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Posts tagged Racismo

Professora terá de pagar R$ 10 mil após chamar aluno de ‘negro burro’

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Governo do Estado de São Paulo foi condenado no mesmo processo.
Caso aconteceu no ano de 2008 em escola pública de Guarujá (SP).

Publicado no G1

Escola Estadual Prof Raquel de Castro Ferreira em Guarujá (Foto: Reprodução/Google Street View)

Escola Estadual Prof Raquel de Castro Ferreira
em Guarujá (Foto: Reprodução/Google Street View)

Uma professora e o Governo do Estado de São Paulo foram condenados pela Justiça a pagar indenização, de R$ 10 mil cada, para um aluno de uma escola pública em Guarujá, no litoral paulista, e à mãe dele, por conta de injúrias raciais.

Em 2008, a professora da Escola Estadual Professora Raquel de Castro Ferreira disse aos estudantes, durante uma aula, que ‘pessoas negras são burras e não conseguem aprender’. O comentário considerado ofensivo foi gravado pelo celular de um dos alunos.

Apesar do Estado ter entrado com recurso argumentando que o caso não passou de um “mero aborrecimento”, o desembargador Rebouças de Carvalho não acatou o pedido. Na última quinta-feira (17), ele confirmou a condenação tanto da professora, quanto do governo.

“Os fatos ocorreram no interior de uma escola pública e motivado por comentário infeliz e impróprio, ainda que episódico, e vindo de uma professora, ganha ainda contornos mais graves, isso porque a escola é o local da convivência, do incentivo à liberdade da tolerância e do respeito e, ainda, da promoção da dignidade humana. Referido tipo de comportamento de quem tem o dever de ensinar não pode ser admitido, devendo ser coibido”, ponderou.

A decisão da 9ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo confirmou a sentença que já havia sido assinada pelo juiz Marcelo Machado da Silva, da 4ª Vara Cível de Guarujá. Entre as provas colhidas durante o processo, está a gravação contida em um celular demonstrando que a professora se referiu “às pessoas de pele negra como sendo pessoas ‘burras’ e que não conseguem aprender”.

‘A professora não gostava de pobre’: bolsistas criam página contra preconceito em universidade carioca

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Gabriel Gomes, Lucas Clementino e Michelle Egito (da esq. para a dir.), três dos oito integrantes do "Bastardos da PUC-Rio"; para eles, alunos bolsistas precisam entender que universidade também é "100% deles". - Jefferson Puff/BBC Brasil

Gabriel Gomes, Lucas Clementino e Michelle Egito (da esq. para a dir.), três dos oito integrantes do “Bastardos da PUC-Rio”; para eles, alunos bolsistas precisam entender que universidade também é “100% deles”. – Jefferson Puff/BBC Brasil

 

, na BBC Brasil

“Você é pobre? E bolsista? Não sabia que a PUC misturava o tipo de gente que estuda Relações Internacionais, até porque é um curso que exige inglês, né?”

Foi assim que um aluno da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, a PUC-Rio, bolsista do ProUni e morador de um bairro do subúrbio carioca, diz ter sido recebido por um colega no primeiro semestre de aulas, durante um debate sobre cotas raciais.

“Eu não consegui dizer nada, e meus colegas também não disseram nada. Foi a primeira de muitas vezes em que pensei em largar a PUC”, conta o estudante, hoje formado pela tradicional universidade privada carioca, considerada de elite – mas onde 51% dos 12.760 alunos são bolsistas.

O relato do aluno está na página “Bastardos da PUC-Rio”, que em menos de um mês já tem 6 mil curtidas no Facebook.

Alusão ao termo “filhos da PUC”, usado pelos alunos e professores da instituição, o nome da página foi escolhido pelo grupo justamente para deixar claro que eles não se sentem acolhidos nem tratados como iguais aos estudantes pagantes.

Todos os depoimentos são anônimos.

“Tudo começou num grupo de WhatsApp que a gente criou justamente para falar sobre esse tipo de humilhação e discriminação por sermos pobres, pretos e de periferia ou favela”, conta Gabriel Gomes, de 22 anos, aluno do 7º período do curso de Publicidade e bolsista do ProUni.

