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Bons professores fazem alunos ganhar mais

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Doutor em economia pela universidade Harvard cruzou notas de alunos com dados de imposto de renda e estimou quanto um bom profissional de ensino contribui para aumentar a renda futura dos estudantes

Felipe Machado na Veja

Jonah Rockoff, de 41 anos, sempre quis descobrir qual a real diferença que um bom professor faz na vida de um aluno. Em 2004, o professor de finanças e economia da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, publicou um artigo sobre o tema, mas sentiu que algo faltava: era preciso medir não apenas o impacto sobre as notas, mas o sucesso financeiro dos estudantes orientados por bons profissionais de ensino. Rockoff, doutor em Economia por Harvard, uniu-se aos pesquisadores Raj Chetty e John Friedman, que trabalhavam com dados do Tesouro americano. Dessa forma, pôde cruzar as notas de milhões de alunos com as informações do imposto de renda. A conclusão é que não apenas há impacto como ele pode ser medido: a simples troca, por um ano, de um professor ruim por um mediano adicionaria 250.000 dólares aos salários que uma turma de 28 alunos de ensino fundamental ganharia ao longo de sua futura vida profissional. “A conclusão desses dados não vale apenas para os Estados Unidos. O raciocínio é o mesmo para outras realidades, inclusive o Brasil”, diz. Rockoff falou ao site de VEJA.

O estudo analisa o papel de professores no aumento da nota dos alunos em matemática e inglês. A diferença entre um bom profissional de ensino e um ruim é realmente significativa? Professores que melhoram o desempenho de seus alunos em matemática e inglês afetam positivamente a vida de seus alunos não apenas com o aumento das notas, mas também em outros aspectos, como no acesso à faculdade ou mesmo no aumento dos salários que os estudantes receberão quando entrarem no mercado de trabalho. Basta substituir um professor do ensino fundamental que está entre os 5% piores – de acordo com a média das notas de seus alunos – por um com desempenho mediano, durante um ano, para que, ao longo de suas vidas profissionais, esses estudantes ganhem, somados, 250.000 dólares a mais do que ganhariam se tivesse continuado com o professor ruim.

Pode-se creditar esse aumento exclusivamente a essa troca de professor? É possível que isso ocorra tanto porque matemática e inglês sejam valiosos no mercado de trabalho como porque esses professores sejam bons nessas disciplinas, mas também em outros aspectos que não medimos. Mas, no longo prazo, o que observamos foi que professores que estão melhorando as realizações nessas disciplinas estão também melhorando os resultados para esses alunos no mercado de trabalho. Em outras palavras: professores que conseguem elevar essas notas podem também ser bons em melhorar outras habilidades dos alunos.

Como foi possível definir a influência do professor, já que uma sala tem vários alunos e eles seguem rumos diferentes depois que saem da escola? Raj Chetty e John Friedman, meus colegas nessa pesquisa, são parte de um programa que está trabalhando com dados do Tesouro americano. Isso nos deu acesso a registros de imposto de renda. É possível identificar os estudantes de acordo dados como nome, data de nascimento e local em que vivem. Utilizamos informações de quase 2 milhões de pessoas. Foi possível acompanhar os registros dos indivíduos desde a infância até a vida adulta. Essas pessoas estavam na escola primária na década de 1990 e hoje estão no mercado de trabalho. O cruzamento de tanta informação permitiu ter um retrato bastante preciso.

Como foi possível fazer esse tipo de acompanhamento detalhado? Tivemos a felicidade de encontrar dados relacionados a alunos e professores que iam até a década de 1980. Na maior parte do mundo, essa coleta por um período mais longo de tempo não existia até recentemente, mesmo em países desenvolvidos. Medir o impacto de professores sobre os alunos no curto prazo não é novidade. Isso tem sido feito em muitos lugares, incluindo países emergentes. O que as pessoas não tinham feito era seguir a trajetória dos alunos desde a infância até a vida adulta.

