Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged Raduan Nassar

Por que o maior escritor do Brasil parou de escrever?

0
Escritor Raduan Nassar, vencedor do prêmio Camões 2016 - RICARDO BASTOS/FOLHAPRESS

Escritor Raduan Nassar, vencedor do prêmio Camões 2016 – RICARDO BASTOS/FOLHAPRESS

 

Publicado no Jornal Cruzeiro do Sul

Título original: Revista ‘The New Yorker’ publica entrevista com escritor Raduan Nassar

A revista “The New Yorker” publicou no sábado (21), em seu site, um perfil do escritor Raduan Nassar, sob o título “Why Brazil’s Gretatest Writer Stopped Writing” (por que o maior escritor do Brasil parou de escrever).

No texto, Alejandro Chacoff, que mora no Rio e é jornalista da revista “piauí”, repassa a trajetória de Raduan e relata a conversa com o autor dos romances “Lavoura Arcaica” e “Um Copo de Cólera”, que foram traduzidos para o inglês recentemente pela primeira vez.

É uma rara ocasião em que o escritor de 81 anos se deixa entrevistar -no texto, Chacoff recorda que foi em uma entrevista à Folha de S.Paulo, em 1984, que Raduan comunicou que abandonaria a literatura.

Na ocasião, Raduan já havia recebido a aclamação pelos seus dois livros. Ele declarou a Augusto Massi e a Mario Sabino, do suplemento dominical “Folhetim”, que a literatura era uma paixão que se havia esgotado e que naquele momento estava interessado mais interessado em assuntos rurais.

“Minha cabeça hoje fervilha com outras coisas, ando às voltas com agricultura e pecuária, procurando me enfronhar sobre tratores, implementos, formação de pastos, tipos de capim, braquiária, pangola, setária, humidícula etc., tudo isso que, com perdão da autocitação, nada tem a ver com o ‘pasto das ideias’. A menos que me engane.”

Aparentemente, porém, a afirmação do escritor não foi tomada ao pé da letra; o título da reportagem da Folha de S.Paulo não destacava o abandono, que ficou claro quando o escritor, de fato, se retirou da vida literária.

SILÊNCIO

Desde então, Raduan Nassar se expôs muito pouco também à vida pública, de modo geral, falando com a imprensa raras vezes, quase sempre em breves declarações.

Mesmo ao ganhar o principal prêmio da literatura em língua portuguesa, o Camões, em maio de 2016, não quis dar entrevista, limitando-se a exclamar: “Eu não entendi esse prêmio, minha obra é um livro e meio!”

Tampouco deu entrevistas quando lançou sua obra completa, em outubro de 2016 -o volume incluía um ensaio e dois contos avulsos, até então inéditos.

O livro fazia parte das comemorações de 30 anos da Companhia das Letras, que publica sua obra, e o autor surpreendeu os leitores ao aparecer num dos eventos comemorativos do aniversário. Subiu ao palco para receber um prêmio dado pela editora, mas não disse uma palavra.

Raduan Nassar viveu de sua fazenda até se aposentar também desse ofício e mudar-se para São Paulo. Ele doou as terras à Universidade Federal de São Carlos em 2011, com a condição de que elas servissem a um novo campus que facilitasse o acesso de estudantes de comunidades rurais, como conta Chacoff no texto publicado na revista norte-americana.

Chacoff relata o temor de Raduan de ver essas terras privatizadas pelo governo. O texto frisa a convicção do escritor de que o impeachment de Dilma Rousseff foi golpe -durante o processo, Raduan se manifestou publicamente e chegou a discursar a favor de Dilma em Brasília e a publicar um artigo na Folha de S.Paulo.

O autor do perfil tenta, ao final, prover a explicação que o título do texto encerra.

“Em encontros anteriores”, escreve Chacoff, “eu havia hesitado em fazer a pergunta óbvia -‘Por que você parou de escrever?’- dizendo-me que era uma estratégia para deixá-lo à vontade”.

Certa tarde, conta ele, sentiu abertura, e viu que Raduan considerava a questão com cuidado. “Por um momento, nos sentamos um de frente para o outro em silêncio. Então ele olhou ao longe e disse: ‘Quem sabe? Eu realmente não sei’.”

Confira a reportagem na íntegra aqui. 

(Folhapress)

Escritor que virou agricultor realiza sonho doando fazenda para UFSCAR

0
Raduan Nassar escreveu apenas três livros, mas sua obra é um marco na literatura brasileira (Crédito: Arquivo/Divulgação)

Raduan Nassar escreveu apenas três livros, mas sua obra é um marco na literatura brasileira (Crédito: Arquivo/Divulgação)

 

Raduan Nassar deixou a vida literária para se tornar agricultor. Em 2012, ele doou a fazenda Lagoa do Sino para Universidade Federal de São Carlos.

