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Quem é o assassino? (ou por que ainda lemos romances policiais)

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Ainda hoje muitos de nós ainda lêem romances policiais. Mas você já parou para pensar por quê?

Dashiell Hammett, Sir Donan Coyle, Edgar Allan Poe e Agatha Christie.

Dashiell Hammett, Sir Donan Coyle, Edgar Allan Poe e Agatha Christie.

José Figueiredo, no Homo Literatus

É um fato inegável que o romance policial faz sucesso até hoje. Na verdade, se formos seguir a fundo, veremos que esse tipo de literatura – relegada a segunda por alguns – é base de toda a literatura (pós)-moderna, da alta à baixa, por onde poucos passaram sem ao menos serem arranhados por essa estrutura.

A questão persiste por de mais de dois séculos: por que o romance policial continua em voga?

A resposta pode estar no simples fato da sua estrutura: temos um crime – normalmente um assassinato, mas também pode ser um roubo – e o resto da trama se baseia em saber o quem, onde, quando, e, principalmente, por que (Talvez a maior inversão da qual tenho notícia dentro do romance policial seja A Louca de Maigret, onde o crime ainda não aconteceu e a vítima insiste em avisar o comissário Maigret que está prestes a ser morta – até isso inevitavelmente ocorrer).

Aqui se estabelece a estrutura dupla responsável por fazer a maioria de nós lermos mesmo sabendo, até certo ponto, onde tudo vai acabar. Temos duas tramas estabelecidas: a primeira sobre o crime e a trilha percorrida pelo(s) culpado(s) seguiu(ram) até praticar o ato; a segunda é a do investigador e as peripécias que ele passa para chegar. Ter um objetivo bem estabelecido, mesmo conhecido por parte do leitor, faz com que tenhamos um contrato de leitura com a narrativa, sabendo desde a partida aonde iremos chegar. O interessante, por vezes, não é saber quem, mas por quê. Conhecer os caminhos que levam uma pessoa a sair da linha cotidiana dos seus atos para cometer um delito é instigante, bem como saber qual caminho o investigador seguiu para chegar ao(s) culpado(s).

Nesse ponto, também podemos apontar o segundo trunfo do romance policial.

Normalmente, os investigadores desses crimes seguem caminhos diversos para chegar ao seu objetivo. Podemos criar categorias e subcategorias, ajustando por métodos, características etc. O fato, contudo, é que essas personagens ou o caminho narrado até chegar ao fim, por mais que a forma seja fixa, podem ser tão diversos que na maioria dos casos não conseguimos parar de ler.

Georges Simenon, criador do comissário Maigret.

Georges Simenon, criador do comissário Maigret.

Alguns exemplos sempre ajudam. Então, vai abaixo uma breve amostra de tipos e características.

Dostoiévski não foi o primeiro a fazer romance policial. Foi ele, porém, o primeiro a dar profundidade psicológica muito além do imaginado. Duas dessas obras funcionam na base de um crime e com a mesma estrutura – cada qual posta de uma forma diferente. Em Crime e Castigo, como o nome diz, temos um crime. O estudante Raskólnikov planeja (ou não) um assassinato e o comete. O caso é que as coisas acabam fugindo ao seu controle, tanto no momento do crime como depois. Vemos durante o resto da narrativa o crime de Raskólnikov ser investigado pela polícia até se chegar ao culpado. Já em Os Irmãos Karamazov, o crime acontece bem no centro da narrativa, deixando-nos quinhentas páginas em busca do culpado. Ao contrário do primeiro romance citado – no qual o onde, quando, como e por que é dado desde o início -, aqui temos uma construção de várias razões que levariam qualquer um dos personagens a cometer o assassinato, a ação em si e a subseqüente tentativa de resolução dos vários suspeitos. Devemos admitir que ambos os textos são muito mais profundos em comparação a uma simples narrativa, mas esse pano de fundo, ao convergir com outros pontos, acrescenta e se torna ponto central das tramas.