Esse trabalho analisa o futuro profissional de alunos de um país rico, em uma cidade rica. É possível pensar que o haveria resultados semelhantes em locais com uma realidade diferente, como o Brasil? Nosso estudo considerou informações sobre pessoas de Nova York. A maior parte dos alunos de escolas públicas da cidade, em torno de 85%, é pobre. Quando se pensa em Nova York, as pessoas lembram do Empire State Building ou da ilha de Manhattan, mas a maioria dos moradores da cidade não está nessas áreas. Eles vivem em bairros como Brooklyn, Bronx e Queens e em partes ao norte de Manhattan, como o Harlem. Sim, há áreas de Nova York que são extremamente ricas, mas há centenas de milhares de crianças vivendo na pobreza. Não acho que temos o nível de pobreza de uma favela de São Paulo, por exemplo, mas muitas áreas são comparáveis. Assim, a conclusão desses dados não vale apenas para os Estados Unidos. O raciocínio é o mesmo para outras realidades, inclusive o Brasil.

“Professores que conseguem elevar as notas podem também ser bons em melhorar outras habilidades dos alunos”

O Brasil tem um teste anual padronizado, o Enem, para alunos que estão concluindo o ensino médio. Esse tipo de exame poderia ser usado? Eu não vejo como usar apenas um teste final de uma maneira muito precisa para avaliar professores. Nosso estudo, como muitos outros do tipo, é baseado em exames anuais. Para avaliar alguém que ensina na quarta série, por exemplo, temos notas dos exames no final do terceiro ano. Isso é muito importante porque os alunos chegam ao início do ano escolar com diferentes níveis de preparação e conhecimentos e sob influência da qualidade da educação que tiveram anteriormente. Depende muito dos recursos que eles têm fora da escola: o nível de escolaridade dos pais, o acesso a bens, o dinheiro disponível para se manter e para comprar livros e outros materiais de aprendizado. É necessário um teste de alta qualidade anual para fazer este tipo de trabalho.

Na prática, como um bom sistema de avaliação de desempenho de professor pode ser feito? Um exemplo aqui nos Estados Unidos é o de Washington, que tem um dos sistemas mais avançados do país. Nele, é usada uma análise estatística com base em testes padronizados para um grupo dos professores. Cerca de 20% dos professores passam por esse processo. Para os demais, eles se baseiam em avaliações das classes. São estabelecidas metas individualizadas para os alunos de cada um no início do ano escolar, com a aprovação do diretor da escola, administradores e de outros agentes. Em seguida, ao fim do ano escolar, avalia-se com cuidado os alunos para ver se eles as atingiram. Os professores recebem uma pontuação de acordo com o desempenho. Em Washington, tenta-se abordar a questão da qualidade do professor usando várias avaliações, e não depender apenas de um teste padronizado.

E como esses resultados são usados? Se os professores vão muito mal, perdem o emprego. E se vão muito bem, podem obter aumentos realmente grandes em seus salários. Usam-se os resultados como uma ferramenta que serve também como um plano de carreira para os professores.

Como esse sistema gera impacto na qualidade do ensino? A possibilidade de ganhar um aumento serve como incentivo para trabalhar duro e melhorar. E o trabalho também muda, com aumento de responsabilidades. Além disso, quem está no topo ajuda os colegas e age como “treinador” para os novos professores. Em muitas partes do mundo, o ensino não funciona dessa forma. O professor faz o mesmo trabalho todo ano, não evolui. Em Washington, tentaram quebrar esse modelo e fazer com que seu trabalho, seu status e suas responsabilidades mudem com o tempo. E, claro, se você muito mal, será demitido. Um ano com um desempenho muito ruim e você está automaticamente fora.

Existe outro fator além da possibilidade de progredir na carreira? Sim. Esse sistema acaba atraindo para o ensino pessoas que querem trabalhar duro, que sabem que o esforço será recompensado com ganhos expressivos nos salários. Pessoas ambiciosas, trabalhadoras e talentosas são um ganho para as crianças e sua comunidade. Esses profissionais têm muitas outras oportunidades para ganhar dinheiro. Se o ensino não lhes oferecer a oportunidade de ser bem-sucedido financeiramente, elas vão optar por outra carreira.

E tem funcionado? Em muitos critérios, o nível dos alunos melhorou bastante. É difícil provar que o sistema é o principal fator. Houve outras mudanças. De qualquer forma, ocorreram avanços que não se limitaram à melhora das notas. O governo teve sucesso no trabalho com o sindicato dos professores, que inicialmente era contra o sistema. Mas, nos últimos anos, as discussões para a tomada de decisões sobre como fazer avaliações e promoções evoluíram muito.

