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Chimamanda Ngozi Adichie tem livro de contos lançado pela 1ª vez no Brasil

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Chimamanda Ngozi ficou, mundialmente, conhecida depois de falar dos riscos da história única no TED Talks

Chimamanda Ngozi ficou, mundialmente, conhecida depois de falar dos riscos da história única no TED Talks

 

Em 12 histórias curtas, ela fala de migrações, relacionamentos amorosos, a relação da mulher negra com o próprio cabelo e racismo

Publicado no UAI

Chimamanda Ngozi Adichie virou uma estrela na internet: suas participações no programa de palestras TEDTalks somam milhões de visualizações. Um trecho foi usado por Beyoncé na canção Flawless (outros 60 milhões de cliques no YouTube). Suas duas obras mais recentes são manifestos feministas que figuram nas listas de mais vendidos mundo afora. Mas o livro que chega agora ao Brasil, No Seu Pescoço, uma reunião de contos publicada nos EUA em 2009, vem para lembrar que a nigeriana é, antes de tudo, escritora de ficção.

Em 12 histórias curtas, a autora explora temas que também aparecem nos seus romances, especialmente Meio Sol Amarelo e Americanah (romance de 2014, outro dos trabalhos que transformaram Chimamanda em celebridade): migrações entre África e EUA, relacionamentos amorosos, a relação de mulheres negras com o próprio cabelo. Racismo.

O desafio que ela se coloca, entre ser artista e ser ativista ao mesmo tempo, é buscar a “verdade emocional”, porque ela concorda que escritores em uma missão podem se tornar maus autores. “Quando artistas permitem que a missão afunde todo o resto, quando personagens se tornam não defeituosos e complexos, mas falantes achatados, isso (fazer arte ruim) pode ser verdade”, diz, por e-mail, à reportagem.

“Dito isso, eu realmente acho que a maior parte dos artistas está numa missão, a questão é se essa missão é bem executada. O próprio ato de escrever, de contar uma história, é político. Porque a arte não cai do céu. A arte que criamos é um produto dos espaços que ocupamos no mundo. E eu não penso que a missão deva ser grandiosa, ela pode simplesmente ser, por exemplo, a missão de humanizar uma parte do mundo que há muito foi enredada no estereótipo.”

O sucesso com o ativismo feminista também é ambíguo para a escritora – ela relata vários casos de pessoas (homens) que lhe dirigiram hostilidades em eventos públicos, num nível que ela não havia experimentado antes. “E agora me chamam para qualquer evento feminista no mundo”, brincou em outra entrevista recente.

“Quando escrevo sobre feminismo, isso vem de um lugar por fim ideal, de um desejo de trabalhar em direção a um mundo que é verdadeira igualitário”, diz. Para Educar Crianças Feministas: Um Manifesto também foi lançado pela Companhia das Letras este ano (o título original é Dear Ijeawele, or A Feminist Manifesto in Fifteen Suggestions).

A obra é uma versão reduzida de uma carta que Chimamanda enviou para uma amiga, que lhe pediu conselhos para criar a filha como feminista. “Penso que é moralmente urgente termos conversas honestas sobre outras maneiras de criar nossos filhos, na tentativa de preparar um mundo mais justo para mulheres e homens”, escreve – ela também é mãe de uma pequena de 20 meses. O livro é um dos 10 mais vendidos do Brasil este ano na categoria não ficção, segundo o PublishNews.

Sobre os contos de No Seu Pescoço, Chimamanda diz que eles representam um lugar na sua carreira, mas não demonstra muito entusiasmo ao falar deles: a recepção crítica em língua inglesa, na época do lançamento, foi mista.

Michiko Kakutani escreveu no The New York Times que o livro mostra a África “em uma comovente coleção de contos, e que não é aquela África com que os americanos estão familiarizados pela televisão ou manchetes de jornal”. Em outra resenha no mesmo veículo, o crítico Jess Ross escreve que em alguns contos Chimamanda parece tentar “entregar as notícias que o Ocidente quer ouvir sobre a África: vítimas de dar pena, vilões incorrigíveis, sobreviventes inspiradores”. Em seguida, porém, ele ressalta que essa impressão não dura muito e que a autora “calmamente eviscera as pretensões dos ocidentais cujo interesse na África mascara uma venalidade gananciosa e vaidosa”.

