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Aplicativo mapeia locais em Recife eternizados por Clarice, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto entre outros

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Estátua de João Cabral de Melo Neto na Rua da Aurora, centro do Recife

Estátua de João Cabral de Melo Neto na Rua da Aurora, centro do Recife

 

Rodney Eloy, no Pesquisa Mundi

Os recifenses e turistas que visitam a capital pernambucana já podem trocar os Pokémons por autores da literatura brasileira. Idealizado pelo cineasta Eric Laurence e realizado por meio do Funcultura, o aplicativo Ruas literárias do Recife tem como objetivo aproximar as pessoas do espaço urbano e da cultura literária da cidade. Com 150 pontos de localização e 82 autores de diferentes épocas e estilos, as ruas da cidade são mapeadas montando um roteiro literário e poético no qual a população pode descobrir como as ruas e suas edificações foram descritas e representadas por escritores pernambucanos. Dentre os autores pesquisados e citados no aplicativo estão nomes como Clarice Lispector, Raimundo Carrero, Ronaldo Correia de Brito, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira e Carneiro Vilela. O aplicativo é gratuito e está disponível para Android e iOS.

via Publishnews

Emoção na formatura do ex-cortador de cana-de-açucar que virou médico, no Recife

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Médico

Publicado no Amo Direito

Milagre é explicado como algo extraordinário, admirável, espantoso. Acontecimento que chama a atenção, que desperta interesse, que faz o povo ficar surpreso. Aos 30 anos, Jonas Lopes da Silva é sinônimo disso. Perseverança, coragem e firmeza foram virtudes que ajudaram a transformar seu destino.

Combustível para que o ex-cortador de cana, egresso da Zona da Mata pernambucana, estivesse entre os 74 jovens que colaram grau na 95ª turma de medicina da Universidade de Pernambuco (UPE) no Teatro Guararapes, em Olinda, no Grande Recife, na noite desta quarta-feira (29).

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O reconhecimento pela sua difícil trajetória até conseguir o tão sonhado diploma foi louvado pelos colegas, que decidiram homenageá-lo. Aplaudido, Jonas ficou surpreso. Não esperava tamanha consideração. Tímido, chorou ao ficar de pé, em destaque, entre os demais (agora) médicos.

“Não existem vidas comuns. Apesar de termos tantos milagres hoje a contar, a turma 95 escolheu um desses milagres para receber o grau (de médico) em nome de todos nós. Antes de ser estudante de medicina ele lutou contra a exploração de mão de obra infantil nas usinas de cana-de-açucar no interior de Pernambuco”, discursou a oradora, Débora Lima, assim que a solenidade começou.

Nascido em Palmares, criado em Joaquim Nabuco, foi cortador de cana até os 15 anos. Aos 24, o quinto dos sete filhos de seu José Lopes e dona Edileusa chega à universidade. Hoje nossa turma pede que Jonas Lopes da Silva fique de pé para receber nosso aplauso e reconhecimento”, complementou Débora. O rapaz foi aclamado com muitas palmas.

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Para testemunhar esse momento, uma pequena caravana saiu de Joaquim Nabuco, distante 113 quilômetros de Recife, antes do sol se pôr: os pais, os seis irmãos, cunhados, alguns primos, tios. Três carros cheios de gente e de orgulho.

“Não dormi nem comi direito. Meu coração está acelerado, a mil por hora. Meu filho conseguiu realizar o sonho de se tornar médico”, comentou dona Edileusa, tão tímida quanto o filho. Ela precisou levar Jonas para acompanhá-la na cansativa labuta de cortar e limpar cana, quando ele era criança, pois dali que tirava o sustento para garantir o feijão com arroz de todos os dias.

Também estava lá Benjamim Gomes, professor de Jonas no terceiro período do curso médico e que tanto o apoiou em vários momentos da faculdade. Fernando Beltrão, igualmente professor de medicina da UPE e de um cursinho onde Jonas ganhou bolsa para se preparar para o vestibular, foi outro que presenciou a formatura.

A alegria pela conclusão da graduação médica era a mesma de Márcio Nascimento, 29 anos, colega de turma de Jonas. Suas histórias se parecem. Ambos moraram na Casa do Estudante de Pernambuco, no Derby, área central do Recife. Enfrentaram restrição financeira e saudade dos parentes enquanto cursaram os seis anos da faculdade. Não desistiram.

“A formatura é o apogeu. Esperei muito por esse dia. É uma alegria sem tamanho”, destacou Márcio, ao lado da esposa, Juliane, grávida de seis meses, e do filho Bruno, 8 anos. Os pais, sogros, irmãos e parentes também saíram de Floresta, no Sertão (a 417 km de Recife), para participar da colação de grau em Olinda.