Qual seria o caminho para que um país comece a avaliar seus professores? Diferentes países têm diferentes problemas e diferentes pontos de partida. Uma coisa muito importante é ter um processo para medir a aprendizagem dos alunos. Meu palpite é que o tipo de exame (Enem) que o Brasil tem não daria conta dessa avaliação sozinho. Se há informações sobre onde os alunos estão, o que eles sabem e quanto aprendem, todos podem tomar melhores decisões. Pais podem escolher para qual escola enviar seus filhos e os professores enxergam melhor quais crianças precisam de mais atenção e ajuda – e o governo tem uma noção mais clara sobre quais as escolas e professores estão fazendo um bom trabalho.

Foto Divulgação

Renda dos alunos influencia desempenho de escolas no Enem

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Levantamento compara características comuns de colégios públicos e privados

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Publicado em O Globo

No próximo fim de semana, 7,7 milhões de jovens farão o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) na esperança de conquistar uma vaga na universidade. O roteiro, repetido há anos, tem etapas bem definidas. Quando o ranking por escola é divulgado no ano seguinte, as instituições privadas correm para divulgar seu desempenho, enquanto os conhecidos problemas estruturais das públicas reforçam a percepção geral. Mas quem paga pelo ensino tem sempre melhores notas? Nem sempre. É possível encontrar privadas com cara de públicas e públicas com boas médias no concurso. A explicação para isso é que há dentro de cada sistema um abismo que separa as melhores das piores escolas. E embora sejam redes distintas, os fatores responsáveis por essa distância tendem a ser idênticos para públicas e privadas.

Com base nos resultados do Enem de 2014, o Núcleo de Dados do GLOBO comparou características das 500 melhores e das 500 piores escolas de cada rede. Pelos resultados, o abismo entre os dois grupos de escolas podem ser explicados, tanto na rede privada quanto na pública (estadual), pela renda das famílias dos alunos, formação dos professores e taxa de abandono dos estudantes.

Os dados evidenciam que a principal característica que diferencia o melhor e o pior desempenho no Enem continua sendo a característica socioeconômica do aluno. Cerca de 99% das escolas privadas no “Top 500” registram níveis socieconômicos alto (7,4%) e muito alto (91,7%). Entre as piores, apenas 28,42% estão nos dois níveis socieconômicos mais altos.

O PESO DOS BENS CULTURAIS

Já entre as “Top 500” das públicas, o comportamento é semelhante. Entre as melhores escolas, aproximadamente 53% registram níveis socieconômicos alto (51%) e muito alto (2,87%). No outro extremo, 46% das escolas com baixo desempenho registram classificação socioeconômica baixa e muito baixa. Na visão de especialistas, a variável socieconômica afeta a oportunidade de os jovens terem acesso a uma variedade de bens culturais que ajudam e estimulam o processo educacional.

O peso do fator socieconômico é tão forte que, quando comparadas as médias das escolas públicas e privadas na faixa com renda muito baixa, os valores ficam bastante próximos: 453 (estadual) e 471 (privada). É como se a rede de ensino praticamente não fizesse diferença, mas, sim, a origem dos estudantes.

— Diversos estudos têm demonstrado que cerca de 70% do desempenho das crianças têm relação com o que elas trazem de casa, e isto depende dos fatores socioeconômicos. Os dados analisados trazem uma mensagem importante para aqueles pais que lutam para pagar uma escola privada: ela pode não corresponder ao desempenho esperado — observa Alejandra Meraz Velasco, coordenadora-geral do Todos Pela Educação.

Para Angela Soligo, professora da Faculdade de Educação da Unicamp, existe um processo de convergência que ajuda a explicar o interesse dos pais pelas escolas privadas, e destas pelas famílias com melhor renda.

— De fato, temos um histórico de deterioração da escola pública e de favorecimento da rede privada, mas será que toda escola privada é boa? Nem sempre. Há diversos fatores em jogo. Quem tem acesso ao ensino privado? Quem tem poder aquisitivo para isso, como as classes média e alta. As escolas que hoje apresentam um bom desempenho são aquelas que cobram mais caro e recebem estudantes privilegiados, ou seja, que tiveram acesso a um conjunto de bens culturais importantes por meio dos pais. Então, temos uma convergência. Os pais valorizam esse conjunto de bens culturais e as escolas. Estas, como também valorizam esses bens culturais, buscam esses alunos.