“Para mim, escrever ficção é um processo de contar a minha própria verdade e, ao mesmo tempo, espero levar outras pessoas comigo”, diz Adichie ao Estado. “A decisão de escrever cabe a uma pessoa, mas a decisão de publicar o trabalho é sobre outras pessoas. Eu não pretendo, na minha ficção, mudar a cabeça de ninguém, mas sempre fico feliz ao escutar que mudei.”

Ela rejeita a ideia de que os contos tratam sobre mal-entendidos. “Culturas são diferentes e pessoas olham de maneiras diferentes para as mesmas coisas”, explica. Ela também não quis comentar se mais ficção vem aí. “Sou uma mulher igbo supersticiosa e não falo sobre trabalhos em andamento”, ressalta.

Em uma entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo em 2014, Chimamanda se dizia feliz com Obama na presidência, embora não concordasse com algumas decisões do ex-presidente americano. Agora, com Trump destilando ataques contra imigrantes, ela diz se sentir muito mal. “Esse fato (a eleição de Trump) me fez perceber como todas as democracias são profundamente frágeis”, admitiu ainda.

Biografias puxam recuperação do mercado de livros em 2017

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(iStock/iStock)

(iStock/iStock)

Vendas crescem 5,47% em volume e 6,59% em faturamento nos primeiros sete meses do ano em relação a 2016; sozinho, gênero biográfico subiu 12,18%

Publicado na Veja

Depois de um 2016 muito difícil, devido à crise econômica que inibe o consumidor, o mercado de livros segue respirando melhor em 2017, graças, principalmente, aos títulos do segmento de não ficção, entre os quais estão incluídas as biografias. Os dados são de pesquisa do Snel, o Sindicato Nacional dos Editores de Livros, em parceria com a Nielsen.

No acumulado até julho, as vendas de livros cresceram 5,47% em volume e 6,59% em faturamento. Isolado, o segmento chamado de Não Ficção Trade, apresentou um aumento de 12,18% em receita. Com o resultado, a fatia do gênero saltou de 22,52% para 23,70% do total do mercado.

O nicho de livros infantis, juvenis e educacionais, porém, segue na dianteira, inclusive ampliando seu domínio: sua fatia passou de 24,86% em 2016 para 25,23% neste ano.

O desconto, porém, também cresceu 1,3% em 2017, na comparação com o mesmo período de 2016, com destaque para os segmentos infantil, juvenil e educacional, onde subiu 3,3%, não ficção, onde o aumento foi de 2,1%.

“Experiência não paga conta”, diz presidente da Livraria Cultura

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Sérgio Herz: Presidente da Livraria Cultura aposta em maior inserção no universo digital para conseguir retomar o rumo da empresa (Livraria Cultura/Divulgação)

Sérgio Herz: Presidente da Livraria Cultura aposta em maior inserção no universo digital para conseguir retomar o rumo da empresa (Livraria Cultura/Divulgação)

A Livraria Cultura está no vermelho desde 2012, e só tem perspectiva de voltar a lucrar no ano que vem

Camila Almeida, na Exame

A Livraria Cultura, que completou 70 anos este ano, passa por uma das fases mais difíceis de sua história. O espaço que é sinônimo de glamour e de reunião de elites intelectuais não vê o reflexo desse luxo nas contas. A livraria está no vermelho desde 2012, e só tem perspectiva de voltar a lucrar no ano que vem.

A queda nas vendas também é uma realidade e, para reverter o quadro, a aposta é em ampliar a presença do digital na receita da empresa e levar mais inteligência de dados para a loja física.

Para o presidente da empresa, Sérgio Herz, a loja física não pode mais ser acéfala, vivendo tamanha desvantagem em relação ao conhecimento sobre o cliente que se tem na internet.

Em entrevista a EXAME Hoje, Herz falou sobre as tentativas de reinvenção, o impacto da crise e da competitividade de preços promovida pelo e-commerce e dos boatos de fusão com a Livraria Saraiva, que pipocaram no primeiro semestre deste ano. Sobre o assunto, o empresário afirma que não está fechado para negociações.

“Se a Amazon vier aqui dizendo que quer me comprar, eu vou avaliar. Vai pagar bem?”, afirma. Abaixo, a entrevista na íntegra.

Como a Livraria Cultura tem investido em tecnologia para se reinventar?