Grupo "Bastardos da PUC-Rio" no Facebook, que em menos de um mês de criação já conta com quase 6 mil curtidas, recebeu 47 depoimentos e publicou 27 - Reprodução

Grupo “Bastardos da PUC-Rio” no Facebook, que em menos de um mês de criação já conta com quase 6 mil curtidas, recebeu 47 depoimentos e publicou 27 – Reprodução

 

Com o acúmulo de relatos e desabafos, Gomes juntou-se a outros sete colegas para criar a página, que vem recebendo uma média de três relatos por dia. Desde a criação, no início de setembro, o grupo já recebeu 47 depoimentos, dos quais publicou 27.

Segundo um levantamento informal com 31 dos estudantes que enviaram suas experiências pessoais, a maioria tem entre 17 e 24 anos e leva entre duas e três horas para chegar ao campus, na Gávea, bairro nobre da Zona Sul do Rio.

Nenhum tem carro, e grande parte é morador de favela ou de bairros da periferia da Zona Norte e da Baixada Fluminense – uma realidade que, de acordo com os alunos, incomoda professores e colegas.
‘Mundos diferentes’

Segundo o grupo, há professores que logo no início do semestre fazem questão de identificá-los e destacá-los.

“Quando o professor pergunta diante de toda a turma onde você estudou no Ensino Médio, em que bairro você mora, a profissão dos seus pais ou diretamente se você é bolsista, é óbvio que isso é uma forma de discriminação. Na maioria das vezes eu sou o único que estudou em escola pública, de uma sala inteira”, diz Gomes.

Um dos relatos com mais repercussão na página, com mais de 3 mil curtidas, é o de uma aluna do curso de Design, bolsista do ProUni.

“Tive a infelicidade de me matricular em uma disciplina cuja professora não gostava de pobre. Isso ficava evidente nas muitas piadinhas que ela fazia sobre empregadas domésticas”, conta.

Para Michel Silva, os colegas que vivem em outra realidade social: "Para mim, 'eles' são as pessoas inseridas numa bolha social muito difícil de furar. É como se a gente fosse uma agulha tentando furar. Eu sou essa agulha." - Arquivo pessoal

Para Michel Silva, os colegas que vivem em outra realidade social: “Para mim, ‘eles’ são as pessoas inseridas numa bolha social muito difícil de furar. É como se a gente fosse uma agulha tentando furar. Eu sou essa agulha.” – Arquivo pessoal

 

“No primeiro dia de aula, informei a ela que eu sempre chegaria atrasada, porque eu saia do trabalho e não conseguia chegar no início da aula. A partir de então virei piada. As piadas me incomodavam e eu tentava fugir do campo de visão dela durante as aulas, e quanto mais eu me escondia, mais ela me percebia e chamava a atenção pelo fato de eu estar excluída da turma”, completa.

Em outro relato que gerou muitos comentários, uma aluna de Jornalismo (mais…)

Leitores de Harry Potter podem parar Donald Trump, diz pesquisa

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Daniel Radcliffe, intérprete de Harry Potter, em cena de Harry Potter e as Relíquias da Morte, 2010 (Divulgação/VEJA)

Daniel Radcliffe, intérprete de Harry Potter, em cena de Harry Potter e as Relíquias da Morte, 2010 (Divulgação/VEJA)

 

Um estudo da Universidade da Pensilvânia mostrou que americanos que leem Harry Potter tendem a odiar mais Trump a cada livro terminado

Publicado na Veja

A mágica parece estar a favor da democrata Hillary Clinton na corrida eleitoral americana. Segundo um estudo realizado pela Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, ler a saga do bruxo Harry Potter gera uma visão negativa acerca do republicano Donald Trump. Além disso, quanto mais livros da série de J.K. Rowling alguém lê, pior fica sua opinião sobre o magnata.

Em 2014, Diana Mutz, professora de comunicação da Universidade da Pensilvânia, realizou uma pesquisa nacional com americanos para perguntar sobre seu hábito de consumo dos livros de Harry Potter. Na ocasião, a pesquisadora analisou a opinião dos leitores sobre temas polêmicos, como casamento gay e pena de morte. Mutz decidiu continuar seu estudo neste ano para avaliar os sentimentos dos leitores em relação a Trump.

De acordo com a pesquisadora, três principais pontos das obras de Rowling se opõem às políticas do bilionário: oposição ao autoritarismo, valorização da tolerância e das diferenças e oposição à violência e punição. Outro estudo, de 2014, já mostrava que estudantes que leem os livros sobre o bruxo crescem menos preconceituosos com relação a minorias e imigrantes.

