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Médico prescreve livros para crianças atendidas em hospital do Itapoã, no DF

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Crianças podem escolher qual obra levar para casa no projeto Prescreva um Livro (Foto: Estêvão Rolim/Arquivo pessoal)

Indicação é escrita logo abaixo da prescrição de remédios. Maioria dos habitantes da região não lê.

Lucas Vidigal, no G1

Os pais das crianças atendidas na Unidade Básica de Saúde 3, no Itapoã, precisam adicionar doses de leituras aos filhos entre um remédio ou outro. O médico Estêvão Rolim, de 26 anos, tem sempre acrescentado alguma obra infantil na receita médica.

A iniciativa faz parte do projeto Prescreva um Livro, idealizado em 2016 para criar o hábito de leitura em uma região onde os habitantes leem menos do que a média do Distrito Federal (saiba mais abaixo).

“Além de introduzir a leitura desde muito cedo, a gente quer fortalecer os vínculos familiares. Atividades lúdicas como essa são fundamentais até para o tratamento de doenças crônicas”, comentou Rolim.

Prescrição do livro fica escrita logo abaixo dos remédios receitados (Foto: Estêvão Rolim/Arquivo pessoal)

Prescrever um livro – diferentemente dos remédios – não é tarefa para o médico. A própria criança procura a obra que quer ler, ou que o pai, mãe, avós ou irmãos leiam para ela.

A semelhança entre as prescrições está no compromisso. A criança precisa tomar os remédios em dia e deve, também, ler o livro e devolvê-lo na consulta seguinte.

Leitura em qualquer idade

Maria Lídia com o pai, Elton, segura o livro que ganhou do médico (Foto: Estêvão Rolim/Arquivo pessoal)

Crianças com idade escolar preferem livros infantis um pouquinho maiores. Mas aquelas que nem aprenderam as letras escolhem pelas figuras. Quanto mais colorido, maior o sucesso.

Gripada às vésperas de comemorar o primeiro aniversário, Maria Lídia Chagas amou as cores do livro “A menina dos olhos mágicos”, de Cecília Vasconcellos e com ilustrações de Edna Castro.

Pela pouca idade, Maria Lídia não deve prestar tanta atenção à história de uma menina que não sabe o que fazer com os novos olhos. Mas a mãe, Regimeire Santos Gomes, de 35 anos, faz questão de ler o livro diariamente para a filha. “Ela mesma folheia, olha as letrinhas e mostra as páginas mais bonitas”, diz.

Maioria dos adultos não lê

Moradora do Itapoã, Regimeire disse que mal tem tempo para ler as histórias românticas que ela mesma diz gostar. “Eu trabalho como encarregada de padaria no Lago Sul. Quando volto para casa, não dá tempo”, afirmou.

A mãe de Maria Lídia engrossa as estatísticas da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan) que mostram que 76,7% dos moradores do Itapoã não leem – percentual acima dos 63,5% que representam a população do DF inteiro sem hábito de leitura. Os dados, os mais recentes para a capital, são de 2013.

Em uma das regiões com menor renda per capita do DF, a falta de leitura faz diferença. “É um cenário de risco, onde muito adulto sofre por não ler. Eles crescem com dificuldades em reter informações básicas”, afirmou.

Além de atendimento médico, a Unidade Básica de Saúde serve como um ponto de apoio à comunidade da região.”

Por isso, Rolim pretende estender o Prescreva um Livro a outras unidades de saúde do DF. Além disso, o programa deve abarcar também adultos com doenças crônicas. Ainda não há, porém, data prevista para a ampliação do projeto, que é voluntário.

Livros indicados pelo médico Estêvão Rolim

As cores de Laurinha (Pedro Bandeira e Walter Ono)
Jacaré não manda carta – uma aventura a favor da despoluição dos rios (Julieta de Godoy Ladeira)
Minha irmã é diferente (Betty Ren Wright)
Galo de briga, de paz (Miriam Mermelstein)
Surpresa de Páscoa (Telma Guimarães)
Fábulas (Monteiro Lobato)
De mão em mão (Telma Guimarães)
Diário de uma mosca (Doreen Cronin)
A menina dos olhos mágicos (Cecília Vasconcellos)
Os caçadores de mel (Francesca Martin)

Por que procurar refúgio nos livros quando a realidade parece insuportável?

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Biblioterapia, livros como terapia ILUSTRAÇÃO DE DIEGO MIR.

Biblioterapia, livros como terapia
ILUSTRAÇÃO DE DIEGO MIR.