José Hamilton Ribeiro, no G1

O escritor Raduan Nassar doou sua fazenda, chamada Lagoa do Sino, em Buri, no sudoeste de São Paulo à Universidade Federal de São Carlos. Nela está sendo estabelecido um complexo educacional de nível superior voltado para os problemas da produção rural da região.

José Hamilton Ribeiro levanta a relação da fazenda com o famoso livro do escritor: “Lavoura Arcaica”. A obra conta na primeira pessoa a história de um jovem perturbado com seu drama, o conflito com o pai, suas paixões e até sua doença. Mas corre ao longo do livro, um cenário da vida simples na roça.

Raduan Nassar ganhou recentemente o Prêmio Camões, de Portugal. O maior prêmio para quem escreve em português. Isso depois de receber o prêmio da Academia Brasileira de Letras e outras distinções nacionais.

Com base no livro foi feito um filme de mesmo nome, com Selton Mello no papel do filho inquieto e o Raul Cortez como pai conservador e rígido.

De uma família de imigrantes libaneses, Raduan Nassar nasceu em Pindorama, no oeste de São Paulo. Desde cedo, desenvolveu o gosto pela criação de animais. Após 20 anos com a família já com loja rica em São Paulo, passou um tempo no exterior. De volta ao Brasil, inicia em Cotia, em SP, uma grande criação de coelhos. Deixa depois a criação para tocar uma empresa da família, até que tira um tempo para escrever ‘Lavoura Arcaica’ e outros escritos. Em 1984, beirando os 50 anos – e já um escritor consagrado com livros publicados em várias línguas – duas coisas: rompe com a literatura, não escreve mais; e a partir daí, se dedica à fazenda Lagoa do Sino por mais de 30 anos.

Raduan Nassar não gosta de aparecer e também não dá entrevista, mas aceitou receber o Globo Rural pra uma conversa informal e escreveu um texto especial para a reportagem: “Abandonei a literatura há mais de trinta anos, o motivo não vem ao caso. Depois de adquirir a Fazenda Lagoa do Sino, em 1984, mergulhei de cabeça na área rural. A fazenda encontrava-se abandonada, amplos espaços ocupados por grama batatais, e mesmo indaiá, o rasteiro. A lidar também com terra vermelha de campo, mista, um tanto mais pra argilosa.

Os primeiros tempos foram muito difíceis, erros foram cometidos acompanhados de prejuízos. Poucos anos depois, contava com ótima equipe. Além de contínuas correções do solo, com calagem, incorporação de matéria orgânica, inclusive esterco frio de galinha, além de nutrientes químicos, a coisa começou a engrenar, a ponto de chegarmos a índices de produtividade em grãos entre os melhores da região”.

Depois de uma safra excelente, uma decisão surpreendente de Raduan mudou muito o cotidiano da Lagoa do Sino.

Em 2012, ele a doou de papel passado, uma parte pra seu funcionário de confiança, o Nilton. Outra parte maior pra Universidade Federal de São Carlos.

Uma exigência do Raduan na doação: a fazenda teria que abrigar uma universidade, com vários cursos ligados ao campo e às ciências da natureza e com foco na agricultura familiar. No local funciona o Campus Lagoa do Sino da UFSCAR e a fazenda, grande produtora de grãos, hoje também produz conhecimento

Além da movimentação econômica na região, filhos de agricultores e moradores locais hoje também têm onde estudar. Os agricultores familiares também ganharam mais assistência técnica para melhorar seu negócio.

A educação como privilégio de classe

0
Alunos realizam simulados para o Enem em uma escola pública da Bahia. Suami Dias GOVBA

Alunos realizam simulados para o Enem em uma escola pública da Bahia. Suami Dias GOVBA

 

O que o governo Temer pretende com a PEC 241 é dificultar ainda mais o acesso ao ensino superior

Luiz Ruffato, no El País

Em 2007, o escritor Raduan Nassar – autor da obra-prima Lavoura Arcaica – tentou doar sua fazenda Lagoa do Sino, situada em Buri, interior de São Paulo, para a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), com uma única condição: a de que as terras, transformadas em campus universitário, fossem utilizadas para propiciar acesso a jovens sem poder aquisitivo, incluindo filhos de trabalhadores rurais, negros e indígenas. A doação incluía mais de 3.500 m² de área construída, três pivôs centrais de irrigação, quatro silos armazenadores, dois secadores de grãos, sistema de secagem a gás, maquinaria (colheitadeira, tratores, pulverizadores), e muitos outros implementos. O estado São Paulo, à época governado por José Serra, rejeitou a oferta.