A cada livro da saga de Potter que um leitor termina, sua avaliação sobre o candidato republicano cai entre dois e três pontos, de um total de 100, segundo o estudo. “Parece pouco, mas para alguém que lê os sete livros, o impacto total em sua estima sobre Trump pode cair 18 pontos”, afirma Mutz.

A notícia agradou Rowling, que já deixou bem clara sua aversão ao republicano no passado. Em junho, a britânica publicou uma carta aberta na qual chama Trump de “fascista” e critica seu temperamento de “um segurança de balada instável”. No último final de semana, a escritora compartilhou a pesquisa em seu Twitter e comentou que o estudo “fez o seu dia”.

Professora usa rap e funk para ensinar História: ‘Não estudei para domesticar aluno’

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Ane Sarinara tem 27 anos e é professora há oito; é militante do movimento negro e feminista e, lésbica assumida, também combate o preconceito contra a comunidade LGBT

Ane Sarinara tem 27 anos e é professora há oito; é militante do movimento negro e feminista e, lésbica assumida, também combate o preconceito contra a comunidade LGBT

 

Renata Mendonça, na BBC Brasil

Um aluno entra na sala e coloca não o caderno, mas uma arma sobre a mesa. Outro salta pela janela do segundo andar, no meio da aula, para fugir de um traficante. Uma garota entra correndo e chorando após ter conseguido se livrar de dois colegas que tentavam abusar dela no banheiro.

O estresse causado por situações como essas já fizeram a professora Ane Sarinara, que ensina História na periferia de São Paulo, se afastar do trabalho e até pensar em desistir. Mas recentemente ela criou uma estratégia para envolver os alunos nas aulas: usar funk e rap para trazer um pouco do cotidiano difícil deles para a sala.

“A escola está completamente fora da realidade deles, e a educação, sem significado, não tem sentido nenhum. É aquela ideia: você finge que explica, eles fingem que entendem. São cidadãos que não gritam, que não berram, omissos, obedientes. Costumo dizer que não estudei para domesticar aluno. Querem que eu faça isso, mas eu não consigo”, conta ela à BBC Brasil.

Para quem questiona a opção por esses ritmos musicais, a professora de 27 anos, há oito na profissão, tem a resposta na ponta da língua: “os alunos gostam disso, é o que eles escutam e é a linguagem que eles sabem”.

Funk escrito por alunos de Ane do 1º ano do Ensino Médio na Fundação Casa

Funk escrito por alunos de Ane do 1º ano do Ensino Médio na Fundação Casa

 

Tudo começou com um estudante muito problemático, mas que era muito bom em algo: cantar funk.

“Outros professores tratavam isso como indisciplina. Só que eu sou da periferia, escuto funk desde que me conheço por gente”, lembra. “Sugeri que ele escrevesse um funk sobre a matéria – foi a forma que encontrei para ele fazer parte da aula.”

Quando o garoto apresentou o trabalho, ela percebeu que a tarefa havia “conquistado” não só a atenção dele, mas de toda a sala.

“Um dos meninos se ofereceu para fazer o beatbox (reprodução de sons com a boca e o nariz), outro pegou a lata de lixo, outros batucavam na mesa, batiam palmas”, recorda.

“Nisso, a diretora entrou para perguntar o que estava acontecendo. Para ela, parecia uma zona. Mas não era: a gente estava tendo aula.”

Resistência

Ane expandiu a experiência para além da música.

Uma vez, por exemplo, dividiu os alunos em dois grupos e criou um tribunal: o primeiro representaria a polícia e o outro, o tráfico.

“Na periferia, a polícia é muito mal vista porque chega sempre com violência. Mas a ideia era mostrar para eles que o tráfico, que é quem acaba fazendo as melhorias que eles precisam na região em que o Estado é ausente, não tem só coisas positivas.”

Mas fugir do “padrão” também trouxe problemas: diretores e outros professores reclamavam de que Ane era “liberal demais”, e que seus alunos saíam achando que “podiam fazer tudo” nas outras aulas.

Ocupação de alunos nas escolas de São Paulo no ano passado chamou a atenção de Ane: "Esses alunos estão gritando. Elas estão dizendo que não está dando mais. Que a escola nao está comportando o que eles precisam. E a gente está demorando demais para ouvir:"

Ocupação de alunos nas escolas de São Paulo no ano passado chamou a atenção de Ane: “Esses alunos estão gritando. Elas estão dizendo que não está dando mais. Que a escola nao está comportando o que eles precisam. E a gente está demorando demais para ouvir:”

 

“Eles diziam: ‘alguns pais estão reclamando, se eles forem na Diretoria de Ensino você vai ter que se retirar da escola’. E eu respondia: ‘não vou mudar, não estou fazendo nada de errado’.”