Quando observados outros indicadores do Enem 2014, como a taxa de formação adequada dos docentes — isto é, se eles ministram disciplinas para as quais foram formados —, os comportamentos também se assemelham e explicam o distanciamento entre escolas com alto e com baixo desempenho. Entre as “Top 500” das duas redes, a taxa de formação adequada é de 71%, na privada, e 66%, na pública. Entre as unidades com piores desempenhos, a taxa cai para 46%, nas privadas, e 45%, nas públicas. Alejandra considera que a comparação entre as redes indica que os professores das escolas privadas têm recebido mais estímulo à formação continuada:

— É curioso saber que, mesmo quando os percentuais de professores com formação adequada são tão próximos nas duas redes, o desempenho da pública não acompanha o da privada. Esse é um dado que mereceria um estudo mais profundo. Talvez as escolas particulares estejam oferecendo aos professores outros elementos importantes para a sua formação continuada, e isso pode estar fazendo diferença no desempenho geral do colégio.

“HÁ MUITO GATO POR LEBRE”

Para o professor da USP José Marcelino Rezende Pinto, o fator socioeconômico ainda é o maior determinante que separa os dois grupos. Mas ele considera que o Brasil ainda não compreendeu totalmente o peso da formação dos docentes no desempenho dos alunos:

— O setor privado é muito heterogêneo, mas o senso comum, por causa dos aprovados no vestibular, é que todas as escolas particulares são ótimas. Há muito gato por lebre. As públicas federais, por exemplo, sempre tiveram um desempenho excelente no Enem e no vestibular. Quanto à taxa de formação dos professores, assusta a quantidade sem formação adequada no setor privado. Mas ainda não temos dados suficientes para compreender qual o peso da formação adequada do professor nesse processo. Teríamos que analisar, entre outros fatores, a instituição em que ele se formou, sua experiência e outros cursos feitos. Ainda estamos no início da discussão sobre a qualidade dos professores.

Um outro fator influente no abismo do desempenho escolar, que também tem comportamento semelhante nas duas redes, se refere à taxa de abandono dos alunos. Entre as privadas, a evasão é 11 vezes maior nas escolas com baixo desempenho no Enem, e na rede pública, cinco vezes maior. Ou seja, quando a taxa de abandono dos alunos cai, as escolas, sejam públicas ou privadas, tendem a apresentar um melhor desempenho no Enem.

Na avaliação de Angela Soligo, da Unicamp, a preocupação de pais e escolas com os rankings do Enem tem dificultado a discussão sobre o que seria uma educação de qualidade ou mesmo como poderia ser classificada uma boa escola:

— Há princípios que formam o caráter do cidadão que as escolas e as famílias deixam de cuidar porque estão preocupadas com rankings. Acho que é hora de parar e pensarmos melhor essa ideia. Ser primeiro no ranking não é sinônimo de boa escola.

Biógrafo de Clarice Lispector vai doar renda de novo livro para Movimento Ocupe Estelita

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Ao divulgar e-book com críticas ao urbanismo brasileiro e a Niemeyer, Benjamin Moser diz que projeto imobiliário Novo Recife é ‘declaração de ódio’ ao Brasil

Benjamin Moser: Em defesa dos opositores ao projeto imobiliário Novo Recife - Divulgação/Luiz Maximiano

Benjamin Moser: Em defesa dos opositores ao projeto imobiliário Novo Recife – Divulgação/Luiz Maximiano

Maurício Meireles em O Globo

RIO – Benjamin Moser vem ao Brasil com frequência há 20 anos. Quando chegou aqui pela primeira vez, o país dava os primeiros passos para fugir da espiral inflacionária em que se metera. De lá para cá, o escritor e historiador americano viu o país crescer, crescer, crescer — e ficar mais feio, segundo sua concepção. Os culpados, diz ele, são os espigões, shoppings e prédios monumentais, frutos de uma noção de modernidade surgida nos anos 1920 e, mais tarde, encarnada na construção de Brasília.