“Foi um milagre de Deus eu virar médico. Ele, minha família e tantas pessoas apostaram em mim e sou muito grato por isso. Espero ser um bom médico para retribuir”, afirmou Jonas, que agora tem como desafio passar na residência em clínica médica ou cardiologia.

Fonte: jconline ne10

Polêmica sobre questões de gênero pode deixar alunos do Recife sem livros

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Vereadores cristãos pedem à prefeitura a retirada dos livros distribuídos pelo MEC que tratam de diversidade sexual

Publicado no Jornal Opção

Livro de ciências para alunos do 5º ano está no centro da polêmica com vereadores sobre ensino de questões de gênero e sexualidade na rede municipal do Recife | Foto: Sumaia Vilela / Agência Brasil

Livro de ciências para alunos do 5º ano está no centro da polêmica com vereadores sobre ensino de questões de gênero e sexualidade na rede municipal do Recife | Foto: Sumaia Vilela / Agência Brasil

 

Alunos da rede municipal do Recife podem ficar sem livros didáticos de várias disciplinas por três anos caso a bancada cristã da Câmara de Vereadores consiga proibir o uso de obras que citam questões de gênero e homossexualidade.

Os parlamentares pediram à prefeitura a retirada dos livros distribuídos pelo Ministério da Educação (MEC) que tratam de diversidade sexual. O Executivo local defende o uso dos títulos e avisa que não arcará com a reposição caso as obras sejam realmente proibidas. Em nota, o MEC afirma que não há possibilidade de substituição dos exemplares.

No centro do problema está um livro de ciências para alunos do 5º ano do ensino fundamental, cuja idade regular é 10 anos. No capítulo sobre sexualidade do ser humano, o livro Juntos Nessa 5, da editora Leya, traz dois parágrafos contestados pelos vereadores. O livro destaca que “faz parte da sexualidade conhecer a si mesmo e aos outros, e os comportamentos que estão relacionados à identidade sexual”. A explicação vem em outra parte da mesma página – identidade sexual quer dizer “identificar-se com o sexo masculino ou com o sexo feminino”.

Há ainda outro trecho que fala da união homoafetiva. “Entre os relacionamentos conjugais, existem casais formados por um homem e uma mulher e casais formados por pessoas do mesmo sexo”. Ao lado da explicação, uma foto de família formada por mãe, pai, uma menina e um garotinho, o único negro do grupo.

Os principais agentes da cruzada contra os livros didáticos são os vereadores Luiz Eustáquio (Rede) e Carlos Gueiros (PSB). Eustáquio chegou a levar um exemplar do Juntos Nessa 5 ao plenário da Câmara dos Vereadores para “mostrar o conteúdo ensinado em sala de aula”.

“A questão de homofobia, essa questão de as pessoas terem de ser respeitadas como elas são, eu ensino isso aos meus filhos. É diferente da questão que está sendo ensinada no livro. Ela induz que você vai escolher se é masculino ou feminino, e é sobre isso que tenho plena discordância. E principalmente você ensinar questões de sexualidade para crianças a partir dos 6 anos aos 10 anos de idade. Eu acho que esse é um papel dos pais”, afirma.

Evangélico da Assembleia de Deus, o vereador é autor de dois requerimentos endereçados ao prefeito do Recife, Geraldo Júlio (PSB), sobre o tema. Um deles pede informações sobre todos os livros entregues às escolas municipais, incluindo quantidade e obras. A intenção, segundo ele, é criar uma frente parlamentar para analisar todas as obras e indicar quais podem ser usadas pela prefeitura. O segundo requerimento solicita a retirada de todo o material didático que contenha qualquer menção a gênero da rede de ensino.

De acordo com o Ministério da Educação (MEC), foram distribuídos 623 livros do aluno e 23 manuais do professor do livro de ciências Juntos Nessa (5º ano) para dez escolas da rede municipal do Recife.

O vereador Carlos Gueiros também entrou na briga para proibir o uso do livro nas escolas. Autor do Projeto de Lei de nº 26/2016, ele quer não só proibir o título como “outros meios definidos que versem sobre a ideologia de gênero e diversidade sexual”.

Diretora defende a escolha do livro

Na rede de ensino do Recife, a Escola Municipal Abílio Gomes foi uma das que escolheu o Juntos Nessa 5 para as turmas de 5º ano do ensino fundamental. A instituição, que na avaliação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2013 teve a nota mais alta entre as unidades municipais do Recife, fica na comunidade Entra Apulso, uma região pobre do bairro de Boa Viagem, zona sul da capital pernambucana. Com um exemplar nas mãos, a diretora Marta Beatriz de Araújo critica a versão dos parlamentares sobre o conteúdo do livro.

