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‘A Cabana’ ofereceu para mim uma chance de esperança e cura, diz Octavia Spencer

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Octavia Spencer esteve no Rio de Janeiro para divulgação de seu novo filme, 'A cabana' (Foto: Célio Silva/G1)

Octavia Spencer esteve no Rio de Janeiro para divulgação de seu novo filme, ‘A cabana’ (Foto: Célio Silva/G1)

 

Atriz ganhadora do Oscar está no Rio para lançar seu novo filme, inspirado em best-seller.

Celio Silva, no G1

A atriz Octavia Spencer, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2012 por “Histórias Cruzadas” e indicada em 2017 na mesma categoria por seu trabalho em “Estrelas Além do Tempo”, está no Rio para o lançamento de “A Cabana”, baseado no best-seller de William P. Young. O longa estreia no Brasil no dia 6 de abril.

No filme, Octavia vive ninguém menos do que Deus, carinhosamente chamada de “Papai”, e ajuda o protagonista vivido por Sam Worthington (“Avatar”) a superar a perda da filha mais nova. A atriz conversou com a imprensa nesta segunda-feira (27) e falou sobre seu papel no filme, além de assuntos relacionados a religião e a fé.

Bem-humorada, Octavia elogiou as belezas naturais do Rio e disse que, se pudesse dar uma mensagem ao presidente americano Donald Trump, seria a de amarmos uns aos outros. Para ela, uma coisa interessante no filme é o retrato do efeito terapêutico da fé, e ela conta que teve uma epifania quando viu o filme pronto.

“Eu aceitei o papel de uma forma egoísta, pois ofereceu para mim uma chance de esperança e cura para o mundo”, declarou a atriz. Ela também elogiou o modo que Deus se apresentou ao personagem de Worthington, que foi orgânico e que não o forçou a acreditar ou a perdoar, mas sim que chegasse a suas próprias conclusões.

Questionada sobre a forma que o filme mostra a Santa Trindade, representada por uma mulher negra, um jovem do Oriente Médio e uma japonesa, Octavia disse que essa foi uma das coisas que mais amou tanto no filme quanto no livro. “Eu acho que o fato de William ter usado latinos, asiáticos, israelitas, afro-americanos, não muda a forma do Cristianismo. Todos fomos feitos à sua imagem”, disse a atriz.

Papel de impacto

Perguntada se o seu trabalho no filme mudou a sua vida, Octavia Spencer disse que isso teve um grande impacto em sua vida, que amadureceu bastante, mas que não foi nada muito radical. Ela admitiu que passou a dar menos importância a outras coisas e que a vida é uma jornada espiritual.

Uma das coisas mais lindas da história, para ela, é a cena em que Missy (Amélie Eve), a filha do protagonista, faz perguntas sobre religião que o deixam numa saia justa. “É a inocência de uma criança sem julgamento. Há algo belo neste livro quanto do filme é que o pai não sabe as respostas e terá que encontrá-las”, afirmou.

Para construir o papel de Papai, Octavia disse que trabalhou com um pastor local, amigo dela. Ela também recebeu livros do diretor. No entanto, ela confessou que não teve referências para interpretar Deus. “Eu a interpretei como se fosse a mãe do Sam (Worthington), um filho a quem havia traído ou abandonado. Não houve tempo para uma relação mais ampla com Sam, o que foi bom, para dar essa sensação de estranhamento”, disse Octavia.

Por fim, a atriz contou que conversa com seu “Papai” todos os dias, sobretudo no início da manhã, o que a ajuda a ter um dia melhor. Ela se considera uma filha de Deus e que estava a serviço do papel. “No fim das contas, tive uma conversa meio ‘esquizofrênica’ quando falava com Deus ao mesmo tempo que interpretava Deus”, concluiu.

‘É preciso superar o criacionismo’, diz Neil deGrasse Tyson

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O astrofísico nova-iorquino Neil deGrasse Tyson: "Descobriremos se há vida em nossas redondezas em até 20 anos”.

O astrofísico nova-iorquino Neil deGrasse Tyson: “Descobriremos se há vida em nossas redondezas em até 20 anos”.