 

A biblioterapia pode ser um porto seguro, um alívio para nossa alma e um antídoto contra as adversidades

Marta Rebón, no El País

Foi abandonado, o mundo já não é maravilhoso. Como em um jet lag permanente, não consegue se conectar com a realidade que o envolve. Freud dizia que as palavras e a magia foram no princípio a mesma coisa. É por isso que continuamos procurando refúgio nos livros quando a vida nos prega uma brincadeira estúpida? Você, passageiro em momentos ruins, abre um romance e em suas páginas encontra algo parecido a um bote salva-vidas, um alívio balsâmico ao desassossego.

Os leitores vorazes sabem bem que as bibliotecas e as livrarias são uma panaceia eficaz à alma, como já se afirmava na Antiguidade. A ficção e a poesia, afirma a romancista Jeanette Winterson, são remédios que curam a ruptura que a realidade provoca em nossa imaginação. Como diz a máxima horaciana dulce et utile, nos ensinam prazerosamente. O eco das palavras, seu ritmo, e as imagens com uma grande carga emocional inundam e ativam os recônditos de nossa consciência. Quando lemos um texto literário inteligente e sedutor, o mundo se torna mais habitável.

Entre os benefícios de se ler ficção, o primeiro, por mais óbvio que pareça, é chegar a nos conhecer melhor. Proust, a quem hoje poucos negarão sua aptidão à ciência cognitiva, afirmava que cada leitor, quando lê, é o próprio leitor de si mesmo. Acrescentava que a obra do escritor não é mais do que uma espécie de instrumento ótico que este oferece ao outro para permitir-lhe discernir o que, sem esse livro, não seria capaz de ver por si mesmo. Entrar no universo dos romances é viver múltiplas vidas. Com um livro nas mãos se abre diante de nós um terreno para a experimentação de inúmeras circunstâncias. A biblioterapia é possível graças ao choque de identificação que se produz no leitor quando se vê refletido na história. Sentimos empatia por outras pessoas, outras formas de pensar. A leitura, além disso, é uma aventura intelectual trepidante. Para o Nobel de Literatura André Gide, ler um escritor não é só ter uma ideia do que ele diz, mas viajar com ele.

Ler nos coloca em um espaço intermediário: ao mesmo tempo em que deixamos em suspenso nosso eu, nos conecta com nossa essência mais íntima, um bem valioso para se manter certo equilíbrio nesses tempos de distração. A leitura, dizia María Zambrano, nos brinda com um silêncio que é um antídoto ao barulho que nos rodeia. Ela nos procura um estado prazeroso semelhante ao da meditação e nos traz os mesmos benefícios que o relaxamento profundo. Ao abrir um livro conquistamos novas perspectivas, pois a ficção divide com a vida sua essência ambígua e multifacetada. Uma vez que só podemos ler um número limitado de títulos, o que procuramos? Obras que reafirmem nossas crenças, ou façam com que essas balancem? Para Kafka era muito claro, só deveríamos nos adentrar nas obras que incomodam: “Um livro precisa ser um machado que abre um buraco no mar gelado de nosso interior”.

Resenhas de biblioterapia

— Remédios literários, de Ella Berthoud e Susan Elderkin. Um original e divertido livro sobre biblioterapia que fala do poder curativo da palavra escrita.

— A leitura como plegária, de Joan-Carles Mèlich (sem edição no Brasil). Uma reflexão sobre a leitura e a escrita em 262 fragmentos filosóficos.

— Por que ler os clássicos, de Italo Calvino. O escritor nos lembra que os clássicos nunca deixam de surpreender e resistir ao tempo.

— Poema, de Rafael Argullol (inédito no Brasil). Um breviário contemporâneo erudito e sensível de reflexões sobre a condição humana e o discorrer do mundo.

— Intérprete de males, de Jhumpa Lahiri. A escritora indaga sobre as barreiras que personagens de diferentes culturas devem saltar em sua busca da felicidade.

— A morte de Ivan Ilitch, de Leon Tolstói. Um luminoso romance que na realidade é um poema capaz de nos reconciliar com nossa condição mortal.

— Pequeno fracasso, de Gary Shteyngart. Depois de se mudar com sua família a Nova York, o garoto judeu russo Igor se transforma em Gary, um personagem que narra a experiência de viver dividido entre dois países que são inimigos.

— Doce Canção, de Leila Slimani. Disseca as circunstâncias de um crime e lança luz sobre as contradições da sociedade atual.

Jovens saudáveis usam remédios psiquiátricos para ir melhor em provas

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jovens

Giuliana Miranda, em Folha de S.Paulo

As novas drogas da vez entre universitários e jovens profissionais passam longe de shows e baladas. As chamadas “smart drugs” são consumidas em universidades, cursinhos e escritórios.