Não podemos falar de romance policial sem falar em Agatha Christie, a rainha do crime. Suas narrativas nunca foram muito longe do que Edgar Allan Poe e Sir Conan Doyle haviam feito até ali. O bigodudo Poirot tem um caso e usa de suas técnicas lógicas para resolver todo um caso apenas sentado em sua mesa, deixando a busca selvagem aos outros detetives da Scotland Yard esse método de “cães de caça”, segundo ele. Mesmo assim, a autora, ainda hoje, tem uma legião de fãs mundo afora que se sentem cativados pelos ares aristocráticos e rabugentos do detetive ao esquadrinhar tudo e todos até chegar ao culpado. Seja em Londres ou em Istambul, a curiosidade despertada por Agatha e Poirot é a mesma – e nós ficamos aqui, lendo sem fim seus romances.

O último caso desta rodada é o pai literário de Dan Brown: Umberto Eco e o seu O Nome da Rosa. Nada mais pós-moderno do que juntar o velho e o novo, a alta cultura com a baixa: aqui, por exemplo, temos o novo e desprezível romance policial com o velho e elevado romance histórico. Em meio à Idade Média, Eco, na época já um respeitado professor de Semiologia, mostra a busca de um frade franciscano e de um noviço ao autor de vários crimes dentro de uma abadia. Há quem diga que Eco criou toda a trama para poder matar alguns padres e acabam virando a cara ao romance. Muitos outros vieram depois dele, isso é fato – e Dan Brown é só o mais famoso dentre eles. Unindo o velho e o novo, a busca improvável em um cenário nada comum de crimes é a prova de que o gênero, embora tenha algo de kitsch, pode sempre se reinventar e continuar nos cativando.

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Poderíamos ter citado vários outros nomes, é verdade. De Poe a Simenon, passando por Raymond Chandler, Dashiell Hammet e Rubem Fonseca – para citar ao menos um autor nacional. O texto é curto e as possibilidades, infinitas. Então, sobra a nós leitores nos divertirmos em meio às tramas cativantes que o romance policial tem a nos oferecer.

Editores comentam as principais apostas da literatura policial para 2014

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Entre os autores com lançamento previsto estão Raymond Chandler, J.K. Rowling e Patrícia Melo

Publicado no MSN

Leitores de obras policiais, dos mais variados subgêneros, podem esperar uma série de bons lançamentos para 2014. Enquanto editoras como a Globo e L&PM se ocupam em reeditar livros de Agatha Christie – pelas contas delas serão 38 volumes no ano -, e a Alfaguara começa a trabalhar a obra de Raymond Chandler, que chega ao catálogo com seis romances e um livro de contos, outras apostam em novos nomes, seguem a moda de publicar os nórdicos e vão tentando agradar os fãs das histórias de detetives, de mistério, suspense, tribunal, etc.

A Rocco, uma das editoras de destaque no gênero, faz suas apostas. Em março, ela lança A Loura de Olhos Negros, o primeiro de dois livros que Benjamin Black, pseudônimo de John Banville, escreveu a convite do espólio de Raymond Chandler. O protagonista das duas histórias é o detetive Philip Marlowe, personagem clássico de Chandler.

Também a convite de herdeiros, a britânica Sophie Hannah, de 42 anos, está trabalhando em mais uma aventura de Hercule Poirot, detetive de Agatha Christie. Enquanto isso, a editora prepara três livros: Hurting Distance, Kind of Cruel e Lasting Dammage.

“Há uma grande expectativa em torno de Tana French, de quem acabamos de lançar O Passado é um Lugar. Patrícia Melo surge, pela primeira vez, com uma protagonista feminina, uma patologista, e uma obra que pode consolidá-la ainda mais em mercados como a Alemanha. Há o novo John Grisham, claro, e alguns estreantes com voz surpreendente”, adianta a diretora editorial Vivian Wyler.

No catálogo nacional, destaque também para Flávio Carneiro, que acaba de lançar O Livro Roubado, em que resgata a dupla André e Gordo, de O Campeonato, seu primeiro romance policial, e mistura suspense, mistério, violência e romance. A história se passa no Rio de Janeiro e investiga o roubo de uma edição rara de Histoires Extraordinaires, uma tradução feita por Charles Baudelaire dos contos de Edgard Alan Poe, que integrava a coleção de um bibliófilo. Em 2014, ele relança Da Matriz ao Beco e Depois, sua primeira obra que completa 20 anos.