“O livro não estimula, não incita, simplesmente cita que existem casais formados por pessoas do mesmo sexo. Que se identificam com pessoas do mesmo sexo. Isso não é um estímulo à escolha, é a constatação de um fato que tem na sociedade. Nós, enquanto educadores, não podemos nos furtar do dever de ter na sala um espaço de discussão, e não estímulo. O aluno tem direito a ter esse espaço de discussão”, defende Marta Beatriz, explicando que trata a questão pelo viés do combate ao preconceito e à homofobia.

A diretora diz que ficou sabendo da tentativa de impedir o uso do material didático no dia em que fazia a reunião de entrega dos exemplares para os alunos. Para ela, os vereadores desrespeitam o trabalho da equipe da escola ao tentar retirar os livros da rede municipal.

“A gente não fez [a escolha] aleatoriamente. Paramos para analisar livro por livro, coleção por coleção, e não era uma editora só, eram várias. Cada uma chegava com sua caixa de material e a gente analisava para poder escolher os livros por disciplina e por ano. Então é uma coisa trabalhosa. Para depois de tudo isso vir uma pessoa e achar que pode desmanchar um trabalho de uma equipe? Acho complicado isso. Quer dizer, eu como professora não posso escolher meu material de trabalho? É o fim do mundo”.

Os livros foram distribuídos pelo Ministério da Educação (MEC) por meio do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). A cada ano é aberto um prazo para que escolas públicas de todo o país escolham as obras que vão usar em cada uma das séries. Os livros valem por três anos e são repassados de aluno a aluno durante esse período.

A diretora critica ainda a falta de compromisso dos vereadores com o uso do dinheiro público. “Os livros são fruto de dinheiro de impostos nossos. Meu, seu, de todos nós. Eles foram comprados para serem usados durante 3 anos. Se eles forem recolhidos quem vai repor os livros? O vereador vai repor com recurso próprio ou vai se fazer nova compra com recursos públicos?”, questiona. “Acho que tem que pensar em propostas efetivas voltadas para a educação, que tragam retorno efetivo. Isso não vai trazer nenhum retorno, ao contrário: está se tirando material didático do aluno. Acho importante que se faça esse questionamento.”

Fé, devoção e 40 horas de fila: a saga dos fiéis e do padre Marcelo Rossi no Recife

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Capital pernambucana foi a 12ª cidade do roteiro de lançamentos de “Philia”, em evento com oito horas de duração

Lançamento do terceiro livro do Padre Marcelo Rossi durou quase oito horas. Foto: Brenda Alcâtara/DP/D.A Press

Lançamento do terceiro livro do Padre Marcelo Rossi durou quase oito horas. Foto: Brenda Alcâtara/DP/D.A Press

Luiza Maia, no Diário de Pernambuco

A primeira fã chegou às 6h do dia anterior, improvisou uma cama e fez refeições ali mesmo, em frente à Livraria Cultura do Paço Alfândega. O padre Marcelo Rossi estava acordado desde as 3h. Em tarde de tanta fé quanto esforço físico, o religioso recebeu cerca de 5 mil pessoas no lançamento no Recife, ontem, do livro Philia, sobre 14 males da alma.

“Deus permitiu que eu passasse por uma depressão. Eu podia ter escondido. Mas se eu escondesse, não é o meu jeito de ser. Eu mostei para as pessoas a verdade: eu passei por uma depressão, mas eu venci e agora posso ajudar as pessoas a vencer também”, contou o autor, sobre a doença. “Cheguei ao ponto de a vida perder o colorido para mim”, diz ele. Philia, o terceiro livro dele, é inspirado na depressão e anorexia que o fizeram perder 60 quilos.

“Comi uma misturada”, brincou o pedreiro José Lopes, o segundo a chegar, junto com a irmã, atrás somente de Dona Osana, 33, moradora de Surubim. Os dois cederam lugar à senhorinha falante de 82 anos conhecida como Maria Alegria, que chegou às 8h da segunda, de carona com um vizinho. “É um lugar a que a gente vem e só encontra gente boa, amigos”, comemora ela, já no terceiro encontro com Rossi – foi a 10ª da fila em 2011, durante a sessão de autógrafos de Ágape, e visitou duas vezes o Santuário Mãe de Deus, em São Paulo.

