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Prisioneiro de Guantánamo detalha tortura no 1º livro escrito da prisão

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‘Diário de Guantánamo’, de Mohamedou Ould Slahi, é sucesso de vendas.
Considerado ‘documento secreto’, relato levou 7 anos para ser publicado.

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Publicado no G1

O primeiro livro publicado por um prisioneiro de Guantánamo que descreve 13 anos de episódios de tortura, humilhação e desespero tornou-se um sucesso de vendas nesta quarta-feira (21) nos Estados Unidos, atraindo uma incomum atenção para o caso do autor.

O relato escrito por Mohamedou Ould Slahi a partir da base naval dos EUA em Cuba, “Guantanamo Diary” (“Diário de Guantánamo”), foi lançado na terça-feira após uma batalha legal de sete anos.

O livro reconstitui banhos de gelo, degradações e humilhações diversas num relato em primeira pessoa sobre os interrogatórios aos quais Slahi foi submetido durante a guerra dos EUA contra o terrorismo, ainda que ele nunca tenha sido acusado de qualquer crime.

Um tribunal federal norte-americano ordenou a libertação de Slahi, de 44 anos, em 2010, mas a decisão nunca foi cumprida e ele permanece encarcerado.

A publicação do livro coincidiu com o discurso de Estado da União proferido pelo presidente dos EUA, Barack Obama, sete anos depois de o presidente democrata ter prometido fechar a prisão em Cuba durante seu primeiro ano de mandato. Tais esforços acabaram bloqueados por parlamentares que consideraram os prisioneiros uma ameaça à segurança nacional.

O manuscrito de 466 páginas de Slahi foi inicialmente classificado como documento secreto pelo governo dos EUA e passou por uma edição forte antes da publicação.

“Ele é um homem inocente. Ele permanece detido ilegalmente e deveria ser a pessoa a contar sua história. Sem censura”, disse a advogada de Slahi, Hina Shamsi, da União Americana pelas Liberdades Civis.

“Guantanamo Diary” ficou entre os 100 livros mais vendidos da Amazon e entrou na lista dos 50 mais vendidos da livraria Barnes&Nobles nesta quarta-feira.

“Está à venda há apenas um dia, mas o meu telefone não para de tocar, então obviamente o livro está chegando às pessoas do jeito que gostaríamos”, disse a agente Liz Garriga, da Hachete Book Group, companhia à qual pertence a Little, Brown and Co, editora da obra.

Shamsi disse que o suplício de Slahi é mais do que a prova de que a tortura não funciona. Ela citou um trecho no qual ele descreve seus interrogadores como dizendo: “Tudo que você tem que dizer é ‘Eu não sei’, ‘Não me lembro’, para a gente te ferrar.”

A família de Slahi organizou uma entrevista coletiva em Londres na terça-feira para pedir sua libertação, ao mesmo tempo em que o livro era lançado na Grã-Bretanha. Várias celebridades, incluindo os atores Stephen Fry e Colin Firth, fizeram gravações publicadas on-line de trechos do livro.

Fry leu a descrição de Slahi sobre seu tratamento fora de Guantánamo, quando se encontrava nas mãos de indivíduos árabes que cumpriam ordens dos norte-americanos: “Eles preencheram o espaço entre minhas roupas e eu com cubos de gelo, do pescoço ao tornozelo, e sempre que o gelo derretia, colocavam cubos novos e duros. De vez em quando um dos guardas batia em mim, a maioria das vezes na cara.”

Slahi, natural da Mauritânia, disse que se entregou às autoridades três semanas depois dos ataques de 2001, sendo levado para a Jordânia, onde foi interrogado por vários meses antes de ser enviado ao Afeganistão e então a Cuba, de acordo com transcrições de seu processo judicial militar nos EUA.

Slahi foi descrito pela comissão responsável pela investigação dos atentados de 11 de setembro de 2001 contra o World Trade Center e o Pentágono como “um importante operador da Al Qaeda” que ajudou a organizar a viagem de treinamento ao Afeganistão de membros da célula de Hamburgo, na Alemanha, incluindo dois dos sequestradores do 11 de setembro e o companheiro de quarto de um terceiro (Mohamed Atta).