Antes de detalhar tudo, precisamos falar das premissas por trás disso. A mais forte é que não precisamos mais da loja física para comprar nada. Está tudo no celular. Outra premissa muito básica é que não existe mais offline e online. O cliente está e é conectado. O desafio é descobrir como usamos a tecnologia digital para melhorar a vida do cliente e ser mais inteligente no ponto de venda. Não é mais aceitável que um cliente entre numa loja e saia de lá sem nenhum produto — é o que eu chamo de “show-rume”. As lojas físicas do varejo estão disputando o tempo livre das pessoas, que é o mais precioso, e, se o cliente escolheu a minha loja para passar seu tempo livre, ele não pode sair de lá com as mãos vazias. É preciso mudar a cabeça da empresa. Nós somos uma empresa tradicional, e temos um mundo novo pela frente. Mudar essa cabeça para pensar diferente é um desafio. O varejo ainda tem aquele trabalhozinho de como se fazia quando surgiu o comércio no mundo, na civilização moderna: eu gero um pedido aqui, meu fornecedor entrega. Nada mudou muito. Hoje, estamos tentando descobrir como usamos big data, machine learning e informação para sermos mais inteligentes.

Como isso tem sido feito?

A ideia é usar a tecnologia para inovar nossa cozinha. Exemplos bastante práticos: levamos a precificação dinâmica, que já existe na internet, para o mundo físico. A ideia é fazer com que o cliente confie mais no ponto de venda, em vez de pensar que na internet ele vai encontrar mais barato. A loja física não pode dizer mais “não”. Toda vez que a loja diz que não tem um produto, ou que não consegue equiparar o preço, é criada uma fricção. Na internet, eu sei tudo, eu tenho os olhos do cliente, enquanto a loja física virou algo acéfalo. Então, estamos usando dados de geolocalização para aproveitar melhor quando o cliente estiver perto da loja física, por exemplo, avisando via notificação que temos o produto que ele gosta, com o preço que ele gosta. Isso já foi testado com cerca de 70.000 clientes nos últimos meses. Descobrimos que, ao oferecer um preço especial para o cliente na loja, o ticket médio aumenta entre 30-40%. Além disso, é um desafio não deixar faltar produto na loja. Esse era um luxo que o varejo tinha no passado, hoje não tem mais. Eu tenho 4.000 fornecedores, e eu não consigo gerenciar esses caras do jeito que eu deveria. Então, eu preciso que o meu fornecedor gerencie a minha loja, não eu, para garantir o acervo. Para isso, desenvolvemos um produto chamado Cultura Insight, que, na verdade, é um sistema de informações de tudo o que está acontecendo na Cultura. Por meio de algoritmos, o sistema avisa o produto que será preciso repor na loja, de forma antecipada. Estamos criando uma relação mais transparente entre indústria e varejo.

É uma mudança drástica no perfil da livraria, não? A livraria deixou de ser um espaço de curadoria?

Antigamente, a pessoa vinha na livraria para descobrir algo que ela não sabia. Hoje ela sabe. O desafio da livraria, e especialmente do ponto de venda físico, é fazer com que essa pessoa descubra algo novo. Hoje a área mais importante e que mais cresce na Cultura é a de inteligência de mercado, enquanto outras estão se alterando ou mesmo diminuindo. Estamos contratando mais estatísticos, economistas e engenheiros do que outras profissões mais tradicionais. É uma ruptura bastante grande na empresa.

Como o senhor avalia as quedas nas vendas dos últimos anos?

Tem muito de crise, sem dúvidas. O consumo das famílias brasileiras caiu cerca de 5% em termos reais. Se colocar a inflação, a queda é de 15%, que é mais ou menos o que caiu o nosso mercado, que caiu 17%. Outra coisa importante foi a competição de preço que o e-commerce trouxe para o mercado, que acentuou a queda no faturamento. O consumidor está muito atento e criterioso em relação a preço. O brasileiro está muito preocupado com promoção. Hoje, se o varejista priorizar a margem de lucro, ele vai vender muito pouco. Se ele privilegiar as promoções, as vendas aumentam. O desafio é descobrir como vamos viver com margens menores.

O impacto dessa chegada do e-commerce nas vendas, quando você fala que aumentou a competição dos preços, pode ser definido como o efeito Amazon?