 

O astrofísico, famoso como escritor e apresentador, fala sobre mistérios do universo, filmes, religião… sem medo de entrar em temas controversos

Raquel Beer, na Veja

O astrofísico nova-iorquino Neil deGrasse Tyson é um dos rostos mais conhecidos da ciência contemporânea. Mas não por ter realizado alguma grande descoberta científica (apesar de contar com uma extensa, produtiva e renomada carreira acadêmica). A razão da celebridade é sua excepcional capacidade de apresentar conceitos complexos da física de maneira leve, simples e sempre bem-humorada. O carisma fez dele o rosto da premiada série televisiva Cosmos, em substituição ao icônico astrofísico Carl Sagan (1934 – 1996) – e também lhe garantiu o título de “Astrofísico mais sexy” pela revista americana People. Em sua missão de popularizar a ciência, Tyson também lança livros que rapidamente se tornam best-sellers. Entre eles está o atemporal Morte no buraco negro, que apesar de ter sido publicado nos Estados Unidos há quase uma década, chega só agora às prateleiras brasileiras.

O livro reúne os melhores artigos escritos pelo astrofísico para a Natural History Magazine, revista científica americana. São 432 páginas divididas em capítulos curtos, agrupados em cinco seções. Ele fala sobre o desafio do homem com o fazer ciência, a descoberta dos componentes do universo, o que já entendemos sobre como viemos parar aqui, todas as maneiras como o universo quer nos matar e, por último, o eterno conflito da razão com a fé. Além de ser um professor nato, o astrofísico não tem medo de opinar sobre assuntos polêmicos e manteve essa postura ao conversar com o site de VEJA sobre temas variados, que passam pelo livro em si, os mistérios que ainda precisamos desvendar, exploração espacial e o choque da ciência com a religião e o esoterismo. Ou seja, como gosta de fazer, discursou sobre o que fosse, sempre exibindo segurança e amplo conhecimento sobre diversos campos do saber.

O LIVRO

É estranho para o senhor ainda dar entrevistas sobre um livro que publicou há quase uma década? Escrevi essa obra justamente para que tivesse vida longa de prateleira. Essa é uma das vantagens da ciência: uma vez que verdades objetivas sobre o mundo são estabelecidas, elas continuam verdadeiras por muitos anos. A equação E=mc², célebre fórmula da teoria da relatividade de Albert Einstein, continua a funcionar, apesar de ter sido introduzida em 1905, e sempre será assim. Acho que ainda falar sobre esse livro é evidência de que fui bem sucedido em abordar a parte fundamental da ciência e não tão-somente sobre as últimas descobertas.

O livro compila artigos. Qual deles é o teu favorito? O cujo título é Noites de Hollywood. Tem ciência, cultura pop, tudo junto num mesmo texto. É o capitulo mais divertido e é um pouco autobiográfico, porque conto a história do Titanic: quando James Cameron soube que eu reclamei sobre o céu estrelado que apareceu no filme enquanto o navio afundava, ele concertou o erro na reedição do filme. Foi um triunfo da precisão, nos dá esperança de que as pessoas continuarão a ouvir a razão da ciência.

CIÊNCIA E CULTURA POP

Os filmes devem ser fieis à realidade em todos os detalhes? Como fica a liberdade artística? Sou a favor da imaginação. Mas não quando a história se propõe a simular o mundo real, onde as leis da física se aplicam. Foi o caso de Titanic. Pense comigo: se você assistir a um filme da vida de Jane Austen, no século 19, e alguém estiver vestindo calças tingidas, você pensará que o designer não sabia o que estava fazendo e que eles certamente não ganhariam um Oscar por figurino. É a mesma coisa com a física. Sou fã do que Mark Twain, que disse: “Primeiro, informe-se dos fatos; depois, pode distorcê-los quanto quiser”.

Acha que houve uma evolução, nesse sentido, na nova safra de filmes hollywoodianos, como Interestelar, Perdido em Marte e Gravidade? Esses são melhores. Eu tuitei alguns erros que eles cometeram, mas foi por amor à física, não criticismo, como alguns pensaram. Eu queria mostrar como eles aprimoraram e estão levando a ciência mais a sério.

MISTÉRIOS

O prefácio mostra como na história houve quem dissesse que nós já havíamos descoberto tudo, o que sempre se mostrou um erro. O senhor inclusive enumera uma série de perguntas sem resposta. Qual delas será a próxima a ser esclarecida? Os tópicos matéria escura e energia escura são fontes de ignorância na comunidade científica. Nos próximos 30 anos, porém, esses elementos serão esclarecidos, aposto. Além disso, acho que descobriremos se há vida no nosso quintal nos próximos 10 ou 20 anos, procurando por vida nos aquíferos de Marte, ou na Europa, lua de Júpiter.

