírito vira ancestral. “Não vou dizer que não me importo de morrer. Me importo, sim. Não gosto de morrer porque gosto de viver.” E a sabedoria conquistada com o tempo, Mãe Stella, é verdade? “É uma obrigação. Se Deus deu esse privilégio de viver tantos anos, como não aproveitar? Agora, a gente está sempre aprendendo, ninguém é completamente sabido”, ensina. “Aprendo muito com os jovens e com as crianças. Eles têm cada saque tão interessante.”

dica do Sidnei Carvalho de Souza

Ato na USP reúne alunas de gravata, rapazes de top e ‘pebolim de saias’

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Evento ‘USP de saia’, nesta quinta, teve 3 mil adesões no Facebook.
Ideia do ‘saiaço’ é refletir sobre padrões e preconceito, dizem estudantes.

Estudantes disputam partida de pebolim no Centro Acadêmico da Escola de Comunicações e Artes da USP (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

Estudantes disputam partida de pebolim no Centro Acadêmico da Escola de Comunicações e Artes da USP (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

Ana Carolina Moreno, no G1

Estudantes da Universidade de São Paulo promoveram nesta quinta-feira (16) o ato “USP de saia” em apoio ao estudante Vitor Pereira, que foi ofendido pela internet depois de vestir saia para ir à aula no campus da USP na Zona Leste. Pelas ruas do campus da Cidade Universitária, na Zona Oeste de São Paulo, foi possível encontrar homens usando saia, top e até vestido e mulheres de gravata. Teve até “pebolim de saias”. O ato também teve adesão nos outros campi da USP, como o da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, USP Leste, Ribeirão Preto e São Carlos.

Pelo Facebook, mais de 3 mil pessoas confirmaram presença no “saiaço”. Cinco campi da instituição aderiram à manifestação simultânea, mas o “saiaço” também saiu das fronteiras do estado. Estudantes da Universidade Estadual de Santa Catarina (Udesc) também planejaram uma manifestação semelhante nesta quinta. Na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), o preconceito será debatido na sexta-feira (17), quando se celebra o Dia Mundial de Combate à Homofobia.

Calouros de física, Yasmin e Rafael aderiram ao ato na USP (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

Calouros de física, Yasmin e Rafael aderiram ao
ato na USP (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

As organizadoras e organizadores do evento na USP afirmaram ao G1 que “esse tipo de movimento já vinha timidamente acontecendo” na instituição. Os estudantes da USP se reúnem em grupos específicos, como a Frente GLBTT, que debatem diversos temas e propõem ações para incentivar a reflexão.

De acordo com o grupo por trás da manifestação, “o caso do estudante da EACH foi apenas um dos muitos atos de repressão impostos àqueles que desejam quebrar padrões”.

Segundo eles, o objetivo é fomentar uma discussão ampla sobre as questões de gênero, não só em relação às roupas, mas aos papeis sociais atribuídos aos gêneros como um todo.

“Nossa ideia é confrontar a realidade, mostrar que as coisas podem ser diferentes, nenhum padrão é eterno. Os costumes são adquiridos social e historicamente, assim eles se transformam. Na idade média uma mulher que usasse roupas de homem seria condenada à morte, era uma heresia gravíssima.”

Na USP Leste, o estudante Vítor Pereira (de saia amarela) desfila com os colegas (Foto: Sérgio Castro/Estadão Conteúdo)

Na USP Leste, o estudante Vítor Pereira (de saia amarela) desfila com os colegas (Foto: Sérgio Castro/Estadão Conteúdo)

No campus Butantã, o “saiaço” dura todo o dia: os alunos homens foram convidados a vestir saias e vestidos, enquanto as mulheres participantes planejaram vestir roupas convencionalmente atribuídas aos homens, como paletó e gravata. O evento será encerrado com um encontro às 18h desta quinta na Praça do Relógio da Cidade Universitária, na Zona Oeste de São Paulo, no período de intervalo entre os aluns que têm aulas à tarde e os que estudam à noite.

Estudantes da Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, descem as escadas usando saia (Foto: Felipe Rau/Estadão Conteúdo)

Estudantes da Faculdade de Direito da USP, no
Largo São Francisco, descem as escadas usando
saia (Foto: Felipe Rau/Estadão Conteúdo)

Olhares ostensivos

Os alunos de publicidade Daniel Drumond, de 19 anos, e Pedro Bisordi, de 18, jogaram pebolim de saias no início da tarde. Daniel afirmou que é a sua primeira vez com saia. “Acho que estou muito bonito, porque estava todo mundo me olhando de cima a baixo”, afirmou ele sobre sua visita ao restaurante universitário.

O estudante disse que se incomodou com os olhares ostensivos. Ele emprestou a saia de uma colega após a aula, na manhã desta quinta-feira. No banheiro, ele diz que um funcionário da instituição o olhou de maneira reprovadora. Um dos primeiros a chegar ao restaurante, ele acabou virando alvo de algumas risadas e chacotas e, em determinado momento, parou de cruzar os olhos com as outras pessoas. “Só fiquei de boa porque estava com os meus amigos.”

Aluna de artes cênicas emprestou a saia para o colega participar do ato (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

Aluna de artes cênicas emprestou a saia para o
colega participar do ato
(Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

Os estudantes de artes cênicas Pedro Oliveira, de 20 anos, e Felipe Lima, de 22, esqueceram que hoje era o dia de saia na USP. Felipe, porém, decidiu pegar a saia que a colega Juliana Prado, de 20 anos, trouxe para um ensaio. “Dá uma ventilada, é muito gostoso”, disse ele.

Assim como Felipe, a maioria dos meninos emprestaram a peça de roupa de alguma colega. Yasmin conta que seu pai lhe emprestou a gravata, já com o nó feito, para o ato desta quinta.

Leonardo Rudi, aluno de relações públicas que vestiu uma saia azul emprestada de uma amiga, conhece o estudante Vitor Pereira, da USP Leste, e condenou as ofensas recebidas por ele. O aluno defende que a universidade tem que ter um papel transgressor. “É o papel mais importante dela”, afirmou ele.

Os organizadores do evento defendem que “é função dos universitários que detêm o privilégio de estudar em uma universidade pública não apenas estudar, ganhar seu próprio diploma e fazer uma carreira”. Eles afirma que o alto custo da universidade pública só é justificado por esse retorno que esses estudantes dão à sociedade. “Se é uma questão que se mostra importante de ser discutida e alvo de preconceitos, como os estereótipos de gênero, a universidade é o lugar ideal (embora não o único) para esse debate se iniciar.”

'Saiaço' na USP reúne alunos de saia, top e vestido e meninas de gravata (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

‘Saiaço’ na USP reúne alunos de saia, top e vestido e meninas de gravata (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

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