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Liberdade de expressão: número de palavrões aumenta em obras literárias

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Palavrões usados em na literatura aumentaram consideravelmente nos últimos 60 anos, segundo estudo norte-americano. Para especialistas, o fenômeno mostra que há mais liberdade de expressão e individualismo nas relações sociais

Vilhena Soares, no Correio Braziliense

Em 1972, o comediante George Carlin criou uma esquete chamada As sete palavras que não se pode dizer na televisão. O show foi usado como protesto contra o governo, que censurava a tevê aberta norte-americana à época, e fez com que o artista fosse preso inúmeras vezes durante as apresentações. Depois de 40 anos, a peça virou objeto de estudo de uma dupla de cientistas. Elas contabilizaram a presença dos impropérios ditos por Carlin em milhares de livros e detectaram um aumento do uso dos palavrões com o passar dos anos. As investigadoras acreditam que essa constatação reflete uma mudança no comportamento da sociedade, agora marcada por maior individualismo e liberdade de expressão.

Hannah VanLandingham, estudante de pós-graduação da Universidade de San Diego, e Jean M. Twenge, pesquisadora da mesma instituição norte-americana, analisaram o conteúdo de dezenas de milhares de livros publicados entre 1950 e 2008 e catalogados na base de dados do Google Books. “Os livros são um produto cultural ideal para examinar o uso da linguagem, já que permaneceram relativamente inalterados como meio, em contraste com as mudanças significativas que ocorreram em outras mídias”, justifica Twenge.
A dupla detectou que os autores norte-americanos usaram 28 vezes mais as sete palavras ditas por Carlin em 2000 do que no início da década de 1950. “Quarenta e cinco anos após a rotina de George Carlin, você pode dizer essas palavras na televisão e nos livros. Os resultados sugerem que elas se tornaram um tabu muito menor ao longo do tempo”, avalia Twenge. Para as autoras, o resultado da análise, publicado recentemente no periódico SAGE Open, serve como um termômetro das mudanças comportamentais da sociedade nos últimos 60 anos.

“O aumento dos impropérios nos livros faz parte de uma tendência cultural que vai em direção à exacerbação do individualismo e da livre expressão, fenômeno que foi constatado também em pesquisas anteriores”, diz Twenge, que ressalta que essas mudanças não são constatadas apenas na literatura. “Se os livros refletem tendências culturais mais amplas, esses resultados sugerem que outros produtos semelhantes, como filmes e programas de tevê, podem demonstrar a mesma característica.”.

Mestre em literatura e crítica literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), Conceição Russo acredita que o fenômeno também se deu no Brasil. Palavras consideradas palavrões no início do século foram banalizadas com o passar do tempo. “Em determinado período histórico, quando o contexto religioso era suficientemente forte para influenciar a liderança política e os costumes de um país, mandar alguém para o inferno tinha uma força muito mais avassaladora do que no contexto atual”, ilustra.

Conceição Russo também avalia que essa transformação é permeada por um processo de individualização das relações sociais. “Nesse sentido, concordo com as pesquisadoras quando afirmam que a sociedade ficou individualista. Nos dias atuais, em vez de mandar alguém para o inferno, basta mandá-lo para a progenitora que o pariu e que recebe remuneração pela venda do próprio corpo. O efeito na troca do coletivo pelo individual é com certeza muito mais devastador, tendo em vista que nos transformamos em uma sociedade narcisista”, explica.

Já quanto à liberdade de expressão, a especialista faz algumas ressalvas. Segundo ela, indubitavelmente, a literatura reflete um momento histórico de acordo com o contexto social em que está inserida, mas quantificar os palavrões nas obras como indicativo de maior autonomia pode não ilustrar a realidade em questão. “Já vivemos épocas de bastante opressão, com falta de liberdade de expressão. Embora censurados para publicação, os termos eram utilizados pelos escritores”, justifica. “Também é possível perceber esse fato se sairmos do campo literário e caminharmos pelas mídias de comunicação, sejam as televisivas, sejam as publicitárias, cuja censura ainda é implacável. Entretanto, ao percorrermos alguns países cuja ditadura reprime os direitos e os deveres dos cidadãos, notamos que essa liberdade continua sendo bastante relativa.”