Não é isso. Na crise, o e-commerce ajuda, porque dá mais referências para o consumidor comparar os preços. Esse negócio do preço é uma ciência, e virou para mim um artigo totalmente necessário, e estou fazendo de tudo para entender o que preciso fazer para lidar com isso. Temos sete ou oito modelos de precificação diferentes. Em algumas lojas podemos fazer promoção, em outras mais sofisticadas não, porque o cliente acha feio. Na hora do almoço, tem muita gente passeando nas nossas lojas, mas esse pessoal não está indo para comprar. Está indo para tomar um café, para dormir nos pufes… O que estamos fazendo, para testar, é baixar o preço na hora do almoço, para aumentar a conversão. Algumas horas mais tarde, começam a entrar pessoas na loja que estão focadas em comprar, e elas são menos sensíveis a preço. Isso quer dizer então que o cara que está decidido a comprar pode pagar mais caro? Pode ser que sim, pode ser que não; é aí que pode entrar a estratégia mais one-to-one.

A Cultura queria ampliar a participação do e-commerce na receita dos atuais 28% para 60-70% em cinco anos. Esse prazo se mantém?

Queremos fazer mais rápido.

Por que essa vontade de converter tanto para o e-commerce?

Porque é muito difícil levar essa inteligência de dados que eu mencionei para a loja. A loja virou cara. Ela deixou de ser venda e virou experiência. Só que eu vivo do quê? Eu não vivo de experiência. Experiência custa caro. Eu não posso depender das lojas no futuro. Loja para mim é marca, não lucro. O lucro vai vir do online, da área inteligente onde se captura tudo. O cliente só vai na Cultura quando tem tempo livre, mas, se ele não tiver tempo, ele vai comprar do mesmo jeito. Estamos ampliando nossa rede de cafés, para que eles não sejam mais terceirizados, sejam os cafés da Cultura — e aí o cliente pode pagar café, livro, tudo junto. Se for uma empresa diferente, eu não consigo fazer isso, e não consigo avisar para o cliente que está passando por ali, por exemplo, que o café naquele momento vai ser por nossa conta. Essa loja não pode ser burra, não pode ser acéfala como ela é hoje. Eu tenho que fazer o e-commerce crescer porque é lá que eu vou ganhar dinheiro, e a loja vai ser um ponto de marketing. Menos é mais; só experiência não paga conta. Por ela, o consumidor não está disposto a pagar 30% a mais.

Então, o senhor não acredita que um incremento na experiência, com abertura de mais lojas físicas, poderia gerar um incremento de vendas.

Tem limite. Uma experiência boa no mundo físico pode gerar mais vendas, sim. O problema é que reproduzir a experiência boa na loja em quantidades muito grandes não é viável. Não é à toa que aquele restaurante muito bom não consegue ter muitas unidades. Quem quer entregar uma experiência boa fica limitado a um certo número de lojas.

Não está no plano, então, uma expansão no número de lojas.

Tem cidades onde ainda não temos lojas, então olhamos. Mas aquela expansão para abrir 50 novas lojas, não. Esquece.

A experiência de estar na Cultura perdeu o glamour?

Pelo contrário. Eu quero melhorar isso, colocando tecnologia. Eu quero que a loja da Avenida Paulista, que é marcada no Trip Advisor como “must see”, continue assim. Por isso que a gente levou o restaurante Manioca para dentro da loja [no shopping Iguatemi, em São Paulo]. É por isso que eu tenho uma Spice Girl fazendo pocket show dentro da minha loja [na unidade do Market Place]. Eu quero ampliar esse tipo de relação. Senão o cliente vai sair de casa para quê? Hoje, o glamour é mais importante ainda, e precisamos saber recuperá-lo.

Há muito preconceito em relação ao tipo de leitura que o jovem tem hoje. Faltou em algum momento a Cultura entender como esse jovem está pensando e o tipo de conteúdo que ele está consumindo?

Nós sempre trabalhamos com o conceito de que se o jovem estiver lendo é melhor. E quem quer trazer o jovem para a leitura não pode mandar ele ler Machado de Assis ou qualquer um desses da literatura cobrada pela Fuvest. Tem que mandar ele ler Harry Potter, porque ele vai pegar um catatau de 700 páginas e dizer: “eu quero mais”. O jovem precisa disso, de leitura, de estudo. Não dá para rotular um jovem porque ele não lê um clássico, está errado.

Estava falando mais do fato de o jovem estar lendo talvez muito mais o conteúdo que é inerente ao mundo digital do que o livro em si.