Três anos depois, Raduan Nassar conseguiu efetivar a doação para o governo federal, então sob o comando de Luiz Inácio Lula da Silva – hoje a fazenda pertence à Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e vem cumprindo seu objetivo de democratização do ingresso no ensino superior. No entanto, o campus corre agora o risco de ser privatizado ou fechado por conta do estrangulamento de recursos, caso seja aprovada, em definitivo, a PEC 241, em discussão no Senado após tramitar pela Câmara dos Deputados. Se isso ocorrer, o escritor deixou claro que abrirá litígio contra a União por ver frontalmente contrariado o objetivo da doação.

A rara atitude de Raduan Nassar, de desprendimento pessoal e visão de coletividade, se notabiliza ainda mais quando nos sabemos mergulhados em uma sociedade doentiamente egoísta e individualista, que enxerga no próximo alguém a ser explorado ou confrontado, nunca aquele com quem possamos partilhar algo. Mas, infelizmente, a ação contrária, que se desenha em um horizonte próximo, de manter a educação não como direito, mas como privilégio de classe, não é novidade para os que agora estão no poder. O presidente não eleito, Michel Temer, apenas sistematiza o pensamento corrente da elite paulista (não por coincidência também elite tucana), que, acima de partidos, defende interesses ideológicos.

O sistema de cotas em universidades estaduais para alunos provenientes de escolas públicas existe no estado do Rio de Janeiro desde 2000 – no ano seguinte, estabeleceu-se também o critério de cotas raciais para negros ou pardos, adotadas por outros estados ao longo da primeira década do século XXI, incluindo cotas para indígenas. A partir de 2003, as universidades federais também instituíram pouco a pouco os sistemas de cotas, atualmente vigentes em todas elas, além de abolir o vestibular na maioria das instituições, substituído pelo resultado da prova do Enem, submetidas as vagas ao Sistema de Seleção Unificada (SISU). Mas não o estado de São Paulo, comandado pelos tucanos desde 1995, há 21 anos, portanto.

São Paulo possui três sistemas públicos de ensino superior – e apenas a Unesp, com campus espalhados por 24 cidades e oferta de cerca de 7 mil vagas, possui cotas para alunos provenientes de escolas públicas (45% do total), sendo que, destas, 35% são reservadas para negros, pardos ou indígenas, processo iniciado em 2014. As outras duas universidades, USP e Unicamp, permanecem alheias aos sistemas de cotas. Somente a partir do ano passado, a USP passou a disponibilizar parte de suas 11 mil vagas ao ingresso por meio do SISU. Para o próximo ano, serão 2,3 mil vagas, sendo 1,1 mil vagas para alunos vindos de escolas públicas e 586 para autodeclarados negros, pardos ou indígenas.

No entanto, quando observamos de perto esses números – já bastante modestos, 21% do total – nos deparamos com a mentalidade classista do processo: das 2,3 vagas a serem preenchidas pelo resultado da prova do Enem, mais da metade (1,2 mil) são destinadas às Humanidades – só a área de Letras absorve 252 candidatos. E as vagas para quem se autodeclarar negro, pardo ou indígena concentram-se em cursos como Pedagogia, Letras, Ciências Sociais, Filosofia, História, Geografia e licenciaturas em Ciências da Natureza e Matemática (322 vagas, 55% do total). Ou seja, aquelas carreiras pelas quais nossa elite, de forma equivocada, possui verdadeiro desprezo, pois destinam-se à formação de professores.

Outros cursos, considerados mais “nobres”, mantêm-se redutos exclusivos. Por exemplo, as várias engenharias oferecem um total de 1892 vagas, das quais 175 pelo SISU (9%) e 5 (sim, cinco!) para quem se autodeclarar negro, pardo ou indígena – enquanto nos cursos de Medicina, de um total de 275 vagas, apenas 10 são oferecidas pelo SISU e nenhuma para negros, pardos ou indígenas. Já a Unicamp, que possui outras 3,3 mil vagas, não participa diretamente do SISU e nem possui sistema de cotas – oferece bônus para alunos oriundos de escolas públicas e para quem se autodeclara negro, pardo ou indígena.

As universidades públicas brasileiras sempre foram espaço reservado para formação da nossa elite econômica, que também o é intelectual e politicamente. O panorama mudou um pouco com os sistemas de inclusão social – cotas para alunos oriundos de escolas públicas (em geral pobres) e para negros, pardos e indígenas. Mudou um pouco, repito, porque a grande massa de jovens pobres – seja de que etnia for – ainda tem que pagar para estudar em escolas privadas, em geral de péssima qualidade. Mas o que o governo Temer pretende com a PEC 241 é dificultar ainda mais o acesso ao ensino superior, realizando o desejo da nossa sociedade, que, como afirmou o ex-secretário da Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, defende a manutenção da pobreza para que continuem existindo cozinheiras, faxineiras, lavadeiras – ou, em outras palavras, para que subsista um exército de mão de obra disponível para o usufruto da casa grande.