O atlas particular de Borges

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Ana Paula Campos, no Roteiros Literários

Em tempos de selfie, a palavra oficial de 2013, viajar se tornou de forma mais enfática uma cultura de ver-e-registrar-para-ver-de-novo. Atlas (1984), livro em que Jorge Luis Borges e a sua companheira María Kodama narram experiências de viagem por meio de relatos e poemas (ele) e fotos (ela), ganha uma conotação diferente quando lembramos que a obra foi escrita por alguém que não enxergava.

Borges viajou ao lado de María a partir de 1975, ou seja, havia perdido a visão há décadas. Suas histórias se tornam um compilado de imaginação, lembranças, associações literárias e impressões captadas pelos outros sentidos.

Em certo ponto do livro, ele diz: “comprovo com uma espécie de melancolia agridoce que todas as coisas do mundo me conduzem a um encontro ou a um livro”. María admite que tal modus operandi lhe despertou, em alguns lugares que visitaram juntos, a sensação de que quem não via era ela.

A escolha dos destinos era aleatória: “antes de uma viagem, olhos fechados, unidas as mãos, abríamos ao acaso o atlas e deixávamos que as gemas de nosso dedos adivinhassem o impossível”, revela María. Dessas aventuras, o Roteiros destaca sete descritas em Atlas.

Descobrir o desconhecido não é uma especialidade de Simbad, de Érico o Vermelho ou de Copérnico. Não há um único homem que não seja um descobridor.

IRLANDA
“De todas elas [as circunstâncias] a mais vívida é a Torre Redonda, que não vi, mas que minhas mãos tatearam, onde monges que são nossos benfeitores salvaram para nós em duros tempos o grego e o latim, ou seja, a cultura. Para mim a Irlanda é um país de pessoas essencialmente boas, naturalmente cristãs, tomadas pela curiosa paixão de ser incessantemente irlandesas.
Andei pelas ruas que percorreram, e continuam percorrendo, todos os habitantes de Ulisses.”

VENEZA
“Uma vez escrevi num prólogo Veneza de cristal e de crepúsculo. Para mim, crepúsculo e Veneza são duas palavras quase sinônimas, mas nosso crepúsculo perdeu a luz e teme a noite e o de Veneza é um crepúsculo delicado e eterno, sem antes nem depois.”

PASSEIO DE BALÃO NA CALIFÓRNIA

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Borges e María Kodama viajaram de balão no vale de Napa, na Califórnia. Segundo María, a tradição diz que é preciso levar champanhe para dar aos donos da terra onde aterrissam.
“Na Califórnia, há cerca de trinta dias, María Kodama e eu fomos a um modesto escritório perdido no vale de Napa. Eram quatro ou cindo da manhã, sabíamos que os primeiros clarões da aurora estavam por ocorrer. (…) O espaço era aberto, o ocioso vento nos levava como se fosse um lento rio nos acariciava a testa, a nuca ou a face. Todos sentimos, acho, uma felicidade quase física. O passeio, que duraria uma hora e meia, era também uma viagem por aquele paraíso perdido que constitui o século XIX. Viajar no balão imaginado por Montgolfier também era voltar às páginas de Poe, de Júlio Verne e de Wells.”

GENEBRA
Embora tenha nascido em Buenos Aires, a vida de Borges se dividia entre a capital argentina e Genebra. “Sei que voltarei sempre a Genebra, quem sabe depois da morte do corpo”, afirma em Atlas. Em 14 de junho de 1986, o escritor morreu na cidade e foi enterrado no cemitério de Plainpalais.
“Diferentemente de outras cidades, Genebra não é enfática. Paris não ignora que é Paris, a decorosa Londres sabe que é Londres, Genebra quase não sabe que é Genebra. (…) um pouco à semelhança do Japão, renovou-se sem perder seus ontens.”

MEU ÚLTIMO TIGRE

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“Em minha vida sempre houve tigres”, conta Borges, no seu texto sobre o encontro tardio com um tigre real, em um zoológico de Luján, na Argentina, e a realização desse sonho de infância.
O contato compensou a visão. “Com evidente e aterrada felicidade me aproximei desse tigre, cuja língua lambeu meu rosto, cuja garra indiferente ou carinhosa se demorou em minha cabeça.”
María Kodama conta que, mais tarde, enriquecendo a experiência, Borges distinguiu algo à contraluz: “Não me diga que é o que eu estou pensando”, “Sim, são seis tigres de Bengala passeando em torno da mesa”, respondeu ela.