O jovem que está lendo só isso e não lê livro é o mesmo jovem que nunca leu. Leitura de blog não significa um substituto do livro. Eu tenho três filhas jovens — e é claro que eu não sou um exemplo bom —, mas elas amam ler. O jovem no Brasil não lê, e isso já faz muito tempo, não é um advento da internet. Vivemos num mundo cheio de informação, mas informação pouco profunda. O desafio é despertar o interesse da leitura mais profunda no jovem. Estamos falando do millennial, que está acostumado com informação rasa e com instantaneidade; na vida dele, tudo é muito rápido. No meu tempo, a gente esperava o dia do programa para assistir, esperava o jornal chegar na porta para receber notícia e, se eu quisesse ter um relacionamento com alguém, eu tinha que sair à noite. Não era tão fácil conseguir as coisas. Hoje, o jovem tem tudo na mão, e passa o dia vendo um mundo nas redes sociais onde tudo é lindo e maravilhoso. Uma hora a realidade chega. Nossas lojas estão cheias de jovens comprando música. Para eles o CD é um objeto curioso.

E os boatos de fusão entre Livraria Cultura e Saraiva…

Ficamos sabendo por vocês.

Por que o senhor acredita que esse tipo de boato surgiu?

Porque o mercado gosta de notícia assim. Fiquei me perguntando também. Talvez porque eu tenha ido com o Jorginho [Jorge Saraiva, presidente da livraria Saraiva] para Brasília para discutir uma lei absurda que o Congresso queria aprovar sobre a disposição dos livros nas livrarias. Nós fomos juntos. Não sei se alguém nos viu no aeroporto, ou tomando um café.

Teve um impacto negativo para a marca?

Não. Não sei avaliar isso…

No futuro, alguma associação desse tipo é possível, é interessante?

Eu digo que qualquer empresário que está de olhos fechados para isso está sendo míope. Não dá para dizer “eu nunca beberei desta água”. Se amanhã bate o Saraiva aqui dizendo: “Sérgio, vamos nos juntar?”, eu tenho que ouvi-lo. Ele nunca fez isso, mas eu tenho que ouvir. Ponto. É natural do mundo dos negócios; tem que estar sempre atento às oportunidades. Se a Amazon vier aqui dizendo que quer me comprar, eu vou avaliar. Vai pagar bem? E se for uma proposta irrecusável? A gente pensa duas vezes. É natural dentro de uma empresa. Nossa estratégia é um pouco diferente da de ter 120 lojas, mas isso não quer dizer que um dia a gente não vá dizer “não” para essas coisas. Não sei. No mundo dos negócios, não dá para ser preconceituoso, dizendo que não faço isso ou aquilo. Se fizer sentido e fizer bem para as empresas, tem que ser feito.

É uma questão de, hoje, ter mais pragmatismo do que sonho?

Os dois são bons. Não dá para ter só um ou só outro. Já me perguntaram lá atrás: “vocês estão à venda?”, e eu disse: “nós sempre estivemos, depende da oferta”. E depende de para quem, por que, o motivo. Estamos interessados em crescimento, em tamanho; no e-commerce, queremos crescer mais rápido do que em cinco anos, então estamos estudando vários caminhos. Compras ou associações com alguém… não tem nada marcado, mas a gente olha bastante.

Ter demitido tantos funcionários e ter passado por um processo de reestruturação impactou a relação com os investidores?

O investidor gosta de saber como a empresa está se preparando para o futuro. Se a estrutura é adequada para o tamanho ou se a estrutura é cara e inadequada. Isso é o que ele olha. Ele não quer saber quem contratou ou demitiu, ele quer saber do potencial daqui para a frente. Toda empresa no Brasil está tendo que se adaptar a uma realidade diferente. Todos fizemos isso. Quando se faz a lição de casa, o investidor vê com bons olhos. Se não tem receita, tem que cortar. O que nós descobrimos de interessante nesse processo é que dá para ser produtivo e fazer mais com menos, sem grandes dores.

Quando a livraria vai voltar a dar lucro?

Estamos falando a partir de 2018, provavelmente. A retomada do mercado de livros no Brasil está um pouco atrasada em relação ao mercado internacional. Com a crise, tem queda de receita, mas os custos continuam a subir, porque estão todos indexados. Energia, aluguel, IPTU, dissídio dos funcionários… Mas o preço dos produtos não subiu. E isso não é só para a Cultura, é para todo o varejo. Não tem outro jeito para recuperar se não com produtividade e redução de custos. Não dá para ter lucro num ambiente desses.