Também há uma seção sobre as várias maneiras como o cosmo ameaça o planeta Terra. A morte do Sol, a colisão com a galáxia de Andrômeda e a morte do próprio universo. Qual delas é mais preocupante? Nessa seção, hoje eu ainda acrescentaria as mudanças climáticas. Temos dois planetas mais próximos de nós: um tem efeito estufa e temperatura de 500 graus (Vênus) e outro que eventualmente teve água líquida, mas secou (Marte). Algo ruim aconteceu nesses locais e acho que seria vantajoso a longo prazo estudar as mudanças climáticas e os efeitos delas na estabilidade da civilização. Mas entre todos os perigos cósmicos, acho que é mesmo com asteroides que temos que nos preocupar.

Quando fala sobre asteroides no livro, o senhor diz que podemos ser extintos não por falta de inteligência, mas por falta de presciência. Não estamos fazendo o suficiente para nos proteger? Minha resposta ainda é “não”. Sabemos como nos proteger, temos bons engenheiros, um programa espacial, conhecemos trajetórias de asteroides e conseguimos desviá-los ou destruí-los, mas precisamos de motivação para fazê-lo. Necessitamos de uma organização política e de cooperação internacional. Suponha que detectemos um asteroide que vai atingir o Golfo do México. Obviamente os EUA farão algo para proteger a Terra. Mas e se ele atingisse o Oceano Índico? Os americanos podem falar ‘isso não é problema nosso, não gastaremos com isso’. O ponto é que se o asteroide for grande o suficiente, é um problema global. Uma ideia é criar um fundo mantido por todos para garantir que conseguiremos agir de forma que não importe onde a rocha caia. Hoje, não estamos mais protegidos, nesse aspecto, do que há dez anos.

EXPLORAÇÃO ESPACIAL

O senhor diz que para países “deixarem a sua marca na ciência” é preciso que uma nação concentre seu capital emocional, cultural e intelectual na criação de ilhas de excelência. Na exploração espacial, a liderança historicamente foi dos EUA, Rússia e de alguns países europeus, mas agora empresas entraram na jogada. Quem protagonizará o futuro da exploração? Sobre a liderança americana, chegamos à Lua não porque cooperamos, mas porque competimos. A disputa, como vimos na Olimpíada, é por si só uma força da natureza. Eu me pergunto: se não tivéssemos que ganhar da União Soviética, teríamos ido à Lua? Não sei a resposta. Sobre a exploração espacial privada, duvido que as empresas liderarão a exploração, porque o espaço ainda é perigoso e, seu desbravamento, caro. Companhias necessitam de retorno de investimento em curto prazo. Por isso, historicamente, os governos foram aqueles que fizeram os principais investimentos em tecnologia, ciência e descobertas para, então, serem seguidos pela iniciativa privada.

Sobre o papel dos robôs, o senhor diz que enquanto não forem capazes de “simular a curiosidade humana e as centelhas de insight”, eles continuarão sendo usados apenas para descobrir o que já esperamos encontrar. Nos últimos anos, contudo, a tecnologia de inteligência artificial evoluiu bastante. O senhor ainda acredita nisso? Não. Acho que podemos mandar um robô para o espaço e ele conseguirá resolver tudo sozinho… mas eu não quero perder o lugar na viagem! Quando astronautas voltam de uma missão, eles são festejados, há desfiles. Nada disso acontece com robôs. A exploração espacial humana captura as nossas emoções e instiga as pessoas a aprender mais.

CIÊNCIA

Em muitos capítulos, o senhor apresenta alguma constatação científica, mas depois diz que há um grande número de pesquisadores procurando falhas nas teorias. Não é compreensível que as pessoas sejam céticas em relação à ciência, levando em consideração que duas das principais teorias da física são inconciliáveis? As teorias da física quântica e da relatividade são bem sucedidas e funcionam toda vez que as testamos, mas sabemos que nos limites extremos elas falharão, como no centro de um buraco negro ou no instante em que o universo surgiu. Agora precisamos encontrar uma forma de conciliá-las: uma vai absorver a outra e vice-versa ou surgirá um terceiro entendimento que será um guarda-chuva e irá abarcar as duas. Foi o que aconteceu com a relatividade, já que as leis de movimento e gravidade de Newton funcionavam, mas Einstein mostrou sob quais circunstâncias elas falhariam e, assim, criou a relatividade. Mas se você aplicar baixa velocidade e gravidade nas equações de Einstein, elas se tornam as de Newton. Logo, não descartamos a primeira teoria, só criamos um círculo maior ao redor dela.