O DESERTO DO SAARA
“A uns trezentos ou quatrocentos metros da Pirâmide me inclinei, peguei um punhado de areia, deixei-o cair silenciosamente um pouco mais adiante e disse em voz baixa: Estou modificando o Saara.”

COLÔNIA DE SACRAMENTO

“Aqui sentimos de maneira inequívoca a presença do tempo, tão rara nestas latitudes. Nas muralhas e nas casas está o passado, sabor que se agradece na América. Não se exigem datas nem nomes próprios; basta o que sentimos de imediato, como se fosse uma música.”

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Continuei dando aula com olho sangrando, diz professor atingido por azulejo

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Bruno é professor de biologia da rede particular de Salvador (Foto: Arquivo pessoa)

Bruno é professor de biologia da rede particular de Salvador (Foto: Arquivo pessoa)

Publicado por BBC Brasil [via UOL]

Um professor de biologia de uma escola particular na Bahia reverteu a hostilidade dos alunos após discursar por uma hora com o olho sangrando depois de ter sido atingido por um azulejo atirado por um aluno.

O caso ilustra o problema da violência contra professores, um tema de pouca ressonância nos programas eleitorais, mas que foi destacado por leitores da BBC Brasil em consultas sobre os grandes desafios da educação promovidas pelo #salasocial, que usam as redes sociais em busca de uma maior integração com o público.

A pedido da BBC Brasil, internautas compartilharam diferentes relatos sobre atos de violência contra profissionais de ensino. A partir de indicações dos leitores, ouvimos professores das redes pública e particular sobre a questão. Leia alguns relatos:

Azulejo no olho

Bruno, professor de biologia da rede particular de Salvador

“Era meu primeiro dia de aula numa escola privada de Itapuã, em Salvador (BA). A escola era privada, bem popular, com preço baixo de mensalidade e quase todos os alunos eram moradores do próprio bairro.

A direção parecia tratar o estudo como um negócio local mesmo, sem proposta pedagógica nenhuma. Fui contratado para substituir uma professora de biologia que não aguentou ficar por lá.

Meu primeiro contato com os estudantes foi por meio de um azulejo azul, arremessado por um aluno do 3º ano em meu primeiro dia de aula. Fui atingido acima do olho esquerdo e lembro de ter sangrado muito.

Decidi não recorrer à direção e tentar resolver tudo ali na sala mesmo. Seriam duas aulas seguidas, um total de 100 minutos.

Fiquei esse tempo inteiro sangrando e discursando sobre o ocorrido com os alunos. Tentei mostrar o lado do professor, que está ali ralando para ganhar pouco. Falei do contexto socioeconômico do bairro deles, que era muito precário, abandonado pelo Estado, e que eles deveriam aproveitar as oportunidades que tinham para aprender, trocar experiências, tentar promover uma vida de mais qualidade para eles, para a própria família, para o bairro.

Fui dando exemplos de coisas que aconteciam na comunidade. Ao invés de a população se organizar para melhorar a própria vida, eles mesmos se entrematavam, se agrediam, depredavam o próprio bairro… Atitudes como essa não ajudariam em nada.

Mais por compaixão pela minha situação, já que fiquei mais de uma hora falando enquanto sangrava, do que pelo discurso, alguns alunos aos poucos foram trazendo exemplos de pessoas que eram cordiais no bairro, que ajudavam uns aos outros etc.

O rapaz que jogou o azulejo, que eu sabia quem era, mas acabou achando que ficou no anonimato, ficou o tempo todo calado.

Fiquei dando aula nessa escola por apenas oito meses, pois surgiu outra oportunidade melhor para mim, mas depois desse dia senti uma aproximação melhor dos alunos comigo, parece que eles entenderam, acabamos ficando muito amigos… Inclusive esse aluno que jogou o azulejo ele passou a ser bem cuidadoso e respeitoso.

Acredito que tenha sido uma forma de se autoafirmar como o ‘malandro’ da sala, o cara perigoso, para ganhar certa autoridade perante os colegas. Acho que nesses lugares mais sofridos, essa é uma forma de elevação de autoestima comum entre os jovens. É se afirmar pela violência.”