Raduan Nassar vence Prêmio Camões

0

nassar

Publicado no Terra

Autor de “Lavoura Arcaica” é homenageado com o mais importante prêmio da língua portuguesa. Júri destaca complexidade de relações humanas apresentadas em obras de Nassar.

O escritor brasileiro Raduan Nassar, de 80 anos, foi homenageado nesta segunda-feira (30/05) com o Prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa.

A decisão unânime dos jurados foi anunciada pelo secretário de Cultura português, Miguel Honrado. “Através da ficção, o autor revela no universo de sua obra a complexidade das relações humanas e essa revelação é em muitas ocasiões abrupta e incomoda”, ressaltou o argumento do júri.

O escritor, descendente de libaneses, nasceu em 1935 em Pindorama, no estado de São Paulo, e estudou Direito e Filosofia na Universidade de São Paulo (USP). Em 1975, publicou seu primeiro romance “Lavoura Arcaica”.

Nassar publicou apenas três livros. Além do romance, em 1978, lançou “Um copo de cólera”, e anos depois “Menina a caminho”, em 1994. Reservado o autor não comentou o prêmio.

A Companhia das Letras, editora de Nassar, considerou a homenagem um dos mais altos momentos da literatura brasileira. “Com uma obra absolutamente imprescindível, Raduan tornou-se um clássico instantâneo, logo em 1975, quando publicou o romance de estreia”, disse a editora, em comunicado.

O Ministério da Cultura elogiou a escolha de Nassar. “A sua obra tem poder de intervenção, promovendo uma consciência política e social contra o autoritarismo”, ressaltou.

O Prêmio Camões foi criado em 1988 pelo Brasil e por Portugal. Ao longo de sua história, a distinção já homenageou 12 escritores brasileiros. No ano passado, a portuguesa Helia Correia foi a agraciada pelo júri.

Livro de Raduan Nassar é semifinalista do prêmio Man Book International 2016

0
Foto: Paulo Pinto/ Fotos Públicas (15/05/2014)

Foto: Paulo Pinto/ Fotos Públicas (15/05/2014)

 

A obra “Um copo de cólera” foi selecionada dentre outras 155 do mundo todo

Publicado na Brasileiros

O livro Um copo de cólera, do brasileiro Raduan Nassar, é um dos escolhidos para a longlist (fase semifinal) do prêmio Man Booker International 2016.

Foram avaliados 155 livros publicados originalmente em outras línguas que não o inglês e 13 foram selecionados para formar a lista.

Seis finalistas serão anunciados em 14 de abril e receberão mil libras. O vencedor será divulgado em 16 de maio e ganhará 50 mil libras.

A inclusão de Nassar acontece dois meses após sua obra chegar pela primeira vez ao público de língua inglesa. Foram traduzidos os livros “Lavoura Arcaica” e “Um copo de cólera”, pela Penguin Contemporary Classics.

Veja abaixo a lista completa de semifinalistas:

A Cup of Rage (Um Copo de Cólera), de Raduan Nassar, com tradução de Stefan Tobler

A General Theory of Oblivion (Teoria Geral do Esquecimento), de José Eduardo Agualusa, com tradução de Daniel Hahn

The Story of the Lost Child (sem tradução no Brasil), de Elena Ferrante, com tradução de Ann Goldstein

The Vegetarian (A Vegetariana), de Han Kang, com tradução de Deborah Smith

Mend the Living (sem tradução no Brasil), de Maylis de Kerangal, com tradução de Jessica Moore

Man Tiger (sem tradução no Brasil), de Eka Kurniawan, com tradução de Labodalih Sembiring

The Four Books (sem tradução no Brasil), de Yan Lianke, com tradução de Carlos Rojas

Tram 83 (sem tradução no Brasil), de Fiston Mwanza Mujila, com tradução de Roland Glasser

Ladivine (sem tradução no Brasil), de Marie NDiaye, com tradução de Jordan Stump

Death by Water (sem tradução no Brasil), de Kenzaburō Ōe, com tradução de Deborah Boliner Boem

White Hunger (sem tradução no Brasil), de Aki Ollikainen, com tradução de Emily Jeremiah e Fleur Jeremiah

A Strangeness in My Mind (sem tradução no Brasil), de Orhan Pamuk, com tradução de Ekin Oklap

A Whole Life (sem tradução no Brasil), de Robert Seethaler, com tradução de Charlotte Collins

Go to Top