Como o senhor vê a livraria Cultura daqui há cinco anos?

Uma empresa muito mais digital, com lojas cada vez mais desejadas. Temos apenas 17 lojas no Brasil, não é nada, mas vamos continuar com poucas. Poucas e boas.

Os pais são muito importantes no desenvolvimento dos filhos como leitores

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As histórias infantis narradas pelos pais, estreitam a relação e a comunicação

André Junior, no DM

Ouvir e ler histórias desenvolve todo o potencial crítico da criança. O ato de contar histórias deve ser uma prática diária nas instituições de educação infantil, também, em casa, principalmente em casa. Sabemos, com todos os pontos e vírgulas, que contar histórias é extremamente importante e benéfico para as crianças.

Desde a mais tenra idade há quem afirme a eficácia de embalar os bebês, ainda no ventre, com a melodia da voz da mãe, contando histórias, para familiarizar a criança desde aí, com os mecanismos narrativos, e com a proximidade e o afeto que o contar histórias envolve. Essas ações, de certo modo, já fazem parte das estratégias para a formação do leitor.

Através de uma história que se descobre outros lugares, outros tempos, outros jeitos de agir e ser, outras regras, outra ética, outra ótica.

Além da importância que causam no desenvolvimento da criança, as histórias infantis quando são narradas por um dos pais, estreitam a relação e a comunicação e proporcionam a troca afetiva. Pensando acerca dos vários benefícios que esse ritual mágico pode propiciar.

Nesses momentos, além de contar é necessário ler as histórias. É possível também a leitura compartilhada de livros em capítulos, o que possibilita às crianças o acesso, pela leitura do professor, a textos mais longos.

Outra atividade permanente interessante é á roda de leitores, em que periodicamente as crianças tomam emprestados livros da instituição, para lerem em casa com os pais ou amiguinhos.

Na Educação Infantil as histórias fazem parte essencial no desenvolvimento físico, psicológico e social das crianças. São momentos únicos de reflexão e encantamento que estabelece relações com a imaginação e o mundo em que vive, construindo assim saberes e experiências. E para entrar em contato com essas histórias, a criança necessitará da mediação de um profissional consciente da arte de contar histórias e que na maioria das vezes é o professor de sala de aula que faz esse papel, e que será na realidade a chave para esse mundo encantador de ouvir e contar histórias.

Toda criança adora ouvir história. E pode ser a mesma, muitas e muitas vezes. Transformar a hora da leitura em um momento de aprendizado é essencial. Ouvir e ler histórias desenvolve todo o potencial crítico da criança. É poder pensar, duvidar, se perguntar, questionar. É se sentir inquieto, cutucado, querendo saber mais e melhor ou percebendo que se pode mudar de ideia. É ter vontade de reler ou deixar de lado de uma vez.

A partir dos 3, 4 anos, as crianças têm um vocabulário maior e constroem as primeiras frases. A leitura para os pequenos, tanto em casa quanto na escola, contribui muito nessa fase de desenvolvimento. Mas também não se pode descuidar das conversas do dia a dia.

É possível transformar simples palavras em histórias inesquecíveis para as crianças. Mais do que textos memoráveis, ao compartilhar narrativas, compartilhamos sentimentos. Momentos de partilha de alegria, euforia e amor são guardados na lembrança desde muito cedo e a arte de contar histórias facilita que estes momentos sejam mesmo divertidos, amorosos, inesquecíveis.

Os contos tradicionais exploram conteúdos e sentimentos que interessam muito às crianças. Como o medo, o abandono, o crescimento, o mal e assim por diante. Elas têm muito interesse em conversar sobre esses temas.