‘O PCC entrou na escola’

Felipe, professor de matemática da rede pública de São Paulo

“Em minha escola, há toque de recolher. Os professores descem o morro em comboio. A polícia entra na escola e agride alunos violentos. Ficamos numa região extremamente vulnerável em termos de segurança. A área é comandada pelo PCC.

Por um tempo, dois alunos estavam colocando bombas no banheiro. Aquela velha história, sabe? Não, você não sabe.

Após algumas bombas e carros de polícia aparecendo atrás dos responsáveis, o chefe da facção criminosa entrou no colégio. Ele passou de sala em sala, uma por uma, dizendo que as bombas estavam atrapalhando o negócio dele.

E eu, professor lá, sem poder fazer nada. O homem dizia que, se os responsáveis continuassem, haveria revide. Ele não queria polícia toda hora na região, isso é ruim para as vendas.

No dia seguinte, já não tinha mais bomba. É assim que se resolvem as coisas?”

‘Quebrou um vaso em minha cabeça’

Antônio, professor de história da rede pública de São Paulo

“Minha aula era das últimas da tarde. Quase no fim, dois meninos apareceram querendo entrar. Não deixei e mandei eles conversarem com a coordenadora. Ela pegaria seus dados e entraria em contato com a família para entender o atraso. Essa é a rotina normal.

Mas o menino estava muito alterado e partiu para a grosseria. Eu via que ele estava nervoso. Ele piorou, continuou xingando e ofendeu minha mãe, meu pai, minha família. Sexta série, 12 anos. Veja bem.

Ligamos imediatamente para a mãe dele. Ela chegou por volta de 18h10. Na sala de espera, ele sentou de um lado, a mãe do outro, ambos em frente a uma mesa de centro. Ali, ficava um vaso de flores de argila, trabalho feito por um aluno em sala de aula.

‘O que foi que aconteceu com meu filho?’, perguntou a mãe. Antes de eu responder, o vaso quebrou com força na minha cabeça. Era o menino.

Desmaiei na hora e, aos poucos, voltei. O impacto foi muito forte. Aí não teve mais conversa: fui direto para o hospital, fui medicado, e felizmente não houve nada mais grave.

Ele foi transferido para outra escola ali do lado. Continuávamos nos vendo. Aos poucos, voltamos a ter contato. Ele passou na minha casa, pediu desculpas. Desculpei.”

‘O trauma continua’

Jorge, professor de sociologia da rede pública de São Paulo

“Toda vez que eu ia para a lousa, eles começavam a bater as mesas contra o chão. Era um barulho ensurdecedor. Quando eu me virava, todo mundo ficava quieto. Voltava e eles repetiam de novo. Depois paravam. Sem fim.

Eram dois alunos que comandavam a sala, eu sabia disso. Uma hora, já tremendo, eu não aguentei e dei uma bronca neles. Quando voltei novamente à lousa, um deles falou um palavrão e ameaçou jogar uma cadeira na minha cabeça. Sempre anonimamente. Covardes.

Durante muito tempo, eu entrava em pânico antes de entrar na sala de aula. Ficou só na ameaça, mas o trauma continua. Você vive com medo.

Foram vários episódios, não só comigo como com colegas. Há muitos alunos que ameaçam, quebram carros, muitos já cometeram transgressões e voltaram para ressocialização.

Sei de um caso em que jogaram uma toalha no rosto de uma professora e a socaram. Casos de professoras que foram empurradas nas escadas. Ficou tudo tão banalizado que não sei nem se essa reportagem pode ajudar.”

Os leitores e suas loucuras

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Por que perdemos o bom senso ao entrar numa livraria?