Além de não ter desistido, ela hoje aplica seu método também na Fundação Casa (instituição que abriga menores de idade infratores em São Paulo). Onde, aliás, enfrenta os mesmos problemas causados pelo modelo convencional.

“Quando entro na Fundação Casa, lembro das grades da minha escola. É igual. Não vejo diferença. A escola é uma prisão, a única diferença é que ela não tem seguranças. O resto é tudo igual. A mesma rotina, as mesmas grades, aquela lousa lá na frente, professor estressado.”

‘Cara de prisão’

Nascida e criada na periferia de São Paulo, Ane sentiu na pele os desafios que seus alunos têm no dia a dia.

Ela morava com a família em Jandira, na região metropolitana, mas aos quatro anos teve de ir morar em um orfanato na vizinha Carapicuíba. Viciado, seu tio passara a enfrentar problemas com traficantes, que ameaçaram a família toda.

No orfanato, conheceu o racismo, apanhou sem saber o porquê e enfrentou as amarras da escola, que para ela sempre teve “cara” de prisão.

“A escola era uma prisão, é uma grande jaula. Você joga as pessoas lá, transforma todas elas em máquinas de obedecer sem questionar, mostra um mundo fora da realidade delas. Era como eu me sentia dentro da escola: presa.”

Ane foi morar em Osasco – onde vive até hoje – e logo decidiu que queria ensinar. Mas com um objetivo: que seus alunos não sentissem o que ela sentia na escola.

“Pensava: como eu gostaria que tivessem me dado essa aula? Foi por isso que comecei a tentar essas coisas diferentes.”

E decidiu permanecer na periferia para “devolver algo” algo ao lugar que a criou.

“As pessoas costumam estudar e trabalhar para poder sair daqui. Mas eu não penso assim. Não tenho que sair desse lugar, eu quero transformar esse lugar.”

Cansaço

Mesmo com o discurso repleto de esperanças, Ane admite o cansaço – ela acredita que “não vai durar muito tempo” na profissão.

“Não tem nada de legal nessa profissão. Parece exagero, mas é isso. Você é humilhado todos os dias, não tem nenhum reconhecimento. O que motiva o professor nesse país é o ideal dele.”

Ela conta que, no decorrer dos anos, conseguiu bancar sua escolha de “mandar o currículo para o saco e fazer o que eu acho que tem que ser feito”. Mas reclama do peso da missão.

“Jogam toda a carga em cima do professor. Tenho que educar, dentro e fora da escola, socorrer aluno, salvar aluno, salvar a sociedade… eu tenho que ser perfeita. Mas enquanto isso, o sistema está me arrochando dos dois lados, e você fica sem saber para onde correr. Geralmente a gente corre para o banheiro para chorar.”

Ela diz cogitar abandonar a sala de aula por medo de sair de lá “de camisa de força”. E, após citar números de professores que cometem suicídio, conclui:

“Muitos colegas meus já tomam tarja preta pra conseguir dar aula. Não quero ficar desse jeito. Aí é que está a questão: eu não consigo me adaptar ao sistema. Mas aí todo mundo me diz: vai chegar uma hora que você vai ter que escolher entre ficar e se adequar ou sair. E está chegando essa hora já.”

Antes de entrar na Uerj, aluna negra ouviu que não tinha ‘cara de médica’

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"Lembro que quando me perguntavam o que eu queria cursar e eu falava medicina, tinha gente que virava e falava: 'ah, mas você quer isso mesmo? Você não tem cara de médica'", diz a estudante Mirna Moreira

“Lembro que quando me perguntavam o que eu queria cursar e eu falava medicina, tinha gente que virava e falava: ‘ah, mas você quer isso mesmo? Você não tem cara de médica'”, diz a estudante Mirna Moreira

 

Janaína Garcia, no UOL

O relato de uma jovem negra estudante de medicina na Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) viralizou nas redes sociais, no último fim de semana, ao expor as condições sociais da jovem em contraste com o ambiente acadêmico.