Termômetro cultural

O impacto cultural do movimento turbinado pelo comediante também foi um motivador para as pesquisadoras. “Patrick, o irmão de Carlin, comentou uma vez que essa peça foi uma experiência de libertação para milhões de pessoas que eram jovens naquele momento. Ele tirou essa restrição dos ombros de muitos e as transformou em algo comum”, comenta VanLandingham.

Segundo a autora, estudar as mudanças no uso da linguagem em livros é importante porque eles são um “lugar útil” para observar e quantificar as mudanças culturais. “A cultura inclui o contexto e a pessoa, e os produtos culturais capturam esses fatores. E, talvez, o mais importante: eles moldam as ideias individuais e são uma das fontes mais comuns de percepção de normas”, diz.

Vladimir Melo, mestre em psicologia pela Universidade Católica de Brasília (UCB), ressalta que outras formas de expressão também refletem as mudanças sofridas pela sociedade e servem como objetos utilizados por estudiosos para reconstruir e compreender a história. “As artes plásticas, a música e o cinema, por exemplo, retratam o espaço e o tempo de uma obra.Todas essas artes mudaram em função das transformações históricas e sociais. Se observarmos com atenção, podemos verificar as repercussões das transformações nas manifestações culturais. A comunicação é dinâmica e a sua mudança retrata também a alteração do contexto em que ela ocorre”, explica.

Melo ressalta que outras mudanças estão por vi, principalmente devido à forma como a educação formal é feita hoje. “A alfabetização vem sendo acompanhada por um processo tecnológico e audiovisual cada vez mais prematuro. Não sabemos como e nem o quanto isso vai interferir na comunicação e na arte, mas sabemos que as próximas gerações podem nos trazer essas respostas.”

Mais sinceros
Uma pesquisa realizada por cientistas da Universidade de Maastricht, na Holanda, mostra que as pessoas falam mais palavrões quando estão sendo honestas. Os investigadores chegaram a essa conclusão ao entrevistar 276 voluntários, que foram questionados sobre os palavrões favoritos e em qual frequência os usavam. Em uma segunda etapa, os participantes responderam a um questionário usado para desenhar perfis psicológicos. Por meio de uma escala de confiabilidade, os cientistas mediram em quais situações os analisados eram honestos e associaram esses momentos ao uso mais frequente dos impropérios.

A influência da internet

Ao comparar a quantidade de palavrões escritos em quase 60 anos, as pesquisadoras norte-americanas fizeram também uma ligação entre duas formas de linguagem: a escrita e a oral. Segundo Vladimir Melo, mestre em psicologia pela Universidade Católica de Brasília (UCB), em análises feitas a partir de produções mais atuais, a influência da internet nesse contexto deve ser considerada.

“A liberdade individual, hoje em dia, é muito maior, e isso se reflete na literatura, que retrata o contexto social, cultural e econômico do autor. A tecnologia também tornou a escrita mais fácil de ser difundida e os blogs são a grande vitrine de textos informais, alguns deles até transformados em livros”, justifica. Para Vladimir Melo, a oralidade tem influenciado mais a escrita devido à forte presença do audiovisual, principalmente no cotidiano de crianças e jovens. “Isso pode ser constatado pela força do YouTube nessa geração”, exemplifica.

Rita Martins, psicanalista e professora da Faculdade Integrada Hélio Afonso, no Rio de Janeiro, também acredita que a pesquisa norte-americana mostra um movimento de transformação da comunicação, agora influenciado pelos avanços tecnológicos e pelas novas formas de interação. “Para mim, essa mudança é um movimento natural, que reflete também a informalidade das relações. Vemos isso em detalhes, como na relação que existe entre pais e filhos, com muito mais liberdade hoje. Na parte escrita, antigamente, não podíamos utilizar dados da internet. Agora, a maioria dos estudos tem fontes da web, até com os links reproduzidos no trabalho. Há uma série de mutações ocorrendo, assim como as vistas no estudo”, compara.