Para estudar por várias horas sem perder o foco, pessoas sem problemas psiquiátricos ou neurológicos estão tomando pílulas para transtorno de deficit de atenção, narcolepsia e até mal de Alzheimer.

A Folha entrevistou cinco jovens, com idades entre 25 e 30 anos, que usam psicoestimulantes sem ter necessidade terapêutica. Todos citaram o desejo de turbinar os estudos.

O médico Lucas (nome fictício), 28, diz que começou a tomar ritalina, remédio para transtorno de deficit de atenção, por causa das longas horas de trabalho e as obrigações de estudo para a residência em ortopedia. Ele diz que só assim conseguia se manter concentrado e acordado.

“Deixa você mais focado. Para mim, fez efeito, mas eu comecei a sofrer com muita ansiedade e, no fim, comecei a ter crises de pânico”, relata.

Gabriela, 22, diz que conseguiu anfetaminas com uma colega em um cursinho para o concurso de admissão à carreira diplomática. Ela diz que, tirando a perda de apetite, ela não sentiu muita diferença.

“Consigo ficar mais acordada, mas não sei se rendo mais. Tenho tomado só quando preciso dar conta de muita matéria. Não acho que estou dependente”, avalia.

DOPING

Par alguns especialistas, as “drogas da inteligência” estão para o mundo acadêmico como os esteroides anabolizantes estão para o esportivo: embora possa haver algum ganho de resultado, há risco de vários efeitos colaterais.

Existe também um dilema ético: quem usa essas substâncias antes de uma prova, como um concurso público, teria vantagem sobre seus concorrentes. “Para mim, isso é doping”, diz o psiquiatra Mario Louzã, coordenador do Programa de Deficit de Atenção e Hiperatividade no Adulto do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clinicas.

Gilda Paolliello, professora de psiquiatria do Ipemed, pensa igual: “É concorrência desleal”. Ela diz que, em seu consultório, já consegue perceber uma grande quantidade de pré-universitários, “concurseiros” e executivos que têm abusado das substâncias.

Ao contrário de outros países, o Brasil ainda não tem dados sobre o uso “cosmético” desses remédios. O que se sabe é que a venda de psicoestimulantes aumentou 25% nos últimos cinco anos.

Juntas, as drogas dessa classe –Ritalina e Ritalina La (Novartis), Venvanse (Shire), Concerta (Janssen Cilag) e Stavigile (Libbs)– venderam 2,16 milhões de caixas entre julho de 2014 e julho de 2015.

Acredita-se que a moda tenha começado entre estudantes americanos e profissionais de Wall Street. Uma pesquisa divulgada em 2014 indica que quase um em cada cinco estudantes da “Ivy League” –grupo de universidades de elite que inclui Harvard– usaram algum tipo de “smart drug” durante o período letivo.

Em um artigo no “Journal of Medical Ethics”, Vince Cakic, da Universidade de Sidney, afirma que, no futuro, pode ser até que estudantes tenham de se submeter a exames de urina.

EFICÁCIA E RISCOS

A eficácia das “smart drugs” é polêmica. Os estudos, até agora, não têm resultados conclusivos: alguns indicam certos ganhos, outros mostram que não há vantagens para pessoas saudáveis.

Um dos exemplos é o modafinil, comercializado no Brasil como Stavigile. Seu uso registrado na Anvisa é para tratamento de narcolepsia, mas ela é muito popular entre os estudantes. Enquanto um trabalho de 2012 indicou que a modafinil conseguiu melhorar a performance cognitiva de médicos que estavam sem dormir, um trabalho de 2014 mostrou um resultado contrário; estudantes ficaram mais lentos para tomar decisões.

Especialistas alertam principalmente para a falta de estudos que indiquem possíveis danos do uso em longo prazo dessas drogas por quem não tem indicação médica.

Na internet, é fácil ter acesso a blogs e fóruns em que estudantes discutem o tema e ensinam estratégias de uso.

Embora sejam de uso controlado, os estudantes têm acesso relativamente fácil às pílulas no mercado paralelo, sobretudo em redes sociais.

“Os blogs vendem um pouco a ilusão de que você vai ficar muito inteligente e aprender tudo. Mesmo para uma pessoa sadia o aumento de concentração não é assim tão grande. Se a sua concentração já está em 100%, não vai para 200%”, explica Louzã.

Profissionais alertam também para efeitos negativos após o uso prolongado.

“Esses psicoestimulantes podem levar tanto à dependência física quanto à psíquica. Ou seja, a pessoa só consegue se sentir segura se usar” diz Gilda Paolliello.”É bem comum ter insônia e ansiedade. Além disso, o uso prolongado pode levar a problemas cardíacos, arritmia.”

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