No texto, a estudante Mirna Moreira, 22, falou também do preconceito enfrentado antes de ela entrar na universidade, onde cursa o segundo ano após ingressar pelo sistema de cotas. “Lembro que quando me perguntavam o que eu queria cursar e eu falava medicina, tinha gente que virava e falava: ‘ah, mas você quer isso mesmo? Você não tem cara de médica'”, escreveu.

Moradora do Complexo do Lins, na zona norte do Rio, Mirna definiu que seu “maior acerto” foi ter assumido a estética de mulher negra, nos cabelos soltos. “Antes de entrar nesse espaço da universidade, eu entendi que é muito importante estar ali porque existe a questão da representatividade, que se estende para fora da academia também. Quando eu visto meu jaleco branco e subo o Morro dos Macacos representando a instituição Uerj, como fiz em uma ação sobre sexualidade na adolescência numa escola pública, e as meninas negras dessa escola pedem para tirar fotos comigo, elogiam meu cabelo crespo, e de alguma forma me veem como referência, eu só tenho mais certeza disso”, definiu.

“Por isso, principalmente nos espaços acadêmicos, eu faço questão de afirmar que sou do Complexo do Lins. Esse lugar faz parte da minha identidade. Sei da onde eu vim, quem me ajudou a chegar até aqui, e não foi nenhum médico de formação, foi minha mãe que trabalhou como diarista por muitos anos, meu pai que já trabalhou como pedreiro, e que sempre priorizaram meus estudos. Eu sei quem são os pretos que construíram a base para que hoje eu esteja aqui hoje”, escreveu.

Jovem quer “devolver à sociedade” como médica do SUS

Em entrevista ao UOL, a jovem contou que já passou por situações nas quais ela vê um viés racista — como a “surpresa” de alguns colegas quando, ano passado, ainda no primeiro bimestre de aulas, ela gabaritou em uma prova de anatomia prática.

“Apenas duas alunas gabaritaram: eu e uma colega, branca. Houve uma surpresa muito grande da sala somente em relação a mim, e com perguntas do tipo: ‘Você escondeu o jogo?’, já que era o primeiro mês, ainda, de aula. Mas a outra aluna passou pelo mesmo processo de seleção e não houve esse tipo de questionamento; não tenho dúvida de que foi racismo”, atestou.

Mirna fez o ensino fundamental em escola pública, mas seguiu os estudos em escola particular graças à ajuda da madrinha, que vive nos Estados Unidos. “Já questionaram minha cota, já alegaram que eu tenho um tablet… como se eu não tivesse o direito de ter, me esforçando para isso”.

A jovem milita na causa negra também em um coletivo da universidade. É ali o espaço, ela aponta, onde vários outros relatos semelhantes ao que ela diz ter ouvido são apresentados, mas de outros cursos. “Isso de ‘não ter cara’ de uma profissão’ é quase unânime entre os negros da faculdade que estão nos cursos tradicionais”.

Para o futuro, a aluna de medicina quer “devolver à sociedade” o que ela chama de investimento — seja por projetos sociais ou pelo trabalho no SUS (Sistema Único de Saúde). “Eu tenho noção de que o meu estudo sai do bolso da sociedade”, justificou.

Hoje, a mãe de Mirna é telefonista, e o pai, bombeiro. A filha integra um grupo de dez negros em uma sala de 104 alunos na medicina.

Mais jovens negros nas universidades

Dados da SIS 2015 (Síntese de Indicadores Sociais), pesquisa produzida pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e divulgada em dezembro passado, mostraram que, em uma década, foi constatado crescimento na proporção de universitários na faixa etária de 18 a 24 anos –de 32,9%, em 2004, para 58,5%, em 2014–, com destaque para o recorte por cor ou raça, de acordo com os critérios de classificação do instituto.

Do total de estudantes pretos ou pardos de 18 a 24 anos, 45,5% estavam na universidade no ano passado. Há dez anos, essa proporção era de 16,7%. Entre os brancos, também houve aumento –de 47,2%, em 2004, para 71,4%, em 2014.

Também ano passado, outro estudo do IBGE revelou que os negros representavam apenas 17,4% da parcela mais rica do país, em 2014 – apesar de a população que se identifica como preta ou parda ter crescido entre a parcela 1% mais rica da população brasileira, cuja renda média é de R$ 11,6 mil por habitante.

Segundo o IBGE, os negros (pretos e pardos) eram a maioria da população brasileira em 2014, representando 53,6% da população. Os brasileiros que se declaravam brancos eram 45,5%.

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