Durante a manhã, guarda-chuvas coloriam a fila, que se estendia pelas ruas vizinhas, no Bairro do Recife, e abrigavam os fiéis do calor típico da cidade. Ali, enquanto esperavam, compartilhavam lanches, pães e bolos trazidos de casa ou comprados das dezenas de ambulantes que deixaram outros pontos da cidade para seguir o padre.

Onde há gente, há pipoca, manda a lei dos vendedores itinerantes. E é por isso que o pipoqueiro Jorge Luiz dos Santos, 45, deixou a Rua Nova para aproveitar o movimento em frente à livraria. Apurou mais que o dobro de um dia comum e abriu a gavetinha de alumínio para mostrar a conquista. Os irmãos, Pio e Ana, colegas de profissão, também estavam nos arredores. Outro que comemorava era Gilberto Costa, 64, “pipoqueiro desde que se entende por gente”. Aproveitou para comprar uma maçã do amor, comercializada na barraca da frente.

A tarde de autógrafos começou com uma Ave-Maria. “Ao trabalho”, disse o padre, logo concluída a oração. O cansaço daquele homem tão alto e magro era visível – antes de chegar ao local, às 14h30, ele já havia caminhado 10,5 km na orla de Boa Viagem (por isso acordou às 3h) e concedido três entrevistas. Nas primeiras duas horas e meia de evento, deu quatro pequenas pausas, para descansar, tomar café e energético. Numa delas, conversou rapidamente com o Viver.

Após as 17h, as assinaturas à mão foram substituídas por carimbos e bênçãos, acompanhados por fotografias, que serão disponibilizadas no site https://www.flickr.com/photos/globolivros/. A dupla de voluntários do Santuário Laerte e Antônio (o pai do padre, de 73 anos) marcava cada livro. Às vezes, pilhas de 10 exemplares.

Recife foi a 12ª cidade de 70 destinos previstos na travessia de aproximação com os leitores. Com Ágape, 60 eventos ajudaram a catapultar o livro ao topo dos mais vendidos, com 10 milhões de unidades. A turnê de Kairós (que não passou dos 2 milhões) passou por apenas 20 locais. Philia já vai em 900 mil.

Sentados no auditório da Livraria Cultura, os fiéis davam sinais de esgotamento físico. Alguns levavam pequenas cadeiras dobráveis, sacolas com alimentos. Outros carregavam os filhos, sobrinhos, netos. Até bebês. “Quando a gente consegue tocar uma criança, consegue tudo”, acredita o padre.

O pequeno Lucas, de 5 anos, foi um dos responsáveis por fazer valer a pena todo aquele esforço, diz o padre. O garoto acompanha as missas, aos domingos, e acredita que a bênção do padre pode ajudar no tratamento da Doença de Perths, que compromete os movimentos da perna. Ele mora em João Alfredo, no Agreste pernambucano, e foi trazido pelos pais, os agricultores Lucicleide e Justino Manuel.

A médica Henny Barreto, 80, se locomovia com ajuda de um andador, depois de sofrer um acidente na BR-101, mas estava lá. A doméstica Amara Gouveia, 32, queria pedir oração para o marido, que bebe muito, e para a filha, cardiopata, de apenas três meses – mas já abençoada pelo padre Marcelo. Maria de Lourdes, 61, sofre depressão desde criança. “Estou em cada capítulo”, confessou, com os olhos marejados, logo após conseguir o autógrafo.

Outras histórias ficaram perdidas, mas denunciadas pelos olhares cheios de devoção e paixão de cada um. São narrativas de dificuldades e superações. Mas, acima de tudo, de esperança, vindas de pessoas simples, de várias cidades pernambucanas e estados vizinhos. As primeiras palavras eram sempre de gratidão. E a bênção retribuía.

Conheça a casa onde Ariano Suassuna morou

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O universo mágico dos livros de Ariano Suassuna permeia toda a casa onde o escritor morou com a mulher durante 55 anos, no Recife

Rogério Maranhão/ Casa Cláudia - Casa de Ariano Suassuna: escritor viveu durante 55 anos cercado de tudo o que mais amava

Rogério Maranhão/ Casa Cláudia – Casa de Ariano Suassuna: escritor viveu durante 55 anos cercado de tudo o que mais amava

Rosele Matins, na Revista Exame

São Paulo – Assassinado por um cangaceiro, João Grilo, protagonista da peça Auto da Compadecida (1955), recebe autorização para ressuscitar. Mas o perdão não vem facilmente: como havia ludibriado seu algoz, além do padre, do sacristão, do bispo e do padeiro da cidade com mentiras, o personagem precisou enfrentar um julgamento, no qual Jesus, na fgura de um homem negro, e o Diabo, vestido de vaqueiro, disputam sua alma.