Primeiramente os pais precisam acreditar na história que narram e transmitir isso para o filho;

Escolha um momento do dia para a atividade, como na hora de dormir;

Preste atenção na entoação da voz, imitando os personagens, assim você estará despertando a curiosidade da criança;

Crie um clima, ao chegar após um dia inteiro fora de casa não comece contar histórias imediatamente. Proporcione um tempo de diálogo e brincadeira com seu filho para ele se envolver no clima da história e se desligar das outras atividades;

Utilize objetos que alimentem a imaginação da criança, pode ser um lençol que se transforma em capa do príncipe encantando, um lápis em vara de condão; Não obrigue a criança a ouvir histórias quando ela não quer;

Prepare-se para as interrupções, criança faz muitas perguntas, explique o que for necessário e continue a história;

Atenda os desejos de seu filho, quando ele pedir para ouvir a mesma história não mude, a fim de evitar a ansiedade ocasionada pelo desconhecido. Essa atitude da criança pode ser também uma forma de buscar segurança. Fonte de pesquisa – Site: Brasilescola

Os pais são muito importantes no desenvolvimento dos filhos como leitores, Quando os pais antes da criança dormir contam história, é um momento de interação, transmite confiança e segurança, cria situação de amorosidade e desenvolve uma memória afetiva muito boa. A criança vai resgatar este sentimento de conforto e amorosidade que teve com os pais quando for estudar os livros da escola.

Os livros ajudam na autoestima e na confiança, a participação dos pais no ato de contar histórias reforçam este sentimento. Os pais devem estimular a criatividade da criança na hora de contar uma história. A criança tem conflitos e precisa aprender a se proteger emocionalmente.

Você pode estimular a criança a contar história e também pode entrar na brincadeira. Quando estiver com a criança, procure se tornar mais criança e brincar. “O ritmo de vida hoje é bem diferente do tempo dos nossos pais ou avós. A TV, internet e o videogame acaba ocupando a criança. Quando chega a noite, os pais estão cansados e, em vez de brincar, deixam os filhos vendo TV ou mexendo no computador.

“Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”. Paulo Freire

Autoras investigam educação de crianças na Dinamarca, país mais feliz do mundo

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Crianças dinamarquesas assistem à competição de vela: socialização é aspecto importante na formação de filhos no país - Reuters

Crianças dinamarquesas assistem à competição de vela: socialização é aspecto importante na formação de filhos no país – Reuters

 

Segundo elas, a raiz dessa satisfação está na forma como os filhos são criados

Mariana Alvim, em O Globo

RIO – Considerado o país mais feliz do mundo em três das quatro edições do Relatório Mundial da Felicidade, das Nações Unidas, a Dinamarca motiva investigações e suposições sobre as causas de tanta satisfação. No livro “Crianças dinamarquesas: o que as pessoas mais felizes do mundo sabem sobre criar filhos confiantes e capazes” (Fontanar), publicado em 18 países e recém-chegado no Brasil, as autoras Iben Sandahl e Jessica Alexander levantam uma hipótese: a raiz dessa felicidade está na forma como os filhos são criados.

Entre os preceitos dessa educação estão a liberdade com limites, formação cidadã e altas doses de “hygge” (pronuncia-se “ruga”), palavra dinamarquesa que define momentos de alegria com pessoas queridas, sejam amigos ou familiares, e é um estilo de vida, segundo o livro, que tem até um “juramento do hygge”. Iben é dinamarquesa e psicoterapeuta especializada em crianças e família, enquanto Jessica, com formação em Psicologia, é americana, casada com um dinamarquês e radicada na Itália. Ambas são mães, com dois filhos cada.

O GLOBO – Por que as crianças dinamarquesas são mais felizes?

Iben: Os dinamarqueses dão muita importância à socialização e à formação da criança como um todo, em vez de somente destacar suas notas e conquistas. Ensinamos ativamente a empatia, o que torna a criança capaz de levar uma vida autêntica, de se conhecer e agir a partir disso. As crianças dinamarquesas sabem que os desafios e problemas não as derrubam, porque não são poupadas disso na criação. A brincadeira também é considerada importante no aprendizado, mesmo com toda a pressão para ter as crianças engajadas em várias coisas que dão resultados mensuráveis. Não há nada a “realizar” numa brincadeira, e a personalidade da criança pode se desenvolver. Isto é um dos grandes motivos para nosso país ser o mais feliz do mundo.

Os pais dinamarqueses sabem dizer “não” para seus filhos?

Iben: Uma abordagem não disciplinadora da criação não significa que os limites não existam. Pelo contrário! Trata-se de estabelecer regras que criam um sentimento de segurança para a criança de uma forma respeitosa. Mas os conflitos de força podem ser algo difícil de evitar, apesar de tudo. Na Dinamarca, tentamos não entrar imediatamente nessas disputas.