A Rocco promete, ainda, um segundo livro de Robert Galbraith, pseudônomo de J. K. Rowling – de quem a editora publicou, em novembro, O Chamado do Cuco. A primeira tiragem foi de 125 mil exemplares e uma nova leva já está saindo do forno.

Nem todos os livros são lançados com tanta confiança, mas de acordo com Ana Paula Costa, editora-executiva de ficção estrangeira da Record, o gênero vende. “Os títulos não são sempre best-sellers, mas há muitos leitores fiéis, viabilizando a contínua publiação de literatura policial”, comenta. Para ela, thrillers jurídicos e médicos têm bom desempenho entre os leitores brasileiros.

Em 2013, a Record lançou 18 títulos policiais e o principal deles foi Boneco de Neve, de Jo Nesbo. Lançado em outubro, já foi reimpresso e, segundo a editora, vendeu cerca de 10 mil exemplares. Dele, ela lança, em 2014, O Leopardo. De Scott Turow, publica Idênticos. Aposta, também, no romance de estreia do dinamarquês Jussi Adler-Olsen, A Mulher Enjaulada, e na espanhola Dolores Redondo, de quem publica O Guardião Invisível.

Há ainda na programação um novo livro de Alberto Mussa, único brasileiro citado no artigo de Flávio Carneiro que terá, por ora, uma obra lançada em 2014. Mas apesar de ter um assassinato e sua elucidação como elementos-chave, o editor Carlos Andreazza, também da Record, diz que não classificaria A Primeira História do Mundo como policial.

A Tordesilhas também tem investido no gênero. “Em 2014 vamos publicar o segundo livro de dois autores que lançamos no Brasil: Os Bons suicidas, do espanhol Toni Hill, e O Sono e a Morte, da dupla dinamarquesa que assina como A.J. Kazinski. Também vamos lançar um livro que ganhou diversos prêmios na França e que tem tido uma história brilhante: O Último Lapão, de Olivier Truc”, conta a editora-executiva Ibraíma Dafonte Tavares.

O carioca Raphael Montes publica seu segundo romance em maio pela Companhia das Letras, mas Dias Perfeitos não sairá pela coleção de romances policiais da editora. O advogado de 23 anos foi revelado por Suicidas, seu romance finalista do Prêmio Benvirá que vendeu, desde o lançamento, em 2012, 5 mil exemplares – um número e tanto para um autor estreante.

O novo livro é um suspense de amor obsessivo sob a visão do psicopata, explica o autor. “Conta a história de Téo, um estudante de medicina, solitário e depressivo, que divide seu tempo entre cuidar da mãe paraplégica e dissecar cadáveres nas aulas de anatomia – o momento em que mais se sente feliz. Certo dia, Téo conhece Clarice, uma jovem roteirista de cinema, e se apaixona. Levado a extremos, ele decide obrigar Clarice a gostar dele”, completa. O autor já outros dois romances policiais em andamento. “Um deles é o primeiro de uma série que pretendo escrever com um personagem fixo, um padre. O outro é segredo, por enquanto.”

A Companhia das Letras publicará, ainda, um novo volume de Tony Bellotto, ainda sem título definino, com o detetive Bellini como protagonista.

Já a Arqueiro lança em janeiro o sexto livro da série Clube das Mulheres Contra o Crime, do best-seller americano James Patterson. A Suma de Letras publica dois títulos de Michael Connelly: A Queda e Caixa Preta. Dois e-books com histórias curtas dele sairão pelo selo digital Foglio.

Clássicos
A partir de outubro, o americano Raymond Chandler (1888-1959) terá alguns de seus principais romances no catálogo da Alfaguara, a começar por The Lady in the Lake (1943) e The Long Goodbye (1953), que já foram publicados pela L&PM. Lançará, ainda The Big Sleep (1939), Farewell, My Lovely (1940), The High Window (1942) e The Little Sister (1949). O 7.º título é uma coletânea de 13 contos.