Danilo Venticinque, na revista Época

"Manual prático de bons modos em livrarias" (Seoman, 232 páginas, R$ 32) (Foto: Divulgação)

“Manual prático de bons modos em livrarias” (Seoman, 232 páginas, R$ 32) (Foto: Divulgação)

Há quem acredite que ler livros é um sinal de inteligência. Discordo. A convivência diária comigo mesmo e as conversas com outros leitores me mostraram que somos tão atrapalhados, distraídos e imperfeitos quanto os não-leitores. Lemos não por superioridade nata, mas pelo desejo ingênuo (ou inconsciente) de tentar mitigar nossas falhas intelectuais. É um esforço divertido, mas de eficiência duvidosa. Sou uma prova viva disso. Já usei esta coluna para dizer as maiores obviedades, me contradizer e espalhar inúmeras bobagens. Errei as grafias de títulos de livros e nomes de autores. Chamei Franz Kafka de alemão – o coitado nasceu em Praga. Esqueci os créditos de tradução de um livro e tive de me desculpar, na caixa de comentários, com a própria tradutora. Graças à infinita tolerância da internet aos erros, essas bobagens foram corrigidas. Algumas desapareceram rapidamente; outras, vergonhosamente tarde. Que venham as próximas.

Para quem ainda acredita que nós, leitores, merecemos crédito por nossa inteligência, Manual prático de bons modos em livrarias (Seoman, 232 páginas, R$ 32) é a prova definitiva do contrário. O livro é uma coletânea de textos publicados no blog homônimo, criado em 2011. Sua autora, a livreira Lilian Dorea, coleciona histórias engraçadas do cotidiano nas livrarias e relatos de conversas insólitas com fregueses. O resultado é um retrato bem-humorado de nossos piores momentos dentro de uma livraria, registrados por quem tem a paciência infinita necessária para nos atender. Depois de ler os relatos reunidos no livro, não me restaram dúvidas. A literatura é infinitamente vasta, mas nossa ignorância é ainda maior.
Manual prático de bons modos em livrarias revela que somos incapazes de cumprir tarefas aparentemente simples, como reconhecer que uma livraria vende livros, que e-books não ficam em prateleiras e que o sujeito uniformizado com o crachá no meio da livraria é, sim, um vendedor.

Isso sem falar no nosso total despreparo para encontrar os livros que procuramos. É como se deixássemos o senso crítico na entrada da livraria e nos atirássemos numa série interminável de atitudes vexatórias. Desaprendemos a pedir “por favor” e a dizer “bom dia” aos livreiros. Procuramos Saramago nas prateleiras de literatura brasileira e Clarice Lispector nas de autoajuda – e ainda reclamamos quando eles não estão lá. As palavras e ideias se embaralham em nossas cabeças. Maquiavel vira o autor de O pequeno príncipe, Vade Mecum vira Mad Max e Herman Melville, de Moby Dick, vira o fundador da rede Starbucks. E há aqueles momentos em que, cegos pela nossa ânsia consumista, nos esquecemos de tudo sobre nosso objeto de desejo. Há quem chegue à livraria sabendo apenas a cor de sua capa do livro que quer comprar, ou uma palavra do título. E azar do livreiro se não conseguir encontrá-lo.

Atormentados pela convivência com esses leitores, alguns livreiros sucumbem e passam a agir como eles. A autora, impiedosa, não deixa de registrar esses momentos. Há o vendedor que confunde os romances de Agatha Christie com histórias de vampiros. Há a que mistura Ágape, do Padre Marcelo Rossi, com O Aleph, de Paulo Coelho. E outra que, incapaz de escrever o nome de Max Weber corretamente no sistema, tenta convencer o freguês de que um livro do autor não existe. (Há alguns anos, na seção de discos de uma grande livraria de São Paulo, perguntei ao vendedor sobre uma gravação do Requiem de Mozart. Ele respondeu, impassível, que Mozart não gravou nenhum rap. A história não tem nada a ver com o livro, mas tive de registrá-la aqui.) São falhas perdoáveis. Como escreve Lilian, “o delírio é contagioso”. Todo livreiro é um leitor, antes de tudo, e está sujeito aos problemas cognitivos que nos acometem quando pisamos numa livraria.

Alguns leitores ou livreiros podem se identificar com as histórias e sentir vergonha de erros passados. Não importa. Lembre-se de que o senso comum é generoso com os leitores: conservaremos sempre nossa fama de inteligentes, apesar de todas as nossas bobagens. E podemos nos divertir com elas. É impossível ler o Manual prático de bons modos em livrarias sem rir dos leitores e de seus disparates. Para entrar no clima, não anote o título antes de procurá-lo numa livraria. Esqueça o nome da editora. Diga ao livreiro que você quer o livro daquela blogueira. Aquele com a capa meio cor-de-rosa.