Por isso, Moser — conhecido no Brasil como biógrafo de Clarice Lispector — se solidarizou com o Ocupe Estelita. O movimento de ativistas pernambucanos se opõe à construção de 12 torres residenciais no Cais José Estelita, o chamado projeto Novo Recife, na capital do estado. O escritor lança, depois de amanhã, pela editora recifense Cesárea, por R$ 3, o e-book “Cemitério da esperança”. O dinheiro arrecadado com o livro, que pode ser comprado no site www.cesarea.com.br, será revertido para o grupo de ativistas, que desde junho, após a reintegração de posse do terreno, organiza uma série de eventos e manifestações na cidade.

— Eles, como eu, querem um país que se respeite mais. Quando vejo esse projeto Novo Recife, enxergo um país que se odeia. Se as pessoas se levantarem, muito se pode fazer. As construtoras contam com a preguiça e a desmoralização do povo. O Ocupe Estelita mostra que os cidadãos querem ter voz — afirma Moser.

“Cemitério da esperança” é um ensaio sobre o imaginário brasileiro do progresso e sua relação com as reformas urbanas que aconteceram no país. Para Moser, os Estados Unidos são um país com o imaginário marcado pelo medo do declínio; já o Brasil, pelo desejo de encontrar um futuro prometido e abandonar um atraso histórico.

— Usaram esse conceito de modernidade, que data dos anos 1920, em várias cidades do mundo, mas ele falhou, porque era uma coisa horrível, que destruía as comunidades. No Brasil, porém, continuou. É uma história de ataque às cidades, mesmo as mais lindas, como Rio ou Recife — diz o escritor. — Falo no meu livrinho que a arquitetura monumental sempre trai seus propósitos. Projetos como o Novo Recife tentam ser símbolos de riqueza, mas são monumentos à pobreza, ao mau gosto espantoso que impera no urbanismo.

Embora fale principalmente da construção de Brasília, Moser parte do desejo de progresso brasileiro para analisar as principais reformas urbanas do país, desde a construção da Avenida Presidente Vargas, no Rio. Para o intelectual americano, esse tipo de reforma tentou, historicamente, apagar o passado, excluindo as pessoas, que eram removidas para dar lugar a tais empreendimentos.

— Não é um desejo de acabar com a pobreza. É um desejo de deixá-la menos visível. Um sonho utópico de um país que possa renascer. Lembra alguém que, no réveillon, jura que nunca mais vai mentir ou beber ou transar mas que, no dia 3 de janeiro, se dá conta de que continua a mesma coisa.

Críticas a Brasília

No “livrinho”, as críticas sobram para o principal nome da arquitetura brasileira — Oscar Niemeyer — e são fruto da decepção do escritor com Brasília. Para ele, a construção da capital encarna o mesmo desejo de reverter o atraso brasileiro de outras reformas urbanas.

— A arquitetura dele (Niemeyer) é uma ofensa ao Brasil. Só ele poderia ter feito um parque sem nenhuma árvore, como fez no Recife. O concreto de Brasília, ou do Recife, é uma declaração de ódio ao país — afirma.

O escritor americano vê na ânsia pela arquitetura monumental o desejo de poder dos políticos — daí sua relação próxima com regimes autoritários, diz.

— O poderoso no Brasil tem medo da senzala, da multidão. Essas obras são a exaltação do Estado. Assim, a Avenida Presidente Vargas representa o fascismo brasileiro. As construções em Brasília refletem a visão de um poder ditatorial. Tanto que os militares achavam a cidade linda.

dica do Rodrigo Leonardo Correa

‘Venci’, diz ex-catadora de latinhas do DF que passou em concurso do TJ

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Marilene Lopes trocou renda mensal de R$ 50 por salário de R$ 7 mil.
‘Passei um ano com uma só calcinha’, lembra a hoje técnica judiciária.

Raquel Morais, no G1

Uma catadora de latinhas do Distrito Federal conseguiu passar em um concurso para o Tribunal de Justiça estudando apenas 25 dias durante período de repouso por causa de uma cirurgia. Ela trocou uma renda mensal de R$ 50 por um salário de R$ 7 mil. “Foi muito difícil. Hoje, contar parece que foi fácil, mas eu venci”, diz. Agora, ela diz que pensa em estudar direito.