Então não há motivo para as pessoas serem céticas quanto à ciência? Aqueles que dizem não confiar na ciência geralmente têm outra filosofia, que pode ser política ou religiosa, por exemplo. Só não podemos esquecer que a ciência é um caminho para encontrar verdades objetivas. Você pode ter verdades pessoais, como ‘Jesus é meu salvador’. Motivo: se quiser convencer outra pessoa disso, precisará repetir isso com frequência ou travar uma guerra, obrigando-os a concordar com você. Não há provas factíveis. Já a verdade objetiva é verdade, quer você acredite nela ou não. É com base nelas que legislações deveriam ser criadas. De qualquer forma, a fronteira da ciência é sempre complicada e as coisas que se provam erradas são geralmente as que aparecem nos jornais. Mas uma vez que uma hipótese é testada muitas vezes, por pessoas e países diferentes, e se chega ao mesmo resultado estatisticamente, ela torna-se um fenômeno emergente em suas mãos.

RAZÃO VERSUS FÉ

Há no livro uma seção sobre a relação da ciência com a religião. Algumas das expressões que você usa são: “São abordagens inconciliáveis” e “não há concordância”. Ao mesmo tempo, você aponta uma pesquisa que mostra que 20% dos astrofísicos são religiosos. Afinal, é possível conciliar? Esses cientistas mantêm cada uma dessas coisas em partes separadas do cérebro. É só isso. Eles só podem dizer que a religião deles não conflita com a ciência se rejeitarem todos as alegações científicas feitas por sua religião. No cristianismo, por exemplo, há uma capítulo inteiro na Bíblia sobre a Origem. Eles devem rejeitar sumariamente tudo dito na Gênesis, porque o que é dito lá se opõe à evolução e à história, ou mesmo a idade, da Terra. Então eles, os cientistas-religiosos, rejeitam essa parte e mantém os elementos de enriquecimento espiritual. Assim as duas ideias podem coexistir dentro da mesma mente. Pode ser devastador para algumas pessoas, porque é a sua religião, sua filosofia, mas em certo ponto é preciso superar isso. Aceite, as conclusões científicas são verdades objetivas.

Algumas vezes, o senhor se refere a ‘pessoas com sexto sentido’ ou a áreas como a astrologia como “bobagens místicas que sempre falham no teste científico”. Se não há base sólida, por que o público se interessa tanto por essas “bobagens” – muitas vezes mais do que por assuntos científicos? Alguns gostam de acreditar que têm mais poderes que os outros. Por exemplo, o “poder” de prever o futuro é muito valorizado na cultura e na sociedade. Se você diz que consegue realizar isso, as pessoas vão aparecer na sua porta. Mesmo se não apresentar provas dessa capacidade. Mas na física e na astrofísica também conseguimos fazer previsões: podemos dizer a que horas o Sol vai nascer ou quando vai acontecer um eclipse solar total. A precisão é tanto que acertamos inclusive o tempo exato, em segundos, em que esses fenômenos irão correr. Mesmo assim, alguns preferem os autointitulados profetas.

Escola muda festa junina para “festa da colheita” por alunos evangélicos

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Insituto Educap de Campo Grande (MS) substituiu a festa junina pela festa da colheita para incluir alunos evangélicos

Insituto Educap de Campo Grande (MS) substituiu a festa junina pela festa da colheita para incluir alunos evangélicos

 

Thiago Varella, no UOL

Ano após ano, o Instituto Educap, de Campo Grande (MS), via o número de alunos que participava da festa junina do colégio diminuir. Isso ocorria, porque esses estudantes eram de famílias evangélicas que não queriam que seus filhos celebrassem uma festa católica.

Para, enfim, integrar esses alunos, a escola decidiu mudar a festa. Em vez de festa junina, o colégio agora celebra a festa da colheita, uma celebração laica.

“Percebemos que nossa festa estava no automático. Só reproduzir a festa não vale a pena se não for algo bem reflexivo. Por isso, fizemos um resgate da colheita, da questão da alimentação na vida das pessoas. A festa da colheita tem o objetivo de celebrar os alimentos”, disse Celia Tavares Rino, diretora pedagógica do Instituto Educap.

Antes da festa, os professores promovem discussões sobre alimentação com os alunos. Neste ano, segunda vez em que a celebração foi feita, os alunos da educação infantil, por exemplo, estudaram a farinha. Já os estudantes do nono ano, os mais velhos do colégio, discutiram os problemas do meio rural.