Jessica: Dinamarqueses são muito bons em estabelecer limites, mas fazem isso com respeito e explicação. Não é fácil, mas costumo dizer que os dinamarqueses enxergam o papel de um pai ou uma mãe como um farol: eles enviam sinais consistentes, e as crianças devem aprender como navegar em suas vidas. A questão não é controlar, mas, sim, guiar.

Como é a relação das famílias com a tecnologia na Dinamarca?

Iben: As crianças usam celulares e tablets, mas não durante as refeições, por exemplo. Não podemos evitar as novas tecnologias, e esses aparelhos podem ser úteis como ferramentas pedagógicas ou até para acalmar a criança, se usados adequadamente. Mas insisto na importância dos momentos em que ninguém está ligado neles, todo dia. O cérebro das crianças precisa de paz, e os adultos precisam controlar e dar limites que façam sentido. Somos nós, os pais, que decidimos que tipo de família queremos ser.

Pais que vivem em países com condições socioeconômicas bem diferentes da Dinamarca podem, mesmo assim, aprender com o livro?

Jessica: Não moro na Dinamarca, mas uso a conduta dinamarquesa. É uma filosofia. Todos podem, por exemplo, dar a seus filhos mais tempo para brincar. Ensinar o valor da empatia, também. É claro que a qualidade de vida na Dinamarca, com toda sua estabilidade e benefícios, torna mais fácil aplicar esses ensinamentos, mas muitos podem ser adotados ao redor do mundo.

Você percebe diferenças na criação de filhos entre países que conhece?

Jessica: Sim, enormes! Vejo os Estados Unidos como extremamente competitivo e acadêmico: tudo precisa ser medido e classificado com notas. Na Dinamarca, o foco é no espírito colaborativo. Os alunos não recebem notas antes dos 13 anos. A Itália… Bem, a Itália não é muito moderna. Diria que o estilo da educação aqui está mais para o autoritário. Está ocorrendo um intenso debate, porque a França tornou a palmada ilegal (na Dinamarca, a palmada foi banida nos anos 90). E na Itália, a palmada ainda é amplamente aceita. Mas é bem marcante, por exemplo, a importância da família na sociedade.

Já viveu alguma situação diferente, no exterior, que chamou sua atenção sobre a criação dos filhos?

Jessica: Os italianos são muito protetores. Então, a abordagem dinamarquesa, de dar liberdade aos filhos, deixá-los cair e se sujar, é muito nova aqui. Quando eu saio com os meus filhos, os italianos acham que eles são completamente selvagens!

Leitores de outros países já demonstraram algum estranhamento?

Iben: A brincadeira livre é estranha para muitos. Deixe a criança ser criança e brincar mais! Isto é algo que temos feito há tempos. Com essa liberdade, a criança explora o mundo ao redor sem muita interferência dos pais e se desenvolve sem perceber, nos seus próprios termos. Assim, ela pode escolher o que fazer. Hoje em dia, os pais estão tão preocupados em programar tudo para os filhos que muitas crianças não têm a habilidade de tomar decisões.

Como é o apoio do governo à criação dos filhos na Dinamarca? E a divisão de tarefas entre pais e mães?

Iben: Você recebe apoio financeiro para ficar em casa quando tem um bebê recém-nascido. A gestante tem direito a uma licença de quatro semanas antes do parto, de 14 semanas após o nascimento, e uma licença que pode ser dividida entre o pai e a mãe, no total de 32 semanas. Muitos homens tiram proveito desse benefício, então é natural que pai e mãe se envolvam na vida da criança desde o começo.

Por que você acha que as pessoas ficam tão interessadas em livros sobre a criação de filhos em outros países?

Iben: Todos queremos que nossos filhos se tornem pessoas felizes e conscientes — e isto vai além das fronteiras. Portanto, buscamos informações de quem compartilhamos valores. O livro oferece uma filosofia que faz as crianças felizes.

Jessica: Com a globalização, percebemos que não somos afetados apenas por nossos pais, mas também pela nossa cultura.

Como sua família recebeu o livro?

Jessica: Independentemente de gostar ou não do livro, as pessoas discutem sobre ele. Minha família era muito autoritária. No início, meus pais foram resistentes ao livro, mas quando virou um best-seller, eles leram. E a nossa relação mudou. Nós implementamos o “juramento do hygge”, e isso transformou nosso convívio.

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