Ex-catadora de latinhas Marilene Lopes e os filhos em frente ao barraco em que moravam em uma invasão em Brazlândia, no Distrito Federal (Foto: Marilene Lopes/Arquivo pessoal)

Ex-catadora de latinhas Marilene Lopes e os filhos em frente ao barraco em que moravam em uma invasão em Brazlândia, no Distrito Federal (Foto: Marilene Lopes/Arquivo pessoal)

Sem dinheiro nem para comprar gás e obrigada a cozinhar com gravetos, Marilene Lopes viu a vida dela e a da família mudar em 2001, depois de ler na capa de um jornal a abertura das inscrições para o concurso do Tribunal de Justiça do Distrito Federal.

Ela, que até então ganhava R$ 50 por mês catando latinhas em Brazlândia, a cerca de 30 quilômetros de Brasília, decidiu usar os 25 dias de repouso da cirurgia de correção do lábio leporino para estudar com as irmãs, que tinham a apostila da seleção. Apenas Marilene foi aprovada.

Nunca tinha nem fruta para comer. Eu me lembro que passei um ano com uma só calcinha. Tomava banho, lavava e dormia sem, até secar, para vestir no outro dia. Roupas, sapato, bicicleta [os filhos puderam ter depois da aprovação no concurso]. Nunca tive uma bicicleta”
Marilene Lopes, ex-catadora de latinhas que hoje trabalha no TJDF

“Minha mãe disse que, se eu fosse operar, ela cuidava dos meninos, então fui para a casa dela. Minha mãe comprou uma apostila para as minhas irmãs, aí dei a ideia de formarmos um grupo de estudo. Íamos de 8h às 12h, 14h às 18h e de 19h às 23h30. Depois eu seguia sozinha até as 2h”, explica.

O esforço de quase 12 anos atrás ainda tem lugar especial na memória da família. Na época, eles moravam em uma invasão em Brazlândia.

Marilene já havia sido agente de saúde e doméstica, mas perdeu o emprego por causa das vezes em que faltou para cuidar das crianças. Como os meninos eram impedidos de entrar na creche se estivessem com os pés sujos, ela comprou um carrinho de mão para levá-los e aproveitou para unir o útil ao agradável: na volta, catava as latinhas de alumínio.

Segundo ela, a situação durou um ano e meio, e na época a família passava muita fome. “Nunca tinha nem fruta para comer. Eu me lembro que passei um ano com uma só calcinha. Tomava banho, lavava e dormia sem, até secar, para vestir no outro dia. Roupas, sapato, bicicleta [os filhos puderam ter depois da aprovação no concurso]. Nunca tive uma bicicleta”, conta.

Mesmo para se inscrever na prova Marilene, que é técnica em enfermagem e em administração, encontrou dificuldades. Ela lembra ter pedido R$ 5 a cada amigo e ter chegado à agência bancária dez minutos antes do fechamento, no último dia do pagamento. E o resultado foi informado por uma das irmãs, que leu o nome dela no jornal.

“Tinha medo [de não passar] e ao mesmo tempo ficava confiante. Sabia que se me dedicasse bem eu passaria, só precisava de uma vaga”, diz. “Dei uma flutuada ao ver o resultado. Pedi até para minha irmã me beliscar.”

Ganhando atualmente R$ 7 mil, a técnica judiciária garante que não tem vergonha do passado e que depois de formar os cinco filhos pretende ingressar na faculdade de direito. “Mesmo quando minhas colegas passavam por mim com seus carros e riam ao me ver catando latinhas com o meu carrinho de mão eu não sentia vergonha. E meus filhos têm muito orgulho de mim, da nossa luta. Eles querem seguir meu exemplo.”

Marilene já passou pelo Juizado Especial de Competência Geral, 2ª Vara Cível, Órfãos e Sucessões de Sobradinho, 2ª Vara Criminal de Ceilândia, 12ª Vara Cível de Brasília e Contadoria. A trajetória dela inspira os colegas. Por e-mail, o primeiro chefe, o analista Josias D’Olival Junior, é só elogios. “A sua história de vida, a sua garra e o seu caráter nos tocavam e nos inspiravam profundamente.”