“Tudo o que nós vamos fazer ele parte de um currículo vivo. A festa pela festa não tem sentido. Tem sentido sim se você faz um resgate histórico e cultural. Mostrar, por exemplo, que a cultura do campo é diferente da cultura urbana”, afirmou Celia.

Mesmo na festa da colheita, os alunos se vestem de camisa xadrez e chapéu de palha como nas festas juninas tradicionais

Mesmo na festa da colheita, os alunos se vestem de camisa xadrez e chapéu de palha como nas festas juninas tradicionais

 

Além de muita comida, a festa conta com danças e uma decoração rural. Os alunos mais novinhos vão vestidos como caipiras, mas os mais velhos, segundo a diretora, não se importam com isso. No fim das contas, o objetivo de integrar os alunos não-católicos à festa foi alcançado.

“Desconstruímos a festa e agora as crianças evangélicas participam. O foco no alimento fez um leque maior de abrir”, completou.

Brasil: um país de leitores… de Bíblia

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Rodrigo Casarin, no Página Cinco

Bastante já foi dito sobre os resultados da 4ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, promovida pelo Instituto Pró-livro e realizada pelo Ibope. Já mostrei aqui no blog mesmo que o país anda lendo mais do que há quatro anos – exceto nossa elite econômica – e que os leitores são pessoas mais ativas do que os não leitores. No entanto, ainda é preciso jogar luz sobre um dos dados que o estudo revela: quando lê, o brasileiro lê principalmente a Bíblia.

Ao perguntar quais tipos de livros os leitores tinham lido no último ano, a pesquisa constatou que 42% deles leram a Bíblia, seguida por livros religiosos, de contos e romances – cada um citado por 22% dos entrevistados, que podiam indicar mais de uma opção. Curioso aqui notar que a Bíblia sequer entrou no gênero de religiosos. Claro que o livro pode ser lido de maneiras diversas – com viés histórico, sociológico, filosófico.. -, mas é evidente que a esmagadora maioria dos leitores que leem a Bíblia o fazem por questões ligadas à religião.

A Bíblia também encabeça os gêneros preferidos de pessoas de todas as faixas etárias (5 a 10, 11 a 13, 14 a 17, 18 a 24, 25 a 29, 30 a 39, 40 a 49, 50 a 69 e 70 e mais) e níveis de escolaridade (Fundamentai I, Fundamental II, Ensino Médio e Superior) abarcados pelo estudo. Foi ainda o título mais citado como última leitura dos entrevistados – 225 menções, seguido por “Diário de um Banana” e “Casamento Blindado”, ambos lembrados 11 vezes – e é a obra mais marcante da vida de 482 pessoas ouvidas – a segunda posição aqui ficou com “A Culpa é Das Estrelas”, mencionado em 56 oportunidades. Não bastasse, é diretamente responsável por uma das curiosidades da pesquisa: ao indicarem o autor do último livro que estavam lendo, alguns entrevistados (1%) citaram entidades religiosas normalmente ligas à Bíblia, como Jesus e Moisés.

Até professores preferem a Bíblia

A Retratos da Leitura no Brasil também apresenta alguns recortes específicos sobre o hábito de leitura dos professores e profissionais da educação. Nessa categoria, a Bíblia também se destaca: ela que lidera, por exemplo, a lista dos 11 títulos mais citados pelos educadores, com 22 menções – “Esperança” está na segunda posição, com 5 citações.

Sobre esses profissionais, há ainda uma contradição nos números: 84% deles garantem que são leitores, no entanto, metade dos entrevistados não citou nenhum título ao ser indagado a respeito de qual era o último livro que havia lido. Estranho tantos professores não recordarem o que leram recentemente, não?

Tendo em vista esse panorama, parece que a frase escolhida pelos organizadores da pesquisa para servir de epílogo à apresentação dos números está um tanto deslocada. Diz ela, que é de autoria do peruano Mario Vargas Llosa: “Um público comprometido com a leitura é crítico, rebelde, inquieto, pouco manipulável e não crê em lemas que, alguns, fazem passar por ideias”. Será mesmo que tantas pessoas adquirem essas características ao lerem a Bíblia. Ou será que, encarando a obra de maneira dogmática, tal leitura não acaba gerando um resultado exatamente oposto àquele desejado pelo Nobel de Literatura de 2010?