Numa tentativa de resgatar a Coleção Amarela, responsável pela divulgação de livros de suspense no País, a Globo publica, em maio, oito volumes de Agatha Christie – três são reedições (E Não Sobrou Nenhum, O Assassinato de Roger Ackroyd e Os Cinco Porquinhos). Os novos no catálogo da editora são O Misterioso Caso em Styles, Os Relógios, O Adversário Secreto, Três Ratos Cegos e Assassinato num Campo de Golfe.

Já a L&PM prepara nada menos do que 30 títulos da Dama do Crime. No formato tradicional, sairão Agatha Christie: Mistérios dos Anos 50 e Agatha Christie: Mistérios dos anos 60. Entre as edições de bolso, estarão Mistério no Caribe, que completa 50 anos em outubro, Cipreste Triste, Assassinato no Expresso Oriente, A Mansão Hollow e É Fácil Matar.

Elmore Leonard (1925-2013) e a glória

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Sérgio Rodrigues, no Todoprosa

A morte do escritor americano Elmore Leonard, hoje, aos 87 anos, me levou a buscar um post de pouco menos de um ano atrás (que vai reproduzido abaixo na íntegra) em que saudei sua chegada a uma certa glória literária oficial, na forma de uma condecoração da National Book Foundation e do lançamento de seus livros pela Library of America. A conclusão era a de que o reconhecimento, merecido, era melhor para o establishment do que para Leonard – embora fosse bom para os dois. Essa impressão é ainda mais forte hoje.

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Fiquei muito feliz com a notícia (em inglês) de que o escritor americano Elmore Leonard, 86 anos, autor de um punhado dos melhores romances policiais e de faroeste de todos os tempos, vai receber a medalha da National Book Foundation pelo conjunto da obra, uma honraria que costuma ser abiscoitada por escritores mais “sérios” como John Updike, Gore Vidal e Toni Morrison. Além disso, a Library of America reunirá seus policiais em três volumes de capa dura.

Pode ser que esses passos no sentido da canonização não signifiquem muita coisa para o ex-publicitário recluso que vive há décadas de seus livros, produzidos ao ritmo de um por ano e em muitos casos adaptados para o cinema e a TV. (Fala-se muito em “Jackie Brown”, um Tarantino menor, mas meu Leonard cinematográfico preferido é Get Shorty/“O nome do jogo”, de Barry Sonnelfeld.)

Estamos falando de um sujeito avesso a qualquer tipo de pose, que projeta uma imagem de artesão e que nunca precisou reivindicar o título de “intelectual” para se levar a sério. De todo modo, as homenagens de agora não são propriamente uma surpresa. Elmore Leonard virou uma instituição cultural americana, ganhou elogios públicos de ninguém menos que Saul Bellow e certa vez ouviu de Martin Amis que “sua prosa faz Raymond Chandler parecer desajeitado”.

Recebê-lo em suas fileiras com medalha e tudo significa muito mais, com certeza, para o mainstream das letras americanas, que desse modo demonstra uma saudável abertura sobre as muitas faces do fazer literário.

O homem é comercial? Muito. É também um baita escritor, um subversivo do maniqueísmo que costuma engessar a literatura de gênero, um estilista do inglês ianque – frequentemente intraduzível, o que prejudica sua apreciação por aqui – e um mestre do ritmo narrativo que dá a impressão de ter em casa como enfeite de aparador a pedra filosofal do pulso da história, aquilo que outros escritores tateiam a vida inteira para encontrar e perder de novo.

Pode-se dizer de Leonard, sem mudar uma vírgula, o que Chandler disse de Dashiell Hammett: “Ele tinha estilo, mas seu público não sabia disso, porque o estilo vinha numa linguagem que não se supunha capaz de tais refinamentos”.

Sim: eu também gosto de literatura “difícil”. Também sei que, às vezes, dificuldades abissais se escondem sob a facilidade aparente. Isso é bem mais difícil de perceber, mas quem gosta de dificuldade não perde nada por tentar.

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