Servidora do Tribunal de Justiça do Distrito Federal Marilene Lopes, que foi catadora de latinhas (Foto: Marilene Lopes/Arquivo pessoal)

Servidora do Tribunal de Justiça do Distrito Federal
Marilene Lopes, que foi catadora de latinhas
(Foto: Marilene Lopes/Arquivo pessoal)

A técnica afirma ainda que não se arrepende de nada do que passou, nem mesmo de ter tido cinco filhos – como diz terem comentado amigos. “Ainda hoje choro quando me lembro de tudo. Eu não tinha gás e nem comida e não ia falar pra minha mãe. Se falasse, ela me ajudaria, mas achava um abuso. Além de ficar 25 dias na casa dela, comendo e bebendo sem ajudar nas despesas, ainda ia pedir compras ou o dinheiro para o gás? Ah, não. Então assim, quando passei, foi como se Deus me falasse ‘calma, o deserto acabou’.”

Da época de catar latinhas, Marilene diz que mantém ainda a qualidade de ser supereconômica. Ela afirma que não junta mais alumínio por não encontrá-los mais na rua. “As pessoas descobriram o valor, descobriram que dá para vender e juntar dinheiro”. Já as irmãs com quem estudou, uma se formou em jornalismo em 2011 e outra passou quatro anos depois no concurso do TJ de Minas Gerais, e foi lotada em Paracatu.

Dificuldades

O primeiro problema enfrentado por Marilene veio na posse do concurso. A cerimônia ocorreu três dias após o nascimento do quinto filho, em um parto complicado. A médica não queria liberá-la para a prova, mas só consentiu com a garantia de que ela voltaria até 18h30. Por causa do trânsito, a catadora se atrasou em uma hora.

“A médica chamou a polícia dizendo que eu tinha abandonado meu filho. É que eu estava de alta, mas o bebê não, e ele precisava tomar leite no berçário enquanto eu estivesse fora”, lembra. “A enfermeira ligou para a polícia do hospital e explicou a situação e aí pararam de me procurar. A médica me deixou com o problema e foi embora, no término do plantão dela.”

Resolvida a situação, Marilene e a família viveram bem até 2003, quando o marido resolveu sair de casa. O homem, que já havia sido preso por porte ilegal de arma, havia “se deslumbrado” com a situação econômica da mulher. A casa e o carro comprados a partir do salário do tribunal precisaram ser divididos.

Atualmente, ela mora com os filhos na casa de um amigo, na Estrutural, enquanto aguarda a entrega de um apartamento de três quartos em Águas Claras. Marilene tem uma moto e, junto com uma das irmãs, está pagando um consórcio para comprar um carro zero.

FGV é a melhor universidade brasileira na formação de CEOs, segundo ranking internacional

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Instituição ficou com a 35ª posição em listagem de revista britânica
A UFRJ também aparece no levantamento com a 62ª posição

FGV formou profissionais que atuam entre as principais empresas do mundo Ana Branco / AGÊNCIA O GLOBO

FGV formou profissionais que atuam entre as principais empresas do mundo Ana Branco / AGÊNCIA O GLOBO

Publicado em O Globo

RIO – A Fundação Getúlio Vargas (FGV) é a melhor instituição brasileira na formação de CEOs, segundo ranking internacional divulgado pela revista britância Times Higher Education (THE). A outra representante do país a aparecer na lista é a UFRJ, que ficou com a 62ª posição. Intitulado “Índice Alma Mater: Executivos Globais”, o levantamento foi publicado na noite desta quarta-feira e traz a Universidade de Harvard na primeira posição (veja a lista completa aqui).

Para produzir o ranking, a THE partiu de uma listagem com as 500 maiores empresas de 2013, produzida pela revista Fortune Global. Na sequência, por meio da análise do currículo dos CEOs destas corporações, a publicação pode catalogar as 100 instituições de ensino mais recorrentes na formação destes profissionais.

A FGV concedeu diplomas a três CEOs que atuam em empresas que estão na lista da Fortune Global. Juntas, essas corporações reúnem uma renda de US$ 222,9 bilhões. Já a UFRJ contribuiu com a formação de dois profissionais com atuação nestas companhias que juntas reúnem US$ 183.9 bilhões.

Veja as 10 primeiras posições:
1 – Universidade Harvard (EUA)
2 – Universidade de Tóquio (Japão)
3 – Universidade Stanford (EUA)
4 – Escola Politécnica (França)
5 – HEC Paris (França)
6 – École Nationale d’Administration (França)
7 – Universidade da Pensilvânia (EUA)
8 – Instituto de Tecnologia de Massachusetts (EUA)
9 – Universidade Keio (Japão)
10 -Universidade Nacional de Seul (Coreia do Sul)

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