Professora chama aluno de ‘Félix da novela’, e mãe faz BO em Piracicaba

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Personagem vivido por Mateus Solano em ‘Amor à Vida’ é homossexual.
Diretoria de Ensino disse que fará encontro de conciliação entre envolvidos.

Garoto foi chamado de Félix por professora em escola estadual de Piracicaba (Foto: Leon Botão/G1)

Garoto foi chamado de Félix por professora em escola estadual de Piracicaba (Foto: Leon Botão/G1)

Publicado por G1

A mãe de um aluno de 11 anos de uma escola estadual em Piracicaba (SP) fez boletim de ocorrência contra a professora que chamou o garoto de ‘Félix’, personagem de sucesso da atual novela das 21h da Rede Globo “Amor à Vida”. A docente, que ensina geografia, disse em sala de aula que o menino se parecia com o administrador gay de um hospital, interpretado pelo ator Mateus Solano na trama. O boletim de ocorrência foi registrado como injúria.

Mateus Solano interpreta personagem Félix, na  novela das 21h, "Amor á Vida" (Foto: Rede Globo)

Mateus Solano interpreta personagem Félix, na
novela das 21h, “Amor á Vida” (Foto: Rede Globo)

O caso ocorreu na tarde desta quarta-feira (7), na Escola Estadual Professora Juracy Neves de Mello Ferracciú, no bairro Noiva da Colina.

Bullying?

Segundo a mãe, o garoto retornou das férias com óculos depois de ir ao médico. Foi então que a professora, ao notar a diferença no visual, disse em sala de aula que o garoto se parecia com alguém, mas que ela não podia dizer o nome, ainda de acordo com relatos da mãe, uma despachante de 36 anos. “Foi quando um dos colegas de classe disse que sabia quem era e disse o nome do personagem”, afirmou.

Os alunos começaram a rir e a professora confirmou a semelhança. “Ela falou que era verdade, que ele se parecia com o Félix da novela”, afirmou a mãe. O garoto começou a chorar e a professora pediu desculpas a ele, dizendo que foi apenas uma brincadeira.

A mãe do estudante chegou em casa, encontrou o filho chorando e foi à escola questionar a coordenação, que disse a ela que tudo não passava de brincadeira e que a professora era muito competente. “Eu não julgo a qualidade dela em ensinar, mas não é função dela dizer com quem meu filho parece ou não”, disse a mãe.

Óculos teria motivado professora a chamar aluno de 'Félix' em Piracicaba (Foto: Leon Botão/G1)

Óculos teria motivado professora a chamar aluno
de ‘Félix’ em Piracicaba (Foto: Leon Botão/G1)

Ainda de acordo com a mãe, não haveria problema e preconceito caso o filho dissesse que é homossexual. “Ele é apenas uma criança, mas continuaria o amando da mesma forma se ele fosse gay”, disse a despachante que afirmou na sequência que “o garoto já tem até namoradinhas”.

O dia seguinte

Mesmo incomodado com a situação, o estudante foi à escola na tarde desta quinta (8). A mãe do estudante disse que iria à Diretoria de Ensino de Piracicaba para contar o que aconteceu e, na segunda-feira (12), terá uma reunião com a diretoria da escola. “Isso não pode ficar assim, temos que denunciar casos como esse”, afirmou.

Resposta do Estado

A Diretoria Regional de Ensino de Piracicaba, por meio da assessoria de imprensa, informou que lamenta o mal entendido registrado na unidade e afirmou ainda que foram tomadas as providências para que o caso seja esclarecido.

A administração regional, informou também, que se reuniu nesta quinta com a mãe do estudante e agendou para a próxima segunda-feira (12) um encontro de conciliação entre aluno, a responsável, a professora e a direção da escola. “Os colegas de sala também participarão de uma atividade que tem como objetivo esclarecer o mal entendido e reforçar a importância do respeito mútuo”, finalizou a nota.

Escola Estadual Professora Juracy Neves de Mello Ferracciú, em Piracicaba (Foto: Leon Botão/G1)

Escola Estadual Professora Juracy Neves de Mello Ferracciú, em Piracicaba (Foto: Leon Botão/G1)

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