A psicanalista acredita que um olhar sobre culturas diferentes poderia trazer dados ainda mais interessantes. Segundo ela, analisar os orientais, que costumam ser mais fechados e prezar o coletivo em vez do individual, renderia outro resultado. “No Brasil, acredito que também teríamos dados interessantes devido à diferença que existe em cada região do país, gerada durante o período de colonização”, complementa.

Ler ficção nos torna mais empáticos

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Ler ficção ajuda a melhora as relações sociais. Mónica Torres

Ler ficção ajuda a melhora as relações sociais. Mónica Torres

 

Estudo afirma que se pode aprender sobre as emoções ao explorar a vida interior de personagens fictícios

Marya González Nieto, no EL País

Ler ficção fomenta a empatia. Os leitores podem formar ideias sobre as emoções, as motivações e os pensamentos dos outros. E transferir essas experiências para a vida real. É o que afirma Keith Oatley, psicólogo e romancista, em uma revisão de um estudo sobre os benefícios da leitura para a imaginação, publicado nesta terça-feira na Trends in Cognitive Sciences.

Nessa nova pesquisa são apresentados fundamentalmente dois estudos que embasam a tese de Oatley. No primeiro deles se pedia a vários participantes que imaginassem uma cena a partir de frases sucintas, tais como “um tapete azul escuro” ou “um lápis de listras laranjas”, enquanto permaneciam conectados a um aparelho de ressonância magnética. A cena que deveriam imaginar, com base nas pistas que lhes iam sendo dadas, era a de uma pessoa que ajuda uma outra cujo lápis caiu no chão. Oatley explica que depois de os participantes escutarem apenas três frases tiveram uma maior ativação do hipocampo, uma região do cérebro associada com a aprendizagem e a memória. “Os escritores não precisam descrever cenários de modo exaustivo, só têm de sugerir uma cena e a imaginação do leitor fará o resto”, acrescenta.

A teoria de Oatley, que é professor emérito de psicologia aplicada e desenvolvimento humano na Universidade de Toronto, se baseia em que a ficção simula uma espécie de mundo social que provoca compreensão e empatia no leitor. “Quando lemos ficção nos tornamos mais aptos a compreender as pessoas e suas intenções”, explica o pesquisador. Essa resposta também é encontrada nas pessoas que veem histórias de ficção na televisão ou jogam videogame com uma narrativa em primeira pessoa. O que é comum a todas as modalidades de ficção é a compreensão das características que atribuímos aos personagens, segundo Oatley.

O outro experimento incluído na revisão do estudo consistia em que os participantes tinham de adivinhar o que outras pessoas estavam pensando ou sentindo, a partir de fotografias dos olhos delas. Para isso podiam escolher entre quatro termos que descreviam estados de ânimo, por exemplo, reflexivo ou impaciente. A conclusão foi que as respostas dos leitores de ficção deram lugar a termos mais aproximados que as dos leitores de ensaios e livros de não ficção. Além desses estudos realizados por Oatley, o psicólogo também apresenta outras pesquisas que endossam suas conclusões, como uma realizada por Frank Hakemulder, pesquisador de língua e literatura no Institute for Cultural Inquiri (ICON), da Universidade Utrecht. Hakemulder afirma que a complexidade dos personagens literários ajuda os leitores a terem ideias mais sofisticadas acerca das emoções dos outros.

Todos esses experimentos se inserem em um momento de crescente interesse pelos estudos sobre as imagens do cérebro. Há alguns anos, em 2009, quando o mesmo autor publicou o primeiro estudo sobre a questão, não havia tanta disposição e expectativa em relação a esses temas. A guinada da comunidade científica na direção desse tipo de pesquisa é algo que se produziu nos últimos anos. “Os pesquisadores estão reconhecendo agora que na imaginação há algo importante a estudar”, diz Oatley.

A característica mais importante do ser humano é a sociabilidade, afirma Oatley. “O que nos diferencia é que nós, humanos, nos socializamos com outras pessoas de uma forma que não está programada pelo instinto, como é o caso dos animais”, explica o psicólogo, para quem a ficção pode ampliar a experiência social e ajudar a entendê-la.

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