Não fosse a intercessão da Virgem, o herói malandro (autodenominado “um amarelo muito safado”) padeceria no fogo eterno. Já no Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta (1971), o fidalgo dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna narra sangrentas e mirabolantes epopeias medievais, ocorridas em pleno sertão, com vocabulário pitoresco, em que onças, anjos e caboclos dividem as páginas com bestas marinhas e menções aos escritores Homero e Euclides da Cunha.

Situações insólitas como essas, repletas de fantasia e elementos da cultura regional (a exemplo da literatura de cordel e de versos dos repentistas), caracterizam os textos de Ariano Suassuna (1927-2014), o Imperador da Pedra do Reino – a nobre condecoração ele recebeu dos organizadores de uma cavalgada que acontece anualmente em São José do Belmonte, no interior pernambucano, inspirada em lendas locais e em seu livro mais famoso.

Assim como as demais, a obra foi escrita à mão, no gabinete da casa na qual esse paraibano, radicado no Recife desde a adolescência, morou por mais de cinco décadas com a parceira de toda a vida, Zélia Andrade Lima.

“Ele era muito rigoroso e disciplinado. Acordava cedo e trabalhava de domingo adomingo. Só interrompia o ofício para ler”, conta um de seus genros, o artista plástico Alexandre Nóbrega, braço direito na tarefa de migrar o conteúdo manuscrito para o computador.

Uma espreguiçadeira – gênero de móvel pelo qual Ariano tinha especial predileção – deixada na sala de jantar era sua companhia na leitura do jornal, logo após o café da manhã.

No ambiente, decorado com móveis de jacarandá do século 19, piso de ladrilhos hidráulicos também antigos e um belo painel de azulejos, presenteado pelo amigo Francisco Brennand, o autor de Uma Mulher Vestida de Sol (1947) e O Santo e a Porca (1964) saboreava almoços com os seis filhos e os 15 netos aos domingos.

Mantê-los por perto, aliás, era uma de suas grandes alegrias. Tanto que vários integrantes da família moram neste mesmo lote, em outras construções, e se visitam cotidianamente. “Sou patriarcal”, declarou Ariano na reportagem publicada por CASA CLAUDIA em 1997.

Quando não estava lendo ou escrevendo, exercia outra atividade: ministrava aulas-espetáculo sobre a cultura popular brasileira, acompanhado de músicos e bailarinos. A última delas ocorreu cinco dias antes de encontrar Caetana, como se referia à morte, parafraseando um termo comum no sertão da Paraíba e de Pernambuco.

O ritmo das saídas, no entanto, diminuiu desde o ano passado, quando ficou hospitalizado para tratar dois infartos e um aneurisma cerebral. Mais recolhido, pôde concluir o livro O Jumento Sedutor, que vinha preparando há 33 anos, com previsão de lançamento ainda para 2014.

“Fiz um pacto com Deus. Se ele achasse que o romance tinha algo de sacrílego ou de desrespeitoso, que o interrompesse pela morte”, disse o escritor numa entrevista concedida em dezembro último ao jornal Folha de S.Paulo. Pelo jeito, o interesse em ver a obra pronta não era apenas terreno.

Refúgio povoado de lembranças carinhosas

O endereço eleito por Ariano, ao qual o escritor se referia como “minha fortaleza, um marco de resistência da cultura brasileira”, só poderia ser peculiar, a exemplo das histórias que ele imaginou.

Erguida em 1870, a construção (cuja fachada foi revestida de azulejos criados por Brennand) fica na Casa Forte, bairro de atmosfera bucólica na Zona Norte do Recife, às margens do rio Capibaribe.

Do portão, já se avistam esculturas de contornos oníricos moldadas por Zélia, painéis cerâmicos e mosaicos que reverenciam a religiosidade e o legado do ilustre morador, que, apesar de conhecido pelo talento com as letras, flertava com as artes plásticas – alguns de seus livros trazem ilustrações que ele mesmo desenhou.

Lá dentro, móveis herdados, lembranças da infância e muitos presentes, dados por filhos e amigos, preenchem os ambientes, que expressam um registro mantido com afeto na memória do autor.

“Assim como eu, Zélia também cresceu num engenho, em Tapera, na zona da mata pernambucana. Talvez por isso, tenhamos escolhido uma casa assim, com ar de fazenda”, afirmou ele, imperador em São José do Belmonte e aqui, em seu reino, onde viveu durante 55 anos cercado de tudo o que mais amava.

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Imagens: Rogério Maranhão/Casa Cláudia

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