Livro sobre romance entre judia e palestino causa polêmica em Israel

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A escritora israelense Dorit Rabinyan posa com seu romance "Uma Barreira Viva" em sua casa, em Tel Aviv

A escritora israelense Dorit Rabinyan posa com seu romance “Uma Barreira Viva” em sua casa, em Tel Aviv

 

Elías L. Benarroch, no UOL

A apaixonada relação de amor de uma mulher judia com um homem palestino, epicentro do romance “Uma Barreira Viva”, da escritora Dorit Rabinyan, provocou polêmica em Israel após o Ministério da Educação do país tê-lo proibido por considerar que encoraja a “assimilação”.

Liat, israelense, e Jilmi, palestino, são os dois heróis de uma história fictícia que abala os alicerces da identidade israelense, e que gerou uma onda de protesto pelas redes sociais contra o ministro da Educação, Naftali Bennett, líder do partido nacionalista religioso Lar Judaico.

“Comprei hoje vários livros. Acredito que é o livro que atualmente deve ser entregue aos alunos e alunas”, escreveu em sua página do Facebook o chefe da oposição e líder trabalhista, Isaac Herzog, estimulando a população a comprá-lo.

Para Herzog, “o ato agressivo e desnecessário de censurar um livro baseando-se em uma interpretação linear de seu conteúdo é outro tijolo do muro do medo, da segregação e da cerração que está sendo erguido pelo governo (do primeiro-ministro israelense, Benjamín) Netanyahu”.

Centenas de atores, publicitários, escritores e intelectuais em geral, assim como políticos e educadores, alçaram energicamente sua voz contra o boicote que o Ministério impôs ao romance de Dorit Rabinyan, escritora e roteirista de conhecida trajetória local.

“Gader Jayá” (em hebraico), publicado há um ano e meio, é a história de uma tradutora israelense e um artista palestino que se apaixonam em Nova York e que veem como seu amor resiste a apagar-se quando ambos devem retornar a Tel Aviv e Ramala, e enfrentar a crua realidade política da região.

Ganhadora de vários prêmios locais e muito mais produtiva em sua juventude que na idade adulta, Rabinyan tinha passado quase despercebida com seu último livro até que vários professores de literatura hebraica pediram ao ministério para inclui-lo na lista de recomendados para os níveis avançados do ensino médio.

Os membros da comissão acadêmica pertinente lhe deram o selo de apto, mas dois altos funcionários do ministério consideraram que era inadequado e ordenaram que o título fosse apagado da lista, para o que contaram com o apoio de Bennett.

Um dos argumentos deste organismo é que é preciso preservar “a identidade e a herança dos estudantes em cada coletivo social”, ao mesmo tempo em que reforçava que as “relações íntimas entre judeus e não judeus ameaçam a separação de identidades”, de acordo com o jornal “Haaretz”.

Desde então as queixas e denúncias inundaram as redes sociais, com famosos comprando o livro e tirando fotos com ele.

“Minhas felicitações ao Ministério da Educação que conseguiu fazer de ‘Uma Barreira Viva’ um livro de leitura obrigatória”, disse o prefeito da liberal Tel Aviv, Ron Huldai, que classificou o romance como “fascinante”.

A principal biblioteca desta cidade pendurou um cartaz no qual anuncia a disponibilidade do livro sem pagamento algum, enquanto as principais livrarias faziam pedidos públicos à editora Am Oved para que lhes forneça mais exemplares, dada a demanda gerada pela polêmica.

Rabinyan, que entre 1995 e 1999 publicou com notável sucesso seus dois primeiros romances – traduzidos cada um a oito idiomas -, tem outro título entre os recomendados do Ministério da Educação, mas estava há 15 anos sem publicar e tudo o que tinha lançado desde então era um livro infantil.

À campanha de protesto se somaram escritores de renome internacional como A.B. Yehoshua (“Me sinto ultrajado”), Hayim Beer (“Daria a Bennett o título de membro honorário da Lehavá”, uma organização de extrema-direita) e Natan Zach (“O ministro da Educação é tolo e com os tolos não há nada o que fazer”).

No entanto, todos concordam com a autora sobre o fato de Bennett ter definitivamente dado um impulso comercial ao romance, agraciado este ano com um conhecido prêmio local de literatura.

“De repente me transformei em um assunto noticioso, (…) agora sou uma personalidade pública”, disse a escritora, com ironia, ao serviço de notícias “Ynet”.

Rabinyan comentou que seu romance não atenta contra a identidade judaica, mas unicamente “reflete a complexidade da sociedade israelense” e seus medos frente à assimilação.

“Acham que proibir o livro fará o problema desaparecer, mas o livro é só um espelho da sociedade. Sua grande força está precisamente na sensibilidade que demonstra”, afirmou a escritora israelense de origem iraniana.

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